sábado, 28 de abril de 2012

Diz o crítico José Castello que vivemos num tempo de queixa sobre

depressão em consultórios. E as queixas sobre depressão são
concomitantes com a busca pela felicidade instantânea. o miojo-prozac,
capaz de matar a fome e problemas psíquicos. O que se disfarça em
nosso tempo que busca a formula de felicidade é que viver é uma
experiência angustiante por causa de nossa precariedade humana.


O poeta acredita que a vida é um pouco melhor porque escreve. Porque
mergulha em sua angústia. Ele fala a todos os homens de sua dor (que é
de náo ser um deus) , ao mesmo tempo quando cria tem a ilusão de ser
deus. Mas será um deus muito pequeno enquanto não tiver descido à
Terra ou viver no mundo da miragem.


Cito um excerto de um texto que li , retirado do site de uma
clínica psiquiátrica: "Depressão é normal. A preocupação ou mesmo o
desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma
angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental.


Depressão ainda é o Grande Inimigo. Mais energia pessoal é gasta nas
defesas maníacas contra, desvio de, e negação da depressão, do que é
utilizada em todas as outras supostas ameaças psicopatológicas contra
a sociedade como a psicopatia criminal, a esquizofrenia e a adicção.
Mas, é através da depressão que entramos nas profundezas, e é nas
profundezas que descobrimos nossa alma.


Citando Carl Jung:


[ Nós não devemos tentar 'eliminar' uma neurose, mas tentar vivenciar
o que ela significa, o que tem a ensinar, qual é sua finalidade. Nós
devemos mesmo aprender e ser gratos a ela, pois, do contrário, nós
passaremos ao largo dela e perderemos a oportunidade de conhecer-nos
como realmente somos. . . Uma neurose é verdadeiramente removida
somente quando é removida a falsa atitude do ego. Nós não a curamos -
ela nos cura. Uma pessoa está doente, mas a doença é a tentativa da
natureza de curar essa pessoa.]

[ comentário babaca: muito bacana. É preciso conhecer muito sobre a
própria doença para se curar. A melhor cura é auto-cura e o melhor
conhecimento o auto-conhecimento. Não existem deuses nem gurus nem
drogas fabulosas].


A causa final de uma neurose é algo positivo que precisa ser
salvaguardado para o paciente; do contrário ele sofre uma perda. . , e
o resultado, na melhor das hipóteses, é uma cura incompleta."


Anti-poesia é considerar que a tristeza não faz parte da vida. A
melancolia é própria do ser humano, porque reconhecemos a nossa
precariedade. A necessidade permanente de diversão e entretenimento,
cada dia mais facilitada pela indústria da alienação atenta contra o
senso de privacidade. O que não tem nada a ver com a exaltação do
individualismo. Porque eu sou poeta acho que é exatamente a falta de
espaço dentro de nós (poesia/liberdade) que deixa a maioria das
pessoas doentes.


Marilia Kubota

terça-feira, 24 de abril de 2012

Atropelamento

O quero quero está quieto.E o pardal castanho não sente a perda.
O pardalito vê apenas as penas do pombo glutão voarem.
O goal do gato ,avoante na boca vermelha de festa do negro gato .
Mas havia um felino no meio da rua , no meio da rua havia...
depois um tapete de pele e tripas sob as rodas da caixa de aço
animal faminto de intestinos de insanidade humana.
Estropiado à margem do rio de vorazes luzes e velozes rugidos,
o cão ganindo, presta homenagem ao seu fiel adversário que faria lustros
naquela mau humorada manhã.Não sobrou nada para comer.
O frio fedia chuva de água empoçada da urbe pálida e moribunda.
O rato saltitava olhos de urina até deixar-se cair numa boca de lobo.
cidade selva dos grandes e pequenos animais de almas limpas ou sebosas
mas todos filhos de adeuses.

Wilson Roberto Nogueira
Na pele do poema queima a razão
sua ração de incêndio como asas aladas
fazendo sombra ao  rubro vidro fosco
da liberdade .Cada pena que cai
das asas do poema marca um ponto final
de sangue na areia da palavra
Saudade.

Wilson Roberto Nogueira

Busca

Estou caindo no abismo
Como quem procura água no deserto.
Busco letra-a-letra, a palavra,
Que retire esse cansaço insustentável,
Das verdades mil vezes ditas,
à ouvidos moucos
cansaço real, da irrealidade alheia.
Procuro a palavra
Que impeça esta vontade de voltar
à caverna silenciosa,
onde só habitam as vezes,
Dos meus poetas mortos.

Josi Mota
07/08/2006

quarta-feira, 18 de abril de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Wilson Nogueira celebra o grupo Pó&Teias no Wonka


"If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite.
Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito."
William Blake
José Arantes. "O Matrimônio do céu e do inferno. "
editora Iluminuras.
Encurvado sobre o pensamento
caminha entre as linhas do livro
cai da página e perde sua própria estória.
a partir dos cacos das letras órfãs de sentido
monta uma bengala e caminha na escuridão.
Sente com o calor de novas luzes a melodia
das possibilidades.
O abismo não mais o assusta .

Wilson Roberto Nogueira
A flor que irei depositar no seu túmulo
tem uma pétala a mais.É um pedaço
de mim mesmo!
Ah, se eu fosse poeta...
Nos maus lábios haveria sempre uma
estrofe
E eu a entregaria ao pássaro para que
fosse levá-la a um preso
E depois pediria à ave que
transportasse o meu carinho
ao pai moribundo que sofre numa
cama e que fosse dizer
Ao Pai doente e a todos os Pais que eu
canto por eles.
O meu canto é como a prece, pois
Deus, também, é Pai !

Osmann de Oliveira

Wilson Nogueira


Se muere el sol.Su beso de agonía
dora un avión lejano.
Melancólia
Iluminados barcos.La bahia
exposición nocturna
de pedrería
Carbón...carbón...la carbonera pasa
De sus ojos se astillan
dos vivas brasas.

Ortíz Guerrero. Paraguai

Wilson Nogueira


Além daquele cadáver de mulher estirado na calçada.Com três buracos na blusa imunda.Nenhum outro gritou mais alto do que os tiros nos olhos da madrugada.calçadas de pedras soltas bebem o drink rubro daquela história banal.Um flash espoucando nas luzes dos olhos da cidade.Trocaram o verde das matas pela urbe de concreto e sangue de suas cicatrizes .

Wilson Roberto Nogueira

Ceccon no Wonka celabrando o grupo Pó&Teias

sábado, 14 de abril de 2012

Pozzo no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Deisi no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Wilson no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Navego na nau do lamentoso pensamento de ti


Ceras a vedar ouvidos não podeis entrar.

Amarrado por cordas qual aço ao mastro da ambição

braços de vã vontade castrada de naufrago na fenda da bela consorte

a minha morte.



A bela morte a transar em parcelas ou na explosão a procela

Qual o sentido da vida ? Tal não é a pergunta que ora lasso de misérias

Musas filoflanantes falsas sandias opiam prazeres enquanto mastigam

corações, veias e sensações.Prazeres devora culta traça livros de estórias .

Vigores fumados tragando liberdades agora ausentes.



Preso no barco cujo leme não domino.

Apenas a nau dos insensatos navegando no vazio da névoa

desta vida de recifes famintos de escombros e saboreando

melodias de sereias a deleitar de mala- suerte os condenados

a voar sem ter asas nas nuvens do ácido oceano do desencanto.



Wilson Roberto Nogueira
O que sinto não é o sopro da alma de mim fugindo


no silêncio exausto diante do rugido

da vida em seu devir de promessa irrealizada.

Faina de um Sisífo cego no hesitante ruminar

na fronteira de um primeiro caminhar

de pés feitos de ossos de sonhos em pó .Fertilizada

morgue de sóis exangues de chamas a alumiar

de sombras o fogo fantasma parindo

sobras cinzentas de amanheceres sonhados

morejando sal sob capotes celestes.



Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitárias ceiam sonhos


sabres ceifam a fome de viver

bebendo a gota de vinho da última videira,

que balança antes da tempestade de aço

bebem no beijo das palavras os cordeiros sob a sombra

dos lobos a carne tenra trinchando hóstias

trincando dores ouvindo Wagner

Ardem cedros por testemunhas

e oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue

enquanto a criança chora à sombra da chama

clamando à Morte que vaga sem saber por onde começar.



Wilson Roberto Nogueira
A lava da memória em chamas liquidas ocultam-se em pétrea desmemória


na nova rocha ainda quente guarda do invivido o vento do quase acontecido

na nuvem do deja- vu a água ardente que perverte o sonho em um beco sem resposta.

Os passos pesados sobre o espírito afundam na areia do cadáver insepulto de sombras

insilenciadas.



Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitários sabres que ceiam sonhos na fome de viver.


Sorvendo gota à gota de vinho da derradeira videira no ósculo da última flor.

Balança a árvore antes frondosa da vida hoje pálido osso da memória

onde se refugiam cordeiros do rugido da tempestade de lobos e da siderea miséria

que corta fundo a raiz da esperança.

O aço devorando a carne tenra da terra trinchando hóstias de pó e palavras

Trincando dores ouvindo Wagner cavalgando valquirias a procura de ouros

no fim de falsos arco-íris .Ardem cedros por testemunhas cobrindo em sombras raquíticas

proles dejetadas de úteros abandonados.

Oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue enquanto ouve-se um choro fantasma a sombra da chama

clamando a morte que vaga ébria e exausta de tanto ceifar.



Wilson Roberto Nogueira
Abrimos o livro como a uma janela


uma pálpebra que se ilumina a novas luzes

e diante do olhar estranhando o familiar

espelhos estilhaçados sob os pés descalços.



Na busca pela identidade passamos por sombras perpétuas

de Hiroshimas íntimas em sopas de cogumelos.

formas dançarinas da leitura de mundos que sangram

sobre teias elétricas que queimam nosso caminhar.



fragmentos de cristais sem valor eletrizando o nada dos nossos passos.

andamos a esmo, perdidos nessa leitura.



No barro das palavras tentamos construir nossos ídolos e seguimos adiante.

pedaços dessa anatomia de Golem se desprendem na tempestade do desencanto .



Palavras paridas de imagens queimam e evolam-se,reencarnando em nuvens que espalham o sêmen translúcido na relva a sorrir e a tudo presencia a pedra da palavra na pele do sonho.



Voltamos a dormir no desconforto do silêncio inundados de dúvidas que se debatem nas nossas entranhas.Mas tudo são meras palavras que voam sem rumo sobre nossas cercas invisíveis de arame farpado.



Wilson Roberto Nogueira
depois do amor, os corpos suados no colchão sem lençol, enquanto acende o inócuo cigarro, dispara a queima roupa óbvia pergunta




- então? ele é maior?



- não! você é maior, bem maior; responde ela, olhar no tétrico teto.


Ricardo Pozzo

Noticiário de sempre

I



Que corta e serra,

e jorra o sangue

que não se estanca

e espanta

No noticiário de logo cedo

três tiros de arremedo

perfuram as vísceras do sujeito

Imerso em meio

a linha de combate




II



a cidade se espreguiça, e boceja seu dia

a água ferve para mais um café

o que bonde trafega sem direção...

o jornal é arremessado aos quintais

frescas as notícias de ontem




III



e se dissesse que tudo já foi dito e o resto é infinito e caos

e o nada já é matéria, o momento, o instante fugaz, agora para trás

e o mito já não é mais a caverna, mas a rua, o sangue escorrido

a morte morrida e estampada na primeira página,

a escorrer as vísceras já dilaceradas

e a vida consumida por um disparo

na arquitetura de pólvora e bala

e não há distinção de nada todos são todos, e cada é um,

o que havia era silêncios multiplicados a abismos e retissências

isso que corrói a alma, e a deixa cercada de espinhos numa paisagem perdida

e penso ainda que há algo de belo no trágico




Rafael Walter

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Viver

Não fui pedra: preferi ser semente.
Registros, rastros, marcas já deixei.
Nesta vida, não fui indiferente.
Nem apenas só passei por aqui.
Chorei, sorri, cantei, sofri, amei...
Por isso posso é que posso dizer: vivi !

Adélia Maria Woellner
Sabw aquilo tudo que a gente vive
e que marca e ama e fica pra
sempre dentro da gente: poemas.
pessoas, músicas, palcos,
cenários?
São balangandãs que
levo comigo, são o que sou, o que
me dá sentido e que agora te
entrego. Apaixonadamente.

Giseli Canto

Azul

Tropeçou no sol da manhã
e merulhou no azul do outono.

Helena Kolody

domingo, 8 de abril de 2012

Ricardo Pozzo

Cruz das almas solitárias ceiam sonhos
sabres ceifam a fome de viver
bebendo a gota de vinho da última videira,
que balança antes da tempestade de aço
bebem no beijo das palavras os cordeiros sob a sombra
dos lobos a carne tenra trinchando hostias
trincando dores ouvindo Wagner
Ardem cedros por testemunhas
e oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue
enquanto a criança chora à sombra da chama
clamando à Morte que vaga sem saber por onde começar.

Wilson Roberto Nogueira

Mamíferos

Teus olhos lácteos
amamentam
minha fala leitosa
quando te vê
meu olhar desnatado
hesita
lactobacilo um pouco,
mas, mamífero,
degusto tua fala úbere,
sedento
do queijo de teus lábios.

Caibar P Magalhães Jr

Millôr Fernandes

"Cada poema é um objeto único, criado por uma técnica que morre no instante mesmo da criação. "

Octávio Paz

Curitiba

Ó maldita vaso de água podre
figo fervilhante de bichos
ó cedro retorcido de agulhas
hiena comedora de testículos quebrados.

Dalton Trevisan.
n87.GP 150996.
A lava da memória em chamas liquidas ocultam-se em pétrea desmemória
na nova rocha ainda quente guarda do invivido o vento do quase acontecido
na nuvem do dèja vú a água  ardente que perverte o sonho em um beco sem resposta.
Os passos pesados sobre o espírito afundam na areia do cadáver insepulto de sombras
insilenciadas.

Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitários sabres  que ceiam sonhos na fome de viver.
Sorvendo gota à gota de vinho da derradeira videira no ósculo da última flor.
Balança a árvore antes frondosa da vida hoje pálido osso da memória
onde se refugiam cordeiros do rugido da tempestade de lobos e da sidérea miséria
que corta fundo a raiz da esperança.
O aço devorando a carne tenra da terra trinchando hóstias de pó e palavras
Trincando dores ouvindo Wagner cavalgando valquírias a procura de ouros
no fim de falsos arco-íris .Ardem cedros por testemunhas cobrindo em sombras raquíticas
proles dejetadas de úteros abandonados.
Oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue enquanto ouve-se um choro fantasma a sombra da chama
clamando a morte que vaga ébria e exausta de tanto ceifar.

Wilson Roberto Nogueira

sábado, 7 de abril de 2012

Antes que a tarde amanheça
e a noite vire dia
põe poesia no café
e café na poesia.

Paulo Leminsky
Winterno
A verde e perene erveira
Dá folhas pro chimarrão;
A sertaneja faceira
Corre a cuia mão por mão.

Vidal Idony Stockler. Castro- Pr

A Arca

É sempre bom manter a fé. Arnaldo era evangélico.Estava levando os fiéis para o culto na sua Kombi 87.Apareceu a fiscalização da Prefeitura."Perueiro.Lotação irregular".Quiseram confiscar o veículo .Arnaldo resistia.Outros perueiros apareceram.A polícia veio em seguida.Arnaldo ameaçava."Que o justo atire a primeira pedra."O cabo Novaes foi logo atingido.Fiéis e apedrejados entraram no camburão."Que a ira dos céus caia sobre vós."Veio a chuva.Inundação.A viatura flutuou sobre as águas .Arnaldo e seu povo fugiram a nado para um local seguro.Deus é o maior fiscal.

Voltaire de Souza
Vida Bandida.FSP 08/02/01
"O amor é cego, mas vê muito longe"
Provérbio holandes

Soneto à maneira do décimo-sétimo século

Dê-me tua mão , amiga, e ao meu todo
venha do campo ver as verdes lindes
-ainda mais lindas se por elas  vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado

Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à aleia.

Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva

Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto
as Artes eu direi, de Amor, que enleva

As artes eu direi, de Amor, que enreda.

Jacques Mário Brand

Do Silêncio

Para o Sábado de Aleluia


Do Silêncio

O segundo dia amanhece
Ouve-se apenas o calar das vozes.
A fúria deu lugar ao pensamento
Divagando pelo vazio da cruz...
Só entre às oliveiras!

O Jardim ainda em botão
Pergunta-se, se volta ao mundo
Indagando ao orvalho o porquê do vermelho.
Pelo chão onde passou o Messias das boas almas,
A brisa que vem do monte responde:
- Ele só queria salvar o Homem!

Agora tudo é silêncio pelas doze estações.
Estrofes que de uma forma ou de outra
Receberam a semente da face que só tinha
O olhar para ternura humana,
Para os que temiam a palavra do Eremita
Mor de todos os sentimentos!

Em algum lugar da escuridão
Corações solidários se engajaram em oração,
Aguardando que o amanhã renasça trazendo
No ovo a Profecia do terceiro dia.
A palavra que nunca será esquecida,
As mãos que afagaram com Amor!

Auber Fioravante Júnior

SINTOMAS DE AUSÊNCIA TUA

Chove lá fora e é inverno no meu peito
A tua ausência desenha um mundo cinza
O teu contágio latente manifesta
Garimpo o teu perfume rarefeito...

Tudo em mim te cobra e te precisa.
Meu coração de válvula sangrenta
Me impregna na mente e me ordena:
“Te procurar feito louco entre as caras!”
Me põe na rua atropelando medos
Pra te encontrar no sul da madrugada
Nua de todo e qualquer que nos separe
Ardendo em febre e o amor preso entre os dedos.

Altair de Oliveira - In: “Curtaversagem ou Vice-versos”
***

DEUS NO ORVALHO

Canções do Madredeus.

Pipa desgarrada das mãos do menino
Saber que em Marte o entardecer é azul
(saber que nunca poderei te oferecer
o entardecer azul de Marte)
A dor profunda dos olhos cegos de Borges
Deus afogado no mar negro do meu olhar

Bárbara Lia


21 gramas/2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tempo


...E no relógio de parede
as horas se vão...
vão tristes pelo caminho
ou céleres atropelando a vida.
Vão, vão passando lentamente
quando se vê, perdeu-se
os pensamentos no meio do caminho.

Marta Peres

Ressurreição de mim....


Quando menino – a vida em preto e branco –
eu era tão humilde que acabava brigando com o Natal,
com a Páscoa e, às-vezes-quase-sempre, até com o dia
do meu aniversário...

Então eu acabei optando por fazer de todos os dias
de minha vida o meu Dia de Papai Noel...
Como não posso distribuir presentes nem chocolates
para todos os encantadores de meu inquieto coração,
distribuo-lhes poemas...

O que hoje faz de mim o primeiro da fila
no dia de ganhar algum presente do amor
que eu tenho pela vida...

Afonso Estebanez

VIERNES SANTO

ACOMODO

LENTAMENTE

LAS ESPINAS

AL BORDE

DE MI PLATO

DE LEJOS,

LA SAMARITANA

APRUEBA

ESTE BANQUETE

CON UN CALIZ

DE COMPASIÓN

DOS CEDROS

EN CRUZ

ACOMPAÑAN

MI SILENCIO.

Y EL ROSTRO

ESQUIVO

DE CRISTO

PARECE QUE

SANGRA MENOS.

Gloria Kirinus

domingo, 1 de abril de 2012

ela não vai a uma festinha

para ouvir a melhor canção do mundo

para educar o seu cachorro

criar um conceito filosófico

... ninar o seu menino

para enxugar uma poça de sangue

ir de carona com um caminhoneiro

traduzir o velho Maiakóvski

para uma transa cautelosa com um cavalo no banheiro



ela não vai a uma festinha



para tirar suco das laranjas

para ouvir um conselho do avô

para um tratamento dentário

pegar um navio até o Caribe

posar nua diante de um pintor

discutir os campos da geologia

mastigar o avesso do fogo

para galopar em pelo sem ferradura



ela não vai a uma festinha



para o exercício da piedade

defender-se num processo judicial

passar horas sem fim na biblioteca

para morrer completamente

estar dentro de um soneto

escalar o pico Marumbi

tomar um copo quente de Nescau

para dormir num quarto rosa



Luiz Felipe Leprevost