domingo, 23 de abril de 2017

MENTIRA


-Eu amo você, poderia ter floreado ou colocado mil figuras de linguagens, mas é exatamente isso que eu quero te dizer.
-E o que eu faço agora? Respondeu ela tentando mostrar certa surpresa Para uma coisa que ela já sabia.
-Agora seria uma bom momento pra te segurar em meus braços e te beijar com o por do sol como pano de fundo, mas isso aqui não é um daqueles romances de bolso que eu costumava escrever só pra poder pagar minhas contas.
-O fato é que eu nunca sei quando você está mentindo ou falando a verdade. Você é um escritor, um contador de histórias, um cara que ganha a vida fazendo as pessoas acreditarem no que você diz.
-isso é um elogio ou uma crítica?
Cronicas de Noites Mal Dormidas

Joe Alvez

sábado, 22 de abril de 2017

OS ABANDONADOS


Certo dia,
a mão do destino,
talvez por descuido,
abandonou-o
nas mãos de uma mulher
abandonada pela sorte.
Em frente a um castelo abandonado,
ela abandonou seu filho
e depois a vida.
Passou de mãos em mãos
e deram-lhe o nome de Jorge,
nome de santo, abandonado.
Estudou em colégio interno,
de meninos abandonados.
Cresceu, sorriu, brincou,
porém seus melhores amigos
abandonaram-no.
Amou, amou, amou feito bobo
e foi abandonado pela mulher.
Hoje, no entanto,
quando a mão do destino
veio para buscá-lo,
não estava sozinho.
Havia três corpos
num terreno baldio,
abandonado,
abandonados.

Luiz Medina
sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer
num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer."

RR

Sei



Sei que a palavra basta
Bastarda,
Sei que nada sei,
Sei sobre a lei
Sobre o rei
E sobre ninguém

Sei que minha falta
Minha fala
Cala teus sinais
De eternidade
Tão
Deus

Sei que tudo
Sei que nada
Sei que é fava
Consumada

A lágrima emprestada
A solidão que jorrava

A opacidade das mãos
Que não conjugam lábios
A falar
Apenas a si

E mais alguém

Sei dos teus desejos
Sociais
Sim, sei...

Queres os povos
Queres livros novos
Queres tudo
E não queres adeus

Queres o enigma
Queres o escudo
Queres a máscara
Queres o estilo
A conjugação e
Morfologia sintática

Sei que queres
E desejas
Ardentemente
Transcender

Pois traslade
O neoliberalismo que
Nos invade

E sonhe, viva
E deixe para depois

De pronto
Um conto, que conto
A vocês.


 Anderson Carlos Maciel

Quando uma Amizade Colorida Vira um Casamento Branco



Uma linda amizade colorida...
Sempre chega de um jeito franco,
De maneira leve e atrevida...
Com um fogo nada brando!

Os dois passeiam de mãos dadas,
Pelos parques, praças e jardins!
Como dois anjos de asas aladas...
Sem compromissos fixos e ruins!

Eles se beijam sem saudade...
Eles se abraçam sem dor...
Pois tudo isto é uma amizade...
Sem a depressão do puro amor!

Ela é mais do que a menina do olhar...
Porque é a musa da mais doce íris...
Ela toma banho de cachoeira ao luar!
Porque seu amado é o real arco-íris!

Mas, quando isto acaba em casamento...
Tudo na alma do casal fica branco!
Pois a monotonia é o tormento...
Do arco-íris mais franco!

O branco é a mistura de todas as cores...
Do arco-íris nas amizades com amores!

Quando uma amizade colorida,
Alegre, maravilhosa e divertida...
Transforma-se num casamento branco...
Na praça passa a existir um vazio banco.

Luciana do Rocio Mallon

sexta-feira, 21 de abril de 2017

exercício secreto

Marilia Kubota


para que o céu se move
sem que ninguém perceba
nossos olhos astrônomos
pálpebras coladas
em paisagens de papel e vidro.
para que cuidar de jardins
jamais vistos como os onde
as flores vibram e morrem ?
para que a vida existe e passa :
e só aqui vive
depois tudo passa
e cessa?

(selva de sentidos, 2008)

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível

Marilia Kubota

(selva de sentidos, 2008)



Marilia Kubota


minha palavra não ilumina o mundo. de vez em quando me destranca.

Assim falava Zaratustra



vá até a janela
há dois carros
duas rosas
umas senhoras

algum silêncio
que respira
entre as coisas

Todo dia o poema deixa o sol
para ir ao ocaso.

Adri Aleixo



Anti-terrorismo
o ar está parado
atravessemos a rua
em frente à galeria olido
faz horas que o trânsito também está parado
e disseram que está assim em toda a cidade
há muitos pedestres nas ruas
as narinas que respiram o ar parado
ameaçam se converter em pequenas olarias
os tijolos podem servir de armas
na mão desses desordeiros
o terrorismo sãosos braços abertos
de trinta e nove secundarista
ah se fosse meu filho..!
o terrorismo é essa gente
ainda querer ter direito a férias
imagina se a moda pega?!
dizem que hoje
todos foram liberados mais cedo do trabalho
imagina se a moda pega?!
a copa e as olimpíadas já passaram
mas o risco de atentado continua



 A poesia de Marcus Groza, em mallarmargens:



Bacamarte



Tribuna aberta:
Tumba setembro, tumba setembra
sofre flautos faróis cantares
de pássaros doentes em suas cores.
Metais.
Já passou a hora de brincar.
Já passou a hora de ir embora.
-“Levem os falconetes daqui”-
Sacia suas coisas em cálice afastado
ao afaste de vã felicidade e calça jogada.
“Meu corpo já repousa na sombra do sol.
Eu poderia estar morto.”
Aqui vivo mais que o silencio.
Minha cavernosa membrana
se formam cordas estalagmites
apontados para uma pupila,
com sua espessura
de tato tártaro lago bafo.
Esse trem sentado.
A terra pinta suas ruínas
pelo ventre vento inerte
ao brilho frio de calor de ouro
calor de soja, calor de gola.
A aragem carruagem passa
cigarro largado lagarto
em rochosa pele de combustão
ao gatilho de lábios úmidos.
E das palmeiras se jogam
mosqueteiros vértices nos trópicos.
Uma fria aranha reina colônias ásperas
em secas teias dentro da cabeça.


 O mineiro Lucas Alvim:

eu's



narciso mergulha n’umbigo
e insiste
:
espelho espelho deus
existe alguém no mundo?


* líria porto

RENASCIMENTOS


Tenho, em mim, uma roseira de frutos doces e amaciados
de manhãs inertes - celebrados sem artifícios ou colorações –
poderiam ser encontrados em dias de pouca luz
daqueles esquecidos nos poentes de mármores vazios
quase ao desalento, ricos de madeixas escuras e perfumes de cristal,
tão idôneos em sua ligeireza que entre eles se descobre a água
como um metal de cheiro e calor em seu leito de alvorada.
Foram renascimentos e escutas de uma eternidade vazia
quase opaca na retidão de suas fronteiras, muita saída a sal
e nuvens, circunspecta no eixo maciço da navegação em terra
fria – mesuras e ciência do cotidiano – pássaros e sombras,
fusos e rocas de sabedoria
quase vergando
da alma
a sombra de sua pedra angular - finitude.
Foram nesses estremecimentos de ventos e voltas que estendi
cem contas de fadas e foram uns discursos de meio tempo
regados ao líquido e à nata por ali estremecidos dos corredores
estrelas e parcimônia das vantagens do esplendor da vida
a luta da subsistência
estiagem verde e marinha em beijos salinas
versos que se criam monásticos elásticos
prenhes do desejo branco da liberdade
quando ainda não havia o tempo, o fio e o medo
só essa valente sina de semáforos e luzes
aspirando o anjo em seu pouso branco
outono dedilha sua ventura na laje e no apego.


Jandira Zanchi (A Janela dos Ventos)

imensidão

Marilia Kubota


escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria


(selva de sentidos, 2008)

CELLO


é infinitesimal o segundo do décimo de tempo
em que me rendo à paisagem tardia desses olhos fixos
auréolas escuras de vigésimo de instantes
- antítese no som de cello de Bach e adjacências -
nem todas as reminiscências são castanhas em dó ou Sol
antes, enviesadas, cortam um céu de vadios
e vacilantes arquejos sonados
das suítes ressonadas
pautas embriagadas de fé e fúria
- antes do amor é a fuga -
a esperança única de horizonte inteiro e virgem
adormecida nos cristais perfumados da vigília oriente.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

Cotidiano XI

Leopoldo Comitti


Não choveu. Apenas
nuvens cobriram o azul
de mestre Ataíde, deixando
sombrias as faces dos anjos.
Não choveu entre os feixes
esparsos de sol. Um desbotado
tom recobre a tela,
como se os adros antigos
impusessem a pátina das pedras
à natureza também barroca.
Guirlandas de flores foscas
aguardam luz, ou o breve brilho
de uma só gota.

Não mais do que uma.

VENENO


por entre as fronhas fortuitas dos anos
-como um bezerro -
bebi o lácteo veneno da dor.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

pegadas invisíveis

Marilia Kubota

pegadas invisíveis
chuva de outono
de trás da grade do parque
o musgo nos troncos
evoca o grasnar
de patos selvagens
a iogue caminha
pisando folhas secas
entre pingos
o lago revolve
espirais

.
Marilia Kubota

hoje, em vez de usar uber, voltei a usar ônibus e caminhar a pé. e constatei que há ruas (só de condomínios) em que não passa ninguém andando a pé em Curitiba. as movimentadas, em que passam carros, são onde existe vários tipos de comércio.

nas praças não há quase ninguém. e pensa que está todo mundo dentro do shopping ? fui a três, muitas lojas estavam de portas fechadas. não havia tanta gente assim. creio que todo mundo está em casa digitando.

previsão de mim

Sérgio Villa Matta



não alegre, nem triste: nublado
chove a cântaros a oeste de minha alma
mas, molho o rosto e escorro-me como
um passarinho de asas azuis e pequenas fagulhas incandescentes.
o dia é nítido como uma borrasca austral
e o silêncio é névoa benfazeja do relógio tic tac

da sala interior de mim.
Marilia Kubota



 Vou almoçar num restaurante desconhecido e não gosto do lugar. procuro um lugar conhecido para tomar café e vejo que o café mudou. na volta, vou ver as capivaras no passeio público. continuam as mesmas ? não, mudam dia-a-dia. só eu é que não vejo.

AFIAÇÕES DA LÂMINA

Leandro Rodrigues



I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
bucólica - anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
[ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
um jardim e seus canteiros
em cores vivas.


II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza - do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
- intraduzível morbidez
[ que paira


palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
anônimo – bucólico


É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria - chuva e agonia
como a girar
seus ponteiros
de nuvem.

(L. R.)


de: Aprendizagem Cinza, págs. 60 e 61. Ed. Patuá, 2016.
Marilia Kubota

uma mulher super maquiada como um fantasma aparece no jornal. ela é especialista em algo importante, mas ver a maquiagem fantasmagórica a desautoriza imediatamente para mim. sua artificialidade é revelada de chofre, e também seu trabalho fútil, super valorizado por uma sociedade cujo núcleo é a criação de aquisição contínua de inutilidades

PAISAGEM


A nuvem
é a caligrafia da água,
o chão
é o palimpsesto do tempo,
os olhos alinhavam
os desencontros,
o coração
costura os retalhos.
Nalgum lugar
desloca-se
a paisagem para muito além
de si mesma:
o mundo reverbera
mas nunca se alcança.

 Cleber Pacheco
Se você faz de você uma bolha é uma coisa
Mas saiba que tem gente morrendo no apartamento ao lado
Talvez agora mesmo eles estejam fazendo "aquele" telefonema
Sobre como providenciar tudo e como deve ser a cerimônia
Uma prima já reservou passagem pra o próximo fim de semana
A filha mais nova não se conforma com isso, mesmo quando disseram que depois o quarto ficaria pra ela
E você aí deitada lendo Raymond Queneau como se nada
E uma outra coisa muito pior, sabe o que é?
Se você faz de uma outra pessoa sua própria bolha porque daí não tem mapa de navegação que segure essa onda

Assionara Souza






Deus não é Deus,
ele dizia com os olhos perdidos em mistérios
Se Deus não é Deus quem é Deus?
Quis eu então saber,
Porque um Deus há
Endeusado, enraizado em mim.
"Deus não é como Deus deve ser."
E como deve ser Deus?
Quem é esse Deus que não é como Deus deve ser?
Quis eu novamente saber, porque realmente não sei
Como Deus deve ser, já que Ele vem se metamorfoseando em mim
o tempo todo.
Já foi barbudo, imenso, maior que o coqueiro que era maior que a casa.
Também foi sisudo, de pouca conversa, e ficava o dia todo na praça enlevando os pombos.
Uma vez virou mar, ficou bíblico,pairava nas águas e eu, na praia, extasiada,sem me mexer.
Da última vez, chegou em asas, bateu à minha janela, quando abri, Adentrou a casa e por dois dias inteiros morou na plástica rosa azul ao lado da imagem de Nossa Senhora do Carmo.
"Deus não é Deus'.
"Deus não é como Deus deve ser."
Aquilo retumbando em mim, a igreja lotada, olhares, olhares, olhares.
Criei coragem:
Deus é como Deus é.
Veio o silêncio.
Também era Deus.

*

Lázara Papandrea

Estamos exaustos
de regar plantas
e dores
e de amores
exaustos
de esperar cartas
e livros
e dias melhores
exaustos
de apertar botões
de elevadores,
pôr gasolina
nos carros
de trabalho dinheiro
trabalho
exaustos
de planos
e de metas
e de promessas
exaustos
de verões
e de invernos
e de outonos
e primaveras
exaustos
da procura pelo verso
inconteste
o verbo inconteste
exaustos
de feiuras
e de belezas
e espelhos
exaustos
do exercício
casto da ordem
e da desordem

exaustos.

Katia Borges

MEIA FURADA


Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Eu devo confessar que nos dias de hoje estou meio louco,
corro de lá pra cá, o trabalho é demais, e o salário, pouco...
Minhas coisas do amor, eu devo confessar, ando sobre o fogo:
casamento acabou, e todo dolorido já entro em outro...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando pego estrada, o meu carro quebra, e o pneu fura...
De noite, na festa, eu tiro o chope sem a levedura.
Depois do descanso eu já vou trabalhar, que a vida é dura,
se é só vadiar bebendo num bar, já não tem mais cura.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Desde anteontem meu computador já quase não computa...
Internet caiu, o monitor queimou, só ficou a lata.
O programa travou, o teclado pifou e desistiu da luta,
Computando tudo, parece que ele tá bom pra sucata.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando o poste caiu, energia faltou, e eu fiquei no escuro,
fiquei sem novela, sem vela, sem tela, nem noticiário.
Quando voltar a luz eu sacudo a poeira e saio do muro,
prometo a mim mesmo contar como foi no querido diário...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...


Letra e música: Bento Ferraz

ASCENSÃO E QUEDA


fragmentos de noites a emergir do silêncio,
ascensão e queda de um ídolo.
o que é a vida senão ascensão e queda?
.
a palavra escrita no muro,
a geografia triste de uma história.
a dor ferina a doer com força,
com a força maior que a de mil tigres.
.
os iconoclastas venceram a masmorra.
Sodoma e Gomorra a parir o feto morto,
o afeto a despir a minha própria ausência.
.
criança me vi onde ninguém mais me via,
por via de fato cresci onde você me esquecia.
transtornado pela tristeza
o arfar do peito com a última gota de sangue.
.
fere o peito marcado com a cicatriz
sombria da crepuscular solidão
a angústia desesperada da minha última dor.
a liberdade tem a cor do amor!
.
o grasnar atroz de um corvo solitário
com o peito devastado de distâncias
encerra na atmosfera soturna do poeta perdido
a dor lancinante do último poema desfeito.
.

Abril- 2017- Evanilson S. de Almeida
"Não quero um fragmento
ou uma citação que cause impacto
quero um poema inteiro
mesmo que seja ácido
Não quero uma esmola
quero o nada que dá impulso
o nada que move a força
a força que move tudo
Não quero uma cópia
quero o original
quero uma trova,
mas que não haja igual
Não quero ser mesquinha
conformada com quase tudo
Sacuda meu corpo com a simplicidade,
mas que seja inteiro.
Então dá-me uma música!
Quero a intensidade
O suspiro profundo
Sair desse mundo
Quero uma palavra
não abreviada
que seja inteira
distinta ou camuflada
Que me faça rir
que me surpreenda
que me faça refletir
que me compreenda
que me faça amante
que me encante
que seja inteira."

- Madalena Daltro

Membro Efetivo da ALLARTE
Ocupa a Cadeira Nº 21

Seu Patrono é Lima Barreto.

A TORCIDA


O goleiro perdia um dedo a cada petardo que agarrava. Mas teve um momento em que não deu mais para jogar porque estava sem todos os dedos das mãos. E a torcida, com sua fome de tortura, não se conteve nas vaias.

[Rinaldo de Fernandes]


[De “O Livro dos 1001 Microcontos”]

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Corpo vencido


Costuro enredos
alinhavados pelas distâncias,
que ditam a saudade
e passam a mão
- tatuada de segredos -
nas areias tingidas de corais
e de medusas,
que se esfregam no regaço
das marés meigas
na esperança de serenar,
as tardes caiadas
de palavras rasuradas,
assimetrias perversas
que ignoram a angústia
de uma gaivota
sem mar para vagar...
Manchada de silêncios
ilude-se a pele
grávida de memórias
e breve de instantes...
na espuma que se desfaz,
sou um corpo vencido
até um desejo imperceptível,
amaciar o pó das areias
que chove nos desertos,
tricotados de ausências.

Ana Andrade

Sobre isso do suicídio e a série 13RW




Sobre isso do suicídio e a série 13RW. Acho que os limites abertos do que o corpo pode sentir empurram pra sensação de querer um copo mais cheio. Os jovens estão tendo pouca atenção hoje? E quando foi que os jovens tiveram alguma atenção? A questão toda acho que é a falência dos afetos. Esse querer que não se basta. Esse querer insuficiente. Distúrbios psíquicos gerados por ferramentas que aceleram a ansiedade num grau alucinado; efeitos colaterais de drogas que foram perscritas na infância para embotar a energia criativa das crianças e obrigá-las a suportar horas a fio em fileiras, dentro de um quadrado burro chamado sala de aula, empurrando conteúdos medíocres sem validade à vida prática, e as mãos sempre embaixo das carteiras com celular plugado a redes sociais e mídias que deturpam imagens e transtornam identidades. Ninguém cultua a curiosidade por mais de 5min. Ela é descortinada e novamente se entra num outro looping de ansiedade a ser saciada. Essa é a geração addicted. O próprio vício de assistir uma série no netflix compulsivamente e comentar, isso acelera a velocidade da mente. Os corpos não estão quase nunca no mesmo lugar em que a mente está. Por que não eliminar o corpo se ele é algo duro, quase imóvel, enquanto a mente viaja em páginas virtuais elaborando desejos no limite do impossível de serem saciados. O livro que mais impulsionou uma onda de suicídio no XIX foi Werther. E quem era esse garoto? Alguém que tinha tudo e sofria de um tédio inacreditável. O tédio acaba quando ele encontra alguma coisa que embora esteja a sua disposição ele não pode ter. Mas o não poder ter o enlouquece quando essa coisa/objeto/consumo/charlote passa às mãos de um outro e evidencia werther como insuficiente pra ele mesmo. A melhor frase que me vem agora é a do nelson rodrigues: jovens, envelheçam. Envelhecer é se aproximar do corpo. O que também não dá pra descartar é se essa alta taxa de suicídio (jovens entre 15 e 29, depois de acidentes de transito, morrem mais de suicídio), é um sintoma da alta onda de consumo fácil em que tudo, até o próprio sujeito, torna-se descartável. É preciso aprender a não ter. Lidar com a falta. E o suicídio, ah, Ismália... A romantização do suicídio é o fim dos belos suicidas. Sim, mas tem também isso de os adultos foderem com a infancia e a adolescencia e juventude e etc.

Assionara Souza
o tempo passou
e chamou a tarde
e lá se foram...
sem perder a hora
chega a noitinha!
Lá no firmamento
uma e outra estrela
já tomam seu lugar
com a promessa de brilhar...
Mais, nem tanto igual a você!

Amaury Nogueira

Poeta Paranaense


17/09/1985

ALCANCE


Preciso mais
uma chance
uma dança
um lance
pra que o nada
escape
pra que o tempo
esvoace
um verso, onde
o poema escoe
e teu amor
me trame...

Carmen Silvia Presotto 
 Vidráguas!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Kadish por Carli


Oh Señor!
¡Qué putada!
Que necesitás ahora,
en esta hora
de este Hombre a Tu lado.
Por ser sabedor de su Tikún Olám:
buscar la Justicia en este Mundo,
que no es la ley de los hombres.

Él que ha luchado contra el Mal que tiene nombre:
Amalek o Videla, Amán o Pinochet, el mismo Franco.

Ahora,
en esta hora
la labor continúa.
Que no levanten la copa los tiranos,
que al Juicio,
Carlos aportará las pruebas
y Tú, la condena.

Perdona mis palabras si suenan profanas,
pero Tú me conoces.
Soy hombre, soy débil, tengo bronca
y por ello se me encoje el corazón
y amargas son mis lágrimas
y desgarro mi prenda.
    Baruj Ata, Adonai,
    Eloheinu, Melej Haolam,
    Dayán Emet.

Tené en cuenta mi plegaria por su alma,
sabés que nunca pido por mí,
sí por los míos
y Carli es de los nuestros.

¡Oh Señor!
¡Qué putada!
¿Seguirá habiendo diez hombres justos?


Juan Zapato© Israel, 18 de abril de 2017.

domingo, 16 de abril de 2017

entre lesbos e troia ?por q não


● resta somente essa luz crua ●
● como posta de carne quase aberta ●
● no centro de tudo e de todos ●
● esse silencio entre camadas ●
● argila q se desfaz entre labios ●
● no centro de tudo e de todos ●
● nem mais os dedos nem o sexo ●
● a lingua dura so essa luz crua posta ●
● no centro de tudo e de todos ●
● nenhuma dor so olhos azuis ●
● a terra q se perde entre vazios ●
● no centro de tudo e de todos ●
● alem nem carne nem os ossos ●
● agora nosso desejo esse oceano ●
● no centro de tudo e de todos ●
● basta tocar e vem e gira ●
● depois so o sol a sombra sob o mar ●
● no centro de tudo e de todos ●
*

Alberto Lins Caldas

entre roma e cartago ?porq sim


● de tanto viver so o trabalho a vida ●
● entorpeceu e a nada mais se agarra ●
● somente tristeza e dor nessa esfera ●
● sem sombra inflexivel o vassalo ●
● jogado em labirintos se apequena ●
● girando mercadorias pra nada ●
● a grande força é logo rasgada ●
● tudo suga tudo sangra e devora ●
● o corpo a voz o sonho amortece ●
● nisso os longos dias so se repetem ●
● sempre sem gozo vigor ou alegria ●
● coisa escrava rude e sem ironia ●
*

Alberto Lins Caldas

jornada


● essa é a jornada dos sem pernas ●
● q adernam aos poucos na lama ●
● eles cantam enquanto afundam ●
● não se debatem porq as mãos ●
● foram onde ficaram as pernas ●
● miolos orelhas e narizes ●
● eles cantam todos felizes ●
● nessa jornada ate antes da noite ●
● porq irão dormir sem dormir ●
*

Alberto Lins Caldas

minha pessoa em movimento


● minha pessoa é capaz ●
● de sentir o horror da carne queimada ●
● mas não é capaz de impedir as chamas ●
● nem as tempestades de fuligem ●
● nem isso q desaba e atrofia o corpo ●
● nem o tanto de distancia q se constroi ●
● minha pessoa se desespera ●
● sem saber porq todos não se desesperam ●
● mesmo q todos não sejam minha pessoa ●
● assim como sabe q nem todos gostam ●
● de cebolas cruas mordidas a tarde ●
● antes q o sol violento se esconda ●
● minha pessoa anda depressa ●
● talvez porisso sinta o mundo paralisado ●
● todos como marionetes desmontadas ●
● tudo numa vagueza de lesma ●
● o remoer da grama em vacas e mansos ●
● como num imenso pasto sem cercas ●
● nem mariola nem marinheiro minha ●
● pessoa ve antes porq tudo ja passou ●
● não q saiba o q foi ou o q sera ●
● viaja na loucura da linha de sombra ●
● violento sem violar o peito as costas ●
● apenas os lados quando pode ●

Alberto Lins Caldas

A Escritora Marilia Kubota


meu bordel em dortmund


● q maravilhoso bordel eu tive ●
● em dortmund com candelabros de cristal ●
● com sofas de couro de elefante e leões ●
● q maravilhoso era meu bordel ●
● so bebiamos cognac caramelado e o vinho ●
● q gauleses tão perversos criam perfeitos ●
● q maravilhoso era o bordel ●
● com carnes rubras olhos bocas e xoxotas ●
● as mais belas e a maquina jamais cessava ●
● q maravilhoso era o bordel em dortmund ●
● com aquelas camas cobertas de cetim ●
● camas cheias de algodão e petalas ●
● q maravilhoso bordel eu tive ●
● desde jovem quando dei ao chefe ●
● o inaceitavel lucrando em troca a certeza ●
● q maravilhoso era o bordel em dortmund ●
● onde o dinheiro corria como cavalos ●
● enrabados por idiotas e palhaços ●
● q maravilhoso era o bordel ●
● q devorava dinheiro desejo e todo poder ●
● mercado é o q faz vibrar nossas fendas ●
● q maravilhoso era meu bordel ●
● colorido e aberto a todos os senhores ●
● nem viamos a treva o frio q não larga ●
● q maravilhoso bordel eu tive ●
● em dortmund com atelier pros uniformes ●
● rasgados togas batinas e ternos ●
● q maravilhoso era meu bordel ●
● com um belo cemiterio pros anjinhos ●
● se soubessemos a treva o frio q não larga ●
● q maravilhoso era o bordel ●
● pro condutor pros soberanos e patrões ●
● so recebia quem mandava trabalhar e morrer ●
● q maravilhoso era o bordel em dortmund ●
● ali arrastei suor e sangue o corpo sem gozar ●
● q é deles sempre aquele gozo indiferente ●
● q maravilhoso bordel eu tive ●
● em dortmund era la q batiam pra matar ●
● era la q enterravam chorando como teatro ●
● q maravilhoso era o bordel em dortmund ●
● era la q eles comiam a carne o peixe ●
● a mãe o pai o irmão a irmã e o tigre ●
● q maravilhoso era o bordel ●
● era la q se vestiam de dama e dançavam ●
● era la q surgiam de princesa e caiam de 4 ●
● q maravilhoso era meu bordel ●
● ali arrastei suor e sangue o corpo sem gozar ●
● se soubessemos a treva o frio q não larga ●
*

Alberto Lins Caldas

Sábado de aleluia


Não, não tem noite que mais me ampare.
Eu adiantarei a pedra,
removerei seu conteúdo,
o peso que livrará o sepulcro
dos intensos deuses tardios,
as deusas tomarão o espaço
como pássaros pintados
nas paredes do adro
e a solidão ocultará
a modernidade,
as inovações tecnológicas,
a ousadia afetada dos poemas.
Tudo que se consome
some na angústia do momento
e a fome das estrelas
em continuar a vida distante
dos atos mais humanos
me comove.
Minha mão feminina
ampara na lembrança
o lençol que minha avó
me deu quando fui
moço
de Itapetininga.
Ela usou a costura
pra me dizer adeus.
Ela se escondeu nalgum
canto da saudade
e na hora grave em que expio
minha culpa,
minha tão grande culpa,
debruço sobre o jardim do ressuscitado
e o vazio do latifúndio,
recordo a maciez que me abrigou
enquanto eu dormia.
As flores que carrego no meu nome
são todas estampas do pano
tão simples, tão árabe,
qualquer ponto luminoso
entre o minarete e a lua.
Fiori Esaú Ferrari


nestes dias chatos! chuviscos chatos! em que o mundo vira um chato no saco da galáxia.
aproveito o dia vinte e cinco de julho do presente ano e lembrar-vos -eis a máxima das máximas universais.
''O REAL É UM SÓ''

--- Ricardo Pozzo
temporal terrível
assisto às gotas rolando

pela janela de vidro

Marilia Kubota