terça-feira, 17 de setembro de 2019

Perdemos a fé no sonho da felicidade...
Ao acordar nos deparamos com
a maldade cruel nas ruas e nos becos...
Esperamos a noite voltar a sonhar...
Não tentamos mais realizar sonhos,
deixamos para as confeitarias...
pois eles as mesclam com doces , que
maravilha.

Amaury Nogueira

Escritor poeta

Escritor poeta
tem as letras
como sementes,
as folhas igual
Ao compro de plantio.
livros , como filhos crescidos que somente
a assinatura pertence.

Amaury Nogueira

Espelho II

O espelho sujo
deforma a imagem : do rosto.

Não o rosto
diante do espelho.

Porque o espelho dentro do rosto
é inimigo apropriado.
Eterno e breve.
Transcende a convivência consigo mesmo
e o tempo marcado.

o espelho dentro do rosto
como o rosto espesso, diverso, esparso,
estúpido, estranho,

é estrume do tempo
e ouro da morte .

Lindolfo bell

Espelho I

O espelho :
na conquista da máscara definitiva
no prelúdio da morte capturada

O espelho , este
labirinto de Creta. Este
dédalo de meandros.
Esta verdade nua
e crua. Esta vertigem,
este hieróglifo de luz.

Ah ! Então é isso !
O espelho
é onde o pássaro do tempo pousa.
Se reflete,
se debate ferido, aferido.

E deflagra a morte provável .

Lindolfo Bell
in O código das águas

Um inseto na lagoa santa

Um inseto de Lagoa Santa
sobreviveu três mil anos
fora do destino comum

Fora do destino comum
e dentro da solidão

Em armazéns do tempo
as coisas permanecem
mais tempo
que ao tempo destinado

Fora do destino comum
e dentro da solidão

Lindolfo Bell
in O código das águas

Primeira raiz

Ancestral não diria :
antes  cesto de tudo ,
antes tempo em que mudo :
pêlo , pele , sobretudo.

Ancestral direi :
se memória não fosse mais
( e  é tudo )
que risco na cerâmica quebrada ,
o nome da pedra achada ,
e o amor , esta breve palavra,
em milagre  de nada.

Ancestral, sim ,
porque o que passou , passa , passará,
não passa de matiz, matiz , da manhã.
E dúvida ancestral
não é mais que fogo, afago, cinza.
E tudo que penso
pouco mais dura que a escrita ,
a da raiz, a da marca do pé na terra,
que mino , rumino,
                              e que ma habita.


Lindolfo Bell. SC
in O código das águas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019


Machado polímata


           
  
Escreveu Heráclito (segundo Diógenes Laércio): "polimatia não ensina sabedoria" (ou "inteligência"), pois, ele prossegue, "teria ensinado a Hesíodo e Pitágoras, a Xenófanes e Hecateu". Debite-se o aforisma à melancolia do filósofo (que chora) e a seu desejo de separar-se da acumulação de saberes que encontra em colegas como Hesíodo, o qual poetou desde sobre os primeiros deuses até a agricultura e a navegação, fazendo "uns dias bons e outros maus", por ignorar "como a natureza de cada dia é uma e a mesma", pois "tudo é um", "o contrário é convergente" e dos "divergentes [é que] nasce a mais bela harmonia". Não se trata, como se vê, de negar a contradição e a divergência, mas de definir uma partilha: há os que se põem do lado do um ("de todas as coisas um e de um todas as coisas"); há os que se voltam para a polimatia do múltiplo.

É neste último clube que incluo Machado de Assis, fazendo-me logo entender. Um: não quero dizer que os aliados de Heráclito também não saibam muito, apenas que se trata de pendores diferentes (uns são holistas; os outros, particularistas). Dois: não é preciso desclassificar uns para classificar os outros, pois há bons pendores de lado a lado: se o grande Machado é particularista, o não menos grande Guimarães Rosa decerto é holista. A diferença: enquanto este último dá a entender que "de todas as coisas um" etc., ao outro o um pouco interessa, basta-lhe cada coisa. Aquele busca "a" sabedoria. O outro, polimatia.

Uma passada de olhos na fortuna crítica leva a constatar que só de um polímata poderia haver leituras tão variadas. Já se escreveu sobre Machado de Assis funcionário público (Magalhães Júnior), psiquiatra (José Leme Lopes), socialista (Roberto Schwarz), religioso (Hugo Bressane), utopista (Massaud Moisés), frasista (Angela Canuto), filósofo (Nivaldo Manzano), historiador (Sidney Chaloub), cético (José Raimundo Maia), satirista (Álvaro Marins), abolicionista (Eduardo Duarte) ― e até, há pouco (com Gustavo Franco), sobre Machado economista (apenas para insistir no contra-exemplo: alguém teria como tratar da economia em Rosa?). Essa abertura um tanto exagerada que Machado dá para tanta diversidade deve ser tomada não só como casual, mas sintoma de algo que estará no cerne de seu programa de escritor, de leitor e pensador. Os indícios disso é que me proponho perseguir aqui. Não sem antes precisar três pontos.

Três precisões
A primeira, que, tratando-se de um escritor, a polimatia é irmã xifópaga da poligrafia. Não tanto no sentido de alguém que escreve muito (o que se aplica também a Machado), como que escreve sobre muitas coisas ― porque lê coisas variadas e serve ao leitor essa variedade. O polígrafo costuma ser autodidata ― como em grande parte Machado foi ― ou seja, lê sem um programa definido (muito menos de caráter escolar) e freqüenta parcelas de conhecimentos e reflexões. Daí a impressão de alguém que em nada crê nem descrê, mas toma sempre distância para ver (ler) melhor. O aforisma heraclíteo, "os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos", é transportado por escritores como Machado para a esfera da leitura ― como assevera sua personagem Dona Úrsula, em Helena: "não entendo bem o que os outros me lêem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos".

Segundo ponto: Machado decerto se inclui na seqüência de polígrafos (nos dois sentidos) como Plutarco, Luciano, Aulo Gélio, Erasmo, Montaigne, Diderot e Voltaire (já em A mão e a luva ele se declarava "o Plutarco dessa dama ilustre", ou seja, trata-se de uma escolha genealógica que vem dos primeiros tempos). Mas também "descende da raça" dos aforistas, esses "caçadores", conforme Augusto Meyer, cuja paixão é "um esporte abstrato, jogado com palavras": Pascal, La Rochefoucauld, Vauvenargues, Leopardi, Schopenhauer.

Finalmente, se a polimatia esteve em outros momentos nos livros de polígrafos e aforistas, na época de Machado tinha migrado para jornais e revistas (donde depois partiu para o rádio e a televisão, como, hoje, se encontra na internet). A crônica é sua forma por excelência, mas recorde-se que as publicações seriadas acolhiam também ficção: muitos dos contos Machado publicou-os assim e foi na Revista brasileira que primeiro apareceram as Memórias póstumas de Brás Cubas. A técnica fragmentada da narrativa, que se radicaliza a partir deste livro, deverá muito à forma do folhetim, não comportando mais os extensos capítulos, por exemplo, de Iaiá Garcia.

Dois entenderes
Caso se concorde que o polímata, enquanto leitor, tem a inteligência nos olhos (é um tipo de voyeur), na medida em que se torna escritor, age como exibicionista. Daí o gosto por citações, alusões e reminiscências postas intencionalmente na superfície do texto. Essa técnica de composição, que é bastante evidente nas crônicas, comparece igualmente nas obras de ficção. Nessas, mais que premissa só do narrador (ou de narradores-personagem como Brás Cubas e o Conselheiro Aires), ela também faz parte da competência das personagens tout court: em Ressurreição, por exemplo, a anedota do "astrólogo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um poço" (transmitida por Esopo e aplicada a Tales por Platão), é trazida, por Félix, ao diálogo a propósito dos "livros de imaginação" (isto é, de ficção), para levar à conclusão de que a vida não é "senão uma combinação de astros e poços, enlevos e precipíos" ― e de que, agora a voz é de Lívia, "não há livros detestáveis nem ótimos. Deus os dá conforme a ciência de cada um."

Esse narrador que exibe um conhecimento um tanto difuso parece ter como objetivo fazer com que o leitor adquira, ele também, inteligência visual: "é um privilégio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras não vêem, ou não podem ver", afirma-se em A mão e a luva, prosseguindo-se então: "no rosto de Guiomar podemos nós ler..." Ver e ler são operações correlatas, sendo para a percepção do que é a outros invisível (logo, ilegível) que o narrador que se expõe pretende chamar a atenção. Daí sua necessidade constante de expor igualmente o leitor, como faz Machado por toda parte, a exemplo de na mesma obra: "um leitor perspicaz, como eu suponho que há de ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que ele [Estêvão] teceu, diversos e contraditórios". Ora, seja em que nível for, as citações, alusões e reminiscências têm como destinatário esse leitor cuja perspicácia de visão (e leitura) cumpre trabalhar, para que, reconhecendo que há sempre, no texto, muitos planos, diversos e contraditórios, também exiba, no reconhecimento, sua parcela de polimatia.

A "nota semanal" publicada por Machado em 1º de setembro de 1878, a propósito dos atropelos nas eleições em Paquetá, serve para mostrar como isso se processa. Começa-se com alusão à ilha dos Amores, suposta invenção de Camões até que se descobriu, agora, ser ela "nada menos que a ilha de Paquetá". Logo o autor se explica: "Entendamo-nos; não digo que em Paquetá haja Leonardos, nem que ali vá ter a caravela de nenhum Gama. Há um falar e dois entenderes. O que digo é que, no ponto de vista eleitoral, a nossa ilha vale a de Camões". Segue então a descrição invertida dos tumultuados sucessos (que elevam o lugar a um plano fictício), com cada qual votando no adversário, fraudando em benefício do outro partido, protestando contra o resultado favorável a si e elegendo candidatos de outra paróquia. Então, ele completa: "Ri-se o leitor? (...) Não sei, entretanto, se poderá explicar de outro modo o fato de (...) Paquetá dispensar a força que lhe mandaram, certa de fazer uma eleição pacífica. Este procedimento faz crer que Paquetá é o seio de Abraão".

Ora, é porque para um falar é preciso buscar pelo menos dois entenderes que se justifica não só o apelo à ilha de Camões, como, em outros lugares, à "ponta da orelha trágica de Shakespeare", às lágrimas de Xerxes, aos "mares de Homero" que, diferentemente dos de agora, "podeis sacudir Ulisses, mas não lhe dais as aflições do enjôo". Colhidas por seu valor, as remissões são contudo despidas da sacralidade que possam ter para conformarem-se à dicção machadiana e a novos entenderes, o que permite até que Paquetá possa vir a ser (ironicamente) o "seio de Abraão".

(Alg)uma sintaxe
A famosa resposta de Pedro e Paulo à pergunta sobre sua idade (um: "nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao trono"; outro: "nasci no dia em que Pedro I caiu do trono") confirma que para tudo há mais de um entender. Com efeito, em Esaú e Jacó, romance da plena maturidade, pode-se perceber com toda clareza o programa perseguido por Machado desde o início. Nunca a polimatia foi tão ampla, abraçando toda a tradição: Ulisses e Aquiles, Esaú e Jacó, Pedro e Paulo, Castor e Pólux são nomes e epítetos aplicados aos gêmeos, a provar que nem gregos, nem judeus, nem cristãos ― nem mesmo o ovo de Leda era assim tão um quanto aparentava.

Foi isso também que aprenderam Prometeu, Aasverus e Brás Cubas, no que pareceria, à primeira vista, algum exercício holístico de abarcar princípio e fim, mas termina na dispersão do meio: "cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões". Como já dizia o Sr. Antunes, em Iáiá Garcia, "debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo são perfeições, como opina o Doutor Pangloss". Mesmo sobre um simples bacilo, "Hippocrate dit oui, et Gallien dit non".

Porque assim são os homens é que se exige um leitor (como Luís Garcia) "de boa casta, dos que casam a reflexão à impressão": "quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o, por assim dizer, no cérebro; embora sem rigoroso método". Dessa forma, "podia colher a flor ao menos de cada coisa". Noutros termos: compor seus próprios florilégios. Ou, nos do Comendador X, proceder a "uma verdadeira digestão literária". Não é outro o método machadiano: um processo digestivo que desagrega o lido, para servir ao leitor o que foi colhido. Nesse sentido, os aforismas de Brás Cubas (postos "entre parêntesis"), são uma espécie de extrema radicalização: "Suporta-se com paciência a cólica do próximo"; "Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro" etc. Heráclito teria razão? Pura polimatia, nenhuma sabedoria?

Uma advertência e um prefácio auxiliam-nos no esforço final de responder a essa pergunta. Este, de Páginas Recolhidas: "Montaigne ['Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt, tout s'enveloppe sous le nom de salade'] explica pelo seu modo a variedade deste livro". Aquela: "Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade (...). A verdade é essa, sem ser bem essa. (...) São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa". Enfim, existe a teoria do filósofo que se dirige a Alexandria (um desses lunáticos machadianos que se entregam a uma idéia fixa como a única chave para o entendimento de tudo), teoria segundo a qual "os deuses puseram nos bichos da terra, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe".

Agudo aforisma: a sintaxe é o homem. Machado. O leitor. Constatação que abre todas as possibilidades. Contra a melancolia do filósofo que chora o um, a polimatia do também filósofo (por que não?) a que diverte a inteligência variada de cada coisa.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, na edição especial em homenagem a Machado de Assis.

Jacyntho Lins Brandão
Belo Horizonte, 16/6/2008

Fonte  :igestivo cultural.  Segunda-feira, 16/6/2008

O Observador das Sombras



Pedro Penido


"Estranho.

Sempre julgamos a partir de primeiras sensações, primeiras impressões. E de igual maneira condenamos até mesmo nossos corações. Sempre donos de nossas verdades, em ermos de nossas mentes frias e nossa razão egoísta.

Apontamos lugares e os condenamos a serem ermos, inóspitos, macabros. E assim convivemos harmonicamente com os julgamentos que fazemos, as opções que analisamos e as decisões que tomamos. Criamos monstros longe de nós para evitar os espelhos que nos cercam. Assim podemos nos contentar com berços dourados e camas de reis.

Mas sabe-se pouco sobre os monstros trancafiados nas casas assombradas, nos pontilhões afastados, nas encruzilhadas do caminho, nos escuros porões e, até mesmo - acredite - no fundo de nossos corações. É prático concebê-los e deixá-los à deriva em nossa imensidão. É fácil e "necessário" darmos às sombras os restos que nossa luz produz.

Estou nas sombras, em lugar nenhum mais."



O Próprio Amor




Dos vasos suspensos
regados por seu nome
é colhido o olhar de alegria.
Há vida.

A rosa colhida no mais íntimo do meu jardim
foi rejeitada feito capim.
Num copo esquecido, sobreviveu
a lembrança du'm sorriso.

A rosa não teve nome
só motivos

e morreu.

(Vitor Berigo)

O Andarilho



Parte I: A Caminhada

Pedro Penido

Esperou tanto tempo por lágrimas que nunca vieram. Caminhou solitário pelas ruas, e tragou do tempo, bebeu do luar. Tornou-se resto do tempo, à margem de suas visões. Inevitável como a morte, esquecido como a vida. Envelheceu ali, solitário numa multidão, entre bons amigos do passado e reflexos distorcidos de suas mais estranhas e monstruosas ambições.

Trovejou no temporal e silenciou-se ao amanhecer. Emudeceu nas terras tocadas e marcadas pelo sol imperador. Ali, pouco a pouco, misturou-se às ruas que trilhou. Deixou partes de sua alma no caminho e absorveu do caminho o pouco que ele, por si só, poderia oferecer. Sempre alheio à burocracia da vida e ávido por novas sedes e fomes. Sempre com os receios da infância e os medos da velhice. Sempre obscurecido em suas lembranças, povoadas de tantos vagos nomes.

Seguiu a trilha que lhe restara. Seguiu em frente, até não poder andar mais. Chegou à costa e ali, ante o mar que se apresentava, saltou na última nau que ainda existia. Olhou para trás... fitou a grande muralha verde que se estendia ali. Não chorou ou sequer se comoveu. Ergueu uma taça com sangue novo, brindou, gargalhou, virou-se para o mar e desapareceu.


INVESTIGAÇÃO






Quando encerra o expediente

o investigador engaveta

seu trabalho ao próximo dia?



Quando cessa seu trabalho

no final do turno

o investigador leva para casa

sua linha de raciocínio?



Quando descansa junto à janela

após jantar com a família

ou do lanche no bar da esquina

o investigador dispensa

o caso guardado?



Quando dorme no final da noite

com o que sonha o investigador?

(Pedro Du Bois, vale em versos )


Teu nome parece berrar
qualquer coisa
desigualdade vulcânica
terra boa para plantar
negra
úmida
planto
bulbo de tulipas
com requintes de fêmea em dúvida
qual a ironia
tulipas plantamos
antes do inverno
summertime
no Brasil, mujer
nãoneva.

Ana BeatrizDomingues , in Atlântida

Wild

Sou uma rosa
despedaçada no vento
uma rosadespetalada
no vento
sou e sou e sou e
sou e sou
uma rosa de Gertrude
Stein
uma rosadesperta
uma rosa mancha o
eu.

Rosa Tostes Daniel

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Estética




Não gostava
das mulheres anoréxicas
magraltas.

Modelos-cabide
de prêt-à-porter.

Preferia as tesudalmas
& as gostosaltas.

Garotas da capa
em verso & frente.

Ricardo Mainieri              29 de julho de 2011

Maracatu rural


  18 de julho de 2011 18:29


Dança e canta brasileiro
Tão rico teu folclore.
Tua cultura altaneira
Povo...cultura que aflore.

Maracatu corta cana.
Carrega rítmo ,grito de guerra
Na zona da mata
Caboclo dança e ara a terra.

Canta e dança é uma travessia
Uma festa na roça
Plantação , ritual te guia
Muito colorido na roça.

Maracatu lá no sertão.
Faz a terra tremer
Bate toada em percussão,
simbologia de viver.

Vai povo fantasiado
com seu relho e chapeu.
È um canto sincronizado
jogando versos ao léu.

Maria Regina Ferreirinha Nery.18-07-2011
regina ferreirinha

Maracatu Rural é uma manifestação cultural da música folclórica pernambucana no qual figuram os conhecidos caboclos de lança. É conhecido também por Maracatu de Baque Solto.


A prova de balas!





Quarto vazio capaz para toda a paz sem horas,
cinema animado.

Água quente, água de febre
derramado pelo chão,
nado livre entre as estrelas colhidas.

vasculhando e dedilhando o fundo do mar pardo
demorando
quase um ano para achar o telefone
em minha mão.

Pequena mancha de sangue no sol
lua cheia dopada,
vagando em coma entre nuvens negras.
...
Canto um pranto eu sou do sol.

Esses fluidos caindo lá do teto estão luzindo
envolvendo e devolvendo
tudo em reticências .

E o amor
sabe quando vem,
quando ele vem
só ele sabe...
então
calam se todas as perguntas.


Nelson Aharon Bibow   13 de julho de 2011 


quarta-feira, 11 de setembro de 2019


COISAS QUE SOBRARAM DO INCÊNDIO
Naldo Velho

Há um quê de delicadeza
nas coisas que sobraram do incêndio.

Vestígios de sonhos misturados a destroços...
Madeira, reboco, papeis, muitos panos.

Pela casa aos pedaços eu recordo a história
de um amontoado de livros, parte deles queimados.

Há um quê de suavidade
nas cinzas que sobraram pelos cômodos.

Luz do sol, fumaça, vidraças quebradas,
e ainda assim, eu percebo os detalhes.

Portas arrombadas denunciam o desastre,
no ar um cheiro de demolição.

Há um quê de poesia
em pode sentar num canto e apreciar os estragos.

Há um quê de magia
em poder renascer dos escombros.


Soneto para o grupo AC/DC


De Glauco Mattoso

Diz "rei morto, rei posto" o velho dito.
No rock, um vocalista jamais é
assim tão necessário, e, se o Mané
bateu as botas, seja o Benedito!

Se, antes de Cristo, estava bem escrito
que a música do Demo leva a fé
daqueles que duvidam de Javé,
depois tais escrituras já nem cito.

Se temos sete cães e um osso só,
sai briga, e se o cachorro o pêlo preto
tiver, pior ainda: é pau, sem dó!

Se salva quem prefere o inferno ao gueto:
melhor ser um buldogue que um totó
qualquer, melhor a emenda que o soneto!
De Paulo Henriques Britto, um seu poema, "II":

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.




Nas entrelinhas
destas linhas
vi estrelinhas



Alvaro Posselt

   11 de julho de 2011

Madrigal





Amor madrugou querendo passear em meu jardim; despertou-me
sonhos sua voz de sonho.

Formando de capim um laurel para si, pegou-me, cantante, em
seu colo, pouso de meus devaneios vintaneiros.


Fabio Freire       2 de agosto de 2011

A folha branca


De Francisco Bosco



1. Mais uma vez um poema, e a promessa de apagar as fronteiras

2. --- entre mim e o quê?

3. Para Cisneros as primeiras palavras lançadas devem ser exatas.

4. A tática: não deixar crescer o moral do adversário.

5. Por que a folha, não a tela?

6. Para manter a escrita aberta por mais uma etapa;

7. porque da folha à tela ganha-se alguma distância de si.

8. Mais que apito ou tiro: gongo.

9. (Há os que só lutam quando são chamados;

10. há os que só quando bem preparados;

11. há os que sem luva --- à mão livre, nua.)

12. Quando se cola o ouvido à folha branca, escuta-se um tropel longínqüo: o rumor da História.

13. Na folha branca lutam a Medusa e as Sereias

14. --- entro com meus olhos e ouvidos.



Visões



Por que no mercado de argumentos
Servem-se armamentos
Às guerras entre nações?

O riso sátiro e infame,
Cobra esguia no tatame
Vencerá as orações?

Na corcova do ataúde,
Homens sem leis ou virtude,
Por mandato, rufiões!

Pois, caiam porcos obreiros
E os gigantes estrangeiros,
Exímios camaleões!

Afoguem-se num desastre
Os roubos da melhor parte,
E se mostrem os ladrões!

Derrubem-se as prepotências,
Jugos, rastros de demências:
Paternais humilhações.

Bastem noites de sangrias!
Jejuar beato e vigílias,
Coveiros das ilusões!

Desperte príncipe valente,
E de sua dor descontente,
Inspire paz às multidões!

O galo toque a trombeta
E a alvorada amanheça
Lendo versos de Camões!

O sol não mais açoitado,
Viril membro hasteado,
Secará as solidões.

E o oceano arrastado
Sirva a um copo adocicado
Bebido por gerações.

A lua, orvalho gigante,
Cairá itinerante
Inundando toda a terra
E de promessas se empunhe,
E por amor venha à lume
O povo da nova era!


 Eliane Triska       6 de agosto de 2011 

Canoas, RS

Bastardos Inglórios



avisa aí que vem chegando
a gente feia da periferia
no bolso de nossas roupas...
das lojas de liquidação
trazemos as gírias e nossa arte
indigesta e marginal

a inovação é um parto doloroso
de uma gravidez indesejada
que a d. Sociedade não conseguiu abortar
somos a nova safra
na saga dos renegados

agora os filhos bastardos
voltam a casa do pai
mas não somos os pródigos
estamos livres das regras do criador

nossa ginga e nossa arte
sofrimento transformou
em combustível para nosso sorriso
de dentes tortos e idéias francas.

Elcyr Carreira da Costa  7 de agosto de 2011

OS MEUS DOIS SÉCULOS



Meu tempo desafinou o presente,
Quem poderá enxergar em frente?
Colar com o sangue duas vértebras?
A coluna e A medula de dois séculos?

O que houve não se repete mais,
Do porvir creio em tempos iguais,
Um sujeito deve caminhar de lado
Para enfrentar dias desarticulados.

Mas sei que se eu mirar o escuro
Probres séculos e espíritos futuros
Verei uma besta que jamais cede
E suas pegadas impressas na terra



 Eduardo Ribeiro               7 de agosto de 2011 
               

O crítico




No ato de dissecar imagens
& palavras
bisturi analítico em ação:
ao crítico, sua função.

Ricardo Mainieri


O dia não veio,
as notícias são velhas.
Só a angústia
metralhou a tarde.

Roberta Tostes, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos.

TRANSEPTO




Como prometi, roubei o fogo
e com minhas mãos de labaredas
te incendeio. Deus está solto, eu o sinto
em minhas veias pulsantes e em teus poros abertos.
E este fogo que acendemos na noite
é sagrado como é sagrado o pão sobre a mesa
e o vinho no cântaro de barro.
Como prometi, roubei o fogo
e agora somos uma sarça ardente
que se ilumina de sua própria luz
e se embebeda de sua própria chama.
A vida é terrível, eu sei,
mas neste instante de ternura e pavor,
em que não cremos em nada,
Deus está vivo
e é ele que dilata nossas pupilas insones
e bombeia nosso sangue pagão.
Como prometi, roubei o fogo
e com ele inauguramos uma aurora boreal,
a mais bela do mundo.

Otto Leopoldo Winck


DESACORDE




Acordo em total desacordo
comigo, de acordo
com o ricto sutil no espelho
e o desacorde dos dias.
– Bom dia – saúdo o vizinho,
sabendo que o dia é avaro
e o bem é restrito.
Na valise que arrasto nas ruas
há um deságio de sonhos
e esperanças vencidas.
Acordo em total desacordo
comigo. Mas de acordo
com todos. – Bom dia – responde
o imbecil do vizinho.

Otto Leopoldo Winck


DO TEMPO ESPERO




Do tempo, espero
a nudez de um corpo;
transformado em espaço,
um rosto.

Imagens que deponham dias,
a estudada geografia
de um torso
exausto,

sonhando tocar
a simultânea ausência,
região do mais etéreo encontro:
eu, o tempo; tu, o espaço.

Povoaríamos a casa
com a nudez das paisagens
sem paisagens,
coexistindo no absoluto

silêncio destas memórias:
as palavras, sem palavras
as mãos de colher mentiras
no dorso da história.

Puro movimento:
percorrer o desejo;
somos, teríamos sido
a casa, farol de doenças.

E o riso que déssemos,
rasgaria o tempo, recuperando
o que talvez tenhamos sido:
simples, como a morte.

Teu corpo ou tua casa
mediriam os caminhos.
Morrer, à sombra da origem,
no teu lugar, todas as horas.

Roberta Tostes Daniel, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos

RIO DA VIDA - II




Deixa eu te amar,
ó mar, que as muitas águas
de meu leito, intumescidas pela cheia,
enfurecidas pela lua,
me excruciam.

Deixa eu ter em ti,
ó mar, o meu zênite,
último limite,
– pois o que é o amor
senão o noviciado da morte?

Deixa eu desaguar-me
em ti, ó mar,
sem diques, adendos, subterfúgios,
sem as máscaras que o mundo me atarraxou,
que hoje, rio solto,
desabalado,
desesperado,
sou seu...

Deixa eu te ter,
ó mar, sendo-te,
batizado de ti,
amortalhado em tuas águas azuis,
que eu me perdi,
me excedi
e só então eu compreendi
que sem o mar (que sem amar)
não tem sentido o peregrinar do rio,
o escoar da vida...

Deixa eu te ser,
ó mar, tendo-te,
que a vida é pouca,
a felicidade rara
e o amor não é uma conta de subtrair
mas de somar...

Deixa eu te amar,
ó mar,
pois só em ti, em teu abismo azul
este rio
– cheio de fráguas –
tem o seu sossego,
encontra o seu lugar.

Otto Leopoldo Winck

O mito




O mito do cabrito por
perto, apodreceu

O mito do infinito
Por lá desfeneceu,

O mito do jacinto,
Nunca se deu.

O mito do Olimpo,
Jamais alguém conheceu.

O mito da casa de barro,
Ao luar se sucedeu.

O mito das favelas sinceras,
Existiu sem ser outrora

Mito ou teorema.

O fato é que se deu.
ACM



EXISTENCIALISMO




Entre a náusea e o êxtase,
não me decido: não sei se leio Sartre
ou São João da Cruz. E por que não
Camus? Ou Rumi?

É sempre essa escolha,
essa encruzilhada: por que não um “e” no lugar do “ou”?
um “mais” no lugar do “menos”?

No entanto, ocidental demais,
vou riscando meu traçado:
quanto mais avanço, menos sou,
quanto mais me embrenho, mais me perco
e vou deixando para trás, irremediáveis,
todos os caminhos que neguei.

Não, não há saída:
o homem é uma paixão inútil
– bonito de escrever –
ou um salto no escuro
– difícil de viver.

Otto Leopoldo Winck


Deixei o terreno insondável dos pássaros
acordos escusos com azuis
bicos, vermelhos, garras.
Delicadezas imaginadas
musgo e merda
selvagem que cobre o chão.
Caminho sobre selvas desossadas
guerreiros canibais, chorume
bala perdida e gás lacrimogêneo.
A indiferença assassina.
Homens sem rosto assediam
ventres metonímicos e pernas
halterofilistas.
Civilizadamente, deixamos de existir.

£

Decidi amar o que fosse:
gerações de mísseis abandonados
grotas acidentais
o cavar fundo da mina.
Encontrar estilhaços
na topografia
quero dizer
rota do cansaço.
E amar
o travestimento
da parte de quem
conserva intacta
a derme
planetária.
Isto de ser alma
é: laceração.
Roberta Tostes Daniel

Apolo e sua nau




Das funcionalidades,
Em motriz panaceia,
A quimera do clichê se reverbera,
Ao alto da paixão menos sincera,
Uno o deus,
Dou aula de significados,
Em pão,
Onde buracos se elevam
Por sobre a tormenta,
Dos que se expressam em vão.

Catapultam autômatos nadas,
Em casas perfumadas pela

Agnóstica solidão.
ACM

Nas mãos cegas de Roberta




Porque a pintura é uma entidade mística
porque sou incapaz de refutar em cores –

a meditação em Eduardo Seiji
longos fios, desde o couro cabeludo
alçando sua ascese

despenteando-se
despertencendo.

Há um nível de sujeição que beira à indecência
por um fascínio de pura nostalgia

a ignorância do olhar colhido pelo erro
aprender in locus a heresia

requer coragem
sobre meu amor por formas puras

: a solidão do retrato de Alberta
os entre espaços de Edmar
as cores que se revelam no entardecer

de John Christian Dahl
Dresden sob a luz da lua.

Remedios Varos inventando Tilda Swilton
mulher saindo do psicanalista.

Ou a criança pastoreando azuis
sob um charco de estrelas
menino pastor de Lenbach

cuida para que
Helena Almeida não se desgarre

naquela inigualável travessia das mãos –
careca e comprida amada por cachorros

uma Jeanie Tomanek nunca levada a termo
porque se afundou em Rothko

linhagem
miragem

devir Ohtake.
RTD


Labirinto



O mistério da primeira vez
o segredo obtuso de cada rês
a rotina quebrada de todo o mês
o arabesco no cérebro, sob o fez
a fé que se insinua, quando não crês.

Em tudo
o labirinto onde andas.
Mas nunca o vês.

José Antônio Silva           19 de agosto de 2011 

(in LÁ VEM O QUE PASSOU, SMC-Porto Alegre, 1995)

TODAS AS CASAS ME VIOLARAM.



Deponho elementos ao andar.
O tempo é de desamparo, chão de rodas;
patas e estradas são flores que não vicejam.
Mas ando como se me encaminhasse ao paraíso.
Aos meus pés, a vertigem dos seixos,
a aura afogada dos rios.
O ninhal dos ventos consuma o voo
desfazendo as minhas pegadas.
Na terra em que não piso,
quero construir minha morada.

Roberta Tostes Daniel, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos.

Algumas anotações aleatórias:




-- Engraçado como algumas palavras entram e saem de moda. Aleatório, bizarro, entorno são algumas das palavras em voga atualmente. De cada dez palavras pronunciadas por um hipster, três são aleatório, bizarro e a expressão 'no entorno'.

-- Não sei se alguns são ingênuos, ignorantes ou preguiçosos. Com exceção dos primeiros, os outros dois têm cura. Para os ignorantes o remédio é pesquisa, curiosidade, estudo. Mas tudo isso com 'olhos livres'. O problema é quando eles são também preguiçosos. Para os preguiçosos a solução é vontade. Mas como exigir vontade de quem justamente sofre de falta de vontade? Olha, pelo menos um pouco de boa vontade não seria ruim.

-- Coisas que detesto e uma que abomino: polícia, exército e todos os aparelhos repressivos do Estado. Numa revolução tudo isso deveria ser destruído e recomeçado do zero. Como o exército francês após a Revolução de 1789. Agora, truculência, eu abomino. Sobretudo quando vem em voz melíflua.

-- O duro não é sair da caverna. É voltar pra ela e fingir que você não viu nada. É o que muitos fazem. Pra ser aceito, você deixa de pensar. Você pensa o que os outros esperam que você pense. Aí numa festa você enche a boca pra dizer: esses sem-terra, é tudo vagabundo.

-- Coisas que amo de paixão: pôr do sol, expresso tomado num café com um livro nas mãos, flânerie, silêncio, seios, axilas. Não necessariamente nesta ordem.

-- Outra coisa que detesto: a expressão "amo de paixão".

-- Escrever um livro que ninguém leia, ou se ler, ninguém entenda: eis aí um bom objetivo pra vida.

-- "Ser um herói e um santo para si mesmo." (Baudelaire) E que tudo o mais vá pro inferno.

-- O duro não é quando as pessoas te decepcionam (as pessoas sempre te decepcionam, elas nunca são como você as imaginou). O problema é quando você se decepciona com você mesmo: aí é um duro golpe no orgulho e na autoestima. Não tem cura. E é bom que assim seja.

-- Otto Leopoldo Winck. Gosto do meu nome. Não sei que substância meu pai tomou quando escolheu o meu nome. Mas bendita seja essa substância! Pelo menos, nome de escritor eu já tenho.

-- Se todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto, este meu ponto de vista é apenas mais um ponto. Mas é meu, porra.

Otto Leopoldo Winck

Estratosfera



Eu queria, um ar
Eu levava ferramentas
Eu instruía as sedentas,
Eu,
Pensamento.

Por onde estive nestes vácuos?
Meus portais...

De mais a mais, resignam-se
Em ressignificar,
E por catapultar telas, totens mudos
Vão em suas capas e seus veludos
Arfar estilos, no bronze dos anos surdos.

Planejamento é tudo, ó humano!

Não fale por falar,
Não pense por pensar,
Não relaxe o verbo,
Que te quer conjugar.

Una as pontas do universo,
Subtraia dores das pontes universais.
Pois se tua escrita tem sentido histórico,
Pois se tem,
Quem julga não sou eu, vácuo meu.

O significado da palavra atravessa o cosmos,
E tua morada no ego, farfalha lava e brasa,
Nada mais.

Suba ao alto de si,
Caminhe para a felicidade,
More no eterno,
Repouse no vácuo,

Sim o vácuo.
ACM

Memórias




Memória, bloco de gelo imersa no tempo...
Concretudes embalsamadas, abraçadas ao vento!
À noite arremessada pela Lua num céu em desalento,
de dia, assoprada como bolinhas de sabão ao relento.

Um tempo abstraído do cimento cortante,
perdido nas escadarias do cotidiano cinzento...

Me abstraio do tempo e entro em comunhão com a solidão,
danço um solo na escada do tempo
em seus cantos cheios de excrementos,
sou assistida por insetos solitários, perdidos em seus intentos,
dou uma pirueta e volto para os meus aposentos.

Cruzo essas intensidades e me deixo ser,
como pingos da chuva, que começam a escorrer
na lama da preguiça e do prazer...
Atravesso séculos, num voo infinito do renascer.

Sou dona do meu tempo e faço a vida girar,
de salto alto e vestido longo atravesso o bravio mar,
assisto Maria Callas com violinos aos soluços,

sofro açoites do tempo e busco novos percursos.


The end


Luiza Silva Oliveira           19 de agosto de 2011

Diário




Detrás das horas, o perfume
blindado pelo mecanismo da
insurgência

ante a insônia, o decreto
da pausa - a mulher exala
rara vulnerabilidade

todos os dias, acender
o sofrimento
na boca do fogão

e espantar
os maus pensamentos

beber a goles profundos
o líquido viscoso
escuro

fazer dessa segregação
a proximidade luminosa
do poema

decantar arbustos
contra a escuridão

projeto anti-incêndio.


Roberta Tostes Daniel

SOMBRAS II




Não existe tempo entre razão e realidade
Não existe verdade entre o querer e a vontade.
Sombras ausentes mentiras coerentes.

Vazios cheios de uma esperança que vaga
a iludir sonhos que não dormem.
Mãos que afagam verdades incertas,
trazendo a essência que nunca sentiu
o aroma suave das ilusões adormecidas ,
mas que um dia irão acordar de olhos fechados,
para não verem o sorriso da noite.

Julio Cesarchiovatto Chiovatto

INVESTIMENTO




Sem eira nem beira
o poeta
ainda não publicado
entrega seus versos à poeira.


Renan Sanves   24 de agosto de 2011


vocês estão cegos graças ao temor
olhares mortos sugando-me o sangue
não serei vossa sobremesa nesta curta
temporada no inferno
eu quero que seus rostos cantem
eu quero que seus corações explodam em
línguas de fogo
meu silêncio é um galope de búfalos
meu amor cometa nômade de
riso indomável
façam seus orifícios cantarem o hino
à estrela da manhã
torres & cabanas onde foi flechado o
arco-íris
eu abandonei o passado a esperança
a memória o vazio da década de 70
sou um navio lançado ao
alto-mar das futuras
combinações

Roberto Piva