terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Admirador - Parte 4: Rostos




 (Maristela Scheuer Deves)

Acordou do desmaio deitada na cama e tendo ao lado uma aflita camareira, que não sabia o que fazer com aquela hóspede que desmaiava ao receber uma simples rosa. Por mais que perguntasse, não conseguiu descobrir quem deixara a flor na portaria – mesmo resultado dos inquéritos que fizera quando da entrega dos buquês no seu apartamento. A cabeça ainda girando, questionou-se se valia a pena continuar no hotel, uma vez que o esconderijo fora descoberto tão facilmente.


Decidida, apanhou a mochila e desceu para fechar a conta. Pensou em almoçar – já era quase meio-dia, o tempo se escoava rapidamente –, mas abandonou a idéia. Sabia que, naquela aflição, nada pararia no seu estômago. Rumou de volta para casa, e, no caminho, jurou que seus últimos resquícios de sanidade tinham se esvaído: o porteiro do hotel, o guarda parado na esquina, o senhor de idade sentado no banco da praça, o taxista, todos pareciam olhá-la de maneira estranha, furtiva, suspeita.


Não foi diferente ao chegar no prédio no qual morava: o homem que saía rapidamente e no qual esbarrou, o zelador, a meia dúzia de vizinhos pelos quais passou no corredor – seria um deles?, perguntava-se ao olhar para cada rosto. Trancou a porta do apê e depois a porta do quarto. Jogou-se na cama, em lágrimas. Não aguentava mais. Acabou adormecendo, e nos sonhos – ou alucinações? – os rostos mais uma vez se sucediam, conhecidos ou desconhecidos, todos ameaçadores.


Acordou com o toque insistente da campainha, e assustou-se ao olhar no relógio: já passava das 16h! Ainda semi-adormecida, olhou pelo olho mágico, mas não havia ninguém no corredor. A dormência evaporou-se como num passe de mágica, os últimos acontecimentos voltando como uma torrente. De repente, um dos rostos do sonho fixou-se na sua mente. Claro!, pensou, começando a tremer mais uma vez. Como não pensara nisso antes? Era óbvio, só podia ser...


Estranhamente reconfortada agora que sabia quem era seu inimigo – sim, tinha certeza, não havia outra alternativa –, sentiu-se calma pela primeira vez em meses. Foi ao banheiro, lavou o rosto, voltou ao quarto e arrumou-se cuidadosamente. Então, saiu rumo ao Cemitério Municipal. O horário do enterro estava chegando, e ela estava decidida a não perder a festa de jeito nenhum.


(não perca, no próximo mês, o final dessa história!)
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Das coisas que se pode dizer




Como a chuva toca o solo
e nutri a flor
Que arrancada sem razão
é motivo de repousou
sob o colo dela
que deslumbra os cacos quebrados do espelho
com a mão pequena que agredi o mundo

Redson Vitorino

A menina que não queria crescer




Por Ju Blasina


Aninha não queria crescer.

Estava decidida e firme nesta decisão, já não era de hoje. Todos que a conheciam, conheciam também seus planos, quase que simultaneamente. Aninha definitivamente não era uma menina silenciosa. Era aquilo que os adultos chamam de “tagarelas”— palavra divertida — pensava ela, sorrindo encantada cada vez que a ouvia. E a ouvia muito!

Sua mãe era, a seu ver, algum tipo de super-heroína. Daquelas que saem à noite para combater as forças do mal. E ultimamente as forças do mal já não respeitavam mais nada — não tinham hora para roubar-lhe a mãe: era noite, dia e até nos feriados — o telefone tocava e lá ia sua mãe, salvar o mundo outra vez.

— Quantas vezes será que o mundo precisa ser salvo? — pensava Ana, ao ver a mãe correndo pra cá, correndo pra lá.

Por ironia ou sabedoria do destino, quem lhe fazia companhia na maior parte do tempo era a vovó: completamente surda! Não era sua avó de verdade, mas a julgar pela idade e algo no seu cheiro de biscoitos, certamente devia ser a avó de alguém — era sua “avó de aluguel”, mas tudo bem — Aninha não se importava em cuidar de vovozinhas:

— Melhor do que ter que ficar de olho na moça do telefone¬ — “moça do telefone” era como chamava sua antiga babá ¬— Eca, babás são para bebês! — Aninha queria ser criança para sempre, mas não um bebê, “bebês fedem”.

Havia vantagens e desvantagens na companhia da vovó surda. Vantagem: ela nunca interrompia os devaneios de Aninha e ainda fazia ótimos biscoitos e coisas de lã. Desvantagem: ela não contava estórias e Aninha adorava estórias. Como solução, começou a contar estórias para si mesma. No início lia livros em voz alta, embora não conhecesse todas as palavras, afinal tinha seis anos e queria ficar com nove para sempre, não com seis:

— Com seis não se pode andar em quase nada no Parquinho, é um absurdo!

Para tudo ela tinha solução: Quando não entendia a palavra, inventava uma nova ou um novo significado para aquele grupo de letras desconhecido. Às vezes apenas lia os desenhos. Com o tempo, passou a inventar novas estórias e desenhar seus próprios livros. Chamavam-se: “As fantásticas estórias secretas de Aninha” — que de secretas só tinham o nome, pois ela contava para todo mundo.

Infelizmente a vovó parecia não ouvir e a mamãe não prestar muita atenção. A professora não lhe deixava contar em aula e os amiguinhos só queriam fazer coisas de rua. Contava para as bonecas — seu público mais atento.

Aninha gostava de ser alegre, de suas sardas, suas maria-chiquinhas e de fazer desenhos coloridos, mas nem sempre tinha vontade de sorrir. Sabia que no mundo havia dois tipos de “gentes e coisas”: As “do bem” e as “do mal”. Ela não era uma menina medrosa, só não gostava dos “do mal”, afinal eram eles que davam tanto trabalho para sua mãe e provavelmente tinham sido eles que roubaram os ouvidos da vovó.

Precisava fazer alguma coisa a respeito. Algo que só uma criança poderia fazer para mudar o mundo e definitivamente não era crescer — disso tinha certeza — viu muito bem o que aconteceu a sua prima, Silvinha, quando resolveu crescer: Antes, era uma menina meiga e feliz, agora virou uma tal de “Silvia Maria” que não tem tempo para abraços e ainda anda com meninos! — Ah, adultos!

Existiam outras razões para que Aninha não quisesse crescer — razões secretas que ela só revelava em suas estórias — e como até hoje ninguém havia perguntado, ela não sabia explicar direito, só desenhar. Sentia uma coisa estranha no peito toda vez que pensava nisso, então, fazia um desenho e mostrava para a mãe. A mãe sempre dizia algo como “Que lindo, filha” e Aninha não entendia bem o porquê. Achava que a mãe tinha um estranho gosto para desenhos e saia resmungando:

— Adultos não entendem “nadica de nada” mesmo.

A mãe respondia: — Olha a língua! — e ela até tentava obedecer, mas olhar a própria língua era uma tarefa difícil! Acabava guardando o papel junto aos outros desenhos secretos e se emburrando pelo resto do dia.

Até que um dia surgiu a ideia. Uma ideia brilhante! Outra delas, afinal, tinha muitas ideias brilhantes, mas esta parecia realmente especial:

— O que é que só uma criança pode fazer para mudar o mundo? Imaginar!

Precisava imaginar alguma coisa que combatesse as forças do mal. Assim, poderia deixar sua mãe em casa e trazer os ouvidos da vovó de volta. Se sua mãe ficasse em casa, poderia abraçá-la com bastante força e assim, nunca mais precisaria crescer! Se não crescesse, a mamãe não viraria uma vovó e a vovó não iria à parte alguma! Contariam estórias o dia todo e todos os dias. Comeriam biscoitos e seriam felizes para sempre...

... Até mesmo no dia dos pais, quando os coleguinhas entregavam os presentes feitos na escola, enquanto ela levava mais um daqueles “presentes idiotas” para casa, aumentando a coleção sobre a estante, à espera de um pai que nunca vinha...

Era isso: faria um pai imaginário! O mais perfeito dos pais, que combatesse as forças do mal e ainda ouvisse suas estórias. Melhor que isso: ele contaria novas e incríveis aventuras e nunca se esqueceria do seu próprio dia.

E assim Aninha começou o mais lindo desenho que alguém já havia criado. Um desenho feito de sonhos, esperanças e fantasia: um desenho mágico!

Levou uma eternidade terminando o tal desenho, escolhendo as cores certas, fazendo pássaros e flores ao redor e quando, enfim, terminou, correu para mostrar a todo mundo, começando pela mãe:

— O desenho secreto de Aninha.

Pena que naquele dia sua mãe demorou tanto para chegar, que ela acabou adormecendo no sofá a sua espera, agarrada ao desenho. Não viu a chegada da mãe, mas se visse, não entenderia a sua reação: Ao ver o desenho que a filha segurava, já amassado, junto ao peito, ela não disse “que lindo”. Não dessa vez.

Pegou-o, sentou-se e olhou cada detalhe com a atenção que nunca antes havia dado a nenhum dos inúmeros desenhos da filha — era mesmo um desenho especial — lágrimas rolaram enquanto seus olhos percorriam cada traço do “desenho secreto de Aninha”:

Ele trazia flores e pássaros e, como sempre, era muito colorido. Trazia também, no centro, três bonecas de mãos dadas: uma menina de sardas e maria-chiquinhas; uma maior, de pijamas, chinelos e longos cabelos soltos e uma menor, encurvada, de óculos, embora sem orelhas. Sob elas havia plaquinhas identificadoras dizendo, respectivamente: “aninha, mamãe e vovó” e sobre elas voava um homem de rosto borrado. Ele apresentava vastos bigodes e capa. Carregava um par de orelhas em uma das mãos tinha e um bolo de dinheiro na outra. Na capa estava escrito em letras grandes e coloridas “meu superpai”.

A mãe a abraçou forte, acordando-a e naquele momento Aninha soube: “o desenho funciona!”

Sentiu-se muito feliz nos braços da mãe, como se o tempo parasse.

Agora, ela nunca mais precisaria crescer...


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Cabeça de Elefante




A mesmice de acariciar o peito
relembrar do que foi dito
do vômito escondido nos lençóis
do terço pendurado na cama
que nunca teve um drama

era o cheiro das pernas
que prendia a corda com mais força
aquelas bocas monstruosas
te jurando infinito
relendo os jornais espalhados em cada canto do quarto miúdo
despedidas como carrapatos arrancandos do escroto
havia um moleque franzino duelando com a altura do abacateiro

Ele pôs a corda lá
Redson Vitorino

O DITO SEXO E A TAL CIDADE





Miguel Castro

O esforçado Jojo la Rue não consegue fazer-nos rir. Acredito que o sotaque cerrado dificulte a teatral tarefa, no meio de tantas anedotas de algibeira a sair ao ritmo e táctica de coelhos da cartola, impecavelmente brancas e dobradinhas, como lenços prontos a sujar de rompante, e umas piadas de politica emoldurada, cujos contextos são para um português vizinho de Espanha, perfeitos estranhos.

A restante meia dúzia de clientes pingados presta mais de uma atenção quase reverência às cervejas, do que ao candidato a comediante anunciado à porta deste Otto`s Shrunken Head (a cabeça mirrada do Otto), nome fantástico para um bar algo polinésio na Rua 14, leste, entre as avenidas A e B. Vim cá à procura de uma pequena Meca do rockabilly ao vivo e furioso, num pequenérrimo e suado palco, após uma conversa esta tarde com um empregado da Trash and Vaudeville, uma loja de roupas incríveis em St Marks Place, e rocker amador numa garagem em Brooklyn Heights com uns tais Skinny Boy Jones, promissores, ao que me queria fazer ver.

Só não me vou embora por Trisha. Quase uma hora de conversa depois de a ter visto, e tão revisto, na mesa ao fundo, tenho uma daquelas certezas irredutíveis de querer tê-la bem mais perto de mim do que os dois palmos de diálogo e alguns risos entre nós, enevoados pelo fumo do seu cigarro. O sincero desejo de sexo demorado e explícito, é me implícito. Afinal de contas, e da sua terceira Budweiser, separei-me em Portugal há dois meses e não é todas as noites de sexta-feira que ando por Nova Iorque e encontro uma ruiva de Queens, não acompanhada, francamente bonita, neta de irlandeses, à beira de um fim de semana sem os dois filhos que andarão a melgar o pai, e ex-marido.

- Estás com tempo? Queres andar por aí? Ir a outro sitio qualquer? – pergunta-me com o tal brilhozinho nos olhos que me parece ser aquele de que uma antiga canção do Sérgio Godinho fala.

Andar por aí, hang out, como se diz nesta cidade tão viva, onde as noites são tão intensas como sexo, é uma óptima sugestão, para já.

Lá fora apercebo-me do esgar da lua, surpreendida, e logo depois, à luz da montra de mais uma de prováveis centenas de lojas de conveniência geridas por indianos, entendo o porquê.

É que Trisha é mesmo bonita.

OK. Jogo. Tudo ou nada, não é? Aposto tudo.

Uns passos de silêncio subitamente acanhado à frente, e que ameaça desatar a pigarrear, paro e pergunto-lhe olhos nos olhos, e olhos no passeio, se há algumas expectativas reais, umas probabilidades daquelas bem boas, de…pois…portanto…bom…isto é…ou seja…de em breve irmos para a cama.

E até nem estamos nada longe do hotel onde estou hospedado.

E os táxis nesta terra, de lentidão têm pouco, são por vezes conduzidos por uns clones do Fitipaldi, regra quase geral também indianos, e com turbante.

- Temos a minha casa em Queens – sorri - quem sabe noutra ocasião qualquer. Estou a gostar demasiado de te conhecer para arriscar estragar tudo com uma rapidinha.

Mas quem falou em rapidinhas? A fulana deve estar mal habituada. E muito menos estragar. Argumento e tento. Portuguese do it better. Asseguro e rio.

- Olha a tua volta, ó Lisbon guy – Trisha sorri-me durante mais tempo, e consegue fazer-me cócegas no coração.

Faço o que me pede.

- Gostas do que vês?- pergunta-me depois de eu em para aí cada dez minutos de companhia lhe ter ciclicamente apregoado que adoro Nova Iorque.

- E agora deixa-me olhar bem para ti – pede-me com um ar sério.

Aceito e deixo-a ler-me o rosto. Eu próprio começo a achar que valerá a pena ver página a página desta mulher com tanto de rapariga, e dar-lhe uma bem merecida atenção.

- Primeiro tens que me deixar gostar de ti, entendes? – oferece-me um beijo surpresa ao meu queixo. – Como tu gostas desta cidade.

Entendo.

Trisha sugere-me um Rodeo Bar, onde a Country Music acontece, e a Bluegrass arrasa. Sou todo ouvidos, pernas e pés.

Trisha pelos vistos, botas e gostos, também.

Trisha dá-me o braço.

E caminhamos.

Algures na 8ª avenida ganho uma noite no sofá da sua sala. Com oferta de pequeno almoço.

***

Sobre o autor
Miguel Castro nasceu em Julho de 1967 em Lisboa. Cresceu sempre com vontade de escrever e a alimentar-se de doses maciças de música. Aos 16 anos desistiu de perseguir e atormentar o seu pai quando este finalmente lhe comprou uma guitarra eléctrica e um amplificador.
Em 1986 ingressa na Faculdade de Ciências de Lisboa para cursar Geologia.
Integrou a formação de várias bandas com as quais, e também a solo, percorreu o circuito universitário dos cafés-concertos e alguns bares em Lisboa. Em 1991 grava a sua primeira canção numa colectânea de novos grupos e artistas, editada ainda em vinil, num LP.
De 1992 a 1994 foi professor no ensino secundário e em 1995 formou na Amadora a banda pop Porquinhos da Ilda com a qual decidiu definitivamente fazer da música uma profissão a tempo inteiro. Graças à irreverência, humor peculiar, sonoridade, e a animada presença em palco que os caracterizava, os Porquinhos da Ilda realizaram centenas de concertos por todo o Portugal e editaram 3 álbuns, destacando-se o hit radiofónico “Canguru” em 1997.
Em 2000 fundou, a sua primeira empresa de management e produção de espectáculos, a Oink Música, e tornou-se responsável oficial pelas carreiras de Porquinhos da Ilda, Império dos Sentados, e Woodstone. Em 2002, após muitas viagens e experiências, a conselho do médico e de amigo deixou de beber álcool.
Um dia ao fim de uma tarde sentou-se e escreveu a sua primeira de várias pequenas histórias. Um hábito que ainda hoje prevalece.
Em 2003 fundou a Espanta Espíritos, empresa de management, agenciamento, e produção, que gere as carreiras de grupos do panorama musical português como Corvos, Verdes Anos, Dina, e Mariária, entre outros. No verão de 2004 começou a escrever o seu primeiro romance ANDA CÁ FAZ-ME TUDO O QUE QUISERES, que foi editado em Setembro de 2005 pela Sete Caminhos.
Actualmente Miguel Castro continua a ser músico, como sempre foi e será, coordena os espectáculos infantis da Espanta Espíritos e é co-produtor da cantora e compositora Dina. Adora o seu filho Afonso, o rock`n`roll, ir para estrada, viajar, e escrever. Está até com ideias de preparar o seu segundo romance.
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A Santa na cruz




Lembro dos amigos que enterrei
das drogas nas pontas dos meus dedos
e de odiar enquanto amava

em manhãs de mãos dadas
e por fim
solitárias
ecoante era ela
de dentro do ônibus cinza
aquela buceta verde que não era só minha

Despedi-me dos amigos quando floreceram de baixo dos meus pés pretos
tomando o lugar de um cristo qualquer
tomei pra mim mais uma vez
o ar da erva entre as pontas dos meus dedos
e quando o ódio cessou e pudi amar

em noites solitárias de quase anulação
atando o nó até o paraíso
eu poderia almejar os degraus recostando meu corpo
o abraço que o fim nos dar
Redson Vitorino

Anatomia da cidade




lança dados de grafite
no pano verde destinos

curvas calipígias entre
a multidão de labirintos

pés sem passos apagam
as margens do estuário

e o cais de concreto
sem navios ou
mensagens engarrafadas
DGJr




A Mona Lisa de dentro


Renato Silva      

Como se fora trégua do sol
-que morde antes de assoprar-
rubro-infernal, americano,
vesti-la semi-nua
nessa mini-mini-saia
para o Carnaval fora de época
daqueles pobres pedreiros

O que eles têm
além da marmita e a pele vermelha,
além das bicas de suor e o carteado,
além das pequenas coisinhas
e a leve embriaguez, menina,
são os imensos sonhos,
e sonhar é tudo,
sonhar é, e sempre será,
tudo.

Tivessem também
os olhos de Lince
dos poetas lunáticos
enxergariam o contraste
entre a Mona Lisa de dentro
e O Grito de fora;
antagonismo que colocará
seu dedo do meio,
morena Vanessa,
em seu devido lugar
quando chegares ao teatro
do seu banho aonde
o bandido tornar-se-á
o mais procurado
entre todos os mocinhos.

Ser comida pelos olhos
dos homens com quem
jamais dormiria : sua
posição
predileta.


DISSONÂNCIA


Renan Sanves  


Há dias em que não sai um verso que preste.
Há dias em que a cabeça se reveste de um branco
que não há santo da poesia que ajude.
Há dias em que por mais que se mude o método
o resultado não mostra alteração.
É uma aflição, um desconforto,
uma sensação de burrice.
Uma mesmice rondando as ideias.
Há dias em que a estreia
mais parece um ensaio descompassado
e o que resta é o enfado.
Mas mesmo com a falta de inspiração
eu me ponho alerta.
E nessa hora não sei se sou poeta
ou pateta.

PALAVRA DE ORDEM



NALDOVELHO

Pela coragem que às vezes me falta,
pelos defeitos, ainda os tenho,
pelas fraquezas, ainda as temo,
pela esperança que em mim padece,
pelas possibilidades a que me proponho,
pela nostalgia que apesar de tudo persiste,
pela solidão que teima em me assombrar,
pelos caminhos que gostaria de seguir,
pelas trilhas que vão dar na beira do abismo,
pelas quedas, acidentadas escolhas,
pelos desencontros, desencantos e desenredos,
por todas as coisas que deixo fora do lugar,
por aquelas que vez por outra costumo quebrar,
pelo amor que ainda não sei cultivar,
pelas teias que aprisionam meu corpo,
pela dor que tudo isto me traz,
pela crença que tenho num amanhã:
a palavra de ordem é recomeçar.

Para Colher Poemas




© Nathan de Castro

Para colher poemas de um jardim,
mister é ser poeta das estrelas
e entregar-se ao silêncio das janelas
abertas para os sonhos de cetim.

Mister é mergulhar nas aquarelas
dos campos perfumados de jasmim...
E à relva verde, sempre dizer sim,
mesmo que o cinza vista as passarelas.

Presta atenção nos mínimos detalhes
dos versos de boninas, depois dá-lhes
um sopro de poesia e humanidade...

Planta a canção do amor nos teus canteiros
e cuida com a paixão dos jardineiros,
pois só quem ama colhe a eternidade!

Viver de Poesia




© Nathan de Castro

O que me dá gosto é saber que o tempo não volta.
Amanhã e depois de amanhã nunca mais serei eu.
Poetas são sábios de segundos. Não sobrevivem
para ver o poema crescer.
O meu consolo é que o amanhã acordará de nuvens
carregadas de antigas paixões.
Talvez eu morra de saudade mas, sinceramente, eu
prefiro morrer de poesia.
Sim, é preciso morrer de poesia e viver um poema
a cada dia.
Quem vive um poema a cada dia sabe o encanto de
um nascer do sol, e sabe que o amanhã pode trazer
todas as cores da estação, ou não.
Quem vive um poema a cada dia sabe que na poesia
existe um segundo escondido no espaço do tempo.
A gente chama isso de esperança.
De Adília Lopes, o poema "A salada com molho cor-de-rosa":

1
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia

2
Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela

3
As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida

4
Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos

5
A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação

6
Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum

7
(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúncia ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)

8
Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o "Las Moradas"
antes do "Calculus I"
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa

9
O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido


Fio de esperança




(para haroldo de campos)

entre

figuras

de marketing

fulgura

ainda

a palavra

álacre

(Álacre = alegre, vivo, animado, esperto. Se desmembrada, "á/lacre", a palavra pode desdobrar-se e ser lida como "há lacre". Lacre há entre as figuras/produtos que fulguram no "marketing" - lacre: preparado resinoso usado para fechar ou selar, garantindo a inviolabilidade daquilo que o recebe. Percebam os sentidos alcançados por Régis Bonvicino, )



Régis Bonvicino

Estrada Velha




carrinho de
rolimã tira
lasca da ladeira
uma dança em
ziguezague quase
queda à beira do
meio-fio cáries do
ar constelações de
estilhaços caminho
da boca do mar



DGJr

RETRATO




Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece,
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.

A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens,
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.




Da poeta Marly de Oliveira


transbordamento
alívio da alma
seco meus olhos

(Cristina Desouza)

LIVROS


    


Pousar por instantes
minha alma
na estante

onde amigos me esperam.

Sem desespero
comunicam-se
e eu os decifro.

Nos livros
solidão é ficção.

A realidade
na verdade
tem olhos vendados.




Ricardo Mainieri

Itinerário



para que voes
céus da ausência

linha de
pores-do-sol

mareazulada
marinalívida

inocência

Diniz Gonçalves Jr

DESTRUINDO FANtASMAS...




Abrir meu coração...
de forma inconteste,
sem a mente estar alhures,
pensando em quem me conteste.

Pra que dar forma aos fantasmas?
Por que denigrir-me,
ferindo profundamente
o sentimento nobre, que me habita,
e jamais mente?

Ser-me... cada mais ávido.
Abandonar o que esquálido,
contorce-se para ser notado.
E buscar residir no que se faz
estabelecido, delineado.

Antes que os fantasmas,
tomem guarda e posse
de minha realidade...


Josemir Tadeu Sousa
josemir(aolongo...)

POVO DO ENTORNO





Penso com o sangue colorido de vinho,

Talvez somente mais um caminho, adivinho.

A alma leve como uma placa de aço

Dilato corpo e mente, como faz o espaço.



Na cidade sinto a chorumela da noite,

Sigo e agradeço ao Senhor, esse meu açoite.

Mães relapsas e filhos choram ao seus lados

Entregam-me seus fardos, definem meu estado.



Eu decidi por ser sujeito inconseqüente,

Liberar quem quer que seja, no inconsciente.

Comecei devagar bebendo querosene

Nada me afeta, nem a polícia e sirenes.



Penso e me preocupo sempre mais de uma vez,

Usar o coquetel molotov, que comprei.

Risco um fósforo para evadir logo após.

E fumo um cigarro com classe, sem suor.



Sussurros, pulsões do desejo que me fala,

Favor, mais uma dose, ah... porque não me mata.

Plenitude de poder parar, desmaiar.

Não quero me aprender, para não me ensinar.



Porque tudo nunca foi e será bem bastante,

Não há retorno para o tempo, nem instante.

De proteção vestirei hoje o mesmo adorno.

Eu e muitos outros somos sim, povo do entorno.

Eduardo Ribeiro

A CHAVE DA CASA



NALDOVELHO

O relógio, os ponteiros, o tic-tac nervoso,
a garrafa de conhaque pra baixo da metade.
A campainha da porta adormecida, em silêncio,
a janela da sala permanece entreaberta.
O cinzeiro lotado, o cigarro entre os dedos,
respiração afrontada, o poema, o segredo.
O ambiente em penumbra, o mês é setembro,
madrugada chuvosa, faz tempo, nem lembro,
da última vez que ouvi o seu nome.
O livro de poemas, finalmente terminei,
poucos foram vendidos, a maioria eu guardei.
Na estante da sala uma bagunça danada,
livros, corujas, cristais e cds.
Tem tempo não ando pelas ruas da cidade,
enlouquecem-me o barulho e a fumaça dos carros.
O açúcar anda alto, o nome certo é glicose,
o telefone às vezes toca, normalmente é engano.
No canto da sala um quadro inacabado,
monocromático esforço, um árido esboço.
O vaso de plantas, quando lembro, eu rego,
samambaia valente resiste a tudo.
O violão em silêncio, desafinadas as cordas,
não componho mais toadas, estou mais pro bolero,
as teclas do piano traduzem melhor os enganos.
Notícias recentes dão conta que o sonho
ficou a deriva num navio sem cais.
Ainda guardo em meu quarto a aliança, o perfume,
sua fotografia e as cartas de amor.
A chave da casa, escondida, você sabe...
Quando quiser, é só abrir a porta e entrar.

Tecno



Não vamos deixar
nossa mente tonta.
A questão é que
fazer o bem
não guarda relação alguma
com a tecnologia de ponta.

Paulo Henrique Frias   

DESPERTAR EM PARATY



Um homem desperta sozinho
antes da manhã levar a noite.
Lá fora um galo grita
também sozinho.
Um outro galo responde.
E outro atende o chamado.

E antes que a manhã descubra
as sombras existentes na alma
das noites, o poeta se levanta.
Vai ouvir a sinfonia dos galos.
É ela que acorda o sol

e o canto preso na garganta.


Rubens Jardim

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

TRAJETO INVERSO




................................(com resquícios de Elia Kazan)

Resolva seus assuntos pessoais. Comece
pelos urgentes, razão de sua azia.

Priorize o desjejum: sucos e frutas,
café, quase nenhum.

Abasteça o carro, calibre os pneus;
no trânsito, esqueça as incomodações.

No escritório, não se irrite com os paspalhos.
Trate bem seus colegas, fornecedores, clientes.
Tenha em mente, nada é pior do que os parentes.

No almoço, contente-se com pouco.
Evite gorduras, fique com saladas e carnes
brancas. Dispense a carne de porco.

Se a tensão estiver forte, pare um pouco,
relaxe, faça exercícios, nada de porte.

Voltando para casa, no trajeto inverso,
imerso em pensamentos, sem perder
a atenção no trânsito caótico,
lembre o que de bom lhe aconteceu.

Sue frio, franza a testa, determine-se.
Num arroubo, juntando as forças,
jogue o carro sobre qualquer obstáculo,
tenha coragem: não desvie,
nem abaixe a cabeça.

(Pedro Du Bois, TRAJETO INVERSO, Edição do Autor)


  • Sou escritor e como tal me pronuncio. Faço da Parafrase minha arma consciente pra atingir o inconsciente de quem ainda amorfo, usa cores, tentando com embalagem, dar forma ao que sempre foi..., etérico. - Hoje, ainda com o troar de todos os sons urbanos de ontem, em meus ouvidos, penso que tenho um pouco a contribuir com a confusão existente, ou quiçá, conseguirei aumentá-la..., consubstancialmente. Meu pensamento voa com o éter fulgurante, sem que seja na Poesia Lupiciniana, para encontrar outra forma de literatura, a prosa, que de diálogo em diálogo, expressa coisas que 'muitos' com elas não ficam prosas, justamente porque..., gostam de prozas. A viagem no tempo e no espaço me leva a uma 'Re-pública'..., a Grega, institucionalizada por Platão, na verdade, 'Aristocles', que estudando incansavelmente, colocava sobre os largos ombros, a responsabilidade dos conhecimentos, sobre Politeia. Caminhando sobre pegadas Sócratinianas - Plato - começou a dialogar com Gláucon e Adimanto. Das muitas perguntas e plurais respostas, chegaram à conclusão, que o "ato de governar" é se colocar a serviço do governado, prezando que há caminhos tortuosos, para isso, em que "a justiça é superior à injustiça", contudo, para atingir tal estágio de sabedoria, "é preferível sofrer a injustiça", ao invés de "praticá-la". Ele e os demais entenderam, que no lugar que houvesse justiça, ali estaria à felicidade. Na sequência percebeu ele - Platão - pelos debates advindos das questões não clarificadas, os meios que estipulam e asseguram a existência de alguma substância fisiológica e anímica, que se adequaria a uma cidade bem ordenada, com público fiel e sempre permanente, que se re-novaria em sequitários de alguma Regentia, pois, haveria assim, o poder exercido por alguém em nome de outrem, e que em tal função usaria do libre verbo, para 'Regere' o comando e exercer o 'Poder' desde que fosse, ligado ao 'Rei'. ó que..., passou o tempo e o espaço é outro, não o da Obra de Platão, que recebeu a classe quatro, como parte bibliográfica naquela literatura. Esse ponto trata da Educação Filosófica dos Governantes que deverão 'Instalar' e 'Preservar' a 'Ordem' na existência Politeica. A 'Ordem Justa' aparece na questão mais crucial do tema – "Re-pública" – preconizando que a justiça é melhor que a injustiça, mas, abrindo espaço para a discussão se..., "O Homem Injusto Terá Vida Mais Regalada Que O Justo". Definindo a questão, o embate e findando o encalorado debate que se prolongou sobre a ordem justa, chegam os Sábios, a resposta conclusiva: - "A justiça é preferível à corrupção". A República - de Platão - tem argumentação dialética. Pensamento dialético é caracterizado por "Apreender A Realidade À Luz De Posições Contraditórias", que ao final, passam a ser conhecidas e compreendidas..., uma, como a "Verdadeira", e a outra, como "Falsa". Paralelamente a tudo isso, surge então, uma alusão à imagem da – "Lindíssima" – "Alegoria Da Caverna", que correspondente ao confronto do Ser encavernado, que num repente, descobre do lado de fora, a luz, o sol, a claridade e tenta mostrar aos que dentro da caverna – "Ignorância" – permanecem, que lá, só tem as trevas e a escuridão, afinal..., é uma caverna. Eu e a dialética que apresento aqui, damos uma ideia de confronto com todo e qualquer tipo de empirismo. Não sei se sou dialético ascendente ou descendente, e isso também não me importa, já que tal questão abriria possibilidade da tentativa de "Corrupção" da minha ideia, devido à incorporação dela em uma situação empírica. Na caverna..., estamos, mas..., "Há Luz" ! - Resta saber..., onde ! 

  •  Olinto Simões."


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA




O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.

Mário Faustino

INFERNO, ETERNO INVERNO, QUERO DAR




Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,
Escuma de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo;
Carátula celeste, onde o fugaz
Estio de teu riso - paraíso?


 Mário Faustino.

Mordendo a própria língua‏



Escrever em português brasileiro tem algo de exílio

O que você diria se lhe pedissem para fazer uma “declaração de amor” à língua portuguesa?
José Carlos Vasconcelos, que edita o indispensável Jornal de Letras, de Portugal, resolveu fazer uma enquete a partir desse tema. Pediu a um punhado de escritores de Portugal, Brasil e África para escreverem algo a esse respeito. Fiquei meio sem saber o que lhe dizer, a ele e a mim. Repetir o que Bilac e outros já disseram? Cair um adjetivoso discurso? Deixei o tempo passar, e ele, amigavelmente, insistiu. Tive, então, que pensar mais fundamente na minha relação pessoal com nossa língua mãe. E escrevi o seguinte, que o Jornal das Letras, na edição de 17 de abril, publicou:
Mordendo a própria língua
“Mãe/madrasta, isto sim, é essa língua que me mal-criou.
Mãe: porque para usar uma semântica apropriada, foi no seu “seio” que me amamentei; no seu colo/braços/casa, que cresci. Deveria amá-la. E a amo, com amor e ódio. Exatamente como Melanie Klein queria.
Por que esse rancor?
Porque ela me mantém preso em seus domínios. Olho pela janela dessa prisão linguística: felizes são os escritores de língua inglesa, francesa e espanhola.
Sinto que falo um dialeto. E nisso reside o exílio.
Sim, somos 200 milhões – só no Brasil. E o exílio continua.
Brasil – Sexta economia do mundo – vai mudar esse quadro? 
Não estou mais na idade de reacreditar no Quinto Império à moda de Vieira.
O Brasil – provinciano – nunca pensou numa política da língua e da literatura à altura de sua dimensão.
Meu pai dava aulas de esperanto.
Temo que vou ter que aprender o mandarim.”
Das dezenas de escritores que escreveram sobre este tema para o Jornal de Letras, senti mais intimidade com Luis Carlos Patraquim, de Moçambique, que disse (de maneira sestrosa) que, em termos linguísticos, ele era na verdade um “filho da mãe”. Então, não sou eu que vê a língua como mãe boa e mãe má.
Minha visão decorre não apenas da vivência como escritor, que suga famintamente o seio materno. Qualquer escritor que diz que é um paraíso estar no regaço da língua pátria está ludibriando. Escrever é lutar com e contra a língua. E, enfim, paradoxalmente, nesse leite, deleitar-se. Aliás, dizem os psicanalistas que a criança enquanto mama morde. Então sigo mordendo a própria língua.
Pois sensação das mais estranhas é quando vamos para o exterior e outros falares e culturas nos atordoam. Mais estranho ainda quando me sabem falando uma língua que para eles soa exótica. Não adianta muito você tentar dizer que quase 300 milhões de pessoas falam o português. Perto do espanhol somos primos pobres.
Nossos autores exemplares, tipo Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carlos Drummond e Nelson Rodrigues, parecem aqueles atletas extemporâneos que conseguem solitários recordes nas Olimpíadas.
Para os escritores que usam as línguas mais conhecidas e oficiais, tudo é mais fácil. Qualquer autor médio e até medíocre naquelas línguas é imediatamene traduzido e trazido para cá, e saudado pela imprensa tupiniquim. Escrever em português brasileiro tem algo de exílio. Exílio em relação a outras culturas e países e exílio em relação ao próprio povo brasileiro. Nem preciso repetir as estatísticas sobre a leitura, o livro e as bibliotecas.
É este o patético paradoxo: quem escreve quer se expressar, quer se comunicar. E, se literatura tem algo de segredo, escrever em português, sobre estar exilado, é passar uma mensagem que poucos, pouquíssimos, podem decodificar.
E outro paradoxo me surpreende: são esses poucos, pouquíssimos, que nos incitam a continuar. O leitor dá sentido ao texto e pode sempre nos surpreender.


AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA 

  www.affonsoromano.com.br

Estado de Minas.20/05/2012

               

O que move a História



Os pais de Adolph Hitler teriam sido aconselhados a levar o menino para uma consulta com um médico que estava revolucionando o tratamento de distúrbios mentais, em Viena. Mas decidiram que o que o Adolphinho fazia com insetos era normal para a idade dele e não procuraram o Dr. Freud. O resultado foi o que se viu.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século 20 era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império Austro-Húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o novo século restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza este prenúncio, ou esta intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico.

A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade, ou clínicas como a maluquice de alguém, influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte da direita cristã europeia da sua cumplicidade.

Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.

O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. Assim a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional.

Pois gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia.

- LUIZ FERNANDO VERISSIMO

Estadão.20/05/2012        

ROMANCE




Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar; como havia
Sonhado que já chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partiria
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena -

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

Mário Faustino

Olá, como vai?




Já faz alguns anos que sempre que uma pessoa me pergunta como vou, respondo: “Normal”. Sempre digo a mesma coisa.
Essa sentença é terrível, mais para mim, que sei que eu estar indo “normal” quer dizer que vou indo, como sempre, mal. Até mesmo dentro da palavra normal existe o advérbio “mal”.
Não há nada mais desanimador para uma pessoa que ter uma vida normal.
Explico: esses dias, fui jantar com um amigo que há muito tempo não via. Começamos a perguntar um para o outro como ia nossa vida.
E eu lhe indaguei: “Como está tua vida, afinal, meu amigo?”.
A resposta dele foi incrível: “Razoável”.
Posso estar enganado, mas alguém que vive uma vida razoável anda profundamente infeliz.
Não é bem isso que acontece com esse meu amigo que jantou comigo, mas razoável quer dizer regular.

E quem vive uma vida regular certamente não está vivendo uma vida boa.
O que me aterroriza é que a maioria das pessoas vive uma vida normal ou razoável.
Eu imagino que seja uma vida sem triunfos, sem acontecimentos positivos marcantes, aquela vida cansativa, nauseante, repetitiva, do trabalho para casa, uma vida sem acontecimentos destacados, uma péssima vida.
No entanto, a vida da maioria das pessoas não deixa de ser um ramerrão, marcado apenas por fatos corriqueiros, singelos, sem maior significação.
Eu fico muito triste de ouvir das pessoas a seguinte opinião, quando se pergunta a elas como vai a vida: “Eu vou indo”.
Eu vou indo é uma coisa meio idiota que quer dizer mais ou menos o seguinte: a vida é uma porcaria.
Ou seja, quer dizer que a vida daquela pessoa não muda, é sempre a mesma, não sai do lugar, passam os anos, longos anos, nada mais aquela pessoa espera da vida que não seja a morte.
E vai indo.
A pessoa não é doente, tem família constituída, tem filhos, tem emprego, mas não tem o que é fundamental na vida: a felicidade.
Eu tenho inveja das pessoas que são felizes ou que se satisfaçam com pouco. Embora eu acredite convictamente que só pode ser feliz uma pessoa que se satisfaça com pouco.
Mas existem também os casos das pessoas que são felizes e não se consideram felizes.
Mas eu acho que não existe o inverso: a pessoa que é infeliz e se considera feliz.
Ainda não se definiu bem o que seja felicidade.
E eu sou tão pessimista, que me consideraria feliz só com o fato de que eu fosse pouco infeliz.

PAULO SANT’ANA - 



Zero Hora.20/05/2012


Ignorância clássica




A história, reconheço, não me deixa bem, mas ao menos tenho a atenuante de que a ideia não foi minha.

Ainda mais vagabundo do que eu, o que não deixava de ser um feito, o primo Fernando parecia decidido a restaurar sua imagem, tanto que resolveu prestar o exame de madureza - um ancestral do supletivo -, numa cidade do interior de Minas. Como não estivesse a fim de viajar sozinho, me convidou para ir com ele.

Nem pensar, descartei eu, sem a menor disposição para o safári que o Nandinho me propunha: se no bem-bom da capital eu já passava humilhação nas provas escolares, por que iria dar vexame também naquela lonjura, conferindo alcance intermunicipal à minha ignorância? Eram seis disciplinas, e entre as obrigatórias havia duas, matemática e biologia, que eu nunca tinha estudado, pois, justamente para fugir delas, optara pelo clássico - o ramo "humanas" do curso colegial. Não foi, aliás, má opção; ainda hoje, questionado sobre qualquer coisa que desconheça, e são tantas, me basta dizer:

-Não sei, eu fiz o clássico.

Nem assim o primo desistiu da minha companhia, e recorreu a um golpe baixo - foi fazer a cabeça de meu pai, terminando por convencer o velho a me pressionar para aderir à expedição. Não tive como resistir, pois meu aberrante prontuário escolar acumulava três estrepitosas reprovações. Sim, por três vezes tomara bomba direto, sem ao menos fazer jus à repescagem da "segunda época". Deveria estar, àquela altura, no segundo ano de alguma faculdade, mas em vez disso tartarugava na metade do clássico. Se dali saltei, poucos meses depois, para a universidade, foi graças ao primo Fernando.

Não direi o nome da cidade onde fomos prestar os exames, para não comprometer com a minha a reputação daquele acolhedor município. Digo apenas que lá se chegava numa interminável, abafada, suarenta viagem de trem. Comigo e o Nandinho, seguiram dezenas de rapazes, bem uns 50, que vinham a ser, ainda mais do que nós dois, a fina flor da vagabundagem escolar belo-horizontina. Não espanta que na chegada nos esperasse um pelotão policial, pois alguns de nossos elementos haviam depredado o carro-restaurante.

As seis disciplinas do madureza deveriam ser matadas de duas, no máximo três vezes. Significava que naquela primeira rodada eu poderia fazer até cinco exames, deixando o derradeiro para mais adiante. Como me restasse um mínimo de noção das coisas, decidi me inscrever em três matérias apenas. Qual não foi a minha surpresa, porém, quando, lá chegando, me encontrei inscrito para cinco provas - entre elas, as impenetráveis matemática e biologia. Até hoje não entendi o que aconteceu.

Não me perguntem, por favor, como foi que, ao cabo de exames orais e escritos, pude voltar para casa, naquele remoto mês de agosto, aprovado, para pasmo geral, a começar do meu, em cinco disciplinas. Para valorizar minha façanha, digo apenas que, no caso da matemática, a prova oral se desdobrava em três, uma para cada ano do curso colegial. Ainda bem que, sorteado o ponto, o candidato tinha alguns minutos para prepará-lo num canto da sala, o que lhe aumentava as chances de êxito - sobretudo se naquele momento pudesse sentar-se nas proximidades de um primo razoavelmente conhecedor da matéria. Fiz melhor figura, em todo caso, que alguns de meus comparsas, um dos quais, no exame oral de biologia, instado a dissertar sobre os musgos, limitou-se a balbuciar que eles serviam para enfeitar presépios.

Sete meses depois, tomei de novo o trem para liquidar a última fatura, que consistiria num exame oral de história. Horas e horas de viagem para que o examinador me propusesse um paralelo entre Ramsés II, o Grande, e o presidente Juscelino Kubitschek.

- As obras faraônicas... - principiei eu, mas não pude ir além destas três palavras, pois o velhinho, de quem me haviam falado como sendo crítico feroz do construtor de Brasília, se abriu num sorriso e me cortou a fala:

- Muito bem, o senhor pode ir.

Fosse outra a pergunta e eu talvez tivesse respondido:

- Sei não. Estou fazendo o clássico.


  - HUMBERTO WERNECK

Estadão.20/05/2012

O MÊS PRESENTE




Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos
O tempo na verdade tem domínio,
Amém, amém vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino

A mulher, a ciência e o coco



Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim - e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como "o sexo frágil" ou "o belo sexo" e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.

As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.
No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando "as antiquadas toalhinhas". Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como "um travesseiro de gato", o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava "incomodada", ou até "doente".

O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como "boi", em falas como "acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado", "ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês". Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que "compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi". E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.

Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. "Está tudo em sua cabecinha", dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.

Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.

- Mas eu suspendi o tratamento - disse ele. - Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.

 - João Ubaldo Ribeiro

Estadão.20/05/2012

Rilke em Manhattan


  
 A poesia de Rilke tem como objeto não a perfeição, mas o inacessível


Os versos do poeta tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1926), apesar do vigor, parecem, em geral, antigos e em desconexão com nosso tempo. Continuam a ser lidos — para tomar as palavras do crítico José Paulo Paes — como uma “luta com o anjo”. Seu contemporâneo, o romancista Robert Musil dizia que Rilke era “um homem mal adaptado aos tempos atuais”. Musil — como quase todos — o via como um prisioneiro do passado. Eu o vejo, ao contrário, como um profeta do futuro.

Podia andar, hoje mesmo, pelas ruas de Manhattan, que ainda assim o tempo lhe deveria algo. O tempo sim — com sua lentidão disfarçada de agitação — vem a reboque dos poemas de Rilke. Essa impressão se torna mais forte enquanto releio seus versos em “Rainer Maria Rilke (poemas)”, coletânea traduzida e apresentada por José Paulo Paes (Companhia das Letras).

É preciso chegar ao avesso da letra. A palavra não passa de uma cortina através da qual tentamos delinear a silhueta do real. Ler através: é o que nos pede a poesia de Rilke, e não a leitura rigorosa — “ao pé da letra” — feita pelos especialistas. Não ao pé, mas frente a frente: este é o desafio que ele nos propõe.

Escreveu seus poemas escondido em castelos antigos. Conservou a pose de aristocrata. Os bigodes nobres e o olhar perplexo parecem um grito de espanto. Seria Rilke, nos sugere Paes, a última alma do Império Austro-Húngaro. Lembra o crítico, ainda, que ele tinha uma confessa aversão “ao mundo da velocidade, da máquina e da produção” e que desprezava os artefatos modernos “vindos da América, coisas vazias, indiferentes”. Fala-se em Rilke e se pensa, imediatamente, em desamparo, angústia, desprezo pelo novo. Pensa-se em alguém retido nos mitos e na nostalgia. Tentamos envelhecer Rilke, envolvêlo em um manto antigo. Mas, enquanto o leio, eu o encontro vigoroso e feroz, como se — rapazote audacioso e cheio de si — circulasse por Manhattan com seus cadernos de notas, disposto a ler o que se esconde atrás daquelas torres de desperdício.

Rilke foi um cidadão do mundo. O próprio José Paulo Paes constata: “Havia em Rilke uma espécie de compulsão deambulatória que não o deixava esquentar lugar”. Eis o nosso contemporâneo. Sua metafísica é, talvez, uma física do invisível. O “Senhor” a quem se dirige é, mais, o Enigma que o futuro nos propõe. Rilke, leitor do futuro. Indisposto, sim, com seus tempos aristocráticos. Enquanto parecia fugir para trás, dava um salto à frente. Ainda hoje ele está à nossa frente.

O epitáfio que escolheu para seu túmulo sintetiza esse projeto existencial: “Rosa, ó pura contradição”. Está,
mas não está. Pertence, mas não pertence. Não podemos pisá-lo, como fazemos com um inseto que é sempre igual a si mesmo. Basta ler seus poemas. Escreve: “A minha vida eu a vivo em círculos crescentes/ sobre as coisas, alto no ar”. Nossa mente, rasa e cansada, logo evoca os anjos. Mas não é em círculo que trafegam os aviões de caça, as sondas interplanetárias e os satélites?

Rilke, com sua poesia, constata a existência de um Enigma preso no coração do mundo. A ciência deseja perfurá-lo. As religiões querem iluminá-lo. Rilke — como todo poeta — limita-se a dançar em torno dele. Como um menino que risca a paisagem urbana com seu skate, ele (com palavras) faz piruetas, gira, cambaleia. Cai — a cada verso  , uma pequena queda —, mas se ergue de novo.

Beija o Enigma, e sabe que só isso nos resta a fazer. Mas quantos têm a coragem de aceitar? “Giro às voltas de Deus”, ele diz, “e giro há milênios, tantos...” Quem será, porém, esse Deus? Qual será essa pergunta que o intriga e em que cujo lugar a palavra Deus aparece? Vê o antigo Deus monoteísta como um velho solitário, que precisa de sua ajuda. “Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer./ Estou bem perto de ti”, oferece-se. Sabe que seus sentidos estão exilados desse Deus inacessível. Melhor dizendo: desse Enigma.

Rilke tem consciência de que a ideia de Deus é só um manto com o qual envolvemos o indecifrável. Escreve ainda: “Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes —/ e te construímos, ó grande nave altaneira”.
Construímos — sim, nós, homens, fazemos isso! — a grande nave (grande pai) no colo de quem nos encolhemos. Mas o que fazemos, senão proteger a nós mesmos?

Cada um de nós, diz Rilke, luta para escapar de si. Mas isso é impossível, situação que ele define no verso atroz: “toda vida é vivida”. Tudo oque temos é o que vivemos e nada mais. Ele mesmo se pergunta: “Quem a vive? És tu, Deus, que vives a vida então?” Deus está no Silêncio, o poeta nos sugere. Está na ausência. A poesia de Rilke tem como objeto não a perfeição, mas o inacessível. Mas, em um ricochete, a pergunta lhe volta e o atravessa: o inacessível está aqui mesmo.

Rilke fala, todo o tempo, de seu desejo de suportar a sombra. Pois é assim nosso mundo: quanto mais ele se expande, quanto mais a técnica se acelera, mais as perguntas (sombrias, enigmáticas) se acumulam. O poeta é aquele que sai de si para, como em uma morte, retornar à natureza. Para falar como Clarice: para retornar à Coisa. Diante do anjo de pedra de Chartes, o poeta se interroga: “Que sabes, tu de pedra, de nosso ser?” A verdadeira pergunta, porém, ainda é mais complicada: o que nós mesmos sabemos?

A poesia de Rilke nos empurra de volta às perguntas mais essenciais. Em torno delas, dançamos. Está bem: como anjos, mas — como alerta Drummond — um tanto tortos. A ideia de vida, em nossos dias, se assemelha à cegueira, e talvez à morte. Diz Rilke: os vivos olham para fora, os mortos para dentro. Como a pantera no Jardin des Plantes, em Paris, que às vezes ergue as pupilas; mas não basta ver.

Rilke a enxerga presa em um círculo. Nele detida, “a cada volta urde/ como que uma dança de força; no centro/ delas, uma vontade maior se aturde”. É nesse centro que a vida lateja. Jamais o pegaremos. Por mais que atravessemos com nossa ciência o coração da pantera, ele sempre escapará. Sim, Rilke nos apresenta o insuportável. E o insuportável é o presente no qual, apesar de tudo, devemos inventar a felicidade.

 - José Castello

O Globo.02/06/2012