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terça-feira, 9 de julho de 2019

Maxixe




O chocalho dos sapos coaxa
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca
boba
chocha.


Guilherme de Almeida

Arco-íris



Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.


Guilherme de Almeida

Haicais de Guilherme de Almeida


 (Haicais)

Os andaimes
Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

Pescaria
Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Janeiro
Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

Infância
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

De noite
Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Romance
E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

Festa móvel
Nós dois? - Não me lembro.
Quando era que a primavera
caía em setembro?

O haicai
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.


Rua




A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
omnívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejecta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.


 Guilherme de Almeida

Humorismo




Sossego macio da tarde.
Um sol cansado
passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.
E o sol vai caminhando sobre os montes tranqüilos
vai cochilando. E de repente
tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.


 Guilherme de Almeida