sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Sub reivindicado
Emerjo, - sátiro nu -
Cicatrizado verbo global.

Retalhos
Simbióticos
Em quilhas estipuladas
- segue cabala -

Melado tipo ambrosia
Exportação
Aos deuses cutucados
Globalmente
- conjugado -

Do fel de menta
Emerge do lodo
- estrume -
Que pensa
      Vaga-lume
Oriente, repente e dança

Projéteis de estilos
Ressoam empiria
Na peito da hipocrisia
Da poesia
Que interpretaria
           O silêncio da dor:
Luzes Curitibanas

Azedo fel da poesia piegas
Dissolve-se em maestria
Fantasmagoria
E mansidão

Cutucado sátiro do olhar
A somatizar telas gozosas.
De canais de televisão.

Explosão na epopeia
Da guerra metafísica
Entre o palhaço franzino
E seu instrumento
                     Andino


II

"Alevinos do sentido metamorfoseiam-se
Em metáforas labirínticas que cerzem
As horas dos impetuosos arroubos de lógica
Não pontuados lamentos angelicais
Ejaculam o sangue coagulado dos quintais
Genitálias partidárias outeiros do vale das sombras
Em canhestras rebeldias da forma
Fluxo da ausência de técnica
Influxo do "nada a dizer" teórico conceitual
Também"


III

Alimento na mesa:
Melado quente
5 opções de fel
Com direito a dois


IV

Moscas coloridas, rasantes
De feridas, gangrenas garridas
Pelas esquinas da vida
Epopeia sentida
Na partida
Florida
Da forma em norma
Intuitiva
Sempre-viva
Sonata ingrata ou
Tomos, - verbetes -
De linhas que leem, - leitores
Ávidos de pareceres
Ou teologia dos prazeres
Unguento
Aos seres
Unguento
À dor.


V

"Todo o caos remete à lógica"

(Espetáculo da efemeridade)

Anderson Carlos Maciel

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ESTATÍSTICA


nasceu morto-vivo
um naco de bacon roxo enforcado nas tripas da mãe
a parteira cravou: o pivete tem 89% de chance de não vingar
o pai mastigava pinga com água sanitária
desintegrou-se numa segunda-feira cinzenta do mês do cachorro louco
a vizinhança cantou a bola
: o pé de cana tem 73% de chance de desaparecer num buraco de tatu
primeiro beck aos 5 anos
aos 8 foi expulso da escola depois de dar uma tesourada nas tetas da Tia da cozinha
a diretora previu
: o pequeno psicopata tem 68% de chance de se transformar
no Inimigo Nº 1 da Humanidade
veterano da FEBEM aos 13 anos
aos 15 deu um tiro na cara de um cara durante um baile funk
os comerciantes de Parelheiros sentenciaram
: o delinquente tem 90% de chance de ser fuzilado por um gambé de chico
foi encontrado com a boca cheia de formigas num terreno baldio do Capão Redondo
a Secretaria de Segurança Pública anunciou
: 35% dos indomáveis descansam em paz no céu das estatísticas

Vlado Lima

terça-feira, 27 de setembro de 2016

DOURO


Cai o sol nas ramadas.
O sol, esse Van Gogh desumano...
E telas amarelas, calcinadas,
Fremem nos olhos como um desengano.
A cor da vida foi além de mais!
Lume e poeira, sem que o verde possa
Refrescar os craveiros e os tendais
De uma paisagem mais secreta e nossa.
Apenas uma fímbria namorada,
Vermelha e roxa, se desenha ao fundo
O mosto de uma eterna madrugada
Que vem do incêndio refrescar o mundo.
Diário I

Miguel Torga

SEMPRE HAVERÁ UM NOVO AMANHECER


Sempre haverá um novo amanhecer
Após noites de chuvas tempestuosas,
Acompanhadas de raios assombrantes,
Nas caladas das noites escuras apocalípticas
Sorria...
Mesmo quando não houver sinal de luz lá no fundo do túnel
Sorria
Creia...
Que sempre haverá
Sim sempre haverá um novo amanhecer
Sorria...
O Sorriso não é o melhor remédio
Ele é a poderosa arma para a defesa
Após um declínio da queda causada pelo inimigo!
Levante e ande e creia que...
Sempre haverá um novo amanhecer
Depois duma noite de trevas tenebrozas
Depois duma noite escura fantasmagórica de breu
Sempre haverá um novo amanhecer
Sempre haverá um novo amanhecer
Após duma noite de lua cheia radiante vertida em lua de sangue
Um crepúsculo surgirá,
Lá no céu do azul celeste!
Ainda que sozinho estiveres,
No meio do mar em noites de silêncios dormente
A sós no meio do lago medonho da noite
Sempre haverá um novo amanhecer
Num crepúsculo da aurora do Sol Nascente do Leste!

Moisés Antônio

Cangalha


Sentia selvagerias
Sofisticados horrores reeditados
no campo-da-morte – o corpo
Era um arranhar de vísceras,
afogamentos miúdos contra a
correnteza dos fluidos.
Cavar, cavar, cavar estranhamentos
(arrancar células e palavras mortas)
até sangrar a alma,
assim ia .
As tardes escorriam
na grande vidraça da dúbia janela
junto aos poderes que sumiam
na rangedura dos dentes
... ao de quimeras
.
E, na entrada das noites
aparecia o derramamento súbito
da escuridão mesma -
rosário esculpido no outrora
rezando o destino
Se-ia juntando os pedaços
nos ermos, nenhuns, silêncios...
em nadas vivendo
Melaço corria da espada – seu fio
Há um senhorio com mãos feito enxada
abrindo um vazio nos contos de fada
(um amor senil!)
No curso das desdobraduras
(dormente, dorsal, dornalha)
um feixe de siso, percorre a loucura
em chiste (selvagem perdido)
- num ato, palavra, irônico riso ou rito -
lhe salva a cangalha

Maria Regina Alves. Vidráguas

engrenagem "relax"



Retroage
Emoldurado
Lado

Lodo
Todo
Brado

Não

Signifique
Fique
Leve, leia, lauda

Leque...
Longanimidade
Ao leste

Veste
E cai ( fica) bem.

Anderson Carlos Maciel

Lodo social



Todo povo
Todo o polvo
Nunca houve
Curdo bobo

Leve
De retorno
Memória

Da arte
A responsabilidade
Apenas formal

Arte-final
Dos dias, - empiria
Cardinal.

Se desejas, - mergulhes.
Algures
Não te detenhas a voltar
à superfície.

Desliza molusco
Não benquisto lusco-fusco
Na salada
Da informação.

Salgar com sal
Carapaça astral
Se forma, - seminal
Enluarar carnaval

Não são confetes!
Leitura estável.

Anderson Carlos Maciel

Ao editor-chefe



O cheque
Agreste
Determina

A rima
Celeste
Refresque - qual sina

Luar
Teu lar
Feridas crônicas!

Ultra-sensorial labor
Encontro a casa
Encontro amor - superfície

Para pisar -

Sou
Sais alados
Sódio & Potássio.

Anderson Carlos Maciel

domingo, 25 de setembro de 2016

S. Martinho de Anta, 22 de Setembro de 1940 — O dia foi em Guiães, a caçar e a vindimar de manhã, e a ler de tarde versos num cemitério que só visto. Se um dia vier a talho de foice, hei-de escrever uma página sobre estas necrópoles transmontanas, de granito, aninhadas no cimo de uma serra, com ar de quem lava as mãos disto da vida e da morte.

Miguel Torga

Diário I

SOLIDÃO CRIADORA


Dorme e sonha a meu lado
Tão alheia de mim
Que me sinto um amante abandonado
Acordá-la?
Gritar?
O poeta é uma angústia que se cala,

A cantar.

Miguel Torga

Diário V

Negro forro


Minha carta de alforria
Não me deu fazendas,
Nem dinheiro no banco,
Nem bigodes retorcidos.
Minha carta de alforria
Costurou meus passos
Aos corredores da noite de minha pele.


- Adão Ventura, em "Os cem melhores poemas brasileiros do século". [organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001, p. 275.

O polichinelo


O seu segredo era como o dos outros.
Seus olhos eram de vidro azul
e na boca vermelha
o riso da ironia.
O humor profundo, amargo e doloroso
vinha de sua boca;
o riso da sabedoria
e do desespero
gritava da sua boca aberta em sangue.
O riso do polichinelo
vinha do coração ausente, era uma advertência.
era apenas o riso
e falava de um mundo
maior que sua alma.
- Paulo Plínio Abreu, em "Poesia". 2ª ed., Belém: EDUFPA, 2008.

Editorial - Eduardo A. Rueda Barrera. http://ow.ly/jXJ3304wuII

Vencedor


Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração - estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
.
- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

a grande tristeza


● se não pode a beleza erguer e sustar ●
● o fino fio q se retesa e agora se parte ●
● isso é caminhar entre cinzas diz a beleza ●
● quase rindo afastando os ossos a carne o ar ●
● q se perdeu o esperma na pele q se estragou ●
● diz a beleza quase rindo abrindo o gozo sim ●
● a beleza q se arruinou não toca mais a pele ●
● nem o esperma sobre a pele rindo os olhos ●
● abertos abismados o esperma jorrando ●
● é branco é cristal é quente dizia a beleza ●
● fenda como tarantula q se aninha e vela ●
● pas q no teto espalham o ardor vivo do rio ●
● mormaço das lamas do mangue o corpo ●
● violento sangrado do rio nem a breve pele ●
● coberta e nua de esperma entre o pubis ●
● o bico liso dos seios entre a erma barriga ●
● tesa e a lingua fina q se afasta entre dentes ●
● isso q morde e se gasta no desejo aquele ●
● entre as pas no teto sob o calor do rio gotas ●
● de suor como serpentes frias o grilo agora ●
● treme saciado e sereno inseto a fome sim ●
● q tudo devora a escadaria a hora a paga ●
● a hora assim a beleza se entrega sorrindo ●
● ?como é possivel tudo isso findar assim ●
● como se nunca tivesse existido e ja ja ●
● desaparece quando a carne transparece ●
● quando a carne os ossos se tornam o rio ●
● o mangue as arvores tortas a cada torção ●
● o corpo o gozo o nectar eis a alegria rindo ●
● quase dançando pele contra pele a pele ●
● da cidade ruas no sabor vivo do mangue ●
● entre as pontes a lama viscosa esperma ●
● seco contra a vidraça do tempo a beleza ●
● q se gasta tanto q some devorada sem ser ●
● nem mesmo o q foi nem a hora nem agora ●
● isso q se perdeu e não não vai retornar ●
● todas essas coisas pequeno idiota diz ●
● a beleza no grande tempo se passaram ●
● agora nem cinzas pra brincar como um cão ●
● são mais possiveis nem a corda retesada ●
● entre margens q se dissolveram fecha então ●
● teus olhos e aceita logo a escuridão ●
*

Alberto Lins Caldas

Retilínea utopia



Ela
Democracia
Vazia, - cera da vela

Nuance dos humanismos
teus
Esquerda partidária
Lua refratária
Aos ventos da história
Inglória de muitos
Che Guevaras

A luta agora
Pelo capital

Cortaram a raiz
Pelo mal

O poema
Adereço, adorno
Caro
Na sala de estar
Do neo-burguês

Crianças notas
Nano-contempladas

A enciclopédia
Seca ao sol
Bemol
Da censura interior

Dizem, comentam
Que voo
Com asas roubadas
Quando as tomei
Emprestadas aos anjos
De outro poder
Pretendo devolver
Àquelas boiadas
                    A pastarem
As brancas nuvens
Heteromorfas
De meu "liberalismo"
Menos contemplado:
Teoria da produção.

Verdes superfícies
Não navegáveis
Verdes sóis
             Bemóis
Que não me dizem
Nada
Efetivamente
                Latente
Heteromorfas famílias.

Minha trilha
Subo a montanha
Zaratustra
Eu e minha águia
Prometo a célere descida
A vida
E a revolta cega
Toda tua
- arma -

Idioma escarlate?
Anderson Carlos Maciel

‎ ‎ 

minha pessoa nessa noite


● oh meu deus oh meu deus ●
● diz minha pessoa vendo chegar ●
● perto demais perto demais diz ●
● minha pessoa apavorada e nua ●
● por dentro da noite nessa esquina ●
● oh meu deus oh meu deus berra ●
● minha pessoa pra baixo pra baixo ●
● não ha nada nada mais a fazer ●
● senão tropeçar cair cair e cair ●
● berra minha pessoa nua nua ●
● nua demais é sempre muita merda ●
● merda demais berra minha pessoa ●
● apavorada e nua oh meu deus ●
● oh meu deus q merda agora foi ●
● um olho depois serão as pernas ●
● oh meu deus oh meu deus ●
● se restarem os dedos ha o piano ●
● berra minha pessoa apavorada ●
● depois os ossos depois os aneis ●
● os amigos os inimigos os cães ●
● todos os gatos da cidade se vão ●
● oh meu deus oh meu deus nua ●
● sempre nua e apavorada agora nua ●
● sem outro olho as orelhas e sangra ●
● nua aterrada e nua oh meu deus ●
● oh meu deus berra minha pessoa ●
● agora sem as pernas sem os braços ●
● se pelo menos ficassem os aneis ●
● os aneis oh meu deus oh meu deus ●
● nem a lingua nem mais a lingua ●
● oh meu deus oh meu deus berra ●
● minha pessoa sem saber o q fazer ●
● assim sem nada de minha pessoa ●
● dentro dessa noite escura demais ●
● sem nem um pedaço nem a lingua ●
● os olhos oh meu deus oh meu deus ●
*

Alberto Lins Caldas

The affair é uma série incrível


The affair é uma série incrível. A primeira temporada estreou no Netflix... E já vi a segunda, por puro desejo.


Para quem escreve, é possível reconhecer-se em vários momentos... Sem spoiler, mas é só atentar para a estrutura de cada capítulo. É tudo ficção, mas há uma ficção dentro da ficção. Uma explosão viva em um cenário estupendo (Montauk). Dois casamentos supostamente sólidos abalados por um acontecimento: a chegada de uma família a Montauk, para passar mais um verão. O pai é um professor pobre que casou com a menina rica, tiveram quatro filhos, ele lançou um livro e quer terminar o outro, mas, não tem dinheiro para um refúgio de férias e vão para a casa dos pais dela. Na chegada param em um lugar para comer. E acontece um daqueles encontros que mudam a vida, quando ele conhece a garçonete do lugar. Por ora é só, mas devo dizer que a série é densa, poética, erótica em um nível acima das séries normais. É apresentada de uma forma rara, em cada capítulo duas versões do mesmo evento (atentem para os capítulos do escritor), acho que fiquei entusiasmada... e triste, e angustiada, e excitada e feliz em alguns momentos. A vida não é mesmo para amadores, nem o amor.

Bárbara Lia 

Gazeta do Rodo



Sobe a disputa arguta em sal
Marés de lágrimas no segundo-grau
Egos de escritores solícitos
                              Em serem lidos.

Anderson Carlos Maciel

minha pessoa e os crocodilos


● minha pessoa tem sido quase ●
● uma grande pessoa muito sabia e satisfeita ●
● porq descobriu q crocodilos ficam aqui ●
● com a boca aberta ao sol ●
● assim minha pessoa penetra nessa bocarra ●
● enquanto dorme o crocodilo ●
● vai comendo a garganta e tudo ao redor ●
● come os pulmões do crocodilo q dança ●
● se debatendo nessa morte indelicada ●
● tão doce quando minha pessoa devora ●
● a dor o coração o figado o baço os rins ●
● quando volta pra terminar a lingua ●
● abrir a boca do crocodilo e olhar o nilo ●
● q se estende como uma escrava gasta ●
● diz minha pessoa querendo gargalhar ●
● inda mastigando a longa lingua ●
● do crocodilo devorado por dentro e alem ●
● porq logo logo minha pessoa devora ●
● a boa carne do cu e do rabo do crocodilo ●
● a palma das mãos braços e coxas da carne ●
● deliciosa do crocodilo e vai dormir ●
● satisfeita e tão saciada q vai sonhar ●
● como se minha pessoa fosse nessa noite ●
● nada menos q o farao e sua vasta familia ●
● mas minha pessoa tem medo desse ●
● sono porq essa fome é a mesma do farao ●
● a mesma fome da familia do farao ●
● q enquanto minha pessoa dorme ●
● com a boca aberta pode entrar pela boca ●
● de minha pessoa devorando tudo ●
● adentro ate o fim como fazem os faraos ●
● com escravos usados demais depois dos dias ●
● q de repente desabam sem nada por dentro ●
● sem nada por fora devorados sem saber ●
● quando nem por quem foi devorado o escravo ●
● aos pedaços sem nada dentro sem nada fora ●
● enquanto la distante o farao e sua familia ●
● passeiam tomando vinho de tamaras ●
● enquanto escravos esmagam carnes ●
● porq não ha hora q faça cessar o vinho ●
● de tamaras nem as carnes esmagadas ●
● pro farao e sua grande familia ●
● se não fossem as carnes e o vinho ●
● o farao e a familia faminta viria flanando ●
● pra boca de minha pessoa devorar ●
● de minha pessoa pulmões coração e baço ●
● figado rins o vasto rabo e o cu de minha ●
● pessoa enquanto minha pessoa dorme ●
● mas isso haveria de ser menos q ninharia ●
● porq minha pessoa transfigurada andaria ●
● sempre entre crocodilos homens e escravos ●
● levando a todas as margens do velho nilo ●
● e alem a fome q so minha pessoa e a familia ●
● do farao conhece como a sublime alegria ●
● a vida q devoramos sem nos saciar a carne ●
● de crocodilos e escravos desde a garganta ●
● os pulmões o coração o figado o baço ●
● os rins vindos gulosos pra lingua ate ●
● a boa carne do cu e do rabo adentro e alem ●
● porq essa é a lei da nossa fome ●
*

Alberto Lins Caldas

RABISCANDO O QUÊ?


A história é longa, a frase curta:
à pomba da paz, quase morta,
amarga murta
ronca a fome, tudo se come
Inspiração é água em ebulição:
poemifica-se antes que morne
e à calmaria torne
água fria se nega à poesia
À sombra das mamoranas,
eis o que eu reescrevia...
naquele dia,
Émile.
____________

(Ildefonso de Sambaíba: 11.08.16)

Política no vácuo da luz



Extenuado
Sem, aéreo assim
Enfim
Que nem...

Pois
Talvez
Ao léu da tez

Quem
Rubor, valor
Estrutura do ideal

Sal no caracol
De sol bemol

Casas que eu prometi
Ali, lá, acolá,
E aqui?

Prosa do destino
Choro dos ateus.

Anderson Carlos Maciel

EVOCAÇÃO PASTORAL DO MENESTREL


Surges nu, de arrabil, no tempo azul e alto,
quando as grandes palavras parecem coroar-se
de beleza alcançada: vai em meio a caçada:
soltaram-se os falcões e gerifaltos,
que enfiam através sonoras torres
levantadas no ar a sopro de bucinas!
Glorioso no ademã dos teus cantares,
teu corpo evolve
róseos meandros
em volumes brandos, arredondando
as juntas, à sombra
das romãs - e exorta a claridade
dos cimos: ei-lo subindo
além dos gerifaltos!
Por um momento, aborrecendo olhares doces
as peripécias gárrulas da faina, as bem-talhadas
ondulam por teu corpo, e aos tornozelos teus
colando os lábios de amaranto,
suspiram bálbuces.
Logo, porém, sentido em meio às coxas
um úmido pulsar de línguas tesas
precipitam-se quentes, intumescendo
enquanto correm,
à Marcha Triunfal dos Cem Faisões!
Eis que te abates sobre os seios do instrumento,
chorando por extenso a luz que foge ao corpo
e galga, heróica, junto aos clangores da vitória,
as grandes nuvens suseranas e estivais,
as Nuvens - mirante de fanfarras sobre um corpo gaio!

- Décio Pignatari (Rumo a nausicaa/Noigandres 1 - 1952), em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 67.

viajante,
já naufraguei em tantas almas,
oceanos turbulentos,
eu e meu barquinho à vela
naqueles mares estranhos
onde sempre me atirava
acreditando nos mapas, nas cartas náuticas do ser.
.
viajante,
já naufraguei em tantos outros,
acreditando que o amor me apontaria
as ilhas,
os portos seguros,
que os ventos seriam a brisa salgada
batendo-me no rosto nu, e
óh!, como foram tantas
as tempestades
.
viajantes,
tantos naufragaram
nesse mar de mim,
aturdidos pelas calmarias, as águas sem vento,
aturdidos pelos furacões, as águas em furor
selvagem,
mares de mim que eu desconhecia,
que dirá os pobres viajantes?
.
e eu aqui, sendo barco e oceano,
desejos de pôr-me ao largo
e receber o viajante
.
conhecer e ser conhecido,
enxergar e ser enxergado,
amar e ser amado,
.
navegar e ser navegado,
.
essa coisa rara, esse mistério,
do ser barco e de ser mar,
.
ah, vida!
.
como navegar
é preciso!
.
******
.
(eduardo ramos)


Discurso direto


Sói
Ser
E se?

Não?
Pois, entabularia planilhas
De ilhas de genuínas
Alcalinas
Fantasias.

Ao vento a coragem
Ao mar o coração.
À luz minha fé
Ao léu meu princípio:

Entabular conversação

Idiomas em riste
Flores invernais
Ao chão.

Anderson Carlos Maciel

MALDIÇÃO DE DUAS LETRAS


Estou convencido que as letras "P" e "M" representam gravíssima ameaça à democracia brasileira.
Senão vejamos:
Polícia Militar.
Qual a sigla?
PM.
Ministério Público.
Qual a sigla?
MP.
Medida Provisória.
Qual a sigla?
MP!!
A bem de nossa vida institucional, proponho a supressão das referidas letras ou a definição de que sua utilização só pode se dar em situações muito especiais.
Puta Merda.

Ihhh... Qual a sigla?

Gilberto Maringoni

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discurso direto


Sói 
Ser
E se?

Não?
Pois, entabularia planilhas
De ilhas de genuínas
Alcalinas
Fantasias.

Ao vento a coragem
Ao mar o coração.
À luz minha fé
Ao léu meu princípio:

Entabular conversação

Idiomas em riste
Flores invernais
Ao chão.

Anderson Carlos Maciel

quinta-feira, 22 de setembro de 2016


fique em silêncio
como um ramo seco
vem aí
uma primavera
a te florir


bárbara lia

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Últimas notícias


(Ou promessa do transcendente poema)

Assassinado-
Assinado

Enluarado
Parvo brado

Mar revolto?
Ou filho douto
Das tuas ondas
Sou?

Onde
Onda
Nozes
Nós

Aedos mais
Quintais a regar
Com ar, mar e salgar
Asas
Das pragas, bestas,
Frestas
Ledas

O marketing da esmeralda
Que não passa
Passa, - cão insólito.
- quartzo verde -
Poluto olhar por telas
Fusão de seus cristais
Do outrora líquido "marketing"
Que escorria:
Cuidados seus.
Em telas, nas telas,
Sim tuas telas...
Nas vielas
Eu

Do amanhecer
Pessoal, festival, róseo
Quartzo rosa
Olho-de-tigre
Em mais moças
                virgens

Sacrificá-las à
Lira de Apolo.

Anderson Carlos Maciel

Incansável semântica



Entre
Sopros, entre-sopros
Sôfregos, trôpegos
Sempre
Sonhos
Torpes, força, tela, toda
Tinta
Todo lodo nela
Cavalga leda poesia
Alforria do verbo
Em tempos astrais
- pontuá-lo -
Sem mais estilos
Apenas
Poemas
Emblemas ainda
"Soi même"
Sem regras
Helenas

Canções no meu
Laço.

Anderson Carlos Maciel

Da redação



Uma onda
De subjetividades
Calam-se

Temporais...
Sinais
Poluição.

Expressão
Sinistro sociológico:
Imersão inconsciente
No mel da dor do outro.

Sonhos mais,
Cristalinos

Alevinos, - poemas
Salgam-se,
- caracóis!

Seus sóis
Roubados.

Levo-os, luzidios,
Ao bolso do ego.

E saio da cena.

Anderson Carlos Maciel

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Expressão lilás


A canção
Subsiste
Razão

Pois
Profissional
Laboral labor valor
Estudo
Tés

Navego superfícies
Mergulho em mares
               - técnica!

Iluminismo
Em sílabas-tinta
Finda, - poesia -

Desvelo da admiração
Chavão a chavão

Artistas na pista

Infinito
Que - bonito -
Derrete na boca:
Leitura estável
Sr. Atlas,

Sou
Oceano alado.

Anderson Carlos Maciel



para mim
Expediente e meta (redação)


Fui
O que rui

Sou
As águas doces
Salgadas
Pedras
Nas enseadas
Burguesas

Não comento os quadros
Caros
Que as crianças não
                 comerão.

Arte
É processo
Ao avesso
Da canção

Apenas admiro
Teus passos que fitam
Meus passos, excitam,
E evitam
- escassos-
Laços das prisões.

O que aprendo, ensino
E o que ensino aprendo a aprender
A ensinar
Sem tocar o sagrado
- não tocar -
Jejuar
O teu mar que não quer
                           contemplar
O meu mar

Infinitamente
Presente

Estrelas verdadeiras,
Sóis
Ao teu luar

Use nos cabelos
Meu desvelo
Cintilar-idioma
              e não

                   "língua"

Anderson Carlos Maciel

domingo, 18 de setembro de 2016

'Brasilha’ da fantasia


*
Ninguém acorda com culpa na Ilha da fantasia,
ninguém se sente culpado na ilha da fantasia
e não ser de todo inocente
é sempre muito normal na ilha da fantasia.
Na ilha da fantasia não interessam
os olhos inocentes dos filhos antes de dormir
os filhos apontados na rua
o que dirão os colegas na escola
e as crianças dos vizinhos.
Não fere arde envergonha
o olhar confuso das crianças
ao ler o que sai nos jornais.
Vamos ao que importa na ilha da fantasia:
a gratificação a estabilidade
a comissão as garantias
o adicional os benefícios
os 18% que me cabem
se não vou aos jornais
e conto da parte que não te cabia mas você levou
na ilha da fantasia.
Eu te filmei eu te gravei
eu sei de tudo da tua
deliciosa doce vida,
portanto, morreremos de mãos dadas
abraçados
atirando uns nos outros
até que nos esqueça a fugacidade da imprensa
e nos confortem as mãos amigas da Justiça
o entendimento do digníssimo desembargador
a interpretação da lei no tribunal superior.
Venha a meu gabinete
passe em meu escritório
vá com sua mulher lá em casa
daremos uma festa
faremos um jantar
quem sabe outros agitos até de manhã.
Ninguém é culpado na ilha da fantasia
ninguém deve nada
à mulher que espera o ônibus
e não combina bolsa e sapato,
à outra que atravessa a BR
longe da passarela,
nenhuma explicação merece o homem cansado
que sai tão cedo e volta tão tarde
levando no rosto
o resto de sonho desfeito.
Todos deitam sem culpa na ilha da fantasia
depois que se apagam as luzes lilases das festas
que se esvaziam as travessas
sossegam-se as bebedeiras
calam-se os vômitos
encerra-se o pó
e a paz reina envergonhada.
*
André Giusti

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já é setembro, né?
então disfarça
e pega no jardim do prédio
alguma flor que te sirva no cabelo.
mas vá logo
antes que venha outubro
e apareça o síndico milico reformado
explicar com detalhes que
a convenção do condomínio
proíbe o roubo de flores.
depois, vista aquela saia laranja
de estrelas lilases e círculos vermelhos
que te mostra acima dos joelhos,
e ao piano
toca Chopin para animar e alegrar os anjos.
eles andam cansados e tristes por causa desse mundo
indiferente às crianças palestinas mortas na guerra
às crianças judias mortas pela estupidez das bombas
às crianças mortas pela insensatez da fome na África
às crianças sírias que aparecem mortas na praia
às crianças pobres abandonadas pelos pais miseráveis
às crianças ricas abandonadas pelos pais ocupados demais.
os anjos estão desiludidos com o mundo indiferente às crianças às crianças às crianças
e aos velhos espancados pelos filhos e netos queridos
às mulheres tratadas aos chutes
aos homens sozinhos sem sonhos
sem mulheres que os entendam chorar.
colha flores, toque piano,
porque a morte, quem sabe, em algum ano
poderá vir na primavera,
mas enquanto ela não vier
haverá chance pro síndico
para todas as crianças
e todos os velhos
mulheres
caras solitários,
afinal, é setembro, e sempre dá
mais vontade de viver e ter esperança.
*
andré giusti, 2015

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"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
.

- Caio Fernando Abreu, em “Os Dragões não conhecem o paraíso”, São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

Ode à ex-musa Medusa.


Ela
Bela
Bocca chiusa

Medusa
Reluza, confusa
E Perseu
Que a usa

Para obtusa
Confusa
E lusa
Selvageria

Apolo
Que a castiga
Lira
Toca, afina, rota
Sinfonia

Enciclopédias
Da chavão
Biografia

Medusa, musa, sina
Da poesia.

Poetas que não leram
Mitologia.

Anderson Carlos Maciel

Trecho de Voando pela Noite (até de manhã )

“O drive-in não passava de um terreno baldio e escuro, cheio
de árvores. O proprietário, sem dinheiro para construir um motel,
ergueu uma porção de boxes separados por muros de cimento, onde
se estacionava para namorar. O preço era uma bagatela e dava para
ficar ali até o amanhecer. A única exigência era entrar com os faróis
baixos para não iluminar nenhum par de peitos no carro dos outros.
– Onde fica a tela desse negócio? – Evelyn perguntou.
– Na sua imaginação. – ele respondeu, sem acreditar que ela
fosse tão inocente.
– Mas e o filme? – ela insistiu.
– É o mesmo. Há milhões de anos.
– As pessoas vêm aqui para transar?
– Não necessariamente.
– Mas num lugar escuro como esse, um homem e uma mulher
não ficam dentro do carro apenas conversando e escutando rádio...
– Provavelmente não.
– Então o que a gente vai fazer?
– Conversar e escutar o rádio. O que você acha?
– Não acho legal.
– Então, só resta uma opção.
Ela sorriu. Chegou mais perto dele. Evelyn tinha os seios lindos.
Talvez mais lindos que os de Maggie.”
André Giusti

Expediente noturno da loucura



Ela
Vomita sóis
Como quem

Compete
E não compete
Por luz

Alcaçuz
Pus e doutrina mítica
Da poesia

Entre
Sonatas de imagens
Vastas

Concretiza-se
A alforria
Da forma

Bocetas criativas
Esquivos gozos
Enluam-se em seus
Cobertores
Protetores
Farrapos
De putarias-paroxias

Clímax volta a ser clímax
E não biologia

Um estalo dos dedos
E a hipnose termina

Regride o ego das luzes Curitibanas
Em insana,
Paisana
Epopeia
Nas veias virgens das
Metáforas selvagens
Dos caminhos agrestes

Formas
Normas das estrebarias
Das idéias

Eu

Laçando metáforas
Deparo-me com estéticas
Em escadarias
Cujos baldes-de-água-fria

Meu amor
Não me trariam

Nem mesmo em delírios

Da mais fina
Insegurança tardia.

Anderson Carlos Maciel

Livros da minha vida 10 - As Forças Desarmadas


*

Por ocasião de feriado de sete de setembro, postei no feici búqui que meu desfile do Dia da Independência seria com trabalhadoras, campoenses, médicos, professoras e por aí vai.
Nada contra os militares, mas até hoje não entendo porque, sendo a pátria e sua independência (?) lugar e conquista de todos, porque, então, apenas um estrato da sociedade deve estar representado na marcha comemorativa?
Bem, mas não é sobre isso que quero falar.
Encerrei o post daquele dia avisando que meu desfile seria o das forças desarmadas, e é aí que entra o que tenho a dizer.
As Forças Desarmadas foi um dos belos livros de contos que li em minha vida, ainda bem jovem, mas o curioso é que só cheguei a essa conclusão algum tempo atrás, já bem mais pros 50 do que pros 40.
O autor, Júlio César Monteiro Masrtins, apresentava um pequeno programa sobre livros e literaturea na primeira rádio em que trabalhei em minha vida profissional, ainda como estagiário, a Estácio FM.
Em uns dez ou doze contos (não lembro bem, não tenho mais o livro na estante, apenas em minha lembrança), Júlio César apresenta uma visão crítica da juventude da época - primeira metade da década de 80 -, perdida nas drogas e no tal vazio existencial da falta do que e de quem amar, oprimida pela agonizante ditadura militar e já escravizada pela indústria cultural.
Acho que o livro tem um cheiro de Caio Fernando Abreu, grande influência da época. Se por acaso você aceitar minha dica e se interessar em ler, diga depois se achou o mesmo.
Júlio César Monteiro Martins escreveu mais livros. Lembro que li outros dois, mas me passaram em branco.
Fiquei anos sem ter e procurar notícias dele. E sem lembrar de As Forças Desarmadas.
Até que, há não muito tempo, soube pela internet que fora viver na Itália ainda nos anos 90, me parece.
E que falecera em 2014.
Impactado pela notícia, o nome do livro pulou automaticamente de velhos fichários mentais, trazendo pela mão seu conteúdo e seu valor.
Saiu do ostracismo de minha memória de meia idade para desfilar na avenida chamada Livros da Minha Vida.
*
André Giusti

sábado, 17 de setembro de 2016

 “Eu precisaria de alguém que me ‘ouvisse’, mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Porque é assim que eu ouço as palavras ligadas a esta história. Cada uma tem seu significado sangrento, no estranho ‘Sertão’ que venho edificando aos poucos, ao som castanho e rouco do meu canto, como um Castelo de pedra erguido a partir do Sertão real.”
.
- Ariano Suassuna, em “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 80.


Do universo à jabuticaba

"Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores do outono, o banho da cachoeira, mãos que seguram, o abraço do filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse: ‘Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida’."
.

- Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 144.
Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
.
- Gregório de Matos, in 'Obra poética'. (Org.) James Amado. (Prep. e notas) Emanuel Araújo. (Apres. ) Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.


ando pensando


Carne insossa das horas


Em esperas
Pelas eras
Aos cosmos
Volto o olhar

Se o mar...
Se o mar...

Um poema, numa concha
Ilusão de um perfume
                nos cabelos teus.

Todo o dinheiro do mundo
Todo o lirismo da lira
Todo o sal da água

Emparedado pelo sublime
Dispo-me das convenções
Gargalho sob um pato
No ato
De cozinhá-lo ao forno
Próximo
À velha TV rósea
A que ela gostava de assistir.

Fui vegetariano
Fui anglicano
Malandro
Puto
E burguês

Olhos que me olham
Não fitam o coração
Aspiram
Redenção

E canção

Que ora canto
Com meu pranto

A todos vocês:
Eros cruel frecheiro.

Anderson Carlos Maciel
20:07 (Há 1 hora)

para mim
Canção para ninar as filhas

A armadilha
Do inconsciente
O sonho

O pesadelo é latente
Meninas
Das calhas
Fornalhas
E quadrilhas

Labirintos do que sinto
Sonatas
Revelam...

Sois
Filhas

Que aquelas quadrilhas
Elencam ao poder

Sua geração do silêncio
Enxuga o Estado
Catártico
Do devir da lua
Tua
Nua
Branca, lança, tanta
Encanta
Quebranta
E mira

A lira

A lua mira a lira
E vira
Foto, fóton, e simetria
Vazia ao som do vento
No momento
Em que a caneta
- abandonada -

Contempla a tecla
Fonada e invernada
Traduzindo a cantata
Da caneta calada
Na calada da noite

O romance entre o poeta
E o papel em branco
Cujos egos mancos
Não se dão bem

Eu por minha vez,
-filhas!
Conto as maravilhas
Das terras helenas
Que as lindas filhas
Filhas eternas
- pequenas -
Aprendem

Poema adjacente
Que aquela gente
Vê nascer.

Flui a cascata
Flui a sonata
Poesia

Maresia em latitude sul
Luzes Curitibanas
Filhas bacanas
Da lira de Apolo
No solo onde imolo
Dolo
E Culpa
Da razão

De estar só
Pai de vocês

Sonhei com tua educação
Mas não pude cumprir
- o pão -
Não enluarei, serão
Festa de quinze anos
Bonecas que não te dei

Teus livros
Meu crivo
Filhas...
São cartilhas
Da maravilha dos contos
Das ilhas
Do bar no Mercês

Para onde um anjo voa
Quando o sino soa
E dormindo
Filhas e filhos
Seu brilho, - no olhar
Pálpebras cansadas
Pela leitura pesada
Do sonho que sonhei.

Morfeu cobre a frota
Dos carros dos sóis
Os anzóis que preparei
Para findar a épica epopeia
A ideia do que escreverei
A vocês
Filhas e filhos
Cujos brilhos e brilhos
Economizam a pilhas
Dos brinquedos das filhas

Para as quais volverei
O álcool acabou
Filhas - e seu cheiro
Aroma de poleiro burguês
Quando notaram
Não dormiram
Vocês.

Seus sonhos,
Metaforizadas matilhas
Filhas
e filhos

De Apolo

Lira, infira, fira e insira
Caipira global
Um feliz final

Era uma vez...

Anderson Carlos Maciel


A Ronda Noturna


Prisão de lágrima



Escorre
Em uma página
Frágil
Carinhosa

Formosa rosa
Que prosa
Subsumiu.

Em silêncio
Reverenciou o que amou
Nas terras do bem Brasil

Em sonho
Transportou
A sonhos risonhos, carícias
Verbais
Astrais quais infantes
Da lira
Caipira paranaense
Que imita
O riso do ciso
Impreciso
Do cordel global

Não sou
O ser

Pois
Quem foi
Sonhou, - que o beijo
Sim aquele beijo

Ao pé da tua inteligência
Era a sapiência
Da saliva economizada
Transportada em brasas
Ao solo da tua
Toda tua
Indiferença oligárquica
Semiótica
Do meu poder
Em te amar, - tão só

Se tinha dó,
Se eu era só, - o pó
Bemol

Hoje o sol
Não brilhou você

Desencante-me, carinho
Este versinho
Ao vento mansinho
Do meu pelo marinho
Enleve tua lágrima

Ao rodapé da página
A enluarar frágil
Senil poema
Ao fim dos dias
Quando a espera, - e a agonia
Arrefecerem teu vazio
Da minha língua
À míngua
Conjugando tua rosa
pela prosa
Da novela
Sentinela ao alto
Infausto
Do nosso verdadeiro
Sonho a dois:

O amor.

Anderson Carlos Maciel

Meu ipê- amarelo


Dentro da noite veloz


Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

- Ferreira Gullar, em "Dentro da noite veloz", 1975.

Homenagem a Carolina