segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"Um escritor aos 80 anos está começando a aprender a escrever."

Obs.: Ao completar 80 anos, sobre o ofício de escrever. 

[ Jorge Amado ]

"Invocação de Orpheu"


1.

O canto é minha explicação,
mesmo que diga o que não sei.
Sou o sentido do que se transforma,
do que resiste à petrificação

e não conheço o declínio. Ó vós que ouvis
o que vos diz Orpheu, sabei que tudo
repara o tempo, salvo a morte,
mensageira do escuro, poderosa,
que põe nos corações desde o princípio
seu germe vingador. Nenhuma Fúria
se lhe compara, nenhum sustento é eterno,
mesmo se subtraído à seiva que arde
nas veias grossas do mundo. Sois mortais
e vosso sacrifício há de ser grande,
que nada nos é dado sem o cobro
dos deuses.

Ouvi, no entanto, vós, que a ilusão
buscais sempre na vã agitação:
eu vos ensino a insubmissão do amor,
a inquietude que leva até o inferno
em vida, o êxtase, o delírio. Eu vos ensino
a dor e vos ensino a cólera,
que ela vos salve de vosso destino

menor e implacável. E vos ensino a glória.


De Marly Oliveira

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.


De Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)



ESCRITA


ESCRITA,
é sempre você quem me resgata
do limiar do iminente nada
que borbulha
em camadas de pensamentos perigosos
e palavras,
cepas resistentes à droga da vida.
E no peito, que quase não respira,
(sobre o qual de bom grado recebo
o anel que aperta)
ouvir florescer
o buquê de promessas.
Assim, rainha
--- tão descalça quanto um rei de carnaval ---
sob os pés os paetês de brilho fácil
se extinguem ao passo
que a cabeça-balão-de-parada
a cada meneio exibe

o sorriso do enforcado.


De Claudia Roquette-Pinto

outra coisa



rastro de quase
resto de pouco
coisa que se sabe coisa
coisa de louco
coisa de gente
coisa que se torna ausente
coisa que sente só e tão somente
coisa alguma
amor talvez
quem sabe?
rastro de astro que me atravessa
estrela que me marca a testa
besta que se sabe bela
que se sabe ela
toda
fera
ao tempo que me rasga em mil
partes que se somam nulas
lembranças de um céu anil


rodrigo mebs >>>
«A literatura é o domínio do instável, miragem de eternidade que paira sobre a corrente dos anos e dos séculos. Um absoluto à escala humana: fica e passa».


J. Prado Coelho

Onde a Felicidade se Esconde



Passaram a minha frente, amigos e amores na mesma velocidade,
E como em um piscar de olhos, o presente mudou num estrondo!
E aquela poeira desta estrada que cegava minhas verdades,
Só me serviram para provar que este caminho é sem retorno.

Não vejo argumentos aceitáveis mesmo com isso de pregar o cansaço.
A necessidade persiste em ser com seus sonhos honesto e conservador.
Zelar para que seus propósitos lhe conduzam sem riscos a um espaço,
Entre o equilíbrio transparente do que você merece e no que é merecedor.

Mas acalme-se! Porque é normal toda incerteza gerar uma incansável busca,
E dentre inúmeros casos iludidos, razões inconstantes e falsos motivos,
Não se venda ao tudo que pode ser um bandido de seu valioso tempo.

Brinque com responsabilidade a vida num espírito de uma criança,
E descubra o sentir da brisa que anima a alma neste entusiasmo.
Faça o que gosta! Que a felicidade se esconde aonde sopra este vento.


Autor: Jorge Jacinto da Silva Junior

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DOSE Nº. 2


para olímpia e enedino
meus pais


era uma vez um menino
menino do interior
amamentado com carinho
engatinhava na terra
solto petas ruas
tomava banho de chuva
na bica do sobrado velho
roubava fruta na feira
cocada na barraca do primo

era uma vez um menino
menino do interior
foi crescendo

livro na pasta
bola no campinho
expulso de escotas
andava pelos pastos
atrás de jumentas
amava também as meninas
o corpo chorava envolvido
entre o conselho e o castigo
severo dos velhos pais

era uma vez um menino
adolescente do interior
foi pensando

conheceu josé de alencar
beijou os lábios de iracema
viu jorge amado
amou gabriela
ouviu o cavaleiro da esperança
chorou com os capitães da areia
riu com monteiro lobato
passeou com érico veríssimo
olhando os lírios dos campos
sonhou com machado de assis
idolatrou castro alves
mordeu a isca da poesia

era uma vez um adolescente
adolescente do interior
foi pensando
andou com hermann hesse
vestido como sidarta
mergulhou nas florestas
em nascentes de rios límpidos
bebeu com Nirvana
ultrapassou os muros dos tempos
percorreu ruas das sociedades
envolveu-se com marx
papeou sobre as esquinas
visando tomeá-las
chocou-se em vielas

o peso da liberdade
fez na sua mente moradia
filosofou nos bares da vida
buscando sabedoria
afogou-se
em oceanos de frustrações
embarcações sem lemes
perdido entre perdidos
ironicamente anarquizado
viveu no cômodo mal-bom•viver
sentindo no luxo o lixo
sentindo no lixo o luxo
virou geléia geral
sob as fantasias dos líderes
serenamente evaporou
queria vida

era uma vez um homem
homem do mundo
foi vivendo

sem medo sem ódio
alto como o céu
cheio como a esperança
perpetuou-se na fortaleza
infinita da poesia



Milton Gama



"paisagem sináptica"

Adriano Nunes


funde-se à vida
o veludo do Olvido...
as horas se jogam
à existência e tudo é
corrosão, ausência,
aquela equação em branco,
aquela busca impossível,
aquele sonho de grafite.

então, desfeito
o instante,
restaria
à paisagem o pouso
sináptico de algo além,
um verso.
sim, um verso:
a prova concreta
da imortalidade

da alegria!


Relíquia



Era de minha mãe: é um pobre xale,
que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-la como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.


António Patrício

Oráculo das mãos

Eliane Triska       


Voltei a orar num céu de muitas sendas,
E ascender no solar do coração,
Um mar com rosas brancas de oferendas,
O sol líquido da imaginação.

O horizonte ancestral, veio das terras,
Saliva no meu chão, beiço das hortas.
Que grande boca no engolir das eras,
Me joga à vida o peso das encostas.

Minhas mãos vassoureiras limpam cascas,
Nas cabeceiras mornas da memória,
Por águas fundas livres das borrascas.

A sós, viverão nuas como lanças,
E brincarão no céu a absurda história,
Como unidas assim, foram crianças!


Canoas/RS

Delenda Cartágo ou os Romanos são Filhos das Pûnicas



O Têmpora, o Mores .

( O temporal não demora

ou

Os romanos são uns filhos das púnicas )

O Cônsul Marcus Censorinus nada tinha de humanitário ou pacifista, contudo, por intuição, sabia usar “ da psicologia” quando tratava com os seus adversários.

Quando este habilidoso guerreiro-diplomata se apresenta diante de Cartago, a grande cidade já era conhecida, “ no mundinho” daqueles tempos, como a mais rica capital de então.

Nela, as artes e o comércio já eram florescentes, assim como um tipo humano conhecido como “ pacifista”.

Marcius, “ bom de papo”, após as honras de estilo, se quis fazer impressionar junto aos representantes do Colegiado Cartaginez e, em seu discurso, realçou os inúmeros benefícios decorrentes de um estado de paz e as conseqüências ( e aqui ele caprichou no empostamento vocal) determinadas por um estado de guerra e, habilmente ,pois era muito sutil, conduziu a sua “falação”, dizendo logo “ de cara “.

“Livrez-moi vos armes et Rome se chargerá de vous proteger”

Claro que o “qüera” não “ hablava” francês, mas esta foi a mais próxima versão que eu consegui da realidade histórica e que, traduzindo-se livremente , quer dizer mais ou menos isto:

“O!, meus chapas..

.Entreguem-nos os seus exércitos e eu lhes asseguro que Roma se encarregará das garantias necessárias ao pleno desenvolvimento do Estado Cartaginês.

“ Tá na cara” que houve um entreolhamento geral, após o que a unanimidade no atendimento ao sugerido chegou às raias da loucura....

Parece que apenas houve um voto contra...

O voto de um ínclito Senador ( ói eles aí ....) que confundiu raias da loucura com a Raia é uma loucura , e que temeroso de uma sanção conjugal, tomou a posição que tomou.

Contudo, sentindo que o terreno lhe era propício, Marcius já se assanha e sugere mais,usando a conhecida tática de” cerca Lourenço ...” e, sem mais delongas retoma o discurso.

Gente !!! E estas galeras !!! Para mim elas “já eram...”

Diante da nossa tecnologia de ponta, elas não são mais que um aparato , cuja manutenção lhes deve estar a custar “ os olhos da cara “... e , cá p”ra nós... , eu quero considerá-las mais do obsoletas...

Sem querer ferir suscetibilidades, eu me atreveria a dizer que são “ é mesmo inúteis" .

Repi te o tó . ...Inúteis....de vez que, por meu intermédio, Roma se está propondo defendê-los contra qualquer tipo de inimigo...., no atacado ou no varejo...

E, mais uma vez , todos se entreolharam (inclusive o mais entreolhador foi o Senador Claudius... o da Raia ) e neste entreolhamento, houve alguns entreolhares com aparência inteligente...,mas ao final todos aquiesceram, todos concordaram, obedecendo “ ao estímulo”.

Aí , o Censorinus , “ que era um morde-assopra de lascar”,meio espantado com “ tanta panaquice”, arremata desassombradamente:

A perspicácia dos nobres componentes deste Egrégio Colegiado; a visão de futuro que lhes está alicerçando as decisões, que tornam histórico, este momento, me autoriza – posto que me sinto diante de homens maiúsculos – a lhes fazer a ponderação final.

E , em seguida, sapeca, sem maiores meneios , o arremate.

Eu atrever-me-ia lembrá-los ( eu acho que devia ser lembrar-vos, mas p”ra este tipo de gente ...)que a aquiescência às sugestões de que sou portador pode resultar numa revolta intestina ....

O que o Cônsul quis dizer foi... Vai dar merda... .

Dest’arte teremos que ocupar Cartago e, é evidente que ,se houver reação por parte da plebe ignara, as medidas poderão chegar a repressão armada, com as conseqüências que se podem imaginar..

E concluiu ...

Mas Roma, ciosa dos seus intereses e agradecida pela louvável compreensão dos dignos representantes, e , como uma espécie de “ressarcimento de preterição “, no afã de protegê-los contra manifestações de barbárie, quer permitir que os nobres senhores, seus familiares e escravos possam, com a proteção de nossas falanges, se estabelecer em qualquer lugar que lhes pareça seguro, absolutamente seguro, desde que seja no deserto e que esteja distante , no mínimo uns quatrocentos quilômetros da orla marítima.

Aí então, e só aí.... os nobres senhores de Cartago perceberam a dura perspectiva e tentaram esboçar , aqui e ali , alguma reação...., mas já era muito tarde...,pois o MST não estava...... ainda..... estruturado para "defender" e as FFAA cartaginesas.. profundamente desalentadas faziam bicos lá na Assíria.

Cartago foi feita prisioneira, incendiada com todos os seus habitantes e desapareceu da história.

“ Cette aventure, mon ami , bien qu’un peu anciene, contient cepandant d’asses modernes enseigementes “

Aecio Kauffmann para o Grupo Farroupilha.




Naldo, por que a poesia?

Naldo Velho     


Porque a poesia humaniza a nossa trajetória, aumentando nossa percepção, depurando nossa sensibilidade e desenvolvendo a nossa capacidade de reflexão. E são estas coisas que nos possibilitam vivenciar infinitos matizes para uma mesma cor e nos permite saborear estas nuances.

A poesia abre para o ser humano a existência em toda a sua amplitude e o faz capaz de viajar através do imaginário das coisas que ainda não existem, fazendo com que seja possível trazê-las a realidade. A poesia transforma as pessoas, levando-as a evolução.

E é através da poesia que aprendemos a perceber o mundo pela ótica do coletivo, fazendo com que os nossos pensamentos consigam viajar livres do aprisionamento dos nossos limitados umbigos, fazendo-os promíscuos de muitos umbigos, tornando-nos mais receptivos ao diferente: brancos, negros, amarelos, índios, mulatos, mestiços de todas as espécies; homens e mulheres de qualquer opção sexual que possa existir, e não importa o credo, ou a convicção política; gordos, magros, baixos, altos, qualquer que seja a forma que o ser humano possa se apresentar, na realidade: passageiros de um mesmo barco, com defeitos e qualidades, com virtudes e fraquezas, seres semelhantes em suas infinitas possibilidades.

Se a poesia no mundo moderno fosse mais fomentada, e o meu sonho é que tal coisa aconteça a partir dos primeiros passos das pessoas, passando por todos os níveis de educação, sejam eles formais ou não; o nosso convívio seria fundamentado na compreensão e por conseqüência, bem mais fraterno, o que certamente diminuiria sensivelmente a discriminação, o constrangimento imposto ao diferente e a insensibilidade à injustiça social que hoje existe.

Por isto a poesia! Porque a cada poema eu me reinvento, eu me aprimoro, eu me transformo numa pessoa melhor, aumentando a minha capacidade de compreender.


ESPÍRITO POR UM DAIMON

Alceu Natali      


O espírito cábula que não se manifesta nem a cada lua azul.

Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea.

Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra

que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.

O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul.

Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado.

Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra,

esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.

O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul.

Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília.

Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo.

Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide.

Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar.

Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra.

Desaparece como o fogo da vela que se extingue com o aroma de incenso que esteriliza o ar.



Os mortos

(Ferreira Gullar)

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça



De Muitas Vozes (1999)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017


E se não é simples ser um louco sensato, um arredio controlado, um alucinado bem resolvido; também não são tão complicadas as soluções. Basta enxergar nas banalidades do mundo alguma novidade, e nas novidades, justas formas de distrações:

Nos jornais, buscam-se revoltas, e a partir delas o certificado de que a loucura foi confundida com fraqueza. Nos livros, enredos, justificativas e motivações para o próprio martírio. Nos cadernos e teclados, desprendimento: cada palavra, um soluço; cada nova razão incorporada, novas manifestações de virtude. E os lampejos de inspiração nos lançam nos braços de novas concepções de vida e de mundo. Por mais que seja inútil a postura.

E na busca pelo estancar dos poréns, a criatividade aplicada pode ser usada não só como forma de deslumbramento, mas de salvação:

Para evitar o sufocamento filosófico, morte às ideologias! Para suportar as cobranças do trabalho, a noção de cotidiano como um grande fingimento; e a participação na farsa como afronta à realidade. Para contornar a força dos revertérios, o completo domínio das variações de humor. Suprimindo os soluços desesperados, a imaginação se torna a diversão do espírito.

Por fim, são ainda necessários os resgates e contornos – já que o excesso é humano, assim como a loucura em si:

Para nos resgatar das entregas, a compreensão dos ressentimentos terrenos. Para estancar com o desespero diante da realidade, a certeza de que o presente é incessantemente mutante. Para romper com dos sonhos inúteis, a busca por necessidades palpáveis. Para encerrar com os pesadelos, a vontade de vencer.

E para aceitar a certeza da morte, se distrair com as desventuras da vida.

Rejane Marques            


  O avesso do espelho: Soluções                                        redutonegativo.blogspot.com


Arremate ponto com

Revelo que não,
Ou
Severo, noites

Em sua, em si,
Em tais finais,
Reli e li e vi e mais
Linguística plena
Serena
Expressaria, reais

Pois, tomos, ou consumo
Ou um rumo
Ou um plano, forma ou lei

Gentes abandonadas
Acariciadas pelas letras
Mergulham em nossos
Universos interiores

O olho que vê
Veria, liberdade

Seguiria sem ódio
Ou piedade, incons-
Cientemente

Mantém a obra intacta

Eu tão eu
Estranho ou história
Ou glória
Nos olhos de quem lê

Cientista da vaidade
Léxico
Simplicidade,
Mensagem
Viagem à fonte
De ontem a hoje

Espera chorar,
Espera porquê?

Letras são letras
Letras

A catarse é método
O sonho é o teto
A lua não te conhece
E o sol não quer te ver

Nasça de novo, surja
Diante dos teus olhos
Diante do espelho

Impere, verbo, imperativo
Clichê
E é clichê.

O mercado de sábios

Laçar metáforas ao sul
Para libertar suas asas
Ao norte

Desprender a língua.

A Argentina fica ao lado,
No cantinho de sempre.

Os moços e as moças
E seus rótulos
Suas amarras
Suas cavernas
Suas pernas

Seus casebres
Seus casacos
Seus riachos

Seus corações palpitantes
Diante do poder
Midiático

Eu, enfático,
Eu errático ou estático
Na tela da TV.

Há muitos sóis
Para poucos sistemas
Habitados por inteligências

Genuínas.


ACM

Movimento final



Coubéssemos numa sonata,

nossos risos e alegros

trariam o frio das bocas

às dores que, ao fim, se voltem,

perdidas no tempus mortem.

Sobrem poucas!



Coubéssemos numa sonata,

nossos lençóis, encenariam o drama

da causa humana ao mar bruto,

pesados de velhice,

que, se de nós tudo disse,

venha a luto!



Coubéssemos numa sonata,

cada um dia do eterno

seria o menos do nada,

e, de nós dois,

o mais velho!


 Eliane Triska      ,Canoas, RS


Civilização



Derribados do além
Soterrados em corrupção
Abobados em identidades
Subjetividades políticas
Raquíticas em termos
De elucidação
Ilustrados pelo sangue
E não
Pela razão
Reverberam escárnio
Torcidas organizadas
De si mesmos
Metaforizados em lutas
Revoluções
Arremedos, ilusões,
Propagam o ódio em
Nome do intelecto
Contraposto à religião
Em pressuposta estrutura
Racional.

Persuadidos que estão
De que levam a verdade
Reivindicam olhos aos
Seus
Que não enxergam

As manadas passam
Como rios históricos

Indistinta civilização
Porca.

ACM
O meu verso tem a paz e o canhão
Que carrego para o campo de batalha,
Quando aperto o gatilho ele não falha,
Lança flores pra toda multidão.
É o guerreiro da paz e união,
E destemido na força inofensiva.
Ao invés de refrega ele incentiva,
Inimigos, sentarem pra uma ceia.
POIS A RÍMA QUE "TRAGO" EM MINHA VEIA,
FUI BUSCAR NAS FONTES DE PATATIVA.

Assis Coimbra. Abraços "CORDELADOS”


Se quiserem seguir o blog dos NARRADORES DE CORDEL, ficarei agradecido 

narradoresdecordel.blogspot.com/

terça-feira, 14 de novembro de 2017

a semântica da rosa

o signo rosa significa a rosa
a rosa em si mora no mundo
e é no fundo a flor da metaflora
que só floresce nos jardins suspensos
de Platão

(assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa)

em suma, cada signo é uma ponte
entre a palavra, seu império
e cada rosa sempre indecifrada
em seu mistério




 De Geraldo Carneiro

Entre


Entre motores
e ruídos
(pio
dissonante

e seco
estilhaço)
o voo do pássaro
cria

uma nova hipótese
de espaço




 Do  Régis Bonvicino


Ícaro


O sol
que cega
a manhã
desperta
a derrota
do meu voo




 De Fernando Moreira Salles, 

Os mapas de ter cavalgado


contaram nas vilas do tempo
que alguém procurava um lugar
disseram alguns ser pasárgada
verdade é que vinha de lá

sentado num banco de pedra
com barbas de longa brancura
um homem de pés calejados
voltou-se a si mesmo em murmúrio

morreu-me o cavalo de triste
não sei se alguém viu capangala
mas vivos eu vejo em meu corpo
os mapas de ter cavalgado



 De Mauricio Matos



PLANTIO



Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome

cava.



Mário Chamie




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

RESPONSO 1


a cor roxa dos cuidados
bate à porta para
anunciar quaresmas

a cor roxa dos cuidados
fala pela boca
álgida do medo

(o medo é sonâmbulo como os rios...)

a cor roxa dos cuidados
recita o dies irae
e os cães ladram

a cor roxa dos cuidados
está sempre a nos dizer
- Cuidado!


Julio Saraiva      

                

Esvai-se em fumo a alma


Desprende-se do corpo
morto
o vulto
que alma tem por nome.
Parte para parte incerta.
E naquela câmara ardente,
já deserta,
acaba o culto à morte
da viúva, que entre lágrimas
se comove.

Esse vulto que de si
escuro é
se desprende do corpo
e sobre ele paira desolado
por partir.

Sem espaço sem tempo nem distância
vê-se
na alma iluminar-se o vulto
que do corpo acaba de sair.
E crê-se
irredutível a outro estado

onde fica para sempre iluminado.


Alvaro Giesta   

Igual ao sabor



A despeito,
A direito,
Ao vento

Memoráveis são
Os razoáveis
Dialetos
Sem tom.

Ou

Escreve,
Escreve
E não fica bom.

Eu
E Eu
Um só coração.

Fluo, oceano de mim
Em direção
Ao redemoinho da emoção

Que não partilha meu pão

Revelo que
Sem elo com o chão
Que me acolhe
Santuário
Refratário à ilusão.

Clichês em cascata
Aporia
E mais valia
Em alas de fantasia
Às quais minha poesia
Elucubra som.

Ler, leriam
Ou rebobinariam
Ao sal de si
Porfiam
E se vão.

Choram, não choram
Lágrimas que lágrimas
São

Ademais sigo
Abrigo do sol

Versejaria águas frias
Em refratária vasão

Não fosse a pradaria
As copas cintiladas
De aérea contemplação

Em estradas e estradas
Eleva-se a fiel contrução
Seus grisalhos léxicos
Estruturam ainda
Comunicação.

Ideais e ideais de revolução.
Reverbera-se a cantilena
De heleno projeto
Em teto de galhardias
Vazias

Que choram
Coram, negam, pregam
Desfazem-se em
Contradição.

Uma luz nos emula
Qual luta pretérita
Qual viés de elegia
Em vias de extinção.

Voo os universos sem
Natural exitação,
Minhas mãos clichês
Meus pés chavão
Ainda.

Qual inércia finda
Eleva a pátria
Pelos solos do valor
Virtude do labor

Pelo ralo
Do rádio e da televisão.

Há séculos underground
Vertente

Remodela-se o capitalismo
Vai e vem o modismo
Ganha-se e se perde
A noção.

Em teus cabelos
Um lustro dos meus cuidados
Extinguira dor
Melhor
Que panaceias
Carnavais, programas, ou
Ideais

De distinção.

ACM


Cinzas


Na mesa o cinzeiro. Ele guarda restos de lembranças. Cinzas de um passado. Agora jaz imóvel sobre a mesa. Acendo memórias no escuro, vejo faíscas acesas, recuso olhar. Retenho sentimentos. Na mesa o cinzeiro é uma imagem vazia no silêncio. Os anos passaram, e o cinzeiro sobreviveu. Tudo se resume em incendiar a vida, para depois jogar as cinzas, e não guardá-las.

Rose Dias

rose-rasgandooverbo.blogspot.com

                

Mar barroco



Pântano de alface açoita o credo
do padre de jardins de Zohar
Meu olho de licorne irrompe
...a lua de azeite e mel hibernante
Oceanamente a poesia é o universo
do avesso do azeviche do sonho
Penso em jaspe e dou risada prata
O fino figo de gasolina deturpa
o reflexo da enxada de veludo
Na vagem da vida a viagem incide
nas unhas de nuvens urgentes
nas bocas de soda e seda, a sede
de mármore sulca a poesia


MARCOS DE PÁDUA ANDRADE

Silêncio Sepulcral



Ao ódio induzido, ninguém viu
de fome e sede, trinta mil
bebês morrerem, logo ali.


(25/08/2011 - Ana Paim)

Varredor das cinzas



Sou um simples
e humilde
gari do amor
Varro em cada guia
esperança e dor
Varro todos
os maus tratos
desacatos, boatos
e até uma flor
que foi jogada
seja lá
por quem for
Talvez
por um desfeito amor
ao som de um tambor
Varro alguns sorrisos
entre lágrimas
e até suor
Sigo cantando
o meu conflito
em meu lá menor
Varro outros conflitos
já em mi maior
Junto todos os pedaços
de arlequim e palhaços
Fantasias de duques
em estilhaços
Varro esta vida
em completa solidão
nesta loucura incontida
entre boemia e violão
Vou varrendo
como varro meu coração
Sim, é assim
que a vida
segue em frente
nada é diferente
amanhã é quinta
e de repente
o sol já surge
vindo do oriente
Sim, é assim
como o carinho meu
que foi jogado
na sarjeta
ao breu
ou dentro
de um carrinho
de algum outro gari
como eu
que hoje
faz parte de ti
seguindo e varrendo
todo o sonho meu
Varro por ironia
Varro, também
a minha dor
e o seu amor
seja lá como for
Outros carnavais virão
talvez me transforme
de gari em barão
mas até lá
solidão
solidão
solidão

GilbertoMaha®©


Delfos



Serial, cereal
Ou,
No carnaval, no Natal.
Em qualquer parte,

Que me encontre
A mim mesmo,
Lexical.

Ou
Daria margem ao
Nonsense

Se, poema, se
Helena,
Se querela pequena
Não
Luto, nem, vida

Algo de transição.
ACM


AFINIDADES



Eras a flor... de todas a mais bela!
A poetisa sem sorte e em tua dor,
Vivestes toda uma vida sem amor.
Triste e bela, teu nome era Florbela!

Mostrastes ao mundo a tua solidão.
Tua mágoa, em lágrimas naufragava.
Teus sonetos, com lirismo encantava.
Só tu sabias como sofria teu coração.

Em tua alma de pássaro encantado,
Vejo muito do que sinto, me espanta
Coisas minhas escritas em tuas linhas.

O amor por ti almejado e sonhado
Em versos declamado me encanta.
- Que afinidades comigo tu tinhas!

©Verluci Almeida
08-04-2007

Direitos Autorais protegidos
pela Lei 9.610 de 19/02/98


Epiderme



Dentro existe,
Deleite triste.

Dá dó, dias de
Doidos

Donde epiderme
Desata a chorar
Em exposição
De si.

Ademais doam
Desertos da
Dual deselegância

Em amar o amor
Das deidades

Dias a fio
Ou chavão que
Não
Utilizaram

Devo devanear
Sim,
Ou desembaraçar
A partir de mim

Desmerecer teu fim
Ou melhorar
O teu

Déficit de atenção.

ACM

BUARQUEANDO



Eu te amo apesar de você
No Cotidiano fora de hora
Bebendo vinho no cálice afastado

Quero olhos nos olhos nessa roda viva
Quero a Construção do que será
Quero acalanto, a volta do malandro

O meu amor, Meu caro amigo,
Ficou na tatuagem
Ficou na foto da capa
E foi com João e Maria
Ver a Banda passar

A moça do sonho
As mulheres de Atenas
A mais bonita
Vai passar nas vitrines
E cada clarão é um novo dia
Um novo dia de tanto amar

Danço Fado tropical
com a ostra e o vento
Sou a noiva da cidade
Mulher de cada porto
Com seu único vestido
Cada dia mais curto

Vivo assim
Esse amor de folhetim
Lendo almanaque de futuros amantes
Nessa louca embarcação

Te peço pra deixar em paz meu coração
Pote de mágoa
Abandono
Gota d’agua!


Larissa Fadel

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

OFÍCIO DE QUIXOTES


Aos que vendem a fome
e os malabares
nos ombros de um amigo;
às cinderelas de rua
sem cristais nos pés;
aos que beiram abismos
com intenção de voo
a cada dia;
aos suicidas
pendurados na dor
nó na garganta.
Aos órfãos de vida
eu deixo o fogo, expelido
da garganta dos moinhos
pra que confundam a poesia
com mil dragões adestrados.


                Wender Montenegro  

As quatro estações




A Joia Sagrada esperava o Sol através de sua janela - Sentia-se a mais sagrada de todas. Aquela presença era oportuna, eles encontravam-se e se perguntavam que luzes seriam aquelas de tantas cores, num só universo O universo do amor. Ao passar dos dias a luz de sua vida ansiava pela primavera. Era verão: Enquanto isso o Sol brilhava pelos cantos do mundo, o Sol aparecia aos encontros permanentes permeados de felicidade em perfeita união. No mesmo verão a Joia Sagrada já não mais seria a única: Muitas histórias eram contadas, muito se ouvia. Outras Joias esperavam de suas janelas com a certeza de que o mesmo Sol viria lhes beijar os corpos com profunda emoção. Antes do outono chegar surgiu inesperadamente a " Luz da minha vida" e ele se foi O último amor da Joia Sagrada já não mostrava o seu brilho ao olhar através da janela tão cheia de anseio com o mesmo fulgor que a invadia com brilho seu sorriso o seu coração. Em sua morada ele não mais foi visto e desacreditado pela chegada do Outono, sentiu que poderia viver melhor em outro lugar. "Vendeu os seus sonhos ou os trocou por outros." A Joia Sagrada nunca mais brilhou como antes. Quantos sonhos o Sol, que sempre procura mais alguém, talvez a Lua ou Afrodite buscou ou em seguida iria buscar? Vieram as manhãs primaveris, já não mais tão belas e a Joia Sagrada se transformou em uma linda rosa com ar de despedida que encanta com o brilho da verdade, certa de que aquele Sol não lhe aquece no próximo inverno. Ainda chora, com certeza e saudades daquele tempo que jamais voltará. Despede-se daquele amor, o último de sua vida e parte também, para algum lugar em despedida.


( Neyde Noronha )

A ÚLTIMA VEZ COM MEU PAI


Foi no mês de agosto. Mês do meu nascimento.
Vou retornando e meus passos ressoam pelas escadas da estação do trem com destino a Santo Amaro.
Irmã Luísa (irmã dela) e a usurpadora me esperavam
As duas com suas fisionomias estranhas e vestimentas que iam até o chão conversavam alguma coisa
Eu no outro banco, ora olhava para elas, tentando a todo custo manter um ar amigável, ora olhava pela janela para o céu azul cheio de nuvens brancas, como agora de manhã
Ora abaixava a cabeça e dizia: “Meu Deus me livra desse horror”
Ia para o hospital Vida, visitar um homem que morria
Por que tinha que ser eu?
Porque somente eu poderia fazer desse momento uma dádiva
Não podia falar sequer pensar o que achava dessa aventureira
Dois anos já se passaram em que eu estive em seu quarto deitada ao seu lado
Pela última vez, sentindo sua respiração enfraquecendo passo a passo, seu corpo apodrecendo
Não sei se dormi, não sei se chorei
Lembro que nos meus olhos havia uma enorme claridade e eu sentia falta da escuridão
Quando começou o dia a ambulância chegou e quatro homens um de cada lado carregaram meu pai estirado em um lençol branco
Foi nesse dia que uma lâmina fina e penetrante entrou em minhas costas
Amanhecia quando eles passaram com seu corpo próximo ao meu naquela sala cheia de espelhos
O reflexo de todos eles apontava para os braços e as costas daquele enfermo enormes feridas
Segurei a fala, segurei o grito
E me voltei para olhar por um instante nas dezenas de espelhos pregados por toda sala enquanto perguntava: “Quem sou?”
Foi no pronto socorro a última vez que o vi com vida
E ele olhou para minha direção, foi um olhar tão meigo, o único que ele me deu em toda minha vida
E eu não aguente e chorei
Não devia
Estou sempre fazendo coisas erradas na hora errada
Ele não podia saber que estava partindo e que eu estava sofrendo
Eu tinha que ter dito: “Você vai ficar bem. Eu vou te levar pra casa. Para minha casa”
Não é assim que se diz?
Mas eu não disse nada. Só silêncio e lágrimas
E fui obrigada a acompanhar aquelas duas malucas para não perder o meu pai
Na UTI o médico perguntou quem estava cuidando daquele enfermo cheio de escaras e com os dois pulmões completamente destruídos
A usurpadora não soube responder e como sempre entrou em transe
O que fazer? O que poderia fazer?
Naquele dia andei a esmo pelas travessas da Avenida Nossa senhora do Sabará
Como seria o amanhã? O daqui a pouco?
Estava sozinha quando o médico disse: “Seu pai está mal em virtude de assepsias que afetou a área cardíaca, respiratória, renal e metabólica. Com enormes secreções calcataneas e escaras no cotovelo, nos braços e nas costas. Havia dado entrada no hospital já com essa infecção generalizada. Está totalmente dependente de aparelhos. A pressão está muito baixa, mesmo a custa de drogas. Tudo se espalhou completamente. Ocorrerá o óbito”
Foi isso que ele disse.
Não mediu as palavras indesejadas, muito menos eu disse: Pare!
Fitava-o nos olhos, estava tão passada, mas ainda deu pra sentir nas costas uma lâmina fina e pontiaguda penetrando fundo...
Caminhei em direção ao morto pela última vez
Despedi-me com um último olhar
E desci uma escada escura, tateando o meu caminho...
Atrás de mim, porém de quando em quando escuto
A voz do meu pai me acordando
Relembrando coisas da minha infância

Marcia Lailin       

DOIS POEMAS AOS SOMALIS

I-
sob migalhas de grão
mesa na Somália
a sete palmos do chão

II-
corvos regem a canção
a fome cava fundo
crianças nas covas
e o caviar em ovas
aos canalhas de plantão




 Evandro Souza Gomes

CAMINHADA



Como o poeta sofre
Faz o caminho in-verso

para chegar na estrofe

Alvaro Posselt   

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Simplicidade acadêmica.




A palavra,
Palatável, palácio de estradas,

Parecia engendrar
Meados de mãos
Ou
Comer o pão

Já que teus olhos
Dizem não

E teu coração,
Projeta-me em direção
Ao alto de mim.

Serei livre, navegarei
Encliclopédias
Do sentido pragmático
De ser o ser
Sem sal.

Sopa de letrinhas
Sem cadência passam
Por minha ciência

Flertam dúvidas,
Borbulham terabytes
Na rede alcunhada
Solidão.

Na estética conservadora
Do livro
Acordaram "layouts"
Do futuro.

E praguejam, cíclicos
Contra o desconhecido amanhã.

Profissão remendar destinos
Com sentidos de dores
De ego.

Desejo que todos os finais
Sejam felizes

E que milhões de narizes
Deixem seus revides

E beijem o beijo semibreve
Da real conotação
Dos milhões de caracteres

De um simples
Eu te amo.

ACM

TRANSITÓRIO


Meu encontro já era
A lua dessa noite
não ficou à minha espera


 Alvaro Posselt  



A MORTE DA POESIA


A arcaica poesia agonizando,
Aos poucos transformada no vazio.
E quando, por loucura, insânia, eu crio
Castelo de ilusões; vou desabando.

Não tendo mais certeza; nem sei quando
Virá o tão querido e amado estio,
E o canto deste amante tão vadio,
Em outro coração, vai ecoando...

Inspiração divina? Morte às Musas,
Perdidas vão sem rumo, tão confusas,
Gerando estes disformes caricatos.

Outrora a bela Ninfa, agora o vago,
O mundo dominado por um Mago,
Servindo sanduíche em falsos pratos.



 Marcos Loures  

O Deserto e o Homem.



O deserto é tão necessário para alertar o homem, que a terra morre e com a morte da terra o homem não come, e sem alimento a vida na terra some. O mar é tão grande, mas já foi bem maior, mar e deserto talvez tenham sido um só, o sal no deserto a areia no mar, talvez pra mostrar que a pedra também vira pó. As ondas do mar e as dunas de areia, o balanço das velas e o tranco do camelo, navegar é preciso viver já nem tanto, para o homem que reza num templo infinito e cozinha seu pão no calor da areia.
O deserto prossegue a iludir a visão, mostrando o que tinha antes da destruição, água cristalina em cada miragem, antiga paisagem na imensidão. O mar revoltado com tanto descaso, como a água de um vaso esquecido ao relento.
O vento que agita no mar a procela, é o mesmo que cria a tempestade de areia, a indiferença no olhar do camelo, como o necessário deserto onde foi maré cheia.
O homem é o pássaro que destrói o a árvore onde está seu ninho, como o vírus que mata o seu hospedeiro, o deserto é a febre que alerta o doente, o pavio da bomba prestes a explodir, a sombra do lobo que assombra o caminho, quem sabe o homem ao fazer o deserto, está tentando criar o camelo marinho. Antes da terra morrerá o homem, antes da árvore cairá o ninho.


J. Norinaldo.


zlmaxpoesia.blogspot.com