Muitos poetas, escritores, artistas, criticam a política -
como se fosse uma atividade exclusiva de mafiosos - mas agem igualmente como
mafiosos. Trabalham nos bastidores para conseguir poder na grande imprensa, nas
grandes editoras, nas universidades e até em pequenas publicações. Evitam o
debate público e trabalham na surdina para isolar outros artistas, lançá-los na
marginalidade, torná-los invisíveis. Em quarenta anos de atividade artística já
vi muitos grupinhos assim, agindo como pequenas organizações mafiosas. Esses
estão longe, muito longe, do verdadeiro caldeirão artístico, que é uma comida
suculenta, feita por muitos, para alimentar a todos.(postagem lúcida do Ademir
Assunção . Coloco aos amigos pra reflexão)
Mostrando postagens com marcador ademir assunção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ademir assunção. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 24 de julho de 2017
sábado, 4 de março de 2017
UM OGRO NA LOJA DE CRISTAIS
Feio como um filhote de cruz credo
Faminto errante como um retirante
Baixinho, narigudo e invocado
Sinuqueiro, treteiro e manguaceiro
Tentou vaga no corpo de bombeiro
Pensou talvez carreira de advogado
Quem sabe um posto de almirante
Pagou mais mico que macaco-prego
No zoológico maluco deste mundo
Foi sempre perdedor, um estrupício
Nunca entendeu os jogos virtuais
Cansou de ser chamado vagabundo
Jogou no lixo as tralhas do hospício
E entrou com tudo na loja de cristais
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Escrito a Sangue
ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face da fera
espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina do vazio
frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
domingo, 14 de dezembro de 2014
Eu gosto de conversar com meus amigos. Eu gosto de trocar
ideias. Ideias não se compra. Ideias estão aí para serem trocadas. Somos
espelhos uns dos outros. Algo que não está muito claro para alguém, de repente,
numa boa conversa, se torna claro. E alguns amigos acabam achando que estou
pessimista. Não acho. Estou procurando me manter atento. Tão atento quanto
possível. E tenho achado que as coisas estão bem estranhas. Há comportamentos
estranhos. Há comportamentos indefensáveis vindo a tona como se fossem normais.
Não são. Não é normal pensar que alguns podem pisar em outros. Não é normal que
só alguns possam usufruir do melhor que a humanidade já criou, enquanto a
maioria deve se contentar com o lixo. Todos nós nascemos ignorantes. Nascemos sem
saber falar, sem saber andar, sem saber sequer comer. E vamos aprendendo. Temos
uma vida só para aprender. Não é possível passar a vida inteira na ignorância.
Por isso me revolto contra aqueles que trabalham dia após dia para manter a
maioria na ignorância. Isso não é normal.
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
sexta-feira, 6 de junho de 2014
O AMOR SE VAI PELA MESMA VIA QUE VEM
Uma coisa invisível
está perecendo no mundo,
um amor não maior
que uma música.
(Jorge Luis Borges)
1º movimento
tudo muito rápido
toda
tímida capto todo
torto rapto
um breve cintilar de
lábios
da cor escarlate do
mesmo esmalte
das unhas que
laceravam a pele do peito enquanto
os olhos diziam que
eu era tudo
e que nada nos
separaria
2º movimento
toda boca
úmida toda loba
cínica toda mímica
mínima
todo espanto tanto
encanto pra tudo
terminar em nada
esse nada que nada
sara e me atira
outra vez no fundo
do poço enquanto
estrelas migram lá
fora
Ademir Assunção
(poema escrito em
dezembro de 1999)
Marcadores:
ademir assunção
sexta-feira, 23 de maio de 2014
UM VELHO BLUES
As cicatrizes ainda estão ardendo nos pulsos
Os cortes de gilete eu lavo com uísque
Levo na alma um velho blues sujo e triste
Ninguém vai ficar ao meu lado esta noite
Só eu, meu uísque e meu cigarro, garota
Somos cavaleiros no meio da tempestade
A chuva está molhando o vestido das putas
Os olhos cansados de velhas disputas
AA (2008)
Marcadores:
ademir assunção
sábado, 3 de maio de 2014
O GRITO
Ademir Assunção
céu sangue, azuis de gases, instável
gravura — terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:
motivo algum — nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais — diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilás) — a bomba explode
nas entranhas:
e é isso que faz
a paisagem trêmula
Poema do livro A Voz do Ventríloquo (2012)
Marcadores:
ademir assunção
sábado, 1 de fevereiro de 2014
ARMADURA EM CARNE MOLE
deus me salve da idade madura,
e me sirva o que passa, a brisa
que perdura, gesto escrito com
brasa, pintura além da moldura,
deus me salve, não me serve, o
amarelo que logo apodrece, a boca
coberta de musgo, não é isso
que almejo, os cravos de Cristo, o fraco
pulso do amortecido, persigo
o que persiste, no ontem,
no quando, no não-sei-onde, um
texto-percevejo, traça que rói
a couraça, torre de onde avisto
e percebo, o não-visto que sempre
provo, quanto menos prosa
trovo, a língua que travo
trinca, recolho vida em verso, e
transmuto treva em rosa
Ademir Assunção
do livro A voz do ventríloquo (2012)
Marcadores:
ademir assunção
Ademir Assunção
Muitos autores, muitas vezes, supervalorizam o poeta e a
poesia. Sinto um certo exagero em considerar o poeta uma espécie de
"sacerdote" e a poesia uma linguagem de iniciados. Prefiro o poeta
como um vagabundo, um ladrão do fogo, um herói marginal. E a poesia uma linguagem
que funcione como um incêndio, uma pedra atirada contra a vidraça de um
shopping center, um assalto à banco.
Marcadores:
ademir assunção
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
ROLEZINHO
Eu não curto funk-ostentação (funk, para mim, continua sendo
Tim Maia, James Brown, Funkadelic), muito menos shopping center. Procuro me
manter longe de ambos. Mas acho que é preciso entender o que está acontecendo.
Antes de sair julgando (e quase todo mundo se comporta como juiz hoje em dia),
acho que é melhor entender o que está acontecendo.
Pensa bem: se aparece uma ferida feia na mão direita, você
vai até o médico e pede para ele cortar o braço, antes que vire uma necrose,
uma lepra, um câncer? Ou tenta entender que tipo de ferida é aquela para poder
tratá-la?
Antes que confundam tudo, entendam que não estou dizendo que
os moleques que fazem rolezinho em shoppings, estimulados pelo-funk ostentação,
sejam uma ferida feia.
Estou dizendo que estamos vivendo numa sociedade doente até
o talo (afinal, são 514 anos de segregação, brutalidade e cinismo) e que as
feridas vão explodir cada vez mais, em todos os lugares.
E o que vão fazer: chamar a polícia?
Ou o médico?
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
sexta-feira, 24 de maio de 2013
ATÉ QUE A MORTE NOS REDUZA
a esta carcaça
que já não somos
a este feixe de músculos nervos ossos
sem memória
sem livre-arbítrio
para beber mais um trago
ou praticar maldades
ou enganar trouxas
ou escrever poemas
esta provisória carcaça
que demorou tanto
para perceber
que sem aquilo que alguns chamam de alma
outros de ânima
e outros não chamam de nada
era realmente
nada
ainda que fosse tudo o que tínhamos
para viver a vida
Ademir Assunção
21/05/2013
Marcadores:
ademir assunção
segunda-feira, 13 de maio de 2013
O MANÍACO DAS MORTES ANUNCIADAS
de bogotá a fallujah o estuprador
de cadáveres deixou um rastro de esperma
e odor adocicado de morte até mesmo entre
os que já estavam irremediavelmente mortos
pelas bombas americanas pelas
balas guerrilheiras pelos homens-bombas
islâmicos pelos morteiros dos comboios
militares pela faca cega das emboscadas
e pelas oscilações da bolsa
de Nova Iorque
Ademir Assunção
do livro A Voz do Ventríloquo (2012), Edith Editorial
Marcadores:
ademir assunção
terça-feira, 30 de abril de 2013
O TRIUNFO DO GENERAL MANDÍBULA
faca entre os dentes,
trinados
de gralhas nos ouvidos,
mergulho
no rio dos sonhos, desço
ao mundo
dos mortos, pirata na
proa
do navio fantasma,
golfinhos
saltando no mar revolto,
demônio
vestido com roupas de
fada, buraco
esculpido na camada de
ozônio, ninguém
responde ao chamado,
vozes
estranhas na secretária
eletrônica,
a agência do bradesco
arde
em chamas, punks desfilam
nas ruas
de copacabana, o caos
ecoa nas ruínas,
escuras esquinas do
inferno, pompeia,
são paulo, istambul,
atenas, a moda
do outono é a decadência
do inverno,
dizem que os profetas só
predizem
desatinos, pássaros
tenebrosos nublam
presságios, o cacto rubro
desconhece
a flor do destino, é no
silêncio
que os banqueiros
multiplicam seus
ágios, quebram-se dentes,
racham
mandíbulas, ossos
estralam nas tumbas,
o vento varre os
edifícios da cidade,
baleias destroçam
submarinos, bruxos
eslavos rasuram signos
mágicos, otários
neochics imitam macacos,
cadelas
burguesas tomam no rabo,
hackers
detonam a musa da TV a
cabo, nada faz
sentido nessa névoa de
bosta, lama
espessa subindo dos pés
ao pescoço,
caronte enlouquecido
brandindo
seus remos, vermes
homicidas à espera
do almoço
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
quarta-feira, 6 de março de 2013
"Acordei bastante assustado no meio da noite. Sonhei com um futuro em que tudo era estratificado por mercados e faixas de consumo. Havia comidas diferentes para gerentes de banco, executivos de indústrias químicas e coveiros. Produtos eróticos diferentes para secretárias bilíngues, professores universitários e coletores de lixo. Músicas diferentes para surfistas, astronautas e geógrafos. Nesse segmento, havia uma categoria ainda mais específica: música para boi dormir. Tudo com planos de marketing apoiados em detalhadas pesquisas de hábitos e opiniões. Pelo cenário, me pareceu um futuro muito próximo."
Ademir Assunção:
Marcadores:
ademir assunção
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Ademir
Assunção
em caso de cansaço, sente-se
como um tigre
imóvel
ao relento
atento
ao soprar do vento
pode ser
aconteça
uma flor de lótus
floresça
na lama
dos seus olhos
do livro Zona Branca (2001)
Marcadores:
ademir assunção
domingo, 10 de fevereiro de 2013
FURIA E DELICADEZA
Quando nem a sua irmãzinha mais nova
e o seu irmão mais velho
dão a mínima para o que você escreve /
Quando nem seus amigos mais chegados,
a florista da esquina de baixo,
a velha louca que grita impropérios para seus
fantasmas,
o padeiro que vive de olho na bunda da sua namorada
e a sua própria namorada
dão a mínima para o que você escreve /
Quando todos os seus desafetos mais familiares
permanecem inescrutáveis na parte mais iluminada do
bar,
com os cotovelos apoiados no balcão,
aguardando o momento em que você tropece
nas próprias pernas
e esborrache os joelhos no calçamento /
é hora de continuar massacrando as teclas,
em movimentos alternados de fúria e delicadeza. /
Por precaução, não custa nada comprar um revólver /
e deixá-lo em cima do criado-mudo /
ao lado do maço de cigarros
Ademir Assunção
Marcadores:
ademir assunção
Assinar:
Postagens (Atom)