sábado, 31 de outubro de 2015


Eu escrevi há algumas horas, que nas minhas festas infantis, costumava colocar papéis com poemas dentro das bexigas de aniversários.
Mas, antes de aprender a escrever, eu já tinha atitude semelhante.
Lá, pelos meus cinco anos de idade, notei que quando um balão se estourava, a criança que era a sua “dona” chorava no mesmo instante.
Então, nos preparativos do meu aniversário, comprei estrelinhas de papel cintilante na papelaria. Assim coloquei constelações em cada bexiga de borracha que soprava. Desta maneira, na hora da comemoração, quando de repente um balão se estourou, a menina que estava brincando com ele fez cara de choro. Porém, quando ela avistou a chuva de estrelas, que caia do alto, ficou encantada e deu um sorriso. Deste jeito, a minha festa virou uma tempestade de astros cadentes e ninguém mais derramou lágrimas.

( Confissões da Tia Lu )


Luciana do Rocio Mallon

Carta de Graciliano Ramos para a irmã Marili: duro e valioso conselho a quem escrever




Rio, 23 de novembro de 1949.

Marili: mando-lhe alguns números do jornal que publicou o seu conto. Retardei a publicação: andei muito ocupado estive alguns dias de cama, a cabeça rebentada, sem poder ler. Quando me levantei, pedi a Ricardo que datilografasse a Mariana e dei-a ao Álvaro Lins. Não quis metê-la numa revista: essas revistinhas vagabundas inutilizam um principiante. Mariana saiu num suplemento que a recomenda. Veja a companhia. Há uns cretinos, mas há sujeitos importantes. Adiante. Aqui em casa gostaram muito do conto, foram excessivos. Não vou tão longe. Achei-o apresentável, mas, em vez de elogiá-lo, acho melhor exibir os defeitos dele. Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas da nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupas. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos. E você não é Mariana, não é da classe dela. Fique na sua classe, apresente-se como é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso. A técnica é necessária, é claro. Mas se lhe faltar técnica, seja ao menos sincera. Diga o que é, mostre o que é. Você tem experiência e está na idade de começar. A literatura é uma horrível profissão, em que só podemos principiar tarde; indispensável muita observação. Precocidade em literatura é impossível: isto não é música, não temos gênios de dez anos. Você teve um colégio, trabalhou, observou, deve ter se amolado em excesso. Por que não se fixa aí, não tenta um livro sério, onde ponha as suas ilusões e os seus desenganos? Em Mariana você mostrou umas coisinhas suas. Mas – repito – você não é Mariana. E – com o perdão da palavra – essas mijadas curtas não adiantam. Revele-se toda. A sua personagem deve ser você mesma. Adeus, querida Marili. Muitos abraços para você.

Graciliano.

Você com certeza acha difícil ler isso. Estou escrevendo sentado num banco, no fundo da livraria, muita gente em redor me chateando.

Carta extraída da Revista Graduando, núm. 1 jul/dez 2010

fonte : https://fluxoeditora.wordpress.com/2015/09/29/carta-de-graciliano-ramos-para-a-irma-marili-duro-e-valioso-conselho-a-quem-escrever/



Poesias de Jovino Machado

lúcifer no cio

seu próximo passo
é retocar o batom
e assassinar
o amor que não existe

seu próximo passo
é pintar as unhas
e furar os olhos
da menina triste
que quer ser madonna

seu próximo passo
é usar os novos brincos
e derrubar do viaduto
o menino pobre
que quer ser guevara

seu próximo passo
é escolher a minissaia
e comprar a alma

do último trovador



enxofre

nem o perfume

da chuva azul
da brisa da tarde
do azeite de oliva
do chanel número 5
da coxa da marlyn
do sexo selvagem
do vinho tinto
do quarto de hotel
do esmalte vermelho
do salmão defumado
dos versos vazios

vão dissipar o seu cheiro de enxofre





educação sentimental


como abortar um amor

não é uma lição

que pode ser estudada na biologia

mas pode ser apreciada

em qualquer antologia




cachorro

a palavra que me mata
é a mesma que me ressuscita
me agradar é difícil
como pisar na sombra
me desagradar é fácil
como cuspir pra cima
sou como um cachorro
vou onde me dão
comida e carinho
mas não é bom brigar comigo
tenho memória de cão vingativo
e fico imensamente triste
quando o mundo não me obedece

Jovino Machado nasceu em Formiga ( MG ), em 1963. Foi criado em Montes Claros e vive em Belo Horizonte. Publicou 15 livros de poemas: Só poesias (1981) , Em cantos e versos ( 1982 ), Uma mordida para cada língua ( 1985 ), Deselegância discreta ( 1993 ), Trint' anos Proust' anos ( 1995 ), Disco ( 1998 ), Samba ( 1999 ), Balacobaco ( 2002 ), Fratura exposta ( 2005 ), Meu bar meu lar ( 2009 ), Cor de cadáver ( 2009 ), Amar é abanar o rabo ( 2009 ), Cantigas de amor & maldizer ( 2013 ), Meu jeito bêbado de ser ( 2015 ) e SOBRAS COMPLETAS ( 2015 ). Tem poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, Revista Poesia Sempre, Jornal Rascunho, Jornal Cândido, entre outras publicações. Publicou poemas e entrevistas com personalidades do teatro, do cinema e da literatura no no portal www.cronopios.com.br, na revista eletrônica GERMINA - REVISTA DE LITERATURA & ARTE e no blog Blog do jovino machado - UOL Blog...



NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO


Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse
me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo
Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada
A gente ia rir como nos bons tempos
com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade
e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno
Você me prometeu uma vida
sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo
Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim
e fui estúpido e inocente o suficiente
pra acreditar em você
Agora quando eu olho pra essa parede vazia
apenas com o retrato da Sasha Grey na parede
é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim
Eu só precisava perder o medo de te perder
pra não ter mais medo de nada

(Mário Bortolotto)

CAMINHA INVISÍVEL


Caminha invisível o amor
na multidão doída e apressada
entre olhares dispersos.
O amor caminha só,
anjo atravessado por passos rápidos.
É menos do que um mendigo o amor
na hora do rush, na plataforma dos trens
e a cidade incandesce
minutos antes do pôr do sol.

Francesca Cricelli .

Está no seu livro, REPÁTRIA (Selo Demônio Negro,2015)

Sobre Emil Cioran

 O primeiro livro que li dele foi '' Breviário da Decomposição '' em 2004, a identificação foi imediata; depois dois outro, que li em italiano, embora comprados na mesma ocasião, só iria ler alguns anos mais tarde (2009 e 2011). O niilismo e pessimismo dele, e o senso agudo da decadência ,foram marcas visíveis para mim -- então um niilista na época. Um fato perceptível , porém, não translúcido ao leitor , é sua paradoxal crença espiritual através da negação , alguém que tenha estudado Santo Tomás de Aquino , entenderá; - Cioran, ironiza o cristianismo e ao mesmo tempo acusa a modernidade de tê-lo eliminado em nossa civilização, às vezes mais parecia ser um cismático do Oriente Europeu que temia aderir o catolicismo, e não iria aderir a nada, pois entender o nada com o mesma revolta do absurdo de um Camús, foi a meta do filósofo - sem dúvida o exílio era a condição ímpar no longo percurso da reflexão que aborda a decrepitude e a inevitável autodestruição do Homem. Era um insone convicto e portanto alguém fadado a pensar demais, e ele pensou, as vigílias de seu limbo dissecam os muitos limbo da vida humana. O cardeal Gianfranco Ravasi em um excelente artigo sobre o filósofo cultor de desesperos em seus cumes, escreveu : " Este inclassificável escritor-pensador, em 1937, aos 26 anos, emigrou para Paris, onde viveu até a morte, em 1995. Foi estrangeiro para a sua própria pátria, cujo nome tinha suprimido de seu registro civil, abandonando inclusive seu idioma natal. Foi estrangeiro no país que o acolheu, por causa do seu constante isolamento: "Eliminava do meu vocabulário uma palavra após a outra. Acabado o massacre, só uma sobreviveu: solidão. Despertei satisfeito".Estrangeiro, por último, para Deus, apesar de Cioran ser filho de um sacerdote ortodoxo. Tão estrangeiro que se inscreveu na "raça dos ateus", mas viveu com a ânsia insone de seguir o mistério divino. "Sempre rondei a Deus como um delator: sem ser capaz de invocá-lo, eu o espionava". A sua obra é produto de um eremitério ora niilista, ora quase crente ... viveu tentado entre Deus e o diabo , até em seu eremitério ,era estrangeiro , todavia , não exilado.

Tullio Stefano Sartini

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lenda do Preso Que Tentou Escapar Disfarçado de Idosa


Reza a lenda, que neste final de semana, um marginal que já foi preso por crimes como: roubo, tráfico e violência à mulher, tentou escapar disfarçado de idosa com uma máscara de silicone.
Com certeza, o bandido não tinha a meiguice das trans e nem a criatividade das drags. Pois ele foi descoberto através da maneira patética de andar.
Seria bom que este detento fizesse a última prova do ENEM. Pois através do texto, de Simone de Beauvoir, ele descobriria que ninguém nasce mulher, torna-se mulher.
( Tia Lu Muito Irônica)

Luciana do Rocio Mallon

Lendas Brasileiras Com Personagens Assexuais

  
Assexual é a pessoa que não sente atração sexual e nem tem vontade de fazer sexo.
Alguns personagens de nosso folclore, que leremos abaixo, podem ser considerados assexuais:
Vitória-Régia:
Numa aldeia do Norte do País, existia uma índia chamada Naiá. Vários homens queriam se casar com ela, mas a moça sempre recusava os pretendentes. Pois vivia dizendo que preferia se casar com a Lua e virar estrela a deixar um homem tocar em seu corpo. Porém seus conhecidos sempre diziam:
- Você não pode ser levada para a Lua e virar estrela porque você é muito bonita. Por isto precisa se casar e conhecer as delícias da paixão.
Porém, todas a noites Naiá, ficava admirando a Lua.
Numa madrugada em que o luar estava forte, esta donzela chegou à beira do rio e viu a imagem da Lua refletida nas águas. Assim ela pensou que a Lua estava se banhando e tentou abraçar o satélite natural. Porém, como não sabia nadar direito, morreu afogada. A Lua ficou com pena e transformou a índia numa planta aquática chamada Vitória Régia. Dizem que por Naiá ter morrido virgem, suas flores são perfumadas e brancas.
Esta índia seria o que chamamos de uma pessoa assexual romântica.

Amazonas
O mito das Amazonas, corajosas e feministas, vem da Antiga Grécia. Reza a lenda que por elas serem de uma raça superior não sentem desejo sexual e só usam os homens para a reprodução. Por isto, costumam viver em aldeias, exclusivamente, de mulheres. Elas costumam cortar o seio direito para melhor manusear as armas. Mas tem o poder de escolher os tipos de homens com as quais desejam reproduzir. Se a criança nasce menino elas dão para o pai criar, porém se nasce menina, estas mulheres levam a pequena para a aldeia com o fim de educa-las, o que para as Amazonas, não é tão difícil porque estas garotas já vem com a genética das guerreiras e o dom de não ter interesse sexual.
Dizem que as Amazonas chegaram à Região Norte do Brasil através do Estreito de Bering.
Em 1540, o explorador espanhol Francisco Orellana, fez parte de uma jornada exploratória na América do Sul, cruzando, então, o rio que penetrava uma das mais misteriosas florestas. Reza a lenda que ele teria visto no reino das Pedras Verdes, mulheres sem um dos seios, conhecidas pelos indígenas como Icamiabas, expressão que tinha o sentido de ‘mulheres sem marido’. Assim, estas moças derrotaram os brancos com seus arcos e flechas.
O estado do Amazonas recebeu este nome por causa da lenda destas moças.
As Amazonas são exemplos de assexuais arromânticas, pois não querem viver um relacionamento e o sexo é só para a reprodução.
A Virgem do Velório
Esta lenda tem diversas versões em muitas partes do país. Mas me baseei num causo de Curitiba, na cidade do Paraná.
Em toda a cidade, sempre existe a figura de uma senhora solteirona que namorou pouco na juventude, é tímida, inteligente e diz a todos que permanece virgem. Por isto, torna-se vítima de bullying da vizinhança, que sempre costuma dar apelidos pejorativos a esta figura como: geladeira, frígida, etc.
Nos anos setenta, uma senhora, com estas características, faleceu em Curitiba e no seu velório dois moços fizeram o seguinte diálogo, em voz alta:
- Será que ela era virgem?
- Eu duvido!
Naquela noite, a senhora morta apareceu nos sonhos dos dois e disse-lhes:
- Eu, realmente, sou virgem. Tanto que os anjos me deram esta autorização, de descer à Terra e falar isto a vocês.
Reza a lenda que quando uma mulher virgem e que, nunca teve desejos sexuais, morre é melhor não duvidar de sua honra. Pois, ela pode aparecer em seus pesadelos.

Luciana do Rocio Mallon

Por 30 Moedas



eu tenho medo...
daqueles que
não se indignam com nada
receio dos indiferentes
desconfio dos que só elogiam

tenho vergonha...
dos que se omitem
dos que não se posicionam
dos oportunistas de situação
dos que só curtem
e ficam ao lado dos mais fortes

tenho vergonha...
dos que escondem
suas origens e raízes
medo de pobre
disfarçado de rico
de rico disfarçado de ovelha

tenho fobia...
dos que mudam de lado
por cargos e promoções
trocando sua ideologia
por interesses pessoais

tenho medo...
dos que puxam o tapete
sem escrúpulos
dos invejosos do brilho alheio
dos que beijam a face
e apunhalam às costas

tenho medo...
dos falsos amigos
os que juram cumplicidade
dos que fingem fidelidade
para manipular e tirar proveito

tenho medo...
dos que se utilizam de fake
para dizerem o que pensam
sem mostrar a verdadeira face
fingindo ser o que não são

tenho medo...
dos donos da verdade
tratorando a verdade
de quem pensa diferente
desrespeitando o ser de cada um

tenho medo...
dos sociopatas de campanhas
dos lambe botas dos poderosos
dos que vendem a alma
por 30 moedas.
________________GoVermelha


Goretti Bussolo

Você não viu


que eu roubei a lua?
Toma ela então
de presente
neste tubo do Ligeirinho,
com todas as estrelas
e uma bola de fogo
que ora se chama sol,
ora se chama amor.


Otto Leopoldo Winck

ÁGUA FORTE


Girando
ritmadamente
(ela submersa
no inferno denso e negro
do café)
esta pequena
colher de prata
da qual
vês apenas
— preso entre teus dedos —
o cabo
sem grandes
arabescos
fazes emergir
em torvelinho
a partir da tona
líquida
escura
uma nuvem de fumaça
até teu rosto
que a recebe
sorrindo.

Carlito Azevedo



VENTO


A manhã e alguns atletas desde cedo que estão dando voltas
— á Lagoa.
Outros seguem para o Arpoador (onde o ar é de sal e insônia
e a beleza ri com urna flor de álcool entre os dentes).
O mar desdobra suas ondas sob o violeta dos
olhos da menina no alto da pedra.
Um falsete fica reverberando sem querer morrer.
Dos cabelos desgrenhados de meu filho
se desprega, ao vento, como um
sorriso, como um relâmpago,
um pensamento triste.

Carlito Azevedo


De Sob a noite física (1996)

LIMIAR


A via-láctea se despenteia.
Os corpos se gastam contra a luz.
Sem artifícios, a pedra
acende sua mancha sobre a praia.
Do lixo da esquina partiu
o último vôo da varejeira

contra um século convulsivo

Carlito Azevedo

Viciados em gerundismo


Você pode estar falando assim sem se dar conta que pode estar se viciando e estar passando adiante essa praga terrível.
Você pode estar se comunicando modernamente sem usar o gerundismo.
Os adictos podem estar parando de estar passando por fax, estar enviando por email, ou estar enviando pelo correio. Eles podem estar se curando e estar deixando de ser usuários de excesso de gerúndio.
Enfim, o que quero estar dizendo é que é desagradável ter que estar ouvindo palavras desse jeito.
Isso pode estar vindo, ou estar surgindo, ou estar se propagando pelas traduções de texto do inglês para o português. Não estou garantindo.
Gentem... vou estar continuando a conversar amanhã... ou depois.
Vou estar mandando beijos a vocês todos!!!!



Deisi Perin.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Via Cruzes: à Machado


“Toda cidade que dorme: merece seus pesadelos”

O desgosto enche copos
E esvazia garrafas
A dor desce logo
Arranhando as vidraças
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
A rua deserta flerta
Com meia dúzia de corpos
Talvez alguns poetas
Ou vampiros assustados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Brincar com os amigos
Termina em um ouvido atordoado
Nem todos que se abraçam
estão já perdoados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Amanheço no centro de triagem
Do inferno:
Dois olhos famintos
No álcool mergulhados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Saio dessa vida, não mais volto
Querem brincar de morrer: morram
Pareço mais preso do que solto
Os que ainda puderem me socorram.
Julio Urrutiaga Almada do livro Poemas Mal_Ditos

Instantâneo Enlace

Esperança


Que mundo de sombras este,
Onde a penumbra
Nos cobra favores.
Onde o anônimo
Nos traz dissabores.
Onde quem cala,
Nos fere com a alma,
Não comprometida.
E que depois de tanto, porém,
Sempre há o modo certo
De calar as cicatrizes.

(1999) Instantâneo Enlace

Julio Urrutiaga Almada

Ex - tratos fera


O frio que me congela,
não é o inverno.
Inverno aqui, verão,
Em outras terras.
A Terra que me preservam,
Não dá colheitas.
Colheitas são
dos que prosperam.
(1999)

Julio Urrutiaga Almada

Como somos


Infecundo nó, ou será fecundo, nas entranhas,
Da terra fascinante, presa a nós?
Corrente medula e somos sós,
Milhões de sóis pequenos esfriando.
A praia que farol longínquo
De asas arenosas, erguidas.
Verdes, são os olhos, que busco,
Nesse mar de asas arenosas.
A praia que lua transposta
Fonte de surpresas inacessíveis.
Águas ,crateras inexistentes, dos risos,
Na distância, de suspiros intransponíveis.
A praia que verso carrasco.
Areias emigram, assim quero
O mar , que deposite, os secretos
Mistérios, nos olhos que trago.
(1987)

Julio Urrutiaga Almada do Livro Instantâneo Enlace

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Reunião


Recolher o lixo, tarefas
Psiques, sonatas, deuses
Odes, palavras, semióticas
Adeuses

Tudo amo
Amor no plano
Deus e eu
Não o substituo

Crio quando amo
A ciência e seu próprio clichê
Cientistas escrevem mal, então
Amar não se pode compreender

O coração!
Mais que a intelecção
Ou explicação
Do ser ou não ser.

Caminhos são caminhos
Ao amanhecer
Automatismos muitos:
Amigos que vou ver.

Letrados, explicados, racionalizados.
Utilizados
Ou escravizados pelo poder!

Tenho uma "missão-clichê"
Tenho
Tento
Ter tanto
Tudo tal talo tem telas todas
Talvez
Telêmaco

Tarefa prolixa, - linguístico exercício
Escrever...
Pego ondas lindas em inconscientes próprios
Aos quais meu orgulho teima em ceder.
Sei que tudo pode ser destruido...
A métrica, o sentido,
- menos a "sanidade mental".
O mínimo
O máximo
O limite que crio,
História do frio e solidão
Então me esconderei
Em um parágrafo frágil
Ao preço da comida
A ida
E a volta
Ao centro da misericórdia
Calhorda
De Lúcifer e seus seguidores
Instruídos espiam
Sinto
Sonho
Vivo
Redivivo caráter da moral
Que nem em meu quintal
Encontrei por abstrair valor.
Senhor Deus!
Amigos meus em solidão
Esconderijos de páginas de livros
Palavras se pronunciarão
Em alto som
Nas margens dos rios de Sião
A bela composição
Dos anjos esquivos desta terra
Que amam o transcendente
e o ardente.
Indiscriminadamente,
Sentem
Como eu.

Estou corrigindo minhas odes aos ateus.
Não sabia para onde ia.
Até as pernas torcerem
Na queda ao chão da vaidade intelectual.

Agora letras acompanham o inconsciente.
Sonho com mares mais profundos que os mares-clichês
Ortografias muitas que não vou atiçar!
Levem o que querem daqui.
Para seu mestre, Lúcifer.
Ele costurará as vestes de vaidade inventada.
A tornar-se anjo de novo
E não serpente ignorada.

Javé enigma judeu
Meu povo plebeu
Minha mesa farta
Somos senhores filósofos aéreos
No cultivo da palavra
Nossas asas não são de aço
Nosso espaço, que eu faço
Construo e não poluo
Desfaço
Mudo
Tudo
Quanto queira.
Já não tenho eira nem beira

Na carteira importada.
As letras são companhia contra o medo e a angústia em viver em lamaçais e covis muitos quando tanta luz norteia o caminho nosso nesse longo rio que é a história e a teoria e prática literária que dão a matiz aos discursos que fazemos a ganhar muitos amigos e sentirmo-nos menos sós.

Anderson Carlos Maciel

Enlêvo




A luz está atrás da cortina
Retina retine cinema
Poema que não se imprime

Longe leva-se o enlevo
Valor velado vem vê-lo
Zêlo apático asmático
Sincero
De Eros
Musas
Usas...
Ao mar das tiranias

Dores de críticas
Era tudo que sentia
A tia tinha tudo que fiava
Valia
E quem não via?

À mostra partes descobertas
Abertas bocas; - livros fechados...

Cadeado dados não dados
Pelos lados soldados escravizados
Por trevas quimeras de morte sincera
Em eras e eras quireras de sentido
Amigo o livro, ou outro dolorido
Feliz não te quiz o mestre
Pois a peste e a cura é antídoto
Vendido pelo ilusionista
Que hipnotisa sacerdotisas
Por grana e apatia
Se queria ou não queria
Uma tarde
Um pôr-do-sol e alarde

À tarde encontraria
Só a paz lilás a mover as pás
Sem gáz tenaz ou quiçá
Sensatez
Logo agradeço a vocês
Senhores, senhoras
Crianças e idosos
Sonhos formosos e pistas

Artistas que não fomos
Clichês nos abstraíram palavras
Núcleos semânticos coloquiais
Escravatura verbal
No final do jornal carnaval festival
Em que a sociedade inteira passa mal
Por mau-gosto em exercício lexical
Causal e animal tato divinal
Ritual carnificina na Argentina
abandonada querendo ser significada
pela asa da estrada conferida
Pelas musas de Apolo
À entropia das veias e átomos corporais
A atingir a mente e finalizar um conceito estético
imagético verso carregado no peito
Por um trovador, rapsodo, destro
Formoso sol após a madrugada profunda
Agonias lamacentas de vidas em ebulição
A acotovelar-se frente às câmeras de televisão


Em busca de momentos mágicos de ilusão

Anderson Carlos Maciel

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Ruína




Ruína, argentina peregrina

A sina

Luzes de holofotes não são

Luzes de olhar

Adjacente, emerge indireto

Desconstrução, explosão descreve

A paisagem

O simbólico se funde no empírico tato sociológico

Encontra esperança tardia

Na anomalia do verbo

O câncer sintético das eras

Consome o cérebro

Não as quimeras

Tuas paredes de coragem

Cartilagens em fogo

Espanto e não sono

Como se houvesse algo de novo!

"?Donde están los niños?

Quedaste a recuerdos de trevas solas...

Dulces fabulas de navidad,

Sin sermones de la montanha!

Te vas a reir uno dia, si!

Asta tus ohos de Maria

Besos, cuerpos, sonidos musicales

Construciones miraculares

De la burguesa compadreria.

Mira en la mañana

"Adelante en el camino!"

Estilos, verbos, sons [imagenes]

Saudade a garimpar personalidade

Inspiração

Óculos linguísticos &

Estados mentais locais

Me gustán las palabras que sinceras

Los hermanos quisan cuerpos verdes

La essência rellenada

Língua portuguesa

Metáforas cafetinas na Argentina

Sina &

s

Anderson Carlos Maciel


Coragem para ser humilde é nascer de novo. Lugares, pessoas, riquezas, tótens satânicos, edifícios teóricos... Inspiração é algo que falta (símbolo) em uma sociedade de produção descontrolada pela asfixia do poder que imaginam todos existir no indivíduo humano. Creio que muitos escritores estão confundindo personalidade literária com pessoas ricas comuns. Isso interfere no juízo de gosto pois toda valoração incide na mesma superficialidade abastada e opaca: - matéria inerte acumulada e sem forma, beleza ou transcendência. Sentimentos neo-burgueses de estar sempre em evidência: - selfies sem originalidade. Patetas endinheirados cercados de patetas solícitos. Meramente corpos coloridos e perfumados e milhares de câmeras explorando o erotismo e apelando para o sexo a vender mais e mais produtos de que nem temos necessidades vitais.

Anderson Carlos Maciel

segunda-feira, 19 de outubro de 2015



Não adiei nada. Passei alguns dias olhando os canteiros de
amores-perfeitos roxos nas floreiras da Rua XV e viajei
com a ideia de voltar com uma máquina e registrar as flores...
Todas as pétalas roxas ao balé do vento, uma luz estranha
que captava o olhar...
E ontem elas não mais estavam.
Não esperaram minha volta, foram substituídas e
eu me senti como quem entra em uma casa antiga, morta de
vontade de abraçar um amigo e ele já partiu, lá para o outro lado
do mundo... Não adie o desejo. Não deixe para - o depois. Não
espere. As flores são pássaros que duram menos que uma
primavera, voam, e levam a luz comovida. Aquela luz que me
abduzia a cada vez que meus olhos bebiam o roxo violento dos
amores-perfeitos da Rua XV.

(Em Umuarama eu vi esta floreira no pátio abaixo da entrada do SESC,
lembrei "meus" amores-perfeitos e fotografei. Senti saudades das flores
da Rua XV lá longe, mas ainda vou lembrar sempre o roxo esfuziante
que me sugava ,dia desses encontrei uma fotografia e publiquei, mas, eu as queria perto, de perto, como as via)

Bárbara Lia

Domingo



Acordo e vejo que é domingo
Os pássaros cantam uma música diferente
Pego meu caderno
Escrevo um poema
Deito novamente
É domingo
Domingo tem outro cheiro
Penso nos meus pecados
Na minha culpa
E tenho certeza
que não terei salvação

Paulo Monteiro‎

de  Sanatório literário

A SAGA SÍRIA


A Menina Amina
Refugiada Síria
Sinto Falta
Da Vida
Sinto Falta
Dos Amigos
Sinto Falta
Dos Parentes
Sinto Falta
Do Marido
De Todo Mundo
Da Vida na Síria
Do Ar da Síria Do Ar na Síria
Da Respiração na Síria
Meu Coração Está na Síria
I Love Allah..

Rodrigo d'Ávila Freitas

História de um grande amor


Ela chamava-se Geni, ele José. Ela, membro de tradicional família piraiense, morava num sobrado na avenida principal da cidade; ele, membro de uma família de imigrantes poloneses era morador na Colônia do Bonsucesso.
Em meados do século passado, conheceram-se, identificaram-se e se apaixonaram. Só que a família da moça não viu com bons olhos aquele namoro e ela, criada nos mais rígidos princípios e obediente aos pais, fez José ver que o seu amor era impossível. E ele, entendendo os seus motivos, afastou-se.
Passaram-se os anos: José casou-se com outra moça, teve filhos e vivia em harmonia com a sua família. Geni continuou solteira e às vezes, da janela do seu sobrado, via-o passar na rua defronte.
Um dia, no fim do século, José enviuvou, depois de um longo tempo de feliz matrimônio. Então, quis o destino que ele e Geni se reencontrassem e que a chama daquele amor antigo se reacendesse.
Depois de algum tempo de colóquio, resolveram se casar, embora os dois já estivessem com média idade. Viveriam os seus últimos anos com a felicidade que lhes fora negada outrora. Casaram-se e passaram a desfrutar de uma convivência madura e feliz.
Mas, como muitas vezes ocorre, a sorte lhes pregou uma peça: pouco, bem pouco tempo depois de casados, José estava retornando de sua chácara em uma bicicleta. Numa rua de terra e bem acidentada, com um valo em uma das suas laterais, o veículo derrapou e caiu com José dentro dele. Por infelicidade, José bateu com a cabeça em uma pedra, vindo a falecer.
E Geni, privada mais uma vez daquela doce ventura, continuou lá, nos seu sobrado.

George Abrão

A COR DO RIO


Decapitava a noite
seu frio mármore
estremecido de gozo
livre esvaía-me
na torrente do ego
que desdobrava
seu retorno em
palavras amarelas
de suas recordações.
Justifique-se a lua
de suas ordens....
recebi a aquarela
- não soube pintá-la
ou imitá-la –
já não percebia, em meu
sangue, o facínora que
habitou, a contragosto,
a força do ventre.
Com meu jogo de punhais
entardeci na tarde
a apontar as pontas sortidas
verdes azuis brancas
aonde fáceis e formas
espirravam-se ao redor
de projetos – outra etapa.
A liberdade, dizia-me,
desliza e não avisa
ergue-se a qualquer momento
vaidosa e ímpia e sozinha
impura na saga e na sede.
És feita. Assim como
se decora toda cartilha
toda mansa mal aceita
envergada inesperada
embrulhada e semente.
Os quadrantes são diversos
e light. Light? Sombra e Universo
Samba e Sândalo
torneio os espasmos
enviados ao além
Dispara
o sabre é a pistola
e prata e prata
verga ao destino
a vontade –
todavia indômita
por sobre o cálice.
Cisma a cínica das tuas farpas.
Os floreios do jardim
não são um porto,
nem é a voz o começo
do trajeto.
É só a ribanceira
aqui danada de insegura
na cor do rio a rudeza
de nossos desatinos.


Jandira Zanchi (Gume de Gueixa, Patuá, 2013)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Paixão



Aquilo que nos falta
A alta, a maré e o silêncio do ego
Cego como a admiração tola

Descrevo, escrevo
Somo, subtraio razão
Planos esquecidos no chão
Tédio, prazer e apatia
Leem... E daí?

A letra é impessoal carnaval
Experimento astral
Diluir seminal
De clichês, vaidades então
Tudo, e nada

O todo e a parte
O inconsciente arde

Tarde

Música serena que não ouviram
As minhas matizes felizes
Narizes teus descrever
A liberdade e o amanhecer sempre novo
Não vender a nenhum povo
Ao preço da vaidade vã

Se a poesia reside
E tudo incide em enigma
Arisco ou vadio o ensino
A beleza realmente não vejo
A graça, o enlevo, a métrica
O encadeamento feliz; - e triste
Egos em riste, - sempre
Sis mesmos de balões toscos
Furados papos de louvor malogrado
Deuses comparados e estipulados

 - O universo não contemplado
O falar não-poético
Poesia-prosa?
A ranhura da rosa
Espinho discurso direto nos ontens...

Quem sou eu?
E que importa?
A letra, - torta, - não torta
Subsiste feliz, - impessoal!
Carnaval da matiz
Leio por um triz, mas não consumo...
Lógico...
Filosofia, ideologia, azia!
Acumulação de capital
Poetas de geração burguesa
São letras de princesa
Adulada incompetência
Em fazer da ciência
Inteligência e saber filantrópico
Contraditório tópico
Da rudeza megalômana
De acumular como formigas coloridas
Bens, fortunas e inimigos

Das mesmas letras
Jazigos de almas livres
Ou nascentes de luzes esquivas
Amores absolutos - orgivas
Se conhecem, - se abstraem a contemplar
Por séculos na história, - A glória?
Quem quer?
Se são estúpidos mutilados,
Convivem lado-a-lado
A se adular e mutilar.

Anderson Carlos Maciel

                

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Haicai 796



tarde de outubro-
na pausa da chuva
um barco de papel

Van Zimerman

12/10/2015

Poetas


poetas são magos
sonhadores soluçadores
transfiguram olhares em altares
subvertem flores em clamores serafins
de seus poemas são fiéis desenhadores
são corajosos amantes aviadores
nas asas do pensamento voam alto
não têm medo de altura
e muito menos
do asfalto
na alma
levam
o cosmo
em conjuntura
com sua leve loucura
desenham tudo em palavra
dos sentimentos cores lavram
e as derramam em léxica pintura
de seus versos são alfaiates
com a linha fina
da
emoção
doce e impuramente
ziguezagueiam
a costura
entre
razão
e
coração
tingem
o tecido opaco
de sua própria melancolia
no tom escarlate
de sua lírica
porém pobre
nobreza
poetas
servis sedutores
transformam o passado
e quaisquer futuras dores
em letras de beleza
e toda a infiel incerteza
no mais plausível
amor

Samantha B. S.

Resistência



o que me sustenta
sobre a carne e osso
é não ter aprendido a desistir

viver é voar
até sumir

(Livro Arbítrio, Lau Siqueira, Casa Verde, 2015)



Sacrificamos o sagrado que somos para que não percamos o direito de tocar no bezerro de ouro que reflete nosso rosto distorcido pelo fogo que consumo que consomes, o bezerro que fascina e disciplina, que seduz em sua errônea luz.
Narcisos refletidos nos tornamos com alguns aplicativos de mão dupla estarrecidos com a vertigem dos sentidos estabelecidos pela máquina do estado distraído, sacrificamos o bom senso e os pássaros que gorjeiam suas falas perecerão igual às cigarras devoradas pelas vozes no deserto.

Ricardo Pozzo

55


{Que imagem linda sempre foi imaginar o amor chegando, imaginar como você seria, o que faria quando nós nos víssemos pela primeira vez...}
Foi pela manhã. Foi uma manhã como qualquer outra dentro de um ambiente interno; algumas janelas não abriram, outras não fecharam... Então o ar era pleno, enchia pulmões, olhos e todo o ambiente em volta de sonhos oxigenados. As cortinas, mal desenhadas para as suas devidas janelas, não cobriam a realidade, a claridade do sol, quero dizer. Aquele sol que sempre esteve lá desde que nascemos... Acho que devia ser mais ou menos umas nove horas da manhã, talvez as horas fossem um pouco mais cedo ou bem mais tarde, não sei dizer exatamente; só sei dizer que eram 55 minutos passados de alguma hora entre o nascer do sol e a meia noite daquele mesmo instante.
{O sonho de amar é belo, a realidade de amar não; o amor rasga a existência em um milhão de pedaços até você se perder de si mesmo em tantos fragmentos.}
O eu olhou para o outro, o outro olhou para o eu. Eles se viram sem querer. O tempo parou. O tempo brilhou de repente, assim como um flash acontece pra uma fotografia. Então fiquei olhando, só olhando. O que mais eu poderia fazer enquanto sentia aquilo? Acho que até perdi a memória e acabei esquecendo meu nome... Na verdade acho que até me desencontrei de quem eu tinha sido. Até o meu pensamento parou. É como se a única coisa que eu ouvisse fosse silêncio. Não, não, acho que estava conseguindo ouvir as nossas almas sussurrando segredos inimagináveis...
{O amor nunca foi belo; quando ele chega, devasta tudo, vem se mostrando com toda a sua violência.}
E você ficou olhando e ouvindo meus silêncios. Seu olhar pode ter durado anos, ou talvez precisamente 55 segundos daquela manhã, com aquelas cortinas imprecisas, com aquelas janelas sem dono. E minha alma calada sorriu pra você.
{O amor é um dolo; não, o amor é um tolo que precisa de outro pra existir...}
E sua alma chorou de volta pra mim. E nós gargalhamos em vibrações de baixa frequência; ninguém pode ler os nossos silêncios em voz alta além de nós mesmos. Então conversamos em silêncio por quase meio século em uma pequena fração de tempo, 55 segundos.
{O amor é inseguro, ele chega chorando e pedindo colo e consolo com medo de morrer em um segundo...}
Então os segundos acabaram, as cortinas mal feitas foram abertas, as janelas foram quebradas. A conversa acabou. Sobraram o oxigênio do ar, a claridade daquele sol que sempre esteve lá desde que nascemos e nós; sim, você e eu sobramos. Sobreviventes da indecência silenciosa.
{O amor chega a ser quase o mundo. O amor se finge de morto...}
Se sobrar algum tempo depois do tempo, lembre-se de nós.
{O amor é mudo.}

Samantha B. S.



DIVINO É O PERDÃO


Divino é o perdão,
Gesto de amor bonito,
Nascido no coração,
Prece que ao céu emito.
Fruto de compaixão,
Se no Pai acredito.
Divino é o perdão,
Gesto de amor bonito.
Conferido sem distinção,
Rompendo o limite restrito
De um viver rente ao chão.
Se perdoo, a dor evito!
Divino é o perdão!

 José Luiz de Sousa Santos, o JL Semeador de Poesias, em agosto de 2008 -


Mais que perfeito...
Quisera vislumbrar o teu sorriso
qual quem um dia vira o Sol nascente
quando ilumina o mundo e a toda a gente
e é, sim, um brilho forte e assaz preciso...
Quisera por de lado todo o siso
que faz um bem enorme e diferente,
pois torna um só segundo, de repente,
em um milênio cheio e, enfim, conciso!
Mas foras tu embora muito cedo;
deixando uma saudade que avassala
e um grito de tristeza que me cala...
Pudera eu me livrar desse degredo
por perda que me assusta, oh! me da medo,
e ouvir de novo a tua doce fala...


Ronaldo Rhusso

segunda-feira, 12 de outubro de 2015


Confissão de graça



O mundo enquanto duro



Cantiga do fim do mundo



Acordes para um novo dia




"Achei que ali seria construído um shopping!", diz. "Colocar moradia popular vai facilitar a entrada de criminosos. A mistura [de classes] aumenta a inveja."

Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba,
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba é coitado e devia acabar,
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame

Pra que discutir com madame.

Tiago Ferro

Jeferson Bandeira


A verdadeira literatura paranaense não esta na mídia, na moda, na media, nas livrarias. A verdadeira literatura paranaense ocupa as gavetas, quiça um dia apareça. A verdadeira literatura paranaense ocupa as entrelinhas da verve daltoniana. A verdadeira literatura paranaense e vampiriana. O que escapa disso não passa de arremedo. Essa pseudo-literatura paranaense causa medo.

Alvoroço!!!
A boca da noite devorou
Angu-de-caroço
Com calda de Sereia!
Foi um grande alvoroço
No quarto crescente
Que explodiu na lua cheia!
Rabo de cavalo na crista do galo!
O dia amanheceu,
E a galinha se chocou!

(Angela Gomes)

Moro num lugar sem nome
onde vivem os poetas
De vez em quando o chão some
e se misturam as setas


Alvaro Posselt

Lugar perfeito


Me arranque do mundo da lua!
Leve-me para qualquer parte...
Comer poeira em Marte?
Não respirar em Vênus?
Flutuar em Júpiter ou Netuno?
Me perder em Urano?
Congelar em Plutão?
Enlouquecer em Saturno?
Carbonizar-me de Sol em Mercúrio?
Não!!!
Que tal criar raízes na Terra?

(Angela Gomes)

Quantos cantos têm a mesa redonda?
E, com quantas gotas o mar forma uma onda?
O silêncio faz a noite adormecer?
E, quantos raios de sol são necessários
Para o dia amanhecer?
As respostas estão escondidas
Aonde o Gato não perdeu as botas
E o vento não fez a curva.
A rota é meio torta...
Mas, cai como uma luva!
Seguindo a imaginação,
Mesmo que por ruas estreitas,
Chega-se a qualquer resposta,
Até para as perguntas que
Ainda não foram feitas.
(Angela Gomes)



Quase Feliz Cidade



Borboletas


Não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis.
(Thomas De Quincey)

Após a convulsão de corpos, feitos estrelas e redemoinhos, muito se perdeu: ou melhor: muito se deu por perdido: Um par de brincos não localizado na escuridão e nem depois do acender de todas as possíveis luzes: Perdidos ou escondendo-se. Imbuídos do desejo de poder decidir sobre seu destino: Permanecer entre os lençóis, viciados de carícias e lascívia, tornados portos de incineração da angústia. Borboletas: Pensei... As flores que voam sempre povoam nossa imaginação. Pensei havê-las visto: estilizadas nas femininas orelhas da mulher que amei. Ontem: Sexta-feira: Sepulcro da semana: os encontrei: Um par de brincos: borboletas? Não: laçarotes com pedras incrustadas. Adorno de um presente: o corpo dela amealhado a falta do meu.


Julio Urrutiaga Almada

do livro Caderno de Ontem

Solidão



Modelo


Todo poeta
tem a cabeça cheia
de letras,
palavras,
frases,
pensamentos loucos,
que tenta, com a mão,
colocar no papel,
na máquina de escrever,
no teclado do PC.
Porém, como é longa
e acidentada
a estrada
entre a cabeça e a mão do poeta!"

ARACI BARRETO


sábado, 10 de outubro de 2015

TEM

Vejo uma
tabela de
cores e
efêmera
no céu
inquieto
do meu
pensamento
e também
vejo no
céu de céu
a furtiva
exposição
quase Parkinson
quase tensa
quase tremida
pois o que é
veloz ultrapassa
o presente
quando apresenta
um não ao agora
e sim ao infinito.
Tem cor de pedra
e de terra as cores
se misturam em
matizes distintos
uma chama ametista
a outra atende
por ameixa
tem o púrpura
o quantum
e a orquídea.
Tem cor e céu

para toda a vida.

Marlos Degani

Fonte : ‎Vidráguas