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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Cioccolato





Este relato começa quase no final da volta que Roberto Gama costuma dar pelo hipermercado local, ao fim da tarde, arrastando o cesto de plástico com rodas que vai fazendo o troc-troc típico no piso de mosaicos. A certo momento, conferiu o que já levava: uma piza pré-cozinhada em forno de lenha, um frasco de azeitonas, leite, tostas, nêsperas... Para esse dia, chegava, mas, antes de se dirigir às caixas de pagamento, era altura de passar pelos corredores onde gostava de se apropriar de algum bem facilmente escamoteável: uma embalagem de fatias de presunto; uma caixa de preservativos; uma escova de dentes — tudo mercadorias achatadas e leves. Desta vez, escolheu um chocolate de leite de uma marca conhecida e, com a destreza do hábito, meteu-o por dentro da camisa previamente forrada de papel de alumínio, por causa da deteção eletrónica.
Como se percebe, esta prática a que ele chamava “taxa de cliente frequente” era mais um jogo lúdico e rebelde que lhe vinha da adolescência do que uma manha de falsário. Agradava-lhe uma certa tensão que sempre experimentava e gostava de pensar que introduzia uma minúscula, mas real, reposição de justiça de tipo “Robin Hood” nas relações comerciais que os magnatas das mercearias impõem ao grande público. Mas sempre sem exagerar, não se desse o caso de ser apanhado. Dirigia-se já para as caixas, quando deu de caras com uma antiga namorada no corredor das conservas.
— Roby! Que surpresa! — quase gritou ela, ao vê-lo. — Moras por aqui?
— Olá! Há quanto tempo! — exteriorizou também Roberto, em luta mental para se lembrar do nome da amiga. — Moro ali na Arroja. E tu?
— Moro em Loures. Vim à Loja do Cidadão e acabei por entrar aqui no Super.
— Que interessante! Não nos vemos desde quando?
— Eu sei lá… Para aí há dez anos. Eu devia ter uns vinte e cinco! Casaste?
— Não; e tu? Na altura foste atrás dum tipo mais velho…
— Não, não correu bem. Continuo solteirinha e boa rapariga… Nem sempre por opção… — riu-se com a graça da queixa.
Nesse momento, Roberto lembrou-se da tablete de chocolate. Desconfiou que tinha amolecido. Era natural; havia já um bocado que estava próxima do calor do corpo. Ainda mais agora…
— Olha, eu preciso de ir à casa de banho. Ainda vais fazer mais compras?
— Não, só levo aqui uma lasanha, para logo; e achei barata esta garrafa de vodka.
A passagem pela caixa não foi tão rápida como convinha a Roberto. A dupla tensão fez os seus estragos — começou a sentir nitidamente uma massa pastosa a escorrer-lhe pelo umbigo.
Depois de saírem, o problema já não parecia tão grave; só um pouco constrangedor. Prosseguiram a conversa pelos corredores do centro comercial, em direção ao parque de estacionamento.
— Roby; quem havia de dizer que te encontrava aqui! Lembras-te que nos conhecemos também num centro comercial? E tu não eras de modas… convidaste-me logo para ir ao teu quarto.
— Bons tempos! As paródias que a gente fazia…
— Tu eras muito maluco! Daquela vez que querias no elevador!
— Do elevador não me lembro; mas quando fomos apanhados no provador da Zara? — Roberto riu-se com gosto, relembrando o episódio. «Tinham sido tempos realmente desvairados. Como é que ela se chamava?»
Ela também se riu, comprazida com as recordações. Praticamente, saltitava ao seu lado. Para ele, estas lembranças estavam a piorar sensivelmente a situação. Fechou um pouco o riso quando sentiu que a pasta de chocolate estava cada vez mais fluida e vencera a resistência do cinto na cintura. A invasão das zonas íntimas não era completamente desagradável, mas não era o momento... De qualquer modo, tinha de se livrar rapidamente da companhia, para poder compor-se. «Mas, com esta conversa, não é o momento...»
— E as experiências que tu inventavas… Uma vez arranjaste ovos cozidos… Outra, chantili…Besuntámos o lençol todo. “Ganda” bodeguice!
— Olha se tivesse sido chocolate!
— Hum! Cioccolato! — o trejeito de deleite indicava que a sonoridade da língua italiana lhe trazia boas emoções. Sou doida por cioccolato.Era o que devias ter arranjado... Até o lambia...
Sabe-se que os mais brilhantes homens perdem parte da capacidade racional quando as funções cerebrais responsáveis pelo pensamento lógico são atordoadas pelas emoções. De um momento para o outro, Roberto deixou de se preocupar com a tablete liquefeita que descia pelo seu corpo e vislumbrou uma promessa de resto de diacomo antigamente. E, antes que o córtex pré-frontal retomasse o comando, saiu-lhe da boca o convite:
— Lá em casa tenho cioccolato…
— Maroto! E é bom o teu cioccolato? — perguntou ela, em tom insinuante.
— Do melhor. Suíço! — abriu-se Roberto em sorriso. — Vou só ali à casa de banho.
Aproximavam-se das casas de banho e da escada rolante para o estacionamento, quando a jovem reparou que as pessoas se viravam à passagem deles. Viu então que Roberto tinha os sapatos manchados e ia deixando um rasto de pingos castanhos. Estacou e encarou-o, em pedido mudo de explicações.
— É chocolate! — respondeu ele, confrangido, mas o esgar no rosto dela afastando-se indicava que não tinha sido convincente.
— Olha! Olha! Amiga! Eu posso explicar — lançou ainda Roberto, ignorando os olhares de censura que o cercavam.
— Regina! — respondeu a rapariga, virando o rosto sem abrandar o passo.

Joaquim Bispo

O caso Dodô



  
As referências ao estranho caso de Dodô são escassas e pouco elucidativas. Foi ao folhear números do Jornal de Anadia do ano de 1965, em pesquisas etnográficas, que encontrei uma pequena notícia no fim de uma página par. Não consigo reproduzir o texto, porque entretanto perdi a cópia, mas lembro-me que tratava de uma mulher que se tinha suicidado, após ter assistido a uma apresentação do Coro Paroquial de Arouca, no Teatro Bairradino. A notícia referia que o grupo coral carregava um histórico de outras mortes inexplicadas de espectadores e levantava suspeitas sobre uma possível influência perniciosa da soprano principal, a tal Dodô. Na altura, não lhe atribuí grande credibilidade. Sabemos bem como, por vezes, se empolam e se adulteram factos com “explicações” sem qualquer relação de causalidade.
Quis o âmbito da minha pesquisa que eu consultasse outros jornais da zona centro, algum tempo depois. O Vouzelense forneceu-me a segunda referência a Dodô: após o espetáculo coral na Casa do Povo, um homem atirou-se do viaduto ferroviário para as rochas. Não se conheciam à vítima problemas económicos ou depressivos. Desta vez, a curiosidade obrigou-me a maiores empenhos. Alarguei a minha pesquisa etnográfica ao jornal de Arouca, na esperança de encontrar outras referências a Dodô, na sua própria terra.
No Arouquense, em todos os anos de meados de 60, foram noticiados um ou dois casos funestos com espectadores do coro paroquial. Depois de vasculhar os arquivos do jornal, comecei a fazer perguntas pela terra. As memórias estavam invariavelmente “apagadas”, mas depois de ser empurrado de um lado para o outro, dei com um ancião disposto a falar. Era um ex-professor primário e tinha teorias próprias:
«Sim, conheci-a muito bem. Chamava-se Maria das Dores. Era de uma aldeia da Serra. Farta de frios e malpassar, veio para criada de servir, para uma casa dalém. Até aqui, tudo normal. No princípio da década de 60, o padre, influenciado pelo espírito do Vaticano II, resolveu criar um coro, e ela foi das primeiras a aderir.»
«O senhor nem imagina. A miúda tinha uma voz! Ia para lá do que é humano. O canto dela tocava-nos onde nada mais nos atingia. Ouvir o seu atormentado agudo de soprano solar o Stabat Mater Dolorosa,sobre os graves de mau agouro dos baixos, compungia todo o auditório. Parecia que entrevíamos o fim do mundo, cataclismos inomináveis. Inundava-nos uma angústia tão grande que se, no fim da peça, olhássemos em volta, iríamos deparar-nos com muitas faces inundadas de lágrimas. Havia quem soluçasse incontroladamente. Não me admiro que algumas pessoas não tenham aguentado e tenham praticado atos tresloucados, como diziam os jornais.»
«A música tem o que se lhe diga. Não sei se o senhor sabe, mas aquelas notas têm relações matemáticas exatas entre elas, que já Pitágoras tentou desvendar. Na Idade Média, a Música era uma das sete artes liberais que os homens ilustrados deviam estudar, como a Aritmética, a Geometria e a Astronomia. E é perigosa, sabe? Há algo de mágico e maligno naqueles doze tons. Doze, como os signos do Zodíaco. E como os apóstolos, em que um traiu. A música entra no nosso espírito sem licença, sem nós querermos. Retine e ecoa no mais íntimo de cada um. É absolutamente intrusiva, violadora, manipuladora. Nós podemos estar muito satisfeitos da vida, mas se formos atingidos pela melodia certa, podemos ficar taciturnos e sentir-nos os mais miseráveis dos humanos. Era o que acontecia quase sempre que Dodô atuava.»
No dia seguinte, rumei à aldeia de origem de Dodô, nos altos da Serra da Freita. Era um lugarejo humilde, quase miserável, encaixado numa dobra da serra, em que as habitações confinavam com currais, e as poucas pessoas conviviam com todo o tipo de detritos rurais. Consegui localizar uma prima, já bem velha, que me facultou alguma informação mais íntima.
Contou que, quando iam as duas buscar as vacas, no fim do dia, Dodô parecia por vezes embeber-se daquele silêncio global, só céu e serra, e ficava muito parada, como se contemplasse algo peculiar, que só ela via. Então, lançava um canto dorido que se estendia pela superfície do planalto escalvado, alcançava as serras mais afastadas e regressava num eco transmutado, entremeado por reverberações fantasmagóricas como miragens. Contou que, nessas alturas, toda a sua pele se arrepiava, como se uma multidão de pequenos seres invisíveis as envolvesse.
Para Dodô, aquele eco parecia funcionar como estímulo, e prosseguia em repetições de outros cantos, outros enleios, sempre tristes. Certo dia, com o eco, vieram lobos. Seis, cinzentos e de olhos amarelos. Contou que ficou paralisada de pânico, certa de estar no seu último dia, mas Dodô enfrentou os lobos, com um canto da serra, nostálgico, mas firme e destemido. As feras estacaram surpreendidas e, perante o tom enérgico e uivado do canto de Dodô, afastaram-se, dando mostras de algum receio. «Ela nunca falava nisso, mas, um irmão, um pouco mais novo, um dia perdeu-se na serra, ou caiu nalguma quebrada, e foi atacado. Quando o encontraram, estava quase todo roído pelos lobos.»
Resolvi visitar o planalto onde ambas se tinham confrontado com os lobos. Como então, o dia chegava ao fim. A aragem fria e sussurrante trazia apelos, rumores, ameaças. Em certo momento, o murmúrio cortante pareceu-me um canto humano, uma queixa dorida e muito aguda. Nunca me senti tão sozinho. Após uma luta de minutos contra a superstição e o medo, dei-me por vencido. Desatei a correr sem olhar para trás, absolutamente aterrorizado.
Abandonei ali a minha investigação da figura e da personalidade de Dodô. Nem quis visitar a sua campa. Só resolvi contar tudo isto agora, vinte anos depois, porque me lembrei do caso ao ler notícias recentes de um estranho suicídio na Serra da Freita.

Joaquim Bispo

A selva





Há muito que os homens saíram da selva. Não lhes servia tanta incerteza, tanto perigo de vida. Aos poucos, com avanços e recuos, organizaram-se para autodefesa, assistência mútua, caça. Criaram normas de funcionamento coletivo do grupo, muitas vezes tácitas, outras bem expressas. Para evitar aproveitamentos egoístas. Para que o grupo fosse o lar de cada um. E afastaram-se da selva e das suas práticas ferozes.
Sem que o percebessem, os animais observavam-nos, curiosos, e acabaram por conseguir copiar o Conselho da Tribo. Pelo menos em alguns dos seus aspetos formais. Chamaram-lhe o Conselho da Selva e funciona desde então. Reúne-se uma vez por ano, ou a qualquer momento, em sessão extraordinária, a pedido de algum grupo. Geralmente, é apresentado um problema, levantada uma questão, feita uma queixa ou uma reivindicação. Segue-se alguma troca de ideias, muita algazarra, mas por fim o Conselho costuma concluir com uma declaração por maioria absoluta.
Muitas e muitas reuniões do Conselho já aconteceram ao longo dos milénios. Da maioria não restou memória, mas de outras foram guardados registos, geralmente em cascas de árvores ou numa escrita indecifrável em campos pedregosos. Por exemplo, há uns sessenta anos, foi realizada uma reunião a pedido dos castores. Decorreu numa mata contígua a um rio nórdico. Dado o início, um castor barbado com ar envelhecido, tomou a palavra:
— Caros companheiros silvícolas, estamos fartos de cortar e transportar árvores de sol a sol, sem a ajuda de ninguém. Há milénios que o fazemos, sem lamúrias da nossa parte, nem razão de queixa, da vossa. As barragens vão-se construindo, com esforço nosso, que ninguém reconhece, mas com grande beneficio para todos. Continuaríamos a fazê-lo sem queixumes, se as condições não estivessem a mudar. Mas estão. Os nossos filhos precisam de acompanhamento, as nossas famílias precisam de atenção. Os tempos são de cuidados e apoio ao desenvolvimento dos jovens e de maior convívio familiar. Não podemos, não queremos, chegar a casa tão tarde e de ânimo derrubado por tanto trabalho. Daí, que chegámos a esta situação limite, em que temos de ser bem claros. Das duas, uma: ou algum dos excelentíssimos grupos aqui presentes se compromete a ajudar-nos a construir as barragens, ou não cortamos nem mais um galho depois das 17 horas. Gostaria que refletissem bem se querem os rios represados, de modo a servirem todos, ou se querem deixar a água ir-se embora.
Gerou-se um burburinho, mas que era habitual em cada Conselho. Algumas poucas vozes manifestaram-se a favor dos castores, mas a grande maioria estava até escandalizada com a desfaçatez daquela reivindicação. Ao fim de pouco mais de meia hora estava o consenso formado. Um gato gordo e lanudo foi o encarregado de resumir a superior posição conjunta do Conselho:
— Oiçam, amigos dentolas — declarou ele —, não venham para aqui com essa moda dos homens, das oito horas de trabalho, que aqui não há regras nem regulações; aqui é a selva!
A reunião foi dada por encerrada e não se falou mais nisso.
Há quarenta anos, foi a vez da passarada granívora pedir a reunião do Conselho. Decorreu num campo de centeio ressequido e já ceifado. Um pardal empertigado, mas nervoso, explicou a reivindicação da classe:
— Como sabem, recentes acontecimentos da área humana e suas decorrências provocaram uma grave rutura na já enfraquecida produção agrícola. Semeou-se muito menos, pelo que houve poucas searas. Temos estado a viver à míngua. Esquadrinhamos campos e mais campos, mas, entre grãos soltos e respigos, não conseguimos enganar a fome. O que reivindicamos é uma mesada, um papo mínimo de grãos, para podermos viver com dignidade, sem andar a pedir nem a roubar.
Como sempre, muito burburinho, alguma discussão e a sábia decisão do Conselho.
— Ó companheiros dos bicos direitos — explicou o falcão encarregado de divulgar a determinação —, vocês até podem ter muita razão, mas não se percebe aonde se iria armazenar tanto grão, quem iria administrá-lo, nem quem iria buscá-lo, nem aonde... Um tal pacto social obrigaria à criação de uma organização enorme, que iria agravar o problema. Além disso, vêm aqui fazer reivindicações, mas nenhum ser que viva na selva pode reivindicar quaisquer direitos. Isso de salários mínimos são modas dos homens. Aqui, cada um que trate de si; é a selva. Quem não aguenta arreia… Por que não se tornam carnívoros?
A reunião terminou com muitos piados tristes e outros irados, mas a vida na selva prosseguiu como antes.
Outras vezes se reuniu entretanto o Conselho da Selva, mas o plenário doano passadofoi especialmente participado e demorado. Fora solicitado por um amplo conjunto de animais, com as seguintes queixas:
— Tem havido muitos incêndios, há zonas em que o pasto desapareceu, mas há outras que se mantêm férteis — expôs um coelho. Seria sensato que se reservasse uma parte do pasto das zonas fartas, para apoiar as que o não têm.
Antes que houvesse oportunidade de se iniciar a vozearia, o presidente da mesa — um javali —, mandou avançar o segundo orador.
— Há muitos rios poluídos — alegou um sável —, os nossos irmãos têm que se deslocar para águas não poluídas, mas onde a comida não dá para todos — os que estão e os que chegam. Seria inteligente criar uma bolsa de comida para distribuir pelos carenciados.
Novo gesto rápido do javali, novo orador.
— A população cresceu, mas cada vez são menos as zonas livres de pesticidas, que envenenam larvas, insetos e minhocas — explicou um melro. — Os recursos, como estão distribuídos, não dão para todos. Deveríamos encontrar uma solução que permitisse que todos pudéssemos viver. Não faz sentido, nos tempos tão civilizados em que estamos, que uns vivam bem, sem dificuldades, sem preocupações de aonde ir buscar a comida, e que outros sobrevivam cada dia na angústia da fome.
“Sabem o que ouço dizer aos homens? — continuou o melro. — Como é público, eles inventaram máquinas para tudo, de modo que muitos serviços são feitos por elas, e os trabalhos que exigem mão humana já não chegam para todos. Não se trata de não quererem trabalhar; é que ora uns, ora outros, muitos são obrigados a ficar sem trabalho. E os subsídios de desemprego, que deviam tapar os buracos no sistema, afunilam e deixam muitos homens de fora. Em risco de fome. Como nós. Ouço-os discutir e dizer que as sociedades humanas e organizadas não deviam ser tão ferozes com os seus desempregados; que têm a obrigação humanitária e lógica de criar condições de vida para todos; que deviam inventar um sistema em que cada cidadão tivesse acesso a uma distribuição mínima, só por estar vivo. Para se manter vivo. Quer trabalhasse ou não. Se trabalhasse, juntaria essa remuneração extra ao tal rendimento incondicional e poderia viver mais desafogado. Posso garantir-vos que eles estão a pensar seriamente nisso. Mas, é claro, eles são inteligentes.
Gerou-se uma algazarra diluvial. O caso não era para menos e suscitava o desagrado, quando não a revolta, de grande parte do auditório. Foi precisa a intervenção áspera do presidente, para trazer alguma contenção à reunião.
— Tanto quanto sei — disse um cão —, eles gostariam de conseguir aplicar essa solução, mas não sabem aonde ir buscar tantos recursos para distribuir por todos. Alguns dizem que reservando metade de todos os rendimentos individuais, para distribuição equitativa geral, se conseguiria pôr o modelo em funcionamento.
— Isso não faz nenhum sentido, na selva! — adiantou-se um lobo. — Nós nascemos na selva e nela queremos continuar a viver. É na selva que desenvolvemos o nosso estado natural. Alimentamo-nos, procriamos, sobrevivemos. Conhecemos os nossos amigos, conhecemos os nossos inimigos, sabemos aonde procurar comida, sabemos onde nos esconder. Nós devemos manter impoluta a nossa natureza. Leis, direitos, proteções especiais só viriam desvirtuar-nos. A nossa lei é a da sobrevivência, que não é uma lei; é um estado. Os mais fortes comem os mais fracos, os mais espertalhões sobrevivem melhor do que os menos astutos. Com genuinidade, com luta pela vida, com ferocidade e esperteza. E é assim que deve ser.
Esta intervenção provocou um ribombar de aplausos e clamores de entusiasmo, perante os olhares desanimados dos queixosos, e praticamente determinou o parecer final do Conselho.
— Meus amigos — leu a coruja, muito compenetrada —, todos sabemos que a vida é difícil para quem vive na selva e que por isso muitos gostariam de experimentar soluções abstrusas, que lhes parecem boas, mas sabemos que é o idealismo a falar. Sempre assim vivemos, sempre preferimos a selva às malucas derivas dos homens. Não há nenhum homem que goste de viver na selva mais do que nós. A selva é um ambiente natural. Não tem leis. A preocupação que temos com os outros é se pertencem à nossa cadeia alimentar. E se os comemos é sem rebates de consciência, sem hesitações, sem rancor. E ninguém fica incomodado com isso. Cada um faz o que quer, se puder. Cada um tenta sobreviver como pode. É o nosso amado modo de vida. Sabemos que pode parecer cruel, mas tem a beleza inigualável da autorregulação. Nem todos vivem bem, nem todos sobrevivem, mas é assim; é a selva.
Desde então, não tem havido reuniões extraordinárias do Conselho.

Joaquim Bispo

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Na Praia do Osso da Baleia


Naquela altura, praticávamos geocaching, para tornar o exercício ciclista mais motivador. Ir à procura das caixinhas escondidas em locais aprazíveis, ou só curiosos, através da sua localização GPS, obrigava-nos a pedalar para chegar aos locais indicados no respetivo site da Internet, mas sem a carga de exercício físico obrigatório que o andar de bicicleta tinha tido até então. Isto, porque pedalávamos, quase diariamente, uma dezena de quilómetros, não tanto pelo gosto, mas para manter alguma forma física, aconselhável a um casal sexagenário.
Naqueles dias de férias, a nossa base era a Praia de Vieira de Leiria, uma localidade muito animada, em época de veraneio, mas que naquele meado de um setembro invulgarmente nebuloso, mesmo para aquelas paragens litorais, perdera parte do bulício habitual. No primeiro dia, fomos à procura de uma cache escondida junto ao parque de campismo da Praia de Pedrogão. Era um pequeno tupperware com um boneco pokemon e um caderninho minúsculo — coisa de miúdos. Assinámos: “Rolling biker 56” — o meu nickname — e “Fiftie Agnes” — o da minha companheira Inês.
No dia seguinte, fomos para sul, para encontrar, junto ao farol de São Pedro de Moel, num buraco da falésia em que pescadores amadores se empoleiram para lançar as linhas ao mar, uma caixa de VHS com três florinhas secas e um pequeno texto: «Este farol chamado “do Penedo da Saudade” foi construído no promontório onde, segundo a lenda, a duquesa D. Juliana Máxima de Faro, dona destas terras, vinha, através destas flores chamadas “Saudades” e que só aqui crescem, relembrar o marido, mandado executar pelo rei D. João IV, no século XVII.» Assinámos também o registo, conforme a norma.
No terceiro dia, rumámos a norte, para a zona da Lagoa da Ervedeira — zona bonita e ainda arborizada, felizmente poupada aos grandes incêndios de 2017. Não foi fácil encontrar a cache escondida num pinhal, uns quilómetros depois. Até aonde a vista alcançava, a paisagem, que acompanhava a ondulação arenosa do solo, era um mar lúgubre de pinheiros queimados, com os seus braços negros e nus pedindo clemência. Com eles, ardeu, provavelmente, a caixinha que procurávamos. Decidimos que só podia ser um resíduo plástico calcinado que encontrámos no local que as coordenadas GPS indicavam, junto a um tronco queimado. Como passava pouco das três da tarde, resolvemos continuar para uma cache escondida na Praia do Osso da Baleia, a uns doze quilómetros, segundo indicava o GPS.
Pedalar com um objetivo definido é bem mais fácil do que fazê-lo para cumprir um número de quilómetros definido. Como, além disso, as autarquias dotaram toda aquela zona costeira de ciclovias ao longo das estradas principais, o nosso exercício podia ser um passeio aprazível, apesar do céu nublado; infelizmente, o aspeto desolador da paisagem acabrunhava-nos. Os pinheiros, já de si retorcidos por ação dos ventos marítimos, assim reduzidos a troncos negros sugeriam formas espectrais inquietantes. Pedalávamos calados, de olhos no ecrã de GPS, lançando olhares apreensivos à multidão tétrica e torturada que nos envolvia.
Entretanto, lembrámo-nos do crime horrendo que aconteceu naquela mesma praia há uns trinta anos, em que um tipo, aparentemente normal e integrado, matou a mulher, a filha e mais cinco amigos com quem estava a confraternizar na praia. O que fará alguém enlouquecer de um momento para o outro? Que transtorno mental invadirá o cérebro de uma pessoa e a fará não reconhecer os seus próximos, ou, reconhecendo-os, odiá-los ao ponto de os matar à machadada? Ainda que incomodados com a evocação, decidimos que não havia, atualmente, nenhum motivo para evitar aquela praia e falhar o nosso objetivo.
A Praia do Osso da Baleia não tem uma povoação associada, não tem um restaurante nem um bar, nada. Pelos vistos, não passa daquela enorme extensão de areia, na altura, nevoenta, apoiada por um pequeno parque de estacionamento, então, deserto. O GPS fez-nos subir a duna baixa que nos separava da praia e caminhar uns trezentos metros para sul, mas nada havia ali, além de areia, naquela base de duna a cem metros da água. No entanto, o localizador por satélite era claro: «Chegou ao seu destino!».
Depois de uma inspeção mais atenta, descobri uma pequena ponta negra a emergir da areia. Ali comecei a escavar com o canivete suíço, que anda sempre comigo. Não tardou que embatesse em algo rígido, que retiniu. Parecia um antigo frasco de compota ou de azeitonas e estava enterrado no que poderiam ter sido os restos de uma fogueira. Olhámo-nos sem dizer nada, a apreensão no olhar.
O interior era visível e mostrava apenas o que parecia uma pequena placa óssea. Abrimos o frasco e percebemos que a placa estava esgrafitada. Consegui ler: «Nós que aqui estamos», de um lado e «por vós esperamos», do outro.
O choque destas palavras tão simples, mas tão simbólicas, que aparecem escritas em cemitérios e “alminhas” um pouco por todo o país, foi brutal. Naquele momento, por coincidência, correu uma brisa fria e pareceu-nos que o nevoeiro se adensou. A Inês recuou dois ou três passos, o olhar em pânico. Eu larguei aqueles objetos, como se queimassem, a tentar racionalizar. «Que raio! Quem teria feito uma maldade destas? Brincadeira estúpida!»
— Quero ir-me embora — articulou, por fim, Inês.
— Estúpidos! — resmunguei eu, enquanto pegava no braço dela e nos encaminhávamos para a estrada.
Na parte norte da praia, avistámos a vaga imagem de um grupo de seis ou sete pessoas, que pareciam sentadas e reunidas em círculo, talvez à volta do início de uma fogueira. Não as tínhamos visto ao chegar, mas aquela visão de normalidade reconfortou-nos. Ver membros da nossa espécie num local inóspito transmite-nos um sentimento de segurança, de solidariedade potencial. Passou-me pela cabeça, momentaneamente, a ideia de nos aquecermos um pouco, antes de partirmos, porque a temperatura tinha caído fortemente. Uns metros andados, pareceu-nos que olhavam para nós. Para quebrar o desconforto, acenei-lhes. Não responderam.
— Quero-me ir embora! — acentuou Inês.
— Tem calma!; está tudo bem — tentei eu sossegá-la, mas pouco convencido.
Nesse momento, levantaram-se dois ou três vultos e começaram a dirigir-se para nós.
— Calma! Não dês a entender que tens medo — disse eu, para travar a minha parceira que apressara muito o passo.
Entretanto, calculava distâncias, apesar do nevoeiro cada vez mais cerrado. Nós estaríamos a duzentos metros da passagem da duna, mais cinquenta até às bicicletas. Eles estariam a uns trezentos metros da passagem da duna. Com passo ligeiro chegaríamos antes deles, sem problema. Além disso, não tínhamos razões para temer ameaças vindas daquelas silhuetas, embora escuras. Era só uma questão de prudência. O homem pode ser a salvação de outro homem, mas também pode ser a sua perdição. E, em locais ermos, uma pequena diferença de força ou de número pode transformar os homens em predadores brutais. Impregnados de “selva”.
Nessa altura, levantou-se vento vindo de norte. Empurrava-os a eles e travava-nos a nós. Procurei conter o pânico, mas Inês já tentava correr, sem grande êxito. Chegámos à passagem, quando os três desconhecidos, com os outros mais atrás, já pareciam demasiado próximos, mas sem conseguirmos distinguir-lhes as feições. Então, já gesticulavam e gritavam. Ou assim parecia, por causa do vento.
Corremos para as bicicletas e arrancámos, desvairados, Inês à frente e eu, sem olhar para trás, concentrado na pedalada. Durante aqueles metros iniciais de inércia da bicicleta, ouvi distintamente as pancadas dos pés deles, em corrida, mesmo atrás de mim.
— Acelera, Inês — gritei, apavorado. — Se me apanharem, foge tu!
Eu sabia que lhe apetecia gritar e chorar, mas aguentou uma pedalada vigorosa, durante centenas de metros, demonstrando um sangue-frio notável. Aos poucos, para minha grande surpresa, as passadas pesadas dos nossos perseguidores deixaram de se notar. Ouvia-se só o som soprado do vento nos troncos calcinados, a abafar o ruído rastejante dos pneus no asfalto vermelho. Olhei, enfim, para trás, mas só discerni o trilho deserto da ciclovia. Talvez uma hora depois, estávamos no quarto do hotel.
Raramente voltámos a falar daquele anoitecer na Praia do Osso da Baleia. Não sabemos o que vimos ou o que pensámos que vimos. Não faço ideia do que veria, mas tenho para mim, que, se naqueles momentos iniciais da fuga me tivesse distraído um momento a olhar para trás, não estaria aqui para contar.

Joaquim Bispo

*
Por seleção em concurso literário, este conto integra (páginas 112 a 114) a coletânea MIRAGE — Miscelânea de Narrativas Irreais, do projeto “Delírios” do coletivo editor Coverge, Curitiba, Brasil:

https://pt.scribd.com/document/409016246/Mirage-Miscelanea-de-Narrativas-Irreais

fonte : samizdat oficina editora


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O coelhinho medroso





Era uma vez um coelhinho cinzento que vivia num campo de beringelas. Durante o dia, corria e saltava feliz, comia e dormia à sombra das plantas; à noite tremia de frio, e de medo de ser apanhado e comido por algum monstro. Dormia ao relento, porque jamais entrara numa toca, com medo que ela lhe caísse em cima e o esmagasse. Até a vista de um buraco numa árvore o assustava, por não saber o que tinha lá dentro.
Certa vez, passou por aquele lugar uma menina de vestido branco e longos caracóis castanhos, que andava a passear, porque se aborrecia de estar em casa, e encontrou o coelhinho, com cara infeliz, aninhado entre dois troncos.
— Por que estás triste, coelhinho cinzento? — perguntou ela.
— Gostava de ter uma toca para me recolher, como os outros coelhinhos, mas tenho medo que a toca me caia em cima e me esmague — respondeu o coelhinho, timidamente.
— Por que é que havia de te cair em cima, coelhinho? Sê corajoso! — animou a menina — Não sabes preparar uma toca?
— Não — lamentou-se o coelhinho cinzento — nunca ninguém me ensinou.
— Oh! — condoeu-se a menina, fazendo-lhe uma festinha na cabeça — eu ensino-te.
E assim, durante a tarde inteira, com muita paciência e ternura, ensinou o coelhinho a preparar uma toca, para que ela não lhe caísse em cima. Ensinou-o a escolher um bom local meio escondido pelas ervas, a afastar a terra, a abrir caminho com as patinhas, a alisar as paredes com pequenas marradinhas. Quando a toca já estava de bom tamanho e com aspecto confortável, disse a menina:
— Agora, coragem coelhinho! Esta toca está muito bem preparada e de certeza que não vai cair-te em cima. Entra à vontade, coelhinho!
E dava-lhe palmadinhas de encorajamento. O coelhinho, vendo como a toca parecia segura e acolhedora, e cheio de confiança pelo incentivo da menina, esticou o peito, em atitude resoluta, e entrou.
Na verdade, a toca era o local mais confortável e seguro onde alguma vez já tinha estado. Apetecia-lhe ficar lá dentro para sempre. Nem acreditava como tinha passado tantas noites a tiritar de frio e de medo. Quando saiu para agradecer à menina, esta pegou nele ao colo, e despediu-se com um abraço apertado. O coelhinho, comovido, não pôde evitar uma lágrima de ternura e gratidão. Desde então, todas as noites se recolhe à toca, confiante e feliz.

Joaquim Bispo

O retrato do juiz



  

O pintor contemplava o retrato do juiz no cavalete e os seus olhos teimavam em fitar o olhar incisivo do retratado, muito firme, muito intenso. Parecia vigiar-lhe cada movimento. Era perturbador. O cliente já devia ter ido buscar o quadro há duas semanas, mas não havia maneira de aparecer. Júlio começava a ficar impaciente. Não que o dinheiro lhe fizesse muita falta, mas o olhar do retrato inquietava-o. Cada vez que o observava, parecia encontrar-lhe novos aspectos fisionómicos. Como se tivesse vida. Era, sem dúvida, das suas obras mais conseguidas.

Desde novo que, nas suas mãos, as telas se povoavam de figuras, umas cândidas, outras austeras, umas históricas, outras, que podíamos esperar encontrar na rua, representadas com uma naturalidade notável. Manobrava os pincéis com destreza, como se já tivesse muitos anos de prática. Quase sempre fazia as misturas das cores na paleta mas, em obras de maior arrebatamento, aplicava as cores puras directamente na tela, em empastamentos de força cromática avassaladora.
Com o tempo, percebeu que o retrato próprio era das imagens que as pessoas mais prezavam e passou a especializar-se nesse género, adoptando Columbano como referência. Ao seu “atelier” da rua de S. Paulo, em Lisboa, acudiam militares, magistrados, catedráticos, políticos. Cavalheiros graves em fundo escuro e damas vistosas em “toilettes” requintadas nasciam nas suas telas. Os olhares eram sempre inteligentes, a pose sempre nobre e elegante.
Ultimamente, a clientela já não abundava mas Júlio, de sessenta e três anos escorreitos, gostava do que fazia e tencionava continuar a trabalhar indefinidamente.
O último cliente fora este juiz. Tinha querido pagar a totalidade do trabalho, mas Júlio aceitara apenas metade; o resto seria pago contra a entrega da obra. Era um cliente fácil. Chegava sempre pontualmente às nove da manhã, no seu fato preto impecável, e mantinha-se firme na pose escolhida, durante as duas horas da sessão. Era de poucas falas, mesmo no pequeno intervalo que faziam a meio.
O rosto, que era a parte mais delicada e a que dava mais trabalho, foi nascendo, mancha a mancha nas carnações da face, pincelada a pincelada nos fartos cabelos grisalhos e nas sobrancelhas rectas e espessas. Ao fim de duas semanas, os olhos vivos e inquisidores do juiz acenderam-se na tela como se fossem reais. Pouco depois, Júlio disse ao cliente que só faltava rematar os fundos e que podia ir buscar o retrato daí a uns dias.
Tinham-se passado três semanas e o juiz não aparecia.

O retrato estava muito realista. Júlio olhava-o e não conseguia evitar uma inquietação difusa. Começava a tornar-se uma obsessão.
Não ficara, do juiz, com mais que o nome e a morada, rabiscados num papel. Pensou em telefonar-lhe, mas das Informações disseram-lhe que aquela morada não tinha telefone fixo. Resolveu procurar o cliente, pessoalmente. Apanhou o comboio para Carcavelos e, lá chegado, foi perguntando até encontrar a casa do juiz. O que descobriu não podia ser mais perturbador.
Realmente, ali era a casa do juiz, mas ele não estava. Nem ele nem ninguém. Perguntando à vizinhança, soube que a casa estava abandonada desde que o juiz morrera, havia quinze anos.
Júlio deixou-se cair num banco de jardim e ali ficou, sem tomar conta das horas, mergulhado num assombro de que não sabia como sair. Se havia coisa com que não sabia lidar era com o sobrenatural.

Desde então que Júlio não pinta. No primeiro mês após a traumática revelação, só voltou ao “atelier” uma única vez. Tornar a encarar aquele olhar foi aterrador. Podia jurar que o juiz o olhava de cenho mais carregado, num misto de tensão e recriminação. Voltou a face da tela para a parede, mas Júlio continuou a pressentir a intensidade do olhar através dela. Sentiu medo. Saiu rapidamente, ofegante, sem saber o que fazer, sem vontade de voltar.
Em casa pensou que, se calhar, estava na altura de parar de pintar. Foi falar com um amigo, vizinho do “atelier”, que há tempos se propusera comprar-lho para alargar a sua loja de aprestos marítimos. Fizeram negócio, depois de o amigo aceitar ficar também com o recheio.
Júlio recolheu-se à sua pequena casa de Montemor, sobranceira ao vale de Loures, disposto a desanuviar o espírito, mas não o tem conseguido. Passa as tardes na varanda, de olhar perdido no horizonte. Não consegue tirar da cabeça o olhar mau do juiz. Nem consegue entender que intuito teve ele, ao voltar do outro mundo e lhe encomendar o retrato.

Por um desses dias, na sua casa de Azeitão, Armando Magalhães levantava-se da mesa e improvisava um pequeno discurso para uma dúzia de familiares reunidos à volta do almoço dominical:
– Meus queridos, é com agrado e enorme orgulho que celebro convosco a próxima expansão da nossa pequena empresa. Foi um negócio bem sucedido de que todos saíram a ganhar, como gosto que sejam todos os nossos negócios. Ganhámos nós e ganhou o Sr. Júlio, que agora pode gozar uma bem merecida reforma. Era um grande artista. Vejam como ele captou o olhar austero do tio – apontava Armando o quadro na parede. – Aliás, quero fazer um agradecimento muito especial ao tio Jerónimo, pelo esforço que fez de ir todas as manhãs a Lisboa e assumir tão bem aquela personagem. Sem a sua ajuda, talvez não tivéssemos conseguido o que há tanto tempo pretendíamos: a expansão do nosso armazém de vendas e do nosso negócio. Obrigado tio! E faço questão, é claro, que fique com o quadro. Bem o merece! De qualquer modo, estamos todos de parabéns. Por isso, peço que me acompanhem num brinde.
Armando levantou um copo e pronunciou a fórmula habitual:
– A família é a nossa fortaleza. À família!
Todos se levantaram, de copo na mão, respondendo em coro:
– À família!
O brinde terminou com uma longa salva de palmas, que comunicou, ao espírito de cada um, o enternecimento de quem se sabe participante no bom sucesso de um projecto comum.

Joaquim Bispo

[Conto publicado pela primeira vez em 2007, na edição resultante dum concurso de contos promovido pelo site Ora, vejamos... em que obteve um 3º lugar ex-aequo, entre 67 candidatos]

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Passeante invisível

Nunca ninguém o viu. Nunca ninguém se deparou com ele ao dobrar uma esquina, fosse noite ou dia. Nunca ninguém duvidou que ele se passeava invisível por toda a cidade. Alguns afirmavam ter entrevisto sombras que eram indubitavelmente do passeante invisível. Alguns afirmavam ter ouvido sons abafados, momentâneos arrastamentos de pés, que comprovavam que ele se passeava por ali.
A cidade é feita de muitas estruturas artificiais. Os homens precisam de um lugar coletivo para viver. Estarem juntos dá conforto e segurança, mas demasiada proximidade torna-se inquietante. Estar a sós com outro homem numa rua deserta, noite alta, é tão ou mais assustador do que enfrentar os silêncios e os ruídos da noite na floresta, na serra, no campo. Os homens precisam de estruturas, muros que os separem dos outros homens. O passeante invisível construira a cidade, mantinha as estruturas fortes, escorraçava os inimigos, assegurava os fornecimentos. Ele é forte e destemido; passeia-se por toda a cidade, sobretudo no ermo da noite. Dizem. Porque veem sombras, ouvem certos sons reveladores, porque só pode andar por lá, invisível.
— Olhem, lá vai a sombra dele, por entre os pilares daquelas arcadas — diz um.
— Olhem, vi agora mesmo um reflexo dele no vidro daquela montra — assevera outro.
Ninguém punha em dúvida estes avistamentos fantasmáticos. Toda a gente sabia que o passeante invisível andava por lá. Nalgum sítio havia de estar: nas arcadas, nos vãos das portas, nas gares rodoviárias ou marítimas. Os seus sinais vislumbravam-se sempre a desaparecer por detrás de alguma estrutura da cidade. Ele andava lá, mas invisível.
Conta-se que, em tempos que ninguém já recorda, um jovem, irreverente como todos os jovens, ao ouvir alguém dizer, pela milésima vez, que acabara de avistar a silhueta do passeante invisível, não se conteve, como seria prudente:
— O passeante invisível não existe!
Um grande burburinho se gerou entre os que ouviram tal dislate. Quiseram bater-lhe, ou então que retirasse o que tinha dito, que pedisse desculpa.
— Quem é que achas que construiu a nossa cidade, mantém as estruturas fortes, afasta os nossos inimigos e assegura os fornecimentos de que a cidade precisa? — confrontaram-no.
O jovem ainda tentou persistir no erro, mas compreendeu que estava isolado e desacreditado. Pediu desculpa.
O alcaide, no entanto, não hesitou em tomar medidas que devolvessem à população toda a confiança eventualmente perdida e até a reforçassem. Emitiu um edital anunciando que, a partir de então, por especial mercê do passeante invisível, ele passaria a usar uma roupa que o tornasse visível e identificável. Além disso, quem quisesse ver a roupa por ele usada, bastaria dirigir-se à alcaidaria onde estaria exposta numa câmara junto à entrada.
Os muitos cidadãos que lá acorreram viram o que parecia andrajos de mendigo, dado o seu aspeto miserável, mas todos compreenderam que eram os mais adequados para alguém tão humilde que evitava mostrar-se. A confiança de todos fortaleceu-se. O passeante invisível continuava a proteger a cidade e agora podia ser visto. E mais frequentemente passaram a avistá-lo nas arcadas, nos vãos das portas, em outros abrigos precários. Se não era ele, parecia, pelos trajes.

Joaquim Bispo



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