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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Muitos poetas, escritores, artistas, criticam a política - como se fosse uma atividade exclusiva de mafiosos - mas agem igualmente como mafiosos. Trabalham nos bastidores para conseguir poder na grande imprensa, nas grandes editoras, nas universidades e até em pequenas publicações. Evitam o debate público e trabalham na surdina para isolar outros artistas, lançá-los na marginalidade, torná-los invisíveis. Em quarenta anos de atividade artística já vi muitos grupinhos assim, agindo como pequenas organizações mafiosas. Esses estão longe, muito longe, do verdadeiro caldeirão artístico, que é uma comida suculenta, feita por muitos, para alimentar a todos.(postagem lúcida do Ademir Assunção . Coloco aos amigos pra reflexão)

sábado, 4 de março de 2017

UM OGRO NA LOJA DE CRISTAIS


Feio como um filhote de cruz credo
Faminto errante como um retirante
Baixinho, narigudo e invocado
Sinuqueiro, treteiro e manguaceiro
Tentou vaga no corpo de bombeiro
Pensou talvez carreira de advogado
Quem sabe um posto de almirante
Pagou mais mico que macaco-prego
No zoológico maluco deste mundo
Foi sempre perdedor, um estrupício
Nunca entendeu os jogos virtuais
Cansou de ser chamado vagabundo
Jogou no lixo as tralhas do hospício
E entrou com tudo na loja de cristais

Ademir Assunção

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Escrito a Sangue


ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face da fera
espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina do vazio
frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço

Ademir Assunção

domingo, 14 de dezembro de 2014



Eu gosto de conversar com meus amigos. Eu gosto de trocar ideias. Ideias não se compra. Ideias estão aí para serem trocadas. Somos espelhos uns dos outros. Algo que não está muito claro para alguém, de repente, numa boa conversa, se torna claro. E alguns amigos acabam achando que estou pessimista. Não acho. Estou procurando me manter atento. Tão atento quanto possível. E tenho achado que as coisas estão bem estranhas. Há comportamentos estranhos. Há comportamentos indefensáveis vindo a tona como se fossem normais. Não são. Não é normal pensar que alguns podem pisar em outros. Não é normal que só alguns possam usufruir do melhor que a humanidade já criou, enquanto a maioria deve se contentar com o lixo. Todos nós nascemos ignorantes. Nascemos sem saber falar, sem saber andar, sem saber sequer comer. E vamos aprendendo. Temos uma vida só para aprender. Não é possível passar a vida inteira na ignorância. Por isso me revolto contra aqueles que trabalham dia após dia para manter a maioria na ignorância. Isso não é normal.

Ademir Assunção

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O AMOR SE VAI PELA MESMA VIA QUE VEM


Uma coisa invisível está perecendo no mundo,
um amor não maior que uma música.
(Jorge Luis Borges)
1º movimento
tudo muito rápido toda
tímida capto todo
torto rapto
um breve cintilar de lábios
da cor escarlate do mesmo esmalte
das unhas que laceravam a pele do peito enquanto
os olhos diziam que eu era tudo
e que nada nos separaria
2º movimento
toda boca
úmida toda loba
cínica toda mímica mínima
todo espanto tanto encanto pra tudo
terminar em nada
esse nada que nada sara e me atira
outra vez no fundo do poço enquanto
estrelas migram lá fora

Ademir Assunção


(poema escrito em dezembro de 1999)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

UM VELHO BLUES



As cicatrizes ainda estão ardendo nos pulsos
Os cortes de gilete eu lavo com uísque
Levo na alma um velho blues sujo e triste
Ninguém vai ficar ao meu lado esta noite

Só eu, meu uísque e meu cigarro, garota
Somos cavaleiros no meio da tempestade
A chuva está molhando o vestido das putas
Os olhos cansados de velhas disputas

AA (2008)


sábado, 3 de maio de 2014

O GRITO

Ademir Assunção

céu sangue, azuis de gases, instável
gravura — terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:
motivo algum — nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais — diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilás) — a bomba explode
nas entranhas:
e é isso que faz
a paisagem trêmula


Poema do livro A Voz do Ventríloquo (2012)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

ARMADURA EM CARNE MOLE




deus me salve da idade madura,

e me sirva o que passa, a brisa

que perdura, gesto escrito com

brasa, pintura além da moldura,

deus me salve, não me serve, o

amarelo que logo apodrece, a boca

coberta de musgo, não é isso

que almejo, os cravos de Cristo, o fraco

pulso do amortecido, persigo

o que persiste, no ontem,

no quando, no não-sei-onde, um

texto-percevejo, traça que rói

a couraça, torre de onde avisto

e percebo, o não-visto que sempre

provo, quanto menos prosa

trovo, a língua que travo

trinca, recolho vida em verso, e

transmuto treva em rosa

Ademir Assunção

do livro A voz do ventríloquo (2012)
Ademir Assunção


Muitos autores, muitas vezes, supervalorizam o poeta e a poesia. Sinto um certo exagero em considerar o poeta uma espécie de "sacerdote" e a poesia uma linguagem de iniciados. Prefiro o poeta como um vagabundo, um ladrão do fogo, um herói marginal. E a poesia uma linguagem que funcione como um incêndio, uma pedra atirada contra a vidraça de um shopping center, um assalto à banco. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

ROLEZINHO



Eu não curto funk-ostentação (funk, para mim, continua sendo Tim Maia, James Brown, Funkadelic), muito menos shopping center. Procuro me manter longe de ambos. Mas acho que é preciso entender o que está acontecendo. Antes de sair julgando (e quase todo mundo se comporta como juiz hoje em dia), acho que é melhor entender o que está acontecendo.
Pensa bem: se aparece uma ferida feia na mão direita, você vai até o médico e pede para ele cortar o braço, antes que vire uma necrose, uma lepra, um câncer? Ou tenta entender que tipo de ferida é aquela para poder tratá-la?
Antes que confundam tudo, entendam que não estou dizendo que os moleques que fazem rolezinho em shoppings, estimulados pelo-funk ostentação, sejam uma ferida feia.
Estou dizendo que estamos vivendo numa sociedade doente até o talo (afinal, são 514 anos de segregação, brutalidade e cinismo) e que as feridas vão explodir cada vez mais, em todos os lugares.

E o que vão fazer: chamar a polícia?


Ou o médico?

Ademir Assunção

sexta-feira, 24 de maio de 2013

ATÉ QUE A MORTE NOS REDUZA




a esta carcaça
que já não somos
a este feixe de músculos nervos ossos
sem memória
sem livre-arbítrio
para beber mais um trago
ou praticar maldades
ou enganar trouxas
ou escrever poemas
esta provisória carcaça
que demorou tanto
para perceber
que sem aquilo que alguns chamam de alma
outros de ânima
e outros não chamam de nada
era realmente
nada

ainda que fosse tudo o que tínhamos
para viver a vida

Ademir Assunção
21/05/2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O MANÍACO DAS MORTES ANUNCIADAS




de bogotá a fallujah o estuprador
de cadáveres deixou um rastro de esperma
e odor adocicado de morte até mesmo entre
os que já estavam irremediavelmente mortos
pelas bombas americanas pelas
balas guerrilheiras pelos homens-bombas
islâmicos pelos morteiros dos comboios
militares pela faca cega das emboscadas
e pelas oscilações da bolsa
de Nova Iorque

Ademir Assunção

do livro A Voz do Ventríloquo (2012), Edith Editorial

terça-feira, 30 de abril de 2013

O TRIUNFO DO GENERAL MANDÍBULA



faca entre os dentes, trinados
de gralhas nos ouvidos, mergulho
no rio dos sonhos, desço ao mundo
dos mortos, pirata na proa
do navio fantasma, golfinhos
saltando no mar revolto, demônio
vestido com roupas de fada, buraco
esculpido na camada de ozônio, ninguém
responde ao chamado, vozes
estranhas na secretária eletrônica,
a agência do bradesco arde
em chamas, punks desfilam nas ruas
de copacabana, o caos ecoa nas ruínas,
escuras esquinas do inferno, pompeia,
são paulo, istambul, atenas, a moda
do outono é a decadência do inverno,
dizem que os profetas só predizem
desatinos, pássaros tenebrosos nublam
presságios, o cacto rubro desconhece
a flor do destino, é no silêncio
que os banqueiros multiplicam seus
ágios, quebram-se dentes, racham
mandíbulas, ossos estralam nas tumbas,
o vento varre os edifícios da cidade,
baleias destroçam submarinos, bruxos
eslavos rasuram signos mágicos, otários
neochics imitam macacos, cadelas
burguesas tomam no rabo, hackers
detonam a musa da TV a cabo, nada faz
sentido nessa névoa de bosta, lama
espessa subindo dos pés ao pescoço,
caronte enlouquecido brandindo
seus remos, vermes homicidas à espera
do almoço

Ademir Assunção

quarta-feira, 6 de março de 2013


"Acordei bastante assustado no meio da noite. Sonhei com um futuro em que tudo era estratificado por mercados e faixas de consumo. Havia comidas diferentes para gerentes de banco, executivos de indústrias químicas e coveiros. Produtos eróticos diferentes para secretárias bilíngues, professores universitários e coletores de lixo. Músicas diferentes para surfistas, astronautas e geógrafos. Nesse segmento, havia uma categoria ainda mais específica: música para boi dormir. Tudo com planos de marketing apoiados em detalhadas pesquisas de hábitos e opiniões. Pelo cenário, me pareceu um futuro muito próximo."

 Ademir Assunção:

domingo, 24 de fevereiro de 2013



 Ademir Assunção

em caso de cansaço, sente-se
como um tigre
imóvel
ao relento
atento
ao soprar do vento

pode ser
aconteça
uma flor de lótus
floresça
na lama
dos seus olhos

do livro Zona Branca (2001)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

FURIA E DELICADEZA




Quando nem a sua irmãzinha mais nova
e o seu irmão mais velho
dão a mínima para o que você escreve /

Quando nem seus amigos mais chegados,
a florista da esquina de baixo,
a velha louca que grita impropérios para seus fantasmas,
o padeiro que vive de olho na bunda da sua namorada
e a sua própria namorada
dão a mínima para o que você escreve /

Quando todos os seus desafetos mais familiares
permanecem inescrutáveis na parte mais iluminada do bar,
com os cotovelos apoiados no balcão,
aguardando o momento em que você tropece
nas próprias pernas
e esborrache os joelhos no calçamento /

é hora de continuar massacrando as teclas,
em movimentos alternados de fúria e delicadeza. /

Por precaução, não custa nada comprar um revólver /
e deixá-lo em cima do criado-mudo /
ao lado do maço de cigarros

Ademir Assunção