quinta-feira, 31 de outubro de 2013

“Uma migalha de mim”


Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu

Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa

Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu.

Bárbara Lia

 (A flor dentro da árvore - página 11)

o teu silêncio me grita
porque te amo
e amo não tem nome
pele ou sobrenome
e não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus oróprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode ferir pode sangrar fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
porque te amo no sol no mar na neve

arturgomes

http://www.youtube.com/watch?v=BPjUvsYN9QE

veracidade

veracidade
por quê trancar as portas
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora

Artur Gomes SampleAndo


http://artur-gomes.blogspot.com/

fragmento de dezembro, 26

a trafegar no coice das clausuras
as cores dos meus olhos são pincéis

dezembro é o extrato das torturas."

romélio rômulo

fragmento

poesia é carne. poesia é carne crua.
poesia é morte. poesia é desmantelo.

a poesia que eu como anda na rua."

( romério rômulo)

per augusto & machina,fragmento 2009

poeta que da vida fez pedaço
ando em tropel nas ruas da cidade
como um bêbado recolhe o seu espaço.

o cérebro é pagão. a mão, feita de aço."

romério rômulo

'' As equações não explodem'' disse o Herr Einstein; e eu acredito que as economias também, se fossem menos financistas, e sim mais equacionadas, as equações são lindas! não precisam de fissões! além das que podemos conhecer nos papéis; as economias não explodem, quando mais ensolaradas e mais ventadas.

Tullio Stefano
● os ratos escapam das casas ●
● os ratos saem pra trabalhar ●
● os ratos vigiam os ratos ●

● os ratos atropelam os ratos ●
● os ratos devoram os ratos ●
● os ratos esperam os ratos ●

● os ratos passeiam nas praças ●
● os ratos produzem o mundo ●
● os ratos vivem nos mercados ●

● os ratos se rebelam os ratos ●
● os ratos rezam os ratos ●
● os ratos estudam os ratos ●

● os ratos e o deus dos ratos ●
● os ratos e a loucura dos ratos ●
● os ratos e o desespero dos ratos ●

● os ratos e a musica dos ratos ●
● os ratos e a arte dos ratos ●
● os ratos e a palavra dos ratos ●

● os ratos suam no trabalho ●
● os ratos gritam de fome ●
● os ratos se deixam viver ●

● os ratos governam os ratos ●
● os ratos roubam os ratos ●
● os ratos torturam os ratos ●

● os ratos adoram os ratos ●
● os ratos são mais q ratos ●
● os ratos morrem como ratos ●

● os ratos sempre e so os ratos ●
● os ratos nada mais so os ratos ●
● os ratos e a ilusão dos ratos ●

Alberto Lins Caldas

.
As únicas flores que recebeu do marido depois de cinquenta anos de casada foram crisântemos que confeccionaram a coroa para adornar o caixão.


JDamasio

Dia 10 do 08 de 2008, às 14h30min completara 10 anos que conheci meu amor. Presenteie-lhe com um relógio, ela adorou! Mesmo o relógio volta e meia estragando, levava-o ao conserto. Há 4 anos, 6 meses e 2 dias, às 6h15min, ela me abandonou, fugiu com o relojoeiro.
JDamasio

fragmento

amo o rastro do teu olho
a tua mão, um ferrolho
do meu desejo anormal."


( romério rômulo)
- - - - ahora en rostro mío, mudo, recibe este amor que te pido en besos, en bombas / de neutrones, no en palabras. en mi cuerpo mudo, mis ojos son llaves/ haces nata / el silencio... lâmpara y luz, en mi lenguaje nacido del amor, es por su sombra / - ánima , mi amigo, unido a mi nombre, mi amor es, mi ángel, es mi hombre ... mi demonio y nada /
más.

por sus buitres / en mi cabello/ soy negra en pensamiento ...

palabras

Adriana Zapparoli

... entre os dentes e palpos: são felpos de ódio e melancia



são cadinhos abrigando artes, silvícolas ruivas, de sossego.
elas se alimentam de pólen, resquício de juízo e vivência; são alquimia, transmutação e azia de lontra, em pausa, no lago de sofia, que as trazem para perto de outras iguarias... um escudo invisível, a alma sucinta.... o tempo nublado chama, para o fundo do lago de manta colorida, angelblue e ela retratada no colapso de um sorriso de felpos ...

Adriana zapparoli

fragmento de minha plaquete Violeta de Sofia - Lumme Editor [ 2009 ].
disponível para aquisição no site da livraria cultura:

http://www.livrariacuritiba.com.br



● tomar a noite a noite toda ●
● em doses sempre maiores ●
● nas arterias nas veias melhores ●

● a noite toda gota a gota a noite ●
● como se toma como se respira ●
● quase sem se notar quase assim ●

● tomar a noite a noite toda ●
● como se toma uma coisa ruim ●
● coisa q se torna essa coisa boa ●

● tomar ate o fim ate a meia noite ●
● e depois ate o fim dessa noite ●
● no coito rouge entre treva e sol ●

● tomar a noite a noite toda ●
● sem seguir viagem sem se mover ●
● sem remoer essa dor e cada hora ●

● deixar a noite a noite toda ●
● a noite entrar como sexo duro ●
● todo cheio de sangue e fome ●

*
Alberto Lins Caldas

Jogos florais I



Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico
Enquanto isso o sabiá
Vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
Ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Cacaso

A Poeta Bárbara Lia



- Amor, o que eu faço pra você  mentir menos pra mim?
- Faça menos perguntas.
Adriano Esturrilho

Para Você Não Esquecer Dos Seus Sonhos

Aos poucos a saudade de você vai sumindo
Como uma fumaça fraca e imperceptível
Que eu não noto mais dissipar-se...
Na passagem do meu tempo por aqui
Sorrindo...eu caminho em direção ao depois da minha dor
E nesse lugar você nunca existiu.


 Alexandra Barcellos

Ei..., você...,



Que está se livrando da saudade,
Deixe que ela tranquila se esvaeça...,
Nem procure notar se ela se dissipa,
Simplesmente, deixe que vá... !

Na passagem do tempo,
Venha para o futuro,
É venha..., porque aqui estou,
Muito depois da sua dor.

Nunca, jamais em tempo algum,
Outro alguém aqui esteve,
Sou eu quem a espera,
E que não seja de passagem.

Pois comigo Você sentirá,
Que não haverá sofrimento,
Caminhe na minha direção,
Sorrindo, e disso não se esqueça.

Pois com meu amor,
Um dia no passado,
Pensei assim e resolvi,
Colocá-la nos meus sonhos.


Olinto Simões - 29/10/2013 - às 17,23 h.

Conforto e Proteção Divina

 Rapaz, se vc procurar no facebook tem uma penca de Deus cadastrado... não sou amigo de nenhum! Se tudo Deus resolve e ele é um serviço público, pela minha experiência vai estar tudo sucateado, sem verba e sem material. Melhor coisa é a "oração do Foda-se"...

Fernando Luiz Diem

essas atuais barcas modernosas que fazem a travessia rio-niterói se vê tudo, menos o mar. o rio de janeiro virou uma puta de gringo para os gozos glpbais dos bancos, do cesar maLa, cabralóide, e uns e outros que ja deviam ter nascido mortos, uns tais roberto marinho, brizola e oscar niemayer, e pior que essas porras nefastas viveram mais do que deus. isto aqui é uma tristeza para qualquer um que sente e pensa com devida profundidade.



Tullio Stefano
Estava me sentindo um escritor medíocre, um homem com complexo de inferioridade. Procurei descobrir grandes feitos em vidas passadas. Foi aí que fiz a regressão que me deixou ainda mais perturbado. Descobri que vivia pendurado numa árvore, dentro de uma fruta. Era o bicho da goiaba!

JDamasio


estou a escapar pela tangente
sem raio que me centre.


em breve

a letra que conduz
à língua que me prende

escapa

a ideia que me prende
à boca que conduz

em breve

sem rede que me enrede
estou a escapar como ar

- jamais!

[poema mais ou menos inédito]

Diego Callazans

Máfia.


Considera-te um alto posto
morto
se durante a minha santa ceia
eu beijar duas vezes
teu rosto.

Flá Perez

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Que noitada boa!
A dentadura do velho
sorrindo no copo
.

Alvaro Posselt 
Perdi tantas coisas quando atravessei o patamar para o que considero _ O meu lugar _ A Poesia. Pena que ao adentrar o meu lugar, perdi amigos e amigas mais velhos que a Via Láctea, a liberdade de ser uma pessoa intocada, eu que amo me reservar e me esconder, sem esta coisa pública que permite que alguns discorram sobre sua vida em público como se você fosse um quadro de Picasso... Perdi e ganhei e só não sei como dizer que eu sou una, pratico a Literatura/Vida, uma vez Marco Lucchesi escreveu isto em um e-mail, ao perceber que eu não sei separar a Bárbara da Bárbara, eu gostaria, como eu gostaria... Melhor fazer uma terapia, e terapia de poeta é escrever poesia... Fui!

Bárbara Lia


eu estou aqui... não falem por minha memória. é com vocês ensurdecendo. corpo, coisa estranhada por acidentes, atuado por complexas forças da instabilidade. mais que identificado, marcado corpo. anjo que, não sabemos se caído ou aparecido, torna-se em nós. face, máscara do vivido no vivente, do ainda a se. não haver face é não haver vida, ao menos tal qual pensamos reconhecer. nem mais demônios e assunção no eterno jogo de uma imagem apaga outra, que apaga outra, que apaga diante da percepção dos olhos, ouvidos e, mais, da pele e, mais, da alma inconscientes. com o que veremos, escutaremos além? pisca e aonde ele foi? eu estou desaparecido, digo, não estou

Luiz Felipe Leprevost

descansa nas asas
de um sopro da brisa
lençóis de nuvens.

lisa köe
a gaivota
toca primeiro a nuvem
antes de voar.

o olhar o desejo
chega antes da palavra.


lisa köe
coração a mostra
nas veias do poema
o pulso mais forte.


Lisa Köe
Eco na sombra
O sêmen d' um poema
Fecunda noite.


Lisa Köe
jeito de tocar
silenciosamente
sendo nuvem

tocar sem palavras: ser
há mil maneiras d'amar.


Lisa Köe


Discurso do Boêmio


Liberdade
É sono acompanhado
É torpor do abraço
É respirar em tua boca pela nuca
É tear fio de nossas coxas
É fazer chão de cada pé
É cobrir corpo noite inteira
É rir da manhã ‘lerdeira’
É quatro mãos a estender  cama
É beijar xícara do mesmo lado
É  molhar traços de pertinho
É apertar botão- que desatino !
É caminhar até a porta
É abrir casa ao mundo
E
Por cada segundo
Lamentar toda partida.

Jeronimo Collares

Sampa


Para o mundo:
Tendências da Primavera.
Para Curitiba:
Tentativas de Primavera!!!



deisi perin
Na praça Santos Andrade, enquanto esperava... Olhava a Universidade Federal do Paraná: Quando pequena queria ser médica. Do outro lado se via encenando no pomposo Teatro Guaíra: Também sonhara em ser atriz. No ombro um toque, mais um programa!

JDamasio

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

fragmento

poesia é carne. poesia é carne crua.
tem olho cego, terreno de atropelo.
poesia é a morte. poesia é desmantelo.

a poesia que eu como anda na rua."


( romério rômulo)

domingo, 27 de outubro de 2013






.contos de criptonita. ou .fazendo experiências caseiras com felinos.



.deixei no ambiente os sons de "A grande orquestra da natureza / Descobrindo as origens da música no mundo selvagem" (Bernie Krausedo), que estão disponíveis no canal soundcloud da Zahar Editora.

.gorilas, onças, orcas, castor chorando e tudo mais. meus gatos nem mexeram as orelhas. nada. eu pensei: a culpada sou eu, já que eles são gatos de apartamento e nem sabem a diferença entre um graveto e um bicho-pau, pelo cárcere urbano.

.até que o uirapuru-verdadeiro cantou e percebi uma reação em um dos gatos. estalou os olhos amarelados e reproduziu perfeitamente a ilustração famosa do Chat Noir.

.fiquei atenta para perceber os sons corriqueiros dos apartamentos ao lado, para ter certeza de que o gato tinha reagido pelo uirapuru e não pelo piano de um vizinho ou o chuveiro de outro, como normalmente acontece.

.nada. silêncio de domingo. os vizinhos estão silenciosos. foi o canto digital do pássaro.

.continuei ouvindo os sons da floresta. e os gatos voltaram ao seu estado natural: esfinge entre almofadas.

.outro pulo de gato no momento do som de orcas atacando uma jubarte.

.mas não foi pela luta marinha a reação felina. era um outro miado no banheiro atraindo o espécime. fui conferir. o gato do banheiro fazia um escândalo macio porque focou uma aranha no teto.

.fiquei em dúvida se ele reconheceu a aranha como ser vivo, porque também mia da mesma forma quando as penas de meus filtros-de-sonho se balançam pelos ventos curitibanos, sempre gelados.

.tirei o gato do banheiro e fechei a porta, para não interromper o experimento.

.a aranha que fique lá pelo box. não vou sacrificá-la em nome da ciência, mas espero que ela tenha o bom senso de não fincar seus oito olhos no meu sabonete de erva-doce e que nem queira escapar pelo ralo desinfetado, senão vai se asfixiar com a parafernália asséptica com que revestimos os nossos dias, para escapar da floresta e dormirmos tranquilos e bem acondicionados em nossas celas justas, limpas e civilizadas.

.ao som de larvas de insetos, concluo o experimento: incompleto por falta de dados.

.volto a cochilar com os gatos. ando exausta. com este cansaço, temo que nem o uirapuru-verdadeiro consiga que os martelos de meus ouvidos vibrem qualquer julgamento sonoro sobre o próximo réu, que tentará em vão, me despertar de um sono de séculos.

Andreia Carvalho Gavita 


Alexandre França

Em cada floresta
Há um fauno
Ensinando
Aos berros
As regras aos
Visitantes
De como brincar
De se atirar
De abismos
Sem quebrar
Nenhum osso
Do corpo.

Diego Callazans

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.


esses frutos tão maduros
pendem no fim das tardes
e so desabam no outro dia

esses frutos são todos pobres
são todos negros demais
como bem se pode ver

ficam assim balançando
ao vento ao vento sempre
brincando de morrer

esses frutos são violentos
sempre duros demais
todos negros demais

dizem q falam q pensam
q gritam assim os frutos
quando pendem pra brincar

é meia noite é toda hora
quando não balançam
são as balas são as facas

esses frutos não esperam
não esperam amadurecer
eles pendem pra morrer

esses frutos são amargos
são duros dificeis de colher
esses frutos são todos negros


(Alberto Lins Caldas)



Era uma vez um arqueiro zen que me feriu como ninguém

Bárbara Lia


esta tristeza vaga profunda e persistente
esta música inexistente – Nona Sinfonia
a rasgar o coração imerso no acre odor
de tua ira vã. lavo-me com bucha vegetal
sabonete de lavanda para espantar esta
carnadura de ódio das minhas entranhas
anseio ir viver em um antro de gueixas
onde um velho cultua uma espada fria
para transpassar teu coração – cima/abaixo
o meu canto é negro e triste e nada nada
vai alterar esta caótica visagem – esfuma
a cada giro das asas do temível beija-flor
 
 

  


Carpe diem



Fluxo anêmico dos carros (de luxo)
Sol selado de adesivos Mc Donald’s
Arabescos eróticos na fumaça cinza da panificadora ao lado
Semente masculina perfumada amaciando o tecido da minha pele
Água calêndula no ralo revela a forma exata do rosto estrangeiro
E do sexo formigueiro de prostituta de Veneza...
Espie pela fresta do Zeppelin dos sonhos _ Meu Mundo:
Sem Florais de Bach. Feng Shui. Mantras
Músculos da alma _ expostos _ Cicatrizes mortas
Lâmina que corta escaras
Revela o mármore de Carrara
_ Vivo.

Bárbara Lia
A última chuva (ME/2007)

Página 15


por favor
não me invente...
eu já existo...
feito mistura de cores
sob a regência
de um lápis de cor
nas mãos de quem
já me sabe de cor...

josemir(aolongo...)
 


fragmento

amo teu couro de aço
tua verdade imunda
amo teu mar, tua bunda

chego a amar teu cangaço."

( romério rômulo)

CANTO TRISTE


NALDOVELHO

Eu tenho um canto triste
engasgado na garganta,
música que eu não ouso concretizar,
lágrimas que acovardadas, não rolam,
face árida e sulcada pela solidão.

Eu tenho um poema apaixonado
que perambula pela casa,
e que volta e meia me assombra,
diz que precisa nascer
antes que eu o faça morrer.

Eu tenho uma noite de paixão
misturada aos meus guardados,
veneno injetado em minhas veias,
e por mais que negue a saudade
é ela que alimenta meu coração.

Eu tenho uma cicatriz esquisita,
lado esquerdo do corpo,
que na mudança de tempo incomoda,
suas marcas, seus rastros, seu cheiro,
paixão que eu não ouso confessar.

Eu tenho um livro de contos,
histórias que eu trago comigo,
lembranças amareladas,
uma tapeçaria inacabada,

palavras que eu não consigo pronunciar.
Espelho liquidificador marca com lápis sanguíneo o tempo em minha face.
Ecos do acorde da apocalíptica caveira invadem a aurora.
Cansei das noites solitárias e este cenário de lua & estrelas.
Planto sementes de lua esperando um céu do avesso:
Mínimas luas: crescentes, minguantes, cheias _ bilhares, multicores.
E uma estrela _ azulada imensa _
A bailar no cobalto-quase-negro das minhas noites solitárias.

Bárbara Lia _ O sal das rosas _ Lumme Editor _ 2007

Elogio do mal



1. A uma certa distância
todas as formas são boas.
Em cada coisa, um desvão;
em cada desvão não há nada.

À mão direita, a explicação
perfeita das coisas. À esquerda,
a certeza do inútil de tudo.
Ter duas mãos é muito pouco.

Por isso, por isso os nomes,
os nomes que embebem o mundo,
e os verbos se fazem carne,
e os adjetivos bárbaros.

2. O mundo se gasta aos poucos.
A coisa se basta a si mesma,
mas não basta ao que pensa
um mundo atulhado de coisas

que se apagam sem pudor,
que se deixam dissipar
como quem não quer nada.
Existir é muito pouco.

Por isso, por isso os nomes,
os nomes que se engastam nas coisas
e sugam o sangue de tudo
e sobrevivem ao bagaço

e negam a tudo o direito
de só durar o que é duro,
e roubam do mundo a paz
de não querer dizer nada.

3. Bendita a boca,
essa ferida funda e má.


Paulo Henriques Britto | Mínima Lírica | Liturgia da matéria


--- a energia do sol trilha um medo fúcsia e azul ... e se caímos e levantamos... e acordamos perdidos ao redor-concreto, nessa nave- solstício - esperando do pouso um artifício, por poucos feixes entre volts-elétrons, eu lhe digo, meu amor :

--- não há prefixo, antes do conceito, preconceito consigo, por amar esse amor ...

Adriana Zapparoli 

sábado, 26 de outubro de 2013


Formiga


Parte superior do formulário

Pequeno dragão
doméstico.

Cabeça grávida
de hibisco.

Rústico abdome-
cogumelo.

Escava o incerto
dos dias,

para a trilha
vertical

de farelo, fúria
e folhas.

Carrega seus mortos
nas costas,

com precisa
geometria

de fábrica
fúnebre

Cláudio Daniel

Tenho a arma de todos os dragões:
Labareda-boca
Dói-me a alma pela cicatriz
(E nem um pássaro empedrado doeria tanto).
As águas
Cicatrizam-me
Histórias de abandono.
Doem-me
Também pelos cotovelos
As paixões do arvoredo.
É o bicho tristonho
Movendo as pedras
Do meu rio sem margens.
Na fumaça que trago
Recobrem-me saudades.
Respiro fundamente a superfície
De um atroz
E absorto
Nada.


(2004)

Roberta Tostes Daniel

PIOLHO



Money is a crime
— Roger Waters

Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro.

(Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogume-los e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada.

Lady sings the blues para vocal e piano. Retrato de Wilde na parede e ta-peçarias com toscos motivos de gnomos de barba pontuda.

O business man engole nacos de carne vermelha entre chamadas ao ce-lular e citações do Economist sobre a crise da balança comercial.

Tabaco provoca câncer. Trabalho conduz à liberdade. Café com cre-me e canela. A metafísica do compromisso institucional.

Todo homem de negócios é sério. Tem sapatos sérios de couro italia-no e óculos sérios com aro de tartaruga. New York, New York.

Bico de papagaio na coluna recurvada. Folders de lançamento do novo produto. Brieffings para a mídia. Um calor estival, quase Saara.

Relógio digital marcando quinze minutos para Qualquer Tempo. Uma vaga sensação de arritmia (fadiga ou problemas coronários).

Executivos sempre usam marcapasso, água-de-colônia e longas meias pretas.


Claudio Daniel

que pássaro é este que pousou na janela
e me olha estático
esquecido das asas
— não sabe que é noite?
e que a cúpula do céu nos ignora
(embora a lua)
que os pássaros dormem
o sono invisível
dos pássaros?
espelho — me reflete a vidraça?
então sou eu
este pássaro mudo, este pássaro trágico
este pássaro?

Nydia Bonetti.

TRAÇA



(Entre fólios de ciência antiga e espectros de monjas nuas desencarnadas.)

(Olhos opiados afundam em partituras da Outra Margem.)

(Ruge um leão hipnótico.)

(Letras sangradas na pele de carneiro. Figuras metálicas em expansão.)

(Palavras criam realidades.)

(Traças cavam sendas no papel.)

(Toda leitura é uma cicatriz.)

Claudio Daniel

PRESTIDIGITAÇÕES (I)



Nada nesta mão,
nada nesta outra.

Agora um gesto rápido
(movimento insidioso do braço).

E extraio, entre os dedos,
do espaço abstrato,

um pássaro, que se desata,
ascende e se desbarata:

magnífica elisão
de todo este cenário!

("Criptógrafo Amador" -

Curitiba: Medusa, 2006)
Marcelo Sandmann

PRESTIDIGITAÇÕES (III)



Partamos do pressuposto
de que as plumas que caem
sobre o tablado
(lâminas luminosas
de silêncio concentrado)
são os fragmentos impossíveis
de uma metáfora irrecusável.

Partamos do pressuposto
de que um novo gesto lépido e enigmático
(costura musical
invisível no espaço)
logrará remendá-la,
propondo de novo o pássaro,
posto que agora empalhado.

Partamos do pressuposto.

("Criptógrafo Amador -

Curitiba: Medusa, 2006)

Marcelo Sandmann


Este pequeno silêncio
Entre um barulho e outro
Que se derrama
Pelas mãos do ouvido.
Pode repetir?
Este que não para
Para ouvir
Que não chama
Não inicia
E não termina a olho nu.
Esta partícula indivisível
O começo da ausência pura
A partitura
A ruptura branca
A moradia do som
A morte levantada
Desmaiada
A sombra do universo
O fim que não tem fim
Em seu começo
sem começo

Pode repetir?

Alexandre França

Bebo o sangue da luna rossa. Bárbara figura,
vestida de pele de ovelhas que mal me cobre o
sexo. Lilith devassa, louca alada e nua, escondida
em uma roupa de senhora.
Não sou esta dama no salão de chá,
cadeiras bordadas de flores
da confeitaria das família,
diante destes poetas loucos,
vomitando asteriscos e estrelas e dissecando a XV
da Federal à Boca Maldita...
Estas figuras ternas, meninos de camiseta hering branca, e óculos
de Clark Kent, tomando coca-cola, na hora do ângelus, pisam
partituras de ossos e surfam no caos, dominam suas ondas...
Suas pipas são estrelas inconclusas, com seus fios esgarçados,
que eles alcançam da torre da Catedral.
Ninguém diria que ferve nas veias um rio vermelho encharcado
de blues, nesta saudade órfã do triste homem azul,
pode que ele nos espie no canto da confeitaria, em um ângulo
discreto, com aquele olhar maroto, e aquele chapéu escuro,
pode que ele acompanhe meninos poetas, andando sobre os muros,
explodindo em vida ao nosso lado, e a gente pensa que é a brisa
de fim de tarde na XV - é sopro de Marcos Prado -
este cara eterno que nos mata de saudades...

(by Bárbara Lia)

Notícias do front noturno.


São milhares
De placas de Pare
Derrubadas por ano.
O Estado discute
Sérias medidas
A ser tomadas
Na próxima

Madrugada.

Alexandre França

XIII – Incorporação


Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto e viver-te
como a sede vive a fonte.
Atenta ao ruído que anoitece (e adentra)
do catavento sobre nenhuma presença
para dar-nos ternura,
nós que tanta ternura presumimos dar.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como raiz e tronco
em todas as noites de insuficiência.
Daremos adornos e crepúsculos
aos rostos que nos espiam.
E para tornar-nos serenos
frente ao encontro
esmagaremos corações com nossos corações.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como pedra em pedra
ser a sentinela do tempo em sua redoma,
olhar através da redoma os peixes
que plantam luas nas alpondras
e suprem-nos de tanta glória
numa ternura daninha de querer.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
prestes a pousar sobre o breve corpo.

- Lindolf Bell, em "Incorporação. Doze anos de poesia 1962 a 1973". São Paulo: Quíron, 1974.


VOCÊ QUE SABE


“aos que morreram e esqueceram de deitar”

Inscrição no túmulo do quadro “Santíssima Trindade”, de Masaccio: “Eu fui o que tu és e o que sou tu serás.”

a porca “ingnorança”, humano,
não é das letras e dos números
na cova não tem mano a mano
restam occiptais, ilíacos, úmeros

da “sabença” vã, não generosa,
também os vermes hão de ler
e é dessa insígnia mais desonrosa
a bruta dor de barriga que vão ter!


antonio thadeu wojciechowski

fragmento


por tua força vilã
na noite, me encarrego

de só morrer de manhã."

( romério rômulo)

CABEÇAS DE FORMIGA


Como este breve sentimento de decomposição, falanges
à maneira
do escuro.
Linha tênue de folhas recortadas
e cabeças
de formiga.
Pétalas roxas,
um tipo de bolor.
Passos escuros
no jardim.
Ritmos podres
de cadela.
Fumo branco,
idéias pesadas
e algo que se desdobra no espaço
curvo
em aromas
de tantálico
negrume.

— Nenhuma música, ali; nada além da carne
dos cogumelos
e seu escarro.

Claudio Daniel