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terça-feira, 1 de maio de 2018

A Implosão da Mentira



Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegre/mente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.
(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em "Poesia Reunida" - L&PM,1999, v.2) 

Errando no Museu Picasso




Picasso
erra
quando pinta
e erra
quando ama.

Mas quando erra
erra
violenta e
generosamente,
erra
com exuberante
arrogância,
erra
como o touro erra
seu papel de vítima,
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com banderilhas na carne.

Pintor do excesso
e exuberância,
Picasso
é extravagância.
Ele erra,
mas nele,
o erro
mais que erro
- é errância.

Affonso Romano de Sant'Anna
(1937)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Chegando em casa

Chegando em casa
com a alma amarfanhada
e escura
das refregas burocráticas
leio sobre a mesa
um bilhete que dizia:

--- hoje 22 de agosto de 1994
meu marido perdeu, deste terraço:

mais um pôr de sol no Dois Irmãos
o canto de um bem-te-vi
e uma orquídea que entardecia
sobre o mar.

De Affonso Romano de Sant'Anna

AMOR DE OSTRA



Nunca soube como as ostras amam.

Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.

Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como uma concha.

Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.Ver mais
alguns segundos atrás ·


  (Affonso Romano de Sant'Anna)


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Relógios demais


Há relógios demais nas esquinas do mundo.
Também nas vitrinas
em todos os pulsos
em cada corpo
em cada cômodo da casa
nas repartições aeroportos e hospitais.
Alguns têm rubis
outros são de ouro e diamante
e há os que não obstante a ansiedade do instante
têm os horários vários
em todos os quadrantes.

Tantos relógios!
como se não bastassem
a clepsidra em nossas veias
o relógio do Sol em nossas testas
e os carrilhões da consciência
lembrando que atrasados estamos
com o bilhete equivocado
no vôo
para a inabarcábel eternidade.

Há relógios demais atando
o peito e o pulso
da angústia humana
ruas inteiras vitrinas ostensivas
na Quinta Avenida, Corrientes, na Gran Via de Madrid,
Regent Street em Londres
e nos boulevares de Paris
sem falar nos formidáveis shoppings
de Tóquio e de Pequim.

De que valem seus alarmes
e despertadores se
não mais despertamos se
não nos alarmamos
com o horror
que neste instante explode
na dupla face do mundo
e chegaremos sempre tarde
para salvar o outro da bala
do vírus
e da fome de amor?

De Affonso Romano de Sant'Anna


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Intervalo amoroso



O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?



Affonso Romano de Sant'Anna

A primeira vez que entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá para cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.
De Affonso Romano de Sant'Anna, o poema "Relógios demais":

Há relógios demais nas esquinas do mundo.
Também nas vitrinas
em todos os pulsos
em cada corpo
em cada cômodo da casa
nas repartições aeroportos e hospitais.
Alguns têm rubis
outros são de ouro e diamante
e há os que não obstante a ansiedade do instante
têm os horários vários
em todos os quadrantes.

Tantos relógios!
como se não bastassem
a clepsidra em nossas veias
o relógio do Sol em nossas testas
e os carrilhões da consciência
lembrando que atrasados estamos
com o bilhete equivocado
no vôo
para a inabarcábel eternidade.

Há relógios demais atando
o peito e o pulso
da angústia humana
ruas inteiras vitrinas ostensivas
na Quinta Avenida, Corrientes, na Gran Via de Madrid,
Regent Street em Londres
e nos boulevares de Paris
sem falar nos formidáveis shoppings
de Tóquio e de Pequim.

De que valem seus alarmes
e despertadores se
não mais despertamos se
não nos alarmamos
com o horror
que neste instante explode
na dupla face do mundo
e chegaremos sempre tarde
para salvar o outro da bala
do vírus
e da fome de amor?




 De Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Assombros

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

                

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Na boca do deserto



Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


De Affonso Romano de Sant'Anna

domingo, 27 de agosto de 2017

A primeira vez que entendi


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá para cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


 De Affonso Romano de Sant'Anna, 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os Limites do Autor

Affonso Romano de Sant'Anna

Às vezes, ocorre
um autor estar
aquém
— do próprio texto.
De o texto ter-se feito,
além dos dedos,
como gavinha que inventou
a direção de seu verde,
e fonte que minou
o inconsciente segredo.
Um texto ou coisa
que ultrapassa a régua,
a etiqueta e o medo,
copo que se derrama,
corpo que no amor
transborda a cama
e se alucina de gozo
onde havia obrigação.
Enfim, um texto operário
que abandonou o patrão.
Às vezes ocorre
um autor estar aquém
da criação.
O texto-sábio
criando asas
e o autor pastando
grudado ao chão.
— Como pode um peixe vivo
estar aquém do próprio rio?
— Que coisa é esse bicho
que rompe as grades do circo
e se lança na floresta
no descontrole de fera?
— Que coisa é essa
que se enrola?
É fumaça? ou texto?
que se alça do carvão?
Lá vai o poema ou trem
que larga o maquinista
na estação
e se interna no sertão.
Ali o poema
olhado de binóculo
— só de longe tocado —
e o autor, falso piloto
largado na pista ou salas
do aeroporto, atrás do vidro,
enquanto o texto
levanta seu vôo cego
com o radar da emoção.
Enfim,
um poema que vira pássaro
onde termina a mão
ou avião desgovernado
que ilude o autor e a pista

e explode na escuridão.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

ADVINHA



O que é que é
que todos sentem
é igual e diferente
e sendo comum a todos
é sempre pessoal
e dependente?

O que é que é
que na batalha vence
o cabo e o general
que se dá no peito
de pobre e industrial
e transforma santo
em marginal?

O que é que é
que se pensa coisa humana
mas tem força animal
e sendo comezinho
é também transcendental
e posto que concreto
é abstrato e real?

O que é que é
que não se pode interromper
como se fosse vício
e a que a gente se entrega rindo
ignorando o suplício.

Que coisa é essa
para o qual o medico
não tem medicamento
o engenheironão tem compasso
o atornão tem disfarce
e o jardineiro
mesmo arrancando
nasce?

O que é que às vezes
começa sorrateiro
sem ser sentido
que não se tendo antes
experimentado e vivido
quando surge
é logo reconhecido?
que faz do mais tíidoatrevido
e do mais afoitocomedido
que quando mais cortado
mais compridoe prazeroso
mesmo sofrido?

O que é que é?
Quem souber
Sabe o que eu digo…

Affonso Romano de Sant'Anna

( in “Vestigios”)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

[b] Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna