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quarta-feira, 30 de outubro de 2019


"Ela disse ao coração do cantor
não cante/aos corvos
ela disse ao mar profundo
jazem/as brumas da ira
ela disse não cante /apenas diga
ao silêncio/que plante
aquela flor/
e rasgando a sombra/cuja mão
ela /esguia como um longo cravo
segurava/disse ao tempo/
não espantes/o sol com a tua dor"

Jussara Salazar

CÂNTICO DA SAGRAÇÃO DE UM NOME


Espírito do tempo
quando teu nome
for novamente pronunciado
sentirei amor por alguns e
quando o dia amanhecer
entre os escombros
sentirei o calor das patas úmidas
do animal que ronda
depois da tempestade
pisando
sobre o algodão que brotará da pele negra da terra
e sentirei amor por todos os lobos
que agora se ocultam
bebendo o leite deste estranho anoitecer
*
*
*
|_CÂNTICO DA SAGRAÇÃO DE UM NOME. o dia em que fui santa joana dos matadouros
JS

O FOGO


Por que não deixas as roupas ao sol
quarando ao vento?
Por que não libertas
os sapatos que repousavam
geométricos
embaixo da cama diária do tempo?
Por que levá-los à cova das cinzas
ao invés de semear
os passos que hão de vir
como algaravias de criança aos domingos
*
*
*
|_O FOGO. o dia em que fui santa joana dos matadouros

Jussara Salazar


Há duas luas chegamos
No vapor empoeirado pelo tempo
Um tempo que brilhava
Um tempo que escondia um futuro
Sobre as cartas
Sobre os dados
Esticamos o corpo para o tempo
Para a seda e a sede
Para o acaso
Dos devotos de são mallarmé
Com seus rostos de cera
Passam em marcha sob nossas janelas
Seguram círios lumes de fogo
[bebes deste vinho?]
Mas seus cavalos
No carrossel vermelho dos bárbaros
Esticam os focinhos
Avisam ao tempo
Em seu trote de patas lentas
Sua respiração zen
Cobertos por um manto de ramos verdes
E orvalho negro
Avisam num sussurro
Que essas luas
Que essas lutas
Apenas acabaram
Apenas começaram
*
*
JS

SINTAXE


numa lâmina de algodão
pedras árvores estradas
um céu grinaldas
numa lâmina de algodão
lembrança de morte
carpindo o chão
numa lâmina de algodão
o silêncio a palavra
um grão de sol
numa lâmina de algodão
estrelas negras
um rumo um mapa
numa lâmina de algodão
um sonho tecido
um tangido o nada
*
*
*

Jussara Salazar

Os vestidos



eram costurados à sombra dos cajueiros
entre pássaros e conjuros
na queda do sol ao entardecer. Feitos
de fios de sonho e ouro
por que arrancar o gesto das mãos
e as cantigas
que lavaram
as manchas do ingá maduro?
*
*
*
|_dos vestidos arrancados de um sonho
Jussara Salazar

segunda-feira, 11 de junho de 2018


Jussara Salazar

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido

os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes
*
*
*
|_Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas // com tema de Beth Moysés | Reconstruindo Sonhos | Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007_|


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Jussara Salazar

A memória, esse arquivo que parece que só olhar pra trás, farejando, desdobrando lençóis velhos, abrindo e fechando portas. Essa fotografia do Eustáquio Neves reacende os cheiros de minha infância na casa do Arruda, talvez pela expressão dos olhos, certa melancolia no olhar distante, tão parecidos com o deles, os meus da banda africana. A cozinha recendia a colorau e goiaba, a casa mal-assombrada se enchia de velhos ao fim da tarde no alpendre de minha avó juremeira. Ao mesmo tempo lembro de uma ocasião em arcoverde em que caminhei pela avenida da cidade, aquela do cine bandeirantes, de mãos dadas com meu avô da banda do sertão. Chegamos ao seu armazém, onde que ele vendia secos e molhados e eu fiquei atrás do balcão sentindo o cheiro do paio, dos cereais e da farinha, que era pesada e conferida com as cuias de lata. As duas memórias me trazem a esse futuro. Eu não tenho dúvida que essa foto cheira à goiaba, colorau e paio e tempo.




terça-feira, 31 de março de 2015

Jussara Salazar
confundir uma criança negra com um vendedor de coisas
achar que uma criança negra e vendedor de coisas não poderia estar ali
expulsar.

sutil.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Jussara Salazar


a intensidade de 2014, seus dias, sua calmaria e desatino, o ir-se dela [essa animalidade da perda maior] mas ainda sua presença pulsando pelo ar na sonoridade graciosa de uma voz, me fazem querer a novidade do ano que surge, mas resistir sem urgência, no contraposto e desarmada, querendo que tudo permaneça flutuando na leveza do tempo, para além da fissura do calendário, na inteireza de nossa história de amor.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Agora mesmo ·
as sementes inúteis
as folhas de pinha maceradas
as goiabas apodrecidas
o telhado úmido
e as roupas no varal
sabem à terra
quando as contas do
meu rosário
tocam as contas do
teu rosário


Jussara Salazar 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

olhos abertos
cigarras tontas
de sono e bebida
nenhum beijo
amansa
os cavalos em fúria
soltos
pela cidade vazia
onde move-se um mundo
e o teu cavalo são ossos
o teu cavalo sem nervos
o teu cavalo-moça
trota
no reino dos bobos
sem heróis ou dentes
mas apenas um olho
de unicórnio


js

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

prestidigitadores...

a linha da minha mão é torta
diz a cartomante
em sonho
o grande pássaro voa
e o mágico faz desaparecer
canções de amor na cartola


Jussara Salazar 

domingo, 22 de junho de 2014

o meu corpo
é onde escrevo
em qualquer chão
me deito
os carros passam
sobre o meu corpo
máquina muda
esqueço
leio um poema
a música atormenta
o meu corpo estreito
em cada rio
que não navego
meu sonho ideal
o meu corpo
desaparece
como uma folha
ou qualquer coisa
papel ao vento
os prédios me olham
em silêncio

jussara Salazar
Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.
[cabral cabra cabralino...discurso do Capibaribe

Jussara Salazar


sexta-feira, 4 de abril de 2014

olhos para quê?
Agora é preciso
apurar os ouvidos
para escutar as cigarras
que entoam explodem
de beijos
ao fim da tarde
os cavalos de papel voam
silenciosos enfileirados
na mansidão da noite
movimentam a escuridão
os cavalos de maria do céu
os cavalos de são joão da cruz
cavalos santos
de músculos e galope suave
saltam
barreiras imaginárias
de um teatro aéreo
ei-los desfazendo
pesadelos
para te adormecer
js.


quarta-feira, 2 de abril de 2014


olhos abertos
cigarras tontas
de sono e bebida
nenhum beijo
amansa
os cavalos em fúria
soltos
na cidade vazia
move-se um mundo
o teu cavalo são ossos
o teu cavalo sem nervos
o teu cavalo -moça
trota
reino dos lobos
sem heróis ou dentes
apenas um olho
de unicórnio

Jussara Salazar

domingo, 30 de março de 2014

olhos fechados
cigarras silenciosas
de sono e bebida
beijos na boca
de chorar
os cavalos bravos
de galopar
pelas ruas
da cidade vazia
chorar não chores
o teu cavalo te leva
o teu cavalo te acorda
o teu cavalo insone
reino da fuga
herói despido
ele te levará
- fluido de estrelas -
para ver mundos
e adormecer
js.


sexta-feira, 21 de março de 2014

riverão viagem
do rio cidade

mesopotâmia
em meu corpo

nunca saberei
de ti

em mim o rio
é quem cabe


js.

sexta-feira, 14 de março de 2014

o meu corpo
é onde escrevo
em qualquer chão
me deito
os carros passam
sobre o meu corpo
máquina muda
esqueço

js