sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discurso direto


Sói 
Ser
E se?

Não?
Pois, entabularia planilhas
De ilhas de genuínas
Alcalinas
Fantasias.

Ao vento a coragem
Ao mar o coração.
À luz minha fé
Ao léu meu princípio:

Entabular conversação

Idiomas em riste
Flores invernais
Ao chão.

Anderson Carlos Maciel

quinta-feira, 22 de setembro de 2016


fique em silêncio
como um ramo seco
vem aí
uma primavera
a te florir


bárbara lia

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Últimas notícias


(Ou promessa do transcendente poema)

Assassinado-
Assinado

Enluarado
Parvo brado

Mar revolto?
Ou filho douto
Das tuas ondas
Sou?

Onde
Onda
Nozes
Nós

Aedos mais
Quintais a regar
Com ar, mar e salgar
Asas
Das pragas, bestas,
Frestas
Ledas

O marketing da esmeralda
Que não passa
Passa, - cão insólito.
- quartzo verde -
Poluto olhar por telas
Fusão de seus cristais
Do outrora líquido "marketing"
Que escorria:
Cuidados seus.
Em telas, nas telas,
Sim tuas telas...
Nas vielas
Eu

Do amanhecer
Pessoal, festival, róseo
Quartzo rosa
Olho-de-tigre
Em mais moças
                virgens

Sacrificá-las à
Lira de Apolo.

Anderson Carlos Maciel

Incansável semântica



Entre
Sopros, entre-sopros
Sôfregos, trôpegos
Sempre
Sonhos
Torpes, força, tela, toda
Tinta
Todo lodo nela
Cavalga leda poesia
Alforria do verbo
Em tempos astrais
- pontuá-lo -
Sem mais estilos
Apenas
Poemas
Emblemas ainda
"Soi même"
Sem regras
Helenas

Canções no meu
Laço.

Anderson Carlos Maciel

Da redação



Uma onda
De subjetividades
Calam-se

Temporais...
Sinais
Poluição.

Expressão
Sinistro sociológico:
Imersão inconsciente
No mel da dor do outro.

Sonhos mais,
Cristalinos

Alevinos, - poemas
Salgam-se,
- caracóis!

Seus sóis
Roubados.

Levo-os, luzidios,
Ao bolso do ego.

E saio da cena.

Anderson Carlos Maciel

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Expressão lilás


A canção
Subsiste
Razão

Pois
Profissional
Laboral labor valor
Estudo
Tés

Navego superfícies
Mergulho em mares
               - técnica!

Iluminismo
Em sílabas-tinta
Finda, - poesia -

Desvelo da admiração
Chavão a chavão

Artistas na pista

Infinito
Que - bonito -
Derrete na boca:
Leitura estável
Sr. Atlas,

Sou
Oceano alado.

Anderson Carlos Maciel



para mim
Expediente e meta (redação)


Fui
O que rui

Sou
As águas doces
Salgadas
Pedras
Nas enseadas
Burguesas

Não comento os quadros
Caros
Que as crianças não
                 comerão.

Arte
É processo
Ao avesso
Da canção

Apenas admiro
Teus passos que fitam
Meus passos, excitam,
E evitam
- escassos-
Laços das prisões.

O que aprendo, ensino
E o que ensino aprendo a aprender
A ensinar
Sem tocar o sagrado
- não tocar -
Jejuar
O teu mar que não quer
                           contemplar
O meu mar

Infinitamente
Presente

Estrelas verdadeiras,
Sóis
Ao teu luar

Use nos cabelos
Meu desvelo
Cintilar-idioma
              e não

                   "língua"

Anderson Carlos Maciel

domingo, 18 de setembro de 2016

'Brasilha’ da fantasia


*
Ninguém acorda com culpa na Ilha da fantasia,
ninguém se sente culpado na ilha da fantasia
e não ser de todo inocente
é sempre muito normal na ilha da fantasia.
Na ilha da fantasia não interessam
os olhos inocentes dos filhos antes de dormir
os filhos apontados na rua
o que dirão os colegas na escola
e as crianças dos vizinhos.
Não fere arde envergonha
o olhar confuso das crianças
ao ler o que sai nos jornais.
Vamos ao que importa na ilha da fantasia:
a gratificação a estabilidade
a comissão as garantias
o adicional os benefícios
os 18% que me cabem
se não vou aos jornais
e conto da parte que não te cabia mas você levou
na ilha da fantasia.
Eu te filmei eu te gravei
eu sei de tudo da tua
deliciosa doce vida,
portanto, morreremos de mãos dadas
abraçados
atirando uns nos outros
até que nos esqueça a fugacidade da imprensa
e nos confortem as mãos amigas da Justiça
o entendimento do digníssimo desembargador
a interpretação da lei no tribunal superior.
Venha a meu gabinete
passe em meu escritório
vá com sua mulher lá em casa
daremos uma festa
faremos um jantar
quem sabe outros agitos até de manhã.
Ninguém é culpado na ilha da fantasia
ninguém deve nada
à mulher que espera o ônibus
e não combina bolsa e sapato,
à outra que atravessa a BR
longe da passarela,
nenhuma explicação merece o homem cansado
que sai tão cedo e volta tão tarde
levando no rosto
o resto de sonho desfeito.
Todos deitam sem culpa na ilha da fantasia
depois que se apagam as luzes lilases das festas
que se esvaziam as travessas
sossegam-se as bebedeiras
calam-se os vômitos
encerra-se o pó
e a paz reina envergonhada.
*
André Giusti

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já é setembro, né?
então disfarça
e pega no jardim do prédio
alguma flor que te sirva no cabelo.
mas vá logo
antes que venha outubro
e apareça o síndico milico reformado
explicar com detalhes que
a convenção do condomínio
proíbe o roubo de flores.
depois, vista aquela saia laranja
de estrelas lilases e círculos vermelhos
que te mostra acima dos joelhos,
e ao piano
toca Chopin para animar e alegrar os anjos.
eles andam cansados e tristes por causa desse mundo
indiferente às crianças palestinas mortas na guerra
às crianças judias mortas pela estupidez das bombas
às crianças mortas pela insensatez da fome na África
às crianças sírias que aparecem mortas na praia
às crianças pobres abandonadas pelos pais miseráveis
às crianças ricas abandonadas pelos pais ocupados demais.
os anjos estão desiludidos com o mundo indiferente às crianças às crianças às crianças
e aos velhos espancados pelos filhos e netos queridos
às mulheres tratadas aos chutes
aos homens sozinhos sem sonhos
sem mulheres que os entendam chorar.
colha flores, toque piano,
porque a morte, quem sabe, em algum ano
poderá vir na primavera,
mas enquanto ela não vier
haverá chance pro síndico
para todas as crianças
e todos os velhos
mulheres
caras solitários,
afinal, é setembro, e sempre dá
mais vontade de viver e ter esperança.
*
andré giusti, 2015

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"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
.

- Caio Fernando Abreu, em “Os Dragões não conhecem o paraíso”, São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

Ode à ex-musa Medusa.


Ela
Bela
Bocca chiusa

Medusa
Reluza, confusa
E Perseu
Que a usa

Para obtusa
Confusa
E lusa
Selvageria

Apolo
Que a castiga
Lira
Toca, afina, rota
Sinfonia

Enciclopédias
Da chavão
Biografia

Medusa, musa, sina
Da poesia.

Poetas que não leram
Mitologia.

Anderson Carlos Maciel

Trecho de Voando pela Noite (até de manhã )

“O drive-in não passava de um terreno baldio e escuro, cheio
de árvores. O proprietário, sem dinheiro para construir um motel,
ergueu uma porção de boxes separados por muros de cimento, onde
se estacionava para namorar. O preço era uma bagatela e dava para
ficar ali até o amanhecer. A única exigência era entrar com os faróis
baixos para não iluminar nenhum par de peitos no carro dos outros.
– Onde fica a tela desse negócio? – Evelyn perguntou.
– Na sua imaginação. – ele respondeu, sem acreditar que ela
fosse tão inocente.
– Mas e o filme? – ela insistiu.
– É o mesmo. Há milhões de anos.
– As pessoas vêm aqui para transar?
– Não necessariamente.
– Mas num lugar escuro como esse, um homem e uma mulher
não ficam dentro do carro apenas conversando e escutando rádio...
– Provavelmente não.
– Então o que a gente vai fazer?
– Conversar e escutar o rádio. O que você acha?
– Não acho legal.
– Então, só resta uma opção.
Ela sorriu. Chegou mais perto dele. Evelyn tinha os seios lindos.
Talvez mais lindos que os de Maggie.”
André Giusti

Expediente noturno da loucura



Ela
Vomita sóis
Como quem

Compete
E não compete
Por luz

Alcaçuz
Pus e doutrina mítica
Da poesia

Entre
Sonatas de imagens
Vastas

Concretiza-se
A alforria
Da forma

Bocetas criativas
Esquivos gozos
Enluam-se em seus
Cobertores
Protetores
Farrapos
De putarias-paroxias

Clímax volta a ser clímax
E não biologia

Um estalo dos dedos
E a hipnose termina

Regride o ego das luzes Curitibanas
Em insana,
Paisana
Epopeia
Nas veias virgens das
Metáforas selvagens
Dos caminhos agrestes

Formas
Normas das estrebarias
Das idéias

Eu

Laçando metáforas
Deparo-me com estéticas
Em escadarias
Cujos baldes-de-água-fria

Meu amor
Não me trariam

Nem mesmo em delírios

Da mais fina
Insegurança tardia.

Anderson Carlos Maciel

Livros da minha vida 10 - As Forças Desarmadas


*

Por ocasião de feriado de sete de setembro, postei no feici búqui que meu desfile do Dia da Independência seria com trabalhadoras, campoenses, médicos, professoras e por aí vai.
Nada contra os militares, mas até hoje não entendo porque, sendo a pátria e sua independência (?) lugar e conquista de todos, porque, então, apenas um estrato da sociedade deve estar representado na marcha comemorativa?
Bem, mas não é sobre isso que quero falar.
Encerrei o post daquele dia avisando que meu desfile seria o das forças desarmadas, e é aí que entra o que tenho a dizer.
As Forças Desarmadas foi um dos belos livros de contos que li em minha vida, ainda bem jovem, mas o curioso é que só cheguei a essa conclusão algum tempo atrás, já bem mais pros 50 do que pros 40.
O autor, Júlio César Monteiro Masrtins, apresentava um pequeno programa sobre livros e literaturea na primeira rádio em que trabalhei em minha vida profissional, ainda como estagiário, a Estácio FM.
Em uns dez ou doze contos (não lembro bem, não tenho mais o livro na estante, apenas em minha lembrança), Júlio César apresenta uma visão crítica da juventude da época - primeira metade da década de 80 -, perdida nas drogas e no tal vazio existencial da falta do que e de quem amar, oprimida pela agonizante ditadura militar e já escravizada pela indústria cultural.
Acho que o livro tem um cheiro de Caio Fernando Abreu, grande influência da época. Se por acaso você aceitar minha dica e se interessar em ler, diga depois se achou o mesmo.
Júlio César Monteiro Martins escreveu mais livros. Lembro que li outros dois, mas me passaram em branco.
Fiquei anos sem ter e procurar notícias dele. E sem lembrar de As Forças Desarmadas.
Até que, há não muito tempo, soube pela internet que fora viver na Itália ainda nos anos 90, me parece.
E que falecera em 2014.
Impactado pela notícia, o nome do livro pulou automaticamente de velhos fichários mentais, trazendo pela mão seu conteúdo e seu valor.
Saiu do ostracismo de minha memória de meia idade para desfilar na avenida chamada Livros da Minha Vida.
*
André Giusti

sábado, 17 de setembro de 2016

 “Eu precisaria de alguém que me ‘ouvisse’, mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Porque é assim que eu ouço as palavras ligadas a esta história. Cada uma tem seu significado sangrento, no estranho ‘Sertão’ que venho edificando aos poucos, ao som castanho e rouco do meu canto, como um Castelo de pedra erguido a partir do Sertão real.”
.
- Ariano Suassuna, em “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 80.


Do universo à jabuticaba

"Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores do outono, o banho da cachoeira, mãos que seguram, o abraço do filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse: ‘Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida’."
.

- Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 144.
Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
.
- Gregório de Matos, in 'Obra poética'. (Org.) James Amado. (Prep. e notas) Emanuel Araújo. (Apres. ) Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.


ando pensando


Carne insossa das horas


Em esperas
Pelas eras
Aos cosmos
Volto o olhar

Se o mar...
Se o mar...

Um poema, numa concha
Ilusão de um perfume
                nos cabelos teus.

Todo o dinheiro do mundo
Todo o lirismo da lira
Todo o sal da água

Emparedado pelo sublime
Dispo-me das convenções
Gargalho sob um pato
No ato
De cozinhá-lo ao forno
Próximo
À velha TV rósea
A que ela gostava de assistir.

Fui vegetariano
Fui anglicano
Malandro
Puto
E burguês

Olhos que me olham
Não fitam o coração
Aspiram
Redenção

E canção

Que ora canto
Com meu pranto

A todos vocês:
Eros cruel frecheiro.

Anderson Carlos Maciel
20:07 (Há 1 hora)

para mim
Canção para ninar as filhas

A armadilha
Do inconsciente
O sonho

O pesadelo é latente
Meninas
Das calhas
Fornalhas
E quadrilhas

Labirintos do que sinto
Sonatas
Revelam...

Sois
Filhas

Que aquelas quadrilhas
Elencam ao poder

Sua geração do silêncio
Enxuga o Estado
Catártico
Do devir da lua
Tua
Nua
Branca, lança, tanta
Encanta
Quebranta
E mira

A lira

A lua mira a lira
E vira
Foto, fóton, e simetria
Vazia ao som do vento
No momento
Em que a caneta
- abandonada -

Contempla a tecla
Fonada e invernada
Traduzindo a cantata
Da caneta calada
Na calada da noite

O romance entre o poeta
E o papel em branco
Cujos egos mancos
Não se dão bem

Eu por minha vez,
-filhas!
Conto as maravilhas
Das terras helenas
Que as lindas filhas
Filhas eternas
- pequenas -
Aprendem

Poema adjacente
Que aquela gente
Vê nascer.

Flui a cascata
Flui a sonata
Poesia

Maresia em latitude sul
Luzes Curitibanas
Filhas bacanas
Da lira de Apolo
No solo onde imolo
Dolo
E Culpa
Da razão

De estar só
Pai de vocês

Sonhei com tua educação
Mas não pude cumprir
- o pão -
Não enluarei, serão
Festa de quinze anos
Bonecas que não te dei

Teus livros
Meu crivo
Filhas...
São cartilhas
Da maravilha dos contos
Das ilhas
Do bar no Mercês

Para onde um anjo voa
Quando o sino soa
E dormindo
Filhas e filhos
Seu brilho, - no olhar
Pálpebras cansadas
Pela leitura pesada
Do sonho que sonhei.

Morfeu cobre a frota
Dos carros dos sóis
Os anzóis que preparei
Para findar a épica epopeia
A ideia do que escreverei
A vocês
Filhas e filhos
Cujos brilhos e brilhos
Economizam a pilhas
Dos brinquedos das filhas

Para as quais volverei
O álcool acabou
Filhas - e seu cheiro
Aroma de poleiro burguês
Quando notaram
Não dormiram
Vocês.

Seus sonhos,
Metaforizadas matilhas
Filhas
e filhos

De Apolo

Lira, infira, fira e insira
Caipira global
Um feliz final

Era uma vez...

Anderson Carlos Maciel


A Ronda Noturna


Prisão de lágrima



Escorre
Em uma página
Frágil
Carinhosa

Formosa rosa
Que prosa
Subsumiu.

Em silêncio
Reverenciou o que amou
Nas terras do bem Brasil

Em sonho
Transportou
A sonhos risonhos, carícias
Verbais
Astrais quais infantes
Da lira
Caipira paranaense
Que imita
O riso do ciso
Impreciso
Do cordel global

Não sou
O ser

Pois
Quem foi
Sonhou, - que o beijo
Sim aquele beijo

Ao pé da tua inteligência
Era a sapiência
Da saliva economizada
Transportada em brasas
Ao solo da tua
Toda tua
Indiferença oligárquica
Semiótica
Do meu poder
Em te amar, - tão só

Se tinha dó,
Se eu era só, - o pó
Bemol

Hoje o sol
Não brilhou você

Desencante-me, carinho
Este versinho
Ao vento mansinho
Do meu pelo marinho
Enleve tua lágrima

Ao rodapé da página
A enluarar frágil
Senil poema
Ao fim dos dias
Quando a espera, - e a agonia
Arrefecerem teu vazio
Da minha língua
À míngua
Conjugando tua rosa
pela prosa
Da novela
Sentinela ao alto
Infausto
Do nosso verdadeiro
Sonho a dois:

O amor.

Anderson Carlos Maciel

Meu ipê- amarelo


Dentro da noite veloz


Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

- Ferreira Gullar, em "Dentro da noite veloz", 1975.

Homenagem a Carolina


Paisagem sexual


Maciços de catingueiras
salpicados nos tempos de chuva de vermelhos
ao sol como pingos de sangue fresco:
e de amarelos vivos
e de roxos untuosamente religiosos.
No verão, chupados pelo sol de todo esse
sangue e de toda essa cor
e quase reduzidos
aos ossos dos cardos
e a um mundo de formas esquisitas
de ascéticos relevos ósseos,
de meios-termos grotescos entre o vegetal e o humano,
de plágios até da anatomia humana
mesmo das partes vergonhosas.
Não haverá paisagem como esta
tão rica de sugestões
nem animada de tantos verdes,
tantos vermelhos, tantos roxos, tantos amarelos,
e tudo isso em tufos, cachos, corolas e folhas.
Como os cachos rubros em que esplende a Ibirapitanga
e arde o mandacaru,
como as formas verdadeiramente heráldicas em
que se ouriçam os quipás
Como as folhas em que se abrem os mamoeiro,
Como as flores em que se antecipam os maracujás,
como as manchas violáceas das coroas-de-frade.

Gilberto Freyre


- Do livro "Poesia reunida", ed. 2000.

No Terminal do Hauer, Curitiba


Posso me desfazer de alguma memória crivada,
Aferroada na alma, alongada e infértil.
Posso desobstruir o passeio,
Levando dele o que secou, o que passou.
Posso pinçar uma dor revoltosa,
Montada sobre o dorso do sonho.
E dos nítidos lanhos, traçar uma arcada na pele,
Um desenho, uma pintura em vermelho.
Transformar em signo, música,
Místico enredo, trama de ave canora.
Mas é da sua alma que tudo rebenta.
Das suas mãos que tudo escoa.
É do que você evoca que aconteço.
Não vou a parte alguma, amor meu,
Enquanto ouvir você dentro de mim.

Rosa Maria Mano

O Pescador e o Poeta


Ricardo Pozzo

Já Curitiba é uma farsa midiática, cuja burguesia, quase extinta, sofre do complexo do Barão do Serro Azul, reza para Deus, acende vela pro Diabo, mas mantêm-se neutra em tudo, menos na manutenção do próprio poder.
Matamos os índios, excluímos os negros, o que nos restou foi o sertanejo [mistura de negro, índio e português] mas do qual sentimos um certo acanhamento em pertencer.



O Discófilo


Sonho no corpo do poema


há rosas e caminhos de cereja em teu corpo.
suaves maçãs aéreas de delicados perfumes
florescem em teus seios como um olhar azul.
percorro densa alameda de caminhos
no balé de carícias que envolvem minhas mãos.
tateio calidamente tua pele de poema
que viceja acesa na sutileza alada de teu púbis.
sendas despertam a flora úmida.
afogo minhas palavras na tua língua edênica,
e sou pleno sonho no sonho lúcido de teu corpo.

(poemas são tatos e delicadeza de caminhos)

Sérgio Villa Matta

Historiador do Presente (2)


SEIS DORES DE SOLIDÃO E O MAR


Por Lívio Oliveira

(I)
Rochedo e sono
Inaugurada a tarde interna – esforços bravos
firmam-se em mirar entre as palhas secas: vidas
lá longe o frio se arrasta leva a folha ao fundo
dos meus olhos que explodem ao meio-dia ainda
em cataclisma em catapulta aleatória.
Há os ventos que penteiam a duna inteira
e as faíscas que pulam das areias duras
se aliam ao mar que cabe dentro hostil
armando os templos imemoriais
enfrentam rochas: barco só e tosco.
(II)
Barulho e caverna
Ouve os sintomas das marés que avançam
molhando os corpos das razões e so(m)bras
os sais brilhosos das costas e testas
não refletiram o marco firme o umbigo
do oceano que adentrou o milênio.
Força agora um tempo estranho e roto
de multidões de caranguejos vagos
cascas que rolam soltas – superfície
prateada: a juba cheia atlântica
recuada ante os mais fortes ventos.
(III)
Despertar atônito
As tais surpresas transportaram em ondas
aterrissaram em margens assimétricas
foram tragadas do mar alto em torno
vieram brancas como voz em vibrato
as velas ornamentais dos inibidos passos.
Estar à margem não era então vergonha
havia um ponto em que engolia algas
alimentava a luz do sol tardia
a primitiva explosão em mar vulcânico
que se espalhava em sobejos ardidos.
(IV)
O delírio aceso
Custava tanto entronizar o santo
dos rudimentos que chegavam em barco
assoviava então canções de esperanças
mergulhos sonhos que escalavam locas
onde as cores afiavam os dentes.
Até a tona o ritual seguia
incandescente dentro dos pulmões
robustos peixes rotundas aves
chegavam remos aos portões da noite
salvando o dia ainda não guardado.
(V)
A voz devagar
Era no mar e não havia espasmos
que impedissem a correnteza bruta
escorregando em meio aos corpos nus
carnes abertas seios de sereias
bocas imensas de arrecifes negros.
Tudo era tragado e o urro lento e forte
ditava horas para os navegantes
de dentro a pedra e a canção de fé
de uma criança solitária e inerme
ousada em crença de retorno à terra.
(VI)
A dor ainda
A intensidade da dor lancinante
causava estrondos nas falésias – montes
de pés sobre o mar pisando a enseada
redesenhando as posições dos homens
que se jogavam em loucas aventuras.
Não eram incautos eram somente ilhéus
que se lançavam das graves alturas
buscando rotas que acalmassem prantos
feridas que se rasgariam ao vento
o sangue: mistura ao mar e ao sal.
(VII)
Derradeira ilha
Apascentada em luminosa estrela
virou o raio a direção eleita
até o ponto em que o brilho elevava
a nova fé que aproximava margens
demoliu dores resgatando o sonho.
Os continentes até então distantes
se religaram estreitos monumentos
vencidos demônios de escurecidas almas
o sol retorna à margem à praia ao dia
e o que era ilhado agora é continente.
_________
Poemas publicados na revista "Barbante".


G.G.Flores & R.T.Gonçalves

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

para mim
Catacumba do silêncio

Nuances
Chances
Esperas

Quimeras e o lance
Transe da forma sincera
Cera
Pera

Tocar a alma,
O espírito invisível
De Deus
Alimento da palavra

A doce fava
É conteúdo teu
Afixado
No papel-de-parede
Do teu ego

Estética prima
Minha rima
E meu sofrer

Se eu não amasse
A minha arte
Em toda parte
- progressão geométrica -
Haveria não ser.

Sonhe
Com outros rios
Desaguando no mar.

Sou

Mar alado.

Anderson Carlos Maciel

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Recesso ao vácuo



Intacto
Pacto, rito, norma
Porta-copos, noite adentro

Lua
Refino o semblante, força!
A corça à Diana

Não
Chova lágrimas

Não
Ria sóis

Não proíba o ser
Incólume
Dentro de você

Adentro, regras
Cegas
Deficientes, - pelo poder.

Sim
Sou

Fluxo...

Enluto teu parecer

Se desejas arte
Desejo transcender.

Ler
Leria
Leio, lerão, lemos

Serenos, plenos
Helenos filósofos
Ao amanhecer.

Curta, consuma
Distribua, sonhe...

2000 "spams" do meu ser

Adquira nossa revista:
Olhos do artista
- Marketing global -

Sobreviver assim
Enfim
No mercado editorial.

Com qualidade
- pela cidade -
Poesia experimental.

Anderson Carlos  Maciel

EFKARISTO FILOSOFIA


                  (Dedicado aos pacientes e virtuosos amigos helenos)

TELOS TIN AGAPI
PRAGMATA EISAI?
KAI OUTE EISAI
PANTA SOFIA?

TOU SOFOS EGO EIMAI
HELENIKA DIABASEI
"FONEMA"
NEO FILOS TOU NOUS
KOSMOS POLI ENIGMA

SOFOS?
OUTE TELEI ENA GRAMA?
KATA POIA PRAGMATA KANEI
WRAIO TRAGOUDI APOLO MILAEI
METRO
METRON
METRASOUME OLOS
TON NOUS PNEUMAI TAIS FILIAS
TO MEGALO KRONON
KOSMO POLI SIMANTIKO
MORFH TIN LEXE

KATALABEI OI LOGOI
LOGOS POIOTITIS
TELEI, EKHARISTOS
GLOSSA KAI MORFOS
TON EGO SOU ARETIS

ARET´WN
FILOS - FILOSOFOU TOU
FOBO TIN PNEUMATIKI LEXICO
ALETEIA TELEI PSEMA
METRO TO KOSMOS

ANTROPOS LOGIA
EPISTEME
LOGOS
KATALABEI
TIN OUSIA?
TIN BRASILIA...


Anderson Carlos Maciel

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Referências Bibliocráticas

Novelo
Zelo
Arte e desvelo da consciência

A ciência do léxico inexistir
Como elenca às pencas
Às telas
Cadelas
Do eterno lodo do devir

Não demoro
O que oro
O que silencio
Metro
Cadência
Norma, forma, torna
A se gerir

Sociologia tácita
Tela flácida
Acenando nádegas a mim
Suor do povo bobo
Livros que leio todos
Entonação da voz

Pois sempre o espetáculo
Do bom-gosto
Não contraditório
Com seu princípio normativo
Inerente
Imanente
Gente
Sente
Qual meu coração

Elucidar novamente
A constituição
Reescrevê-la, sem lê-la
Um parágrafo sequer

Escreveria,
Sim escreveria
A caneta
Preta
A caneta
Azul
Caneta tenta
Lenta ao sul
Caneta vereda cerda
Ao norte em ode ao céu anil

Se quis reescrever o Brasil
Se tornou a esfacelar a moeda
Que nos provém o pão
Com os sem-grão afã de ser
Qual lerda herança que não tarda
A usar a farda do refrão
- Que entoarão, em pensamentos -
Dentro o momento atento
Ao léu que o céu vive querendo:
Amar a dois, depois e sem os bois
Manipulados pelos mesmos
Parlamentos.

Olhe para a sina
Da Argentina
Será o revide da estirpe e bile
- Do Chile -
Ao Brasil que copula, enjaula
- que engula - em aula
O infante semblante
Em fauna humana que imana
Ao norte da bandeira
Que cobre

O caixão fétido da tela
Que subiu ao Olimpo
                      Roubar o fogo.

ACM

para mim
Não contentamento

A luz que te seduz aos olhos do pus
Não fui eu ontem o que experimentou
Rota do hemisfério da dor solene


Trevas

Elas sugam, matizes escarlates
Luas negras não Africanas
Mas cinzas de sonhos
                De joelho ao pé da cama, lágrimas.



Norma da felicidade

Sempre, tormenta aguda
Muda e inunda funda e rotunda
Panela da discórdia


Sentimentos vulgares, apenas

Quais semblantes das penas?
Se dileto gosto o Hai Kai poema?
A cena revindica a forma Iracema.


Ferida Argentina

Ladra a metáfora que voa
Alado poema, rumo norte
A baba que voa acerta o ângulo
                            Miercoles sul do ego Latino.



Anderson Carlos Maciel

À moça da luz fosca



Ela serena, helena e doce
Revela, bela tela que me trouxe
Garrida forma, produção estimativa
A pena entabula do verbo a forma passiva

Não demova a confundir, doce donzela
O verbo do devir, cravo e canela
Arroz doce, doce vida, doce prova
Rima forte em forte nuance da reles trova

Aprendi contigo, contigo, carícia, época
Patentes para as palavras, recíprocas
Nossas ogivas do poder esquentarão átomos
Seus horizontes de sentimentos são átimos

Falarei de mim
Com o contexto do que escrevi
Simples palavras
Convertem-se em favas

Favas de mel azul
Lambuzam teus lábios ao sul
Querem roubar-te o doce mel
Musas que não irão para o céu

Medusa, a musa castigada espreita
A poesia que te deleita
Mantém-na presa, bebendo do Estige o lodo-água
Perseu herói, lenda jamais contada, de medusa ex-musa
                                           Apenas a mágoa.


Eros vangloria-se em relação a Apolo
Desde tempos eternos.
               
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Anderson Carlos Maciel

domingo, 11 de setembro de 2016

Lenda da Capivara Mágica do Parque Barigüi


                                                                   
Reza a lenda que quando o pirata e mago Zulmiro chegou em Curitiba, ele decidiu enterrar o seu baú de tesouros debaixo dos túneis das Mercês. Mas ele precisava de um bicho para ser o guardião desta arca. O problema é que os animais da região não aceitaram a sua proposta. Deste jeito este homem ficou triste e decidiu repousar debaixo de uma árvore quando, de repente, uma capivara disse-lhe:
- Soube que procura um animal para ser guardião do seu tesouro, que fica debaixo da terra e que nem a toupeira e muito menos a anta, que são do ramo ,aceitaram a sua proposta. Porém eu quero esta missão.
Desta maneira, a capivara virou uma espécie de vigia e permaneceu de tocaia nos túneis.
Um certo dia este bicho ouviu passos de ladrões se aproximando. Por isto, com medo de que os bandidos roubassem o tesouro, a capivara engoliu o baú. Desta forma os marginais se decepcionaram ao ver que no lugar de um arca, havia um animal e voltara para a superfície.
Zulmiro ao descobrir o ocorrido comentou com a capivara:
- Parabéns pela sua atitude!
- Em forma de agradecimento, como sou bruxo, libertarei você desta missão de ser guardiã debaixo do solo e darei de presente umas terras que no futuro se chamará Parque Barigüi. Lá você se proliferará em paz. Porém tem mais detalhes: além de receber tudo isto, você ganhará a vida eterna e se uma pessoa fizer carinho em seu pelo, ela receberá o tesouro que está dentro de sua barriga. Pois, no mesmo instante, você vomitará o baú precioso por inteiro.
Dizem que é por causa desta lenda que o Parque Barigüi é cheio de capivaras e que a capivara do tesouro continua lá esperando para ser tocada e desta forma presentear o felizardo.
Luciana do Rocio Mallon


TROVA


Se o silêncio revelasse
os segredos que contém
esta angústia em minha face
chegaria ao fim também.


PAULO MONTEIRO
Anderson Carlos Maciel

para mim
Público e amor

Pois se confundem
Traduzem
Governos - que se seduzem
Casam-se

Cascatas de rosas
Paixão
Permissão
Em ser
Amado

As crianças tentam
Provar ao mundo
Suas escolhas

Nós vagamos
Eternos
Pontas dos dedos
                   cósmicos
Solidão

Apertos
Contra o peito
No leito
Dos irmãos

Pregamos evangelhos
Dos nossos beijos
Repetindo o ritual
Banal
Simples
Carícias

Sociologia
De nós dois

O mundo capitalista
Fora de nossas janelas
- Molduras socialistas -
Rui


Ao sabor do vento histórico
Com os anos esquecemos que amávamos a gaivota
Sobre o mar azul, na tarde antiga
E procuramos briga por qualquer coisa
Nos desentendemos na cama, na política e na vida
Somos tão mais infelizes e nos achamos inteligentes
Passa um pássaro e a gente não vê
Passa um pássaro raro e a gente não vê
Passa um pássaro raríssimo e a gente não vê
Entretanto, amávamos a singeleza da gaivota sobre o mar azul
E nos achávamos nos azuis
E nos perdíamos nos azuis
Agora, cérebros rotos,
Olhos cansados, amarronzados de certezas
Vazamos um do outro, sem marés.


Lázara Papandrea

UMA CARTA DE SUICÍDIO

Ontem às 13:44 ·



Não me venha falar desses rifles armados em cima da mesa
nem das baratas voadoras que infernizam nossa desordem cotidiana
nem dos carrapatos que invadem meu corpo e me devoram como se eu fosse uma cadela
nem do sexo mal feito nem do beijo sem línguas nem da naftalina que surpreendemos entre os lençóis
nem me fale dos ratos que simularam voos nos canos e acabaram sufocados nos ralos dos banheiros
nem me fale dos matagais que cobriram os pardieiros
nem dos pardais mancos ou dos gatos que se jogaram do décimo andar
nem dos amigos e suas mandíbulas felizes para autorretratos
não me acorde se não te ocorre nenhuma notícia amena para me dar
antes encha meu café com ansiolíticos
diga aos inimigos que a burocracia me venceu
cubra meu corpo com escombros
sim esse mesmo que você ajudou a produzir
e se perguntarem diga que envelheci como os animais selvagens e inconscientes



 Marcia Barbieri