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domingo, 5 de março de 2017

Bem cedinho o João passa na rua, com o leite e o pão. Um cara baixinho, magrinho, feinho .Vou atrás.Na porta da casa,mostro a foice.O tal, nem um pio.Que ele, a mulher e os dois filhos deitem no chão.Mãos e pés, vou amarrando todos.Ele pede que não faça mal, posso levar tudo o que tem.Um trapo na boca e nos olhos de cada um.Dó de machucar muito o João.Enfio no coração a faca de cozinha. Mas não uso a foice.

Dalton Trevizan
Belisca na blusa o biquinho do seio raio trêmulo de sol nos olhos salta o peixe à flor d'água.

Dalton Trevizan
Encho de água o tanque.Afundo a cabeça do menino de nove anos, fica se agitando.O mesmo com a garota de doze. Não mais de um minuto e meio .Acho que a média das mortes um minuto, um minuto e meio.Tinha enfiado sete vezes a faca no peito do João.E você morreu ?Nem ele. Sai muito sangue.Com as crianças ou a mulher não sinto nada.Quando é o João, por causa da sangueira, uma cena de terror.Afogo por último a mulher, ali deitada na cozinha.Ela eu afogo numa bacia grande.Só geme baixinho.

Dalton Trevizan

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sábado a tarde

Sábado à tarde , essa distinta senhora tinge no salão o cabelo grisalho, escolhe o mais bonito vestido. Maquia-se , perfuma-se, admira-se nos três espelhos. Deita-se de sapatinho na cama e primeira vez toda se masturba.

Dalton Trevisan

terça-feira, 16 de junho de 2015

Cemitério de elefantes


HÁ UM CEMITÉRIO de bêbados na minha cidade. Nos fundos do mercado de peixe e a margem do rio ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbedos são felizes. A população considera-os animais sagrados e provém às suas necessidades de cachaça e peixe com pirão de farinha. No trivial contentam-se com as sobras do mercado.
Quando ronca a barriga, ao ponto de perturbar-lhes a sesta, saem do abrigo e, arrastando os pesados pés, atiram-se à luta pela vida. Enterram-se no mangue até os joelhos na caça ao caranguejo ou, de tromba vermelha no ar, espiam a queda dos ingás maduros.
Sabem que estão condenados como elefantes mal feridos e coçam as perebas, sem nenhuma queixa, escarrapachados entre as raízes que lhes servem de cama e cadeira, a beber e beliscar algum pedacinho de peixe. Cada um tem o seu lugar e gentilmente advertem-se:
- Não use a raiz do Pedro.
- Foi embora, sabia não?
- Estava aqui há pouco...
- Pois é, sentiu que ia se apagar e caiu fora. Eu gritei: Vai na frente, Pedro, e deixa a porta aberta.
À flor do lodo borbulha o mangue – os passos de um gigante perdido? João dispõe no brasido o peixe embrulhado em folha de bananeira.
- O Cai Nágua trouxe as minhocas?
- Sabia não?
- Agora mesmo ele...
- Entregou a lata e disse: Jonas, vai dar pescadinha vermelha.
Aporta de outras margens um elefante moribundo.
- Amigo, venha com a gente.
Dão-lhe uma raiz no ingazeiro, caneca de pinga, um rabo de peixe.
No silencio o bzzz dos pernilongos assinala o posto de cada um. Sentados entre as raízes, assombram-se com o mistério na noite – o farol piscando no alto do morro.
Distrai-se um deles a afundar o dedo no tornozelo inchado, ergue-se e, puxando os pés de paquiderme, afasta-se entre adeuses em voz baixa -que ninguém perturbe os dorminhocos. Esses, quando acordam, não carecem de perguntar para onde foi o ausente. E, se indagassem, com intenção de levar-lhe um ramo de margaridas, quem saberia responder? O caminho revela-se a cada um na hora da morte.
A viração da tarde assanha as varejeiras grudadas nos seus pés disformes e as folhas do ingazeiro reluzem como lambaris prateados – ao som da queda dos frutos os bêbedos mais próximos levantam-se com dificuldade e os disputam entre si rolando no pó. O vencedor descasca o ingá e chupa de olhar guloso a fava adocicada. Jamais correu sangue no cemitério – a faquinha na cinta é para descamar peixe. E, aos brigões, incapazes de se moverem, basta-lhes xingarem-se à distância.
E eles que suportam o delírio, a peste, o travo de fel na língua, o mormaço, as cãibras de sangue, cultivam o ódio obtuso dos elefantes por uns animaizinhos inofensivos: os pardais, que se aninham entre as folhas e, antes de dormir, lhes cospem na cabeça – o seu pipiar irrequieto lhes envenena a modorra.
Da margem eles contemplam os pescadores mergulhando os remos.
- Tem um peixinho aí, compadre?
O pescador atira-lhes o peixe desprezado no fundo da canoa.
- Por que você bebe, Papa-Isca?
- Maldição de mãe, uai.
- O Chico não quer peixe?
- Coitado, morreu de inchaço.
Com a pressa que lhe permitem os pés tumefatos, despediu-se dos companheiros cochilando à margem, esquecidos de enfiar a minhoca no anzol.
Cuspindo na agua as sementes negras de ingá, os outros não o interrogam: as presas de marfim que indicam o caminho são garrafas vazias. Chico perde-se no cemitério sagrado, entre as carcaças de pés grotescos surgindo ao luar.


Dalton Trevizan

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

-Lá no caixão...
-Sim, paizinho.
-... não deixe essa aí me beijar.

Dalton Trevisan

domingo, 15 de dezembro de 2013

"Não me acho pessoa difícil, tanto assim que esbarro diariamente comigo em todas as esquinas de Curitiba."

- Dalton Trevisan
http://www.elfikurten.com.br/2013/10/dalton-trevisan.html

domingo, 17 de novembro de 2013

Curitiba é uma boa cidade
se você for a cascavel
pirada arrastando os guizos
por pau e pedra

Dalton Trevisan

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Hiena papuda

hiena papuda necrófila
traveca de araponga louca da meia-noite
mente na vírgula mente no pingo do i
mente no bico fechado mente na carta aberta
corrilho merdoso de intrigas e falsidades
caráter sem jaça de escorpião
filho adotivo espiritual de Caim
delator premiado informa dedura
a desonra, ó cagüeta, é o teu butim
fora, traidor do amigo!Rua, olheiro maldito!
no teu coração pesteado rondam os lobos da inveja
na tua alma leprosa
uivam os chacais da infâmia
Judas que se vendeu por trinta lentilhas
uma corda uma figueira seca
se não for à figueira seca
A figueira e o laço da corda
fatal irão logo logo até você.

Dalton Trevisan
Prosa de escárnio.Revista Idéias 36.Janeiro de 2006

domingo, 8 de abril de 2012

Curitiba

Ó maldita vaso de água podre
figo fervilhante de bichos
ó cedro retorcido de agulhas
hiena comedora de testículos quebrados.

Dalton Trevisan.
n87.GP 150996.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A menina ao pai divorciado


-Pai. Me diga , pai

-Sim, filhinha.

-Você tem namorada ?

-Sabe, pai...

-O que é

-...a minha mãe está livre



Dalton Trevisan

terça-feira, 26 de julho de 2011

Cada um de nós é uma multidão de tipos
você é sempre novo diante de outra pessoa.

Dalton Trevisan
A chuva se derrama pelo chão, contas brancas espirrando por todo lado.

Dalton Trevisan
Saudade. o aperto da mão de uma sombra na parede.

Dalton Trevisan