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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ressaca


Depois do amor
inundar,
veio este
seco silêncio
onde fui encalhar.
Eu sequei,
de tanto escoar.
Seco o céu,
seca a cama,
seco o doar.
Convoco saliva,
parece que
não vai dar.
Como não sou
baleia,
nem o greenpeace
vai ajudar.
Ressecada
e sem som:
espero
a maré
mudar.
Ou será,
esta secura,
um recuo
de tsunami
que voltará
para nos
inundar?

Luciana Cañete

domingo, 19 de março de 2017

Lamentações


Deus , por que me deste personalidade,
Se sabias que eu era mulher
E sofreria?
Deus, por que me deste necessidade
De versos e amores,
Se sabias que eu era mulher e não podia?
Deus, por que me deste
Independência material, espiritual e intelectual
Se me sabias fêmea?
Porque não um marido, três filhos
Uma casa com quintal e cão e
Um retrato pra pendurar na sala de jantar?


Luciana Cañete 

All cansa


A moda de atropelar doença com antibiótico,
De sufocar angústia com shopping center,
De calar amor com caixa de chocolate comprada em segredo,
de esvaziar de sentido o nosso sexto,
de descontinuar o tempo na euforia do imediato,
de se desconhecer origem e fim de nós ou tudo:
cansa.
(Essa secular fadiga se instalou, e se faz esporadicamente sobre minha alma.)
Explicar que o que se descarta não desaparece na mão do ilusionista,
Que dentro e fora se refletem sem ser mesma coisa,
Que há códigos mas também cada experiência nos impele ao aprendizado de uma nova língua,
Que gente tem formas de abrir , fechar , funcionar e emperrar conforme palavras e tons e gestos de outros:
cansa.
Mas de tudo mais me cansa
o incansável querer

o que não se alcança.

Luciana Cañete
Fui povoando de sonhos uma casa. Cresceu mais que tudo o que houve na cidade. Pelas costas sempre outras coisas. Vamos cavalgar as flores de pétalas adjacentes e sumergir depois em pequenos vidros de geléia. Vamos cortar a grama do jardim que nunca tive e soltar os cães de minha infância. Há também uma visita a ser feita, pro labirinto de cerca-viva incendiado por delinquentes juvenis – talvez meus primos. Foi e não volta, sim? Não explicaremos nada. Não há tradução nem língua possível para essas dores e contrangimentos de abandono. Eu não te teria deixado e deixei. Eu teria suplicado a tua presença se tivesse 17 anos, mas estamos velhos para esse amor desesperado, ele soará tão falso quanto o adeus que não me quiseste dar. Vamos para serra, será? Vamos praquele lugar da ponte. Vamos construir uma ponte de nós? Tá, tá , tá. Eu aceito o fim de tudo, depois que vi quando tiraram a gaiola de tucanos do Passeio Público.
Mas no sonho, paralelo ao decorrer do fim, houve uma chuva incessante, houve um salto da janela e tua voz repetindo: - Eu preciso ir embora. E a melancolia, e uma porta que não quis se abrir, mas conseguiste a chave. As rosas sem gosto só provam que foram colhidas antes do tempo.

Quem cozinha ou planta aprende que também os sentimentos tem ciclos. E se regam e adubam para que não morram.


Saudamos a primavera e suas flores paralelas, até o encontro de nossas retas pela circunferência do vasto-pequeño mundo. Sul e norte são a mesma coisa numa superfície esférica. Serão opostos apenas para quem lê mapas, planos cartesianos, não para eu que crio estradas com o que sinto e sempre tenho como ponto de chegada o coração do coração das coisas.

Luciana Cañete

Ela sou eu mais adiante.

Ela sou eu mais adiante.
Eu sinto, eu sei, eu sonho.
Ela me vê em si já encoberta de novas coisas incompreensíveis pros meus pequenos olhos de esquimó.
Ela caiu de pára-quedas e não pude devolvê-la pro alto.
Ela aterrisou com sua bússola estragada e seus mapas de cabeça para baixo(que inexplicavelmente a levam exatamente aonde deveria chegar), seus vasos úmidos e dezenas de latas arcaicas e não pude evitar.
Às vezes ainda sinto um medo, um estranhamento que cada dia parece menor, mais longínquo.
Ela sabe esse labirinto vegetal no meio da cidadezinha, o que já é quase um código secreto.
Porque também eu me desacreditei, porque também eu me impedi.
Já é época de borboletas e mariposas sairem dos casulos e também nós, de nossos medos.
E também nós.

A primavera não perdoa o desdesabrochar, nos obrigará sempre a florir.

Luciana Cañete
Noite morta natimorta:
que já aviso dera o sono de não vir.

Sonhos e pesadelos não serão, sussurou-se.
Não haverá o vôo entre pássaros azuis,
mulheres não mutilarão os dedos,
nem chuva incessante de coloridas contas
ou queda brusca em buraco,
roupa que encolhe
e atraso pra prova.

Será um dia escuro, a noite natimorta.
Será um dia enluarado,
com olhos estalados no teto do quarto,
depois no azulejo do banheiro e
ainda nadando na água do copo.

A noite morta ressuscita prenhe de um
orgasmo prestes a nascer na boca da namorada,
de um velho a dois minutos da morte,
de uma sirene que mergulha no breu
e de um cão que a pescará sempre.

Noite morta natimorta
meu insono te adivinha.


Luciana Cañete 
Um dia mergulharemos no mistério.
Dele sairemos tão encharcados de muito
quanto enxutos de palavras.
Voltaremos sagrados e silentes,
com olhos de paz eterna.

Se capazes de abismos,
se audazes a ponto de espelhos sem fundo,
de “bexigas sem pele”, “ocos sem beira”
não viveríamos esquecendo que um dia
estaremos diluídos no mistério,
que tudo
nos impele para ele.
Cada dia e todos, como oração inata,
nos preparam
para esse salto em
mais que profunda

água.

Luciana Cañete

quinta-feira, 2 de março de 2017

Lavo a louça.
Pela janela,
vem súbito o desejo de ver algo voando.
Algo que não voa.
E o desejo em si é tão violento,
e imenso, que ainda que nada voe
me basta.

Luciana Cañete, 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Luciana Cañete

A Maria Cecília no supermercado hoje, calor e sol finalmente coerentes com o horário de verão, vê um boneco de papai noel. Fica observando e pergunta pro pai:
- O papai noel não sente calor?

Que orgulho de ter uma filha que reflete, hehehe.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Paterno


Meu pai se deitou pra sempre
sobre meus 17 anos.
Não fui enterrá-lo.
Não julguem: não pude.
Sepultei-o lentamente,
dentro de mim,
durante anos.
Aos poucos,
nas faltas cotidianas,
nas visitas que nunca mais,
nas férias sem a casa dele.
Fui derramando
em conta-gotas
todo o sal
para soterrá-lo.
Processo mais penoso,
durador,
ineficiente,
que punhados de terra
chorados
no dia em que
não pude.
Hoje, desperto e visualizo
o que não vi e
nem imaginei nunca:
seu último suspiro
sobre nós.
E é uma liberdade
mais que uma dor.
A morte do meu pai
faz parte de
mim.

Lu Cañete

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ossatura IV


uma bela boca, que carne contra carne apela?
os ombros, que arqueiam ou esquadrinham?
e bundas, barrigas e pernas?
e volumes?
volúpia?
dispamos o pudor
que a gente existe é para revestir os ossos
até que a morte nos convide a despi-los

  Luciana Cañete

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As ondas do mar tramam

uma rede que nada pesca.



Tecem e

          destecem,

Retecem,

                tecem

a efêmera renda

que de alvura

tudo cobre

e nada segura.



Toda sobre,

por invisível mão

lançada.



Língua de rendada água,

que lambe o sal e não se salga.

Ou de Sísifo uma lembrança

a agarrar o que pra sempre lhe escapa?



Tessitura incessante, insone

que se faz e refaz,

toda uma, a mesma

sempre e nunca.

Envolve e não retem:

o mar.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Picasso ao contrário

Sempre tive necessidade de criar teorias. Naquela tarde, suspensa entre verão e inverno, essa era minha ânsia. Aí surgiu dentro de meu olhar, um entendimento. Pude quase sentir e escutar, no silêncio da casa, a faísca e o estalo da compreensão.

O chá de boldo já adquiria a tonalidade verde-escuro-amargo perfeita para o gole. Sentei-me, o livro de Picasso sobre a mesa. Essa seria a função do dia: folhear Picasso. Ainda sem saber que dele brotariam cúbicas reflexões.

As pessoas desfiguradas ali, os olhos verticais. Pescoços que não sustentavam cabeças, chão que não construía retidões. Mas a beleza repousando exata.

Também, de mim, vindo uma lembrança: sempre desconfiei de gente figurativa demais, com cabelos renascentistas, sapatos que luzem, costuras que não desfiam, camisas que não amassam. Ou a ordem excessiva, de estantes de livros novos, de jogo de louça completo combinando com os copos, me assinalando um tipo particular de morte interna. E ainda aquele homem, cuja presença me havia feito experimentar o gosto de ruína e desespero.

Picasso era então como o provérbio chinês: desconstruía para manter a essência. Banal, comum o lugar, mas assim, assim era. Mesmo do violão desconectando planos conseguimos imaginar a música de uma chuva tórrida sobre suas cordas não-paralelas. A desconstrução do visível para mostrar, o que , num descuido, desenxergamos.



Luciana Cañete