sábado, 29 de junho de 2019

De onde vem os poetas?





De onde vem os poetas;
Do planeta dos guardanapos,
do universo das canetas?

De uma paixão insana, desmedida, desumana;
de um amor sem réguas, tréguas ou rancores?

De onde vem os poetas;
De um lugar no fim do mundo
onde o gato perdeu as botas?

Da solidão das noites frias, da saudade, da melancolia;
De um momento de alegria, luz e acolhimento?

De onde vem os poetas;
De uma energia inteligente
intermitente, clara e abstrata?

Da luminosa estrela nova que cai sobre esta terra,
iluminando os pedidos de um sonhador comum?

De onde vem os poetas;
De um genoma indecifrável
construído nas provetas?

Dessa louca aventura hereditária de viver e reviver eternamente,
como um vago e solitário penitente numa cela construída pelo tempo? De onde vem os poetas;
De um colorido quintal da infância,
da abnegação de um asceta?

Do Bosque Estético de Tithorea, de Minemósine, Plinea, de Caliope,
do religare oculto da filosofia, num sem fim de hipócritas e cínicos?

De onde vem os poetas;
Da Basílica de São Pedro,
Dos labirintos de Meca?

Como anjos decaídos surgem de todos os lugares
Pelos mares da loucura navegando alma e sentimento

De onde vem os poetas;
Vem do norte, vem do sul;
pela rosa desses ventos?

Das esquinas do pecado, do desejo mais sublime?
Hoje eu me respondo: os poetas vem de dentro!

Marco Araujo. RS

Emaranhado de ferros e concreto sejas minha natureza vive nele e suas ruas sujas com lixo nos intuam afim de transmutarmos dentro de nós o ruim para o bom" 

Cairo Rosa.



Lamento



Aqui não há praia,
mar, nem vento.
Não há espaço
sequer.
Aqui onde lamento
há somente uma
mulher,
que insistentemente,
a reinvento.


 Paulo Henrique Frias     

Governo da antimatéria



Em 1312 eram poucos
os dias de sol
embora o sol não fosse
pouco a ser lembrado;

em 1312 ou trevas
(ou ir-se ao estar-se
onde) era o verão,
o seu dedo em riste

que alertava o coração
sobre a leveza
do dia, do diáfano,
sobre a leveza

do indestrutível,
sempre reportado -
o indestrutível - sempre,
pelas coisinhas no ar.

Reportado o perene
quando um herói
(não de gesta, um nosso)
sonhou dentro dali

o mero de seu sonho,
o fatal cansar-se vendo
e ser visto,
e quanto foi encarado

logo o mendigo
(outro herói?) percebendo
do logro o lusco
o fusco do dia.

(Também este, ó
irreversível o troço
suportando, ó suporte
pela força do hábito;

e era a rosa
o suportado, e era
o hábito o contato
também este,

mesmo renegado
o conceito,
os conceitos, fímbrias,
tosca fímbria

o estético:
não ultrapassando
do sono o pouco -
isso aqui ó

do ridículo, o
ordinário híbrido
também este,
tosco exercício.)

Que havendo
o projeto, o real
e seu quê de
real e de fantástico,

fosse tecnica-
mente detalhe,
um saber da energia
que o destino desse

àquele justo, avesso
que era ao luxo
até o exagero -
sem sobressalto

o nosso herói:
benfeitor dos ratos
nos dias de sol –
nos dias sinistros!,

e tagarelando seja
ainda e tartamudeando
não faça mal -
se um demais houver

do destino, sobre o estado
impraticável
intolerável
das coisas havidas

que deveriam cansá-lo,
usá-lo (ao nosso herói)
que deveriam, que deveria
usar - coisas usadas.

E era devido ao uso
contínuo, irreversível
sob o lusco
o fusco do logro.

Ó jeito antigo -
muito antigo o verão
(1312 ou trevas) -
de saber-se visto

apesar de nosso
o herói; apesar
de procurando a sombra,
a intensa procura

do sereno despertar,
dos lugares frescos
onde o detalhe
- onde o destino.


Ari Marinho Bueno         




sábado
14.05.2005

PLENIPOTENCIÁRIOS




Em nome da fé
Fogueiras ardiam
Queimavam irmãos.
Suntuosos da santa sé
Seus martelos batiam
Condenando “pagãos”.

Dizimavam nações
Espoliando seus bens.
Com a espada da cruz
Removiam paixões
Indefesos reféns
Sucumbiam sem luz.

Opulentos pontífices
Esperavam o fasto
Iniciando torturas
Copulavam meretrizes
Deixando casto
Riquezas futuras.

Conclamavam amores
Em beneficio do pai
Mefíticos das dores!!!
Teus mandamentos sujai.

Sois fauno da escoria
És dízimo do mal
Pregoado em nossa historia
Em memória imoral.

Das cruzadas
Ora lastimo
Raça tão gentil
Ruir sem tino
De mãos dadas
Sem muro de arrimo
Nem aríete bramiu.
Morticínio indo e vindo.

Brotados do pé
Profissionais da fé
Assassinos na sé
Caminhando de ré.

               
Francisco De Arruda Bezerra

CHICO DE ARRUDA

E OS ANJOS RIEM DE MIM


Antes que o dia amanheça
e a luz do sol apareça,
preciso abrir as janelas,
expulsar do quarto os demônios,
quebrar vidraças e espelhos,
destruir mapas e planos,
perder o rumo outra vez.

Antes que a fruta apodreça
e os pássaros abandonem seus ninhos,
preciso cometer sacrilégios
em versos que falem o absurdo
de ruas manchadas de sangue,
e orar por este povo sofrido
que cego não enxerga o seu fim.

Antes que o meu tempo se acabe,
e o teto que me protege desabe,
preciso quebrar o silêncio,
alquimizar em mim o veneno,
poder socorrer meus irmãos,
mas ninguém lê meus poemas,
e os anjos riem de mim.



NALDOVELHO

Dora



Os dias são diversos e pudera
Vencer a dura angústia que me invade,
Na fúria sem igual na tempestade
Marcada nos anseios da quimera,

A luta se transforma noutra espera
E quanto mais o tempo me degrade,
Maior este temor e a falsidade,
Ao fim noutro cenário degenera,

O quanto da verdade se apresenta
No vórtice temível, na tormenta,
Que aos poucos nos tomando me apavora,

Porém num manso amor esta bonança
Que toca em plenitude enquanto avança
Trazendo nos meus braços, minha Dora...



Marcos Loures

Caixeiro Viajante



João Polino, quando rapaz, era um dos maiores conquistadores de Santa Martha, um verdadeiro cavalheiro, dono dos olhos mais azuis do Caparaó.
O seu atual cunhado, José Reis, irmão de sua amada Rita, tinha um armarinho de secos e molhados naquela terra adorada e fria.
João, dono dos seus dezessete anos, resolveu trabalhar com José, de olho na Rita, menina ainda, mas dona de uma mansidão e serenidade realmente cativantes.
Logo assim que começou a trabalhar, João recebeu um convite irrecusável; uma das maiores distribuidoras de alimentos da região, com sede em Cachoeiro de Itapemirim, resolveu chamá-lo para fazer um teste como caixeiro viajante.
João não pestanejou; a possibilidade de um ganho maior e uma vida de aventuras que se desenhava pela frente eram por demais tentadoras para o nosso herói.
O gostoso da profissão era isso mesmo, a variedade de lugares e de pessoas com que conviveria. Todas essas coisas cativaram João, que começou uma história de aventuras sem par...
Numa dessas viagens, João iria para Guaçui, o que não teria problemas já que a cidade tinha uma infra estrutura até que razoável.
O Hotel Real, no centro da cidade tinha vários leitos à disposição dos viajantes de sempre e dos turistas ocasionais.
Acontece que, por aqueles dias, haveria uma exposição de gado na cidade e o hotel estava totalmente completo.
Nada demais para João, acostumado às intempéries da estrada.
Acontece que, quando se preparava para ir para a estrada, viajando para São Tiago e dali para São Lourenço quando encontraria, facilmente carona ou condução para sua amada Santa Martha, a tempo de ver sua Rita, a chuva despencou.
Chuva não, minto; tempestade, e das brabas.
Chovia como dizem alguns , a cântaros, e até canivete começou a cair sobre as costas dos desavisados.
Procura daqui, procura dali, eis que surge a última esperança: uma pensão lá pros lados da Vila Alta, usada por casais em busca de um local sem testemunhas para a noite de amor que se aproximava.
Mesmo lá, não havia leitos. Mas, com pena de João Polino, Toniquinho, o gerente da pensão deu uma sugestão:
Havia um senhor de avançada idade que, sem parentes e sem amigos, morava na pensão, dono de um quarto vitalício, pago regiamente com seus proventos de ex-militar.
A noite avançava e a chuva nem sombra de amainar...
João aceitou o convite de dividir a cama com aquele senhor, inofensivo e asmático.
Noite alta, madrugada adentro, eis que, de repente, o senhor dá um grito e começa a pedir ajuda de João:
-Meu filho, me arranje uma mulher, pelo amor de Deus, te dou tudo o que tenho, mas me arranja uma mulher depressa...
Ao que João impiedoso, respondeu: -De forma alguma meu senhor, nem por todo dinheiro desse mundo!
-Por que, meu filho, me diga por quê?
-Em primeiro lugar, são duas horas da manhã e eu não vou sair de madrugada procurando mulher, tenha a santa paciência!
-Em segundo lugar, está chovendo muito e eu não trouxe nem guarda-chuvas e não quero ficar doente, muito menos pegar uma pneumonia e em terceiro lugar: meu senhor, o que o senhor está segurando não é o seu não, É O MEU!

Marcos Loures  

Não permita que eu seja amargo e triste



Não permita que eu seja amargo e triste
E trace a cada olhar o despreparo
Tornando este caminho bem mais claro
Na sólida expressão que em paz consiste,

O todo que deveras sei e existe.
No quanto tanto sonho ora declaro
Vivendo cada instante como um raro
Cenário que deveras já persiste.

Meu mundo se entorpece no teu mundo
E quando nos teus ermos me aprofundo
Nas furnas delicadas, a delícia,

A pele se arrepia e num instante
O tanto que se tente nos garante
O imenso turbilhão numa carícia...


Marcos Loures  19 de agosto de 2011 12:48
O mar lambe a areia
Que se entrega plenamente
Renova o verão...

 Marcos Loures 

O Homem


O Homem
Transforma o poder tenebroso,
e traz da profundidade o puro néctar
a sabedoria que irradia da consciência ,
ilumina, expande suas verdadeiras ,qualidades,
transforma os elementos que o nutre,

Ar, Terra, Fogo, e Água,

após ter-se erguido dos fluidos turvos da paixão.
É a síntese viva do mais profundo e do
mais elevado da escuridão e da luz,
do material e do imaterial,
das limitações, e individualidade,
da universalidade ilimitada,



Dora Doroty B J Dimolitsas


Um Certo Vinícius


Já não ouço a voz do poeta
Som embrigado pela dose certa
Bêbadas palavras ausentes desta festa
Que em meu rumo ficaram
E a cada momento regressam
Se manifestam.



Cecília Sabino   

Salvação

Tento me salvar dos
percalços
e das dores que a vida me
deu;
tento me salvar dos
fracassos,
dos tremores dos
detratores,
dos sopapos, dos apogeus,
tento me salvar dos
pavores,
das queimadas, das
rodadas,
nada possuo, só fé em Deus.

Vallisney de Souza Oliveira

Amoroso esquecimento

Eu, agora- que desfecho !
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci ?

Mário Quintana

Punhal

Cravar um punhal na palavra
intrincado enredo de cada frase
e não ter medo de errar
travar uma luta em segredo
decapitar vírgulas
abolir crases...

Vallisney de Souza Oliveira

Realidade

Cada qual com a sua
linda, feia,
pura , poluída,
realidade.
Cada qual com a sua
falsa , verdadeira ,
sincera,traidora ,
realidade.
Cada qual com a sua ,
cada qual com a sua
certa, incerta ,
altaneira, reles ,
realidade.


Vallisney de Souza Oliveira
Juiz . Am.
valisneyoliveira.com

quarta-feira, 26 de junho de 2019

OCIDENTE



Volta e meia
este dilema: sigo em frente ou viro à esquina?
Este impasse: prosa
ou poesia?
Vida
ou
arte?

Em verdade,
nascemos cindidos –
desde Sócrates
ou Agostinho: céu e lama, êxtase e fastio.
Volta e meia esta luta:
corpo insone,
mente insana
e esta lua...

E este verso, meu Deus,
que sempre volta, no fim da linha,
ao seu começo,
cheio de ecos
cacos
e tropeços.
Volta e meia,
meia-volta...

(No entanto, do outro lado da rua,
o guardador de carros
não tem dúvida: se não descolar vinte pratas,
dorme na rua.)

Otto Leopoldo Winck

Do 'Cosmogonias'.

SILÊNCIO E CIO



Silencio sobre o rio que me deságua.
É inútil a resistência. Contra este rio
sempre nós perdemos. O que fica, o que resta, o que sobra
não é a obra sobre a qual eu me debruço,
acabrunhado, nem a fibra que se enrija
neste empenho. É a hora, igualmente perecível,
em que o cio, no ventre mesmo do silêncio,
o desafia a ser presente. (Horas a fio
eu vigiaria o teu corpo adormecido.
Anos a fio eu chorarei nossas tardes
sepultadas.) Silencio sobre o rio
que me deságua. Não haverá discursos fúnebres
nem lamentos. Dentro da madrugada
viveremos, todavia. Como um facho.
Ou: um cometa. O rio corre, a tarde morre
e o cio atroz que me arrebenta
me confessa imperecível
nesta hora passageira.

Otto Leopoldo Winck


Uma insinuação

ao silêncio

em algo próximo

esvoaça

simples

envolta em ironia ou precipitado uivado mistério

dum turbilhão hilariante e horrível

em redor do abismo sem nele se fixar nem fugir
a embalar todo o indício virgem

(Mallarmé)

Passeio – 20




De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.


– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.


CONTEMPLAÇÃO DO MORTO



Observo o morto.
Ainda ontem ele pegava ônibus,
pagava contas, fazia planos:
férias no campo, carro zero
ou talvez um novo amor.
Observo o morto. Os olhos que tanto
se moviam, irrequietos,
estão parados
atrás das pálpebras. Enxergam o quê?
Os ouvidos até há pouco
curiosos, estão agora surdos,
escutam o nada ou, quem sabe, sinfonias.
A língua, outrora tão falante,
emudeceu. Sentirá qual sabor?
As mãos, vejam as mãos. Enormes, brancas, paradas.
Postas no peito, já não apalpam seios,
já não podem apertar
outras mãos, ou bater no filho
desobediente, que assustado
pouco chora. Os pés, reparem
os pés, que tanto caminharam,
correram para pegar banco aberto,
fugir da chuva ou se encontrarem
furtivamente com outros pés. Os pés
imóveis dentro dos sapatos novos
agora já não dançam, já não podem dançar.
Observo o morto,
absorto. O rosto.
Até esses dias este rosto
me sorria, me contava anedotas,
me falava de mulher, futebol, da vida
que precisava dar um jeito, ai, precisava.
Observo o morto. No rosto
subitamente máscara um quase esboço
de sorriso. A morte é desconfortável
não para ele, mas para nós, os vivos.
Observo o morto. Ele até que está bem
dentro do terno, dos sapatos, dentro
do caixão – melhor, imagino, do que quando criança
no berço. (A criança quer sair
do berço. O morto não.)
Observo o morto.
Não as flores, as velas, os parentes, os amigos,
as conversas sussurradas.
A vida não me interessa agora. Me interessa
somente o morto. Observo-o,
absorto. Será que de algum lugar
ele me observa também?

Otto Leopoldo Winck


ALEPH




Quisera
a palavra inaugural do paraíso
mas minha voz
– já sem fôlego –
está cheia de ecos
e cacófatos.

Não falo por mim.
Tampouco por ninguém:
não tenho clã nem urbe,
nem sou profeta de algum deus.
Mas em minha voz
– já sem fôlego –
repercutem as vozes todas
desde Adão.

Quisera
o senhorio de minha própria voz
– já sem fôlego –
o domínio de meus solilóquios,
o narrador onisciente que me narra,
que abre travessões quando falo
ou aspas quando cito.
Saber que ao menos uma palavra
(esta: eu)
fora minha...

Se não uso clâmide
nem burel, não sou apóstolo
nem apóstata,
ao menos pudesse ter de meu
uma aposta:
esta voz
– já sem fôlego –
com que me falo
agora
na ágora vazia de meu crânio:
cálix onde dou de beber aos deuses mortos
a história
que me escoa.

Ah, quisera
nomear os seres todos,
descrever as cores do levante,
elucidar o sabor dos frutos ou a autonomia do vento
nos cabelos dos viventes.

Mas minha voz
– já sem fôlego –
veio rouca,
quase um fio,
e reboa,
cheia de ecos, cacos e cacófatos.

O pior é que não há ninguém
que a decifre.

Otto Leopoldo Winck

DESENREDO ONZE




Não basta arder
com as ruínas, é preciso
guardar a brasa entre os dedos. Tu

que és a possessão das asas
e o equinócio
de marés revoltas.

Cada janela cerrada
é um deserto nas pálpebras,
cada embarcação
sem porto.

Querias arder com as aves
e a precária verdade das sombras?

Há de ser a dor de neon
rachando os frutos
e a travessia do fogo.

O mar que teu sonho inventou
está longe. Agora,
és o cúmplice desse arrimo.

(Por vezes,
é o amor mostrando os dentes
ou silêncio que discursa).

Anda, não há romãs
em teu jardim, nem
cheiro de absinto.

O que restou do caminho
segue em teus pés,
enquanto a mão destece
os labirintos.

SALGADO MARANHÃO

(Do Livro "A CASCA MÍTICA)

Barroca




Minha alma tem uma sombra
num poema de Gregory Corso
ou uma possibilidade da sombra
que não é teu corpo
num verso de Ana C.

Eu diria que há uma luz virulenta
como um vespeiro, iminência da invasão
fissão nuclear e águas rebentas
que arrebanho

para a luz, para as chuvas
a proteção fervorosa dos santos
envolta em velas
prestes a arder.
RTD

FÊNIX




Anoitecia
em meus olhos o sol,
enquanto a lua
– espaçonave anacrônica –
amanhecia
do oceano escuro que há em mim
para a noite crescer em estrelas e luz.

Sou novamente noite.

Em meus olhos não mais arde o sol.
Mas em meu lábio a lua
entoa outra vez sua lenda
em seu cortejo de séculos.

Sou novamente poeta.

Novamente me vejo perdido,
estranho
e azul.

Otto Leopoldo Winck

Também do 'Flor de barro'.

Inteira vivo pra dizer: nasci.


Inteira vivo pra dizer: nasci.
Planto aves e senões.
Sou agulha num palheiro.
Um feno na tarde, sob o sol.

Colhes o meu ínfimo modo de te escolher.

Me invades,
Sazonal, tão violável
Impura herbácea rasteira.

Como se um pouso
As andorinhas no meu rosto
Cultivam seus gerânios.
Eu nada sei da brotação.

Pendo pro voo
O aroma macio
Atento ao viço da moça.
Imponderável, germino.

Que mais perfume que o visgo e a gosma?

Mais profundo é existir.

*

(Ínfimo modo, junho 2010)
RTD


COMO UM OBJETO PONTIAGUDO




Como um objeto pontiagudo,
sinto aqui tua tristeza
e ela é doce e amarga como um penhasco
em noite de procela.
Tal uma gillete enferrujada,
tua insônia me corta a alma em postas
e raspa da superfície branca do papel
todas as palavras
que o vento semeou de madrugada.
Agora eu sei que teus olhos vermelhos
nunca mais me deixarão dormir
e eu não serei mais que um homem condenado
a ser-te estranho. Quando eu disse
que a lua branca enlouquecia,
teu coração se fechou como um punho no meu rosto.
Senti a têmpera do aço de teu corpo
que nunca chegarei a conhecer. Quantos agostos serão necessários
para apagar teus rastros do meu dorso? Quantas chuvas?
Olha, esta ruga foi tu que me fizeste
e estes versos, de intolerável beleza
(pois, menina, eu sou grande como um anjo),
foram escritos à sombra de tuas flores fenecidas.
No entanto, não serei mais poeta,
pois as palavras agora são um fardo.
Serei um homem simples,
sem pretensões,
um homem simples
que volta da panificadora com sete pães francês e um litro de leite desnatado.
(Tornar-se adulto
é celebrar o luto do menino
que nunca mais vai contemplar o sol,
pois, ainda que os seus olhos sejam os meus, o menino já morreu.)
Como um objeto pontiagudo,
sinto aqui tua tristeza
e ela é doce e amarga
como a vida.

Otto Leopoldo Winck

Irmão




A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

*
(2016)
RTD

Escrevo sendo este corpo


Escrevo sendo este corpo
sou este corpo que escreve
convulso corpo que treme
corpo que se faz linguagem
linguagem que treme

rezo dentro deste corpo
sou este corpo que treme
sou minha própria escatologia
entre os que andam pela rua
sou aquele que treme

a minha prece é convulsa
é uma prece que treme
o meu deus é epiléptico
e tem um corpo que treme

escrevo dentro deste corpo
e sei que me olham pasmados
por eu ser um corpo que treme
árvore que o vento balança

escrevo dentro deste corpo
e sou tantos territórios
sem fronteiras, sem mapas,
corpo que ama e treme

sou este corpo que ama
este corpo que avança no tempo
e que às vezes se detêm
para abismar-se por existir

sou este corpo que ama
e no amor se expande
corpo que carrega as luas
corpo que goza e treme

sou uma linguagem epiléptica
um corpo que se faz ventania
coreografias impossíveis
corpo que alberga córregos
histórias, caminhos, rezas
um corpo que cai e treme

sou este corpo que caminha
corpo capinado pelo tempo
corpo migrante, corpo negro,
corpo que chove e treme

anotações

Sândrio Cândido



Tudo azul na tarde cinza
Curitiba é uma neblina
grudada na retina
na pupila na surdina
tudo azul na tarde finda
Curitiba é uma armadilha
uma anedota de província
fim de linha fim de livro
tudo azul na tarde morta
Curitiba é uma nódoa
na paisagem na memória
uma gárgula uma lágrima
menina gótica no Largo
tudo azul na tarde pensa
às vezes penso que
a vida não compensa
mas um verso uma rima
vai dando um clima
menos cinza a esta cidade
de bolor e de neblina

Otto Leopoldo Winck

Sobre Democracia em Vertigem






A linguagem-documentário de Petra Costa alia sua enorme habilidade em tornar íntimo o que é histórico e histórico o que é da alçada da impermanência e do particular humanos, em sua familiaridade com os acontecimentos e a memória. Neste recente documentário, Democracia em Vertigem, Petra consegue fazer da narrativa de nosso tempo o documento histórico que o lega às próximas gerações e também o objeto de reflexão potente para o incerto de nossos dias. Este o seu talento: narrar, deixar ver, entre a subjetividade do testemunho e a riqueza dos fatos. Temos escancarado o trajeto até o abismo de um sonho de democracia recente que nasce do esquecimento da violência, de uma conciliação complexa entre os vis interesses de uma oligarquia secular e a conformação da luta de classes ao possível e realizável, em suas contradições, fragilidades e acertos. Assistam, porque é profundo e belo, triste e nosso. Poesia e tragédia brasileiras.
RTD




Tento escapar à aniquilação
(noturna memória).
Encho o horizonte
com o eixo dessangrado
do corpo em exílio.
Com a minha língua de faca,
desfio o lume do verbo.
O paladar não me abre sóis,
mas despenhadeiros.

(Quis ser cotidiana, antes da fraude dos espelhos.)

*
(2014)

Roberta Tostes Daniel

POÉTICA




Um poema feito de seixos.
De válvulas
e vulvas.
Um poema feito de lutas.

Silêncio. O poeta labora.
De seu peito vaza um rio que varre tudo:
o lírio,
a bomba,
o beijo.

Um poema feito em desleixos.
Feito de sol.
Feito de lua:
reflexos fascinam os peixes.
Um poema feito de guelras
e gueixas.

Silêncio. O poeta sonha (ócio & cio).
Uma flor de narcótico perfume se abre em êxtase.
Estrelas choram. Estranha liturgia...

Um poema feito de eixos.
A serpente. Pandora. Idade do Ouro.
Seixos.
Seixos.
Seixos.
Há anjos transfigurados
olhando seus sexos no espelho.

Otto Leopoldo Winck

Outro do 'Flor de barro'.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Das cavernas à lama.




Se a beleza se fosse,
Para sempre.
Se a beleza se invertesse,
Em feiúra para essa gente.

Se eu me importasse,
Daqui da minha janela,
Com a água amarela,
Da chuva lá fora.

Se houvesse um idioma,
Se houvesse falantes,
Se rompessem os instantes,
Se o sol de outrora.

Se houvesse um canto,
Se rumores libertassem,
Em tez o sofrimento,
Haveria um momento:
Ser feliz em letras selvagens,
Galopando ignorâncias,
E reinvidicando entendimento.

Meu rios rasos, secos nos olhos,
Do tempo.
Meus rios rasos.

Assevero o solfejo de uma cantilena,
Que empesteia como empesteia,
A contento, de lama, mais lama,
Lama apenas,
Nesse mar de lamas autômatas,
Aos holofotes do vento.

Tudo aqui é agreste,
E os rapsodos se calam.
As epopeias não contam,
O que os versos não rimam,
E que a lira não cria,
A água fria jorra, para incandescer
Mais lama.

Se os olhos se abrissem
À miserabilidade de um silêncio efetivo.

Silenciar o ego, e navegar.

Basta a cada fracasso o seu próprio
Túmulo,
Na vastidão da concórdia do cosmos,
Que nos elenca transmitir,

De geração em geração,

A ciência, e experiência,
Da lama, lama, lama
Entropia da lama

Sacerdotal.


Anderson Carlos Maciel


quarta-feira, 12 de junho de 2019

ROTINA COM ESTRAMBOTE




Descendo sobre a terra a lua traça
Detalhes desta noite amortalhada,
E quando desnudando esta calçada
Enquanto a podridão em vida passa,

Eu vejo a mesma cena, esta fumaça
Erguida dos cachimbos, nova fada
Gerando fantasias, molecada
Entregue aos mesmos vícios, mesma praça.

- Assim ao se sentir normalidade-

Na noite em lua cheia e treva farta
Um carro de polícia já se aparta
Reparta esta propina, volta e meia,

A morte não perdoa este cenário,
E o mundo neste podre itinerário,
Apenas esta pedra se incendeia...

Marcos Loures


Carta ao jovem menestrel



Para um dedo de prosa

Carta ao jovem menestrel

Quero conduzir-te a sítios, guiando-te de um lado para o outro; sou eu, teu garoto. Venha comigo repousar neste quintal; já posso ver-te em mim, tenho a chave do portão do jardim, cá dentro em nós.

Andemos, mãos dadas; diz-me tudo quanto preciso olvidar. Em tua presença falar é despir meu imo, é tornar ao instante indelével. Não determina o tempo as contas dos nossos contos nos recantos deste eido prazenteiro, onde Jeliel está debruçado sobre a sua criação.

Cantarei só pra ti todas as estações; o eterno retorno das flores; a vedada senda deste prado. Que coisa madura e divertida, rir! Quero contigo tornar ao meu desígnio, ser teu instrumento. Vem seguir-me o passo e trasbordar de luzes na luz das manhãs. Tens algum engano? Alguém já te deu carinho? Gosto do teu beijo; minha face brilha num sorriso.

Toda vontade nos renova o viço, nesta seara de poesia; tudo, aqui, há. O cessar da rota solar no ocidente é belo e, à noite, guardo uma surpresa; neste canteiro de erva verde nos permitimos; a árvore de todos os frutos nos extingue a fome; há um salto d’água de fonte virginal, gotículas do véu de sua queda flutuam úmidas e refrescantes no espaço; quão mais sincera for tua anima ao gozar, aqui, nestes círculos de homogeneidades mais estarás ao centro, espírito. Adorar a graça é refazermo-nos, melhor.

Venha, que sou guia dos mistérios cultivados neste campo; posso regar seu rego e desfazer as nuvens nos céus; quiçá, o rebroto, neste pomar fecundo floresça-me, frutificando em ti. Queres um arco colorido, no firmamento dos astros, de extraordinários matizes? Derramar a florescência da palma das mãos, entre os dedos, neste chão? Permitas-te desejar-te; é esse o encanto.

Fabio Freire      

Crônica para o Dia dos Pais:


Vinicius Bopprê                


Eu, que ainda não sei ser pai

Eu, que não sei se me casarei simplesmente pelo fato de não conseguir imaginar essa situação, me peguei pensando...

O jantar. Eu iria adorar jantar todos os dias ao lado do meu filho, eu depois do trabalho, ele depois da escola. Eu, que nunca lavei as mãos, faria ele ir até o banheiro e lavar as deles, só pra me sentir mais pai. Eu, que nunca usei faca, insistiria pra ele deixar a colher de lado. Eu, que nunca comi verdura, ensinaria para ele todos os benefícios inúteis delas. Mas o ápice seria ouvir suas histórias da escola: a briga no recreio por causa do futebol, a primeira namorada que ele insistiria em dizer que a odeia, “para de ser bobo pai, ela é feia”, e eu diria:
“Eu sei, eu sei”, e daria um sorriso fazendo algumas cócegas nele.

Depois de jantar eu faria aproveitaria o resto da noite com ele. Sentado, na mesinha da sala, tentaria, em vão, explicar exercícios de matemática, e por ser meu filho, a genética também o impediria de entender o valor de x e y.

Eu iria jogar botão com ele e ensinaria vários truques do jogo, mesmo nunca tendo jogado mais do que duas vezes, e ele ficaria maravilhado com minhas técnicas. Eu jogaria vídeo-game com ele, e depois de perder várias vezes eu diria:
“Esses jogos perderam a graça, você precisa ver os jogos do meu tempo”, tentando esconder minha derrota.

Assistiria um filme com ele, daqueles de desenho, que sempre tiram um sorriso até dos mais rabugentos (como eu). E depois de estarmos bastante cansados, ou entediados, eu, que nunca tive horários o levaria para a cama, e lhe contaria uma história, daquelas de aventura, cheias de dragões e princesas, e pediria que ele inventasse um final, para que tomasse gosto pela literatura de um jeito sutil, afinal, ninguém começa gostando de Machado de Assis.

Eu, que não sei costurar, pregaria na calça dele, na altura dos joelhos um daqueles ridículos pedaços de couro, e ele ficaria orgulhoso do seu novo “equipamento”, sem saber que alguns meses depois o detestaria.
Eu, que não sei cozinhar, num domingo qualquer arriscaria um hambúrguer, ou um ovo frito, mas depois de ouvir dele duas vezes: “pai, isso aqui tá muito ruim” , seguido de muitas risadas, eu desistiria e compraria um Mc Lanche Feliz com aquele discurso de que “isso não alimenta, você só quer pelo bonequinho”.

Eu, que nunca soube economizar, tentaria explicar pra ele como devemos querer apenas aquilo que necessitamos, e negaria duas ou três vezes o pacote de salgadinho, alegando que ele só quer a figurinha. Mas depois eu compraria.

Eu, que não tenho bom-humor pela manhã, faria ele me dar bom dia todos os dias, e cumprimentar todos os velhinhos do prédio que ele encontrasse no elevador.

Eu, que sempre odiei dividir meu chocolate, faria ele dar aquele último pedacinho delicioso a uma criança de rua, e lhe ensinaria a ajudar as pessoas que precisam.

Eu, que já não tenho fé faria questão de ouvir todas as noites “ ‘bença’, pai” , e eu te diria: “Deus te abençoe, meu filho”, só pra que ele se sentisse mais seguro.

Eu, que ainda não sou pai, já penso no meu filho, me perturbando de noite com medo da loira do banheiro – se é que isso ainda existe; reclamando comigo por tirar foto dele sem os dentes da frente; me fazendo chorar ao vê-lo entrar na faculdade e me dando um neto, para que eu, que ainda não sei ser pai, aprenda a ser avô também.
                Janela de mim.
viniciusboppre.blogspot.com

Carn(e)aval


Ricardo Mainieri            

A carne
incendeia
goza
delira.

Na quarta-feira
cinzas...

Tua morte não terá espaço


          
Poema para meu pai:



Tua morte não terá espaço
Enquanto existir memória.
Porque o galês está certo:
Os homens mortos da História
Hão de unir-se ao vento, à lua,
Hão de se encontrar, na rua,
Hão de conversar, bem perto,
No eco harmônico de um passo.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço
Enquanto existir lembrança.
Há tua foto e o meu momento,
Há o autorama da infância,
Tua mão nos cabelos meus,
Tuas orações a Deus,
Tua voz em questionamento,
Teu violão com cordas de aço.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço.
Há teus amigos, teus filhos,
Há tua esposa querida,
Há teus sonhos andarilhos,
Há teu mantra em todo o mundo,
Mesmo jazendo no fundo.
Há tua vida em nossa vida.
Na pobre casa, que é paço.
Pai, ela não terá espaço.


André De Castro 


Cronofagia





Chama seja a sua carne

breve arca nua

ó entre pearls

ente aurora.



Oceana carne selena

rosal de torvelinhos.



Ímã luz de gozo

a prenda carne vã

vérité das calçadas

ó peste sã.



(por Walter Galvão)

A EQUAÇÃO DA VIDA




Não há meio termo para a vida, não há possibilidade de vivê-la pela metade. Dentro de cada um de nós há vida e é preciso, necessariamente, vivê-la! De fato, não existe caminho certo ou errado, existe apenas o caminho e, entre abismos, paisagens, dias de sol e chuva... é preciso segui-lo sempre! Amanhã, em outro tempo, somem-se as tuas quedas e também todas as vezes que você se levantou. Amanhã, em outros horizontes, somem-se todos os encontros e as tuas despedidas, todas as paixões que chegaram e também as paixões que se foram, somem-se todos os amores ganhos, bem como os amores perdidos. Amanhã, bem longe de tudo isso, que sua vida seja contabilizada de forma a somar histórias, a somar momentos, a somar idéias, a somar palavras, a somar encontros e - principalmente - a somar amor! Porque a vida se faz de equações e, definitivamente, só pode dizer que se vive e que se viveu quem soma e somou positivamente tudo isso!

Adriano Hungaro

ALMA GÊMEA DA MINHA!



.
Tantas vezes tentei entender o coração,
Leva-me por caminhos desconhecidos!
Por onde eu passo, vivo a procurar por ti.
Tento disfarçar, calar, mas tu onde estás?
.
Procuro-te por caminhos inexplorados,
Em todos os lugares eu não a encontro.
Busco delirantemente, mas tu não estás!
Alma gêmea acabe com o desencontro?
.
Não há nada mais difícil do que viver sem ti,
Sofrendo a espera de em breve te ver chegar.
O frio do meu corpo pergunta por ti, onde estás?
Meu querer te quer aqui para poder te amar!
.
Meu grande e inesquecível amor!
Tu és música para a minha alma,
És vinho doce em taça de cristal,
És sonho suave eterno e sem fim.
.
Alma gêmea da minha por onde andas agora?
Quando irá trazer paz ao meu ser tão cansado?
Vem para mim, sossegue esta alma que chora!
.
Daez Savó

SOMOS TODOS POETAS




Assito a um desdobrar de planos
As mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma
Sou todos e sou um
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vázia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

1936 Murilo Mendes


A dança da chuva





Dançando a dança da chuva no meu quarto,
Sinto, na cara, as gotas que caem do teto.
No palco solitário, danço ao som do free-jazz,
Celebro a liberdade da loucura chapinhando, brincando na água.

Rio-me de meu rio paralisado, sério, no chão, com medo desta chuva.
Minha seriedade, tantas vezes inimiga da verdade poética,
Profetiza meu fracasso nas vozes das piranhas que há no escuro.

Porém, eu, que sou ínfimo na vida e meramente infinito
Na página, rio-me de meu rio e de toda estética ditadura.

Só,

Sorrio com bravura de hippie ante o rifle.

Há candura na dureza de meus versos.
Há ternura na violência de meus versos.
E para eles danço, na umbanda a meu próprio espírito.
Tento psicografar meu passado a meu futuro, com a caneta
Presente, mas a tinta das antigas horas não molha mais a esfera e o papel.

Ah, liberdade de estar louco no quarto, acompanhado dos sorrisos!
Ah, liberdade de estar sem camisa para a mente, sorrindo para um outro eu
Que é espelho, que ri da mesma maneira minha, mesmo diferente ,
Conforme a Física demonstra...

Se pudesse transformar cada sorriso meu em um ser,
Teria uma grata multidão de gatos acariciando minhas pernas.
Seria atemporal e internacionalmente egípcio e nobre;
Feliz como um faraó, mentindo alegremente a mim mesmo,
Sendo Deus de mim mesmo,

E meu asilo seriam as margens do Nilo...

Mas, como não consigo, danço.
Danço no quarto, alagado até o peito com as águas abstratas
De meu desassossego, sonhando com a chuva que,
Finalmente transformada em torrente,
Lavará todo o lodo do leito
Sem afundar a frágil jangada de papel
Que transporta meu eu em palavras.


André De Castro           

EU SOU A FÊNIX




Faze-me renascer sempre. Porque sou um sonho que – no final – nunca morre. Um sonho que se tem sempre acordado. Um querer que, mesmo adormecido, se transforma e se consome. E aos poucos – definitivamente – consome e nunca, absolutamente nunca some.

Renovam-se sempre as esperanças, renovam-se todos os meus sentidos. Renovam-se todas as minhas cores, as minhas possibilidades e os meus sorrisos. Renova-se tudo que tenho dentro de mim. Renovam-se, principalmente, as minhas asas e o meu brilho sem fim.

Dá-me à morte para que tenha mais vida. Dá-me às lágrimas para que possa salgar meus lábios doces. Tira-me o ar para que eu consiga, de fato, respirar. Tira-me todo o céu para que eu possa cada vez mais voar. Tira-me toda a coragem para que de abismos eu possa me lançar. E queima-me na fogueira mais forte, para que eu possa virar cinzas e para que o vento da sua tempestade me espalhe.

Espalha-me silenciosamente em cinzas pelo mundo. Abre as portas da tua casa para que eu possa ir embora e estar livre das sombras. Abre o meu coração para que eu possa em poucos segundos, em muitas histórias, em tantos mundos... virar lenda. Para que eu me transforme no conto de amor desconhecido e inimaginável. Para que eu seja o silêncio mais profundo no campo das tuas batalhas!

E será assim para sempre; sempre em mim, sempre dentro de mim e também para o mundo; também para todos aqueles que amo. Porque mesmo sendo lenda, mesmo sendo poesia morta de amor, mesmo sendo queimado e tendo virado cinzas e como cinzas esteja espalhado pelo mundo... Eu nunca morro, eu renasço sempre! Porque acima da dor, acima das lágrimas, acima das tempestades, acima da terrível fogueira, acima das cinzas... Eu sou a FÊNIX!

Adriano Hungaro


Traços da Alma




Ao abrir as janelas da alma,
faço-me prisioneiro, mais um voluntário
em gemas de papel, feito
um guitarrista no telhado,
traçando escalas e devaneios,
despertando a noite,
desabrochando a esperança!

Apenas uma lágrima,
riscando a face em lamentos;
lamentos oriundos do afago,
da doce viagem na alva cor!

Apenas uma lágrima,
contando sua origem em mistérios;
mistérios ouvidos no peito do darma,
no meigo linguajar da Dalva luz!

Ao abrir as portas da alma
Solto-me em flâmulas
sem regras ou limites
sou capataz dessa cela em papel,
deixando que ondas tragam-me
seus versos, seus avessos,
enfim gravem na areia, o amor,
em suas formas,
em suas matizes,
em palavras do coração!

Auber Fioravante Junior

“Contradições”




Embora aconteça do sol se por no peito
Enquanto houver mar, não perco o rumo.
E mesmo que o coração jamais se cale.
É na realidade, tênue, que me aprumo.

Os desejos preferem permanecer ocultos.
E jamais revirar momentos guardados.
Com a emoção pendurada num cabide.
A vontade de vôo em sonhos camuflados.

Num dia, quero jogar no esquecimento.
Qualquer desejo antes compartilhado.
Então me adio, deixo o sonho guardado.

No outro, porem sou puro sentimento.
Que denuncia todo o sonho de liberdade.
E sem pudor revela minha maior verdade.

Glória Salles
               




O tempo avança
Já tenho idade suficiente
pra voltar a ser criança


Alvaro Posselt   

E-MAIL A TORQUATO NETO



do lado de dentro do vento
um cisco no olho do furacão
anjo fáustico declamando ácido sulfúrico
colhe um vocábulo em cada lábio
alivia a lira com a saliva da dríade
não revela ressalvas ao poema
escancara o riso da partida
sabendo que o fim não tem fim
deseja a linda ítaca na língua da morena
recita a ira ácida deciana (geléia geral)
para incitar o demônio dentro da vulva da devota
toma partido do caminho do passeio
lava a palavra lírio com o sangue do tiroteio



               Fabiano Calixto 



12 de agosto de 2011 

A moça da vitrine



A moça que monta a vitrine
Não é como a cesta de vime
Que aguarda alguém a compre
Ninguém à moça corrompe

A moça que ajeita a vitrine
Têm pouco mais de vinte
Gosta de ir e de voltar
Na mansão do mundo estar

A mãe disse “vá com Deus”
O pai nunca se arrependeu
Da boa filha trabalhadora
Menina dos olhos da patroa

O amor lavou-lhe a alma
Mantém a fronte sempre alta
Pois do primeiro não esquece
Enquanto o trabalho enobrece


Ari Marinho Bueno        

11 de agosto de 2011

Propriedade


André Vianna  


Sou a alegria que lhe acende o pranto
A voz que lhe auxilia a reza
O santo que lhe atende as preces
Seu homem, seu menino
Seu destino em desatino

E enquanto houver versos
- inversos a dor -
Enquanto houver cantos
- avessos ao sofrimento -

Enquanto você for a poesia
Escrita em universos
Com ou sem rimas

Eu sempre serei seu



Onde a Arte se asila: Propriedade
ondeaarteseasila.blogspot.com

HUMANO DEMAIS


Wender Montenegro  


Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo,
corpo de luz esvaído
ao frágil sopro das horas,
borboleta encarcerada
na inércia dos casulos.
Somos o verbo inflamado
que nem se sabe murmúrio.

Sísifos de eras modernas,
divisamos, consternados,
a queda sem-fim dos dias.
Somos ribalta em penumbra,
flor de luto, fogo-fátuo,
ar rarefeito, centelha
que ignora e traz em si
a essência da fogueira.

Alimárias do universo,
erguemos, inconsequentes,
o fardo livre do arbítrio.
Somos migalhas do eterno,
ouro vulgar de Eldorado,
mirante entre turbilhões,
luz em mãos de moribundo,
face-mistério da lua.

Bando de pássaros mudos
que ao toque do Ângelus fere
um céu sedento de canto,
somos razão em delírio,
rastro de Halley, sol posto,
cenho ferido de morte,
água barrenta que esquece
o veio de onde jorrara.

Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo.