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domingo, 21 de maio de 2017
O que não é
Discussão não é briga.Dom não é mania.Obsessão não é estilo.Arte não é diversão. Trabalho não é salário. salário não é dinheiro.Dinheiro não é luxo.Interesse não é preocupação.Sexo não é penetração.Penetração não é introdução.Cuidado não é desculpa.Desculpa não é perdão.Perdão não é o fim.O fim não é diferente.Diferença não é oposição.Agenda não é organização.Ordem não é progresso.Progresso não é evolução.Sogra não é mãe.Namorado não é marido.Cunhado nem é parente.Amnésia não é insônia. Pesadelo não é sonho.Sonho não é doce.Gordura não é carne.Carne não é espírito .Espírito não é assombração. Assombração não é encosto.Encosto não é apoio.Brasileiro não é gente.
Fernando Bonassi.
Da Rua.Mais ! FSP.15/09/01
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sábado, 15 de abril de 2017
Definição de esperança
A esperança é quase a coisa, quase sabor, quase contorno, em sendo nada. Esperança é a árvore de Natal do pensamento, a flor que se cheira no bordel das cinco estrelas decadentes, endereço de carta que volta...A esperança é um oásis de miragens justinhas no deserto fervendo do desejo; cada um e todos os chuveiros que se penduram nas câmaras de gás da felicidade. A esperança é uma sacanagem quando se dá, um valor quando se tem. A esperança é fantástica. Dois pontos gordos do LSD hidrófobo da vontade. A esperança é corna, é mantida , última a saber que nunca alcança.
Fernando Bonassi. in Da Rua. Mais !FSP. 29/04/00
Fernando Bonassi. in Da Rua. Mais !FSP. 29/04/00
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Crime Passional
Você eu fui matando aos poucos. Um dia depois do outro. Bem devagar. Deixei de perguntar.Deixei de dizer.Deixei de avisar.Dobrei cobertores, empilhei discos, escondi travesseiros e fotografias.Separei o que havia em dupla.Livrei-me do que era único.Usei as costas de bilhetes essenciais.Varri todos os pêlos pra debaixo dos lençóis.Abafei as minhas vontades com mãos postas em desespero.O telefone se esganando por um fio.Fumei páginas e páginas da tua bíblia .Mudei horários.Recolhi documentos.Mandei recados.Voltei aos ovos fritos e às notícias .Comecei a passar reto onde fazia curva. Fui matando você assim.Devagarzinho mesmo. Agora você está completamente assassinada.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Escravas Brancas
Não me seja burra nem filha da mãe. não me seja metida nem folgada. Não me seja vulgar nem miserável. Não me seja fresca nem piranha.Não me seja besta nem venha com coisa . Não me apronte nada nem puxe papo.
Não me encha o saco.Não me perturbe nem comente.Não me atrapalhe nem apareça . Também não desapareça.
Não me dê escândalo.Não me seja tímida.Não me estranhe nem me reconheça.Não me use nem desperdice.Não me fure nem machuque.
Não me preocupe.Não me esnobe nem incomode. Prepare-se. não me espere.Toma. Não se iluda.Aceite o meu cartão .Perfume-se.Só procure no escritório.Compre umas roupas.Entre pelos fundos.
Fernando Bonassi
in "Da Rua ".FSP 21/04/2001
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Pornográfico
As piores suítes, os melhores lençóis, as lingeries mais históricas. A maior sacanagem. Garotas descascadas e reviradas do avesso . Quem liga para botões e zíperes?Meninos durões, quase lindos , quase meninas, não fossem as ferramentas prontas para ação. Pedidos urgentes.Sorrisos amarelos.Pequenas mentiras à meia -luz das câmeras.Lábios contra lábios de todos os tamanhos, onde a língua lavra buraquinhos e penduricalhos .Carnes meladas e dedilhadas a esmo.Frente e verso .Dentro e fora.Bate-estacas.Muito perto quando muito longe .Muito prazer.Aquelas posições gozadas...e o resultado , espalhado na cara para quem quiser ver. Senhoras e senhores : na falta de coisa melhor, sirvam-se das próprias mãos !
Fernando Bonassi
in Da Rua. FSP 101101
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terça-feira, 12 de abril de 2011
Berço esplêndido
Feito de pães amanhecidos, embrulhados no cinismo de jornais antigos, os olhos para sempre ardidos, infinitos bicos por medidos pratos de comida, sapatos passados ao rés-do-chão de melhores tempos, carteiras finas de fotografias amarelecidas, mais papeizinhos do que documentos, mais esperança que crédito, mais cansaço do que urgência, mais ferida que pele, mais família que tradição, mais deuses que dentes, mais doentes que psicopatas, autofalantes que ouvidos, pra sempre rendidos, atados a cintos cujos furos crescem à olhos vistos sobre cinturas minguantes... dormem brasileiros nos berços esplêndidos dos bancos da praça , como bandos sem graça, cercados de horizontes concretos onde dão com a cara..
Fernando Bonassi. in "Da Rua "
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domingo, 3 de abril de 2011
Sobre a Beleza
Nessas noites de sexta, o PS de Gabriel faz a alegria e a tristeza de centenas de pessoas . Crianças engasgadas, esposas esfaqueadas , jovens com feros atravessados entre as pernas , vírus e bactérias de todo tipo. Gabriel se diz enfermeiro, mas dispõe de um salário de 220 reais, rodo, pano, balde e detergente de amoníaco, que incomoda os asmáticos. Como sempre, aguarda os médicos desistirem de um paciente, para então limpar o sangue do chão e ajeitar-lhe as roupas reviradas. Sem que o vejam, utiliza seu estojo de maquiagem. Nos mortos mais assustados , aplica base , rímel e batom. Não se trata de profanação ou perversidade. Gabriel apenas sente que, diante de cadáveres bonitor, os parentes podem chorar com mais verdade.
Fernando Bonassi ."Da Rua "
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domingo, 27 de março de 2011
A Minha Cultura
Estive em muitas escolas graduadas de galões & uniformes. Cantei o hino, fiz trabalhos e desenhos em cartolinas sagradas ...tudo por essa história pra brasileiro dormir. Ocupei-me em pegar lugar nas filas da frente, de forma que o conhecimento do mundo passasse primeiro por mim. Aprendi a somar coisas que não dão resultado e copiar mapas que não levam a lugar nenhum . Nunca aprendi a dividir. Também decorei um alfabeto de verbetes explicativos, longe de me tranquilizar no travesseiro molhado. Fiz uma série de experiências,feliz por repetir detalhadamente os erros dos outros. Tirei nota máxima na generosidade amedrontada dos meus mestres. Agora estou aqui, conformado nesse diploma emoldurado de paredes.
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
Pedido
Você vai pedir.Vai pedir peito, vai pedir prato, vai pedir emprego.Vai pedir arrego.Vai pedir beijo, um abraço, um aperto.Pedir que parem.Pedir que continuem.Pedir na frente.Pedir por trás.Vai pedir demais.Vai pedir de dia,vai pedir de tarde, vai pedir de noite.Vai ajoelhar por cima dos cacos da tua empáfia.Vai pedir pra a polícia.Vai pedir pra máfia.Pedir o que perde.Pedir o que ganha.Quando está quase pronto.Quando não faz diferença.Uma floresta de desejos pendurados no pescoço.Infinitas impossibilidades.Onde quer que se vá, você vai. Vai pedir . Uma depois da outra. Por dentro e por fora. E continuar pedindo.Vai pedir muito . Vai até pedir pra ser amado.Apesar de você.Vai pedir até morrer.
Fernando Bonassi.in Da Rua
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
O Buda do café
Quer dizer que, se você consegue dormir, acaba sonhando com parentes e cachorros mortos, e que , por mais que você trabalhe, nunca se sente recompensado, e o que você anda botando pra dentro nem faz mais "aquele puta efeito ", que as mulheres não andam lá essas coisas, e que os jornais vão se apinhando intocados, que você gasta dinheiro sem querer ,seu carro vive ficando sem gasolina, e você não pode doar sangue porque desmaia, e que isso é rídiculo nalguém como você...que você tropeça com facilidade, encosta em porta suja de graxa, e amizade também não é mais o que era na vida das pessoas, e que o próprio deus "tira o chão" quando você ajoelha pra rezar? Eu me contentaria com um café bem feito.
Fernando Bonassi. in Da Rua
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domingo, 14 de novembro de 2010
Paisagem noturna
Sábado à noite a cidade pròspera luzindo ao fundo, como pequenas fogueiras (não esqueçamos: o inferno é aqui).Todos os bares escusos são perigosos. Escuro pra se divertir enforcando um gato, estourando uma luz de mercúrio. Fugindo dos camburões que brincam de tiro ao alvo. Cada um se segura num emprego, descola alguma coisa pra vender : fichas telefônicas ,roupas dando sopa nos varais,Opalas 79.Algo pra fumar,pra beber até cair de qualquer altura.Dando voltas no próprio rabo.segunda- feira ainda é apenas fumaça.Ninguém pensa que vai morrer.Ninguém pensa que vai sobrar.
Fernando Bonassi.in Da Rua.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Os bêbados
Pra dizer a verdade, mais era ela...gostava da tontura!Nunca ligou pra enjôo.Tomava naqueles cálices com um dedinho apontando pra mim.Dezenas deles.Coisa bonita aquele dedinho.Tinha esmalte marrom.Tinha carne rosinha .Nisso eu tomava também.Tomava de copo.Um dia o cálice quebrou e lá foi ela direto na garrafa .A gente nunca parava.Quando via já se estava acordando com um peso na cabeça.Até que um dia ela não acordou mais...e fim.Dali pouco mudou.Tudo que se traz pra casa ainda é de beber.Salários saindo no xixi.Qualquer hora dessas eu também me quebro.Corpo é troço que se estraga.Por isso, na minha hora,quero é estar bem tomado.Pra ser leve.Não tenho mais saco pra dor.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
A nossa casa
ascender as luzes, eu acendo.Todas. Ligar a TV, é assim que entro.Deixo até CD tocando no aparelho.Sem volume.Mais pra ver as luzes escorregando no ritmo. Todas roxinhas...já vitamina eu faço mesmo é no liquidificador.Às vezes boto gelo.Um escândalo.E eu nem falei do despertador, da impressora, da gaita que você meu deu em 83, da panela de pressão...Mas o que acaba comigo de verdade são essas violetas mortas que não jogo fora.e a poeira que aveluda as coisas. E a gordura que as faz brilhar. e as teias de aranha...Tudo isso que fizemos da nossa casa.
Fernando Bonassi.in Da Rua
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A verdade
A mãe de Deonilson recebeu uma carta dele dois dias depois de um telegrama informando "seu falecimento ".No ano em que Deonilson sumiu, disse que iria arranjar a vida de uma vez e prometeu voltar quando tivesse a chave de um sobradinho pra família.Logo depois a mãe só podia visitá-lo uma vez por semana , com uma mesa atravessada entre os dois .Na carta, ele pedia para não ser esquecido nunca e que , por mais que "falassem dele ", pedia que ela acreditasse somente nas suas palavras.Mesmo assim, a mãe de Deonilson chorou por cima do telegrama.Então, claro,rnasceu com a carta.Por força dessas coisas, até a próxima visita, ela vai ficar assim: querendo saber a verdade da boca do próprio filho.
Fernando Bonassi.in Da Rua
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domingo, 7 de novembro de 2010
Qualquer um
Irineu nasceu de cinco meses e nunca engatinhou.Andar, só depois dos três anos .Um dia,de repente .Gaguejou até os doze e , mesmo nessa época, ainda mamava.Em pé,diante dos peitos escancarados da mãe orgulhosa.Na escola quebrou braços e pernas.Soltava pum durante o Hino Nacional,derrubava merenda no uniforme e não entendia as vantagens de beijar de língua.Todos fugiam dele:marcava gol contra, tinha mau hálito e não decorava quem descobriu o Brasil.Ninguém dava um tostão por Irineu.No entanto, nada de esquisito aconteceu com ele .Provavelmente porque não entendia o que era "aquele lugar "onde, vira e mexe , o mandavam tomar.No fim, chegou até aqui, como qualquer um de nós.
Fernando Bonassi.in Da Rua
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