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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Cinco sentidos


 - Almeida Garret

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será: mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: a minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E, quando venha a morte,
Será morrer por ti.



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Seus olhos


De: Visconde de Almeida Garrett



Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como o facho do Destino.

Divino, eterno! –e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder;
Que um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais do meu ser,
Senão a cinza em que ardi.



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Não te amo



Não te amo,quero-tr: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma
A calma – do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Tão te amo. És bela; e eu não te amo, ò bela.
Quem ama a aziaga estrêla
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Êste indigno furor.
Mas oh! Não te amo não.

E infame sou porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti mêdo e terror...
Mas amar!...não te amo, não.


De: Almeida Garrett