sábado, 18 de fevereiro de 2017

O RECÉM-SEPULTADO


Enormedonho o silêncio por aqui campeia.
A erva que explode, o vento que a assanha
celebram um mundo a que despertenço.
.

[Sidney Wanderley]

Parente Distante


Vou rever um primo distante, mora longe, triste porque são nos momentos fúnebres que sempre nos abraçamos. Mais triste, dessa vez ele não vai me abraçar, o velório é dele mesmo.

JD Microconto

O SOL HÁ DE BRILHAR OUTRA VEZ


A chuva que agora cai;
e levemente molha o chão.
Trazendo o clarão de um raio,
antecipando o trovão.
Matando a sede da terra,
sacia a sede do meu jardim,
devolve o arco-íris à serra,
que ontem roubou de mim.
Chuva que cai sobre os montes,
sobre os vales, sobre as fontes.
Cai tão perto de mim.
Águas que me cobrem a fronte,
misturando-se às lágrimas que ontem,
rolaram sem ter mais fim.
São lágrimas d'um amor perfeito,
que me apertam demais o peito,
e brotam como flores no meu jardim.
São mágoas d'um amor desfeito,
que a chuva, de qualquer jeito,
levou pra bem longe... de mim.

Jonas Francisco Machado

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Melados e bagaços.

Suave pluma global
toca-me o ser, deísmo
Nítido, socorre
Aos porres
De amanhecer

Não atino o ponto,
Insosso do Real

Sub iluminada
emergência concorre

Que jorre, que jorre!

Forja o instante deletério
- intelectuais burgueses -
Dos neurotransmissores
No compasso do adeus
Amnésia e paixão

Falo de outros assuntos
Em meu silêncio
Verborrágico

O trágico majestoso
Estudo e sinistro da identidade
Que em quantidade

Releva-nos o jardim.

Édipo, superfície e caule
Verve urbana comum

Milhões de garotos perdidos
Armagedom e salvação

Ensaio de voo
Até o cartório.

Produção
Anderson Carlos Maciel



Ritmo das ancas globais.


Sub praticada verve
Inconsciente ebulição
Sonata do corpo
                            ( e do )
Espírito
Nuances de Alcatrão.

Sub enleva ritmo o grosso
Fosso da canção

Semeiam as formigas
Antigas
As brigas, garridas,
Da conjugação.

Sim, sou...
Ácido, único,
Sátiro
Nome alemão.

Sob o signo de Aries/Ares
Chuto a boca da solidão

Minha essência é,
Desconhecida, a vida,
Ainda mertiolate teórico
No eólico invento da informação

Teorizam-me os passos
Muitos crassos erros no coração
Sob o entulho da vaidade
Jazem séculos de história
Inconsciente da civilização.

Tua superfície poética
Tão
Letra

Eu horizonte, fluxo,
Refluxo, de sangue,
Suor
Becos,
Nexos, causas, efemérides
Imberbes da nova portentosa
Questão.

Minha palavra jorra
A enferrujar o grilhão
Da alma calma do mestre
Agreste remota e latente
Fremente
Comunicação.

Supõem filosofia
Supõem um homem
Ou não.

Prefiro a loucura dos poetas
Eu também

Do que a mais fremente
Poderosa e belicamente
Lapidada razão.

A escrita é sangue
E minha arma é a letra.

Som ao longe,
Exércitos marcham, marchinhas
Marcharão

Superfícies leguminosas
Da melanina da instrução.

Anderson Carlos Maciel 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ah, esses teus olhos
que habitam de graça
todos os poemas
que ainda não escrevi.

Chris Herrmann

domingo, 12 de fevereiro de 2017


A política hoje em dia, em todas as suas instâncias, sofre um processo crescente de carnavalização. Ou seja, é o simulacro do simulacro do simulacro, onde são seus atores, os ditos políticos profissionais, que parodiam o povo, o criticam e o ridicularizam.
A categorização da classe artística como vagabunda, sendo que é a arte, a partir dos elementos culturais, que constantemente redefine e critica a noção de identidade, é própria de um sistema carnavalizado pelo poder onde numa oficial democracia o voto do cidadão é deslegitimado.
A metáfora mais propícia da carnavalização política é um Rei Momo de uma província qualquer, que ao ser coroado, decreta a extinção do Carnaval.

Ricardo Pozzo
Ser poeta não é recuar em seu exílio a ponto de o mundo material desaparecer. É fazer do exílio uma realidade local e único refúgio.

MK

ADUMBRA

"Mas como nós falássemos a mesma coisa
as mesmas coisas mesma língua & dialeto
parecia possível retratar as margens

de cada termo contratar o nosso acerto
nas mãos do mundo & apertarmo-nos as mãos
entre toques & dedos & a carícia calcinada

dos dias numa nova ordenação do cosmo
então num gesto fácil nomear o mundo
flores de toda espécie com seus gostos cores

seus caules folhas frutos formas invisíveis
ou que nunca aprendemos por nunca querermos
por só preguiça de androceu & gineceu

seus novos nomes poderiam ser mais nossos
ao inventarmos juntos palavra a palavra
toda a sintaxe enquanto descemos a senda

encravada de asfalto nos veios da serra
neste carro qualquer os pés esvanecidos
por baixo do painel as mãos ainda pensas

ainda que sentados o olho sobre o vidro
anuncia a tormenta cinza sobre a mata
compostos de amarelo & púrpura & carmim

preenchem o que resta no pouco de céu
que ainda se desnubla neste fim de dia
enquanto desbotoamo-nos nalgum sorriso"

Trecho do  ADUMBRA | de Guilherme Gontijo Flores

[ edição da Contravento Editorial]



as almas vulgares se regozijam com escândalos alheios e os alimentam! Por exemplo, quando percebem alguém na rua, em sua fragilidade humana, sujo ou maltrapilho, e destacam esse detalhe, sem saber como nem porquê, e ridicularizam ou expõe esse ilustre desconhecido. Mas não esqueçam que, neste mundo onde cada vez mais tão poucos conseguem ver além do próprio umbigo, quem fala do outro fala mais de si do que do outro!
Ricardo Pozzo

Fonte : Escamandro

Altamira



Na variável mais profunda,
tanto caçador quanto caça
estão em fuga.

Naipes numa orquestra de faros,

iluminados nem pelo satélite pálido
seduzido, em seu magnético giro.

Melhor enxerga o que ouve
aguçado

na floresta que assombra quem,
surpreendido,

mira o animal escolhido
e a si reconhece.


Ricardo Pozzo
[A quantas pessoas falta uma mão amiga, um estímulo, um elogio, uma palavra de amor e um gesto de carinho? O mundo virou um tapete de unhas e o diálogo uma traição à vida. Estamos trocando nossa eternidade por marcas, grifes, quinquilharias tecnológicas, drogas, desregramentos e alucinações ególatras. Sem noção...sem noção...] by Antonio Thadeu Wojciechowski

Não temos nem um plano. Seguimos o fluxo e as coisas acontecem, apenas porque encontramos uns aos outros. Não acreditam os que rejeitam a lei do acaso e precisam calcular todos os passos, atropelando quem está na frente.

MK
Creio que deva haver, no Paraíso cristão, um pálacio, símile àquele em que adentram os Einherjar, para as mulheres Mães, Avós e Bisavós que lutaram com todas as forças para proporcionar a seus filhos, netos e bisnetos o Amor, a Sabedoria e a Severidade e que assim possam ter a oportunidade da Escolha ao trilharem os intrínsecos e específicos ciclos da vida com o conhecimento das páginas do Livro do Sagrado.
Louvado Seja o Sublime, o Generoso!

Ricardo Pozzo

• dormitava auroras
nua em pedra
e errava
- por querência -
a cartografia
dos homens


flertava com os mapas
das águas
e das ventanias
mais complexas


em sua bravura
de sereia
ornava-se de brumas
de lenhos e arvoredos
onde ninhos
surgiam-lhe felpudos de sois
e lãs febris
de horizontes


desse chafurdar no limbo
logrou despir-se de gente
- seiva-arrebol! -
sabia-se plâncton
basalto, âmbar
e cinzas


então assombrou-se
em fogo e quase lava
escorreu-se ávida
peregrinando
oceanos


: adejou-se rubra
[ flor-mamífera-ave!]
a burilar o magma
onde a vida
goza •

lilly falcão

/ do.rubro.magma.das.ovelhas /

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Casa



Nuances de luz
Recíproco fato
Em ato o Carnaval
Imediato.

Sou
Será?

Luto da forma
Em redoma teórica
Aquiesce coração
Globalmente poluído
Emerjo-me
Caos

Seus passos, seus sonhos
Suas polinizações
Ataraxia
Filosofia
Ser

Sigo, sábio, ou não
Coração sereno
Grécia, templo
Casa
Sol
Dionizo, Apolo

Horas, dias, meses
Anzóis de sóis gregos

Para capturar
Luas sociológicas
Das amigas superfícies
Fálicas e empíricas.

Anderson Carlos Maciel 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Receita de tolo.



Sub praticado verbo
Enleva cerda e estopim
Ao sul do sentido

Qual
Feijão e arlequim,
Sem um fim
Ou lógica

Pois quis a água
Assim
Furar a pedra

Fere o discurso
A pretensão de ser
Ser o quê?

Milhões de vezes
Subimos a montanha
Nos desapegar da matéria
E do ego e vaidade.

Para, na descida,
Instigarem nos, telas,
A libido, a nos envaidecer
De quê?

A carniça apodrece
Em estágios sub empáticos
Quando enfáticos os vermes
Vermelhos, escaravelhos
Lhes querem comer

Frio o tempo furta-cor
Labor, labor e mais labor

Risos perturbam o ser
O silêncio
A interpretação da obra
Efeméride
Da cor

Senhor clichê
Você
Impondo o ser
Cópia copiosa de si.
Anderson Carlos Maciel

·

Chão de fábrica II


Sub produtivo léxico
Entabula
A bula do si mesmo

Ao si mesmo
De outro que não si
mesmo

Enlevo seres
A ser, sossobrar
Sim

Qual fim, qual a
Prisão de si
Em grades e regras
Ortográfico-classistas

Atina o verde destituído
Ao ostracismo do olhar
- Brilho global -
Destituído do cobiçado
Trono de isopor simbólico

Sobras
Nexo
Sexo, cobras, notas
Falsas obras, epopeías

Elenco eu, possíveis tempos
Em que o silêncio dos plebeus
Motivaria a economia
Não global, canal, televisão

Suave carícia dita torpe
Naquelas telas
Fomenta debates
Eterno retorno da libido

Exibido o verbo ensaia
A raia do sentido
Quantos 5 sentidos
Milhões de orbes inconscientes
Gentes, sentem ser
Insignificância

Produto e jactância seria
Se a vida tardia, exéquia
Excelsa aporia, enluasse
Carnaval bobo
Gente boba

Em silêncio, estudando
Micro normatização, falácia
Tácita ao sul da próxima estrela
Do pavor por câmeras

Pesquisa a falácia
De tudo que componho
Visto com as roupas oblíquas
A vida cyberativista

Pois segue a pista a gente
Classista imaginando
Poesia e coluna social
Selfies bobos de caras pálidas
Sim pálidas
Anelando corroboração:
"Eu no palco e você na platéia"
Aplaudindo ancas globais
Televisivas
Ogivas do poder político
Sifilítico

Brasileiro
Sem remédio

Sou
Intelectual
Exija-me e prova
Naquela tela porca, manipulação
Televisão, retrocesso e profissão
Ora por fé
Quem é ou não é
O estereótipo, o riso, o assédio
A conclusão

Darei
O pão

Darei
A água

Darei
Sentido

Às tuas razas mágoas
O deus que iluminas as brasas
Leva informação às amarelas casas
Pelas aljavas da Grécia derribada
Os debates "ideológicos"
Dos bobos que querem nosso
Convívio

Intelectuais

Nos vendendo os livros
Dois milhões de selfies bobos
Nos ensinando o segredo da canção
De outros.
Anderson Carlos Maciel


Pássaros verídicos



Sub ensolarado
Sub enluarado
Sub conjugado

Prado, velho
Agreste Hélio condutor
De calor férrico

Toquei nas feridas
Eu podia
Era e sou ainda
Quem acaricia

Sabão no verbo
Para emanar luz.

Dentes e língua
E beijos refratários
Ao som das metamorfoses
Alegres ou tristes
Em riste
Chistes de informação

Espumas globais
Cegaram os olhos da beleza
Sigo, sou, ser
Movimento em direção
A algo que existe
Alpiste para os pássaros

De amanhã
Perderem a vergonha de voar.

Anderson Carlos Maciel

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Espelho meu


Não sou só dos abraços de ano em ano
nem dos beijos a léguas de distância,
pelo que sei e vivo, desde a infância
adoro o colo feminino humano.
Não sou de bajular nenhum fulano
que acaso esteja em poderosa instância;
não sou de correrias nem de ânsia
por bens materiais. Muito me ufano
de ser o mesmo em todos os momentos
e situações, com favoráveis ventos
ou não, tranquilo caminhando eu vou.
"Louvor em boca própria e vitupério"
Mas tu, espelho meu, refletes, sério,
a forma como exatamente eu sou.

Hardi Filho. Piauí. 
Sonhei com heróis que limpavam as botas sujas de lama em véus de linho branco.
Estávamos todos no quarto.
À porta da casa, amarrados aos troncos, os cavalos tinham as crinas trançadas.
E quando relinchavam, lembravam-me de um lago muito cinza e calmo.
À janela, eu fitava o sol e a luz era uma náusea.
Basta calar, disse a eles.
Disse aos estádios nos olhos deles.
Afundar o rosto na terra e ouvir os rumores das águas.
As jarras estáticas de leite no fundo da noite.
Bendizer o vazio, a pelagem castanha, os túneis.
Sei que a única inocência em mim é a dor.
Sei que a única inocência em mim é a dor,
repeti.
Sentamo-nos no tapete,
as roupas reverberando quentes e impenetráveis,
os terços em mãos,
tudo muito muito muito além de nossas botas limpas,
e oramos a uma pequena raposa ausente.
--
[fernanda boaventura, in: o pasto anula-se em certos lilases, a ser publicado logo-logo pela La bodeguita]


O CÚSPULA

O cúspula é um animal de médio porte, de pelo rasteiro. Emite um cheiro desagradável e tem como defesa o grito agudo, capaz de partir copos de vidro, cristal. Não existe notícia de caçadores de cúspulas. Mas os que se arriscam à lenda, esses velhinhos surdos que caçaram na floresta, no capão, explicam que a surdez foi acidente com cúspulas. Uma história mal contada, por sinal. Um cúspula ataca no grito, vive solitário e seus hábitos lembram os de um macaco assustado ou de um tatu muito tímido. Quando um cúspula encontra outro, só um sairá vivo. A morte de um cúspula é de mau agouro – e nas matas, os galhos e arbustos devassados indicam que um cúspula foi cuspido para fora da vida. O cheiro é mais insuportável ainda. Os pelos são duros, e quando roçam, sem querer, em outro bicho ou mesmo em gente, causam feridas profundas. Nunca mais foram vistos, mas nos lugares em que habitavam o ouvido apurado percebe uma eletricidade tremelicante no ar.
.André Ricardo Aguiar



[Fábulas Portáteis, Editora Patuá]

Gargaú (preservar antes que acabe)


quem tem sangue na veia
nem guaiamum nem caranguejo
na saliva do desejo
em tua língua meu amor
e que a lama desse mangue
possa parir alguma flor
Artur Gomes


Um poema lindo
Pousou no meu domingo
Dorme agora
Entre lençóis desarrumados
Saio do quarto devagarinho
Faço café: sem açúcar
Nenhum medo me assusta
A paz costura seus silêncios
Vou à janela olhar a rua
Lá no asfalto
Pessoas passam indiferentes
Carros deslizam impacientes
Mas é domingo
O poema sonha profundo
Com um mundo
Em que a segunda-feira
Seja uma senhora boa e feminista
_que tenha tudo
E não queira nada da vida

Assionara Souza
uns lençóis baratos recobrem meu silêncio.
um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.
não vim ser anjo.
vim ser estardalhaço."

RR
é delicado
não perguntar as horas
a um morto
é delicado
deixar as pedras
em paz
é delicado
olhar por dentro das palavras
antes de dizer o que elas dizem
é delicado
dar passagem às flores
e não perguntar aonde vão
e deixar a amizade do amor
decantar no fundo do corpo
por longos e demorados anos
é delicado escutar o tempo
e plantar lá dentro
no vazio do vento
o signo o selo o cisco
da delicadeza
e do silêncio

*

Carlos Moreira

Retrato:


Tem do outro lado
essa muda imagem
do que fui
Tem no desfocado
um sonho que rui
E lágrima de sangue
que em nenhum rio se dilui
E tem os meus cabelos
Ah, os meus cabelos!
que já não pegam vento!

Lázara Papandrea

A ALEGRIA DO POEMA


Nada como postar
um poema novo
na Internet.
(uma olhada básica
para ver
a repercussão)
Deixe um pouco
esse computador;
que o poema faça
a sua parte.
Paulo Vallim - 05/02/2017 

Incoerente


ó lua
incoerente
tão cheia de
(a)tributos
nua inteira
de metades
crescentes
tão exibida
tão rara
tão cara
até quando
minguante
mostra-se
de graça
na cara
da gente
Chris Herrmann


Jurisprudência



Conversão em tez
Soube eu,
Plebeu, que não...

Ensaio conquistas
Estrelas genuínas
Num universo só meu.

Não agonizo
Neve, granizo, frizo
Que vou

Descobrir-me
Dessas pétalas globais
- Projeto -
Homem, ser, estilo.

Nuances do brilho
No botão.

Refaço o lastro da canção
A cada clichê imagético
Aporético
Que se conjuga refrão

O sol teso
Arrefece solidão
Dança, imberbe,
A dança da chuva global
Astral artificial
Da brasileira conjugação
E patamar artístico
Da concepção estética

Do ser
(Idiota)
Ou não.

Anderson Carlos Maciel

sábado, 4 de fevereiro de 2017

MARISA


O piso, a parede, o 273,
a mistura de traços na pele:
tudo muito São Bernardo,
puro frango com polenta.
O quarto na frente da casa
e o cento e quarenta e sete
descansando sob as telhas:
viatura, troféu, ferramenta.
Nem dor, nem ódio ou medo.
Prole aos pés, amor e luta
(e a justa faixa presidencial)
se insinuavam no tergal.
Dia de descer a Anchieta,
cortar a névoa do Riacho,
forrar o bucho com mocotó,

lavar a alma com cambuci.

Tarso de Melo

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fluir Sóis



Banhando-me, hirto
Eu sinto
Eu, sim, sou.

Adereço, sol, sigo
Perigo, nego, ou não nego
O que enfim acabou.

Bocas se fecham
Ao beijo, normalmente.

Sempre negou, papel
Tela, singela letra
Tenro estilo
Deduzo, infiro, que sigo
Só.

Bocas muito molhadas
Acompanham, sim, cognato
Pensamentos rasos
Da forma padrão

Virem o holofote para lá
Para o Pacífico
Específico, são, tão
Si mesmo

Minha letra move
Cruzes, luzes, mares

Quando teus falares e julgares
Julgarem que sabem
Que nada sabem

Estou pleno da mesma
Carniça
Por isso ensino à risca

Dia a dia
Roteirista

Mais um rosto bonito
Naquela tela fascista.

Sãos, tão, cheios de si
A desaguar em mim
Anjo do verdadeiro marfim
Sempre frutose, sacarose
Mas não alcatrão, simbiose,
Ou nicotina peregrina
Pelo Champs Elisée.

Sentirei sim, náusea
E verdade do amor.
Com o sabor da calma
Em meu palato classista
Para classes em riste
Outra vez
Eros e Psiquê.

Anderson Carlos  Maciel

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

RETINA


da janela do escritório
vejo o sol
como um apelo
que emite uma imagem
quadrada em meu rosto
agora
escondo no bolso
um pouco do desconforto dos dias atarefados:
para te dizer
das folhas que caem com facilidade na primavera
a janela
é uma porta
para dois mundos distintos:
um que eu vejo e quase tenho
outro que ouço e não tenho
minhas mãos burocráticas
não evitam
o fim do expediente
elas carregam a sensação de perda
de um pedaço da vida que foge
ou que se ergue
nos quatro cantos da sala
para depois
desaperecer em silêncio,
pelas frestas da janela.
*

Régis Mesquita

PRECIPITADO


a vida é muito curta
para apenas um abraço
um copo de refrigerante
um filme americano
um café expresso duplo
uma noite de insônia
um sorriso para um desconhecido
a vida é muito breve
para apenas a leitura de um verso
de um livro, de um beijo ou de um filme
a vida é muito pequena
para uma revolução
para um jantar em família ou para uma visita à vovó
a vida é raramente curta
para apenas um
*

Régis Mesquita

PROFUSÃO


nestes dias tão tumultuados
é preciso
adiar o dia
nestes dias tão tumultuados
é preciso
dizer às horas,
que horas são?
nestes dias tão tumultuados
é preciso
acreditar no amor,
onde tempo e fé
é uma só morada
nestes dias tão tumultuados
é preciso
estar à frente da pressa
ou odiar o dia
nestes dias tão tumultuados
abrigo sincero
é pressa da calmaria,
em breve
aperto de mão.
*

Régis Mesquita

SUBSTÂNCIA


hoje eu me alimento da falta de interesse do pássaro que voa contra o vento da apatia
eu me escondo nos escombros escritos no jornal amarelado que não consegue ser vendido
da banca que vende coisas desinteressantes
eu corro do medo do olhar do homem que sente fome & sente frio na praça da Sé
enquanto muita gente corre atrás de um sonho que não sabe se será realizado
eu finjo acreditar nas promessas de todos os anos quando o abismo da realidade é descarregado nos caixotes daquele caminhão com galinhas de olhos mortais prontas, sem entender, para a morte inevitável
hoje eu sou a força que resiste
por natureza imóvel
na desesperança dos trabalhadores que desistiram da greve geral em última hora por medo de represálias enquanto suas esposas pensam no que irão fazer no almoço de amanhã.


Régis Mesquita

BÚSSOLA


o tempo
dentro de mim
urge:
forjo a espera
o passo
fora de mim
ruge:
engulo o silêncio
a hora
no outro
rege:
ergo a palavra
a morte
ao redor de mim
erige:
invento a demora.
Régis Mesquita