sexta-feira, 17 de agosto de 2018


Chegará o dia em que teus olhos estarão imersos na noite e a própria memória do sol estará sepultada nas trevas. Portanto, colha o dia, este dia, que é o único que tu tens com certeza, antes que tu mesmo sejas colhido pela noite que, veloz, se aproxima.

Otto Leopoldo Winck


Cara, tá faltando inspiração?
É que tu não foi no fundo ainda.
Lá na carne, no nervo exposto,
lá no tutano do osso.
Lá onde a esbórnia vira esgoto
e todo herói o seu oposto.
Tá faltando transcendência?
É que tu não foi no fundo ainda
desta nossa abjeta existência.
E só depois do último círculo do inferno
que se pode aspirar ao céu
(ou a um purgatório que seja).
E a fé, amigo, é um dom
que só se concede aos desesperados.
Então, vai, mergulha fundo
no fundo sem fundo do poço,
do fosso, do lodo, do oco do universo.
Morde a carne e rói o osso.
E só depois volte aqui
e, sem dramas,
faça um verso.

Otto Leopoldo Winck


SPLEEN CURITIBANO


um dia cinza
um livro aberto
um tempo frio

a mente solta
sonha o sol
de outro lugar
um trópico
de câncer
ou capricórnio
tanto faz

tudo
menos
este dia
este tempo
este lugar

Otto Leopoldo Winck


sábado, 4 de agosto de 2018

DESEJOS INSANOS




"O Brasil que eu quero"
não tem lero-lero
é assim que eu espero
que ele seja:
mais esperança, e mais alegria,
fé sem miséria e comida na mesa.
Não quero a discrepância
de ouro e farrapo,
nem descompasso e desilusão.
Se "o Brasil que eu quero"
é pura utopia,
que valha a canção e a poesia,
e que meu canto nunca seja em vão.

Saulo Campos- Itabira MG

BELLE ÉPOQUE




Retrato de uma época efervescente
Cenário multicultural
Fervilhar nas ruas parisienses
Montmartre, reduto boêmio
Cotidiano voraz da Belle Époque

No flutuar dos saiotes coloridos
A sedução de uma dança vibrante
Consagrado cabaré
Moulin Rouge
Palco de maliciosas alegorias
Banquete dionísico
Ode ao prazer
Poetas
Artistas
Intelectuais

Embalados ao dom de uma nobre poção...
Bebida ilusória, Absinto
Fluir de ocultas emoções
Fada Verde
Madrinha da boemia cultural
Van Gogh
Rimbaud
Lautrec
Devotos da mágica esmeralda
Na ampliação do criativo

Impressionismo de uma época nostálgica
O romantismo dos cafés
Burburinho alegre e vivaz
Constatação do bem-viver
Art Nouveau no coração.
(Leila Soares)

DOSE Nº. 11




nos templos de Deuses
sem vitórias e vencidos

somos um oceano calmo
para uma tempestade violenta

somos um sussurro meigo
para um grito agudo

somos uma música suave
para um maestro áspero

somos uma visão nova
para uma experiência antiga

somos a vida
fecundada no amor
formando no universo
a planície da paz

Milton Gama

DOSE Nº. 6




música música músicas
para acalmar os deuses

vinho vinho vinhos
para elevar os espíritos

paz paz pazes
para amar as vidas

amor amor amores
para saciar os amantes

é preciso sentir
o som
o sabor
a felicidade
o calor
a intensidade do mistério
para se viver de verdade

Milton Gama

Ainda te espero...



Ainda te espero...
Assim como na chuva se espera o sol,
Assim como do navio se almeja o farol,
Assim com do poeta se espera a inspiração.

Ainda te espero...
Mesmo que não me dê mais esperança,
Mesmo que rejeites minha Aliança,
Mesmo que de sua boca só saia “não!”

Ainda te espero...
Não porque eu queira,
Não que porque eu faça cena,
É porque sou um pobre refém do meu coração.

  Nelson Rodrigues de Barros

CUADROS DE LA VIDA



Me parte el corazón,
lo he escuchado,
en el trajinar,
de la vida,
lo he escuchado,
-una desdicha pasaría,
-una felicidad produjo,
que palabras conmovedoras,
tanto de alegrías,
como de tristezas,
decir conmovedoras de tristezas,
es lamentaciones de tragedias,
utilicemos sus sinónimos,
para no haber equivoco,
me parte el corazón,
decía la madre,
de aquella chiquilla,
tan solo trece añitos,
embarazo a bordo
me parte el corazón,
de la felicidad,
paso mi ángel de cielo,
mi niña bondadosa de Dios,
ha pasado a la universidad,
para estudiar medicina,
cuadros de la vida,
en su caminar.

Maximiliano Rios Duran              21 de julho de 2011 22:07


ONEIDA!




Nada surge do nada

As imagens depois de nós

Se movimentam

O visível transparece

Haja luz!

Nas trevas

O escuro vive obscuro

Expira maturo!

No amor só há o ser

Ao saber se junta o querer

No olhar se sente o ver

Na vida se vive o ter

Em nós

- Grandes amores –

Que bom viver!

sérgio matos

Meu Sonho


 (Cecília Meireles)

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.



CALÇADA DA VIDA



Descalça da alma,
faço a curva e sou atingida,
sou uma caminhante errante na calçada da vida ,
nas esquinas vazias junto-me a sua ira,
vejo fatos e consumo rimas,
sou parte da despedida,
confronta-me os fatos
destino-me na ida,
faminta de sensações,
nas palavras fui sucedida,
sinto-me nua,
componho meu tema,
arrisco-me ser mais,
sou meu próprio poema!!

Ana Elizabeth Baade-22/06/2011


CEIFEIROS



 Inquietude corporal
mãos pesadas,
um jogral sem declamador.
Sigo andando
parado na mesma estação
seguindo por curvas de cada
esquina perdida do passado.

A sede já ultrapassou
a vontade da boca
a idade voraz descortina
o veredito: O Caminho é curto.

O olhar de ave rapina
já cumpriu sua sina de caçador
e a dor espiritual que agora invade
tornou-me ceifador
de mim por mim mesmo.

Quem muito fala revela
suas próprias mentiras secretas.
Janelas abertas,
tento alçar vôos com minhas enormes
asas da imaginação...
Já não posso planar pela vastidão,
porque os olhos cerrados da angustia
deixou preso o gosto, a degustação...
E no âmago frio do meu Ser
soa mansamente:
“Cala-te, respira e dorme...”

Fernando Matos
Poeta Pernambucano

Los cipreses


Carlos Enrique Fuentes 


nos acogen

y la elegancia

de los boques

visten de musgo

en el moscino

nocturno

se desplazan

la horas

de luna llena

en los palacios

de la intemperie

desnudos los dos

nos alimentamos

de manzanas

prohibidas

en tu maleza

de sonrisa virgen

bautizada

en la aguas

templadas

de un lago

que atraviesa

traviesa

los umbrales

del placer

para plantar

afrodisiaca

variedad

de locura

en los montes

de tu esencia





Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
...Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


Miguel Torga

Novos re-casamentos




merecem suspeitas
Novas esposas se põe na obrigação
De superar as anteriores
Não na pessoa concreta
Mas na que vive em sua idéia
Tem que ser mais forte
Mais nova e atraente
Mais caliente
Mais desperta
Ah, insensatez do marido
Melhor seria
Se fosse mais devagar


Tarso Firace       20 de agosto de 2011 16:20

"Soneto sem decassílabos"




A noite caiu e tu estavas ausente,
A pele do corpo tocava os dedos,
Como murmúrios suaves na boca carente.
Falando da tristeza que acoberta os medos.

Os teus cabelos vermelhos tocavam o peito,
Adormecidos na pele sensível,
Como velas de um barco desfeito,
Sem rumo e sem mar possível.

A minha ternura percorria o ventre,
Como afagos da memória dos tempos,
Em que os lábios se tocavam lentos,
Em carícias e beijos de enchente.

Cheiravas como uma flor do campo perdida,
Navegavas abandonada na saudade,
Caminhos de uma pele desconhecida,
Ao toque de dedos que enlaçam a vontade.

Percorria em sonhos todos o teu corpo,
Encontrado-te nos lábios molhada,
como amor eterno que nunca jaz morto
Ou perdido numa obsessão ignorada.

Memórias da consciência retardada,
Num dia em que te procurava desligada.
Acendi de novo a chama desse amor,
Que não ignoraste na causa da dor.

Voltaste de novo a amar e a acolher,
A consciência que o fez reconhecer.
Hoje percebeste sentimentos,
Amores sem lamentos...

Deste-me a mão sem a onda revolta cair,
Agarraste-a para o amor não trair,
Coração de mulher nobre,
Que acolhe o sorriso na saudade pobre.

Olhei os teus olhos de favos de mel,
Vi tuas mãos sem a alma vazia,
percorri os olhos como órbitas de alegria,
encontrei palavras sem o aço do cinzel,

Foi aí o simples enlaço sem dor..
Sem decassílabos que falam de amor.

Miguel Martins de Menezes      22 de agosto de 2011 12:54

               

NÁUFRAGO




Ilhado
No
Tempo

Sonho
Ouço
Sinto

Recuo
Recupero
Provo

Imagens
Sons
Cheiros

Bruno de Paula

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Expressão termal




Os mais altos céus
Contemplam-me a luz
Que escorre caneta afora

Sem cor sem sabor e flor
Estava, inerte às traças
Emulei sentidos, significados
Tão
Paradigmas estéticos.

A tua necessidade de definir,
Participar e ser, quando
Sou, vento e ar, e mar

Desvelo horizontes do futuro
No ziguezague do relógio
Ao enredar a inabilidade textual
Em culpa, em paredes, em sóis

A poça de peçonha do
Poço de conhecimento mais profundo
Não contamina
Meu mar de sabedoria

Elaboro posturas, na cadeira
E ideologias são poças de veneno
Conceitual, (não conceito)

Teus sonhos em rios que não
Desaguam na paz.

Elevo a palavra ao patamar
Da comunicação.

O amor de muitos menos
Malandros

Em carne viva.
ACM


Pauta da modernidade




Estatela-se no sol
O ardor do amor de si
De luz, de ar, de estratosferas

Arrebenta-se no vácuo
De sal, o mal, o jornal
E cada qual com
Um quê.

Meu coração tritura
Substâncias florais a
Extrair ciência e elevação

A cidade lê
A cidade quer
A cidade é
Assiduidade sem patamar
A cidade sem lar

Costuma julgar sem ter
E ao luar relevos de luz

Leitores acomodados
Em seus clichês usuais

Não expressa a pressa
Reversa e sou
Leve calmaria no barco
Da dor

Ademais, letra
Literatura, poema, rapsódia,
Dogma textual

Reverteria objetos de estudo
E mudaria em dois cliques o mundo

Estou cá, eu,

Pronome impessoal.
ACM

terça-feira, 31 de julho de 2018


Não quero sair do mesmo
Não quero andar esmo
Nem ouvir outra voz
Senão a que ecoa
Tudo que fica no centro
Não quero saber do antro
Mostre o.misantropo
Ele amaremos
Horror é o que está dentro
Nos topos mais violentos
Do que muros
(incompleto)

MK



imenso


imenso

O silêncio
É maior
Do que tudo
Que dizemos

Mergulhos, Inês Santos, Edição João Caetano do Nascimento, 2018

girassóis de prata




Noites escuras
desabrocham jardins de estrelas.

Rosas de prata em tapete negro
exalam perfume de chuva.

Constelações de girassóis
preenchem campos de esperanças.

Girassóis em noites escuras, Alexandra Patrocinio, Penalux, 2018


flerte




desde o primeiro encontro
seu olhar me fisga
a ponto de eu não ter mais
do que o seu ponto de vista

haicaos, Sandra Regina de Souza, editora limiar, 2012

como o jazz




no dia em que o conheci, o menino comprou todos os meus livros. no outro, levou a namorada linda para me apresentar. em outros, um amigo, a quem chamava de irmãozão.

conversa vai, conversa vem, concluí que gostava de meu trabalho, embora nunca tenha emitdo uma opinião objetiva.

ontem, distraidamente , num papo sobre temas diversos e diletantes, ele me disse a coisa mais bela que meu coração poderia escutar : "seu texto é negro como o jazz."

aquilo me deu outra vida, e eu a vivi como um cello de yo yo ma ecoando nas paredes do mundo.

(baú de miudezas, sol e chuva, Cidinha Da Silva, , mazza edições, 2014



psiu!

essa dor da qual falo
não fala
foi calada a fio de espada

negroesia, antologia poética, cuti, mazza edições, 2007


nas noites insossas, faça uma sopa de cenoura e maçã ao açafrão, não sem antes molhar as mãos em uma taça de suco de limão. pegue quatro xícaras de caldo de galinnha com salsinha , meio quilo de cenouras , uma maçã-verde e uma cebola. doure esta com um açafrão em duas colheres (de chá) de óleo de canola. adicione os ingredientes na caçarola e deixe-os cozinhar por um quarto de hora. sove-os depois lentamente até se tornarem uma pasta tenra. leve tudo ao fogo para fervura e tempere com sal e pimenta -do-reino . sirva em pratos escuros, decorados com espirais de iogurte e tiras finas de cenoura.

o livro de zenóbia, maria esther maciel , lamparina, 2014

ENTRE TANTA MATÉRIA BRUTA



Entre tanta matéria bruta, o ato de lembrar
não é mais do que buscar uma imagem
em sonhos vislumbrada – um instante
que perdura, cada vez mais transparência,
mas nunca transparência absoluta;
uma imagem cujo sentido reconstruo
em lapsos de clareza, como se uma ventania
agitasse as cortinas e permitisse que a luz
revelasse o que há dentro do quarto escuro;
mas logo a torrente cessa e tudo repousa
nas vésperas do esquecimento.

 Daniel Francoy



SER POETA




Ser poeta é abrir a janela
e sentir o impacto da vida
como um coice
no peito nu.

Ser poeta
é esquecer as palavras
na ponta da língua
e achá-las depois
no bolso
ou num velho banco
de um jardim de inverno
quando já não tem mais ninguém pra te ouvir
e só te restou
escrever
este poema.

Ser poeta
é não aceitar
que as coisas passem
e tentar reter
alguma imagem delas
(um eflúvio, um efeito, um afeto...)
com palavras
– que passarão, quem sabe,
mais rápido ainda.

Otto Leopoldo Winck

um vaut rien




● sei q não tenho sentido nem lugar ●
● sei plenamente q não tenho sentido nem lugar ●
● em nenhum lugar mas os q me perseguem ●
● os q sempre me perseguiram não sabem ●
● porq me perseguem como sei plenamente ●
● q não tenho sentido nem lugar em lugar algum ●
● porisso tenho vivido imovel e calado demais ●

● sei q me perseguem não por saberem ●
● q não tenho sentido ou lugar em nenhum lugar ●
● sei q perseguem por não saberem nada de si ●
● nem da existencia do poder doente e servo ●
● q usariam pra me desmontar como uma coisa ●
● apenas porq sei quem sou e nisso tou sozinho ●
● mas jamais voltarei e livre aqui devo me matar ●

● por saber quem sou e não ser nada de nada ●
● fico aqui entocado como se tivesse entorpecido ●
● certo q não espero os q perseguem sem saber ●
● nada de si como sei de mim pra q me destruam ●
● porq é coisa extraordinaria quem sabe de si ●
● como sei de mim e do lugar onde deveria viver ●
● porisso sera com uma arma deles não por eles ●

● terrivel é viver como eles q não sabem de si ●
● q vivem numa ditadura q enganam a todos ●
● adoram ser enganados se revirando no engano ●
● porisso me matarei alegre por saber de mim ●
● por saber deles e dos q se enganam por medo ●
● tão todos dentro de casa como ratos famintos ●
● sobem a escada entram e aperto o gatilho ●

*ALC


o incêndio do sol
no céu

e na cama
depois do incêndio dos corpos
uma marca da chama:

teu mênstruo
na fronha branca

Otto Leopoldo Winck

a queda




● a violenta manada ruiva de cavalos ruivos ●
● depois de pastar apenas flores ruivas e amarelas ●
● atravessados pelo tedio mortal das tardes violetas ●
● reunidos sobre a sombra desocupada duma arvore ●
● plantaram os cascos na grama como parasitas novos ●
● todos alegres mas de olhos fechados todos pensando ●
● uns em desertos outros em mares com tempestades ●

● o certo é q de repente zarparam como se dançassem ●
● num ritmo ridiculo mas tambem suave e harmonico ●
● todos rindo despreocupados em mares e desertos ●
● sim isso é certo poderia um deles ter pensado logo ●
● antes do penhasco q se aproximava mas sonhavam ●
● em antigos relinchos da infancia e se precipitaram ●
● o certo é q falaram durante a queda e muito riram ●

● a questão surgida pelo mais ruivo dos cavalos era ●
● sobre a possibilidade da mortalidade dos cavalos ●
● dai a risada impulsiva e ruiva dos cavalos ruivos ●
● a velha morte sim como a morte de tudo q respira ●
● disse o mais ruivo dos cavalos ruivos sim e cairam ●
● depois da queda sim se ergueram e sairam alegres ●
● eles sabiam sim q os cavalos ruivos são imortais ●

● porissso cantavam corvos assados com batatas ●
● quase verdes com raizes insetos e desertos ●
● crocantes como cigarras tanajuras e mares ●
● na manteiga crua quase leite recem batido ●
● sem tirar nem visceras nem asas de corvos ●
● postos em gordura de porco ate tostar e chorar ●
● gotas brilhantes de vida e morte e todos riam ●
● na dura pradaria de flores ruivas e amarelas ●

*ALC

OFERTA




Como a voz de muitas águas
você me acordou dentro da noite
e eu era como um velho navio naufragado.

O canto dos peregrinos
me chegava aos ouvidos
como uma recordação maldita.
E de repente eu desejei
que não houvesse sol – e nos tons sanguíneos
que antecedem o dia
tudo se revolvesse
e resolvesse.

(Tenho andado tanto
e cantado pouco – eu pensei.)

Por isso aqui estou
à tua porta
e trago como ex-voto
os veios que as bátegas da chuva
no meu rosto abriram
– e as minhas mãos cansadas
e vazias.

Otto Leopoldo Winck


e se daí pingasses no meu olho

o ruído coberto em madrugada

eu só veria nada com mais nada

e te daria a mão como engodo.

e se eu te desse parte do meu corpo

ou te entregasse o meu corpo todo?

e se o amor que em mim já não coubesse

amasse a podridão que vem do lodo?

e se eu soubesse o copo que te cabe

e te deixasse a minha voz calada?

por tudo que eu não sei e ninguém sabe

eu só veria nada com mais nada.

*

romério rômulo

THEOAGONIA




Agoniza no horizonte:
seus gritos não se ouvem,
só se sentem.
De todos os povos, tribos e raças
já chegam enormes coroas votivas.
Não se oficiará exéquia alguma
nem haverá orações em seu funeral:
a hora é de expectativa e receio.
Não haverá outro dia igual a este.
Aliás, não haverá mais dia algum.
Só a noite. E seu silêncio
quebrado por nossos esgares.
E a saudade do que nunca conhecemos.

Otto Leopoldo Winck

je serai la?



● meu pai olha a parede ●
● nela corre um velho rio ●
● cheio de crianças nuas ●
● indo na agua como sapos ●
● na chuva depois do verão ●
● meu pai diz era isso assim ●
● a parede volta a ser branca ●

● meu pai de olhos turvos ●
● recria nos dedos o ritmo ●
● da ultima sinfonia e quase ri ●
● mas ele não sabe mais o coro ●
● sabe das touradas do sangue ●
● num segundo nem o sangue ●
● os dedos param numa nota fria ●

● meu pai dorme e não sei ●
● o q sonha meu pai dormindo ●
● na verdade so me pergunto ●
● se meu pai sonha se meu pai ●
● dorme na poltrona dessa sala ●
● agora imovel com certeza pula ●
● com os sapos depois do verão ●

● meu pai de repente ele diz ●
● quanta infelicidade no final ●
● corvos voando entre telhados ●
● quanta neve nos redemoinhos ●
● meu pai dorme bem agitado ●
● ?quem sabe se ele agora é ●
● todos nos no fim sem saber ●

● meu pai acorda e se senta ●
● olha pra mim e diz se mate ●
● antes q a vida cause essa dor ●
● faça isso por vc e volta ao sono ●
● ele pelo menos sabe q chegou ●
● a hora a minha hora q ele deixou ●
● passar como todos os outros ●

● meu pai logo logo dormira ●
● sem sinfonia como todos nos ●
● nem palavras como eu ou ele ●
● resta o rio sobre essa ponte ●
● de madeira suja e ferro gasto ●
● ao redor a cidade se estraga ●
● é preciso não acordar mais ●

*
Alberto Lins Caldas

Ismálio



eu hoje vi a lua
no céu, no mar, na rua
louca, linda, nua

eu disse pra ela:
calma, garota
não é agora
pra tudo tem a sua hora

Otto Leopoldo Winck



todo sábado amanheço
com o coração duro e fundo
dos amores que padeço.

meu coração é o mundo."
RR

vida e morte



● viver sempre sim ●
● isso te entrego ●
● morrer é pesado ●
● tambem te dou ●
● o sol hiroxima ●
● a lua em aleppo ●
● como sonho frio ●

● isso te entrego ●
● a vida e a morte ●
● terriveis os dois ●
● são teus presentes ●
● como dia e noite ●
● se dissipam sim ●
● em todos nos ●

● assim toda essencia ●
● poder ser sem ser ●
● moinhos do passar ●
● aqui bem aqui ●
● no centro q vende ●
● gozo e finitude ●
● a plena violencia ●

● a neve q gira ●
● nas ruas travosas ●
● nesse cafe sim ●
● corvos e pombos ●
● moiras do desejo ●
● brasas e cinzas ●
● jamais a beleza ●

*ALC


Estou num pequeno templo da alta burguesia curitibana. Tomo um café expresso. Leio um ensaio sobre Baudelaire. A alguns metros, um casal muito antigo – ela, de casaco vermelho, cabelo armado tingido de loiro, deve ter pelo menos 80 anos – cantam New York. Ele toca uma guitarra modernosa, dessas que tem só o contorno. Ela canta. Até que bem. “O tempo não se deixa perceber somente através de ruínas e monumentos, mas também por sua ação corrosiva que ataca tudo, até o novo” – leio. Atrás de mim há uma festa de criança. Gritos, uivos, choro, pais em polvorosa. Mais à frente, uma jovem amamenta. Seu rosto transpira frescor e otimismo. A tarde do sábado avança e de repente, quando me dou conta, é noite – vejo através do teto envidraçado. Não sei se peço mais um café (é caro, daí minha hesitação), se volto para casa, se leio mais um pouco. Agora a dupla – seria um casal? – tocam Yesterday, a música mais executada de todos os tempos. Em Baudelaire se mesclavam amor e ódio à modernidade que então nascia. Repulsa e fascínio. As coisas nunca são claras. A gente sempre ama aquilo que odeia. A gente sempre odeia aquilo que ama. Vindo para cá topei com um rapaz escarafunchando sacos de lixo – no bairro mais rico de Curitiba. Fiquei constrangido ao passar por ele. Constrangido por ele? Por mim? Talvez por ver que ele via que eu o via nesta situação degradante. Mas ele nem ligou. Quem tem fome não se importa com aparências. Um estômago vazio não quer saber de etiquetas. Temi (sim, temi, vejam como somos egoístas) que ele me pedisse um trocado e imediatamente me lembrei que não trazia moeda alguma comigo. No entanto, mais adiante gastei oitenta reais com dois livros. A anciã canta agora outro clássico kitsch. A modernidade é isto, Baudelaire, um pastiche de si mesma. As crianças correm, perturbam, como é natural das crianças. O nenê parou de mamar. As pessoas conversam, sorriem. Sim, aqui nesta ilha estão protegidas dos noias, da violência policial, da guerra de gangues... Se queixam da crise mas não conhecem a crise. Talvez tenham um sobrinho morto num acidente de automóvel ou até um conhecido assassinado num assalto. Mas nunca saberão o que é ter um filho executado pela polícia. Vou me levantar e me dirigir até o ponto na Praça Osório, a um quilômetro daqui. Sei que lá fora está frio e eu não vim agasalhado. Não estou na Paris do século XIX mas na Curitiba do século XXI. Mas sou, como todos, um homem na multidão. Anônimo. Só. Infeliz. E só tenho esta certeza: nunca serei Baudelaire.

Otto Leopoldo Winck

[Outro texto de três anos atrás.]

le treizieme au noir




● não explorei o labirinto ●
● não resvalei no musgo dos corredores ●
● não parei um minuto pra ouvir o vento ●
● passando como numa praia destroçada ●
● esse vento não é salgado não é melado ●
● é travoso odor de sangue azedo e velho ●
● nem senti como suava o silencio pesado ●

● apenas vim andando ate vc nada mais ●
● sem pensar sem perder sem duvidar não ●
● apenas andei como se tivesse em casa ●
● na sala nos quartos na cozinha enfim ●
● ate haver apenas nos dois bem aqui ●
● trago me abatido puro esquecimento ●
● sei o q devo dizer fazer mas é inutil ●

● vc ta morto ha muito muito tempo ●
● eu exausto da vida sei so as dores ●
● com certeza devo tentar logo voltar ●
● como se valesse a pena e as agonias ●
● como se houvesse casa mulher e cães ●
● qualquer coisa q me fizesse ambicionar ●
● acho q ficaremos mortos nos dois aqui ●

● pelo menos não tentaremos conversar ●
● isso impossivel entre ossos carne e lingua ●
● nem apertar as mãos ou recordar as mortes ●
● sim sera silencio contra silencio e derrotas ●
● chegara a hora onde nem po nem cinzas ●
● seremos apenas o indizivel não o tempo ●
● ridiculo porq nada mais podemos fazer ●

*
ALC


o mundo funciona.

acordo.
o mundo funciona.
durmo:
me noticiam após
q o mundo funciona.

as engrenagens estão tortas
desvalidas
mas tudo me aponta
q o mundo funciona;

o meu olho
só assiste."
RR


A vida não tem sentido.
Tem sentidos.
Infelizmente, provisórios.
Talvez o único sentido além dos sentidos provisórios seja a busca de um sentido último por trás dos sentidos -- que no entanto nunca será alcançado.
Mas o que vale é a busca - cega, surda, absurda.
Tornar-se adulto é encarar isso de frente, sem viseiras, sem ilusões.
A vida não tem sentido. Tem sentidos. Todos provisórios.
O que vale é a busca.
Mais vinho, taberneiro.

Otto Leopoldo Winck

nem aqui nem em novgorod




● cheio de xanha e tumor ●
● sempre naquela banheira ensebada ●
● aquela lama gelada q diziam morna ●
● amargo o cheio de xanha e tumor ●
● porisso minha faca foi tão fundo ●
● chega rodei dentro como torno ●
● o sangue parecia banha de porco ●

● imprestavel q não valia uma galinha ●
● choca nas feiras de novgorod ou aqui ●
● uma facada foi pouco e rodar dentro ●
● foi gozoso foi ate gostoso na banha ●
● de porco na lama inutil da banheira ●
● xanha e tumor e diziam q era deus ●
● nem duvidei rodei duas vezes ●

● quem sabe entendessem e rodassem ●
● comigo aquela faca afiada pra porco ●
● q me olhou e disse apenas calmamente ●
● é so mais um deus sacrificado e a dor ●
● gargralhei e me levaram como louca ●
● mas sei perfeitamente o q fiz e faria ●
● logologo todos eles saberão tudotudo ●

● eu q sempre fui nadadada fui e serei ●
● a q furou o porco e rodou na gordura ●
● q não valia galinha choca nem aqui ●
● nem em novgorod nem nessa merda ●
● porisso mostre essa cabeça carrasco ●
● as mulheres precisam saber o q fazer ●
● com os porcos q não valem galinhas ●

*
ALC

as meninas




para Thalita Portela e Juliana Giese

faziam uma arma
com a mão
e apontavam para a têmpora
(mas sem disparar)

enquanto riam
as mãos descuidavam
as bocas tocavam
(mas sem disparar)

os dedos em forma
mas sem disparar"

Anelise Freitas