quarta-feira, 30 de maio de 2018


vou escrever um manual do inferno
onde caibam todos os desgraçados
da terra, esta terra solta na noite
dos olhos, no visgo dos olhos, no
preto de cada olho, no grito de cada
boca de poucas esperanças. quando
aparecerem todas as desgraças, eu
me renego e me esvaio. puto e ferido,
como só assim pode ser."
RR

Desfaçatez




Tergiverso o universo,
Filosofo, sou, retórica
Palavra,

Improviso um siso para
Morder o melado
Da rapadura global

Supõe-se sabedoria
Estética

Gostaria de tocar
A ferida menos sábia

Com os olhos da
Diferença

Gostaria de
Não ser igual.

Poema
ACM


Horizontes estelares




Tais foram, róseos
Patamares
Simbióticos falares e
Luares anis
Que em pórticos
Afins se juntaram
E discutiram os rumos
Da humanidade para si
Impondo tal e qual

Eu e Eu
Ego, lá louvei
Com ares de essência
E substância final

Não logrei ciência,
Sentido, sabor, mutação

Apenas fiz lembrar
Que o que é se torna
E era o que não é
Hoje então.

Então, as coisas mudam.

E muda a coisa em si
Refrão.

Levem, leves em seus bicos
A leda mensagem

As andorinhas do amanhã

Libertem inconscientes cativos
A julgar ensinar
Apolo

A tocar a lira.

E sacrificar as mesmas
Galinhas pretas de sempre

No altar da sabedoria estética.

ACM


Teatro




Ao centuplo de si
Fado similar, elevara
A voz

E jaz, jazz

Não mais
Acm


Dual




Simples sou sendo
São, servo, suave e
Sal

Sermão seria certo
Não fosse a verve punk
Não fosse dados
Terabytes de ilusão da
Vaidade em rede

Estipula-se que não

E pregam rótulos
Rotos de ancestralidades
Literárias

A palavra, a sintaxe,
A métrica e sua chave
Interpretativa

Leve poema, digira,
Leitor o sabor,
A sensorial helicoidal
Nuance

Do amanhecer do
Anfitrião.

ACM

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Lua Crescente

A lembrança e a presença do sumo a cada mordida :o que parece pedra também sangra .Tudo é miragem.O coração consagra os minutos em uníssono com o relógio, cintila como um farol agonizante.Sombra macia, folhagem farfalhando na brisa sem varanda.Na memória da pele o mar que me envolvia, inteiro.Uma voz oblíqua repete a pergunta incompleta.Busco decifrar o que falta , para livrar-me do que se arrasta, pelos becos tintos pelo tempo. Aquelas unhas imundas cravadas no peito há séculos.Sonho que sob figueiras perfeitas e perfumadas posso tocar o sorriso da lua.

Ledusha.Risco no Disco. FSP. 12/07/1998
"o amigo é a resposta aos teus desejos.Mas não o procures para matar o tempo!Procura-o sempre para as horas vivas.Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio "

Khalil Gibran .

Linha Cruzada

Silva a noite liquida sobre a cidade .Estremeço com o telefone que dormiu no meu umbigo.Ligou do aeroporto virado, mas dócil.Sotaque irresistível, bossa melopéica. Suspiro rouco , simulo calma."Absolutament moderne ".Apesar do frêmito quase náusea, cair fora nem pensar: eriça meus ossos a vespa do amor .Onde te encontro?Saia e saltos, absorvo o vulto que se aproxima varando o vento outogonal, mescla de cinzas e azuis. Nenhuma fresta a perder.Mergulho nos seus olhos venezianos:envelhecer é passar da paixão à compaixão ? Ele nunca leu Camus. Sobre os afetos sabe pouco mais que os trancos. Embaraço de lítio e linhas,mamãe não me pariu prêt-à-porter.

Ledusha.Risco no disco.FSP. 22/03/1998

Jacques Cousteau




Verbo, lerdo, tanto
Tempo
Tendo toldo lauda
Lavra e

Leva a vida

Lava os vedas
Louva
Lapidando loucos


E lerei linhaças
Lavando vou leve, livre

Lembro, logro

Ao léu da edição

Li aedos

Topo da cadeia literária
Curitibana



ACM

Objetos




As doces luas, diabetes
Pois duas nuas e seus
Chicletes,

Corroboram, psicólogas
Eventuais e eventos
Astrais.

Elas, mariposas do
Som de Cristal.

Relevam origens do nome
Pois são
O que são e não mais
ACM


Suco de isopor




Não se trata de
Ou pão

Patamares literários
Pinceladas

Ego que não se infla
Ou inflama
Através das eras
(Arte que não se vende)
E não vende?

A letra subjaz e jaz
Jazz

Subsiste
Triste, não triste

Pelo amor que se foi,
Provado, ao nascer do sol.

Temos tanto a escrever
Somos água imortal.
ACM


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Rainer Werner Fassbinder, O Desespero de Veronika Voss


José Expedito Dos Santos          

Um mundo que parece fechar-se sobre si mesmo, tentando atingir uma espécie de purgação do mundo pelo excesso de artifício. O próprio Fassbinder é o primeiro a dizer: “Não existem acontecimentos reais. O verdadeiro é o que vem da arte”. É o Exspressionismo para além do convencional.


A vida é um presságio
cobra ágio
da alma que nela não mergulha.
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fél .
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fél .
Wilson Roberto Nogueira



O que respondo à flor dourada de pétalas prateadas
meu caule de carvalho velho curvou-se ao seu olor
Quão breve brisa soprou alento ao tronco enrugado
dores de juventude hoje não pesam na nova morada
amores de esquilos na alma inquieta
tronco  grávido de felicidade na madeira velha
a qual não se curva ante a tempestade...
Wilson Roberto Nogueira

Tente e retente que a tinta sairá do cuore ou do cérebro ou das cicatrizes ou da sombra
penso :equilibrar-se sobre um fio no alto do circo não tendo rede embaixo e ser franco e honesto consigo mesmo e com a morte.Usar o discernimento e o bom senso sempre senão cataplaft...
pode não ter nada a ver com a gíria parece uma erupção sem barulho de algo que assisti nas sombras dos sonhos.
levantar peso, a vida já faz; lançá-lo à distancia meu rapaz é o que satisfaz.A jóia do saber viver é aproveitar os detalhes da vida , focar na claridade sempre , mesmo no escuro...
preciso de drágeas de auto-engano para convencer a sombra que sou que sou sol
só sabendo ler na sombra que sou que existe sim a possibilidade da luz.

Wilson Roberto Nogueira.

a alma não ocultara a si diante do opaco espelho das opiniões
o caráter delineara mera sombra no empoeirado espelho
pálida vida velada de luares invernais sobre ruínas que prometiam sonhos
alicerces de nuvens
vidros partidos de janelas que não veem o branco dos olhos dos dias
parindo da dilacerada visão cores onde apenas bruxuleiam fantasmas
janela aberta ao deserto nos olhos do abismo.

Wilson Roberto Nogueira

A cada dia, caía-lhe sobre os ombros pesados casacos de agonia
tão pesados, que os passos das horas eram grilhões a apunhalar
as veias da vontade de ser livre enfim .
Assim provava o sabor de saber-se vivo.

Wilson Roberto Nogueira


Alguns compenetrados, outros vagando pelos quadrantes da sala a consumir o tempo em lenta lenta agonia ou olvidando por completo os insondáveis caminhos das matérias .Outras personas a paisagem do teatro interpretando?Interpretando saberes e seriedades; outras profissionais catando códigos na busca por peneirar pedras preciosas de algum edital.Mais adiante zanzam a procura do que desconhecem, apenas flanando nas veias expostas de cidades imaginárias .Naquele canto alí , a natureza morta dos gestuais de sapiência dos abancados."Oito horas a Biblioteca fechará suas portas . "Os livros ficaram presos e dentro deles leitores fantasmas.Essa catedral não recebe sem tetos e suas correntes de pedras.

Wilson Roberto Nogueira.2009/19/09


tateia o tempo o coração da memória
com espinhos a escrever uma nova estória.

Wilson Roberto Nogueira


cada frase franze a testa do verbo abrindo sulcos
cicatriz do tempo a germinar rosas entre as pedras.

Wilson Roberto Nogueira


Ler no braço toda uma história - as placas de gordura , as pelancas, as casquinhas do ressecamento; tudo marcado pelas vírgulas das cicatrizes;cada letra com o devido pingo de sarna.Um pergaminho de deterioração, degeneração a espera do ponto Final.

O olhar perdia-se no opaco enredo de u'a estória de desenganos.

Wilson Roberto Nogueira

Comprara livros .Lia ?Eram vidas que o mantinham em pé.De si só vidas dos outros.Pensamentos-velas e idéias âncoras munição para o espírito.Até o jogarem no arquivo morto da repartição.

Wilson Roberto Nogueira


É assim mesmo, a foto vai se apagando ou vamos dia a dia passando a borracha, virando a página...Viver é conviver ,fazer vínculos caso contrário é só existir. Se penso já tenho companhia. Embora seja tal um porre de vodka de fundo de quintal. O rato só aproximava-se da luz de suas lembranças para melhor conduzir as letras em suas fracas patas sujas de tinta e mesmo assim conseguia produzir um modesto verso que lhe agasalhava de sombras e sonhos.

Wilson Roberto Nogueira


só o que sobrou do sonho
é essa sombra no teu olhar
o pesadelo trêmulo no teu caminhar
é o vacilar dançarino do demônio risonho
a busca por algo invisível que a razão não alcança
são os passos incertos dessa dança.
letras incertas qual chuva de prateados
gafanhotos
afastam chateados garotos abreviados
de sonhos de proletária vida
a morte renasce em cada sonho que assassina
essa é sua sina.
a sombra no teu olhar
é a alma que desaprendeu a dançar.
tua seda sua sem amar
o mar te convida mas
mas não há mais nada
nada sobrou do sonho
na razão do teu amar.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cumpre o rito
sumário
a soma de uma vida
um grito ordinário
numa cópia rasgada
de Munch.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cai um pingo de tinta
e a palavra se cobre
de mistério.

Nada tema com o trema
não trema com a reforma
da Língua
Ela é carne viva
e não é só portuguesa
brasileira
afrolusobrasilofona
deixem morrer de fome
os cães de pedra da tradição
tais jazem no chão.

só o sombra sabe
onde desabrolhou
feliz Deisi.
Está deisiando olor alí
aqui agora acola
lelé legal
tri humus do humor.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Não lamenta

Não olha para trás

Não para

segue avante
Atrás caminha a Noite
a desenhar as curvas da alma.

A lembrança moribunda
seguir-te-á a serpe até o anoitecer
dos teus olhos.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Noventa novenas para a névoa em forma de sombra
sobras de uma vida que dançava na tempestade
sonhando ser água pura fervendo no asfalto
marcas do silêncio no caminhar maldito da memória.
reza a estória que o fantasma sem nome alimentava-se
da fome, da guerra e da peste.
Faminto de fome não passou
da guerra bebeu todo o sangue
a peste sua assinatura nas crianças que não nasceram.
O espectro do esqueleto imortal perseguia a bruxa,
a macróbia camponesa pelos campos radioativos e rios
que suplicavam água para viver.
Voraz silêncio depois da chuva de metal
semeando campas em aldeias- lápides
só o fogo iluminando a lua ausente ao entardecer.

Wilson Roberto Nogueira
2009


deves deixar de ter as entranhas expostas
no açougue

falar em voz baixa para que meu coração
apenas seja ouvido pelas vísceras.

O coração é a luz intensa que dita os passos
da razão
É a luz que encobre as pedras dos ocasos
é a ração
diária de sangue que a vida cobra
daquele gauche que por hora veste
a armadura da razão

Wilson Roberto Nogueira


Revestida de cinza e brancas rotas vestes
voam plácidos no abismo olhos de luz negra.
Cinzas voam livres e velhas prisões famintas
agora são ossos morada de flores.
flores de pétalas doces .
Janelas em prantos esperam horizontes
cicatrizes costuradas no aço arames são caminhos
veias da liberdade.Bebe a paz no elmo caído da guerra.
Todos nossos ossos secos ao sol são brancos.

Wilson Roberto Nogueira


fantasmas flutuam pálidos na meia da luz
cortina de sonhos na janela da alma.
pisca o vento murmurando antigas orações
coração do tempo bate aflito pulsão de morte
temperando a vida parindo da ferida uma semente de sangue.
Bate a porta e a morte desejada escapa deixando queimada
a morada da vida num beijo de aço e pus .
Na guerra a arma de destruição duradoura é o estupro.
No rosto da inocência a culpa eterna de ter nascido
a herança queimando na espinha a cada olhar
o silêncio estalando como um chicote
Passos na escuridão e no trovão uma bota no rosto
pegadas sonâmbulas na neve
velhos fantasmas da guerra
Ruínas de igrejas,mesquitas, sinagogas
Tantas casas vazias onde está o Senhor !!

Wilson Roberto Nogueira

MIMETISMO




O seu cabelo era loiro
Como o cabelo de oiro
Dum milheiral em flor

O seu rosto era rosado
Dum rosa que aposto
Era o da rosa mais formosa,
A mais linda do prado

A sua boca era rubra
Dum rubro tão doce
Como o da papoila mais rubra
De onde quer que fosse

E não há quem descubra
De onde era ela
E não há quem nos diga
Que a rapariga
Não fosse bela...

Mas quando um dia se casou,
Tudo mudou!

O loiro cabelo
Outrora brilhante
Tornava-se escuro,
Impuro, aberrante!

O rosto,
A face bela,
Tão cheia de gosto,
Ficava amarela!

A boca tão rara
E tão cheia de amor
Ficava clara
Sem cor,
Sem calor
!
E toda a alegria,
A força e energia,
Da moça fugia
Ao vir o amor!

Tristeza!
Onde está sua beleza?

Foi quando casou
Que a bela mulher
Voltou a nascer
Velha, velha!

Caprichos da natureza!

José Sepúlveda
(Arca de Quimeras)


FILHOS DE NINGUÉM




'História duma criança pobre
Que vive com a mãe
E teve por pai um prisioneiro
E por padrinho um carcereiro
Que lhe chamou Liberdade'

Filhos da terra e de ninguém,
Abandonados por quem
Os ama, os quer, os tem…

Tu, filho da terra.
Tu, gerado
Das lavas de um vulcão ébrio,
Ficaste abandonado
Sem nome, sem fado!

Tédio!
Tédio para os homens sem remédio!

E foi o padre, deixai-me pasmar,
O padre da aldeia que a foi baptizar

Filhos da terra e de ninguém,
Prisioneiros revoltos
Dos cárceres soltos do além…
Tu, carcereiro odiado,
Tu, filho de ninguém,
Foste o padrinho
Do rebento abandonado
Que vive com a mãe!

A alma tua
E a tua desventura
São a esperança de felicidade
Para essa criança
Que vai sentir piedade
De gente malvada…
E tu, filho do nada,
Filho da ternura,
Apenas lhe chamaste
Liberdade!

Ó prisioneiro do além.
Que busca essa verdade
Nas celas e nas lutas,
Prisioneiro por caridade
Que foge das garras de tigres famintos
Das savanas corruptas!

O filho és tu,
Seu ser a liberdade
E tu, pai, o teu prisioneiro!

“… e o preso viu fugir-lhe a Liberdade
Nos braços da mulher do carcereiro!”

José Sepúlveda
(Arca de Quimeras)


            
A aglomeração de assentamentos lhe causava arrepios. Apesar do silêncio, era com se pudesse ouvir os clamores das entidades e seus cavalos vibrando no entorno de cada uma das imagens. Enquanto abaixava-se em frente ao seu guia, sentia os músculos da perna estremecerem, como resposta ao esforço. Estava no limite das forças.

Assim que fechou os olhos ouviu ao longe, nas próprias lembranças, o grito que dera antes do desmaio, seguida do domínio da inconsciência sobre si. E a força da revivência lhe envolveu em desassossego. Por medo, cessou a entrega, arregalou os olhos e encarou os olhos do santo: nada fazia sentido. Era incapaz de compreender que o cumprimento de um destino prescrito por uma consciência alheia seria a condição para a sua permanência. Como numa íntima contradição, tal entendimento anulava sua própria razão da consciência.

Contrariada, Paula se cansou de tentar uma oração que não se justificava na ausência da crença. Levantou-se com esforço, observou o espaço, deu uma volta em torno de si. Fora do eixo, pensou em sair, subir as escadas do barracão, ir para a cozinha e por lá, junto da mãe e dos irmãos-de-santo, tentar combater o desânimo recorrendo ao saciar da fome. Mas quando lembrou do gosto que tinha cada uma das refeições, desistiu. Tudo o que ela precisava era de um pouco de tempero, de sal, de cor, de força – enquanto que os pratos possíveis tinham apenas dissabor. Diante da prévia insatisfação, foi alcançada por uma resposta certeira que, mesmo não sabendo saber de onde partira, lhe tomou: Esse lugar não é para você, menina. Fuja daqui.

A crença de que aquela voz não fora íntima a fez esquecer dos rituais de confirmação e da representação de uma fé que nunca houve dentro de si. Pegou a imagem de seu guia, a comida oferecida ao santo e foi embora, sorrateira, escondida. Saiu do quartinho, assumiu o caminho do portão. Partiu em busca de um lugar que amparasse não só as suas lidas; mas também as suas escolhas. Paula foi embora, cabeça raspada, vestida de branco, rua adentro, mundo afora.


Rejane Marques .                O avesso do espelho: Desassentada



redutonegativo.blogspot.com


O teu riso


Adriana de Sousa           


Solta o riso genuíno da
tua alegria. Desocupe o
coração das incertezas
e deixe a brisa da manhã
renovar as tuas esperanças...
Veja o nascer do Sol, a promessa
de uma possibilidade de paz,
de tentar de jeito sereno,ser feliz!
Só se faz tarde para aqueles que
perderam o coração de criança,
o coração valente que a tudo
suporta e supera por acreditar
No amor!...
Se a vida doeu, guarde somente
o que foi bom!...O que foi
negativo já serviu de lição, irá
somar na restauração de
um caminho melhor!...
Ah por favor!...Solta o teu riso!
A tua crença, a tua Fé!...
Nada nos beija a alma sem a
Permissão Divina!...



cataclismos




Vi os bambambãs de minha geração com picaretas buscando o pote de ouro, esgarçando o arco-íris; assisti yuppies de merda degelando as geleiras , com seus carrões que decolam de aeroportos e jatinhos que descortinam os ares a partir do meio-fio; topei neguinho querendo tudo, tudinho , e uma penca de manos pousando pra fotografias com o estomago grudado na omoplata; percebo chuvas teimarem em não dar as fuças , onde faziam um fuzuê e transformarem em lagoas locais que sequer pingava ; constato a fúria da natureza atrás de recordes , numa ensandecida aporrinhação com o guines ; noto um bando de maiorais papagaiar : crescer , desenvolver , maximizar e o planeta com tecnologia para alimentar 3 vezes seus miseráveis ; escuto a lengalenga dos manda-chuvas e manda-secas em encontros onde o boi vai de pijama, enquanto jornais entediantes dão conta do último cataclismo; topo uma cambada de doidos cuja necessidade de coisa alguma estende-se até que a ossuda os açambarque , entretanto prosseguem comprando,adquirindo, tascando na garagem a décima segunda máquina , numa disputa demencial com outras bestas do esbanjo, esnobo e foda-se os netos que não verá ; saco o fetiche do consumismo infectando nenéns e gaiatos cantarolando: o futuro é duvidoso; testemunho uns zé-ruelas felizes em seus casebres , celebrando a vida , conforme determina a folhinha , enquanto os donos do mundo entopem-se de prozac e o escambau ; assisto na TV uns bunda-moles glorificarem o mercado , vociferando que comida na mesa do povo impacta as contas públicas, noticiam o aquecimento e exigem dígitos e mais dígitos encorpando a economia; ao passo que de 1800 e vai fumaça o sapateiro Proudhon esgoela : Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante setenta séculos ?

Marcos Mello

Noticias que eu queria ler.




Eu quero ler nos jornais
Que acabou a falsidade.
E no mundo inteiro só,
Pratica-se a lealdade.
E que todos os carrascos,
Se atiraram nos penhascos,
Levando toda maldade.

Quando eu abrir os jornais
Eu quero que esteja escrito,
Que ninguém mais passa fome
No planeta em que habito.
Também quero em todos ler,
Que no “globo” não vai ter,
Mais espaço pra conflito.

Não vejo à hora de ler
Que acabou a ditadura,
Que todos têm liberdade
Pra sair da desventura.
Que o ser de qualquer crença,
Cultive sem desavença,
Seus conceitos de cultura.

Quero ler boas notícias
Que já cansei de esperar,
“Que o mar vai virar sertão”
“E o sertão vai virar mar”.
Que o amigo CONSELHEIRO,
Homem bom, “santo” e guerreiro,
Vai voltar pra festejar.

Faz tempo que espero ler
Em MANCHETE nos jornais,
Noticias animadoras
Com letras bem GARRAFAIS.
Que o terrorismo acabou,
E o arrogante se calou,
E com ninguém grita mais.

Que tem cura para o câncer
É outra que eu quero ler,
E descobriram remédio
Que é pra gente não morrer.
Que filhos respeitam pais,
E Hitler não volte mais,
Pros semitas não sofrer.

Eu vou ter prazer de ler
Que a inveja adoeceu,
Foi parar na U.T. I
Não teve jeito e morreu.
E o traidor no seu enterro,
De triste foi ao desterro,
E nunca mais apareceu.

Assis Coimbra. Todos direitos reservado.





Ney Santos       
Os milionários quiseram comprar a felicidade com seu dinheiro, os políticos quiseram conquistá-la com seu poder, as celebridades quiseram seduzi-la com sua fama. Mas ela não se deixou achar. Balbuciando aos ouvidos de todos, disse: "Eu me escondo nas coisas mais simples e anônimas...

LÓGICA SOCIAL




Sem CIDADANIA não há DEMOCRACIA,
sem EDUCAÇÃO não há CIDADANIA,
sem CULTURA não há EDUCAÇÃO!

(Andra Valladares)

Aedos e rapsodos da lua marrom


Aedos e rapsodos da lua marrom
(Em uma superfície lisa)

Pois, um lugar, um luar
Banha-me o ego em prata
Cabalar

Fagulhas de egos e centelhas
De vidas psíquicas
Transmutam-se em pó
Em fá, mi, ré, dó

Gente toda só
Gente toda só

A carniça é adubo em
Certas fertilidades e
Pela cidade verte pão
Em não se florir de rosas
Pois formosas e prosas
Do segredo mais clichê

Do universo.

(Da redação)

O pão da palavra,
O alimento do poema
A água da sabedoria
O dicionário das metáforas

Aedos curitibanos
(Um oferecimento)

Levados foram aos ventos
As chavões sementes de sempre
Germinaram inconscientes gentes
Nos territórios ficcionais
Derribados de si

Nós todos,
Vertente underground,
Minha crítica, meu fel,
Meus erros de ortografia

A água que jorraria
Continua a jorrar

No brilho do olhar, no clichê
No açúcar que um sem par
Havia por me negar

Na mansão de Voltaire
Em chafariz

A ver se condiz a ver se
Reverberará
ACM

terça-feira, 22 de maio de 2018


A palavra varou a escuridão
lavrando de pesadelos os
silêncios silentes da morgue
eriçando os pelos da morte,
que habitava no casulo cadáver
da história;
da tua estória escória de sifílização.
Sonha a sombra da devassidão
a derradeira hora da libertação
na barbárie que jesuscitou.
Ela caminha a teu lado e dorme contigo
esperando para beijá-la
a palavra larva da dor da moderna
civilização ocidental

Wilson Roberto Nogueira


Mesmo com toda lama. Com toda súmula, com toda sílaba. A gente vai levando. Outono em Curitiba com sinal verde pela frente !
RCO

ELA




Ela, sonâmbula ingênua, alimentando-se dos resíduos de pão recolhidos à tarde,
em seus passos, brisas suaves de grisálida emplumada em desalinho com o  vento,
digere antídotos contra seu próprio veneno;
depois de enxugar lágrimas de acetona, de enternecer seus sonhos,
de dissecar a fauna de seus sentidos, de esmorecer em falsos desatinos,
de esquecer seus primários instintos,
depois de estar no purgatório e não se enxergar Beatriz,
depois de reverter o espólio em simples cicatriz,
escalavra em suplício os intervalos do equilíbrio.

                                                              Ricardo Pozzo

AO MEU ASSASSINO


Em homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski segue este texto do Rodrigo Madeira

AO MEU ASSASSINO

há muito equívoco nesta cidade
sobre a morte de paulo leminski.
morreu de bebida, de curitiba,
de harakiri e o diabo!

deixe-me dizer-lhe:
leminski está morto e fui eu
que o matei.
era tardinha, sete de junho
de 89, na esquina do stuart.
eu tinha apenas dez anos de idade.

abracei-o no golpe da faca
e só o largaria
depois que ele se largasse. olhou-me,
excepcionalmente, com olhos de
cachorro manso e disse: "quem é vivo
sempre desaparece".
sorriu-me como se eu morresse.
nem perguntou
por quê. sabia que aquilo
era obra de um tigre...

hoje entendo a razão
de não ter cabido um "sinto muito,
poeta!"
é a ordem natural da coisas.
leminski também matou seu touro
e voltou pra casa de mãos novas.

comigo
acontecerá o mesmo.
não fiz nem 28 anos e já espero
o golpe de meu vingador.
tenho esta impressão
de que ele virá da direita,
sabendo que sou canhoto em tudo.

morro de medo do menino que
fala sozinho, possível poeta,
da menina que penteia os cabelos
no vento (será poeta?),
do adolescente no expresso
que lê a ilíada em pé.
morro de medo, morro de medo,
mas não há jeito, é certo como o sábado.

na esquina de casa,
na saída do barbeiro,
na volta da banca,
na fila do banco,
num estacionamento
de supermercado, ele estará
a minha espera.

inevitável que seja.
em algum lugar da cidade
meu assassino está nascendo.

escute daqui a vinte anos estas palavras:
"tudo bem,
cara, eu entendo! perdoe-se como me perdoei,
ou não escreverá sequer um verso.

apenas interceda em meu favor para que eu seja
enterrado em meu bar preferido.
só isso. os poetas merecem ser emparedados
em seu boteco eletivo, assim como as aves
devem ser sepultadas no ar.

o botequineiro saberá rezar minha missa."

não há jeito,
é certo como o sábado:
tal qual as putas de outros tempos,
o poeta cora seu rosto com sangue.

o sangue de outros poetas.

                                  Rodrigo Madeira

Ferias Frustradas?



Por Elisa Tkatschuk

Uma viagem para a Europa e geralmente associada por nós, brasileiros, a expandir horizontes, aprender novas culturas e, sobretudo, conviver com gente mais rica e educada. Tida como culturalmente inteligente, Europa e, no nosso senso-comum, sinônimo de anglo-saxonismo, riqueza cultural e financeira.

Supõe-se que, em países ricos, a população tenha acesso a melhor educação do mundo e que ela seja acessivel a todos. Preparada para seis meses de aprendizado da lingua inglesa numa escola na metropole Dublin, Irlanda, eu me deparei com professores pouco qualificados que não supriam a expectativa causada pela grande quantidade de dinheiro empenhada nesses cursos de inglês. Vizinha da Inglaterra, a Irlanda ganhou o apelido de Celtic Tiger dado o grande desenvolvimento econômico ocorrido no país nos últimos dez anos.  Aqui, para que um nativo seja professor, requere-se apenas um curso de duração de um fim de semana para que ele ganhe o certificado de TEFL, ou Teaching English as a Foreign Language. Por isso, muitos professores não são professores graduados, preparados para lidar com o desafio psicológico da sala de aula. Até ai tudo bem, afinal ninguém nasce sabendo e um curso de inglês não e nenhum curso universitário. Mas, quando dinheiro entra em jogo, não há relação custo beneficio que corresponda a situação das escolas de inglês.

Além disso, e preciso tomar cuidado com a propaganda enganosa. As brochuras das escolas podem prometer cafeterias, cursos e serviços que na verdade não existem. A desinformação ou mal-informação pode colocar a pessoa que comprou o curso numa rua sem saída, uma vez que não existe nenhum recurso ou orgão público, algo como PROCON para estrangeiros, disponibilizado caso ela esteja descontente com o curso que comprou. Já e dificil o bastante viver num país que não fala a sua lingua. Tentar conseguir ajuda em outra lingua, onde a ajuda não existe e onde você não conhece as leis, pode transformar o aprendizado cultural num pesadelo e inconveniente muito grande.

Tudo isso quer dizer que se você comprou um curso de inglês de duração de seis meses, chegou no pais, percebeu que a escola nao vale o preço que voce pagou ou que voce foi enganado, voce não vai saber para quem reclamar e não tera seu dinheiro reembolsado. Assim, e preciso atenção ao comprar qualquer curso antes de viajar para outro pais. Vale a pena checar se a informação que voce recebeu e verdadeira com alguem que ja estudou na escola para qual voce esta indo. E triste que, em países que recebem milhares de poloneses, chineses, japoneses, espanhóis e estrangeiros do mundo todo diariamente, nao exista nenhum orgão de assistência a imigrantes no que concerne a leis. Mais lamentavel e que muitos europeus culturalmente e financeiramente ricos não tratam os estrangeiros com toda a melhor educação que eles receberam. 

No final das contas – literalmente - pode ser muito mais divertido e educacional andar pelas ruas de bicicleta, ler livros, aproveitar o sol de verao ate as 21 horas, conversar com nativos e estrangeiros do mundo todo no parque tomando sorvete, sem ter a consciencia pesada por um rombo na conta bancaria.



Súplica ao meu assassino




Cala-me suavemente.
Cessa o estertor violento
de minha verve lírica
em vísceras alheias,
vertendo, de tua boca lacerada,
o sumo que alimenta
o meu sentir intensamente.

Deita-me languidamente,
entre versos brancos
e a tessitura vaporosa
de silêncios enternecidos.
E acomoda em meus contornos
tua alma sinuosa

Deixa-me repousar
às margens da vertigem.
E antes que se dissipe
o êxtase de minhas veias,
e eu pereça lentamente
no torpor da tua ausência
mata-me delicadamente.

Iriene Borges



Canção que ninguém ouve



Por que se luta tanto
Por poder, saber e grana ?
Por que sua grama
É mais bacana que a minha ?
Por que não consigo falar essa língua
e a que eu falo só xinga?
Pór que não tenho olhos verdes
E voz a planar
sobre a bolsa de valores ?
Por que os amigos poetas
estão ficando
cada vez mais pobres
doentes ou mortos ?
Por que só falo com demônios
Por que escrevo esquisitices
Porque sou demais sujeita
Por que você não fala a língua
de uma pessoa só
o coração batendo só
tão baixo
que quase não se ouve .

Marília Kubota



Sempre procurou refrescar-se na chuva; vestia-se com o agasalho do mormaço e sorria suaves melodias. Deitava-se  em qualquer banco de praça e celebrava boas-vindas com os pássaros matinais. Morreu ali ; dias atrás .A cidade com seu cheiro singular demorou para perceber o saco de baratas que um dia já sonhara, vivera, amara. Lá se foi mais um dia na vida de uma sombra na cidadezinha .

Wilson Roberto Nogueira


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Assionara Souza


. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

Assionara Souza por ela mesma



Escrevo desde muito cedo. Na adolescência, já enviava textos a concursos literários e fui contemplada em alguns. Mas o primeiro livro publicado é de 2005. Leio muito e tento acompanhar a produção literária e cultural contemporânea. Minha produção é motivada tanto por experiências que vivo no meu cotidiano quanto por minha relação com outras artes. A música, por exemplo, me ajuda muito a produzir literatura.

Meus personagens são pessoas que poderiam passar despercebidas se transitassem na realidade. Gosto de enxergar luminosidades em figuras aparentemente apagadas e sem brilho. Interesso-me por anônimos e talvez eles estejam presentes em minha obra como uma forma de chamar atenção para a beleza que se revela quando ninguém está olhando.

Os bons autores me influenciam; tanto poetas quanto prosadores. Acho que a literatura é uma arte que não se deixa baratear. Se o livro é ruim ele pode até fazer um sucesso quando publicado, mas não resiste muito. Eu levo isso em consideração quando escrevo. Me inspiro em nomes como Osman Lins, Julio Cortazar, Virginia Woolf, Maguerite Duras, Wislawa Szymborska e os russos todos. São muitos.

Sobre o mercado editorial brasileiro, penso que precisa melhorar muito. As feiras e a crítica estão todas centralizadas em obras escritas por homens, não acho que seja necessário abrir cotas para mulheres, mas pelo menos dar visibilidade ao trabalho de autoras que estão produzindo muito e obras excelentes, mas que não chegam aos leitores como deveriam. Só precisavam chegar aos leitores, pois a partir daí a qualidade da obra iria garantir sua permanência; é dessa abertura que precisamos.

Assionara Souza

fonte : http://sites.uem.br/cedoc-lafep/indice-de-escritoras/letra-a/assionara-souza/assionara-por-ela-mesma

Narcisyou




Então é suficiente olhar o poema na página e pensar:
Que poema estrondoso
Que poema estúpido de louco
De onde vem essa coisa toda que se chama poema?
Ah, talvez daquela rua
Um garoto atravessando
Ele tem um lenço azul no bolso
E fica parecendo o rabo de um gato
Os cabelos esvoaçam
Ele fez isso de propósito
Não! Espera, não é daí que vem
Talvez seja mesmo desse pouco espaço para o coração
De repente ele começa a explodir demais
E ninguém consegue dormir direito
Ou por isso mesmo, dorme-se demais
A cidade sonolenta
Os três correndo feito loucos
E quando ela cansa, põe as mãos nos joelhos e sorri
Jules e Jim também é o seu filme preferido?
É o meu!
Que coincidência
Que coicidência eu ter olhado por um tempo longo
E ter pensado:
Estranho, quanto mais eu olho, mais gosto
Não era só um poema numa página?
Aliás, naquela manhã — já faz tempo
Seu rosto de criança refletido no lago
Todos prontos para partir e você ali
Nesse exato momento: o poema



 Assionara Souza


Um breve instante




Tomo um chá enquanto escrevo
O resto de tudo o mais
Dilui-se na ilusão dos dias
Ontem, por exemplo, choveu
E fez frio as horas todas em que não estivemos juntas
Pensei em ti enquanto olhava a mendiga de minha rua
Encolher-se num canto onde o vento machuca menos
Pensei no quanto amo tuas mãos de amarrar nuvens
Quando o moço viciado em crack me apresentou o papel da receita
E pediu que lhe inteirasse o dinheiro para a compra do remédio
Chorei muito e odiei o mundo
Ao ler a notícia da menina encontrada morta
Com marcas de estupro e o coração arrancado
Lembrei do quanto amo teu abraço mar em torno da ilha de minha tristeza
E meu tanto querer voou ao teu encontro
Minha alma valsou feito o violinista de Chagall
à volta de tua figura
Será que você sentiu
Esse meu beijo-pensamento, ontem às seis da tarde?
Ah, deixa-me dizer que isso não é romantismo
Não tenho ilusões de casamentos
Nem grandes festas
Em que todos os presentes esqueçam
Por algumas horas
Que chove e faz frio
Que o vento violenta a mendiga de minha rua
Que o garoto sonha com a química que o destrói
Que pelos caminhos de crianças de dez anos
Rondam homens maus que lhe arrancarão a vida, a alma e o coração
Não mais escrevo poemas, meu bem
Sentir e dizer o que sinto
É tudo o que sei e faço
Com o desejo único de que em algum momento
Meus olhos barcos avistem
Ainda que por um breve instante
Esses teus olhos horizontes
Antes que se feche a noite, o sono e o sonho




Assionara Souza

Tarot




Vou confessar, querida
Tenho isso de gostar dos loucos
Observo de longe o jeito que eles comem com os olhos
Com você foi assim
Esse esmalte vermelho sempre em dia
Esse passado colado no álbum com cantoneiras e papel vegetal
Quero a receita completa
Desde o suspense antes do desfecho da trama
O disparo, teu olho assustado pra câmera
Por trás da palavra pêssego
corre um rio espesso
Mordo a palavra pêssego
E as comportas desabam — uma cidade inteira vem abaixo
Corremos, corremos para bem longe do set de filmagens
Vida real é um cão dormindo no silêncio da tarde de um domingo



Assionara Souza

A Mulher de Lot




Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

Assionara Souza

Espelho meu




Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

Assionara Souza

Russalki

Tia Maria Afronova .

Ver todas as semanas minha mãe entorpecida e coberta de bosta naquele purgatório  acabou curando me da cicatriz de nossa vida comum.Uma dor só comparável se a senhora tivesse sido estuprada pelo avô Volódia . A senhora foi ?

Wilson Roberto Nogueira
Sofreu um acidente.Caiu diante de um carro,levantou e prosseguiu.Continuou vivo, mas algo morreu nele .A relevância por viver.Vai prosseguindo no existir até a Hora chegar. hora Que jamais foi dele ,pois pertence a D'us,ele é o barro da vontade do Criador.

Wilson Roberto Nogueira jr

sexta-feira, 11 de maio de 2018


Tempo é copyrights



Entre o ruído da brisa,
Pisa e frisa no vácuo o lapso
Do ar, ainda, qual.

Tal férreo inconsciente coletivo
Distrai meu olhar castanho mel.

Todos os cigarros Palermo
Naquele recipiente astral.

Não obstante sonho, o léxico
Adula a psique a remover o líquen
Das horas.

Bocas que se fecham ao beijo
Não logram a presença do amor.

Bocas que se abrem nadam contra
A maré dos detritos e entulhos oferecidos
Aos baixos entes na concórdia litigiosa
Do cosmos.

A insônia eletrônica da rede desnuda
Sua consciência aos quatro ventos
Da solidão e do pânico de si
E de sol
No rol da psicanálise
E do behaviorismo menos estrutural.

Reverbero jargões próprios e adjuntos
Nominais e adverbiais que levam
Indivíduos a deduzir conhecimento
Do núcleo atômico da origem da minha
Alma periférica
E metabolicamente desintoxicada.

Exacerbo o horizonte cabalar
Para versejar,
Sim versejar,
Qual mar, qual lar e par poema
Que pena serena me leva
A entoar.

As teclas desdobram e dobram
Solidões e fagulhas dos teus olhos
Sobressaem-se aos pesadelos
Da madrugada.

Nada de mais.


Anderson Carlos Maciel

O dourado do anfitrião



Nem tudo que fede é globo
Pois de mais a mais
O cais
E os tolos.

Impressionara-se o tato
E despedaça-se o arauto

Persuadidos por rótulos
Invocam a mim, meu eu
E ser.

O sarcamo é pertinente,
O vazio é recorrente,
A linguagem é simples,
E a lágrima escorre
No oráculo do segredo
De Apolo.

Enxergo sempre em patamares
E quebro os paradigmas, do clichê

Os projetos do anfitrião tocam
O solo arenoso de si e de lá
Como se acolá houvesse
Sabedoria e filosofia
E, filosofia não há.

Teria a água fria encantado
A estrebaria, ou,
A alegoria que se esvazia
Reclama o maná?

Rudemente insábios, jazem
Jazemos inumildes,

Tergiverso o caminho em metáforas
(Da redação)
A versejar teu lirismo de bronze
Do bronze dos teus.

Falaria a aporia
Aos corações inprojetáveis
Que reclamaram poesia
Às inférteis flores do amanhã.

Escorrem páginas de minha
Solidão aberta,
Em mídia viva.

E a carniça que se esquiva
É rediviva ogiva literária

Adubo para a imaginação
Florir holofotes

Que não logram o brilho
Dos olhos do meu bem.
Anderson Carlos Maciel

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nas esquinas do firmamento ( Um passo para a infinita fonte gozoza)


Anderson Carlos Maciel


Escrevo coisas bobas no papel,
Que depois edito.

Sou redação.
Se evito, se reflito, os teus olhos
Sobre o papel (tela)

Não tenho a necessidade,
De provas da identidade
Que não me darão.

Meu pai se dizia vítima do sistema
Ao prover a seriema que povos
Constataram
Em poemas
Da mais fina expressão.

Queres olhos, mãos, nuances
Humanas, seres, intelectos
Ao preço da consagração.

Minhas letras enigmáticas,
Meus rótulos que caem
No sangrento chão.

Pessoas que se abstraem
Orelhas de livros,
Mariposas alegres que se dotam
De amores coletivos
Corações

"O filósofo busca a virtude"
Dirão.

Apolo empunha a lira,
Que os teus refreiam em tenra
Combustão.

A letra, torta, não torta,
Expressa a agonia que jaz
Lenta sofreguidão

Amor, amor, amor
Quem não sentiu mais que fogo

Explique tudo ao sábio Platão.


Jorrar o esgoto dos sonhos




Não quero o sincero ou
Esmero, camafeu
Espero, severo o verso
Música, eternidade
Em tempos de sonar a vala
Que cala e ninguém fala

Nem você, nem eu.

Queres a agulha
A fagulha, o pó, o breu

Paradigmas literários são canários
Pretos, mal-do-século
Estilos incertos e sequer
Expressão.

Negar o amor com fúria
Proliferar a nostalgia cândida
Soçobrar o óleo sobre a tela

A arte em parte pão
E pela mão os dedos hábeis
Não despetalam bocetas ágeis
Mas apontam, apontam
Em vão.

Diversão do alcatrão,
Sou sábio não ermitão,
Jorro estéticas puras
Ao soar do avião.

Corta os ares o dedo em riste
Da cólera que insiste
E existe
Como existe, um livro, página
Tão!

Meu repente mais, subserviente
Alude a esta gente, ou não.

Vivo o amor do valor do amor
No horizonte da canção.

Atiro poesia aos teus degredados
Do porão.

Recrio uma cidade ao pé de si
E de sol

Eu e o Dalton.



Anderson Carlos Maciel

quarta-feira, 2 de maio de 2018


Seguranças e segurança no mundo do faz de conta

Shopping. Transeuntes. Pessoas despreocupadas. Aparentemente. Seus devaneios estão em aonde ir e no que gastar. Precioso tempo. Precioso dinheiro. Precioso tempo-dinheiro.

Vai e vem frenético. Palavras. Perfumes. Sorrisos. Sorvetes, de verão. Lojas. Presentes. Bancos. Cinemas. Eventos. Beijos. Abraços. Choros. Gritos de crianças.

Tudo esquematicamente cercado por seguranças e segurança. Lembra-me das minhas aulas de História sobre nossos antepassados. Castelos com seguranças e segurança. Sob os domínios de algum rei. O povo do bem, dentro. E o do mal, fora.

Engraçado este mimetismo. A violência, supostamente, lá e eu aqui, escrevendo esta pequena reflexão. São e salvo. São e salvo? Do quê? De quem? Da Casa Verde e do Dr. Simão Bacamarte.
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 “It must have been love”


Quantas vezes de mãos dadas passeamos naquele parque?
Foi lá que tudo começou e que também terminou.
Sem saber, pensando em você, a coincidência veio.
Restou saudades, carinho e gostinhos.
Eu aqui
Você aí.
Nós, nunca mais.
Carinho.
Saudades.
Gostinhos.

“It must have been love”
(!)
(?)
(…)

Curitiba 12.06.05 – 19:26

 Mário Auvim

Ensolessências Maranhenses.


Fico prosa quando a rosa ri
Perfuma o vento...mas o vento
embora feliz se perde e perde-se
em nada.
Mais feliz é o siri ...
antes de cair na
moqueca lá em São Luís.
Saudoso ele o siri se ri
e sua lágrima
transforma-se em cristal
donde a flor bebe
o beijo da vida.
                    Wilson Roberto Nogueira



Ser comum




O fragmento - “agora, lá fora, todo mundo é uma ilha, há milhas e milhas e milhas de qualquer lugar” - reflete bem o ser e estar de muita gente.

Já parou? Para pensar que fazemos o que nos pedem e ensinam, num ritual descompassado? Fazemos exatamente o que nossos pais, avós, bisavós fizeram. Nascemos – crescemos (tudo muito natural) – somos educados (doutrinados soa menos falso) – trabalhamos - casamos – geramos - e o ciclo se repetirá com nossos filhos. Diferentemente. Entretanto, igualzinho.

Complicado de responder, mas a pergunta que cabe aqui é simples: e é só isso? Seria um ciclo natural de evolução darwinista ou, até mesmo, criacionista? Um roteiro de filme, onde, muitas vezes, somos bandidos e mocinhos, num jogo de máscaras? Uma obrigação natural ou social? Uma regra que algum feliz ou infeliz estabeleceu? Um cara ou coroa?

Em um país repleto de injustiças sociais, metade deste processo concluído já seria mesmo um feito. E dos grandes. Digno de medalha de ouro ou de um Oscar, predeterminado pela Academia ao "melhor" filme.

Parece-me que “alguma coisa ficou pra trás”. Mas o quê? Bom se fosse só o guarda-chuva esquecido em algum banco de ônibus, logo após o cessar da chuva. Compraria outro. Fim do problema.

Plantar uma árvore. Gerar um filho. Escrever um livro. Senso comum da felicidade? Este é o problema, ser o comum. Ser só mais um José ou Maria na multidão. Estaria tudo bem? Não! Não? Ser um Neymar ou uma Gisele também não seria o bastante? Ou seria? Julgo que não é uma questão de dinheiro. Beleza. Glamour. É uma questão de saber qual o enredo. Quem é o diretor. Deus? O nome do filme. Elenco. Mocinhos. Bandidos. E onde você quer livre arbitrar.

Mario Auvim

DOIS POEMAS DE BRUNO TOLENTINO




                               por Altair de Oliveira


Por imenso gosto, apresentamos aqui estes poemas "A Corça" e "O
Monstrengo", retirados do livro "Baladas do Cárcere", do falecido
poeta carioca Bruno Tolentino, que  viveu a maior parte de sua vida
fora do Brasil e que consideramos um dos grandes poetas brasileiros da
segunda metade do século XX!
Um final de semana grandioso para vocês e uma boa leitura!

A CORÇA

"Demorou-se a crescer entre meus braços
a ninfa proverbial e peregrina
que embriaga os sentidos e alucina
os olhos assombrados como escassos

para conter a imagem que os domina.
O fantasma ideal desses abraços
prolongados e breves como a sina
da coisa moritura, os olhos baços

refletiram-no enfim, mas como a poça
em que pousa de leve a lua alta.
Foi tudo confusão. Ah, mas que força,

que graça delicada e tão estática,
que elegância de estátua tinha a corça
que fingia escapar em sobressalto!"


   ***

O MONSTRENGO

"Tive tudo o que quis, e o que não quis
também, é claro: mas ressalvo a audácia
com que arranquei à pedra da desgraça
uma felicidade de infeliz;

martelei pedra viva e dei-lhe a face
que esculpi: tive assim, não o que quis,
mas o rosto que tenho, traço a traço,
fui eu que o inventei, fui eu que o fiz!

A medusa morreu: matei-a eu
e a espécie de Perseu que fiquei sendo
não foi a ilustre morta que me deu.

Fui eu mesmo que fiz este monstrengo,
o inútil monumento é todo meu.
Eu, modelo, martelo e monumento!"


Poemas de "Bruno Tolentino", In: "Baladas do Cárcere" - Topbooks -
1994.