domingo, 30 de setembro de 2018


Nada es verdad nada es mentira todo depende del cristal con que se mira...
NK




Hoje tenho uma reunião com cara de antônimo... Qual é o antônimo de reunião? Uma re-união para avisar que vamos nos des-reunir e fechar portas e janelas... não, não deveria se chamar reunião...
Nk


Ontem pedimos uma pizza que veio com massa tipo pastel, aroma de churrasco e creme disfarçado de catupiry... Pegadinha do dia das Bruxas? Ou será coisa do Saci?
Nk


Se esta rua, se esta rua, fosse minha...Avenida Paulista, pura inspiração! Um casal caminha no mesmo ritmo, marcando com suas bengalas o tempo mínimo entre um passo e outro. Meu olhar os acompanha até chegarem perto do metrô Trianom. Um senhorzinho dança e canta sozinho com improvisos de arte circense. Um casal de namorados briga no meio da rua, demoro para notar que fazem teatro.Um andarilho se diverte com bolhas de sabão no meio das crianças. Os pais acompanham de perto e parecem não ter medo. "Ele é do bem", uma mãe comenta. Na foto, o casal de dançarinos pede, no cartaz: ajude-nos a casar. A Avenida Paulista é um livro de crônicas aberto. Obrigada, minha filha, Nanci Kirinus! Registrar cada momento de São Paulo, na tua companhia, valem mil pedrinhas de brilhantes.
Gk

Diálogos reais e inspiradores:



Eu: - Que horas abre a loja amanhã?
Moça: - Abre entre 8:30 e 9 horas, assim, mais ou menos nessa Faixa Etária!

Coisas assim mudam o olhar... Nesse exato momento, o dia tem 8 anos de horas, plena infância... Aproveitemos o dia, ora pois!
Nanci Kirinus 

Primavera / Nova Era




Somos mães, irmãs, amigas,
Companheiras, avós, filhas...
A natureza que acolhe e abriga!
Somos as asas do anjo que zela
No corpo que gesta a nova vida.
Somos o alimento, o aconchego
O compartilhamento
Do fermento para paz!
Mulheres unidas somos! Mais! Mais!
Determinadas!
Delicadas, sim; frágeis, nem sempre.
Somos fêmeas, femininas, meninas...
Sangramos com as feridas velhas
Das guerras, intra/extra urbanas.
Violências domésticas, abusos.
Choramos, sofremos. Mas, lutamos!
Contra a intolerância, as intransigências...
Contra a emergência de um mal
Que se diz necessário.
Nós somos mães, avós, companheiras, filhas...
Marchamos pelo amor incondicional!
Somos amor globalizado!
Somos uma em cada homem.
Gestamos amor pra florir paz!

(Angela Gomes)

Nanci Kirinus

eu nunca tive uma casa
nem um cabelo bonito.
a minha falta de asa

é que me faz esquisito."
RR



Ontem a noite, de volta pra casa, caminhando pela XV "rua das flores", meu coração foi beijado pela lambida de um cão 
Ao parar para atravessar uma rua, a Floriano Peixoto, minha atenção foi para dois cães que vinham do lado aposto. Meu desejo pedia para que eles retornassem, pois o sinal acabara de abrir para os carros. Um cão dourado, porte médio para grande e outro com pelagem negra, um pouco menor.
Senti alívio ao vê-los retornarem. Foi quando um amigo que estava ao lado disse com alarde: olhe!
Assustada procurei com o olhar. Mas senti no fundo do coração. Um cão maior, porte grande, pelo escuro e curto lambia a minha mão. Foi rápido. Beijou meu coração e logo seguiu. Talvez eu tenha beijado o coração dele também. Quem saberá?
(Angela Gomes)


De repente, toda a verdade cabe em uma única imagem. De repente, Drummondes, Clarices e Cecílias ressuscitam em formato de autoajuda. De repente, Chico Buarque já não soa tão bem. De repente, resolve-se fechar um Ministério: o da Cultura. De repente, um prefeito vira ator, veste-se de gari e faz pose para lançar uma campanha com um nome assim: Cidade Linda... Como num conto de fadas! (Não, não é limpa! Nem saudável, nem cidadã...). De repente, o que importa é estar bem na foto e... Linda! De repente, a livre expressão virou risco de vida e alvo de ódio. De repente, um congresso nacional (em minúsculas, de vergonha mesmo) debocha do conceito de Público e argumenta sobre o futuro do país com um beijo para sua particular família. De repente, embaralharam-se imagens, conceitos e fatos históricos. De repente, o socialismo, comunismo e o fascismo são facilmente pronunciados para ojerizar ações ou pessoas. De repente, o virtual se confunde com realidade e a realidade, bom, tanto faz...De repente, fiquei confusa... o hoje me soa tão estranho, contraditório e pouco lógico, que minha homenagem à São Paulo não poderia ser diferente: PARABÉNS SÃO PAULO, CURITIBA É LINDA!

Nanci Kirinus

Uma anedota de papai antes de sair das redes sociais e ir cuidar da outra parte da vida.


Ana Cristina Rodrigues


Não tinha corrupção na ditadura, né? Pois bem.

AI-5. Papai trabalhava na padaria do tio dele, ali em Botafogo, na Voluntários da Pátria. Tio-avô era grande no sindicato patronal na época e foi à Brasilia. O AI-5 veio junto com um monte de coisa, pacotão de barbaridades, inclusive uns tabelamentos de preços bizarros e etc, o que gerou essa tentativa dos patrões de ir conversar com os militares.

(Patrão ainda tentava, trabalhador é que nem isso)

Papai ficou encarregado da padaria.

Chega fiscal de pesos e medidas. Primeira coisa que ele pede é o 'faz-me-rir'. Mas meu tio não deixou papai avisado e se tinha uma pessoa de quem meu velho tinha medo, era desse meu tio-avô.

(Flashback da minha infância: meu tio-avô no quintal cortando cabeça de peixe pra janta com um facão GIGANTE chamando meu pai de 'pouco inteligente' para baixo. Um amor de pessoa. Sdds, tio Antônio)
Pai fez o quê? Pediu milhares de desculpas, mas não tinha ordens pra dar nada. O fiscal olhou a padaria inteira de cima a baixo... e mandou pesar os tabletes de manteiga.

(Na época, manteiga vinha em um tabletão gigante e na padaria se cortava em tabletes de 200g e 500g, enrolava em um papel específico, papel manteiga.)
Aí, ferrou. Manteiga perde peso fácil e meu pai tinha vacilado e colocado os tabletes com o peso certo - ou seja, uns 5 tabletes estavam com 195g.

Resultado?

Papai preso por 2 dias até meu tio-avô voltar de Brasília, o soltar e lhe dar O ESPORRO.

'Mas tio, era preu tirar o dinheiro do caixa e pagar a propina?'

'Claro que não, era pra tirar do seu! Acha que ser encarregado de um comércio não tem custos?'
(Isso serve de lição pra vcs que acham que a ditadura só prende subversivos. Não existia pessoa mais anti-comunista que papai. Sim, eu sei, me chamem de karma.)


Adoro as sextas-feiras, independentemente de ser feriado ou de ser o tão esperado anuncio de fim de semana... Gosto das sextas por causa das feiras mesmo. Acordo cedinho e vou lá encher os olhos de cores, a sacola de saúde e os ouvidos de autoestima: “Bom dia minha princesa”, “Linda, a ameixa tá docinha, docinha”, “Olá minha rainha, vai um mamão hoje?”, “Bom dia moça bonita, pode escolher”... E ainda bem no finalzinho, levei de lambuja um “Bonjour mademoiselle”... Pronto, terapia melhor não existe!
Nanci Kirinus

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

SETENTA ANOS DE CINEAS SANTOS


70 anos de paixão e saudável teimosia são a sua marca. Mais de 50 deles vividos em Teresina, onde não há um só setor da cultura local que não tenha a sua mão. Carregador de palavras; tocador de fantasias; afinador de destinos. O Piauí não seria o mesmo sem ele. Aparentemente árido -- posto que vem do sertão sem afago --, quem o conhece tão bem quanto eu, desmente as aparências. Ninguém que passe pela sua vida, sai sem receber o quinhão do seu afeto e dos seus generosos saberes. Por isso, num dia tão alvissareiro como este, em que a UFPI lhe confere o raríssimo Título de Professor Honoris Causa, só nos resta o prazer e a honra de aplaudir uma vida tão meritória. Sigamos em frente, meu irmão querido, a dor pode ser contida, o amor, não.

SALGADO MARANHÃO

quinta-feira, 20 de setembro de 2018


o poema, moça bela, é um reboco
uma tela que cobre a tarde nua
cada poema que piso é uma rua

imensidão de mãos, como num soco."
RR


Nada faz sentido:
nem o mundo,
nem a vida,
nem você.

Este verso
é apenas o registro
de que ao menos
eu tentei.

Otto Leopoldo Winck

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


todo sábado amanheço
com o coração duro e fundo
dos amores que padeço.

meu coração é o mundo."

Romério Rômulo


me decidi te ver
inteira, nua
uma mulher que é vento
e que é rua.

me decidi te amar
em meu quebranto
uma mulher que é sopro
e é espanto.

me decidi dizer-te
e fiquei mudo
uma mulher que é só
e só, é tudo."
RR


só um pedaço de mim
caminha aqui.
quanto, não sei. e é muito
não saber.

cada pedaço é sobra.
um canhão em cada olho
é o que levo."

Romério Rômulo



vou destoar desta vida
curta, perdida de medo
nos guinchos, richas e tramas
do teu olhar de degredo

se a tarde que me consome
suporte do teu enredo
navegasse, eu naveguei
fui cavalo, estrada e rei
andado por tudo, andei
nunca e nada eu me cansei
perdido no teu segredo

morto de tudo me abalo
sangrado como sangrei
eu, cavaleiro e cavalo
da carne onde eu me criei

senhora de mãos medonhas
tu que foste a rainha
armada de ventania
fui um fausto quase louco
desamparado do eterno
perdido de água perdida
construtor do meu inferno."
(a seguir)
RR



eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto."
RR

.....................
.....................


só um pedaço de mim
caminha aqui.
quanto, não sei. e é muito
não saber.

cada pedaço é sobra.
um canhão em cada olho
é o que levo."
RR

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Setlist




O aspecto demorado das mãos do cego

Os desenhos intrincados de bestas na paisagem desassombrada

O derrame político e futurológico

As pautas medievais

O desagrado da rudeza na intempérie e a beleza inequívoca da ventania

A permanência solar do Big Bang no espaço curvilíneo

Os espectros da palavra

A chuva imprevista ameteorológica

Os rincões da praça catalã no livro de encadernação duvidosa

O trem cheio de vozes dissonantes

O percurso de quase 3 km entre Morro Agudo e Rosa dos Ventos

O nome das coisas

O nome das coisas

A leva de pombos mortos embaixo dos carros

O banho de descarrego

O amor avarandado

A paixão virulenta

A solidão sem lei

O sabor da pipoca

O estouro do momento

O próximo livro

O fim de Janeiro

A astúcia deste poema.
RTD

VELHA POÉTICA




Um poema feito de seixos.
De válvulas
e vulvas.

Um poema feito de lutas.
Silêncio. O poeta labora.

De seu peito vaza um rio que varre tudo:
o lírio,
a bomba,
o beijo.

Um poema feito em desleixos.
Feito de sol.
Feito de lua:
reflexos fascinam os peixes.
Um poema feito de guelras
e gueixas.

Silêncio. O poeta sonha (ócio & cio).
Uma flor de narcótico perfume se abre em êxtase.
Estrelas choram. Estranha liturgia...
Um poema feito de eixos.

A serpente. Pandora. Idade do Ouro.
Seixos.
Seixos.
Seixos.
Há anjos transfigurados
olhando seus sexos no espelho.

Otto Leopoldo Winck




no início
era o amor
sem forma e vazio e
Deus sonhava
como só o
homem sonha
e fez-se a expansão:
o mar, a terra...
alguns lugares ficaram
com muita água,
alguns lugares ficaram
com muita sede.

no início,
era o peso do às vezes
carregado do sempre
e algo deteve
o vazio,
moldando-se
em barro e costela:
foi um silêncio
de grande morte e
de grande vida
para que tocássemos
o tempo com as mãos.

Mário Bruno




margem de erro
de rio, terceira margem
assombração
para mais ou para menos
parachuva
arroios, brasis
sabedoria dos grotões
sudeste, sudoeste
vento inconsequente
RTD

Algumas anotações aleatórias:




-- Engraçado como algumas palavras entram e saem de moda. Aleatório, bizarro, entorno são algumas das palavras em voga atualmente. De cada dez palavras pronunciadas por um hipster, três são aleatório, bizarro e a expressão 'no entorno'.

-- Não sei se alguns são ingênuos, ignorantes ou preguiçosos. Com exceção dos primeiros, os outros dois têm cura. Para os ignorantess o remédio é pesquisa, curiosidade, estudo. Mas tudo isso com 'olhos livres'. O problema é quando eles são também preguiçosos. Para os preguiçosos a solução é vontade. Mas como exigir vontade de quem justamente sofre de falta de vontade? Olha, pelo menos um pouco de boa vontade não seria mal.

-- Coisas que detesto e uma que abomino: polícia, exército e todos os aparelhos repressivos do Estado. Numa revolução tudo isso deveria ser destruído e recomeçado do zero. Como o exército francês após a Revolução de 1789. Agora, truculência, eu abomino. Sobretudo quando vem em voz melíflua.

-- O duro não é sair da caverna. É voltar pra ela e fingir que você não viu nada. É o que muitos fazem. Pra ser aceito, você deixa de pensar. Você pensa o que os outros esperam que você pense. Aí numa festa você enche a boca pra dizer: esses sem-terra, é tudo vagabundo.

-- Coisas que amo de paixão: pôr do sol, expresso tomado num café com um livro nas mãos, flânerie, silêncio, seios, axilas. Não necessariamente nesta ordem.

-- Outra coisa que detesto: a expressão "amo de paixão".

-- Escrever um livro que ninguém leia, ou se ler, ninguém entenda: eis aí um bom objetivo pra vida.

-- Ser um herói e um santo para si mesmo (Baudelaire). E que tudo o mais se exploda.

-- O duro não é quando as pessoas te decepcionam (as pessoas sempre te decepcionam, elas nunca são como você as imaginou). O problema é quando você se decepciona com você mesmo: aí é um duro golpe no orgulho e na autoestima. Não tem cura. E é bom que assim seja.

-- Otto Leopoldo Winck. Gosto do meu nome. Não sei que substância meu pai tomou quando escolheu o meu nome. Mas bendita seja essa substância! Pelo menos, nome de escritor eu já tenho.

-- Se todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto, este meu ponto de vista é apenas mais um ponto. Mas é meu, porra.

Otto Leopoldo Winck


I.
Um sentimento embrutecido na dobra da palavra. O emudecimento da circunstância até sua transubstanciação. Um ritmo na peculiaridade da fala. O pensamento não originário determinando amálgamas. Poesia, pura conflagração.

II.
A palavra me dá a interioridade do pensamento. O pensamento me transporta à nudez da palavra. A imagem fornece a desmedida do homem. E o entorno é a memória plangente das nuvens, misturada ao corpo-grito do mundo. O resto, eu sei, silêncio.

Roberta Tostes Daniel

QUASE DESPEDIDA




Tenho trocado a noite
pelo dia, o nome das pessoas
e o caminho de casa
-- e, ao fim e ao cabo, nunca sei
se estou chegando
ou se estou saindo.

Sei, no entanto,
que esta vida,
embora pouca,
embora louca,
até que é boa.

Se o dia de ir embora
estiver apontando
no horizonte,
só sei que quero sair
assim, de fininho,
sem alardes
nem grandes dramas.

Pois minha vida,
se não dá um filme
nem um romance,
pode dar, quem sabe,
um poema
de versos soltos
e rimas poucas
-- como este aqui.

Otto Leopoldo Winck


breve relatório:




ar irrespirável na conta da democracia
fundos falsos e neblina ensaiada
por minhas lentes de contato
passeio no canal lacrimejante
hominídeos em suas paixões futuristas
declínio e ascensão do pequeno burguês
voltamos ao marco civilizatório
havemos de comer
nossa fome, o deserto das carnes
coxas, falos
paradigmas

RTD


Venho dos córregos
de água salobra,

do descampado
chão de farelos

na cara o sol
rachou minha argila

seca: é o que digo
aos guardiões

que batem lata
em meu silêncio.

SOL SANGUÍNEO
Salgado Maranhão
(Terra chã)

UMA CANÇÃO DE SAMSARA




O mundo é mudo
Ao fim dos lábios.
Ao fundo, escuto
O que não falo.

O tempo estúpido
Ressoa, aos badalos,
O sexo hirsuto
Em que me esbaldo.

Às vezes, duplo,
Quase me plasmo
No chão absurdo
De onde não parto.

Às vezes fumo
O vão cigarro,
De maio a julho,
De julho a maio.

Às vezes grunho
O nome estático
De pedra e húmus,
De âmbar e cacto.

Às vezes sumo,
Outras me gabo
Do verso abrupto
Que sempre estrago.

O que é o mundo
Senão um fardo?
Ou então um segundo
Ao fim de um sábado?

De modo búdico
Pergunto aos brados,
De Órion a Arcturo,
A João e a Arnaldo.

Porque é seguro
O voo sem pássaro,
O lucro a juros,
O gozo a prazo?

Como, aos apuros,
Vejo nos pratos
O bife, em júbilo,
E o ovo a cavalo?

No ventre rústico
Onde me flagro,
O tempo, súbito,
É só um estalo.

Dura um minuto
No olho estrábico
Do amor telúrico
Que finjo e traio.

O mundo é imundo
Ou só um flato?
O órgão bem úmido
Com que me castro?

Às vezes pútrido,
Às vezes clássico,
Por que pergunto
O que me indago?

Escrevo ao público
O que sou em lapso,
À flor do púbis,
Ao som do orgasmo.

Quase em decúbito,
Nunca me acho
No mundo em fuso
De junho a março.

Sigo confuso
No poema ávido
De sons abstrusos
E versos trágicos.

Chego, inconcluso,
Ao fim e ao cabo
De quase tudo
Onde não caibo.

Mas como, anárquico,
O nada engulo,
E alcanço a nado
Os pelos púbicos?

Como abro e agarro
O dorso diurno
De um sonho grávido
De falo e discurso?

Aos poucos traço
O rumo em surto
De onde, sem rastro,
Aceito o mundo.

Mas logo o expurgo
De modo tácito,
Atrás do arbusto
Do corpo elástico.

Do mundo expulso
O som exato
Do poema enxuto,
Do verso ácido.

Resta, difuso,
O gosto em travo
De todo o vulgo
De vãos vocábulos.

Talvez prelúdio
Que nunca acabo
Do canto rústico
Que findo em ágio.

Ricardo Leão, 2018


A vida só não basta.

A vida só é muito pouco.

Por isso nós dançamos, escrevemos, pintamos, cantamos...

Por isso olhamos o horizonte com uma ignota e lancinante saudade a nos bater no peito feito um coice.

Porra, meu, a vida é linda. Maravilhosa. Incrível.

Mas é pouco, muito pouco.

Eu quero mais. Bem mais.
OLW

POESIA XII




Canto para dentro do teu nome,
com a voz
virada aos astros. Escrevo –
dentro
ao roseiral
de urtigas -- o caminho
de formosuras.
(Recolho-te na respiração
dos figos).

Algo me toca
o êxtase dos frutos,
a inocência da loucura (a palavra
a lavrar o grão do poema
em retalhos).

Teu é o tumulto das veias
na vertigem da fábula;

tua é a dor luminosa
que rompe o trigo e a madrugada.

Acordo em teu horto
com espinha dorsal
buscando o sol.

E canto ao oásis
a lição do deserto.

SALGADO MARANHÃO
(Do livro “A CASCA MÍTICA”)

FIM DE LIVRO




Desconhecer a cor dos teus cabelos
foi um indício de que a noite não chegaria
sem a sua provisão de assombros.
As palavras que mais doem
não são as que são ditas pelas costas, à socapa,
mas as murmuradas ao ouvido, ao entardecer,
quando o dia se encerra sem virtude.
O princípio da sabedoria é o medo, eu pensei.
(Mas é duro carregar a cruz
como e fosse uma lisonja.)
Ter ignorado a dor dos teus olhos
foi o que me perdeu. Agora
não há mais remédio. As águas amargaram na fonte
e amar não é mais uma certeza: tu o disseste.
Não sei mais que caminho seguir,
já que todos levam a lugar nenhum.
A lua ainda não nasceu
e talvez nunca mais nascerá. Como não sou herói,
nem de estirpe nobre,
vou fingir que está tudo certo
e fechar as páginas deste livro
– sabendo que nenhum outro o substituirá.

Otto Leopoldo Winck


"Não existem finais felizes; se existissem, não seriam finais." 
Javier Cercas, O ventre da baleia. São Paulo: Francis, 2006, p. 282.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018


poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão.
os dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão."
RR

Circe




● fui um daqueles ●
● q vindos do mar grávidos de sonhos ●
● e batalhas ●
● bebeu o vinho enfeitiçado e se curvou ●
● as potencias dormentes ●
● ao tempo minúsculo e forte ●
● ao silencio a gordura a fome infinita ●

● com quatro patas rabo retorcido ●
● focinho fino dentes mascando a língua ●
● presa sem palavras ●
● sem quase memoria do ter sido ●
● por dentro dos olhos miúdos ●
● atrapalhados pelas orelhas desabadas ●
● a vontade de devorar ●

● o lixo remoer a lama procurar o verme ●
● escondido no lodo ●
● despido de toda vergonha ●
● seguindo moscas em vez de guerreiros ●
● grunindorosnando esquecimentos ●
● entre frutas podres ●
● pedaços de carne diluídas pela saliva ●

● e ver todos eles arrebanhados ●
● pra novamente se tornarem homens ●
● e fugir sem ser visto ●
● pra nunca mais me por em pé ●
● pra nunca mais ter q lutar ●
● pra nunca mais sofrer o tempo ●
● a pele macia o gozo duma mulher ●

● ver todos partirem sem uma lagrima ●
● voltar ao lixo a lama ao esterco ●
● com a grande felicidade ●
● enfim reconhecida ●
● agora vivida com toda alegria ●
● apesar de tudo ●
● e do grande mar impossível ●
ALC

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A canção do sol poente




Pois dos altos cumes
Não verteram imunes
Olhos impunes por bela
Ilustração.

Somados os dias e o vácuo
Entre pruridos de raios opacos
Descreveria a esperança tardia
O prisma da estrebaria
Que se avizinhava aos enlatados
Minhas noites insones e
Reflexos sem cor em espelhos
De águas selvagens

O cuidado eólico que assevera
Verdade intelectual por não ser
Banal o ritual do majestoso amor.

A canção ao fundo esbarra em
Minhas teclas que solícitas
Tropeçam em vistas e revistas
De sentido estético em si, por ser.

Se a forma e o luar naquelas chamas
Alinhadas em minha aurora cardíaca
Reverberassem outra vez o beijo
Que transmutou meus valores...

Traria aos patos e seus coaxantes
Poemas vespertinos uma palha
Uma limalha, uma mortalha
Para se servirem de galantes

Composições.

Porém aspiro aos seus arranha-céus
Que me sufocam o sol da geografia
E da periferia, avistaria aqueles
Ventos
Aqueles costumes teológicos

Que enlataram e monetizaram

O sacro adeus.

Anderson Carlos Maciel

sábado, 8 de setembro de 2018


não, não diga.
não diga não
não diga nada
-nem clemência-
a mão afia a espada
da nossa desistência
somos surdos para o vácuo
da nossa própria carne
e o cerne da questão
é mar que não se beija.
às vezes calha uma ilusão
de alpendres e manhãs
num caroço de sangue
noutras vezes a água vaza
veias e artérias
é vermelho o rio que nos congela.

Lázara Papandrea


"Embebidos pelo rio.
Haustos
de possibilidade:
devaneios fundos.
Refugam
onde os braços crescem
– entre as brechas de luz.
Onde se arrebatou
com violência
aquela canção.
Encharcados
pela música.
A cadência quer dizer
que talvez o corpo
retornasse ao mundo
imergisse em mim.
O desejo
é o que perdura
aceso:
um atalho
pela floresta
um dizer: venha
ou poderiam
dispor do não.
Mas todo mergulho
é música."

Roberta Tostes Daniel 

na Estrago


● era bela como uma estatua ●
● de jade com olhos de ametista bebendo cerveja ●
● negra e conhaque cheia de dor e medo ●
● olhando pra mim como se eu fosse um leopardo ●
● logo eu q tenho uma corda no pescoço ●
● logo agora q vão derrubar a cadeira onde tou ●
● um segundo meu pescoço se parte e sera tarde ●

● vira o inferno me fazendo esquecer ●
● a estatua de jade com olhos de ametista ●
● bebendo cerveja negra e conhaque me olhando ●
● como se eu fosse um animal faminto e q deseja ●
● logo eu q ficarei digerido no nada da morte ●
● posso mesmo inda gritar agora sera impossivel ●
● vc não se lembrara os leopardos voam logo ●

● as coisas podiam ser diferentes mas tudo muda ●
● agora giro gira giro e reluto em ficar gelado ●
● trinco dentes vendo girar uma estatua de jade ●
● com olhos de ametista bebendo cerveja negra ●
● e conhaque se voltar e sumir na multidão ●
● nada tenho ou posso dizer mas é uma pena ●
● essa escuridão invadir minha boca e nada mais ●

*ALC



Tenho a arma de todos os dragões:
Labareda-boca
Dói-me a alma pela cicatriz
(E nem um pássaro empedrado doeria tanto).
As águas
Cicatrizam-me
Histórias de abandono.
Doem-me
Também pelos cotovelos
As paixões do arvoredo.
É o bicho tristonho
Movendo as pedras
Do meu rio sem margens.
Na fumaça que trago
Recobrem-me saudades.
Respiro fundamente a superfície
De um atroz
E absorto
Nada.

RTD

Olhar com a tontura atenta
da vingança
dos bichos enjaulados
e com ferocidade de água
para a falta de contorno dos corpos
estranhamente materiais
para o açodamento do desejo
e a nua manifestação do sem nome
para um corpo de água feito das cheias
e das pescas nas florestas desertificadas
todos os mutilados enfrentam meu despejo
de te reunir neste mesmo e uno sexo.
.

- Roberta Tostes Daniel

chiaroscuro




● passei a vida inteira ●
● nesse labirinto eu e o minotauro ●
● fugindo e lutando lutando e fugindo ●
● comendo lodo e merda de minotauro ●
● guerra e conversa com o minotauro ●
● ouvindo berros urros de minotauro ●
● assim vivi a prosa o urro o berro ●

● velho e doente encontrei a saida ●
● a praia o mar as grandes ondas livres ●
● o minotauro preso perdido e calado ●
● eu num descomunal sol de meio dia ●
● gaivotas devorando uma baleia morta ●
● corvos gargralhando seu riso doente ●
● enfim outra hora antes de me dissolver ●

● desde então muitos meses se passaram ●
● não encontrei ninguem pra conversar ●
● apenas a agonia a solidão destruições ●
● toda beleza da liberdade logo cessou ●
● porisso antes de morrer volto feliz ●
● pro labirinto pro minotauro pro lodo ●
● era a grande vida e eu não sabia ●

● velhos não lutaremos mais ●
● restara nossas conversas e risos ●
● o lodo a merda as galerias o vivido ●
● desmedido sono no chiaroscuro ●
● passeios juntos contando sonhos ●
● saber porq tanto sangue e fome ●
● depois morrer juntos como irmãos ●

*ALC

Luzia




Deus está deitado
de costas para o crime
para tudo que criou
espécie de inércia
primeira ou museu
a estocada final
som estridente
de coisas nascendo
e estrelas morrendo
som que não contém
razão de ser
se não distender
sua massa gravitacional
pedra jogada no rio
do vazio, bastasse
uma antena de maior
amplitude
para entender as engrenagens
cifradas do crime perfeito
um lamento guardado
no fóssil mais antigo
da América
qualquer substância
sarcófago
um campo de invertebrados
diagrama de línguas extintas
um meteorito que luzia
uma mulher de treze mil anos
ardendo
à sua sorte.
RTD


no início
era o amor
sem forma e vazio e
Deus sonhava
como só o
homem sonha
e fez-se a expansão:
o mar, a terra...
alguns lugares ficaram
com muita água,
alguns lugares ficaram
com muita sede.

no início,
era o peso do às vezes
carregado do sempre
e algo deteve
o vazio,
moldando-se
em barro e costela:
foi um silêncio
de grande morte e
de grande vida
para que tocássemos
o tempo com as mãos.

Mário Bruno

homunculus




● correu entre nos uma historia sobre o mestre alberto ●
● afirmando q ele assim como fausto e talvez descartes ●
● teria construido ou criado um homunculus ●
● e q no inverno passado teria com esse homunculus ●
● nos enganado a todos ●
● pois esse homunculus seria dele uma copia perfeita ●
● tao exata q nem mesmo a mãe de mestre alberto ●

● saberia distinguir um do outro e ficamos com medo ●
● sem saber o q tal homunculus ocultava e podia ●
● ou pior sem saber distinguir mestre alberto ●
● do referido homunculus ●
● e passamos a nos referir a mestre alberto ●
● não apenas com o devido respeito ●
● mas como a um monstro ●

● frio doente e estranho ●
● compactuando com forças e misterios ●
● completamente por nos desconhecidos criando ●
● esse homunculus com mecanismos tão sutis ●
● q nenhum de nos seria capaz de compreender ●
● nem a ele o homunculus nem ao mestre alberto ●
● como criador de tal monstruosidade ●

● posta entre nos sem sabermos como nos defender ●
● agora tanto do homunculus quanto das astucias ●
● do mestre alberto e o pior era não saber distinguir ●
● um do outro nem saber se isso seria verdadeiro ●
● ou falso isto é se mestre alberto havia ou não criado ●
● o referido homunculus ●
● q no inverno passado teria se passado por ele ●

● entre nos inocentes completamente inocentes ●
● sem saber se ele em sua loucura não teria feito ●
● de alguns de nos e ate mesmo de mim logo eu ●
● um homunculus tão perfeito q nem mesmo ●
● o homunculus saberia se era alguem de verdade ●
● ou um homunculus se eu seria eu mesmo ●
● ou mestre alberto ou um homunculus ●

● pois nem mesmo mestre alberto saberia mais ●
● se ele era ele ou simplesmente um homunculus ●
● duvidando em seu pesadelo de ser deus ●
● q teria sido o homunculus q teria criado ele ●
● e a todos nos ●
● e não o contrario ●
● como penso de mim e não sei mais ●

*ALC

FLORES VOTIVAS



Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo quando uma coisa cai
e quebra
como porcelana,

seja uma velha amizade,
um novo amor
ou o sentido – fortuito – dos orbes.

Aí vem o vazio,
pior que a morte,
que não cola mais os cacos espalhados no chão.

Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo da ode
inconclusa, da carta interrompida,
do beijo suspenso,
seja este poema – que em si nunca estará completo –
seja a vida, esta obra sempre aberta...

Por que o medo então,
se tudo é acidental
e acidentado? Por que não assumir de vez
que este medo – que me paralisa no trabalho, na fila do banco, no amor –
não é, no fundo, no fundo, o medo da própria morte?

Talvez seja
para não dar o braço a torcer
a esta velha desmancha-prazeres
que corta os brotos
antes das flores, ou, quando não,
colhe as flores antes dos frutos
– e as oferece ao Nada.

Otto Leopoldo Winck

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Morro de Santo Antõnio

Seu dotô não bote abaixo
Tem pena do meu barracão
Quem é rico se atrapalha
Pra arranjar onde morar
Quanto mais eu que sou pobre
Como vou me arrumar
Pra me mudar
Seu dotô me compreende
O progresso é necessário
Mas seu dotô
Pense um pouco no operário
Meu barracão é todo meu patrimônio
Por favor não bote abaixo
O Morro de Santo Antônio.

Benedito Lacerda e Herivelto Martins (1950 )

RIO DA VIDA




Deixa eu te amar,
ó mar, que as muitas águas
de meu leito, intumescidas pela cheia,
enfurecidas pela lua,
me excruciam.

Deixa eu ter em ti,
ó mar, o meu zênite,
último limite,
– pois o que é o amor
senão o noviciado da morte?

Deixa eu desaguar-me
em ti, ó mar,
sem diques, adendos, subterfúgios,
sem as máscaras que o mundo me atarraxou,
que hoje, rio solto,
desabalado,
desesperado,
sou seu...

Deixa eu te ter,
ó mar, sendo-te,
batizado de ti,
amortalhado em tuas águas azuis,
que eu me perdi,
me excedi
e só então eu compreendi
que sem o mar (que sem amar)
não tem sentido o peregrinar do rio,
o escoar da vida...

Deixa eu te ser,
ó mar, tendo-te,
que a vida é pouca,
a felicidade rara
e o amor não é uma conta de subtrair
mas de somar...

Deixa eu te amar,
ó mar,
pois só em ti, em teu abismo azul
este rio
– cheio de fráguas –
tem o seu sossego,
encontra o seu lugar.

Otto Leopoldo Winck

domingo, 2 de setembro de 2018

BRÁS CUBAS E ROBERTO BARROSO




No livro 'Um mestre na periferia do capitalismo', Roberto Schwarz aventa que Brás Cubas, longe de um alter-ego de Machado Assis, é na verdade um emblema da elite brasileira da época. Os latifundiários escravagistas mandavam seus filhos estudarem na Europa. De lá, voltavam cheios de ideias liberais e progressistas. No entanto, ao pensar em mudar as práticas arcaicas de seus pais, logo se davam conta de que seus privilégios -- entre eles o de estudar na Europa -- eram frutos justamente dessas práticas arcaicas: o latifúndio, a monocultura e a exploração da mão-de-obra escrava. Assim, nossos fazendeiros bacharéis viviam uma esquizofrenia política: cabeça liberal, pés escravocratas; discurso moderno, práxis arcaica.

Assim é o ministro da Suprema Corte Roberto Barroso. Adora falar em pacto civilizatório e em criticar os atrasos de nossos costumes políticos. No entanto, ele mesmo é o melhor exemplo dos herdeiros de Brás Cubas: na boca, liberalismo de almanaque, porém suas decisões não só reforçam como ampliam o fosso entre os filhos da Casa Grande e o filhos da Senzala.

Só que Roberto Barroso é ainda pior que Brás Cubas. Como o defunto autor da obra mestra de Machado Assis, é cheio de um discurso escorregadio, empolado, pedante, vazio.
Falta-lhe, todavia, o humor e a ironia fina de Brás Cubas. Nossa elite, infelizmente, não só não evoluiu como ainda piorou.

Saudades do Brás -- ao menos ele era honesto no seu cinismo.

Otto Leopoldo Winck

MALDIÇÃO




Namoro estrelas. Sou poeta.
E daí? E daí que às vezes fico horas brincando com palavras.
Brincando é o modo de dizer. Trabalho duro,
teimo, limo, sofro, suo.
Mas me indaga um homem respeitável:
-- E que importância tem isso?
Tá bom, tá bom... eu sei que poesia não tem importância
alguma,
que somos escravos cardíacos das estrelas,
que os liquidificadores são mais necessários e melhores indicados
que os poemas
e os dentistas mais úteis (além de mais simpáticos, é claro)
que os poetas...
Eu sei, eu sei. É por isso que eu ando emburrado
e acho todo mundo idiota. Mas acontece
que eu sou poeta (aliás, altíssimo)
e fico triste ao entardecer.

Otto Leopoldo Winck


Tudo o que sou,
e tenho, e quero
um dia nada será
-- como a poeira, carregada de pólen,
que o vento leva
neste prenúncio de primavera.

Tudo o que sou:
este corpo, esta mão, estes dedos
que empunham esta caneta
como uma arma,
uma bandeira.

Tudo o que tenho:
manuscritos, memórias, dilemas.

Tudo o que quero:
o azul deste céu de setembro,
teu corpo em tua alma.

Tudo isto
em breve
nada será.

Como antes,
quando o nada era.

No entanto, agora,
enquanto engulo xícaras de café,
e preparo a aula desta tarde,
o que conta é este poema
que irrompeu
inopinado
como a eternidade
nos olhos de um condenado.

Otto Leopoldo Winck

IDADE DO OURO




Não aprendi nada com a vida.
Troco nomes, troco as pernas.
Me atrapalho com as etiquetas
e é com extrema dificuldade
que troco lâmpadas (portanto,
não vá querer agora que eu conserte esse chuveiro elétrico).
Mas ainda me fascino com as palavras
como se elas fossem coisas, bichos, pedras preciosas.
Ser poeta para mim não é destino
mas simplesmente continuar criança
em meio a uma multidão atarefada.
Não aprendi nada com a vida.
Mas, se você quiser, posso te ensinar
tudo aquilo que eu não sei.

Otto Leopoldo Winck

domingos




o pássaro não é mais o mesmo
amor
que não canta sobre a pedra
que não tatua o barro que
não macera os restos de luz
nesta carne
que é só espanto abismo espuma

tão estranha e resignada
é a substância que tão somente voa
tão somente acorda
tão somente morre
tão somente esquece

e esquecer é a nossa última liberdade
último descanso sob um corpo em chamas

Priscila Rôde


·
Poema de Roberta Tostes Daniel, do livro "Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco", lançado recentemente pela Quintal Edições, contendo poemas de 50 autoras que se uniram para este fim, contando com o apoio da editora para a edição dessa publicação em homenagem a Marielle.
.

O meu corpo
que é um corpo fêmeo
que é um corpo que sangra
que não é um corpo negro
um corpo é preciso dizer
que é um corpo é preciso
repetir a palavra corpo
o meu corpo
fêmeo que sangra
que não é negro
que é preciso dizer
se abrir para parir
que se viola
que se abusa
que é o corpo de mulher
mas o corpo da mulher
branca, que não labora
um terço do corpo negro
que é um corpo social
com privilégios sociais
que é um corpo branco
fetichizado porque é
um corpo fêmeo
um corpo que já amou
corpos fêmeos
é um corpo que já se nutriu
do sangue de corpos negros
é um corpo aberto
é um corpo histórico
um corpo se abre
para nascer lutar
contra o que em si
é a perpetuação
da própria ruína dos corpos.
.

"A antologia 'Um girassol nos teus cabelos' surgiu como reação espontânea de poetas brasileiras, impactadas com a tragédia do assassinato de Marielle Franco. Um dia após o extermínio da vereadora, as poetas divulgavam sua dor e empatia nas redes sociais e no grupo Mulherio das Letras. Com a parceria da Quintal Edições, resolvemos publicar essas manifestações. A vida de Marielle é inspiração para as que buscam uma sociedade mais igualitária e diversa. Marielle é dessas personagens que quanto mais o tempo avança, mais se torna iluminada pela história. Assim se imortaliza, rompendo muros e fronteiras e fazendo lembrar nossa humanidade em comum", Marilia Kubota, uma das curadoras do projeto

 Fonte : Vasco Cavalcante

Harpia harpyja




No enfermo e azinhavre
palato humano (acipitrino)
se desorganiza a macroscopia.

Míope, a fala concede ao destinatário
nada mais que o ruído.
RTD


A vida é facho de uma arquitetura
milênios de edificação do suspense
bordando vazios no recosto do assento.
Guardada chuva obsoleta
na decoração da sala
seu objeto esquecido.
Não são gestos
que avisam da trajetória
mas as fendas no peitoril da janela
o limite de cada superfície
o mistério que se esconde
sob este luar invertido em pleno dia.
Não basta saber o que sei
e olhar o que olho
e tocar o que nem sempre posso
recalcitrante desejo
de espessura oculta
e que no entanto engendra
este sonho maior, fugidio -
vigília, fundação.
RTD

Sagrado




Há outras distâncias
o ermo, as velas
usadas da superfície
ao sabor da ventania.

Ser de outro mundo
sentir o luto, as mãos
quase em prece
ser a pele deste mundo.

Uma estação trai a outra
acirra o desejo de viver.
Temos agora as folhas de antes
amarelecendo num mesmo chão.
RTD


Movimentos




“Que demônio mais versátil!”
Raduan Nassar

As cordas – este corpo – tocas
com as notas nos teus dedos;
matéria acústica, madeira de ventre
ressoam o movimento.

Mistério que preenche, vazio por vazio,
a cadência de sangue.

Pressentes as imagens na substância da caixa;
qual Pandora, insubstancial, sobre a cama,
em pestes de aço, que avultam, cantando.

Gemes, na cegueira com que, versátil,
o teu demônio dança; ventre
tangendo o punho do metal;

dedos em pestana, rugem
rangendo no solo
pés de improviso.

Retorcem, dilatando, no exílio,
os rastros de Mnemosine,
para a língua dos sons.

Tocas um corpo e toda uma utopia.
O imaterial; mas a matéria de teus dedos,
mas o teu movimento; mais, o som
deste mistério, como um símbolo

a devorar no silêncio; caminhas
como se inventasses uma alma;
lúcido, no mito órfico, tua música
me vislumbra, na fálica predição

ou nas cavas, tantas vezes
por vir; quando tocas nas cordas
a semear neste silêncio, morro,
sem que ao menos olhes para trás.

Eu que te ouço, desde a música
sou a mulher. E trágica libertação.

Volvemos, cada qual, ao seu redemoinho,
cansados de labirintos, como se soubéssemos

adivinhar o início furioso
e convulso do toque ancestral;
antes da exaustão concêntrica
e subterrânea das ondas.

Agora, em cantábile, amansando águas,
como se mudassem referentes,
só que os deuses lembram os mesmos ecos

da força mítica de tuas notas;
apenas migraram instrumentos
no meu corpo imemorial.
RTD


Da gramatura de um céu
radical
da ancestralidade
dos polares
da vizinhança
das cores
das sementes
geminadas
de ser mais frágil
que eu, a te cuidar
do que não tem jeito
nem nunca terá
de um vento que retorna
à voz, obscuros
de ninguém
da sorte
do descanso
de saber respirar.
RTD


eu, que conheço o enigma das linhas
que cresci vendo carreteis desenrolarem-se nas máquinas de costura
vendo a paixão triste -
o sentimento de sombra que as mulheres cultivam pelo inconsútil / em silêncio, em segredo

/ à intermitência dos ciclos de seus fios
de sangue /

eu, que sei que sou
como elas - as mulheres de ontem

-

e que venho ferida do enigma
das linhas

e que por vezes penso que qualquer palavra que designe fogo pode ser uma versão
mais rudimentar do teu nome - eu, que digo teu nome assim, suspenso
à linha do horizonte

ferido pela tênue incisão
do pássaro

-

"pampa, estou me dessangrando em teus poentes" - assim escreve jorge luis borges

num poema que não me sai da cabeça há semanas

(...)

esta noite me deito contigo
e descubro com a ponta dos dedos
pelo tato

as linhas da palma da tua mão

sei que não tenho muito tempo
amanhã, à luz do dia, outra mulher te encontrará e lerá nessas linhas todo teu futuro -

que leia
ao amanhã o amanhã

sei que é noite, amor / é noite, ainda
e, se me deito contigo, é porque aprendi a te amar assim, no escuro - à sombra do teu primado
de lábios

do húmus

se me deito contigo, é para amar-te ao meu modo: um pouco antes do início
do mundo

antes que deus separasse as duas águas com o arco
e as chamasse de céu e de mar

os teus olhos e os meus

Marceli Andresa Becker



Às vezes basta silenciar para ouvir a soma de suas próprias vozes. Há no conjunto dessas vozes um silenciamento. Você todo feito do silêncio das vozes que construiu. Sufocado, travado na consternação de respirar. Nada a declarar com as palavras que o fundaram, da pesquisa empreendida de você mesmo no mundo por tantos anos. Você continua a desafiar a norma e a escrever, sendo agora o fantasma que percorre rastros, aclara possibilidades, revê alicerces, propõe rotas. Você escreve invisibilidades, agencia o silêncio de antigos discursos, percebe que a fuga iniciada ao despistar com as palavras o ferimento da inadequação continua na forma de um caminho em parte exaurido, onde despontaram trilhas e se reorganizaram labirintos, sons, incursões, dizeres. E, por isso, não há mais o que dizer, a não ser o incessante. Incessantemente dizer espaços, órbitas, trens noturnos, praças de guerra. Dizer o corpo preenchido de vozes, miragens, cansado de propor lucidez.
RTD

Flashes




1.

A beleza enevoa minhas mãos
me defendo dos estados absolutos
a política multiplicou meu contorno
variações ensimesmadas da liberdade.

2.

Fotografo onde sou rocha
via de acesso aos teus imóveis
alarde das coisas franzinas
beleza enevoada nas mãos.

3.

Hora feita na clarividência
anteparo dos gestos arredios
súbito levar-se
hora moicana.

4.

O desenho da paisagem imola
onde sou alma adentro
onde sou nuvem escarpa
o olho se fecha lentamente com teus dedos.

5.

É súbito ter um corpo feito de outros
tudo gravita e rasga ao rés da voz
só é permitido o gemido da verdade
silencio o que toco.
RTD

Dolo




Escrever como quem te embriaga –
retornar de um antigo desvanecimento
no estágio do êxtase e da secura
derramar a vida sobre teus pés assoreados.

-
RTD
[2017]


Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

-
RTD
[2010]