"Primeira condição :
você precisa ter talento
genuíno.Estudar
bastante também ajuda,
mas não substitui aquele
toque de gênio
inconfundível que marca
e distingue certas
pessoas desde o berço.
Pois bem. De posse
desse talento de Deus
lhe deu- e contra a falta
de estímulo da família, do meio e
particularmente da
própria cidade - , você
deve se atirar de corpo e
alma na consecução de
seu destino. Guiado
unicamente pelo seu
daimon, pelo seu anjo
tutelar, você dará inicio
à construção de sua
lenda pessoal e dos
projetos que dela
advirão. Você estará,
finalmente, a caminho
de tornar-se invisível. "
Trecho do livro " Como Tornar-se invisível em Curitiba " , de Jamil Snege
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terça-feira, 28 de julho de 2015
domingo, 26 de julho de 2015
Depois que o coração silencia
Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que
o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, Senhor?
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?
de Jamil Snege
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
"Amestrar e dissuadir - essas as grandes tarefas
sociais da educação.
E isso começa bem cedinho, meninas e meninos.
A primeira coisa a fazer é extirpar o destino e substituí-lo
por uma carreira.
Trágico ou não, o destino é uma força cósmica, faz você
colidir com os deuses.
A carreira é um destino amestrado, decaído, dissuadido, sem
fervor.
O destino é rebelde, individual, coloca você frente a frente
com seus limites e com a fúria sagrada, sádica, de ultrapassá-los.
A carreira é submissa, social, enfia você numa canaleta
margeada por direitos e deveres e põe a ambição no lugar do desejo.
O destino é nocivo à tribo. A carreira é nociva a você.
Eu era um rapaz burrinho mas já intuía isso."
do Jamil Snege
"Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo", livro de memórias do Jamil Snege
fonte : Marcelo Sandmann
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
SENHOR
Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não leem jornais –
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!
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terça-feira, 21 de maio de 2013
Senhor
Jamil Snege
Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais -
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!
Às vezes lamento minha
má sorte - e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna - e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?
Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.
Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?
Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?
Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada - para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado
Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.
Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas -
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.
A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
- e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?
O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: "Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la".
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama - sem jamais se perder
de si mesmo.
Um dia tu serás demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério... à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.
Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões -
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti...
Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.
Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco -
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar -
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa...
Tua puseste todos os seus
músculos ali.
Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: "Deus
não tem me ajudado".
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus...
Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno -
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho - uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.
Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor...
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
- os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.
Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.
Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei - o coração me arde,
meus músculos estão
fracos - mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.
Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.
Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu - não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.
Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco - não
penses que irei por
este mar sozinho.
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jamil snege
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Délivrance
Se te ofertei as tranças
que teci em insondáveis
crepúsculos
Se te esperei banhada
e limpa açucena
Se recatei e ocultei
sob sedas e rendas as luas
de meu corpo
Se noite após noite
vestal me vesti e me penteei
renovando bodas
Se cuidei do que comi
para não corromper meu
hálito
Se nem suar diante de
ti ,refrescando comlavanda
meus calores
Se até meus ardores
te servi em frescos linhos
de imaculado branco
Se me lavei de teus
fluidos e ao leito regressei
refeita e núbil
E assim permaneci trigo
fiel, erva fresca a teus pés,
entreaberta corola
Tu, que me deste?,de
que modo retribuíste o doce
sopro com que inflei as
belas palavras?
Peidos!
Peidos,sim,foi o que
me deste e assim desvaneço
Não me supliques-
peida-me e esquece.
Jamil Snege
que teci em insondáveis
crepúsculos
Se te esperei banhada
e limpa açucena
Se recatei e ocultei
sob sedas e rendas as luas
de meu corpo
Se noite após noite
vestal me vesti e me penteei
renovando bodas
Se cuidei do que comi
para não corromper meu
hálito
Se nem suar diante de
ti ,refrescando comlavanda
meus calores
Se até meus ardores
te servi em frescos linhos
de imaculado branco
Se me lavei de teus
fluidos e ao leito regressei
refeita e núbil
E assim permaneci trigo
fiel, erva fresca a teus pés,
entreaberta corola
Tu, que me deste?,de
que modo retribuíste o doce
sopro com que inflei as
belas palavras?
Peidos!
Peidos,sim,foi o que
me deste e assim desvaneço
Não me supliques-
peida-me e esquece.
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sábado, 1 de janeiro de 2011
O jardim, a tempestade
Minha filha é um animal rústico , espécie de lebre ossuda e selvagem.
Não tem ternura, só cartilagens.
O impacto de seu corpo lembra o de um saco de correio atirado de um trem.
Tem sete anos de idade imemorial da terra.
Ao seu redor sempre pululam girassóis e uns estranhos céus de tempestade.
É aparentada com os líquens, as algas, os pólens, as angiospermas.
Suja ou banhada, cheira igual; sua pele repele a água como as penas de pato e asas de mariposa .
Aproxima-se de mim como se eu fosse um grande degenerado tubérculo; experimenta minha rótula,meu gasnete-e seu hálito leporino congela meus gestos.
Aninha-se entre minhas pernas até que um fruto ou um gafanhoto atraia seu olhar pardo;dispara num átimo retorna,chocando sua cabeça contra as raízes tuberosas de meus dedos.
Não faz perguntas nem comete maldades ;apenas passeia seu corpo seco por entre o jardim, e a erva cede à sua passagem como se fosse o vento.
Minha filha preenche meus dias como o fazem os corvos, as formigas , as tempestades.
É grande meu jardim.Em quinze anos, jamais consegui atravessá-lo na minha cadeira de rodas.
Jamil Snege
O Jardim,a Tempestade.
Edição do autor.Curitiba,1989.p82.
Não tem ternura, só cartilagens.
O impacto de seu corpo lembra o de um saco de correio atirado de um trem.
Tem sete anos de idade imemorial da terra.
Ao seu redor sempre pululam girassóis e uns estranhos céus de tempestade.
É aparentada com os líquens, as algas, os pólens, as angiospermas.
Suja ou banhada, cheira igual; sua pele repele a água como as penas de pato e asas de mariposa .
Aproxima-se de mim como se eu fosse um grande degenerado tubérculo; experimenta minha rótula,meu gasnete-e seu hálito leporino congela meus gestos.
Aninha-se entre minhas pernas até que um fruto ou um gafanhoto atraia seu olhar pardo;dispara num átimo retorna,chocando sua cabeça contra as raízes tuberosas de meus dedos.
Não faz perguntas nem comete maldades ;apenas passeia seu corpo seco por entre o jardim, e a erva cede à sua passagem como se fosse o vento.
Minha filha preenche meus dias como o fazem os corvos, as formigas , as tempestades.
É grande meu jardim.Em quinze anos, jamais consegui atravessá-lo na minha cadeira de rodas.
Jamil Snege
O Jardim,a Tempestade.
Edição do autor.Curitiba,1989.p82.
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Mascularam-se à medida que feneciam seus encantos juvenis...O tempo impôs uma decisão:virilizaram-se.Um furtou a imagem de Narciso do espelho do outro, o demônio de trejeitos adocicados foi expulso para além do jardim.E um do outro fizeram-se arrimo e arado.
Jamil Snege
O Jardim, a Tempestade
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jamil snege
Idéia inquietante: a mãe vestida de lã( era inverno ),como se pudesse sentir frio.Um retêngulo de terra revolvida ficou bem nItido no gramado(era inverno )...Raízes não comem lã-por que essa imagem de raízes perfurantes?
Jamil Snege
O jardim,a tempestade
Jamil Snege
O jardim,a tempestade
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O jardim das Coníferas
Há dois homens no jardim
das coníferas.
Um corta a grama e o outro
carrega um pedaço de crepúsculo
nos ombros.
Jamil Snege
O Jardim,As Tempestades
das coníferas.
Um corta a grama e o outro
carrega um pedaço de crepúsculo
nos ombros.
Jamil Snege
O Jardim,As Tempestades
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Esta semana fomos todos chacinados.Eu, você, nossos vizinhos, a velhinha do segundo andar , o garoto loiro da esquina.Fomos todos massacrados e nossos cadáveres, inchados e perplexos, amanheceram nos passeios, nos monturos, junto às casas derruídas.Somente as moscas nos fizeram companhia...As moscas vieram e não nos deixaram sós nessa longa noite de abandono com nossos crânios partidos,o branco do olho a mirar a impoderável solidão a que nos obrigam os assassinos...Esta semana,fomos todos chacinados.E como ninguém nos lamenta, só nois resta...inchar,apodrecer e corromper com o nosso fedor esta vossa primavera.
Jamil Snege.
O jardim, a Tempestade
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Como o vivo vomita o morto,como a ave regurgita o seixo venenoso,como a fêmea rejeita o s~emen indesejado, eu vomito você, amor.
Jamil Snege
O jardim, a tempestade
Edição do autor.Curitiba.1989
Jamil Snege
O jardim, a tempestade
Edição do autor.Curitiba.1989
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