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domingo, 28 de agosto de 2016

A CASA


A CASA
Ela nos expõe a si mesma
Nos esconde do mundo
Se vives numa casa, encolhido dentro dela
A casa são paredes, tijolos, cimento,
São ferros, vidros, fios elétricos
Sem cheiro de terra, sem as nuvens
Nela entra um pássaro e fere-se
Contra a vidraça. A grande gaiola que te protege
De ti mesmo.
Lá fora o mundo, feito de milhares de formas,
Incontáveis seres, mergulhado no voo da beleza
Cresce cada vez mais.

Paulo Bentancur.RS


sábado, 25 de julho de 2015

CONTRÁRIO


Tem dias que não gosto
De ser poeta. Tem dias
Que preferiria
Bater pedras na rua
Tem dias que versos
São flores envenenadas
Sopa das mais ralas
A cabeça sonhando dores
Tem dias que eu, tu
Não somos eu, tu
E caminhamos como um estranho
Sabendo que o deserto fica logo ali
Tem dias que o tempo
Manhã tarde noite
Engolem as horas salgadas
Mas não vomitam.


– Paulo Bentancur –

terça-feira, 7 de abril de 2015

A VIDA TEVE SUA CHANCE


Tanto sol ardendo em quem
procurava um bronzeado.
Tanta chuva, vento, e os
casulos: encasacados
buscando conforto, paz
entre paredes parentes.
O tempo faz sua parte.
As partes fazem do tempo
o que apetece, aparece
na avalanche, em andorinhas.
Êxtases ou acidentes
chamam a chama ardente
pronta sempre a aquecer,
também pronta a queimar
até o fogo perecer.
Quanta chance nas manhãs.
Carros, pessoas saindo.
Passeios, olhos, mãos,
corações em seu recreio
(sem esquecer o receio).
Entretanto há algo letal:
o tempo, que nada sabe
de sua capacidade
de envergar até o ferro.
Há o espaço também,
mas este viciou-se há muito.
Drogado, encolhe-se mais

e nos afasta uns dos outros.

Paulo Betancur

ACEITA


Aceita o não, a porta batendo,
o silêncio vindo no vento.
Aceita a dor sem heroísmo,
nenhuma trégua e a frustração.
Descansa da mágoa: não tiras pão.
Aceita, aceita, aceita morrer.
Morrer é difícil, é quase impossível.
Resistir é inútil ainda que
apaguem o sorriso, e o amor se afogue
no próprio suor de suas promessas.
Ausentes te mentem. Aceita perder


a ponde de onde cais na mais elementar
falta de recursos, aceita, minúsculo,
não te chamar Jó e topar o sacrifício
de perder (perdemos sempre)
a hora leve dos prazeres,
a impunidade das vantagens,
a sorte dos mais felizes.
Aceita, convém, aceita
na grandeza dos que morrem,
na gentileza dos que somem,
na compreensão dos que aceitam
o fim de seus dias doces,
o começo de tempos ásperos.
Aceita enterrar-te vivo
numa casa onde ao lado
explodem risos e brotam
fatos quase sempre belos.
Tu, feio, pobre, sujo,
se gritares impedirás
a passagem para o outro lado
que só te aceita em paz,
não admite resistência.
Aceita, sem aceitar,
te finge de morto e
desta forma surpreendente
– o derrotado que extrai
da derrota a sua seiva –
te ergues já morto e vais
para a frente sendo outro.
O que morreu é lembrança
só tua, que dele não lembram.
Eras a nulidade pro mundo.
Aceitaste o veredito,
cabeça pensa, olhos postos.
E esperaste o suspiro
que te depositou no olvido.
Morrendo, sim, desta forma
ninguém irá te enterrar.
E, só no próprio velório,
a luz modesta crescerá
e terás a vida toda
para então ressuscitar.
Ressurreição permanente
de quem construiu-se eterno
crescimento após o luto
de não lutar quanto tudo
o empurra para o solo.
Aceita, aceita, aceita
que te aceitará a vida,
essa orgulhosa. Essa víbora
de ti, de mim se alimenta.
E quando, saciada, ao sono
ela se entrega sem vigília,
tu que aceitaste o infortúnio
acordas enfim pra fortuna.


Paulo Bentancur

APNEIA

Paulo Bentancur

Ai daquele que não sente nada
diante da morte, flor bruta contra a indiferença.
Ai daquele que não sente nada
Diante da vida, pedra em floração.
Ai daquele que não sente nada,
nada, nada, nada, nada.
Assim se afoga em tanto
e sua cinza é sua brasa.





APONTAMENTOS DE PAISAGEM


Freme o tenso horizonte
Subjugado pelo peso de um céu
E tudo o que é meu cabe no bolso
Do casaco, sem contar
Esses óculos apontando para a frente.
O azul da abóbada, pleno,
Se esvai no leito indistinto
Da terra, ora verde, ora abóbora
E deste mirador, cimo da serra,
Cravo meus pés, fiando as horas.
O leito de terra se estende
Na distância, costurando a fusão
De ar, sua transparência lá no alto,
E as gretas, as rudes rochas dizimadas,
Feito água lá no longe deste chão.
É tudo o infinito sem alcance,
Mesmo este embaixo de meu corpo,
A sustentar peso e voo
Permitindo o alçar-se como um porto
Do qual parte o olhar – com ele roo
Toda a matéria que me separa.

Paulo Betancur




ARSENAL


Molho de chaves num bolso, no outro
Um pente Flamengo, a carteira,
A camisa escondida pelo casaco,
Lenço de papel pra rinite,
Que sempre se manifesta,
Faça frio ou calor.
E o Rivotril a acalmar
O ansioso expediente.
O fundamental é pouco
O arsenal dessas minúcias
Que levo no cotidiano,
Me equilibrando nas pernas.
Saio para o trabalho, as telas, as tintas,
Tomado desses objetos,
Minhas armas, meus remédios,
Como se eu fosse um armário,
Ser esgotado, abjeto –
Vir-se-á o tempo da leveza.
Fizeram disso o que foi
No passado um homem bom,
O suficiente, pacato. Com
Pouca coisa a levar.
A chave, a carteira, o revólver.

E bastava, e bastava.

Paulo Betancur

ARTE DE SANGRAR


Paulo Betancur

Torcido como corda sem a música,
o músculo retesa todo gesto,
força além do suportável.
Os poros expelem ouro, refletido,
liquefeito, suor que acaricia
a pele já cansada deste dia
recém chegado em seu meio.


ASCENSÃO E QUEDA DO DIÁLOGO

Paulo Bentancur

Um homem liga a tevê, o rádio, escuta o vozerio da rua.
Esse homem veste roupas que não combinam.
Aperta as mãos, sorri, goza o frio enervante da dúvida
em saber qualquer coisa que o conduza para algo
que se possa chamar de um lugar.
Nem precisa ser um destino.
Um homem que não conhecemos e que, cansado de si,
entende e aceita que não o verem não significa o fim
nem o começo de uma história, e portanto ele pode
continuar desse jeito, tevê, rádio e rua gritando
e ele nem aí, falando também, ao mesmo tempo,
sem que os outros escutem, imitando sua surdez.
Um homem que parece tudo, menos mudo – como tudo.
Que engole ávido a alheia mudez e a tomar conta do fluxo
de ruídos que explodem contra o silêncio faminto.


PROCURA DA POESIA


Poeta que é poeta
não olha a lua
nunca viu a lua
nunca parou
para saber da presença
de um satélite
Poeta que é poeta
não abre gaiolas
para libertar passarinhos
Nem tem gaiolas
Nem olha o céu
Na terra reside o universo
Poeta que é poeta
mergulha no escuro
o sol é um fósforo queimando os dedos
ele observa, sem pressa,
o musgo crescendo em volta da pedra
Tempo e espaço não são metáforas
Poeta que é poeta
tem um jardim cercado
de arame farpado. Dentro,
as placas dos nomes dos mortos
para que floresçam
Nem flores, nem borboletas
nem voos que não sejam de aviões
Poeta que é poeta
habita a noite fechada do silêncio
agita sua cabeleira como se fosse uma tempestade
Poeta que é poeta
olha a bunda das mulheres
seus dissimulados olhares, os cílios:
uma cortina que nem abriu
e começou o espetáculo
O resto é mistificação.

Paulo Betancur



ALTAR

As portas defecam gente
Saem de todo lado
Prédios postados rente
Às apertadas ruas
Lua, sol ou céu nublado
Pássaros apodrecendo
Carros correm guinchando
Seja manhã ou tarde
À noite gritam as luzes
Num aceno extremado
Dentro das casas, mudos
Só os objetos são sagrados.

Paulo Betancur



ADOLESCENDO


Adoeço com a filha adolescente
Ela parece estar doente
Engole a internet a noite inteira
Dorme quase o dia todo
Não lê, não lava louça, não cozinha,
Espalha as roupas pelo piso
E friso:
Cada resposta sua é
Desnecessariamente afiada,
Um grito
Bate a porta
Não responde a nada,
Pergunta que lhe façam ou não façam
Não fala
Na pré-adolescência estranhamos
Agora sabemos que mora conosco
Uma estranha
A família tem enxaqueca
A família não é família
Não por enquanto

Alguns anos ainda.

Paulo Betancur

sábado, 30 de agosto de 2014

ADVERSÁRIO


Se antes
Cervantes lia
Odisseias
Bem acomodado
Num amplo sofá

Sigo agora o
Anti-romance lá fora
Escaldando a fala
Aos gritos dos que
Batalham um beijo

Se antes
Cervantes via
Monstros, gigantes
Em simples moinhos
Modestas cenas no caminho

Me deparo hoje
Com o que a toda hora
Foge no voo da fortuna
Dos surpreendidos
Daqueles que a derrota adora

Se antes
Cervantes agia
Com os nervos à flor
Do peito pronto
A defender, atacar

Neste instante
Não há quem plante
Uma fantasia, não está
Aqui o amigo criador
De porcos, meu parceiro

No passado
O heroicizado
Morreu numa cama
Sem glória e sem
Dinheiro

No presente
Este que vos assina
A saga, segue
Em frente, no desafio:


Enfrentar-se.

Paulo Betancur