sábado, 25 de maio de 2019

NSTANTE




Somos seres de barro
e – inúteis e tristes – sorrimos à passagem do tempo.
Crianças que ainda ontem corriam
achando o mundo mais um brinquedo,
hoje vemos os dias correrem vazios
como um trem que perdemos...
Somos seres de barro e de vento
(quem amanhã lembrará de teus beijos?).
É é madrugada. E na estação deserta
um vento frio sussurra o silêncio...

Otto Leopoldo Winck

(De 'Flor de barro', meu primeiro livro.)


Chove. Chove sempre. Desde sempre choveu. E para sempre choverá. Não haverá um só dia sem chuva. É o que sinto quando, retido neste café, contemplo a chuva oblíqua atrás das vidraças embaçadas. Mas hoje não tem Fernando Pessoa. Hoje não tem mais nada. Só essa chuva que cai lá fora e repercute, monocórdia, aqui dentro. Chove. Chove. Chove. E para sempre choverá.

OLW

SALMO



No cálice santo de minhas mãos em prece
eu elevaria a hóstia branca de teus seios,
como dois estandartes ao amor profano.
Poderia morrer trespassado em seguida
pois já teria provado das delícias do eleitos.
No ostensório de meus lábios contritos,
espremeria teus mamilos tenros
como num ato penitencial:
perdoai-me, ó profetas de Jerusalém,
mas como o Rei Davi, que foi o ungido do Senhor,
eu tenho um fraco pelos cântaros do sagrado,
ainda mais se estiverem repletos
de dor, delírio e beleza sufocada.

Otto Leopoldo Winck

INSCRITURAS




Inscrevo estrelas
na córnea dos teus olhos
insones. Carruagens
de fogo nos desnudam.
A vida ora é azul
como brisa,
ora escura,
como blues.
Se corto meu pulso
o que escorre é a nostalgia
de uma era em que tudo era crível.
Todas as estradas do mundo
são insuficientes
para o anelo de meus pés descalços.
Acorda, olha lá fora:
é dia mas uma lua de sangue,
enorme,
derrama seu mênstruo
sobre a cidade.
Inscrevo cometas
na sola dos teus pés cansados.
Depois os apago
com o sal de minhas lágrimas.
A vida é qualquer coisa assim
entre um conto
e um assombro.

Otto Leopoldo Winck

MAIS UM BLUES



um blues na cabeça
um aperto no peito
um fogo na alma

este é meu destino
vagar pelas ruas
sem rumo
sem rima
sem metro

só pra ver se te vejo
num bar
num beco
ou na sombra
das cortinas
de tua janela

Otto Leopoldo Winck

SIMBOLISMO



Recolhi todas as estrelas
nas minhas mãos em concha
e aqui as deponho
como instrumentos
de iniciação.

Com elas desenho um outro céu
num novo firmamento
com duas luas, dezoito sóis
e o cometa dos seus olhos
encabulados.

Neste outro mundo
tudo se corresponde: o eco da sua voz
é o pássaro que me acordou
de madrugada. Suas mãos
no regato
é o tempo que me segreda
mistérios novos.

Recolhi todas as estrelas
e descobri que tudo é símbolo:
cada astro, cada planeta
é o signo de um antiquíssimo alfabeto
que só agora decorei.

Recolhi todas as estrelas
e elas palpitam como peixes vivos
nas minhas mãos
maravilhadas.
E descobri que ser poeta
é saber lê-las
para você.

Otto Leopoldo Winck

A TUA AUSÊNCIA




A tua ausência repleta o vazio.
Cachos de inocência,
seio, aroma, pétala
invisível. Teu jeito não se vê,
na sombra se pressente.
A tua ausência é uma adaga
ou uma adega
abandonada.
Há poeira. Há quietude. Há penumbra.
Há expectativa também: é madrugada.
A tua ausência reelabora
a imatéria da memória.
Como um filme eu revejo
a lua, a praia, a rocha da enseada
e teu corpo
arfante,
em silêncio,
a se me entreabrir na areia.

A tua ausência é uma anêmona do mar.

Otto Leopoldo Winck

Azul da cor do azul




Estrelato corrosivo em que forjamos
Nosso paroxismo
E vertendo o ego traumas abaixo
Esteve redivivo.

Era adolescente a ser compreendido,
Nas páginas da história da psicanálise

Hoje eventos cíclicos de política,
Economia escada acima a ser
Catapultada, atômica, indesejada.

Nos brindamos com efêmeros sóis
De olhares, quiçá.

As mesmas colunas sociais,
A quem dirigíamos a causa da nossa
Revolta sem causa.

Quem manteve a lógica,
Quem manteve a razão
Quem manteve sexo,
Quem manteve-se no bar.
Quem saiu da lama,
Quem acaba de entrar.

Um fio, e uma linearidade
De esperança estoura o açúcar

Da pós-modernidade que ninguém

Entendeu, e estivera a negar.

Anderson Carlos Maciel

Brumadinho




Vale de lágrimas.
Vale de corpos.
Vale de lama.

Quem tem as mãos limpas?
Quem lavou as mãos?
Quanto vale a vida?

De um vale de dor
surge solidariedade,
surge amor.

Mulheres e homens de profissão limpa
com alma desprendida de si
e olhos para outros.

Não se escondem sob roupas limpas
e desculpas remendadas.
Mergulham na dor.
Mergulham na lama
com força e suavidade,
com fome e delicadeza.
Trabalham demais.
Trabalham quietos.
Trabalham com louvor.
Heróis do dia a dia.
Heróis nos desastres,
anunciados ou não.
Bombeiros!
Um grande abraço!
Um obrigado
de todo um País
que os acompanhou
chorou e rezou!
Deise Perin

Depois disso



Amar o que nos ama
Amar o estranho a falta
Amar por amar basta
E sempre será sempre
Tudo ou nada
Comédia
Drama

Amar o que for preciso
Amar o íntimo no mínimo
Amar além do instinto
Feito tiro no escuro
Depois disso
Uns riscos
Tudo

Adriano Nunes


Não te engrandeças por tua sabedoria. Pelo que sabemos deste mundo, sabemos só entre nós

(Pedro Martinez de Torres)




letras submersas
oceano que fala
palavras do mar

(Cristina Desouza)

Cotidiano




Seria talvez a tarde morna
por sobre a pele quieta
ou simplesmente
uma suave vontade de carinho?
Seria essa distância indesejada
ou nada disso
– apenas a constância
a incessante, intensa
a persistente instância do desejo
que se disfarça oculta
fantasia
e todo dia
mutante
se anuncia
nessa lembrança viva de teu beijo?
Dade Amorim

entropia.




Adentrei na desordem
na lenta desintegração
dos sistemas.

Sejam humanos
ou estruturais.

A oxidação
a ferrugem
e o caos
nos persegue.

Poderemos detê-los?

Ricardo Mainieri


A ansiedade,
nos faz cegos.
A ansiedade,
faz-nos tropegos.
A ansiedade,
traz-nos a visagem
na forma, que ela deseja e quer,
nunca do jeito, que ela verdadeiramente é...

josemir(aolongo...)

ABSTRATO EM LUZ E MEDO


Wender Montenegro   


O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Aquarela sem cor




Verte o vácuo
Surge o amor

Sonha o sonho,
Somos flor.

Urge pétala, urge vela, urge
Urge intervenção poética,

Na cabeça do lenhador.

Nem demais, nem de humanos
Busque teu buquê

E biscoitos e suflê,

E tanta caloria, e tanta aporia,
E tantos comensais,
Se serve a solidão servida

E a expressão garrida navega
Critérios estéticos,

Pra não dizer inteligência,
Pra não dizer outra vez o clichê.

Voo com asas de pedra, eu
A corrigir o momento plebeu

E anotar o telefonema a cobrar
Que me fizeram lá do alto do nada.

Se os excomungo a descer,
Se os bombardeio com tinta,
Infinda,

Se elevo meu ser.

ACM

segunda-feira, 13 de maio de 2019

UM BOM POEMA




um bom poema
já nasce sonhando
se é simples ou complicado o tema
se vem não se sabe como ou quando

nada disso importa
sendo bom, vale por um tesouro
mas é sempre galinha morta
o seu valor em ouro

um bom poema
já nasce feito à perfeição
é coisa de cinema
na tela da imaginação

um bom poema
pega a gente de susto
na emoção extrema
de um símbolo augusto

um bom poema
cai de maduro
do egossistema
para algum lugar do futuro

um bom poema
não precisa de explicação
e como não tem problema
da cabeça faz o coração

um bom poema
brilha sol em todos nós
amarelo como uma gema
branco como a paz em nossa voz

antonio thadeu wojciechowski
...

REBENTO




Trago
a morte
dentro da vida.

Enquanto vivo,
ela vai crescendo
e impondo
pouco a pouco
marcos, limites
e cabelos brancos.

Um dia
ela crescerá
de tal maneira
que terá me devorado
por inteiro.

Aí,
quando
for tudo
em mim,
tudo em todos,
a vida
– misteriosamente –
rebentará.

Otto Leopoldo Winck

SELVA SELVVAGIA




Na selva
selvagem
da linguagem
me reperco
bem ao meio
da viagem.

Não sei
se é cedo
ou muito tarde
para um beijo
na sua boca.

Sei apenas
que o instante
existe
e a canção
é muito pouca.

Otto Leopoldo Winck


Piada russa:




Um professor novo apresenta-se aos alunos:
– Meu nome é Abram Davidovich e sou liberal. Agora cada um de vocês levante-se e apresente-se como eu fiz.
– Meu nome é Masha e sou liberal…
– Meu nome é Petia e sou liberal.
– Meu nome é Joãzinho e sou stalinista.
– Joãzinho, por que você é stalinista?!
– Minha mãe é stalinista, meu pai é stalinista, meus irmãos são stalinistas e eu também sou stalinista.
– Mas Joãozinho, se sua mãe fosse corrupta, seu pai cocainômano, seus amigos todos estivessem na cadeia ou a caminho da cadeia... Você seria o quê, nesse caso?!
– Nesse caso eu seria liberal.
Olw

Delírio



Essa insistente hipótese
mal se sugere: súbito,
o clarão, tão logo a revela,
dissipa-a como um
íntimo equívoco. Delírio,
nesse silêncio, um batimento
de medusas engolfadas
por um mesmo pélago,
campânulas fluorescentes
consumindo o tempo
de seus afazeres enquanto
levitam nas profundezas
de um outro tempo
que as consome. Essa
teimosa hipótese se repete,
precipita, nesse relance,
nossa crença, nossa crucial
verdade, e o que se colhe
nessas margens, essas bolsas
que a maré despeja, talvez
um possível hálito, insólito
que seja, do que, desde
sempre, a eternidade.
De Marcelo Diniz, "Salto":

Um velho mergulha
várias vezes, várias
crianças, todos os seus
jovens lançam-se
antes que seu corpo
abrace, por completo,
a vertiginosa dose
de vazio desse evento.
Um velho está sempre
um instante a mais no
ar, terço de segundo
sem peso, suspenso,
enquanto vê os tantos
corpos descerem a queda
disciplinada e reta da lei
da gravidade irreversível.
Um velho já está no solo,
retornado à borda, já lá,
seco, certo de ter feito
todos os mergulhos,
e recebe todos esses
corpos que se sentam,
sucessivamente, onde
está sentado, há tempos,
após saltarem em sua busca.

 De Marcelo Diniz, 

Mãe da manhã




 Interpretada (magnificamente) por Gal Costa. Esta canção, feita por Gil, foi composta especialmente para a voz de Gal. Tiro certeiro. Para quem está à  busca de tranqüilidade, de calma, de paz.

(E que tudo seja belo. E que tudo se ilumine. E que tudo dê pé.)

De Gilberto Gil, o poema-canção "Mãe da manhã":

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia
Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar

                GAL COSTA - MÃE DA MANHÃ

Composição: Gilberto Gil Meu canto na escuridão Minha voz meu amparo Aro de luz nascente do dia Brotando

DOCE LOUCURA




me dou conta, assustado, com febre alta,
na parede, o relógio marca a hora,
são três e trinta e três e a doce flauta
de um anjo imagino ouvir agora

li um pouco do Mahabharata e Vedas
e um cansaço medonho em mim se estende,
por meus nervos, meus músculos e vértebras
mas o corpo ao descanso não se rende

não sou jovem nem dou voz à tolice,
mas sou quase incansável quando leio
se o livro tem razão e tem fetiche
a emoção põe no doce seu recheio

mas hoje não, a estafa, com o peso
de duas gravidades mais ou menos,
quer apagar o que mantive aceso
e atua sobre mim com os seus drenos

vejo a vida esvair-se, mas resisto
e um filme triste passa por meus olhos
então um sino bate e prega um cristo
estourando seus tímpanos e miolos

na angústia de ajudá-lo, pego um pau
e, agindo como um louco, desço a ripa
rasgando carnes com um ódio tal
que ao fim só resta um festival de tripa

e neste trágico combate imundo
vejo-me como um verme salivando
pelo fartíssimo banquete oriundo
dessas ações sem onde, como ou quando

mas ao ver cristo assim tão judiado
jogado e espancado pelos cantos
orei como jamais havia orado
até ser censurado pelos santos

só porque meu vocabulário é tosco
e nunca tive papas na papila
senti que tudo ficou cinza e fosco
e para me acusar havia fila

eram hipócritas, falsários, crentes
toda uma multidão de vagabundos
que na ânsia de serem diferentes
arrombavam a porta dos fundos

eu titubeava delirantemente
querendo saber quem eu era e só
mas acordei entrando pela frente
alguém abriu-me a porta e virei pó

antonio thadeu wojciechowski

Negro soul


Negro soul
Sou um Negro,
orgulhosamente bem-nascido
à sombra dos palmares,
da grandemocracia
racial
ocidental
tropical.
sou bem um outdoor
de preto
com a cara pro luar
inflando a percussão
do peito
feito um anjo feliz.
sou mais que um quadro-negro
atrás de um giz: um livre livro.
e sangue de outras sagas;
e brilho de outros breus:
quanto mais me matam
mais eu sobrevivo.
(negro é feito cana no moedor,
sofre e tira mel da própria dor.)
vou tocando passos,
vou tocando ginga,
vou tocando, vou
a deitar sangue
nos cruzamentos,
colorindo a palidez
dos que não têm cor.
sou um negro,
rigorosamente um negro,
à sombra dos palmares
da grandemagogia
racial
ocidental
Tropicálice!

José Salgado Maranhão

EM CARNE VIVA




Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China

Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia

Tem um pássaro cantando
dentro de mim

2011


quando você cala
quando você fala
você assume um risco
você escolhe um lado

não adianta depois
virar o disco
chorar sobre o leite
-- o sangue --
derramado

quando você cala
quando você fala
você escancara:
eu sou isso.

Otto Leopoldo Winck


sobe vagarosamente a fumaça do dia
em silenciosas sombras que albergam noites e barcos
me digo entre o amor e a fúria
a quietude fibrosa do pó nos móveis da casa

[circulo um pensamento sem rumo nas artérias do fogo]

agora compreendo a convergência química-política-poética
com nossos sons e cinzas formam-se os rumores da língua
que falam as teclas, as células, as árvores, os precipícios
escrever é pedir emprestado às coisas
suas noites e barcos
quiçá, algumas estrelas
durante a travessia
.
Carla Carbatti

PIGMALIÃO E REDESCOBERTA




Na pedra fria de neblinas branca,
Mármore etéreo desta folha franca,
Teu seio risco e rasgo a tua boca.

A forma tua que roubei da rosa,
Que espetalei de cada vez
Em que toquei a tua tez,
Devolvo já desde o mais fundo corpo,
E desde o imo espelho especulante,
Ao que é externo, airoso e fugitivo.

A forma tua que é o mesmo aflato
Aqui presente e de ti mesma
Transbordante, transimanente,
Com meus cinzéis ouso moldar
Em sol, em mi, em nós, em lá,
Em lua... E, ao depois, teu nome
De sussurros sei ouvir. E estacar.

Estátua viva que de trevas veste
Tua nudez (pres)ente e transparente,
Meu próprio sangue em si respira.
E o corpo nosso, material, formal,
Filho do amor, essa magia rubra,
Já me sorri... com lábios de Afrodite.


Igor Buys

15 de agosto de 2011


Deixa ir embora a sombra que te segue; espanta-a fulminantemente com a tua luz; clareia-a a ponto que todas as demais sombras também fujam de medo. De fato, as sombras têm medo da luz, e assim é tanto o seu medo que estão sempre na direção oposta de tudo que brilha, de tudo que irradia energia em clarões. Mata a sombra que te segue até mesmo pelas noites sem estrelas. Transforma-te em luz até dentro da maior escuridão; até onde os olhos não podem enxergar, até onde não conhecem o sol. Brilha!

Adriano Hungaro

quebra-cabeças


você é um quebra-cabeças
que se desmontou
e me desmontou também
separamos nossas peças
e nos montamos novamente
mas percebo agora
elas se misturaram
e em mim tem partes suas...
por toda parte.
Na minha boca tem seu gosto
nos meus olhos sua imagem
ainda sinto o calor da sua pele na minha
sua voz não sai dos meus ouvidos
e nunca esqueço do seu cheiro
grudou em mim
e a cada pedaço de você
que tento tirar de mim
dói e deixa uma ferida exposta
no vazio do lugar
e tem partes minhas na tua mão
no meu peito não sei...
se bate o meu ou o seu coração
as vezes também me falta ar
faltam pedaços de mim!
As cores do meu cenário
se uniram ao seu...
e eu...
já não consigo separar
monta suas peças junto as minhas
porque as suas não quero devolver
nem tampouco destrocar

Elcyr Carreira da Costa

letras submersas
oceano que fala
palavras do mar

(Cristina Desouza)


Um dia eu fiquei tão triste que quis arrastar todas as estrelas do céu. Desejei que o sol não mais nascesse e a lua despencasse sobre os transeuntes. Amaldiçoei a esperança, este ídolo todo de barro, e tatuei na testa um signo obsceno. Disse de mim para comigo: não tenho irmãos nem a perspectiva de encontrar um semelhante sobre a terra. Nesse dia voltei para casa, a pé, pelo trajeto mais longo. Todas as pessoas que eu cruzava viravam o rosto, repugnadas. Mais tarde, rolando em meu leito, desejei de novo ser peixe e nadar para sempre no líquido amniótico. De manhã, ao me olhar no espelho do banheiro, constatei que estava transformado em Caliban. (Chorei como uma criança que perdeu os pais numa feira.) Apanhei então uma navalha. Apalpei meus pulsos. Mas mudei de ideia e esquartejei você.

Otto Leopoldo Winck

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Provoca que Eu Góstio




 Ronald Magalhães

Doce Dilma, doce Dilma,
que luta essa renhida!
Se fujo de Campos Minados
dou com as Neves da vida!

E não quero entrar em fria,
doce Dilma, deusa, diva,
mesmo em meio aos pesadelos
eu te canto, ó patativa!

Diva Dilma, doce musa
guerrilheira destemida,
mesmo na dança confusa
quem samba sabe a saída;

E não é pela direita,
sabemos, ó porta-bandeira,
Sem que se perca o passo
nem a ternura brejeira,
corramos pro grande abraço
descalços ou de chuteiras;

Mesmo com os teus erros crassos
Dilma doce, doce Dilma,
eu sigo de perto os teus passos
quase já perdendo a calma,

O mundo é neurotizante,
doce Dilma, a vida é breve
por isso eu grito que chega
de tanto ódio troante!
E fora Abomináveis das Neves!
Fora Fields forever farsantes!

Cinco sonetos frívolos


  Paulo Henriques Britto

i

Hoje acordei bem prático, sofístico,
sem pudores de lógica e moral,
fechado em mim, feito uma ostra, um dístico
ou uma pedra (mas não filosofal).
Devia haver mais dias como este,
livres de compromissos com dois mil
anos de ocidentalismo, a nordeste,
a sul, a sotavento do Brasil
ou do que quer que seja. Simplesmente
ser, sim, mas contingência pura, só,
nada que deixe um rastro ou excedente
em sangue, fezes, páginas ou pó.
Dias de amarrar barbante ao redor
do nada, e capturar um deus menor.

ii

De vez em quando o mundo faz sentido.
Questão de ângulo, de na hora exata
não se atentar pra página do livro
supostamente sendo lido, a faca
com que se vai cortar o que merece
ser cortado — e, em vez, levantar a vista
não pra ver algo, e sim como quem quer se
lembrar de uma coisa há muito esquecida,
só que não há nada a lembrar, a não ser
a suma importância de não se ter
nada a lembrar, nada que valha a pena
sacrificar esse momento único
e inteiramente vazio em que o mundo
faz sentido. Ou parece. Pelo menos.
iii
Mesmo o mais sólido some
sem deixar nenhum vestígio,
sem nem se ter (como exige o
costume) lhe dado um nome.
E, como sempre, o sentido —
que se dá a posteriori,
antes que se deteriore
de todo o mal percebido —
não capta mais que um minúsculo
ângulo do evento único
que só durou um segundo.
Entrementes, coisas mais
surgem, somem, num zás-trás,
e agora já é outro o mundo.

iv

Até onde a vista alcança
é real todo o visível.
Como dançarina e dança
formam um todo indistinguível,
assim também não há esperança
de se atingir algum nível
em que uma e outra substância
se separem, dando alívio
à consciência inquietante
de que no próximo instante
o erro vai ser dissipado.
Não vai. O logro é absoluto.
Melhor relaxar os músculos
e aproveitar o espetáculo.

v

Súbito? Não. A coisa morre à míngua,
um risco vira traço e o traço, ponto.
Por exemplo: uma manhã de domingo,
a
mesa posta pro café, tudo pronto
pra não se fazer nada — ou então
a noite de uma terça-feira inane,
sob o quebranto da televisão —
mas isso não importa; que se dane
o tempo, e o lugar também (um boteco?
o elevador?) — pois chegou ao final
um processo previsível, perverso,
trivial, que reduziu o universo
a uma bolinha de papel, da qual
você se livra com um peteleco.




do livro Formas do Nada

nomorro



[assionara souza]


a paz é triste
atônita surdez
depois do seco estampido

passos curtos e cambaios
a mãe recolhe do varal
a roupa que o menino
não vai mais vestir

não estivesse ela àquela hora
limpando a festa suja na casa que não é sua
longe de sua vida real e do seu menino adorado
teria gritado: — vem pra casa, filho!
tem polícia no morro!

céu azul de abril
guarda desde sempre
este fatídico e recorrente encontro
entre a cabeça do menino
e o projétil fatal do assassino fardado

terça-feira, 7 de maio de 2019


estamos aí
na luta
em meio ao gás lacrimogêneo
spray de pimenta
balas de borracha
em meio à chuva
em meio ao caos
aos edifícios cinzentos
nas ruas
nas avenidas
nas praças do mundo
estamos aí
na luta
e nossos punhos erguidos
nossos olhos vermelhos
não são de ódio
mas de indignação
não são de ira
mas de amor
estamos aí
na luta
e esta luta é paixão
que força alguma vai acabar

Otto Leopoldo Winck


Pensei em ligar para o hospital veterinário da PUC e sem querer liguei para o psiquiátrico.
-- Alô?
-- Alô. Vocês fazem castração?
-- Ham?
-- Sim, castração.
-- Não é internação?
-- Não, é castração.
-- Está grave assim? Acho melhor uma internação primeiro.
-- Que internação que nada! Basta uma castração. Meu cachorro só pensa em comer meu gato.
-- Acho que o senhor ligou para o número errado.
Silêncio.
-- Também acho...

OLW



Sobreviver, algumas vezes

a toda morte que o corpo carrega::

os abraços

o peito e o pátio da casa.

Sobreviver a deus sem deus

com o que há nos dentes,

pré-molares infeccionados,

a tudo que sobrevier sobre a terra.

A desmedida,

morte bruta, ainda que pacífica,

acima da cabeça silenciosa.

Marcelo Martins Silva

OFERTA




Como a voz de muitas águas
você me acordou dentro da noite
e eu era como um velho navio naufragado.

O canto dos peregrinos
me chegava aos ouvidos
como uma recordação maldita.
E de repente eu desejei
que não houvesse sol – e nos tons sanguíneos
que antecedem o dia
tudo se revolvesse
e resolvesse.

(Tenho andado tanto
e cantado pouco – pensei.)

Por isso aqui estou
à tua porta
e trago como ex-voto
os veios que as bátegas da chuva
abriram no meu rosto
– e as minhas mãos cansadas
e vazias.

Otto Leopoldo Winck

Do 'Cosmogonias'

Parestesia




Vivo esta vida de movimentos mínimos
atravesso a espessura indevida
pelos olhos e pelo degredo
não me interessam as correntes de ar que propagam a voz aos quatros cantos
mas o grito bendito de espuma
na boca do agonizante
o deus liberto e delinquente

vivo do verbo, minha vaia.
RTD

SACRAMENTO




Teu corpo é belo
não porque seja perfeito
segundo a régua
de olhar alheio.

Teu corpo é belo
(ainda que frágil)
porque é o lugar
da manifestação de tua presença
– única e irrepetível –
no tempo e no espaço.

Ora, o tempo
escorre
e o espaço
se transforma
sempre. Mas a graça
que se mostra em ti
a cada instante
se renova
em novíssimas formas.

Por isso,
cada veio
que se abre,
cada veia
que se mostra
nada mais são
do que sinais
(ainda que frágeis)
de um deus que se revela
para além das aparências.

Otto Leopoldo Winck


"Há o tempo de nascer e o de morrer.
Entre os dois são o Homem e seu tempo:
o largo espaço-tempo, claro tempo
que vai desde o viver ao não-viver.

Há o tempo de cantar e o de sofrer
e o de cantar sofrendo, e o de, cantando
sofrer; e há o tempo desse canto,
que o tempo dado ao homem é mercê.

Há o tempo de fazer e o de destruir,
e o tempo de sorrir e o de chorar,
de se manchar e de se desmanchar;

há o tempo de abraçar e o de partir,
e o de nascer, no tempo de abraçar,
e o de morrer, no tempo de partir."

Renata Pallottini


quando você cala
quando você fala
você assume um risco
você escolhe um lado

não adianta depois
virar o disco
chorar sobre o leite
-- o sangue --
derramado

quando você cala
quando você fala
você escancara:
eu sou isso.

Otto Leopoldo Winck

ate morrer




● quando inquieto acordo do meu sono so ●
● procuro logo palavras dos meus sonhos ●
● mas apenas bem poucas são lembradas ●
● jamais como foi o poema completo e claro ●
● mas vou trabalhando as palavras soltas ●
● sei q jamais serão o poema a vida livre ●
● nem poesia nem sonho apenas estilhaços ●

● sei q um dia um poema sera montado ●
● não terei poesia conversa so ou vazio ●
● nem mesmo pesadelo mas um revolver ●
● com todas as balas novo e guloso ●
● o cano limpo vendo a bala passar ●
● sem esse poema não posso me matar ●
● vivo assim criando e rindo ate morrer ●

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ALC