terça-feira, 22 de maio de 2018


A palavra varou a escuridão
lavrando de pesadelos os
silêncios silentes da morgue
eriçando os pelos da morte,
que habitava no casulo cadáver
da história;
da tua estória escória de sifílização.
Sonha a sombra da devassidão
a derradeira hora da libertação
na barbárie que jesuscitou.
Ela caminha a teu lado e dorme contigo
esperando para beijá-la
a palavra larva da dor da moderna
civilização ocidental

Wilson Roberto Nogueira


Mesmo com toda lama. Com toda súmula, com toda sílaba. A gente vai levando. Outono em Curitiba com sinal verde pela frente !
RCO

ELA




Ela, sonâmbula ingênua, alimentando-se dos resíduos de pão recolhidos à tarde,
em seus passos, brisas suaves de grisálida emplumada em desalinho com o  vento,
digere antídotos contra seu próprio veneno;
depois de enxugar lágrimas de acetona, de enternecer seus sonhos,
de dissecar a fauna de seus sentidos, de esmorecer em falsos desatinos,
de esquecer seus primários instintos,
depois de estar no purgatório e não se enxergar Beatriz,
depois de reverter o espólio em simples cicatriz,
escalavra em suplício os intervalos do equilíbrio.

                                                              Ricardo Pozzo

AO MEU ASSASSINO


Em homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski segue este texto do Rodrigo Madeira

AO MEU ASSASSINO

há muito equívoco nesta cidade
sobre a morte de paulo leminski.
morreu de bebida, de curitiba,
de harakiri e o diabo!

deixe-me dizer-lhe:
leminski está morto e fui eu
que o matei.
era tardinha, sete de junho
de 89, na esquina do stuart.
eu tinha apenas dez anos de idade.

abracei-o no golpe da faca
e só o largaria
depois que ele se largasse. olhou-me,
excepcionalmente, com olhos de
cachorro manso e disse: "quem é vivo
sempre desaparece".
sorriu-me como se eu morresse.
nem perguntou
por quê. sabia que aquilo
era obra de um tigre...

hoje entendo a razão
de não ter cabido um "sinto muito,
poeta!"
é a ordem natural da coisas.
leminski também matou seu touro
e voltou pra casa de mãos novas.

comigo
acontecerá o mesmo.
não fiz nem 28 anos e já espero
o golpe de meu vingador.
tenho esta impressão
de que ele virá da direita,
sabendo que sou canhoto em tudo.

morro de medo do menino que
fala sozinho, possível poeta,
da menina que penteia os cabelos
no vento (será poeta?),
do adolescente no expresso
que lê a ilíada em pé.
morro de medo, morro de medo,
mas não há jeito, é certo como o sábado.

na esquina de casa,
na saída do barbeiro,
na volta da banca,
na fila do banco,
num estacionamento
de supermercado, ele estará
a minha espera.

inevitável que seja.
em algum lugar da cidade
meu assassino está nascendo.

escute daqui a vinte anos estas palavras:
"tudo bem,
cara, eu entendo! perdoe-se como me perdoei,
ou não escreverá sequer um verso.

apenas interceda em meu favor para que eu seja
enterrado em meu bar preferido.
só isso. os poetas merecem ser emparedados
em seu boteco eletivo, assim como as aves
devem ser sepultadas no ar.

o botequineiro saberá rezar minha missa."

não há jeito,
é certo como o sábado:
tal qual as putas de outros tempos,
o poeta cora seu rosto com sangue.

o sangue de outros poetas.

                                  Rodrigo Madeira

Ferias Frustradas?



Por Elisa Tkatschuk

Uma viagem para a Europa e geralmente associada por nós, brasileiros, a expandir horizontes, aprender novas culturas e, sobretudo, conviver com gente mais rica e educada. Tida como culturalmente inteligente, Europa e, no nosso senso-comum, sinônimo de anglo-saxonismo, riqueza cultural e financeira.

Supõe-se que, em países ricos, a população tenha acesso a melhor educação do mundo e que ela seja acessivel a todos. Preparada para seis meses de aprendizado da lingua inglesa numa escola na metropole Dublin, Irlanda, eu me deparei com professores pouco qualificados que não supriam a expectativa causada pela grande quantidade de dinheiro empenhada nesses cursos de inglês. Vizinha da Inglaterra, a Irlanda ganhou o apelido de Celtic Tiger dado o grande desenvolvimento econômico ocorrido no país nos últimos dez anos.  Aqui, para que um nativo seja professor, requere-se apenas um curso de duração de um fim de semana para que ele ganhe o certificado de TEFL, ou Teaching English as a Foreign Language. Por isso, muitos professores não são professores graduados, preparados para lidar com o desafio psicológico da sala de aula. Até ai tudo bem, afinal ninguém nasce sabendo e um curso de inglês não e nenhum curso universitário. Mas, quando dinheiro entra em jogo, não há relação custo beneficio que corresponda a situação das escolas de inglês.

Além disso, e preciso tomar cuidado com a propaganda enganosa. As brochuras das escolas podem prometer cafeterias, cursos e serviços que na verdade não existem. A desinformação ou mal-informação pode colocar a pessoa que comprou o curso numa rua sem saída, uma vez que não existe nenhum recurso ou orgão público, algo como PROCON para estrangeiros, disponibilizado caso ela esteja descontente com o curso que comprou. Já e dificil o bastante viver num país que não fala a sua lingua. Tentar conseguir ajuda em outra lingua, onde a ajuda não existe e onde você não conhece as leis, pode transformar o aprendizado cultural num pesadelo e inconveniente muito grande.

Tudo isso quer dizer que se você comprou um curso de inglês de duração de seis meses, chegou no pais, percebeu que a escola nao vale o preço que voce pagou ou que voce foi enganado, voce não vai saber para quem reclamar e não tera seu dinheiro reembolsado. Assim, e preciso atenção ao comprar qualquer curso antes de viajar para outro pais. Vale a pena checar se a informação que voce recebeu e verdadeira com alguem que ja estudou na escola para qual voce esta indo. E triste que, em países que recebem milhares de poloneses, chineses, japoneses, espanhóis e estrangeiros do mundo todo diariamente, nao exista nenhum orgão de assistência a imigrantes no que concerne a leis. Mais lamentavel e que muitos europeus culturalmente e financeiramente ricos não tratam os estrangeiros com toda a melhor educação que eles receberam. 

No final das contas – literalmente - pode ser muito mais divertido e educacional andar pelas ruas de bicicleta, ler livros, aproveitar o sol de verao ate as 21 horas, conversar com nativos e estrangeiros do mundo todo no parque tomando sorvete, sem ter a consciencia pesada por um rombo na conta bancaria.



Súplica ao meu assassino




Cala-me suavemente.
Cessa o estertor violento
de minha verve lírica
em vísceras alheias,
vertendo, de tua boca lacerada,
o sumo que alimenta
o meu sentir intensamente.

Deita-me languidamente,
entre versos brancos
e a tessitura vaporosa
de silêncios enternecidos.
E acomoda em meus contornos
tua alma sinuosa

Deixa-me repousar
às margens da vertigem.
E antes que se dissipe
o êxtase de minhas veias,
e eu pereça lentamente
no torpor da tua ausência
mata-me delicadamente.

Iriene Borges



Canção que ninguém ouve



Por que se luta tanto
Por poder, saber e grana ?
Por que sua grama
É mais bacana que a minha ?
Por que não consigo falar essa língua
e a que eu falo só xinga?
Pór que não tenho olhos verdes
E voz a planar
sobre a bolsa de valores ?
Por que os amigos poetas
estão ficando
cada vez mais pobres
doentes ou mortos ?
Por que só falo com demônios
Por que escrevo esquisitices
Porque sou demais sujeita
Por que você não fala a língua
de uma pessoa só
o coração batendo só
tão baixo
que quase não se ouve .

Marília Kubota



Sempre procurou refrescar-se na chuva; vestia-se com o agasalho do mormaço e sorria suaves melodias. Deitava-se  em qualquer banco de praça e celebrava boas-vindas com os pássaros matinais. Morreu ali ; dias atrás .A cidade com seu cheiro singular demorou para perceber o saco de baratas que um dia já sonhara, vivera, amara. Lá se foi mais um dia na vida de uma sombra na cidadezinha .

Wilson Roberto Nogueira


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Assionara Souza


. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

Assionara Souza por ela mesma



Escrevo desde muito cedo. Na adolescência, já enviava textos a concursos literários e fui contemplada em alguns. Mas o primeiro livro publicado é de 2005. Leio muito e tento acompanhar a produção literária e cultural contemporânea. Minha produção é motivada tanto por experiências que vivo no meu cotidiano quanto por minha relação com outras artes. A música, por exemplo, me ajuda muito a produzir literatura.

Meus personagens são pessoas que poderiam passar despercebidas se transitassem na realidade. Gosto de enxergar luminosidades em figuras aparentemente apagadas e sem brilho. Interesso-me por anônimos e talvez eles estejam presentes em minha obra como uma forma de chamar atenção para a beleza que se revela quando ninguém está olhando.

Os bons autores me influenciam; tanto poetas quanto prosadores. Acho que a literatura é uma arte que não se deixa baratear. Se o livro é ruim ele pode até fazer um sucesso quando publicado, mas não resiste muito. Eu levo isso em consideração quando escrevo. Me inspiro em nomes como Osman Lins, Julio Cortazar, Virginia Woolf, Maguerite Duras, Wislawa Szymborska e os russos todos. São muitos.

Sobre o mercado editorial brasileiro, penso que precisa melhorar muito. As feiras e a crítica estão todas centralizadas em obras escritas por homens, não acho que seja necessário abrir cotas para mulheres, mas pelo menos dar visibilidade ao trabalho de autoras que estão produzindo muito e obras excelentes, mas que não chegam aos leitores como deveriam. Só precisavam chegar aos leitores, pois a partir daí a qualidade da obra iria garantir sua permanência; é dessa abertura que precisamos.

Assionara Souza

fonte : http://sites.uem.br/cedoc-lafep/indice-de-escritoras/letra-a/assionara-souza/assionara-por-ela-mesma

Narcisyou




Então é suficiente olhar o poema na página e pensar:
Que poema estrondoso
Que poema estúpido de louco
De onde vem essa coisa toda que se chama poema?
Ah, talvez daquela rua
Um garoto atravessando
Ele tem um lenço azul no bolso
E fica parecendo o rabo de um gato
Os cabelos esvoaçam
Ele fez isso de propósito
Não! Espera, não é daí que vem
Talvez seja mesmo desse pouco espaço para o coração
De repente ele começa a explodir demais
E ninguém consegue dormir direito
Ou por isso mesmo, dorme-se demais
A cidade sonolenta
Os três correndo feito loucos
E quando ela cansa, põe as mãos nos joelhos e sorri
Jules e Jim também é o seu filme preferido?
É o meu!
Que coincidência
Que coicidência eu ter olhado por um tempo longo
E ter pensado:
Estranho, quanto mais eu olho, mais gosto
Não era só um poema numa página?
Aliás, naquela manhã — já faz tempo
Seu rosto de criança refletido no lago
Todos prontos para partir e você ali
Nesse exato momento: o poema



 Assionara Souza


Um breve instante




Tomo um chá enquanto escrevo
O resto de tudo o mais
Dilui-se na ilusão dos dias
Ontem, por exemplo, choveu
E fez frio as horas todas em que não estivemos juntas
Pensei em ti enquanto olhava a mendiga de minha rua
Encolher-se num canto onde o vento machuca menos
Pensei no quanto amo tuas mãos de amarrar nuvens
Quando o moço viciado em crack me apresentou o papel da receita
E pediu que lhe inteirasse o dinheiro para a compra do remédio
Chorei muito e odiei o mundo
Ao ler a notícia da menina encontrada morta
Com marcas de estupro e o coração arrancado
Lembrei do quanto amo teu abraço mar em torno da ilha de minha tristeza
E meu tanto querer voou ao teu encontro
Minha alma valsou feito o violinista de Chagall
à volta de tua figura
Será que você sentiu
Esse meu beijo-pensamento, ontem às seis da tarde?
Ah, deixa-me dizer que isso não é romantismo
Não tenho ilusões de casamentos
Nem grandes festas
Em que todos os presentes esqueçam
Por algumas horas
Que chove e faz frio
Que o vento violenta a mendiga de minha rua
Que o garoto sonha com a química que o destrói
Que pelos caminhos de crianças de dez anos
Rondam homens maus que lhe arrancarão a vida, a alma e o coração
Não mais escrevo poemas, meu bem
Sentir e dizer o que sinto
É tudo o que sei e faço
Com o desejo único de que em algum momento
Meus olhos barcos avistem
Ainda que por um breve instante
Esses teus olhos horizontes
Antes que se feche a noite, o sono e o sonho




Assionara Souza

Tarot




Vou confessar, querida
Tenho isso de gostar dos loucos
Observo de longe o jeito que eles comem com os olhos
Com você foi assim
Esse esmalte vermelho sempre em dia
Esse passado colado no álbum com cantoneiras e papel vegetal
Quero a receita completa
Desde o suspense antes do desfecho da trama
O disparo, teu olho assustado pra câmera
Por trás da palavra pêssego
corre um rio espesso
Mordo a palavra pêssego
E as comportas desabam — uma cidade inteira vem abaixo
Corremos, corremos para bem longe do set de filmagens
Vida real é um cão dormindo no silêncio da tarde de um domingo



Assionara Souza

A Mulher de Lot




Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

Assionara Souza

Espelho meu




Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

Assionara Souza

Russalki

Tia Maria Afronova .

Ver todas as semanas minha mãe entorpecida e coberta de bosta naquele purgatório  acabou curando me da cicatriz de nossa vida comum.Uma dor só comparável se a senhora tivesse sido estuprada pelo avô Volódia . A senhora foi ?

Wilson Roberto Nogueira
Sofreu um acidente.Caiu diante de um carro,levantou e prosseguiu.Continuou vivo, mas algo morreu nele .A relevância por viver.Vai prosseguindo no existir até a Hora chegar. hora Que jamais foi dele ,pois pertence a D'us,ele é o barro da vontade do Criador.

Wilson Roberto Nogueira jr

sexta-feira, 11 de maio de 2018


Tempo é copyrights



Entre o ruído da brisa,
Pisa e frisa no vácuo o lapso
Do ar, ainda, qual.

Tal férreo inconsciente coletivo
Distrai meu olhar castanho mel.

Todos os cigarros Palermo
Naquele recipiente astral.

Não obstante sonho, o léxico
Adula a psique a remover o líquen
Das horas.

Bocas que se fecham ao beijo
Não logram a presença do amor.

Bocas que se abrem nadam contra
A maré dos detritos e entulhos oferecidos
Aos baixos entes na concórdia litigiosa
Do cosmos.

A insônia eletrônica da rede desnuda
Sua consciência aos quatro ventos
Da solidão e do pânico de si
E de sol
No rol da psicanálise
E do behaviorismo menos estrutural.

Reverbero jargões próprios e adjuntos
Nominais e adverbiais que levam
Indivíduos a deduzir conhecimento
Do núcleo atômico da origem da minha
Alma periférica
E metabolicamente desintoxicada.

Exacerbo o horizonte cabalar
Para versejar,
Sim versejar,
Qual mar, qual lar e par poema
Que pena serena me leva
A entoar.

As teclas desdobram e dobram
Solidões e fagulhas dos teus olhos
Sobressaem-se aos pesadelos
Da madrugada.

Nada de mais.


Anderson Carlos Maciel

O dourado do anfitrião



Nem tudo que fede é globo
Pois de mais a mais
O cais
E os tolos.

Impressionara-se o tato
E despedaça-se o arauto

Persuadidos por rótulos
Invocam a mim, meu eu
E ser.

O sarcamo é pertinente,
O vazio é recorrente,
A linguagem é simples,
E a lágrima escorre
No oráculo do segredo
De Apolo.

Enxergo sempre em patamares
E quebro os paradigmas, do clichê

Os projetos do anfitrião tocam
O solo arenoso de si e de lá
Como se acolá houvesse
Sabedoria e filosofia
E, filosofia não há.

Teria a água fria encantado
A estrebaria, ou,
A alegoria que se esvazia
Reclama o maná?

Rudemente insábios, jazem
Jazemos inumildes,

Tergiverso o caminho em metáforas
(Da redação)
A versejar teu lirismo de bronze
Do bronze dos teus.

Falaria a aporia
Aos corações inprojetáveis
Que reclamaram poesia
Às inférteis flores do amanhã.

Escorrem páginas de minha
Solidão aberta,
Em mídia viva.

E a carniça que se esquiva
É rediviva ogiva literária

Adubo para a imaginação
Florir holofotes

Que não logram o brilho
Dos olhos do meu bem.
Anderson Carlos Maciel

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nas esquinas do firmamento ( Um passo para a infinita fonte gozoza)


Anderson Carlos Maciel


Escrevo coisas bobas no papel,
Que depois edito.

Sou redação.
Se evito, se reflito, os teus olhos
Sobre o papel (tela)

Não tenho a necessidade,
De provas da identidade
Que não me darão.

Meu pai se dizia vítima do sistema
Ao prover a seriema que povos
Constataram
Em poemas
Da mais fina expressão.

Queres olhos, mãos, nuances
Humanas, seres, intelectos
Ao preço da consagração.

Minhas letras enigmáticas,
Meus rótulos que caem
No sangrento chão.

Pessoas que se abstraem
Orelhas de livros,
Mariposas alegres que se dotam
De amores coletivos
Corações

"O filósofo busca a virtude"
Dirão.

Apolo empunha a lira,
Que os teus refreiam em tenra
Combustão.

A letra, torta, não torta,
Expressa a agonia que jaz
Lenta sofreguidão

Amor, amor, amor
Quem não sentiu mais que fogo

Explique tudo ao sábio Platão.


Jorrar o esgoto dos sonhos




Não quero o sincero ou
Esmero, camafeu
Espero, severo o verso
Música, eternidade
Em tempos de sonar a vala
Que cala e ninguém fala

Nem você, nem eu.

Queres a agulha
A fagulha, o pó, o breu

Paradigmas literários são canários
Pretos, mal-do-século
Estilos incertos e sequer
Expressão.

Negar o amor com fúria
Proliferar a nostalgia cândida
Soçobrar o óleo sobre a tela

A arte em parte pão
E pela mão os dedos hábeis
Não despetalam bocetas ágeis
Mas apontam, apontam
Em vão.

Diversão do alcatrão,
Sou sábio não ermitão,
Jorro estéticas puras
Ao soar do avião.

Corta os ares o dedo em riste
Da cólera que insiste
E existe
Como existe, um livro, página
Tão!

Meu repente mais, subserviente
Alude a esta gente, ou não.

Vivo o amor do valor do amor
No horizonte da canção.

Atiro poesia aos teus degredados
Do porão.

Recrio uma cidade ao pé de si
E de sol

Eu e o Dalton.



Anderson Carlos Maciel

quarta-feira, 2 de maio de 2018


Seguranças e segurança no mundo do faz de conta

Shopping. Transeuntes. Pessoas despreocupadas. Aparentemente. Seus devaneios estão em aonde ir e no que gastar. Precioso tempo. Precioso dinheiro. Precioso tempo-dinheiro.

Vai e vem frenético. Palavras. Perfumes. Sorrisos. Sorvetes, de verão. Lojas. Presentes. Bancos. Cinemas. Eventos. Beijos. Abraços. Choros. Gritos de crianças.

Tudo esquematicamente cercado por seguranças e segurança. Lembra-me das minhas aulas de História sobre nossos antepassados. Castelos com seguranças e segurança. Sob os domínios de algum rei. O povo do bem, dentro. E o do mal, fora.

Engraçado este mimetismo. A violência, supostamente, lá e eu aqui, escrevendo esta pequena reflexão. São e salvo. São e salvo? Do quê? De quem? Da Casa Verde e do Dr. Simão Bacamarte.
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 “It must have been love”


Quantas vezes de mãos dadas passeamos naquele parque?
Foi lá que tudo começou e que também terminou.
Sem saber, pensando em você, a coincidência veio.
Restou saudades, carinho e gostinhos.
Eu aqui
Você aí.
Nós, nunca mais.
Carinho.
Saudades.
Gostinhos.

“It must have been love”
(!)
(?)
(…)

Curitiba 12.06.05 – 19:26

 Mário Auvim

Ensolessências Maranhenses.


Fico prosa quando a rosa ri
Perfuma o vento...mas o vento
embora feliz se perde e perde-se
em nada.
Mais feliz é o siri ...
antes de cair na
moqueca lá em São Luís.
Saudoso ele o siri se ri
e sua lágrima
transforma-se em cristal
donde a flor bebe
o beijo da vida.
                    Wilson Roberto Nogueira



Ser comum




O fragmento - “agora, lá fora, todo mundo é uma ilha, há milhas e milhas e milhas de qualquer lugar” - reflete bem o ser e estar de muita gente.

Já parou? Para pensar que fazemos o que nos pedem e ensinam, num ritual descompassado? Fazemos exatamente o que nossos pais, avós, bisavós fizeram. Nascemos – crescemos (tudo muito natural) – somos educados (doutrinados soa menos falso) – trabalhamos - casamos – geramos - e o ciclo se repetirá com nossos filhos. Diferentemente. Entretanto, igualzinho.

Complicado de responder, mas a pergunta que cabe aqui é simples: e é só isso? Seria um ciclo natural de evolução darwinista ou, até mesmo, criacionista? Um roteiro de filme, onde, muitas vezes, somos bandidos e mocinhos, num jogo de máscaras? Uma obrigação natural ou social? Uma regra que algum feliz ou infeliz estabeleceu? Um cara ou coroa?

Em um país repleto de injustiças sociais, metade deste processo concluído já seria mesmo um feito. E dos grandes. Digno de medalha de ouro ou de um Oscar, predeterminado pela Academia ao "melhor" filme.

Parece-me que “alguma coisa ficou pra trás”. Mas o quê? Bom se fosse só o guarda-chuva esquecido em algum banco de ônibus, logo após o cessar da chuva. Compraria outro. Fim do problema.

Plantar uma árvore. Gerar um filho. Escrever um livro. Senso comum da felicidade? Este é o problema, ser o comum. Ser só mais um José ou Maria na multidão. Estaria tudo bem? Não! Não? Ser um Neymar ou uma Gisele também não seria o bastante? Ou seria? Julgo que não é uma questão de dinheiro. Beleza. Glamour. É uma questão de saber qual o enredo. Quem é o diretor. Deus? O nome do filme. Elenco. Mocinhos. Bandidos. E onde você quer livre arbitrar.

Mario Auvim

DOIS POEMAS DE BRUNO TOLENTINO




                               por Altair de Oliveira


Por imenso gosto, apresentamos aqui estes poemas "A Corça" e "O
Monstrengo", retirados do livro "Baladas do Cárcere", do falecido
poeta carioca Bruno Tolentino, que  viveu a maior parte de sua vida
fora do Brasil e que consideramos um dos grandes poetas brasileiros da
segunda metade do século XX!
Um final de semana grandioso para vocês e uma boa leitura!

A CORÇA

"Demorou-se a crescer entre meus braços
a ninfa proverbial e peregrina
que embriaga os sentidos e alucina
os olhos assombrados como escassos

para conter a imagem que os domina.
O fantasma ideal desses abraços
prolongados e breves como a sina
da coisa moritura, os olhos baços

refletiram-no enfim, mas como a poça
em que pousa de leve a lua alta.
Foi tudo confusão. Ah, mas que força,

que graça delicada e tão estática,
que elegância de estátua tinha a corça
que fingia escapar em sobressalto!"


   ***

O MONSTRENGO

"Tive tudo o que quis, e o que não quis
também, é claro: mas ressalvo a audácia
com que arranquei à pedra da desgraça
uma felicidade de infeliz;

martelei pedra viva e dei-lhe a face
que esculpi: tive assim, não o que quis,
mas o rosto que tenho, traço a traço,
fui eu que o inventei, fui eu que o fiz!

A medusa morreu: matei-a eu
e a espécie de Perseu que fiquei sendo
não foi a ilustre morta que me deu.

Fui eu mesmo que fiz este monstrengo,
o inútil monumento é todo meu.
Eu, modelo, martelo e monumento!"


Poemas de "Bruno Tolentino", In: "Baladas do Cárcere" - Topbooks -
1994.



QUANTA DOR NOS CAUSA A INGRATIDÃO?
A INGRATIDÃO É UM PONTO DE FRAQUEZA NO CARÁTER DE ALGUÉM A QUEM SE
QUER BEM.
E VOCÊ SABE O PORQUE?
POR QUE A INGRATIDÃO SÓ DÓI QUANDO VEM DE ALGUÉM A QUEM FIZEMOS O BEM
OU QUEREMOS O BEM.
ACEITAR A INGRATIDÃO É UMA COISA DIFÍCIL, ENTENDE-LA É DISTANTE PARA
QUEM SOFRE COM ESSA DOR QUE MACHUCA.
ELA, É COMO UM CHARCO DE LODO E DE LAMA QUE INVADE A CANDURA E
SIMPLICIDADE DE UMA AMIZADE, DE UM CARINHO E UM AMOR DEVOTADO.
DE UM AMOR CONSAGRADO A ALGUÉM QUE, POR TRAIÇÃO, MANCHA COM PODRIDÃO
UM CORAÇÃO E UMA ALMA, ABRIGO DA TERNURA.
POIS É, INFELIZMENTE EXISTE A DOR.
DOR FÍSICA, EMOCIONAL...É A DOR DA INGRATIDÃO.
SENTIMENTO NEFASTO QUE DESVALORIZA O NOSSO SENTIMENTO DE VIVER,
APUNHALA O NOSSO CONVÍVIO E DEIXA SANGRANDO A FERIDA, SEM CHANCE DE
CICATRIZAÇÃO.
COMO DÓI A INGRATIDÃO!
ELA EXISTE, PORQUE EXISTE A DEVOÇÃO.
DEVOTAMOS AMIZADE, CARINHO, AFEIÇÃO, ATENÇÃO...E SOMOS TRAÍDOS EM NOME
DA FALSIDADE.
INGRATIDÃO, SENTIMENTO QUE FERE NOSSOS SENTIMENTOS, DEIXA NA BOCA O
GOSTO AMARGO DO DESPREZO, A DOR DOÍDA, DA FERIDA ABERTA,
DO SANGUE DERRAMADO...COMO DÓI...
INGRATIDÃO!


DINO COSTA


Ventania




Sou este viver cálido de contida alegria,
E nos momentos tristes, sinceramente,
Considerei esta vida algumas vezes bandida.
Mas contudo, fez-me refletir mais profundamente.

Tudo que hoje sou, é resultado de minha persistência.
Eu não me importo em ser julgada por pouco diferente,
Porque ninguém está aqui para existir só de aparências.
Por este motivo faço de tudo para viver intensamente!

Posso vir delicadamente silenciosa como uma brisa,
Ou devastadora de tudo como forte tornado,
Mas aqui em meu mundo não fique preocupado,

Pois enquanto soprar o vento de minha sina,
Serei esta sutil imprevisível ventania
Que te acalma a alma em minha moradia

Autor: Jorge Jacinto da Silva Junior


Que crime cometeu?
Envolvido pelas grades
ofereceu seu último pio.
Deixou saudades.
Mas a garotinha
tão logo o esqueceu.
Noutro dia,
outro canário,
pelo mesmo crime padeceu.
Que crime, agora, este cometeu?

Mário  Auvim

Curitiba 27.03.05 – 04:3

Mágoa




Os sonhos perderam-se com frigidez do tempo
O que era para ser apenas um começo
Morreu antes de nascer

Na calmaria veio forte vento
Emoções agitaram-se numa bandeira de trégua
Mas já era tarde
Sobrevive somente um último suspiro

O desgosto ressurge iminente face a face
Os olhos vermelhos não demonstram sentimentos
O passado por instantes dominou o presente
Todas as chances sepultaram-se em um silêncio vazio

Soluços controlados prevalecem à clareza das palavras
Pensamentos propagam-se em vãs formas fúteis
E em uma troca de olhares inúteis decidem
É hora de partir

Não há mais motivos para esperar o que se tornou fatal
O enfraquecido tudo que existia não tem mais valor
Seguem-se caminhos distintos com destino sem volta
Onde como bagagem restou somente a mágoa

Autor: Jorge Jacinto da Silva Junior


Pesadelo




Eu tinha uma galinha,
que se chamava Berlamina.
Um dia fiquei com fome
e matei minha Berlamina.
De suas penas fiz um travesseiro
e é dele meu pior pesadelo.

 Mário auvim

Curitiba 02.03.96

QUE TREMAM OS ACOMODADOS




Priscila Prado



O trema está trêmulo - dizem que este ano cai.

Querem apagá-lo do Português-Brasileiro, na forma que nos é peculiar.

Nosso trema é um tique, um truque, um toque feminino: duas pitadas de delicadeza para romper a rigidez da sílaba com a modulação sinuosa do "u".

Querem alcançar a padronização lingüística!

Esquecem que nossa diversidade é nossa riqueza. E que o sinal que nos distingue é também o que nos identifica.

Dizem que, com a supressão do trema, o idioma ficará simplificado.

Esquecem que o caminho mais fácil nem sempre é o mais belo, mais útil, ou mais agradável.

Acham que o trema é uma das "chatices" da nossa língua - mas, nunca ouvi dizer que algo se tenha tornado menos chato por se ter tornado mais monótono.

O trema são covinhas no sorriso do "u".

É ele que condimenta a lingüiça.

Torna mais repetitivas as intermitências de algo que é freqüente.

Denuncia a propriedade de movimento dos aqüíferos.

Põe gotas de suor ou lágrimas em algo que não mais se agüenta.

Empresta cor, cadência, malemolência, ginga – mesmo a palavras áridas ou graves como "argüição", "conseqüência", "qüinqüênio", "ungüento", "iniqüidade".

É o brilho par da justiça em "eqüidade".

É o vento vibrando a superfície de um lago tranqüilo: tranqüilo e vivo.

Sem o trema ficaria prejudicada a eloqüência da brasilidade em nossos gestos.

Reservo-me o direito a meus tremas – e meu computador até completa as cumeeiras do "u" se por descuido os esqueço.

Eu sou a favor da simplicidade! – mas por princípio, não por preguiça: almoçaria sem toalha na mesa domingueira – mas não sem flores.

Em outras palavras: há que simplificar – porém sem perder a "tremura" jamais!



terça-feira, 1 de maio de 2018

A Implosão da Mentira



Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegre/mente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.
(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em "Poesia Reunida" - L&PM,1999, v.2)