terça-feira, 9 de outubro de 2018

Pela manhã




Mavioso lamento em sol
Que me dá luz
E soube ser fruto e
Diagnosticado pelo fato
Errático do verbo erudito
Desterrado e derribado
Do coração
Soube também
Que a simplicidade mil
Vezes repetida
Acentuou vernácula partida
Para o porto
Exportar sonhos ao preço
De si.
Verto, sim, verto
Um terço do que verto
Verto por, sim, por ser
Paradigma eleutério
Na psicogenia das falácias
Produzidas por
Sugestão hipnótica
Autômata
Quanto colecionava
A pérola do jargão.
Hoje suave contato
De peles que se elegem
Se elegem
A ser
Amor.
ACM


O silêncio do amanhã



A entonar o enfoque
Circunscrição e só
Sói ser

Periferia clichê e
A sua mercê um mar

O bojo amarelo da dor
Lunáticos proporcionalmente
Recíprocos

O patamar da sanidade mental
Desarrazoa o seu quintal
Astral
No inverso da coroa

Em suma, em sol bemol

Nado contra o anzol
Dos doutos,

Se queres, se quer
Sequer querer, seja

Tal qual
Acm


Sabedoria pragmática



Nervuras do astral
Em estruturas do clero
Forjado em si, tão só

Eu, o pó

Multidões naqueles porcos
Horizontes ideológicos
Que não mais

Eu "decadence"

Remando contra o espiral
Da fortuna

Eu, o cão

Enervando as cutículas
Eleutérias

Jaz patamar midiático
Da transformação
Paixões forjadas
Ao sal do cabaré
E na pimenta de si

Os falantes do idioma
Aderem ao silêncio da forma

Eu, anistia

A lógica no poema renderia
Luz

De simbiose em simbiose
Galáctica

Anoto um fio de luz
Na pauta da razão

Verdes repastos aos homúnculos
A apimentar o debate
Com seus espelhos ideológicos

Eu, o sábio.
Acm

domingo, 7 de outubro de 2018

A vida vive nas idas e vindas da ira.

A paz é o terreno mais importante
ainda mais  do que a vida
ainda que esta nos seja cara
lutar pela paz é a luta mais valida
ainda que muitas vezes seja um vale
de amargas caminhadas.

Wilson Roberto Nogueira

Machadianas

"Não era um livro , não era sequer um capítulo de adultério, mas um prólogo, - interessante e violento. "

Balas traçantes

Balas traçantes
traças que rasgam o céu comendo a vida
no breu cinzas quentes nos olhos da verdade
lama movediça sugando o sol de uma flor
Uma vela na ruela . No carrinho de mão a morada
vazia um cadáver verbaliza mais uma história  amor
daçada livre enfim voando na fumaça.
na poeira da calçada o sangue ainda quente
imprime a digital da violência
Assinatura de um crime na farda o gatilho do
Estado terrorista negociando almas supérfluas pro capital.
Direitos humanos só para a gente de bem que a bala perdida
não encontra       só o joão ninguém que nessa vida bandida
é inocente mas não tem guarida.


Wilson Roberto Nogueira

Khamukri

Ela estava deitada e de repente
Ele subiu em cima dela
Quando ele desceu, ela transpirava
Estremecia sem poder falar.


Era a febre.


Khusro
É só questão de investimento
em vez de armas, alimento.

Almir Sater

Machadianas

"A água e o céu dão um abraço infinito e teve assim uma sensação do futuro , longo , longo, interminável "

quinta-feira, 4 de outubro de 2018


Jamais num aniversário
tive um que não gostasse
Sem contagem nem diário
Não há caminho que eu não trace.

Muitas mensagens de amigos
iluminaram minh'alma
Gratidão e amor antigos
demonstro paixão com calma.

Resolvi em quadra poetar
e em contagem silábica
A palavra oracular
uma sensação atávica.

Perdoem a brincadeira (de)
poetisa não simétrica
que ama e joga capoeira
por vezes com rima e métrica!

Jaguatirica/2018

domingo, 30 de setembro de 2018


Nada es verdad nada es mentira todo depende del cristal con que se mira...
NK




Hoje tenho uma reunião com cara de antônimo... Qual é o antônimo de reunião? Uma re-união para avisar que vamos nos des-reunir e fechar portas e janelas... não, não deveria se chamar reunião...
Nk


Ontem pedimos uma pizza que veio com massa tipo pastel, aroma de churrasco e creme disfarçado de catupiry... Pegadinha do dia das Bruxas? Ou será coisa do Saci?
Nk


Se esta rua, se esta rua, fosse minha...Avenida Paulista, pura inspiração! Um casal caminha no mesmo ritmo, marcando com suas bengalas o tempo mínimo entre um passo e outro. Meu olhar os acompanha até chegarem perto do metrô Trianom. Um senhorzinho dança e canta sozinho com improvisos de arte circense. Um casal de namorados briga no meio da rua, demoro para notar que fazem teatro.Um andarilho se diverte com bolhas de sabão no meio das crianças. Os pais acompanham de perto e parecem não ter medo. "Ele é do bem", uma mãe comenta. Na foto, o casal de dançarinos pede, no cartaz: ajude-nos a casar. A Avenida Paulista é um livro de crônicas aberto. Obrigada, minha filha, Nanci Kirinus! Registrar cada momento de São Paulo, na tua companhia, valem mil pedrinhas de brilhantes.
Gk

Diálogos reais e inspiradores:



Eu: - Que horas abre a loja amanhã?
Moça: - Abre entre 8:30 e 9 horas, assim, mais ou menos nessa Faixa Etária!

Coisas assim mudam o olhar... Nesse exato momento, o dia tem 8 anos de horas, plena infância... Aproveitemos o dia, ora pois!
Nanci Kirinus 

Primavera / Nova Era




Somos mães, irmãs, amigas,
Companheiras, avós, filhas...
A natureza que acolhe e abriga!
Somos as asas do anjo que zela
No corpo que gesta a nova vida.
Somos o alimento, o aconchego
O compartilhamento
Do fermento para paz!
Mulheres unidas somos! Mais! Mais!
Determinadas!
Delicadas, sim; frágeis, nem sempre.
Somos fêmeas, femininas, meninas...
Sangramos com as feridas velhas
Das guerras, intra/extra urbanas.
Violências domésticas, abusos.
Choramos, sofremos. Mas, lutamos!
Contra a intolerância, as intransigências...
Contra a emergência de um mal
Que se diz necessário.
Nós somos mães, avós, companheiras, filhas...
Marchamos pelo amor incondicional!
Somos amor globalizado!
Somos uma em cada homem.
Gestamos amor pra florir paz!

(Angela Gomes)

Nanci Kirinus

eu nunca tive uma casa
nem um cabelo bonito.
a minha falta de asa

é que me faz esquisito."
RR



Ontem a noite, de volta pra casa, caminhando pela XV "rua das flores", meu coração foi beijado pela lambida de um cão 
Ao parar para atravessar uma rua, a Floriano Peixoto, minha atenção foi para dois cães que vinham do lado aposto. Meu desejo pedia para que eles retornassem, pois o sinal acabara de abrir para os carros. Um cão dourado, porte médio para grande e outro com pelagem negra, um pouco menor.
Senti alívio ao vê-los retornarem. Foi quando um amigo que estava ao lado disse com alarde: olhe!
Assustada procurei com o olhar. Mas senti no fundo do coração. Um cão maior, porte grande, pelo escuro e curto lambia a minha mão. Foi rápido. Beijou meu coração e logo seguiu. Talvez eu tenha beijado o coração dele também. Quem saberá?
(Angela Gomes)


De repente, toda a verdade cabe em uma única imagem. De repente, Drummondes, Clarices e Cecílias ressuscitam em formato de autoajuda. De repente, Chico Buarque já não soa tão bem. De repente, resolve-se fechar um Ministério: o da Cultura. De repente, um prefeito vira ator, veste-se de gari e faz pose para lançar uma campanha com um nome assim: Cidade Linda... Como num conto de fadas! (Não, não é limpa! Nem saudável, nem cidadã...). De repente, o que importa é estar bem na foto e... Linda! De repente, a livre expressão virou risco de vida e alvo de ódio. De repente, um congresso nacional (em minúsculas, de vergonha mesmo) debocha do conceito de Público e argumenta sobre o futuro do país com um beijo para sua particular família. De repente, embaralharam-se imagens, conceitos e fatos históricos. De repente, o socialismo, comunismo e o fascismo são facilmente pronunciados para ojerizar ações ou pessoas. De repente, o virtual se confunde com realidade e a realidade, bom, tanto faz...De repente, fiquei confusa... o hoje me soa tão estranho, contraditório e pouco lógico, que minha homenagem à São Paulo não poderia ser diferente: PARABÉNS SÃO PAULO, CURITIBA É LINDA!

Nanci Kirinus

Uma anedota de papai antes de sair das redes sociais e ir cuidar da outra parte da vida.


Ana Cristina Rodrigues


Não tinha corrupção na ditadura, né? Pois bem.

AI-5. Papai trabalhava na padaria do tio dele, ali em Botafogo, na Voluntários da Pátria. Tio-avô era grande no sindicato patronal na época e foi à Brasilia. O AI-5 veio junto com um monte de coisa, pacotão de barbaridades, inclusive uns tabelamentos de preços bizarros e etc, o que gerou essa tentativa dos patrões de ir conversar com os militares.

(Patrão ainda tentava, trabalhador é que nem isso)

Papai ficou encarregado da padaria.

Chega fiscal de pesos e medidas. Primeira coisa que ele pede é o 'faz-me-rir'. Mas meu tio não deixou papai avisado e se tinha uma pessoa de quem meu velho tinha medo, era desse meu tio-avô.

(Flashback da minha infância: meu tio-avô no quintal cortando cabeça de peixe pra janta com um facão GIGANTE chamando meu pai de 'pouco inteligente' para baixo. Um amor de pessoa. Sdds, tio Antônio)
Pai fez o quê? Pediu milhares de desculpas, mas não tinha ordens pra dar nada. O fiscal olhou a padaria inteira de cima a baixo... e mandou pesar os tabletes de manteiga.

(Na época, manteiga vinha em um tabletão gigante e na padaria se cortava em tabletes de 200g e 500g, enrolava em um papel específico, papel manteiga.)
Aí, ferrou. Manteiga perde peso fácil e meu pai tinha vacilado e colocado os tabletes com o peso certo - ou seja, uns 5 tabletes estavam com 195g.

Resultado?

Papai preso por 2 dias até meu tio-avô voltar de Brasília, o soltar e lhe dar O ESPORRO.

'Mas tio, era preu tirar o dinheiro do caixa e pagar a propina?'

'Claro que não, era pra tirar do seu! Acha que ser encarregado de um comércio não tem custos?'
(Isso serve de lição pra vcs que acham que a ditadura só prende subversivos. Não existia pessoa mais anti-comunista que papai. Sim, eu sei, me chamem de karma.)


Adoro as sextas-feiras, independentemente de ser feriado ou de ser o tão esperado anuncio de fim de semana... Gosto das sextas por causa das feiras mesmo. Acordo cedinho e vou lá encher os olhos de cores, a sacola de saúde e os ouvidos de autoestima: “Bom dia minha princesa”, “Linda, a ameixa tá docinha, docinha”, “Olá minha rainha, vai um mamão hoje?”, “Bom dia moça bonita, pode escolher”... E ainda bem no finalzinho, levei de lambuja um “Bonjour mademoiselle”... Pronto, terapia melhor não existe!
Nanci Kirinus

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

SETENTA ANOS DE CINEAS SANTOS


70 anos de paixão e saudável teimosia são a sua marca. Mais de 50 deles vividos em Teresina, onde não há um só setor da cultura local que não tenha a sua mão. Carregador de palavras; tocador de fantasias; afinador de destinos. O Piauí não seria o mesmo sem ele. Aparentemente árido -- posto que vem do sertão sem afago --, quem o conhece tão bem quanto eu, desmente as aparências. Ninguém que passe pela sua vida, sai sem receber o quinhão do seu afeto e dos seus generosos saberes. Por isso, num dia tão alvissareiro como este, em que a UFPI lhe confere o raríssimo Título de Professor Honoris Causa, só nos resta o prazer e a honra de aplaudir uma vida tão meritória. Sigamos em frente, meu irmão querido, a dor pode ser contida, o amor, não.

SALGADO MARANHÃO

quinta-feira, 20 de setembro de 2018


o poema, moça bela, é um reboco
uma tela que cobre a tarde nua
cada poema que piso é uma rua

imensidão de mãos, como num soco."
RR


Nada faz sentido:
nem o mundo,
nem a vida,
nem você.

Este verso
é apenas o registro
de que ao menos
eu tentei.

Otto Leopoldo Winck

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


todo sábado amanheço
com o coração duro e fundo
dos amores que padeço.

meu coração é o mundo."

Romério Rômulo


me decidi te ver
inteira, nua
uma mulher que é vento
e que é rua.

me decidi te amar
em meu quebranto
uma mulher que é sopro
e é espanto.

me decidi dizer-te
e fiquei mudo
uma mulher que é só
e só, é tudo."
RR


só um pedaço de mim
caminha aqui.
quanto, não sei. e é muito
não saber.

cada pedaço é sobra.
um canhão em cada olho
é o que levo."

Romério Rômulo



vou destoar desta vida
curta, perdida de medo
nos guinchos, richas e tramas
do teu olhar de degredo

se a tarde que me consome
suporte do teu enredo
navegasse, eu naveguei
fui cavalo, estrada e rei
andado por tudo, andei
nunca e nada eu me cansei
perdido no teu segredo

morto de tudo me abalo
sangrado como sangrei
eu, cavaleiro e cavalo
da carne onde eu me criei

senhora de mãos medonhas
tu que foste a rainha
armada de ventania
fui um fausto quase louco
desamparado do eterno
perdido de água perdida
construtor do meu inferno."
(a seguir)
RR



eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto."
RR

.....................
.....................


só um pedaço de mim
caminha aqui.
quanto, não sei. e é muito
não saber.

cada pedaço é sobra.
um canhão em cada olho
é o que levo."
RR

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Setlist




O aspecto demorado das mãos do cego

Os desenhos intrincados de bestas na paisagem desassombrada

O derrame político e futurológico

As pautas medievais

O desagrado da rudeza na intempérie e a beleza inequívoca da ventania

A permanência solar do Big Bang no espaço curvilíneo

Os espectros da palavra

A chuva imprevista ameteorológica

Os rincões da praça catalã no livro de encadernação duvidosa

O trem cheio de vozes dissonantes

O percurso de quase 3 km entre Morro Agudo e Rosa dos Ventos

O nome das coisas

O nome das coisas

A leva de pombos mortos embaixo dos carros

O banho de descarrego

O amor avarandado

A paixão virulenta

A solidão sem lei

O sabor da pipoca

O estouro do momento

O próximo livro

O fim de Janeiro

A astúcia deste poema.
RTD

VELHA POÉTICA




Um poema feito de seixos.
De válvulas
e vulvas.

Um poema feito de lutas.
Silêncio. O poeta labora.

De seu peito vaza um rio que varre tudo:
o lírio,
a bomba,
o beijo.

Um poema feito em desleixos.
Feito de sol.
Feito de lua:
reflexos fascinam os peixes.
Um poema feito de guelras
e gueixas.

Silêncio. O poeta sonha (ócio & cio).
Uma flor de narcótico perfume se abre em êxtase.
Estrelas choram. Estranha liturgia...
Um poema feito de eixos.

A serpente. Pandora. Idade do Ouro.
Seixos.
Seixos.
Seixos.
Há anjos transfigurados
olhando seus sexos no espelho.

Otto Leopoldo Winck




no início
era o amor
sem forma e vazio e
Deus sonhava
como só o
homem sonha
e fez-se a expansão:
o mar, a terra...
alguns lugares ficaram
com muita água,
alguns lugares ficaram
com muita sede.

no início,
era o peso do às vezes
carregado do sempre
e algo deteve
o vazio,
moldando-se
em barro e costela:
foi um silêncio
de grande morte e
de grande vida
para que tocássemos
o tempo com as mãos.

Mário Bruno




margem de erro
de rio, terceira margem
assombração
para mais ou para menos
parachuva
arroios, brasis
sabedoria dos grotões
sudeste, sudoeste
vento inconsequente
RTD

Algumas anotações aleatórias:




-- Engraçado como algumas palavras entram e saem de moda. Aleatório, bizarro, entorno são algumas das palavras em voga atualmente. De cada dez palavras pronunciadas por um hipster, três são aleatório, bizarro e a expressão 'no entorno'.

-- Não sei se alguns são ingênuos, ignorantes ou preguiçosos. Com exceção dos primeiros, os outros dois têm cura. Para os ignorantess o remédio é pesquisa, curiosidade, estudo. Mas tudo isso com 'olhos livres'. O problema é quando eles são também preguiçosos. Para os preguiçosos a solução é vontade. Mas como exigir vontade de quem justamente sofre de falta de vontade? Olha, pelo menos um pouco de boa vontade não seria mal.

-- Coisas que detesto e uma que abomino: polícia, exército e todos os aparelhos repressivos do Estado. Numa revolução tudo isso deveria ser destruído e recomeçado do zero. Como o exército francês após a Revolução de 1789. Agora, truculência, eu abomino. Sobretudo quando vem em voz melíflua.

-- O duro não é sair da caverna. É voltar pra ela e fingir que você não viu nada. É o que muitos fazem. Pra ser aceito, você deixa de pensar. Você pensa o que os outros esperam que você pense. Aí numa festa você enche a boca pra dizer: esses sem-terra, é tudo vagabundo.

-- Coisas que amo de paixão: pôr do sol, expresso tomado num café com um livro nas mãos, flânerie, silêncio, seios, axilas. Não necessariamente nesta ordem.

-- Outra coisa que detesto: a expressão "amo de paixão".

-- Escrever um livro que ninguém leia, ou se ler, ninguém entenda: eis aí um bom objetivo pra vida.

-- Ser um herói e um santo para si mesmo (Baudelaire). E que tudo o mais se exploda.

-- O duro não é quando as pessoas te decepcionam (as pessoas sempre te decepcionam, elas nunca são como você as imaginou). O problema é quando você se decepciona com você mesmo: aí é um duro golpe no orgulho e na autoestima. Não tem cura. E é bom que assim seja.

-- Otto Leopoldo Winck. Gosto do meu nome. Não sei que substância meu pai tomou quando escolheu o meu nome. Mas bendita seja essa substância! Pelo menos, nome de escritor eu já tenho.

-- Se todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto, este meu ponto de vista é apenas mais um ponto. Mas é meu, porra.

Otto Leopoldo Winck


I.
Um sentimento embrutecido na dobra da palavra. O emudecimento da circunstância até sua transubstanciação. Um ritmo na peculiaridade da fala. O pensamento não originário determinando amálgamas. Poesia, pura conflagração.

II.
A palavra me dá a interioridade do pensamento. O pensamento me transporta à nudez da palavra. A imagem fornece a desmedida do homem. E o entorno é a memória plangente das nuvens, misturada ao corpo-grito do mundo. O resto, eu sei, silêncio.

Roberta Tostes Daniel

QUASE DESPEDIDA




Tenho trocado a noite
pelo dia, o nome das pessoas
e o caminho de casa
-- e, ao fim e ao cabo, nunca sei
se estou chegando
ou se estou saindo.

Sei, no entanto,
que esta vida,
embora pouca,
embora louca,
até que é boa.

Se o dia de ir embora
estiver apontando
no horizonte,
só sei que quero sair
assim, de fininho,
sem alardes
nem grandes dramas.

Pois minha vida,
se não dá um filme
nem um romance,
pode dar, quem sabe,
um poema
de versos soltos
e rimas poucas
-- como este aqui.

Otto Leopoldo Winck


breve relatório:




ar irrespirável na conta da democracia
fundos falsos e neblina ensaiada
por minhas lentes de contato
passeio no canal lacrimejante
hominídeos em suas paixões futuristas
declínio e ascensão do pequeno burguês
voltamos ao marco civilizatório
havemos de comer
nossa fome, o deserto das carnes
coxas, falos
paradigmas

RTD


Venho dos córregos
de água salobra,

do descampado
chão de farelos

na cara o sol
rachou minha argila

seca: é o que digo
aos guardiões

que batem lata
em meu silêncio.

SOL SANGUÍNEO
Salgado Maranhão
(Terra chã)

UMA CANÇÃO DE SAMSARA




O mundo é mudo
Ao fim dos lábios.
Ao fundo, escuto
O que não falo.

O tempo estúpido
Ressoa, aos badalos,
O sexo hirsuto
Em que me esbaldo.

Às vezes, duplo,
Quase me plasmo
No chão absurdo
De onde não parto.

Às vezes fumo
O vão cigarro,
De maio a julho,
De julho a maio.

Às vezes grunho
O nome estático
De pedra e húmus,
De âmbar e cacto.

Às vezes sumo,
Outras me gabo
Do verso abrupto
Que sempre estrago.

O que é o mundo
Senão um fardo?
Ou então um segundo
Ao fim de um sábado?

De modo búdico
Pergunto aos brados,
De Órion a Arcturo,
A João e a Arnaldo.

Porque é seguro
O voo sem pássaro,
O lucro a juros,
O gozo a prazo?

Como, aos apuros,
Vejo nos pratos
O bife, em júbilo,
E o ovo a cavalo?

No ventre rústico
Onde me flagro,
O tempo, súbito,
É só um estalo.

Dura um minuto
No olho estrábico
Do amor telúrico
Que finjo e traio.

O mundo é imundo
Ou só um flato?
O órgão bem úmido
Com que me castro?

Às vezes pútrido,
Às vezes clássico,
Por que pergunto
O que me indago?

Escrevo ao público
O que sou em lapso,
À flor do púbis,
Ao som do orgasmo.

Quase em decúbito,
Nunca me acho
No mundo em fuso
De junho a março.

Sigo confuso
No poema ávido
De sons abstrusos
E versos trágicos.

Chego, inconcluso,
Ao fim e ao cabo
De quase tudo
Onde não caibo.

Mas como, anárquico,
O nada engulo,
E alcanço a nado
Os pelos púbicos?

Como abro e agarro
O dorso diurno
De um sonho grávido
De falo e discurso?

Aos poucos traço
O rumo em surto
De onde, sem rastro,
Aceito o mundo.

Mas logo o expurgo
De modo tácito,
Atrás do arbusto
Do corpo elástico.

Do mundo expulso
O som exato
Do poema enxuto,
Do verso ácido.

Resta, difuso,
O gosto em travo
De todo o vulgo
De vãos vocábulos.

Talvez prelúdio
Que nunca acabo
Do canto rústico
Que findo em ágio.

Ricardo Leão, 2018


A vida só não basta.

A vida só é muito pouco.

Por isso nós dançamos, escrevemos, pintamos, cantamos...

Por isso olhamos o horizonte com uma ignota e lancinante saudade a nos bater no peito feito um coice.

Porra, meu, a vida é linda. Maravilhosa. Incrível.

Mas é pouco, muito pouco.

Eu quero mais. Bem mais.
OLW

POESIA XII




Canto para dentro do teu nome,
com a voz
virada aos astros. Escrevo –
dentro
ao roseiral
de urtigas -- o caminho
de formosuras.
(Recolho-te na respiração
dos figos).

Algo me toca
o êxtase dos frutos,
a inocência da loucura (a palavra
a lavrar o grão do poema
em retalhos).

Teu é o tumulto das veias
na vertigem da fábula;

tua é a dor luminosa
que rompe o trigo e a madrugada.

Acordo em teu horto
com espinha dorsal
buscando o sol.

E canto ao oásis
a lição do deserto.

SALGADO MARANHÃO
(Do livro “A CASCA MÍTICA”)