terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnaval 2017 Curitiba


MINHAS PAQUERAS


Ao entrar no ônibus, meus olhos procuraram as lindas meninas de antes, paqueras no trajeto da juventude. Nas lembranças, olhos curiosos de quem estava descobrindo a sensualidade da vida, no balanço do ônibus, encontro de corpos por acaso, às vezes desejados, as mãos se tocavam, os flertes arrepiavam a pele, vibrava na alma. Enternecido com a volta ao passado, fiquei envergonhado, quando meus olhos atentos encontraram algumas meninas de ontem, sentadas nos bancos para idosos. Uma delas respondia meu olhar puramente malicioso. Segui naquela viagem, ora com o olhar se perdendo pela janela, ora me perdendo nos olhos da graciosa senhora, percebendo no mesmo trajeto de antes, as mesma emoções nas diferentes paisagens de hoje.

JDamasio Rascunho

ESCONDE-ESCONDE



Ao entrar na velha casa, a porta se abre à saudade. No fundo do quintal, minha infância brinca em segredo de esconde-esconde pelo tempo. Volta e meia eu a encontro perdida em meu passado. JD


O anjo higienista


"Em Curitiba, no carnaval, sai às ruas um anjo higienista. Bem-sucedido, quase ninguém o vê. Sua função é manter a cidade semivazia, impoluível, imune aos ventos de mudança. Trata-se, é claro, de um anjo avarento: só ele quer desfilar pelas avenidas, só ele pode flutuar por aí, trazendo às mãos não a espada ou a trombeta, mas uma vassourinha de piaçava, com que abre alas a si próprio."
"O anjo higienista", minha crônica na Gazeta do Povo de hoje.



Luís Henrique Pellanda

eu já havia passeado de samu diversas vezes - com meu pai (que já bateu as botas) e com minha mãe (que está bem viva, mas, por conta de um trauma na coluna, usa um colete parecido com o do homem de ferro, que ela obviamente detesta); pois é, agora foi a minha vez. por questões que o decoro me impede de contar em pormenores, fraturei algumas costelas do lado esquerdo - o que me fez acordar cantando "love hurts", do nazareth, com propriedade, porque o coração dói junto. mas isso não é o pior, além de não poder usar o lado esquerdo, sou obrigado a beber em pé, porque as duas injeções que tomei nas duas bandas da bunda, me impedem de ficar sentado; como diria darwin, a humanidade evolui por necessidade, eu evoluí, agoro bebo e fumo em pé, apoiado apenas no lado direito do corpo, e confesso que a parede é a melhor amiga do homem.

William Teca


Estou pensando cá com os meus botões de rosas , sentando na mureta da fonte do meu jardim, olhando o céu sem estrelas: "amanhã a mão da natureza vai regar as plantas por mim". Putz Grilo! Tenho que recolher todas as roupas do varal! JD
Quando terminou de construir a casa com três quartos, ele se viu morando sozinho. Dormia cada noite em um cômodo diferente, só para ter ilusão de que a casa estava toda ocupada. JDamasio

Sou religioso


No domingo antes da missa me confesso. Na segunda, medito. Terça, assisto a palestra e tomo um passe. Na quarta vou à novena. Quinta tem culto, corrente de prosperidade. Na sexta, terreiro, faço um descarrego. Só no sábado, sou ateu, vou à orgia. Mas domingo, antes da missa me confesso, na segunda...

JD


Cabocla


acho tão tão bonito ser cabocla
eu sempre achei uma benção da lua
ser uma cabocla da terra brasileira
morena pele canela olhos de graúna
acho lindo ser cabocla
mistura de branco e índio
no grupo escolar rústico
aprendi a equação das raças
como se fosse tabuada
e o resultado eu lia e sorria
= cabocla
acho que não penso em pele
acho que penso em palavra
cabocla é palavra estelar
dizer cabocla é como traçar
as asas dos pássaros
as flechas e os arcos
as cabanas os riachos
eu sou cabocla
por ser por querer
cabocla até morrer

Bárbara Lia

-Vou.
-Aonde?
-Pra lá.
-Por quê?
-Pra ir!
-Também vou.
-Aonde?
-Pra lá.
-Por quê?
-Pra ir com você!
-Então, vamos!

JD

Carnaval 2017


da série sinistros insones - dedicado a jorge barbosa filho (vulgo badalhoca bitch)

ipsis litteris
(para quem nunca ouviu "gimme shelter", dos stones - a plenos pulmões)

algumas vezes a humana criatura
se encrua e manda pra dentro oito lexotans
com uma boa dose de destilado cultural nacional

após a metade do cigarro
se sente o efeito e o afago
no fígado nas costelas e no peito

há que se tentar matar
o baixo
o violão
a guitarra
a mulher amada
e dizer coisas engronhadas
que parecem piadas

daí nada melhor que um chutão no peito
catar cavacos é um ótimo exercício para acadêmicos
além é claro da boa poesia de hegel

jeová se vinga
mas o diabo garante bons momentos
eu não sigo a vida ela que me siga

William Tecca 

Carnaval 2017

Curitiba, Paraná

GESTOS


O que vem de dentro
pudera nunca se exprimir
palavra
O que vem de dentro
é ouro
puro silêncio
pudera nunca se exprimir
mundo
O que vem de dentro
é tudo
só se pode exprimir
mudo

TANUSSI CARDOSO

Os ouvidos produzem


Os ouvidos produzem
o som há muito decomposto entre
as folhas dos dentes

E pode um filho ouvir o mesmo mar
que nada mais será o
caos das folhas


Tens em torno de ti o mar descrito
és o filho

que escuta os meus ouvidos


Gastão Cruz

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


Um rosto que desconhecesse rugas
ou quem sabe uma pedra: humilde e forte.
Mas não, que em vez disso enviesadas fugas
nos esvanecem sempre o impulso em morte.
Jamais teremos a alta placidez
das estátuas que observam o horizonte.
O fim está inscrito em minha tez
e em teu olhar há o vazar de uma fonte...
Recolhe então, com essas mãos, o vento,
a mágoa, e guarda-os numa concha. – O poema
não é mais que isto: um sacrário, uma estela,
pequeno relicário onde o alento
do tempo está mantido em luz e gema:
o poema é um facho – dentro de uma cela.

Otto Leopoldo Winck

INSCRITURAS


Inscrevo estrelas
na córnea dos teus olhos
insones. Carruagens
de fogo nos desnudam.
A vida ora é azul
como brisa,
ora escura,
como blues.
Se corto meu pulso
o que escorre é a nostalgia
de uma era em que tudo era crível.
Todas as estradas do mundo
são insuficientes
para o anelo de meus pés descalços.
Acorda, olha lá fora:
é dia mas uma lua de sangue,
enorme,
derrama seu mênstruo
sobre a cidade.
Inscrevo cometas
na sola dos teus pés cansados.
Depois os apago
com o sal de minhas lágrimas.
A vida é qualquer coisa assim
entre um conto
e um assombro.

Otto Leopoldo Winck

Ilha

Essa vida imperfeita,
neste mundo perfeito,
mas na natureza sempre existe
o caminho reto
para a harmonia.
A luz que brilha nas artes,
a trilha luminosa da vida,
esse algo mais que nos intriga,
a linha imaginária no presente eterno
que transforma-se,
são setas apontando a direção.
Somos parte,
algo maior nos espreita.

(Ilha por Adriana Janaína Poeta/ Trecho)


Clube de Leitura dos Poetas

janela poética
escravo
do que escrevo
não vivo:
vejo

Otto Leopoldo Winck
Todos os dias
podiam ser azuis.
Mas deixa estar,
deixa sangrar.
Vai vir o dia
em que serei só poeta.

Otto Leopoldo Winck
- pai, qual o nosso sistema político?
- morotocracia, filho.
- você diz meritocracia?
- não, morotocracia mesmo, governo todo do moro!
- ah, sei... e a divisão dos poderes, pai?
- filho, anota aí: legislativo comprado, judiciário acovardado e executivo safado!
- minha professora de história vai me dar 10?
- não, filho, mas relaxa: sua professora tá na rua, não existe mais essa matéria.

Marcílio Godoi

COMO UM PEREGRINO


Impregno-me de ti:
se minhas raízes descem até o fundo de tuas grutas,
são em mim que teus frutos amadurecem.
Tudo é aprendizado.
Mas há um mistério que só nos é dado conhecer
por revelação: a cor dos teus olhos
quando o dia se finda.
Impregno-me de ti: tua pela me recobre
e é teu fôlego que bomba meu coração.
Dentro de minhas vértebras alquebradas,
encontro tua omoplata.
A vida é um aprendizado.
Dizer adeus é um aprendizado.
Dizer estou pronto também o é.
Impregno-me de ti: tua noite é meu dia.
Teu sol é minha salvação.
Tudo poderia ser nada. Ou indiferente. Mas o dia vai alto
e eu estou diante de teus seios
como o peregrino diante das muralhas.
E agora posso dizer, sem susto ou esperança:
– estou pronto.

Otto Leopoldo Winck

profundissimamente hipocondríaco
só bebo rivotril pelo gargalo.
a minha mão esclerosada em calo
não se retrata em verso elegíaco
ao me mostrar a vida pelo talo.
eu, filho do carvão e do amoníaco."

RR, pós-AA.

AQUELE-QUE-NÃO-SABE


No tempo do plantio eu fiz minha colheita.
Agora, que o jarro já quebrou na fonte
e a roldana rebentou no poço, eu chego ao meu pomar
e não vislumbro um fruto. No tempo dos abraços,
quando um sol de bronze se elevava sobre mim,
eu fugi por todos os caminhos. Agora,
que a noite cai e eu recolho as ovelhas magras no redil,
não há ninguém para me dizer adeus.
Levantei muralhas quando era para derrubá-las.
Destruí castelos quando devia refazê-los.
No tempo das lágrimas, eu ri.
No tempo da vindima, calei.
Quando era a hora de buscar, eu me perdi.
E agora choro em vez de gargalhar
e cerro os lábios para não gritar o teu nome como um insensato.
Se há um tempo para cada coisa,
como diz o Eclesiastes,
para mim os tempos já vieram todos rotos.

Otto Leopoldo Winck
 Só há duas maneiras de escrever romances hoje. De maneira ingênua ou de maneira crítica. Pra escrever de maneira ingênua, você tem que ser ingênuo: acreditar no romance e no universo de valores do mundo que o gerou. Ou então só lhe resta escrever romances críticos, aliás metacríticos, o romance que traz em si sua própria crítica. Agora, quando se trata de romances históricos, você tem que ser duas vezes crítico: crítico da narrativa romanesca e da narrativa histórica. Este é o caso de HHhH, romance do francês Laurente Binet, que trata do atentado contra o nazista Heydrich perpetrado por dois jovens tchecos da Resistência. Ao mesmo tempo que ele conta a história, ele critica tanto a forma de contar quanto o que é -- ou não é -- dado histórico. Livraço, alias.

Otto Leopoldo Winck

"E fica também mais pobre o pobre que aplaude o rico, menor o pequeno que aplaude o grande, mais baixo o baixo que aplaude o alto, e assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam, acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros, e nem entendo como se vê nobreza no arremedo dos desprovidos; a vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira"

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar
"É por esse nível de assepsia que o anjo se exalta, e percorre o ermo dessas valas, impondo aos foliões que encontra uma mesma máscara ancestral, étnica, de ascetismo e polidez. O silêncio é para todos, a democracia floresce no silêncio, e todos precisam se calar, sem exceção, do filho da escrava ao primogênito do faraó, dos guapecas nos terminais de ônibus aos cabritos cujo sangue tingirá a porta de nossos clubes e salões, e em ponto algum desta aldeia deverá se ouvir o ronco de uma cuíca, o gemido de um zumbi, o protesto de seus encarcerados. Se no Egito houve clamor, em Curitiba haverá, no máximo, borborigmos."

Trecho da minha crônica "O anjo higienista", que sai amanhã, na Gazeta do Povo.

Luís Henrique Pellanda

INCOMPLETUDE


De repente
eu salto
e tomo de assalto
teu corpo.
Teus beijos irrompem súbito,
lâminas perpetrando a chaga
no silêncio
impossuído.
Testemunham-nos as cortinas velhas,
nos proibindo a lua.
De repente
eu caio
e teus olhos me ferem
com ternura.
De teus dedos frios,
sob o carinho pálido do abajur,
eu vejo surgir garras
vencidas.
Luto,
lutas,
e nos derrotamos.
De repente
a grande consciência da vida.
– Amor?
Depois, lá fora,
a lua sorri com indiferença
do meu corpo insatisfeito.

Otto Leopoldo Winck


Então você acorda correndo depois de quase não dormir porque você deitou tarde e está um calor saariano em Curitiba, você pega um Uber e você quase se desencontra do Uber e está um trânsito danado e o motorista parece que não tá nem aí na lerdeza dele e você chega correndo, estabanado, assina o ponto, se dirige à sala de aula, subindo de dois em dois degraus, e descobre que... você não tem aula esta manhã. Simples: você apenas esqueceu de imprimir o horário mais recente.

Otto Leopoldo Winck


BEBE SEM PRESSA O TEU VINHO


Bebe sem pressa o teu vinho.
Estende a mão e colhe o que te é dado:
um naco de pão, o último raio do sol, a mulher ao teu lado.
Em breve será noite e não mais terás olhos para ver
nem mãos para palpar. Recolhe, portanto, no aprisco te tua choupana,
o pequeno rebanho que tu não mais tosarás (outro o fará).
Guarda o teu cajado e a flauta de pã
que ninguém mais ouvirá na colina.
Senta-te à janela e, se quiseres, chora,
pois ninguém te devolverá a mocidade morta.
Os dias de ser feliz já estão longe
e tu os desperdiçaste. Contempla o céu
onde morre o sol e de onde virá a noite
que te ignora. Depois deita com a mulher ao teu lado
e a ama pela última vez. Mas não faças nenhuma oração.
Nenhuma. Os deuses não a ouvirão.

Otto Leopoldo Winck

INICIAÇÃO


Um dia as estrelas todas do céu caíram
e eu me vi perdido numa praia que se confundia com a noite.
A noite era tão funda que eu cheguei a esquecer o cor dos teus olhos.
A ondas molhavam meus pés
e as vagas no horizonte desenhavam um naufrágio.
Tudo era novo, embora conhecido há milênios.
Se o viver era precário, sabê-lo já não era nefasto.
A ninfa da melancolia, derramando sua eterna ânfora de mágoas,
me fitava do fundo do corredor. Então chorei.
E de meus olhos nasceram rios, e desse rios oceanos.
De cada oceano, no continente que surgia, brotava uma nova civilização.
No entanto, eu continuei perdido
porque agora já não lembrava sequer do contorno do teu rosto.
Ai, quisera retornar à rua de minha infância
e bater bola com os colegas do bairro. Mas todos estão velhos
e um inclusive já morreu.
É isto a vida? – um dia me perguntei.
A vida mesma se encarregou de me responder
e se mostrar eloquente.
A noite é dura. Perder teu vestígio também.
Mas agora trago uma estrela no bolso
que me ilumina os olhos e me faz crer
que ao fim da noite te reencontrarei intacta.
Tudo é novo. E antigo.
Mas já não é trágico.
Caminho por uma praia
que vai terminar na aurora.

Otto Leopoldo Winck

Ensaio sobre o que não se compreende
Ninguém é dono do amor
Nem mesmo o deus cristão
Que amor sendo, não pode tê-lo
O amor é estranho a posse
Quem o sente apenas partilha
Infinitesimal parte do mesmo
Inútil é dizer o eu, o amor
Que nega pronomes de posse
Pessoais e estranhos a si
O amor se sente, recente, abisma
Mas não é seu o sentimento
O habita em parte, mas lhe transcende.

Henrique Veber 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

No dia que eu me for
não sentirei falta
dos bens que não tive
não lamentarei os lugares
que não conheci
nem as falhas, as perdas,
fracassos,
sequer os amores
não vividos,
terei como
prejuízos
de mim
.
No dia que me for,
chorarei por mim,
por cada pessoa
que não me fiz apto
a amar.
.
Terá sido essa
a lacuna
não preenchida.
.
*****
.

(eduardo ramos)

quanto riso oh quanta alegria




● ha tanta carne ●
● eles mesmos nos entregam suas carnes ●
● o tutano dos ossos todos os ossos ●

● a pele o sangue coagulado todos eles ●
● nos entregam machos femeas e filhos ●
● sim de olhos fechados eles se entregam ●

● tudo é sempre nosso ●
● pra eles so a grande tolice o chorume ●
● se se revoltassem seria com tanta ternura ●

● q as carnes ferveriam mais deliciosas ●
● enquanto gargalhamos eles eles sim ●
● trabalham sem cessar dia e noite ●

● quanto riso oh quanta alegria ●
● no meio das multidões a carne ferve ●
● nossa fome se eleva sim e esperamos ●

● eles dançam eles gritam eles gargalham ●
● eles batem palmas eles cantam e uivam ●
● eles sabem o belo nome do senhor ●

● jamais aplacarão essa gula sem fim ●
● essa violencia q não para de gozar ●
● praisso trabalham acreditam e seguem ●

● dia e noite enquanto nossa fome ●
● so faz crescer so faz ficar mais refinada ●
● mais exigente mais brutal e todos eles ●

● correm pros nossos dentes ●
● como se a fome fosse deles como se tudo ●
● q eles acreditam fosse verdade e deles ●

● não fosse uma armadilha ●
● pra trazer todos eles eles todos ●
● pra saciarem nossa fome q é infinita ●

Alberto Lins Caldas 

PALAVRA APÓS PALAVRA


Para Cecília Nepomuceno

Lavoura após lavoura, a pá, mão e tesoura.
Após dura colheita, eu como, bebo, deito.
Durante a lavra, lavro, escrevo minha estrada.
Após a rude escrita, eu canto, danço e grito.
Semente após semente, suor, cansaço, sede.
Se conto o que sinto, escondo, fujo e minto.
Desfio grão, o milho e trigo, eu sovo massa e faço pão,
acendo forno e assovio esparsas notas de azulão.
Enxada, foice a tiracolo, o passo sempre rente ao chão,
ancinho e fumo de corda, poeira sempre na visão.
Eu risco chão e terra, e luto minha guerra.
Palavra após palavra, recolho minha safra.


Bento Ferraz 

Lopes Chaves, 546


p/Mário de Andrade
.
Uma luz apagou
Na ribalta do mundo
Quando cerrou as portas
Da vida daquele
Que Anita amava
Nunca mais se ouviu
- Outra vez -
O piano parisiense
Henri Herz
Mário a dedilhar
Teclas e palavras
No n° 546
Da Lopes Chaves

BÁRBARA LIA

NooN (edição artesanal/2010)


25/02 aniversário da morte de Mário de Andrade

com algumas pessoas não se toma cuidado ao respirar a ferida de dentro. bebe-se o afogamento da saliva e o antídoto das secreções. não se morre, senão nelas. e se acordamos na manhã seguinte, é porque de algum modo nos tornamos eternos



 Luiz Felipe Leprevost
Loucura é conversar com o outro quando se está sozinho, discutir consigo mesmo é normal: "fiz o café, lavo a louça mais tarde" "Lavo , não! Já fiz o café , lavo a louça amanhã". "Mas amanhã já começo o dia com sujeira, melhor lavar hoje'. "Lavo porra nenhuma, amanha resolvo isso, hoje está frio!" Então, Beleza!" Boa noite pra mim!" Quem não sabe disso, nunca morou sozinho. JD

FAZ DE CONTA


Criamos um estar bem e vamos estando. Pensamos verde e verdejamos.
- Mas isto é mentira, isto tudo é lamaçal, a vida em si é indigna, indigente, indigesta, negação.
Mas imaginamos, fantasiamos e criado sendo, é! Benfazejo ficamos, viciamos em criar e vamos fazendo de conta, refazendo de conta e espalhamos o fazer em contas.
- Sofisma, engodo, falsidade, coisa de alienado. Indigno fechar de olhos a realidade.
Realidade? Há realidade somente em nós mesmos, cada olhar um vasto mundo. O que é a realidade senão um conto, uma narrativa escolhida de fatos sim e fatos não. Fazendo de conta se faz história, se reconta, transforma realidade em realizar.
- Desisto tu não enxergas, anda sonhando acordado, delirando.
Não ando, cavalgo num cavalo alado, Pégaso negro, manco de uma asa, que encorajo insistentemente a voar. Quem sabe o amanhã?

Henrique Veber

Borges e Hemingway se encontram no céu. O primeiro com uma xícara de chá (bebida para a eternidade, completa). O outro, bebendo no gargalo a sua tequila. Discutem literatura. Mais precisamente, sobre influência. Depois de muito tergiversar sobre quais as melhores fontes literárias, se a própria literatura ou a vida, Hemingway decide pela última, e provoca:
- Não vê que meu estilo é a prova definitiva sobre o que argumento?

- Não vejo. - diz Borges.

André Ricardo Aguiar
Teus olhos tão meus
Tão teus
Tão abril de meu Deus
Abrindo outonais
Como se em adeus
Ou tanto faz
Mal me quer
Bem me quer
As escolhas são mesmo fatais!

Lázara Papandrea


ULTIMATO


e a vidraça
não teme a destreza
da pedra;
nem mesmo um guerreiro vacila
em face à sombra
que lhe reserva
à lápide.
um grito de dor,
veja bem, é espinho repartido
no mundo - não finda,
e nada receia também.
de morte de estrelas,
bem sabemos. são suaves,
não são?
mas o coração, entulhado, escurece;
nunca se sabe
se em vão.
e não é a leveza
o que basta
quando nossos anjos
se atiram contra um trem
de carga?

Dom Jorge

COMO UM RIO 6


É como se da boca
a palavra esgarçasse
o horizonte (e o ardil
que germina o vento).
No risco,
o amor
se acrobata
como se o coração
tivesse patas.
Não há mais Cronos(esse
deus com as crinas
aparadas), apenas o eterno
em usufruto.
(Ou o cálice que transborda
com a perdição
dos náufragos).
Não há nada além
do Nada perfilando
ausentes...
ou a flor do espírito--,
que é somente o verbo
sobre a pedra.
SALGADO MARANHÃO


Cais


Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro
Iracema Macedo
Edições Estúdio 53
2000


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

vou te entregar o meu amor sedento
e vou saber do teu amor avaro
um tanto triste sobre meu lamento
um tanto dor sobre teu corpo raro.
de tanto amor eu sempre me acrescento."

RR

Verbete íntimo (O sátiro)



Se todas as prisões
Celulares,
Ufanares de identidade
Em riste, fálicos

Disputando território
Global no Carnaval

Os mocós da essência
Transfiguram
Pseudo-estruturas

A direita denuncia
A ciência observa
A verve solitária, canária
Canora
Embora, cifrão.

Mocozar ou não mocozar
O verde
Eis a questão criminal
Do meu coração.

Desintoxicando o beijo
Telepático em garotas
Nicotina e Alcatrão.

Legalizarão a família
Legado da literatura
Não televisiva
Dos cartórios eminentemente
Jurisprudentes.
Anderson Carlos Maciel


A CRÍTICA AO POETA


A crítica não faz parar o poeta,
Pois ele escreve aquilo que entender,
Fruto do grande e máximo prazer
Que o movimenta nessa sua meta!
Tudo o resto não passa duma treta,
Pois o poeta no eterno seu viver
Há-de alguém acabar por surpreender,
Como um ataque em fúria de um cometa.
O poeta não escreve pra agradar,
Mas, sim, unicamente pra ser lido!
A alma dele é maior do que universo,
Pois enche-o de palavras, como o mar
Enche o efémero mundo adormecido,
De imensidão profunda em cada verso.
Ângelo Augusto


Regras sensoriais




Não viva
Não seiva
Não leia
Não escreva

Vão
Verbo
Velado

Vilas e vielas, veias
Do meu passado.

Veria quão retesado
O augúrio de ser conquistado
Enleva meu ser
Por cantar
Cantar

Eternas as linhas
E versos
Eternos, por conseguinte

Que auspícios de economia
Que regras, que orgias
Que História
Que Filosofia?
Abstrai-se ao aposento
(Oráculo de Apolo)
Moral, Ética e Missão terrena

Gente nunca serena,
Metem
Os pés pelas mãos

E contam aos quatro ventos
De suas paredes em festa.

Reverbero léxico
Energético, sórdido
Que resulta, catapulta,
Risonho
Aos inconscientes que me assaltam
Asfaltarão o sonho
Com o nexo do sexo
In-sábios.

Loucos

Sem razão
(Brasileiros)
Anderson Carlos Maciel




Só sei que tudo sei.



Não há nada de novo
Na Globo
Para vocês

Correm para os livros,
Solícitos,
Buscar capítulos
Semântica e estudos
Propícios
Que recomendarei.

A norma padrão,
"Derrete o gelo"
Da comunicação
Em objetivos e obstáculos
Mais nobres que a vã
Criação.

Para iniciantes,
Transplantes de mentes
Que se aventuram
Na literatura pelo vil
Prazer do ódio e valor
Moral não logrado
A atingir um dia.

Suba as montanhas
Desça os vales
Navegue os mares

E leia as Epopeias

Com coração virgem
Ainda.

Anderson Carlos Maciel 

Indigesto

Como um comprimido
engulo este dia.
De oito em oito horas
me lembro
não há remédio
a não ser comer
esta demora que a vida leva
pra curar uma dor
Meus dentes estão moles
como balas de goma
impossível mastigar

estes segundos

 de Lilian Aquino, publicados por Jandira Zanchi em Mallarmargens:

Coração de Hefaisto

.

A qualidade
Não é quantidade.

Pela cidade
Em piedade e clichês
Soçobra e quebra
Arrebenta
No cais de verdejante
Parecer

Ele
Nós
Vós, Eles
Elas

Como se outra luz
Como se
Reparte o pão
Da sintaxe
Psicanálise refratária
Destarte, chavão

Sigo, sou
Ego
Cogito, aflito
Ou não?

Reverbero meu refrão
Pelo pão liberal
Muitos cães astrais
Identifico
Jurisprudência do silêncio
Da capa do livro

Doutrinaria
A estrebaria, dicionário
Tão?

Ou quisera, quiçá
Ramo de era
Vitória sem critérios
Ufanar meus olhos
A sangrar os seus
Heterogenia
"Carpe diem"

Post Scriptum:
Com afeto.

Anderson Carlos Maciel
a vida é essa onda
você se afoga, mulher?
você se engana?
o destino é essa onda
você se atola, homem?
você se arreganha?
a pancada é essa onda
você se esfola, criança?
você se arrebanha?
o caminho
não há caminho
mas, se houvesse, seria essa onda
que não dá pé
não dá pé
e aí você desiste
-
essa onda

claudinei vieira

SOBREVIDA


Contornando
as arestas da pedra
o sobrevivente deixa
a orelha
alerta
É raposa
caçador solitário
faminto
e se contentará
com um inseto
O sobrevivente quer de volta
os passos
o fígado regenerado
outra chance
de ligar pela última vez
O sobrevivente caminha
pelo corredor
abre a janela e vê
que o mundo
não acabou
Alberto Bresciani

Professoras

Dois leões de pedra, no topo das extremidades do portão de ferro, são guardiães simbólicos do prédio antigo. Flores vermelhas do jambeiro ainda cobrem o piso do pátio, e os corredores laterais, largos e alpendrados, dão acesso às salas do grupo escolar onde passei a maior parte da minha infância.
As brincadeiras terminavam quando a professora aparecia entre os dois leões; ela subia lentamente a escada, e antes de entrar na sala, os alunos já estavam à espera da primeira lição da manhã.
O grupo escolar Barão do Rio Branco - hoje uma escola estadual – foi construído numa época de fausto, mas acolhia crianças de todas as classes sociais. Ainda me lembro de quatro ou cinco curumins: um deles, o Tarso, usava brilhantina nos cabelos, mas o que brilhava de verdade era o desenho caprichoso de cada letra; hoje, eu o vejo como um pequeno calígrafo que manuseava um cálamo. Tarso e sua família moravam numa palafita à beira do Igarapé de Manaus. Este e outros igarapés foram aterrados, não sei por anda Tarso, um dos alunos que atraíam a atenção da professora que nos ensinou a ler e escrever.
Ela era exigente em sala de aula e severa no trato com os bagunceiros; talvez fosse dócil com os bonzinhos, mas não me lembro de anjo, querubim ou arcanjo algum. O olhar dela era austero, às vezes terno, mas a fala e os gestos eram quase sempre pacientes: a repetição de cada explicação é um exercício de paciência. Brasília já existia, mas estava ausente no velho mapa do Brasil. E eu sequer desconfiava que seis anos depois iria viver na capital...
Uma noite, três décadas depois das primeiras letras, quando lançava meu primeiro romance na Biblioteca Pública de Manaus, vi uma senhora muito elegante na fila. Percebi alguma familiaridade no rosto que me olhava, mas não o reconheci no ato. A memória, essa guardiã de sentimentos íntimos, me revelou o rosto da professora Maria Luiza de Freitas Pinto.
Conversamos um pouco e assinei um livro para ela. Antes da despedida, abriu a bolsa e tirou uma folha amarelada, dobrada ao meio. Disse: “Esta é a tua primeira redação! Foi escrita no Barão do Rio Branco...”
Olhei de relance a caligrafia, que nem de longe se comparava à de Tarso. Não li o texto: o gesto amoroso de guardar por tanto tempo palavras de uma criança prevaleceu sobre a curiosidade; sem dúvida, ela guardara textos de outros alunos num baú cheio de redações.
Revi dona Maria Luiza em 2008, quando lancei outro romance em Manaus, desta vez na Banca do Largo São Sebastião, do amigo Joaquim Melo. Ela mora ali perto, numa casa antiga e espaçosa, onde Sheila, uma parente de dona Maria Luiza, me ensinara inglês.
Em agosto do ano passado, viajei com o escritor Reinaldo Moraes e uma equipe de tevê para Manaus, onde eles iam fazer um documentário sobre o romance “Cinzas do Norte” e a cidade. Na calçada do mesmo grupo escolar, contei a Reinaldo lances da infância manauara, numa época em que a escola pública ainda era frequentada por crianças e jovens de todos os estratos sociais. Enquanto observava os estudantes, pensei na mulher que me alfabetizara: ela acabara de completar cem anos.
A diretora do documentário quis entrevistá-la. Dois amigos (a jornalista Leyla Leong e o professor Ernesto Renan Freitas Pinto, sobrinhos da professora) mediaram esse encontro na casa em que Maria Luiza sempre morou. Reconheci a mobília e alguns objetos daquela época; um corredor comprido e um pouco escuro terminava numa saleta iluminada pelo sol da manhã. Com lucidez e nostalgia, a professora centenária recordou cenas e anedotas da minha infância razoavelmente feliz, interrompida em 1964, quando também foi interrompida a implantação do projeto “Escola Nova”, do grande educador baiano Anísio Teixeira, então reitor da Universidade de Brasília. Nove dias depois do golpe militar, o campus da UnB foi invadido pela polícia e Anísio foi demitido da reitoria. Em Brasília, no final dos anos 1960, estudei numa das escolas idealizadas por ele: um colégio de aplicação, extinto em 1971 pelo governo militar.
“Viver numa terra trágica é o mesmo que viver num tempo trágico”, escreveu Wallace Stevens.
Nesta terra e neste tempo trágicos, faço mais essa modesta homenagem a uma professora da província e a um filósofo da educação, ambos igualmente importantes para tentar mitigar o atraso nesta nação fraturada, país de “mil-e-tantas misérias”, como disse um mago de Minas.
Milton Hatoum
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Professoras - Cultura - Estadão - 24/02/2017


 Apenas o fim
há os q não riem
os q choram
os q fazem drama
os q compartilham a dor
os q veem filmes sozinhos na sala escura
os q bebem até cair
os q conversam com cães e gatos
os q matam
os q se matam
os q não se importam
os q ignoram
os q escrevem
os q leem
os q comem em demasia
há por fim os plenamente feridos
do fim

Sérgio Villa Matta 
Michel Temer conversa com Roberto Freire sobre mudanças no Prêmio Camões de Literatura.
- Roberto, que papelão, francamente!
- Ah, desculpa, eu não aguentei, presidente...
- Estou me referindo àquele escritorzinho comunista.
- Ah, sim, o Raduan. Um oportunista, mau caráter.
- Ganhou 100 mil euros da gente e ainda reclama?
- Pois é, presidente, não se pode confiar nunca num comunista.
- Chamei você aqui porque quero fazer algumas mudanças nesse prêmio.
- O senhor manda.
- Vamos começar pelo nome. Quero prestigiar um autor nacional. Alguma sugestão?
- Gabriel Chalita?
- É um grande nome, mas ele está com o Haddad agora.
- Que tal Prêmio Merval Pereira de Literatura?
- Ele tem livro publicado?
- Acho que não, mas é membro da Academia Brasileira de Letras.
- Ótimo! A Globo vai adorar. Quero também acrescentar uma nova categoria. Cota pessoal.
- Que categoria seria essa?
- Livros pra colorir. A mãe da Marcelinha quer concorrer. A velha até que tem bom gosto com as cores, sabia?
- Posso imaginar, presidente.
Tom Cardoso


DE MANHÃ


Outro amanhecer, ter-te de volta,
a noite foi longa, a tua presença
agora é mais real.
Ter de novo tuas mãos, os teus carinhos
a doçura da tua voz o encanto do teu olhar.
Saber que mais perto estas, ter-te pelo menos
mais junto com o pensamento unido,
em uma só vontade, de seres minha eternamente.
Quem sabe mais perto chegar.
Amar-te mais profundamente sentir-te, bem suave,
e possuir-te livremente.

Roldão Aires

VÃOS

“os cupins se apoderaram da biblioteca
ouço o seu áfono rumor [...]”
Haroldo de Campos

os cupins
assolam
o corpo
deserto
lânguidos
ocupam
os poros
os livros
gritam
um silêncio
desumano
ausência
de odores
britadeira
da memória
o corpo
está
repleto
(os cupins)
copulam

docemente

diana junkes

Fui comprar um refri, num boteco-restaurante, e eis que ouvi a seguinte conversa:
– Sabe como eles fazem pra descobrir esse negócio dos planetas, né, Adonis?
Adonis é um camarada baixo, gordinho, atarracado, de bigode e cavanhaque, com cabelo comprido preso. Seu inquiridor é um sujeito alto, mais para magro, com os dentes em péssimo estado, mas que, pelo jeito, entendia um certo tanto de coisas sobre astronomia – falava de modo embolado.
– Fazem o quê?
– Esse lance da reportagem, de descobrir planetas. É pela luz, eles analisam as cores, o espectro, e daí conseguem saber se o que tem no planeta é água em estado sólido ou líquido, se são gazes e por aí vai. Conforme a cor. Tudo observando a luz, quando ela passa pelo telescópio com o mecanismo feito pra isso.
– Ah...
– É. E agora descobriram isso aí, sete planetas com condições pra abrigar vida. Mas tudo em tese, tudo só tecnicamente, porque na prática, mesmo, não têm como demonstrar nada. Não têm como provar.
Adonis estava mais preocupado em organizar o caixa do seu restaurante. Mas é bom ouvinte. Seu amigo prossegue.
– Mas também é sempre assim, nem a Nasa nem nenhum desses lances aí vai admitir muita coisa. É que eles sabem... Já tão preparando o pessoal pra grande revelação que vai acontecer em 2020.
Adonis resmunga
– É, tá certo, em 2019. O universo com esse tamanho todo e os caras o tempo inteiro dizendo que “não, só aqui na Terra tem vida, só aqui tem aviãozinho e foguete e em nenhum outro lugar”. Tá bom. Imagina quando os caras chegarem aqui?
A conversa tomou um rumo científico-filosófico que não me permitiu acompanhá-la. Além disso, estava preocupado demais com a minha sede e me distraí com um diorama improvisado contendo trens e uma paisagem pitoresca, tudo desproporcional, bizarro e exótico. Um trem e um vagão, como só na terra devem existir.
Fui para o caixa e o Adonis, talvez entusiasmado com todo o diálogo anterior, disse “Água tônica e um doce? Já tentei tomar isso, mas não consegui”. Respondi que era pra contrabalançar e que, com azia, descia que era uma beleza. “É ruim demais, não tem como”, finalizou, como quem dissesse boa sorte com esse mau-gosto.
Será que algum outro lugar no universo é capaz de fazer uma água como essa, tônica?




Yury Miyamura

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O RECÉM-SEPULTADO


Enormedonho o silêncio por aqui campeia.
A erva que explode, o vento que a assanha
celebram um mundo a que despertenço.
.

[Sidney Wanderley]

Parente Distante


Vou rever um primo distante, mora longe, triste porque são nos momentos fúnebres que sempre nos abraçamos. Mais triste, dessa vez ele não vai me abraçar, o velório é dele mesmo.

JD Microconto

O SOL HÁ DE BRILHAR OUTRA VEZ


A chuva que agora cai;
e levemente molha o chão.
Trazendo o clarão de um raio,
antecipando o trovão.
Matando a sede da terra,
sacia a sede do meu jardim,
devolve o arco-íris à serra,
que ontem roubou de mim.
Chuva que cai sobre os montes,
sobre os vales, sobre as fontes.
Cai tão perto de mim.
Águas que me cobrem a fronte,
misturando-se às lágrimas que ontem,
rolaram sem ter mais fim.
São lágrimas d'um amor perfeito,
que me apertam demais o peito,
e brotam como flores no meu jardim.
São mágoas d'um amor desfeito,
que a chuva, de qualquer jeito,
levou pra bem longe... de mim.

Jonas Francisco Machado

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Melados e bagaços.

Suave pluma global
toca-me o ser, deísmo
Nítido, socorre
Aos porres
De amanhecer

Não atino o ponto,
Insosso do Real

Sub iluminada
emergência concorre

Que jorre, que jorre!

Forja o instante deletério
- intelectuais burgueses -
Dos neurotransmissores
No compasso do adeus
Amnésia e paixão

Falo de outros assuntos
Em meu silêncio
Verborrágico

O trágico majestoso
Estudo e sinistro da identidade
Que em quantidade

Releva-nos o jardim.

Édipo, superfície e caule
Verve urbana comum

Milhões de garotos perdidos
Armagedom e salvação

Ensaio de voo
Até o cartório.

Produção
Anderson Carlos Maciel



Ritmo das ancas globais.


Sub praticada verve
Inconsciente ebulição
Sonata do corpo
                            ( e do )
Espírito
Nuances de Alcatrão.

Sub enleva ritmo o grosso
Fosso da canção

Semeiam as formigas
Antigas
As brigas, garridas,
Da conjugação.

Sim, sou...
Ácido, único,
Sátiro
Nome alemão.

Sob o signo de Aries/Ares
Chuto a boca da solidão

Minha essência é,
Desconhecida, a vida,
Ainda mertiolate teórico
No eólico invento da informação

Teorizam-me os passos
Muitos crassos erros no coração
Sob o entulho da vaidade
Jazem séculos de história
Inconsciente da civilização.

Tua superfície poética
Tão
Letra

Eu horizonte, fluxo,
Refluxo, de sangue,
Suor
Becos,
Nexos, causas, efemérides
Imberbes da nova portentosa
Questão.

Minha palavra jorra
A enferrujar o grilhão
Da alma calma do mestre
Agreste remota e latente
Fremente
Comunicação.

Supõem filosofia
Supõem um homem
Ou não.

Prefiro a loucura dos poetas
Eu também

Do que a mais fremente
Poderosa e belicamente
Lapidada razão.

A escrita é sangue
E minha arma é a letra.

Som ao longe,
Exércitos marcham, marchinhas
Marcharão

Superfícies leguminosas
Da melanina da instrução.

Anderson Carlos Maciel 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ah, esses teus olhos
que habitam de graça
todos os poemas
que ainda não escrevi.

Chris Herrmann

domingo, 12 de fevereiro de 2017


A política hoje em dia, em todas as suas instâncias, sofre um processo crescente de carnavalização. Ou seja, é o simulacro do simulacro do simulacro, onde são seus atores, os ditos políticos profissionais, que parodiam o povo, o criticam e o ridicularizam.
A categorização da classe artística como vagabunda, sendo que é a arte, a partir dos elementos culturais, que constantemente redefine e critica a noção de identidade, é própria de um sistema carnavalizado pelo poder onde numa oficial democracia o voto do cidadão é deslegitimado.
A metáfora mais propícia da carnavalização política é um Rei Momo de uma província qualquer, que ao ser coroado, decreta a extinção do Carnaval.

Ricardo Pozzo
Ser poeta não é recuar em seu exílio a ponto de o mundo material desaparecer. É fazer do exílio uma realidade local e único refúgio.

MK

ADUMBRA

"Mas como nós falássemos a mesma coisa
as mesmas coisas mesma língua & dialeto
parecia possível retratar as margens

de cada termo contratar o nosso acerto
nas mãos do mundo & apertarmo-nos as mãos
entre toques & dedos & a carícia calcinada

dos dias numa nova ordenação do cosmo
então num gesto fácil nomear o mundo
flores de toda espécie com seus gostos cores

seus caules folhas frutos formas invisíveis
ou que nunca aprendemos por nunca querermos
por só preguiça de androceu & gineceu

seus novos nomes poderiam ser mais nossos
ao inventarmos juntos palavra a palavra
toda a sintaxe enquanto descemos a senda

encravada de asfalto nos veios da serra
neste carro qualquer os pés esvanecidos
por baixo do painel as mãos ainda pensas

ainda que sentados o olho sobre o vidro
anuncia a tormenta cinza sobre a mata
compostos de amarelo & púrpura & carmim

preenchem o que resta no pouco de céu
que ainda se desnubla neste fim de dia
enquanto desbotoamo-nos nalgum sorriso"

Trecho do  ADUMBRA | de Guilherme Gontijo Flores

[ edição da Contravento Editorial]



as almas vulgares se regozijam com escândalos alheios e os alimentam! Por exemplo, quando percebem alguém na rua, em sua fragilidade humana, sujo ou maltrapilho, e destacam esse detalhe, sem saber como nem porquê, e ridicularizam ou expõe esse ilustre desconhecido. Mas não esqueçam que, neste mundo onde cada vez mais tão poucos conseguem ver além do próprio umbigo, quem fala do outro fala mais de si do que do outro!
Ricardo Pozzo

Fonte : Escamandro

Altamira



Na variável mais profunda,
tanto caçador quanto caça
estão em fuga.

Naipes numa orquestra de faros,

iluminados nem pelo satélite pálido
seduzido, em seu magnético giro.

Melhor enxerga o que ouve
aguçado

na floresta que assombra quem,
surpreendido,

mira o animal escolhido
e a si reconhece.


Ricardo Pozzo
[A quantas pessoas falta uma mão amiga, um estímulo, um elogio, uma palavra de amor e um gesto de carinho? O mundo virou um tapete de unhas e o diálogo uma traição à vida. Estamos trocando nossa eternidade por marcas, grifes, quinquilharias tecnológicas, drogas, desregramentos e alucinações ególatras. Sem noção...sem noção...] by Antonio Thadeu Wojciechowski

Não temos nem um plano. Seguimos o fluxo e as coisas acontecem, apenas porque encontramos uns aos outros. Não acreditam os que rejeitam a lei do acaso e precisam calcular todos os passos, atropelando quem está na frente.

MK
Creio que deva haver, no Paraíso cristão, um pálacio, símile àquele em que adentram os Einherjar, para as mulheres Mães, Avós e Bisavós que lutaram com todas as forças para proporcionar a seus filhos, netos e bisnetos o Amor, a Sabedoria e a Severidade e que assim possam ter a oportunidade da Escolha ao trilharem os intrínsecos e específicos ciclos da vida com o conhecimento das páginas do Livro do Sagrado.
Louvado Seja o Sublime, o Generoso!

Ricardo Pozzo