Mostrando postagens com marcador wender montenegro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador wender montenegro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Metamorfose ou Da infância perdida

Wender Montenegro   


Não há fronteiras na infância...
Na manhã clara onde o sol,
empinado pelos sonhos
de um poeta-menino,
faz todas as línguas, pardas;
todos os verbos, possíveis,
não há segredos de estado
e a verdade é professada
entre risos machucados.
Não há pátrias nem guerrilhas
quando a vida veste o branco,
sujo de todas as cores...
Mas eis que relincha o tempo!
Este intrépido alazão,
com suas crinas de vento,
leva a inocência a galope
sobre as carnes do arco-íris...
Nos telhados da libido
galos e dentes-de-leite
tocam clarins: ao sol posto,
sobre um tapete vermelho,
a menarca e seus mistérios...
E a boneca – companheira
da inocência – em abandono,
parece acenar “adeus!”:

Vênus de Milo da infância.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

OFÍCIO DE QUIXOTES


Aos que vendem a fome
e os malabares
nos ombros de um amigo;
às cinderelas de rua
sem cristais nos pés;
aos que beiram abismos
com intenção de voo
a cada dia;
aos suicidas
pendurados na dor
nó na garganta.
Aos órfãos de vida
eu deixo o fogo, expelido
da garganta dos moinhos
pra que confundam a poesia
com mil dragões adestrados.


                Wender Montenegro  

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

INVENTÁRIO


O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão

de berço.

Wender Montenegro   

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ATOS DE FÉ


É preciso roubar a fé dos anjos
e na vertigem lhes tomar as asas
e a chave da árvore da vida.
É mister ter em brasa o coração
um coração que queima à voz do Verbo
escondido nos ermos de Emaús.
É necessário ser ladrão, vos digo,
e destelhar a fé do centurião.
É preciso ser céu, ser Jó, ser chão
subir nos olhos de Zaqueu, ser sol.
Três vezes é preciso negar Pedro,
barco de pedra encharcado de medo.
E quando Deus nos imolar Abraão
é preciso dizer: “– Nada lhe faças!
Dai-nos antes o sangue do Cordeiro!”
E com uma libra deste ungüento santo
Ele ungirá com os pés nossos cabelos.

Wender Montenegro    

domingo, 1 de outubro de 2017

TERMÓPILAS



Não pesa sobre a coragem
sombra de flechas em bando.



 Wender Montenegro    

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

CELA DE VISITAS


Liberdade em gramas
raspas de esporas
de anjos
preparando quedas...
Consumindo a carne
o chão
e as horas
farpadas...

Cheios de extremoso amor
os olhos do pai com o filho
nos olhos
maldizendo o mês
que também cai
em gramas;

E a mãe só deseja
parí-lo outra vez;
limpo agora, talvez,
livre do umbigo
e dos restos de parto.

Hoje ateei fogo
no meu travesseiro
de pena
com(paixão)
dos que dormem
nu

chão. 

Wender Montenegro    

ODE À SOMBRA DOS MORTOS


Não mais as tardes com o mar ao fundo
não mais a chuva a debulhar o frio
não mais o cimo dos mirantes míopes
não mais o rio a se enxugar em nós.

Não mais o olhar crepuscular dos bois
a ruminar o pasto e o posto sol
não mais novembro e a paz dos cemitérios:
chamas de fé revigorando os vivos.

Não mais o amor em rubras pradarias
com suas crinas de veludo e mel;
o leito azul de orquídeas e ternuras;
não mais incêndios na língua do filho.

Não mais os mortos e sóis e serpentes
embalsamados na pele do rio
não mais presságios de brancas corujas
e a fé em cruz, superstições de pai.

Não mais o fel dos féretros infantes.
Oh, inefáveis mistérios de Deus!
Não mais a dor e o medo e as dissonantes
que se evolam da harpa do estar-vivo.

Os mortos sangram a nossa memória.
Em suas mãos nada mais há contido
deste volátil dínamo da vida
mas todos vêm pra ceia de novembro.


 Wender Montenegro    

terça-feira, 26 de setembro de 2017

MATIZES


Contenho em mim todas as cores,
desde o verde das primeiras chuvas
ao vermelho seco dos punhais.

Em mim, um azul pleno de chamas,
o branco-ósseo, vômito da terra,
e o mistério-amarelo das acácias.

Todos os tons mordem meus olhos:
do verde opaco de árvores sedentas

ao vermelho-gente dos pincéis de Bailey.

Wender Montenegro   

sábado, 9 de setembro de 2017

DA QUEDA


Cavar a terra amarga a pá furada
fincar o pé nas águas deletérias
... despir o Phi da pira de mistérios
podar ao pó as asas de seis anjos
e eis que não pôs as mãos no último selo.



Wender Montenegro   

sábado, 2 de setembro de 2017

SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO



Não dizer palavra...
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.


Wender Montenegro    



DELÍRIOS DO VERBO ou Arapucas de pegar Manoel


ao poeta Manoel de Barros

1
As manhãs me imensam
como em Ungaretti;
arroios me gorjeiam de esplendor
lá, onde as árvores se garçam
e o sol brinca de arvorecer.

2
A palavra cansanção tem ardimentos
e o menino descalço nem aí
pois lhe escuda a voz dos passarinhos;
esse moleque arteiro estica o sol
carrega o cenho do peru no grito.

3
Bicho danado é maracujá:
engole a voz das ateiras;
as mangueiras roubam o sol do chão
e o pé de mastruz
enverdece os ossos da avó.

4
Mosca de manga
se agiganta no amarelo
como Van Gogh;
borboletas adoçam a aridez dos cactos
e o sanhaçu assusta os mamoeiros.

5
Nas mãos do mar
a linha do horizonte tem cerol
lá, a pipa do céu cai mais depressa
quando as margens da tarde me anoitecem.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

INVENTÁRIO



O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.

Wender Montenegro


domingo, 27 de agosto de 2017

SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO


Não dizer palavra...
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.


Vivo de transformar palavras em pétalas.
mas às vezes perco o caminho
e as transformo em espinhos.


Wender Montenegro    

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

SONHO


Uma voz me visita
quando a alma pedra,
quando medra cor dos cílios
de mãos dadas:
o punho sonhando estilhaços
e pelas frinchas da casa varrida,
escamas de feixes de luz!


[Wender Montenegro]