sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

a felicidade bate à minha jaula



cheguei em casa truculento
estripei minha mulher
desossei meus filhos
taquei fogo nos vizinhos
não porque sou violento
mas por estar carente de carinho

acordei feliz e satisfeito
numa jaula cheia de companheiros
sem mulher, crianças e vizinhos
só com amor, carinho e compreensão
guardas, grades, cães e carcereiros
aqui protegem do mal meu coração

(Edson de Vulcanis & Marcos Prado)

Passagem do ano




O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

CONCERTO PRA VIOLINO DE Tchaikovsky




Não sabia o nome dessas coisas
só sabia sentir os sons
a voz do violino gritando,
a orquestra respondendo
e meu pai exaltado, em pé,
dividindo comigo seu encantamento.

A primeira vez foi na infância.
A última foi na sua cremação.

Entre uma e outra a falta
o buraco, a voz ausente

e essa saudade sem cura
Rubens Jardim

Você senta-se aí
por dias dizendo :
'Isto é um negócio estranho'.
Você é o negócio estranho.
Você tem a energia do sol dentro de si,
mas mantém esta energia amarrada
na base da espinha.
Você é uma esquisita forma de ouro
que deseja manter-se derretido na fornalha,
para não se transformar em moedas.

Jalaluddin Rumî

Não há nada tão alto que o homem de vontade não posse a ele apoiar a sua escada. 

Schiller

O Tiradentes

No início dos anos 70, os garimpeiros arrancavam seus próprios dentes. a sangue frio, é claro. de modo que quando Paulão viajou pro norte com uma bolsa cheia de Citanest, teve sucesso imediato. Mesmo quando os veios de ouro secaram, Paulão continuou oferecendo anestesia. Agora seus maiores fregueses são os índios . A maioria nem tem mais dentes para tirar. Ele ainda vem pra São Paulo e volta com duas ou três malas da coisa (as aplica em troca do pagamento que houver ). Pra ele, o caso é que os índios não estão suportando o gosto de sua própria saliva nestes tempos.

Fernando Bonassi

Morro de Santo Antônio

Seu dotô não bote abaixo
Tem pena do meu barracão
Quem é rico se atrapalha
Pra arranjar onde morar
Quanto mais eu sou pobre
Como vou me arrumar
Pra me mudar
Seu dotô me compreende
O progresso é necessário
Mas seu dotô
Pense um pouco no operário
Meu barracão é todo meu patrimônio
Por favor não bote abaixo
O moprro de Santo Antônio.

Benedito Lacerda e Herivelto Martins,


Barraco de Tábua

O morro era um presente de Deus
Vivia no abandono
Agora morro tem dono
Adeus , Salgueiro, adeus
Desço a ladeira chorando
Sem ter a quem reclamar
Se o morro é um presente do céu
Deus não tem imposto a cobrar
Invés de barracos destruídos
Roupa nova para os morros mal vestidos...

Herivelto Martins e Vitor Simon

Aqueles Morros

Antes aqueles morros não tinham nomes
Foi pra lá o elemento home
Fazendo barraco, batuque e festinha
Nasceu Mangueira, Salgueiro,
São Carlos e Cachoeirinha
Andaraí, Caixa d'Água, Congonha,
Alemão e Borel
Morro do Macaco e Vila Isabel.

Bezerra da Silva e Pedro Butina

Favela

numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguèm morando lá
Cada um pobre que passa por ali
Só pensa em construir seu lar
E quando o primeiro começa
Os outros depressa
Procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar (...)


É ali que o lugar, ntão,
Passa a se chamar favela.


Jorginho e Padeirinho.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

SEM PERSPECTIVAS...




O sentido faz-se ágil, feito projétil.
Feito projeto de visionários,
que aficionados às mudanças relâmpagos,
espalham-se, por lugares vários.

O que dantes era rocha,
fêz-se aquário...
O que antes era crosta,
fêz-se itinerário.

Josemir Tadeu Souza

Hoje em dia



por hora
basta-me o inflamável
ou o condenável

a mansidão
é máscara
encobre
as ranhuras

penduro o olhar
na fotografia

escoro sorrisos
em pedras

rego-me
com as águas
que passam
por baixo da velha ponte

por hora
basta-me o inenarrável
ou o contestável

Ricardo Mainieri
Braços a frente e às costas,
imagens humanas, fazem-se divergência temporal.
Uma temporalidade, que inibe, restringe, absorve-se mal...
O tempo já não limita apenas horas e lugares.
Ele já penetra em nossas entranhas,
feito um velho conhecido, que sequer bate à porta.
Eis que nossa mente assusta-se, pois que não comporta,
o imenso ir e vir e o prosseguir que viaja além,
do que nosso corpo/casulo suporta...

A gente se medra, se esquiva.
A gente se degreda,
não tendo perspectiva...

Eu te peço perdão, meu companheiro,
Pelas tristes palavras que te digo.
Amigos sempre fomos; tempo inteiro.
Desde guris, revoltos sem castigo.

Vivendo sem temer, sem paradeiro.
Eu não tinha segredo algum contigo,
Juntos nós encarávamos vespeiro,
Não conhecemos medo, e nem perigo...

Mas, agora desculpe esse covarde,
Que não teve coragem de negar,
Pois bem sabes, se o peito mais nos arde,

É coisa bem difícil controlar,
E antes que tudo cegue e seja tarde,
Vou, tua amada prenda, namorar...

Juleni Andrade

Paradoxos




Mundo de tantos mudos
onde eleitos
tem palavra & ação.

Onde senhores
qualificam & quantificam
resumindo uma equação.

Para o inesperado
nenhum tempo.

Para o imprevisível
as armas da razão.

Prisioneiros
do tempo-espaço.

Limitados
à terceira dimensão.

Ricardo Mainieri


Quando busco o calor na noite fria,
Encontro, tantas vezes, verdadeiro,
A chama que transforma essa agonia,
Deliciosa chama desse isqueiro...

Que traz a luz; penumbra e poesia,
No meu cigarro, brilho mais useiro,
Traz toda essa esperança que eu queria,
Vertida nessas cinzas , meu cinzeiro...

Sim, fugiste; fumaça, labareda...
Restando apenas tristes recordares,
A sombra, esfumaçada, na vereda;

Por onde tu partistes, nos luares.
Só peço a Deus, então, que me conceda:
Poder te procurar, por esses bares...

Marcos Loures  25 de setembro de 2011 09:04


O QUE SE FAZ PRA MIM, PRINCÍPIO...

A escuridão já não me assusta...
o que em mim se faz perscruta,
é justamente o ato da escuta.
Justo aquele que aviventa
minha parca capacidade
de enxergar... mas deixa estar.

Entro e saio
dos meus próprios precipícios,
eis o que ficou fadado,
como sendo meus compromissos.
Não posso em verdade fraquejar...
sequer chorar.

Meu olhar amorfo,
traz incrustado em seu fundo
todo um desejo profundo
de poder desejar.
Quem sabe viajar?

Nada se faz modo
de me amedrontar...
cresci sentindo...
aguçando meus sentidos.
Nasci pra isso,
eis o que se fêz pra mim,
princípio...

Josemir Tadeu Souza

SEMPRE CONTINUARÁ...




As horas...
em verdade,
são no real, sem alarde,
o ritmo exato do tempo.
O espetáculo faz-se
a medida em que nós,
eternos personagens,
entregamo-nos às viagens,
que inseridas em nossas
imagens,
comandam-nos...

O minuto seguinte
incorpora o instante,
que voa,
e eis-nos no palco.

No geral,
representamo-nos.
Somo-nos.
Embora nosso ego
conteste.
Embora haja quem deteste,
há quem em vôo cego,
faz-se mergulhar.
Mas o espetáculo continua,
e sempre continuará.


Josemir Tadeu Souza

RAREFAÇÃO



Resolvi
nada dizer

a palavra paira
além da mensagem


Josemir Tadeu Souza

Nas montanhas Gerais, terra mineira


Nas montanhas Gerais, terra mineira;
Onde o mar se transforma na lagoa.
Terra minha, Alterosa, verdadeira.
Da cachaça, torresmo, vida boa...

Vontade de não ser, sendo a primeira.
Caçando melodia na garoa...
Sapo boi, na boiada, a galopeira.
É muito bom viver assim, à toa...

O suor escorrendo pela cara,
A vida transcorrendo devagar.
Vê, repara, teimosa, pensa, pára...

Faz que irá, mas nem tenta começar
De Jessé, de Jessé, nas céu a Vara...
E vem me comover, baita luar!


Ricardo Mainieri              

OUTRA VIDA...

Terras vermelhas,
tingidas do sangue,
que exangue, esparge-se
entre os excluídos...
Quem dá mais,
por esse sofrimento?
Quem dá mais,
por esse massacre,
esse tormento?
O olhar vivo,
porém parado, fixo,
habitando o medo,
traz a definição
da insensatez...
a enorme desfaçatez.

Crianças santas,
e o dar de ombros
de um planeta inteiro.
Uma imensa ferida,
que somente far-se-á redimida,
em outras existências.
Outra vida.




José Tadeu de Souza

Canção de quase seda



Há algo de seda
naquela voz.

Apesar do grave registro
da rouca emissão.

Algo de arco-íris
a semear esperança
naquela negra voz.

Algo beatiful
wonderful
quase celeste.

Sim, Louis
o mundo poderia
ser maravilhoso...

desconstruída
quase destruída

resta a respiração

do signo & nexo
necessário

com & sem
sentido

depende de quem lê.


Ricardo Mainieri             

VIAJANDO PELOS VELHOS TEMPOS...




Observando o meu passado...
reviajando, feito imigrante arrependido,
sinto que o relevo das emoções ali existentes
continua intocável, continua infindo...

Volto e volto-me...
carne e alma.
Meus olhos alonjam-se
por entre os hiatos.
O céu cristalino, denso,
embora clarejado,
ainda conta-me através
dos sussurros da brisa,
que as lembranças dos tormentos,
embora amortecidas,
continuam vivas nos corações
de todo um povo...
existe um precaver-se,
para que nada aconteça de novo...

Observando o meu passado,
firmo-me no presente.
Não me faço ausente.
Já não tenho medo de açoites ou do escuro.
Já acredito no futuro...

josemir(aolongo)


Nessas folhas caídas , meu outono,
Da vida vai distante a primavera.
Quisera não viver esse abandono,
Nem conhecer ardor dessa quimera...

Vem vindo devagar; quando ressono,
Inverno terminal. Ai quem me dera;
Meu Pai me concedesse; como abono,
Pudesse ressurgir, qual fora fera,

Nos tempos tão felizes que se foram...
Menino, procurando meu futuro,
Não sabendo, entretanto quanto é duro.

Perder os amores que ficaram,
As esperanças todas, se acabaram.
Já fui, agora espreito sobr’o muro...

Marcos Loures

Nessas folhas caídas , meu outono,
Da vida vai distante a primavera.
Quisera não viver esse abandono,
Nem conhecer ardor dessa quimera...

Vem vindo devagar; quando ressono,
Inverno terminal. Ai quem me dera;
Meu Pai me concedesse; como abono,
Pudesse ressurgir, qual fora fera,

Nos tempos tão felizes que se foram...
Menino, procurando meu futuro,
Não sabendo, entretanto quanto é duro.

Perder os amores que ficaram,
As esperanças todas, se acabaram.
Já fui, agora espreito sobr’o muro...

Marcos Loures  

TEU POEMA INACABADO



Dentro de meus silêncios
e de minhas mãos ...
Fria e nua,
caminha a madrugada.
Procuro nas rimas,
vestes para o teu Poema.
Confesso à solidão,
o teu nome,
os teus olhos,
o teu perfume.
Sentimentos pairam sobre a folha.
Palavras se aninham,
em meus lábios.
Fecho meus olhos,
no desejo de teu beijo.
Amanhece.
Adormeço com a saudade.
Em meu colo ...
Teu Poema inacabado.

Bruno de Paula


A MERETRIZ E A SANTA - FANTASIA



Trazendo o viço da vida
E um vício, felicidade.
Perseguindo na cidade
As portas da despedida
Do tempo que fui feliz
No colo da meretriz
Matada por ser verdade
O boato que dizia
Que em toda essa eternidade
Rasgando essa fantasia
De dona desse bordel,
Viajava pelo céu
No cabo desse cometa
Que comentam que surgia,
No nascedouro do dia
Pelas alvorada afora
Que desde que foi embora
Escurraçada, essa moça.
Nunca mais quebrou a louça
Que compunha nessa Igreja
Para quem quiser que veja
A clarear nesses dia
Nessa imagem dessa santa
Olhos da Virgem Maria.
Pois então desde esse dia
Ando vida solitária
Buscando cara metade
Mas no mundo sem alarde
Num tem esperta ou otária
Que queira, de serventia
Ou por amor ou decreto
Viver, amar de concreto
Fazer da vida a valia
Que possa dar compromisso
Fazendo do jogo atiço
Do rogo desse serviço
Que traga minha fornada
De pão e de poesia
Pra poder só nessa estrada
Ser a minha estrela guia
Essa mão que me consola
Que me carrega a viola
E me ensina nessa escola
De que serve a valentia
Se nada mais me trazia
O rebento desse dia
Que acende todo pavio
Que me deixa por um fio
Antes que nada avacalha
Sou do fio da navalha
E gosto de ser assim
Que tudo seja por mim
Como nada mais poderia
Se tivesse essa fantasia
De ser feliz com mulher
Se Deus isso não quer
Por culpa da cafetina
Que amei desde menina
Que voava sem ter asa
Pelas soleiras das casa
Esquentando feito brasa
Aquele que nunca se acha
Que pensa que vai, despacha
E que carregando essas acha
Pra aquecer tempo mais frio
No mundo segue vadio
Meu coração sem atino
Acostumou com destino
De viver do desatino
Por causa de bruxaria
De quem nunca foi compasso
Com pressa nem o cadarço
Da vida amarrou direito
Trafegando no meu peito
Sem rumo e sem direção
Foi o lastro desse chão
O gosto azedo da vida
Assumindo a despedida,
De quem nunca mais voltou
As asas criadas vento
Os olhos partidos, tento
Fazer desse meu intento
O meu maior instrumento
Se preciso restaurar
As mãos estão calejadas
Perfumadas por suor
Trincadas pelo melhor
Da vida que a vida nega
A quem na vida trafega
Sem ter rumo que se entrega
Nos traços desse meu lápis
Que com grafite bem negro
Não deixa mais que me escapes
Sorte sem rumo e apego
Minha sombra rela o pé
Atravessa esse portão
Formiga das lava pé
Queimando meu coração.
O amor, foi reviravolta
Sentou praça sem escolta
Vacilou, o amor caiu
Ralando o seu joeio
Sangrando todo vermeio
O coração já saiu
Andou dando devorteio
Na viola que ponteio
Do mundo roçando o meio
Varando pela porteira
Que permitiu minha fuga
Mas agora já refuga
Disfarçada em brincadeira
Dessas de saltar fogueira
Nas noites de sexta feira
Na coruja da ribeira
Qual mocho de bico torto
Vou seguindo absorto
No meio desse caminho
Que vai pra trás da fazenda
Perto daquela moenda
Que moendo, me matou
Os olhos perdidos ao leu
Percorrendo nesse céu
Em busca de minha amada
Única infeliz madrugada
Que acalentou minha lua
Que andava toda nua
Nos meus sonhos mais gulosos
Agora, como os leprosos
Do testamento mais velho,
Sem Cristo pra me curar
Embolado escaravelho
Me enovelo devagar
Qual fora ouriço caixeiro
Me defendo dos cachorro
Que lá por cima do morro
Já passam o tempo inteiro
A preparar o seu bote
A minha sina mais forte
Aquela que leva pro norte
Procurando minha sorte
Mas só tenho minha morte
Pra poder negociar
No fundo, pode estar certo
Que nada tendo por perto
É o que melhor vai tocar
O coração deslambido
Que bate de tanto sofrido
Num acalanto sem rima
Acabando com estima
Estrume tomando tudo
O corpo vai cego, mudo
Eu nem sei se me ajudo
Se posso saber o contudo
Se não sei nem o porque
De tudo que posso ver
Tá tudo selecionado
Nas cismas da minha sina
Feito mágoa cristalina
Feito matreira saudade
Gerada por contrafeitos
Contra os meus próprios defeitos
Nada posso argumentar
Só sinto nada ter feito
Nem do doce nem confeito
Mereço ao menos respeito
Pela dor que trago, o peito
Batendo feito demente
Trazendo para essa gente
Esse canto de amargar
A boca da noite vigora
Essa minha triste espora
Machuca qual catapora
Queima tal qual caipora
Me lembrando que agora
Já ta chegando minha hora
O meu tempo já se estora
É hora de ir-me embora
Embora fora de hora
Agora chegou minha hora
Doutor vou já vazar fora
Desculpe pela demora
A lua já se ancora
A barra da noite aflora
E terminando essa história
Carrego nessa memória
Os tristes olhos da Santa
Quebrados, por essa moça
Cuja carne não foi louça
Sangrada até não ter força
Com ela também fui morto
Meu pensamento absorto
Procurando por um porto
Onde possa ter descanso
Procurando pelo remanso
Desse rio que se encurva
Pra no meio dessa curva
Numa noite do sertão
De lua e de poesia
Enterrado, sem valia,
Meu inútil coração...
marcos loures

Nas sendas da criação

Nas sendas da criação

Neste momento
estarei em estado poético?

Quem sabe patético...

Num estado de coma
ou de Cummings?

Criar é ser ativo

Criativo...
Ricardo Mainieri              

Opera letal




A classe corrobora,
Senhora sem hora
Sonora gargalhada
Curitibana

Que plana e plana
E soberana galhardia
Estufa e ufana misantropia

Se de sóis se compõe
A maestria

Se de leis entabulam
E rotulam e, rótulos
Que caem ao solo
Da minha pena, tecla

Não estufo, não durmo
Não vivo,
Não
Não ente, não entre
Seja o que a escrita perde

Passa e passa
E vai,
Passando.

Dores que não inspiram
Carinho e,

Latidos para as plumas
Da garça branca

Intelectuais de botequim

Descobrem elegantes bares

E perdem a essência
(Do álcool)
ACM



O mass-media
intermedia
a mediocridade.

Dejetos culturais
em embalagens
geniais.

À parte disso alguns
são quase
avis rara
espécies em extinção

Amantes de filmes cult
bebop
do velho Tom.

Navegantes
na vertigem da alienação
sem tortura
ditadura.

Felizes por procuração.

Os tempos serão outros?

Seria somente ilusão?



Ricardo Mainieri             

A GENTE OS SENTE...




Preciso apreender,
meus sentimentos...
Simples assim?
Não.
Pois que não falo de sentimentos
quaisquer.
Falo dos nobres.
Dos que irradiam luz,
cintilando-nos para o que der e vier.

Dos sentimentos,que não têm fim.
Falo dos profundos.
Não dos que à tona vivem,
estabelecendo não e sim.

Um cantar em tom maior...
uma força forte, bela e estranha,
que penetrando em nossas entranhas
traduz-nos,
como sendo frutos de Algo Maior.
A prior,
que sejam quais poesias,
que recitadas no dia a dia
nos possibilite sabê-los de cor.

Preciso abrir portas e janelas.
como fosse habitante de uma imensa morada,
inserida na abrangência total
do que se faz real,
e insere-nos também ao etéreo.
Uma janela aberta
conecta e desfaz mistérios,
permite a entrada da luz.
Não a luz, arraigada ao efêmero  ornar
de nossa aparência carnal.
Mas a luz que desnuda,
diminui ou amplia,
nossa aparência real.

Se conseguir apossar-me
desses sentimentos,
mesmo que seja por átimos de instantes,
aí sim, rociarei orbes de outros planetas...
bem mais puros, bem distantes,
mas cabalmente presentes.
A gente os sente...

josemir(aolongo...)


Onze poetas


      
O nono poeta: sua condição é a ponta de uma lança.
Não há abrigo que aconchegue a grande outra porta branca, quando à sua frente. Fundamentada em sua metade esquerda, a argumentação se sustenta, crença nos outros dez.
Ao desfilar seu rigor no improviso, faz do tapete verde um lugar, uma audiência.
Sem igual, saem dali parecidos heróis e vilões.



Ari Marinho Bueno 

INDÚSTRIA CULTURAL


           

´ O mass-media
intermedia
a mediocridade.

Dejetos culturais
em embalagens
geniais.

À parte disso alguns
são quase
avis rara
espécies em extinção
amantes
de filmes cult
bebop
do velho Tom.

Navegantes
na vertigem
da alienação
sem tortura
ditadura.

Felizes por procuração.

Os tempos serão outros?

Seria somente ilusão?

               
Ricardo Mainieri


Te vendo, assim deitada, sobre a cama;
Suas coxas expostas, ao lençol,
Percebo porque sinto arder a chama,
Queimando bem mais forte que o sol,

Amores e desejos, tudo inflama,
A nuca sugerindo, cachecol,
Tentar compartilhar toda essa trama...
Ser tua casa enquanto caracol...

Trocar tantas carícias sem pecado,
No gosto de teu seio, meu deleite,
Poder sentir que estou apaixonado.

Na boca tanto gozo, tanto leite,
Meu corpo, tremulando, meu recado,
Clamando que, contigo, sempre deite...


 Marcos Loures  


Por te amar tanto, penetrei em tua alma. De tanto que por ti me inebriei, fiz-me criatura calma, e naveguei por todo o teu oceano. Alumbrei-me. Fiz-me criatura fascinada, e deixei-me levar pela imensidão de teu corpo, feito uma brisa perfumada, quando sopra mansamente, anunciando nova estação.
josemir(ao longo...)


Josemir Tadeu Souza    

Tsunami



Longe da costa o mar inicia dança de baixo para cima enrolando-se nas próprias águas, gira, gira, gira, vai girando e girando... enrolando-se e o vento soprando as águas formando redemoinho gigantesco. Começa marcha rumo ao continente. Furiosamente, sentindo raiva do mundo em grande reta, vai na brasa dos pneus. Só pensa em lamber lambendo o que vai pela frente, furiosamente dando lambidas nas águas. Grossas ondas, altas e gigantes, velozes e furiosas e cada vez mais velozes e mais furiosas. Vão riscando a reta rumo ao continente desavisado. Pessoas nas praias em seus trajes de banho, algumas expostas ao sol trajando vermelho ou qualquer outra cor. As ondas vão se aproximando raivosas, nervosas, de mau com o mundo, ondas que vão vagabundeando do mar para o continente, agarradas umas às outras. A velocidade e beleza das ondas volúveis era estonteante, medo, horror, inspiravam. Também a versatilidade e rudeza tornavam as ondas de uma beleza sem par, tanto que as pessoas pararam, estáticas não entendiam por estarem sendo surpreendidas. Verdadeiras serpentes por sobre as águas rumo ao continente de bocas abertas para engolir, absorver, tragar tudo o que estivesse à frente. Rastro de destruição alimentando-se do que estava no rumo, depois de satisfeitas, calmamente como se nada houvesse, em recolhimento voltavam para alto mar...

Marta Peres

Nihil



Nada
vazio pleno.

Nada na mente
só mente nada.

Oco
sem recheio.

Cheio de nada.

Um Quase Haicai...

aurora no céu
arco na íris do mar
ouro no olhar

(Cristina Desouza)

SOBRE ATAULPHO E UM DE SEUS ÚLTIMOS DESEJOS




Merece destaque, em meu comentário de hoje, a amizade que, por longo tempo, tivemos com Ataulpho Alves, um dos mais festejados compositores da MPB, conhecido como Mestre Ataulpho no meio musical brasileiro.
O último contato que com ele tivemos, deu – se aqui em Muriaé, num barzinho da Rua do Rosário depois da visita que ele havia feito ao também miraiense Flavio Siqueira e, deste encontro, participou o jovem fanando Cruz, um dos mais brilhantes alunos que tivemos.
Reservado e até tímido, fora dos palcos, Mestre Ataulpho mostrava-se muito preocupado com a operação de úlcera gástrica que iria fazer, num dos mais bem aparelhados hospitais do Rio de Janeiro.
A cirurgia estava marcada para a semana do carnaval e este parece ser um dos motivos da apreensão e Ataulpho, a ponto de ter deixado gravado, com Flavio Siqueira, um depoimento em que se despedia dos amigos.
Segundo ele, “caso o pior acontecesse”, ele queria ser enterrado em Miraí, mas, caso amigos e familiares não deixassem, ele pedia que, mais tarde, seus ossos fossem levados para a sua terra natal.
E Ataulpho, antes de se despedir de mim, teve oportunidade de cantar para Fernando Cruz, a pedido do mesmo, o “Meus tempos de criança”.
Muito pouco tempo depois, a triste notícia de seu falecimento deixou de luto a MPB e, principalmente, o “pequenino Mirai”, por ele cantado em prosa e verso, em suas canções.
Marcando fortemente o nefasto acontecimento, o grande David Nasser, jornalista e compositor, colunista de “O Cruzeiro”, pediu à família que “não culpasse os médicos”, pois, segundo ele, a morte de Ataulpho havia sido fatalidade, pois, “maktub” – estava escrito =, como dizem os árabes.
Inevitável, porém, foi buscar as razões da Morte do Mestre e descobrir que o amigo Ataulpho havia falecido, num dos mais bem aparelhados hospitais do Rio, por falta de acompanhamento pós – operatório.
Na despedida que ele nos deixou, naquele encontro da Rua do Rosário, Mestre Ataulpho falava da certeza de que “desta” ele não sairia, mas aquela preocupação não justifica o ocorrido nem nos consola.
Há, sem dúvida, “mais coisas entre o Céu e a Terra, do que imagina nossa vã filosofia”, mas isso também não nos serve de consolo.
As coisas se sucederam da forma preconizada pelo amigo Ataulpho, com o enterro no Rio de Janeiro, mas estamos certos de que o “Mestre” só terá descanso eterno quando seus ossos forem repousar em Mirai, como era de seu desejo.
Aliás, soubemos que esforços nesse sentido foram feitos por João Bilheiro, mas obstáculos maiores impossibilitaram o translado que, seguramente iria dar um final feliz a esta história de amor.
“Lá, de onde estiver Ataulpho tenha matado as saudades de ‘Maria e de Aurora” ou se reencontrado com “Mariazinha” e com aquela “professorinha” por ele imortalizadas em suas canções.
Mas, para que Mirai se reencontre com sua história, é importante que ele volte a morar nos “verdes campos de sua terra natal!”
Apenas assim também é que nós, miraienses ou não, poderemos estar em paz com nossas consciências...

MARCOS COUTINHO LOURES

Átimo




No frio do relógio
Os ponteiros se protegem
Em cada casinha decimal
Com cobertores de sinais
Quânticos
Da lógica universal
ACM


SONETO - SE O HUMANO SER PUDESSE...



SE O HUMANO SER PUDESSE, NUM MOMENTO,
TIRAR DO PEITO AMARGAS CICATRIZES,
FILTRANDO O TÉDIO E TODO O SENTIMENTO,
TALVEZ ASSIM, NÓS FÔSSEMOS FELIZES!

SE TRAZ O AMOR, CONFORME TU ME DIZES,
A DOR E NADA MAIS, O ENCANTAMENTO
QUE ELE APRESENTA, EM TODAS AS MATIZES,
É CAUSA DE TRISTEZA E SOFRIMENTO!

POR ISSO, QUANDO O AMOR O PEITO INVADE
EM UM MOMEMTO ÚNICO E FELIZ,
COMO DIZER-TE A VIDA QUIS, UM DIA

ELE JAMAIS TERÁ FELICIDADE
POIS SE ENSINAM O JEITO DE QUERER,
NÃO SABEM MESMO, O MODO DE ESQUECER...


 MARCOS COUTINHO LOURES

EXP(L)OESIA



Feito um tsunami
de versos

um sismo
de imagens

sentimento
que não pode ser medido
na escala Richter.



Ricardo Mainieri           

CONTO DO LABIRINTO




Ícaro voava pelos escombros guardados no guardanapo sujo, ali mesmo na mesa redonda. Os cavaleiros sentiam uma estranha alegria, escutando outra vez o céu. Além da muralha havia a floresta de momentos, lá habitava a loucura.

De repente, o lago abriu-se e botou para fora o vazio. Vieram árvores, deuses, reis, rainhas, luas novas.

Mulheres encerraram o canto. Homens destilaram nódoas. O poder esmagou a espada e Ícaro pousou na toalha branca para absorver respostas.

JULENI ANDRADE

COMO É LINDA MURIAÉ POR NÉLSON RODRIGUES




1- Amigos, certa vez, o Otto Lara Resende recuou três passos, avançou outros três e declarou, de fronte erguida – “O mineiro só é solidário no câncer”. Julgamento, como se vê, extremamente amargo e, eu diria mesmo, crudelíssimo. Mas um mineiro que fala dos mineiros tem cem anos de perdão. E o meu amigo nasceu lá na montanha.
2- Fiz a reflexão acima para concluir – eu não sei se o resto de Minas “só é solidária no câncer”. Outro mineiro, como o Otto, que confirme ou negue. Mas eu sou um vago pernambucano. E posso dizer que Muriaé, pelo menos Muriaé, não tem nada a ver com a frase citada. Muriaé é solidária, não só no câncer, mas em tudo o mais. Não há cidade mais solidária, e doce, e fraterna, e lírica e brasileira. Aí está dito tudo – Muriaé é brasileira de alto abaixo, brasileiro nos seus costumes, sentimentos, idéias. Eis uma terra embebida da bondade de nossa gente.
3- Eu estive lá, sexta e sábado. Ia-mos, a Viúva Mario Filho, eu e minha esposa, Lucia, assistir à inauguração dos “Jogos da Primavera Mário Filho”. O Professor Marcos Coutinho Loures, uma admirável figura, batera o telefone para min – “Não falte”. E repetiu – “Não falte”.Amigos, eu estava devorado pelas minhas obrigações profissionais. Mas como resistir a uma convocação de Muriaé?
4- Fui e vi a abertura dos “Jogos de Primavera Mário Filho”. E uma coisa eu quero dizer- eu atravessaria três desertos para viver a mesma experiência. Chegamos lá e fomos recebidos pelos Professores Marcos Coutinho Loures e Lúcio Gusman. Duas esplêndidas criaturas, inteligentes, cultas, sensíveis e frementes de idealismo. Na primeira volta pela cidade percebo o óbvio ululante – não há povo mais cálido, mais generoso de uma alma tão amiga, tão irmã.
5- O Professor Marcos Coutinho Loures explicou que a idéia de uma homenagem a Mário Filho teve, em toda Muriaé, uma adesão unânime e fulminante. Todos quiseram colaborar, a começar pelo prefeito Hélio Alves de Araújo. Por toda a parte, um entusiasmo total. A juventude vibrou. Todos ali, sabiam quem foi ou quem é Mário Filho. Eis a verdade – o grande “homem não envelhece, não morre”. O que Mário Filho disse, escreveu, fez, as suas idéias, os seus exemplos, suas realizações, suas utopias, tudo isso está no ar, difuso, volatizado, em forma atmosférica. Continuamos a respirar Mário Filho.
6- Quando eu vi o desfile inaugural, em Muriaé, senti, como Mário Filho está vivo. Na bela cidade mineira, era uma formidável presença. Mas eu falei que minha viagem a Muriaé foi uma dessas luminosas experiências de vida que ninguém esquece. Um povo todo veio para a rua. De repente, aconteceu apenas isto: - uma massa de crianças gritando: “Mário Filho! Mário Filho! Mário Filho!” Pode-se imaginar uma homenagem mais comovida, mais linda, ao criador dos “Jogos da Primavera” e dos “Jogos infantis”? Naquele momento, a minha vontade foi a de me sentar no meio fio e começar a chorar.
7- Apertei a mão de figuras admiráveis. Assim, o prefeito Hélio Alves de Araújo, Gilson Vianna, Diretor Geral dos “Jogos”; e um sentimental que está sempre a um milímetro da lágrima, Wilson Filgueiras. Amigos, geralmente eu tenho um santo horror ao discurso. Mas Lucio Gusman reabilitou a figura do orador. Sua oração foi brilhantissima. E o que dizer de Marcos Coutinho Loures, um belo espírito, um coração bem brasileiro. A Viúva Mário Filho teve todas as honras. Saí de lá certo de que era profundamente irmão de cada habitante de Muriaé.

MARCOS COUTINHO LOURES


DAS UTOPIAS



Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana

Oração




Sabeis bem
Ou nada, do que brada
Eleva e acaba, brava
Gente

Houve um rito,
Houve um cisto,
Houve um tempo,
Em que ledo parâmetro
Configurava seres

Literatura e lira

Libertou-se de si
E de sol

Por ora, se jacta
Com jactância

De subir e descer
De ler e reler

E de não encontrar
"Motivos para rir".

Sorrisos laicos se insinuam
Por sobre os

Candelabros das letras.
ACM

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

DECADISMO




Cortei os pulsos
do poente.

(Nas ruas onde descaminho o sangue escorre das nuvens
nessa hora em que outrora havia ângelus e anjos acendiam as estrelas
onde hoje se acendem os anúncios luminosos...)

Cortei os pulsos
do poema
e vim à rua
contemplar o sol desfalecido.

Era fatal que me tornasse poeta.

(O sangue espirra sobre a pia e sobre o copo
e sobre o tubo de dentifrício e sobre o espelho onde outrora eu via
um rosto...)

Cortei os pulsos
do poente
e vim à rua
perpetrar o meu último poema.

Otto Leopoldo Winck