sexta-feira, 31 de maio de 2019

GOTAS DE SILÊNCIO




Imerso na quietude da solidão
abraço a dureza do silêncio
para nele me encontrar,
para nele me perdoar

Oblívio sentimento de paz
serenidade incapaz
de ser contida nas palavras

Esquecimento dos momentos
de um tempo sem memória
escorraçados pela alma
fustigada
num virar costas ao passado
arrojado
e lamentado
pela perda
inominável

Sôfrego
saboreio o silêncio
gota a gota
inebriante
num adormecer dos sentidos
que me lava as cicatrizes
gravadas no meu ser

No silêncio das palavras
ouço o eco do teu querer

João Carlos Esteves    

CARTA (cidades de Minas Gerais)



Prezado amigo TEÓFILO OTONI.
Nesta VIÇOSA manhã de primavera,  de onde se contempla um BELO HORIZONTE, um CAMPO BELO e MONTES CLAROS, e, ainda,  neste ambiente FORMOSO de nossa terra, quando se pode contemplar também, pela madrugada, a ESTRELA DALVA, escrevo-lhe para colocá-lo a par dos últimos acontecimentos.

No âmbito familiar, a nossa prima LEOPOLDINA, ESPERA FELIZ dar a LUZ a seu primeiro filho que, se for homem, se chamará ASTOLFO DUTRA e JANUÁRIA, se mulher. Para cuidar do rebento, ela contará com abnegação da sua governanta MOEMA. Mas, enquanto ela aguarda seu bebê, lava roupa tranqüilamente nas BICAS existentes em um RIO NOVO, afluente do RIO ACIMA, que passa pelas terras de DONA EUZÉBIA, naquele LARANJAL, perto da CAPELA NOVA, onde, na hora do RECREIO, a meninada sobe na PONTE NOVA, para pescar LAMBARI e PIAU e soltar PAPAGAIOS.

A prima NATÉRCIA comprou uma casa na rua ANTONIO DIAS, perto da casa do ANTÔNIO CARLOS. Você já sabia? Orou a Jesus de NAZARENO em agradecimento, ajoelhada aos pés da SANTA CRUZ DO ESCALVADO no alto do MONTE SIÃO, que fica lá para as bandas da GALILEIA, às margens do MAR DE ESPANHA.

Lembra-se daquelas pedras da tia MARIA DA CRUZ que você queria comprar? Ela resolveu vendê-las, menos a PEDRA AZUL, porque ela diz ser a mais bonita e valiosa.

Quanto aos aspectos sociais e religiosos, temos novidades.

Na próxima semana, o CÔNEGO MARINHO, da diocese de VOLTA GRANDE, vai fazer a Festa de SÃO TOMAS DE AQUINO. Se você quiser aparecer será um grande prazer. A nossa prima VIRGINIA é quem será a responsável pelo evento.  Vai ter missa celebrada pelo reverendo local, CÔNEGO JOÃO PIO, em honra ao Santíssimo SACRAMENTO. De manhã, o bispo DOM SILVÉRIO irá crismar as crianças. Depois haverá um show com o Agnaldo TIMOTEO e também com as TRÊS MARIAS. Em seguida, a Banda Musical SANTA BÁRBARA, sob a regência do maestro BUENO BRANDÃO, executará o GUARANI, de Carlos Gomes. Depois o Barão de COROMANDEL fará a saudação ao aniversariante. A festa era  para ser no mês que vem, mas todas as datas do cantor estavam preenchidas. As primas SERICITA e AZURITA vão fazer a comida. Como prato principal teremos PERDIGÃO e PERDIZES à milanesa e PATOS DE MINAS ao molho pardo. De sobremesa teremos compota de MANGA, tendo sido escolhida a UBÁ, por ser mais saborosa, pêssego em CALDAS e, ainda,  licor de PEQUI.

À noite, haverá um baile no OLIVEIRA Country Clube, ao som da orquestra do maestro MATIPÓ, tendo como principais solistas os renomados músicos IBIRACI ao saxofone e NEPOMUCENO ao trompete. Será uma boa ocasião para os convidados exercitarem os seus PASSOS ao ritmo de boleros e rumbas.

Mudando de assunto, na fazenda, fizemos algumas reformas.

O CURRAL DE DENTRO estava com o telhado estragado, com problemas no madeirame e tivemos que trocar as vigas. Desta vez colocamos CANDEIAS, por ser madeira de muita durabilidade, todas compradas do CORONEL XAVIER CHAVES. Com a sobra da madeira ainda reformei a PORTEIRINHA que dá entrada para o quintal. Estou também reformando a CAPELINHA de SENHORA DE OLIVEIRA, para comemorar o aniversário de LIMA DUARTE. Na festa estarão presentes o CORONEL MURTA, o PRESIDENTE WENCESLAU, o JOÃO MONLEVADE, o CORONEL FABRICIANO, o CAPITÃO ENÉAS, o BARÃO DE COCAIS, o Barão de BARBACENA, e várias outras personalidades. Dizem que até o TIRADENTES pretende comparecer. Mas ele ficou meio aborrecido, porque queria que a festa fosse em SÃO JOÃO DEL REI. Só não poderá comparecer o VISCONDE DO RIO BRANCO porque ele está em CAMPANHA política. Iremos cobrar um valor simbólico como entrada, para reverter em benefício dos desabrigados da chuva, mas apenas uma MOEDA de PRATA.

Vou lhe dar outra grande notícia.

Perto do ENGENHO NOVO, naqueles barrancos cheios de FORMIGA, um empregado nosso descobriu MINAS NOVAS de OURO BRANCO, OURO PRETO, ESMERALDAS e TOPAZIO, portanto será uma NOVA ERA e uma BOA ESPERANÇA para todos nós. Infelizmente, por causa dessa riqueza, a violência já começou a aparecer na região. Um homem de TRÊS CORAÇÕES foi morto por um garimpeiro, usando uma faca de TRÊS PONTAS, porque ele havia descoberto uma enorme TURMALINA e também uma pedra de RUBIM, de menor tamanho, mas muito valiosa.

Na área do desenvolvimento, a dona CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, proprietária da usina açucareira de URUCÂNIA, quer aumentar a fábrica e incrementar a produção de açúcar, mas para isso precisará de mais energia elétrica. Assim, tem um projeto de construir uma usina hidroelétrica aproveitando as quedas dágua da CACHOEIRA DO CAMPO, formada pelo rio PIRANGA, mas o senhor RESENDE COSTA, que é o chefe do IBAMA na região, quer embargar a obra, alegando impacto ambiental.

Falarei agora da nossa justiça.

Chegou um JUIZ DE FORA, chamado EWBANK DA CÂMARA, para ocupar o lugar de BIAS FORTES, que terminou o seu mandato. Mas o CONSELHEIRO LAFAYETE, acompanhado de RAUL SOARES, pediu ao GOVERNADOR VALADARES para interceder junto ao PRESIDENTE BERNARDES para efetivar naquele cargo o SENADOR FIRMINO, que muito fez por nós. Ele foi DESCOBERTO ainda novo, tanto que sequer usava sapatos, usava ALPERCATAS, quando estava na companhia do CORONEL PACHECO, na famosa LAGOA DA PRATA, depois daquela GOIABEIRA e daquela árvore de JANAÚBA da fazenda POUSO ALEGRE, onde tem aquela VARGINHA, às margens do RIBEIRÃO VERMELHO.

Ele se tornou um homem sério e honesto, sendo de muito valor para a nossa causa.

Quanto à lagoa a que me referi, dizem que ela contém  ÁGUA BOA, tanto que o Aleijadinho teria se curado dos seus males tomando banho nela, por isso passou a ser chamada de LAGOA SANTA. Dizem que um cego também lavou os olhos naquelas águas e voltou a enxergar, mas ele atribuiu esse milagre a SANTA LUZIA.

Outro dia encontrei o BETIM, a MARIA DA FÉ e a ALMENARA nadando nas ÁGUAS FORMOSAS da LAGOA DOURADA, e lhe mandaram lembranças. A lagoa fica nas terras de PEDRO LEOPOLDO, onde ainda tem mais SETE LAGOAS.

Avisam que estarão viajando para ALÉM PARAÍBA no próximo feriado de SANTOS DUMONT.

Também lhe mandam um grande abraço  o DIOGO VASCONCELOS e o JACINTO.

Agora, vou lhe contar as fofocas.

O FRANCISCO SÁ teve um desentendimento com o JOÃO PINHEIRO por causa daquela LAJINHA que faz o SALTO DA DIVISA das terras dos dois fazendeiros com as terras da MARIANA, às margens do Rio PARACATU, porque dizem que ali tem muita MALACACHETA.

A coisa andou quente. Um deles, não sei qual, queria agredir o outro com um MACHADO. Ainda bem que o coronel MATEUS LEME chegou na hora e evitou o PATROCÍNIO de uma morte desnecessária, e, ainda, promoveu uma NOVA UNIÃO dos dois.

Os índios AIMORÉS tentaram invadir a reserva dos índios MAXACALIS, armados de ARCOS e flechas, por causa daquela reserva de JEQUITIBÁ existente no PÂNTANO DE SANTA CRUZ, mas, felizmente, foram contidos pelas tropas da Polícia FLORESTAL comandadas pelo MAJOR EZEQUIEL, evitando um massacre  sem precedentes. Os presos foram levados para o QUARTEL GERAL.

E tem mais.

O ELOI MENDES me contou, confidencialmente, que o Dr. CARLOS CHAGAS está de caso com a CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS. A CÁSSIA, que é muito linguaruda, contou para a mulher dele, dona CRISTINA, que, imediatamente queria a separação e iria mudar-se para DIAMANTINA. Mas a dona MERCÊS, que é muito benquista por todos, conseguiu convencê-la a não tomar essa medida EXTREMA, e lhe propôs que aguardasse a chegada do seu primo, MARTINHO CAMPOS, que é um homem de mãos de FERROS, para ouvir o seu conselho. Ele achou que seria uma missão muito ESPINOSA, mas, ainda assim, aceitou o desafio. Sendo ele também um homem ponderado, sugeriu ao marido que pedisse PERDÕES à sua esposa, na presença do PADRE PARAÍSO, e assim foi feito e tudo teve um BONFIM.

Depois desta CONTAGEM dos fatos, damos graças a SENHORA DOS REMÉDIOS, SANTO ANTÔNIO DO AMPARO,SÃO JOÃO NEPOMUCENO, SANTO ANTÔNIO DO GRAMA e SÃO TIAGO, que têm sempre protegido a nossa família, para que nossas lutas tenham sempre um BOM SUCESSO.UM PASSA TEMPO onde NASCEU  DORPN

Terminando, receba um forte abraço do seu primo, MATIAS BARBOSA.

Uriel Mortimer
Sociólogo - DRT/MG 896
Especialista em Pedagogia Empresarial - PUC Minas
Especializando em Política de Assistência Social  - SEDESE/MG e Faculdade Pitágoras


FADO…




“…de quem eu gosto…”
…as garrafas vazias
estão fartas de saber!...

eduardo roseira
Gaia - Capital do Vinho do Porto - Portugal

quarta-feira, 29 de maio de 2019

A AMIZADE


Marcos Loures  


Cavalos,
Galopes
Chopes
Promessas
Bares
Luares
Cachaças
Falácias.
Galáxias
Distantes.
Planetas
E risos...
Amigo, a noite é plena
A lua acena
Promessas tantas,
Morenas, santas,
Putas, vadias,
Vazias noites
Açoites cortam.
Sonhos se abortam
Mas a amizade continua...

ENCHENTE



No ano de 1946, uma terrível enchente afetou a bacia do rio Muriaé, a começar por Mirai o que mobilizou toda a população, no sentido de ajudar a s famílias afetadas. Já naquela época, funcionava na cidade uma pequena confecção de lingerie e, para cumprir sua função social, a dona da mesma começou a procurar os armazéns de secos e molhados, pedindo sacos de estopa para que, deles fossem confeccionadas peças de roupa para os flagelados.

Uma semana depois, com o nível das águas já chegando à normalidade, uma senhora bateu às portas da confecção e houve o seguinte diálogo:

-Bom dia, dona. Estou aqui para devolver a calcinha que a senhora fez e mandou distribuir pra gente.

-Mas o que houve? A senhora não gostou do modelo? Ela ficou apertada?

-Nada disso! Ela até que ficou boa, mas a senhora me desculpe, eu não vou usar de jeito nenhum!

- Mas por quê?

-A senhora tá achando que eu sou quenga? Eu sou uma mulher de respeito e se eu usar uma coisa dessas meu marido me mata!

- Mas...

-Sem mais nem menos, dá uma olhadinha pra senhora ver se eu posso usar isso?

Quando a dona da confecção viu, ficou toda envergonhada...

Nos fundos da calcinha estava escrito, resquícios dos sacos de estopas empregados como matéria prima, os seguintes dizeres:

RAÇÃO PARA PINTO...

Marcos Coutinho Loures

               

ACALANTO



Seu olhar tocou a alma
O calor dessa voz calma
Iluminando toda uma vida

Mágica!

Me vejo tão encantada
Serei sempre sua amada
Uma história a ser vivida

Marca!

Nada muda ou se perde
O que Deus no concede
É regar com prazer

Benção!

Puro ar respirar
Longo mar a caminhar
Amar por querer

Ação!

Alegria, cantemos
Eternamente seremos

Respira!

Para: Sérgio Matos-Poeta Escritor

De: Oneida Nascimento

NEURA


Ricardo Mainieri              



De vagar
estou vago.

Intenso
& só.

No tenso team
dos ocupados.

Em feedback
infindável.
_______________________________
inspirado num poema de Fábio Freire

OSSOS DO OFÍCIO


Renan Sanves   

Um poeta se repete
com a melhor das intenções.

Pena que isso não dê
congratulações.

"EX/PLICAÇÃO"



não há um
sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída

Haroldo de Campos: "Ex/plicação" In "A Educação dos Cinco Sentidos"; Editora Brasiliense, São Paulo, 1985.

A MUSA


Eliane Triska       

Ó, dize-me, poeta, mesmo ausente,
De mim, que mal conheço, se te inspiro?
Se é da dor, o que sei, o que respiro
Deixa-me aqui, calada, simplesmente.


O meu sorriso é triste, tu não sentes?
Um curto rio não chega vivo à margem.
Sem dar contas a Deus, sigo em viagem
Meio luz, meio sombra entre as videntes!


Os meus cabelos louros que exaltas
E brilham fio a fio, devagarinho,
São vinhas... luzes soltas das ribaltas,


Me anunciam, à noite, como a musa.
Mas, se te beijo terna e de mansinho,
Ela diz: Vai-te embora ! És a intrusa!

Canoas,/RS

APRENDIZES DO AMANHÃ



NALDOVELHO

É lindo perceber
que cada coisa tem sua história,
cada pedra, cada pétala, cada espinho,
cada trecho do caminho,
cada carinho ofertado,
cada lágrima derramada,
qualquer perda, qualquer sombra,
todo e qualquer sonho,
qualquer que seja a ilusão.

Outro dia tentei perceber
um pássaro em sua plenitude.
Sua plumagem, camuflagem,
sua história, seus pendores,
a beleza do seu canto,
e o seu voo solitário
em busca da imensidão.
Foi aí que percebi
quão frágil era a
nossa pretensão de ser.

Ontem de tardinha,
lá pras bandas do desterro,
numa conversa reservada
com certo trecho da estrada,
fiquei sabendo dos sonhos
de um imponente rochedo
que há milênios existe por lá,
e que ele almeja um dia
ser poeira de estrela,
semente de vida em outra esfera
e por lá se perpetuar.

E as águas daquele rio
que murmuram a todo instante
mistérios em linguagem de anjo
e trazem histórias sementes
de todo o lugar que há...
Quantas coisas preciosas,
poesia que transcende o poema,
pois ainda que tivéssemos mil vidas,
não conseguiríamos registrar.
Foi aí que percebi
quão pretensiosos ainda somos,
aprendizes do amanhã.




LEMGABA


LEMGABA

Um dia quando estava no mictório
Ao ver um homem forte e avantajado,
Gilberto, meu amigo e meu cunhado,
Pensou ser o que vira um ilusório

Efeito do conhaque desgraçado
Que tinha com platéia e auditório
Numa aposta; bebido e se fartado,
E se mostrando quase que simplório

Ao ver um camarada que urinando
Mostrava tatuagem bem mal feita
Num pênis gigantesco, pois foi quando

Ao ver que estava escrito ali LEMGABA
O que isso quer dizer? Pergunta feita:
“LEMBRANÇAS LÁ DE PINDAMONHANGABA...”


Marcos Loures

"versos, que são?"



- Para Péricles Cavalcanti

dentro do ver-
so, habita um ser
que a tudo ser-
ve: vem viver...

esse prazer
dentro do ver-
so, deve haver!
o que fazer

dessa ilusão
a se instalar
no coração?

de volta ao lar
- linda emoção -
versos, que são?

Adriano Nunes

Insônia



No barulho da noite
foge meu sono
para praias distantes.
Restam meus pensamentos
de paraísos
antes
das tentativas de dormir.
A insônia,
que promete demônios,
faz-me rir,
os apagam as figuras
do mar azul e de um céu
que abriga uma lua
em gomos
quando meus olhos
lentamente se fecham.
Nas internas pálpebras,
quebram-se vidros,
surgem giros caleidoscópicos,
duas telas interligadas,
vários tons de cores
em viagens ancoradas,
meus trópicos.
Na cama meu corpo é inerte,
tento sair dele, mas ele
me compromete.
Se abro os olhos olho pro teto,
ali, de mim tão perto,
um mihão de possibilidades.
Posso escrever, pintar,
desenhar.
Posso sofrer e morrer,
casar, amar, correr.
Posso me recriar
inventar, cantar,
sumir,
posso o filme que fizer,
passar.
E também de olhos fechados,
o que quiser.
Quero viver,
quero sentir.
E a insônia?
Quero não mais dormir!

Paulo Henrique Frias  

::: às seis :::




escrevo com força.
não quero a tortura dos pensamentos conexos...
a primeira letra teima em ficar maiúscula.
sinto raiva.
não gosto de maiúsculas!
escrever é mais que desabafo.
é o ar.
é vício.
adrenalina exposta e contida.
já estou ficando lógica...
expulso.
expurgo.
quero a catarse,
a exaustão do transe da escrita.
porque a tarde cai como o pano.
- e encerra-se o ato -
a hora dos suicidas,
dos loucos.
a hora dos anjos...
e do novo.
e de novo:
todos os dias a tarde vai......
e luzes de estrelas mortas pontuam o céu.
buzinas e carros,
e pessoas nos carros.
mais rápido.
mais pálido.
cachorro late.
a vidraça separa ruídos.
aranha presa no teto,
tece...
só tece.
quero só tecer no independer do tempo.
pinto o rosto.
máscaras caminham ao longe,
iguais e sempre.
ninguém me vê.
descalço as cores,
fico mais pura.
já é possível sumir no negro.
esfacela o furor...
o que resta é véu.
posso parar.
alma limpa!

paula quinaud

( A despeito dos supermercados)





Anáspidas que foram extintas
transitam, copulam, descansam,fedem
na existência líquida que
Netuno lhes permite.

Desmancham-se em respingos
ante ao Pelicano flerte:
menos por sagacidade
que egoísmo - salvo que
ressuscitarão eternamente.

Do cubo mágico resolvido de seus destroços,
esbarram - espécie de mandinga -
na ponta mais afiada
do Tridente de Netuno.
(Minha barba por fazer e minha eterna semi nudez
me elevaram a vice-Rei do Mar).

Quando o indigesto de uma Galeaspeda
(presente do anjo de outro
peixe pré histórico)
engasgara a garganta da minha imaginação
tais alucinações, recorrentemente,
pedem-me água.

Negaria deveras não fosse
esta espinha maldita,
este onipresente sufoco,
o que, a despeito do supermercado*
aniquila minha fome diária.

* exceto o californiano aonde Ginsberg observou Walt Whitman,sem filhos,
perguntando à Mercearia quem matou as costeletas de porco.

Renato Silva      



O mundo da linguagem me desfaz

Por entre o mundo mudo da memória
Esquecida ao acaso no asfalto
A agulha se move ágil entre dedos

Sento-me ao sol
Sou mácula que arde

Forte haste rija
Que o tempo vai brunindo



Paulo Prates Jr 


Eu vivo povoada de gente
e alegres e festeiros sentimentos, mas, às vezes, preciso ficar à sós com meus tormentos,
alimentando pensamentos que curam
e, nessas horas, quando me procuram,
não entendem meu isolamento. Lamento,
mas eu só invento
esses poemas assim,
quando abandono tudo e todos, alienada em mim.



 Mariana Valle    

RELIGIÃO




A poesia é a minha
sacrossanta escritura,
cruzada evangélica
que deflagro deste púlpito.

Só ela me salvará
da goela do abismo.
Já não digo como ponte
que me religue
a algum distante céu,
mas como pinguela mesmo,
elo entre alheios eus.

(by Valdo Motta, com V, em Bundo e outros poemas, Editora da Unicamp, 1996)

domingo, 26 de maio de 2019

POLARIDADES


Marilice Costi 

Do meu novo livro, tão bipolares as relações...



um risco de romper
no ato do soltar
um risco de sofrer
no ato do amarrar
um risco de chorar
no ato do beijar
um risco de amar
no ato do abraçar

o desamor
um machucar
o conquistar
um dormitar
o acolher
num bem-estar
grudado em si
num esticar de trilho
guardado amor ainda
colado em mim
imprime em letras góticas
de escancarada dor
um viver nós de atilho

cada vez que fujo, chegas mais
e na vez que chego, longe vais

Febre e o deslizamento da terra


Ah, a bipolaridade poética de um domingo frio e cinza... poemas de amor e raiva numa tarde só...

Febre e o deslizamento da terra

Cada vez mais tenho febre, cada vez mais a criança no meu peito
Incendeia-se.
Acho que tenho mesmo uma fornalha no meu peito.
Hoje tenho febre de novo, e o passado volta quente
Como a toalha de um barbeiro ensandecido.
O lençol da cama, branco e encharcado como uma mortalha
De soldado, o suor virado sangue no delírio,
Os lírios todos colhidos e jogados
Para fora do espírito.

Estou com febre.
Dêem-me um termômetro, por favor.

A febre... A febre... a lebre...

O deslizamento da terra cai morro abaixo, do cérebro aos pés,
Misturando miragens e experiências, sonhos e pesadelos, tudo na mesma
Panela quente que cozinha o corpo por dentro.

As bonecas, videogames, casacos, vestidos, blusas e gravatas,
Utensílios de cozinha, bíblias baratas e caras,
Artigos de umbanda, gritos enlameados, coitos afogados,
Abraços não terminados e abraços terminados, telefones celulares,
CDs e discos de vinil, esperanças de uma favela mais bonita,
Avisos da Defesa Civil, sorrisos de escárnio e santinhos de vereadores,
A voz abafada dos pastores, que também morreram soterrados e afogados,
Tudo nesta maldita lama que mais parece o excremento de um sadismo geológico.

A lebre ─ a lebre! ─ salta para os olhos com um buraco escorrendo vida vermelha e quente pela grama,
O cão latindo e a perseguindo com o instinto nos dentes,
O cão, o fiel e imbecil amigo da estupidez chamada homem,
O gato que afia as unhas no poste perto da minha janela
Anunciando a música dos bebês do inferno...

Por que minha casa ainda permanece de pé?
Por que só as rachaduras gigantescas na parede vermelha do fundo?
Por que só as horrendas cicatrizes no coração da parede?

Não há bombeiros para apagar o fogo do peito?
Não. Não há. E mesmo que houvesse, todos os telefones foram
Depredados por cadáveres, pela terra e pelas pedras que não pensam.

E logo virão os ratos e os cachorros retornando aos lobos do passado,
Logo virão os homens e as mulheres insensíveis, tornados monstros
Pelos ratos e cachorros em suas fomes, raiva e falta de compaixão,
Logo virão os saques dos corações, das casas e dos caminhões de doação,
Logo virão os novos deslizamentos e os novos horrores,
Logo virão os corpos sussurando silêncios,
Logo virão às carícias desesperadas das mães,
Logo virão as imagens absurdamente tangíveis e que ensinam lágrimas aos pais,
Logo virão os agradecimentos estúpidos ao deus que salvou apenas um menino,
Logo virá a lebre ferida e ensangüentada,
Logo virá a febre
Ainda mais forte.

Por favor, dêem-me um termômetro,
Dêem-me um termômetro
Que eu quero furar meus olhos.

               
André De Castro

ISTO É UM SONETO DE AMOR:


      


Simples soneto de amor

Falar de amor, amor, é proibido
Principalmente num soneto, amor
Principalmente se rimar com dor...
Seria tal soneto descabido!

É preciso esquecer o envelhecido
É preciso esquecer o sol se pôr
É preciso esquecer a bela flor
E não querer nenhum velho sentido...

Porque falar do amor do mesmo jeito
Usando sempre o céu, a lua, a estrela
Sonhando a eternidade, amor, em tê-la

Seria ultraje, amor, seria ofensa
Assim, amor, só digo esta sentença:
O seu amor, eu simplesmente aceito...

André De Castro 

filhos da imperfeição





passo a mão em meu rosto e limpo névoas do cotidiano....
vejo uma foto, eu eu meu irmão no jardim da luz,
sentados, em tenra infancia, de mãos dadas...
adormeço no berço com nenês de dentes afiados,
sofro mordiscos prá esquecer as dores da perfeição...

nos arredores do desajuste,
vou ao encontro dos escombros da infância,
dou uma volta em carrinhos quebrados,
em circos dos arredores,
jogo fora, meu saco de bonecas de pano,
brinco de casinha com maria manca,
amiguinha de infancia,
canto, oh canta cigana, com Terezinha de Jesus
filha da perfeição...

entro em telas de filmes clássicos antigos,
no filme Ébrio...
bebo nos botecos da esquina
com Vicente Celestino, e juntos cantamos coração materno...

me fantasio de ébria das afilições e dos desatinos..
encontro maria lantejoulas, me empeteco de balangandãs,
e juntas vamos encontrar outras filhas da imperfeição,
maria manca, junca bebe-bebe e zé ampulheta...
formamos assim, o cordão...colorido, esgarçado...

The end

Luiza Silva Oliveira     


Se em algum momento estive triste, mas na poesia a tristeza persiste,
isso não é problema,
é um poema.
Se em algum momento fui tarada,
ou, pelo contrário, muito reservada, mas, nas rimas, até gozei,
isso não é saliência, indecência, pornografia,
é poesia.
Se em algum instante fui uma amante tresloucada, romântica, apaixonada,
nos meus versos,
no meu poetar,
isso não é necessariamente o meu universo particular.
Sorria, isso é poesia!
               
Mariana Valle 

UM POEMA PARA DOMINGO...




“Não estejas longe de mim um só dia,
Porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.
Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando a casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebrante tua silhueta na areia
Ai que não voem tuas pálpebras na ausência
Não te vás por um minuto, bem-amado,
Porque nesse momento terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.”

Pablo Neruda

O eco dos loucos


 ... O eco dos loucos...
... Miragens estranhas...
... Ruídos baixos...
... Eles não sabem...
... Respirar com os olhos...
... Voltar ao mar...
... Correr, fugir...
... Para quem são as palmas...
... Cada conversa...
... Consigo ouvir...
... Tudo começa...
... No desamor...
... Sofrer dos males da alma...
... Tu és o teu destino...
... Eu e tu calçados...
... Gostar de olhar a merda...
... Eu sei que há paixão nas palavras...
... Amanhã será...
... A pureza de nos sentirmos...
... Um sinal de igual em tudo...
... Vamos olhar o futuro...
... Nas chamas um sentido...
... Escrever cartas e deitar no lixo...
... Movimentos descontínuos...
... Acções divergentes...
... Actos complicados, diplomáticos, urgentes...
... Pungentes razões para existir somente...

Octávio Santana

                O Silêncio das Palavras

santana1972.blogspot.com

Sobre o caminho




Nada.

Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não coleciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.
               

De Eugénio de Andrade

CHIAROSCURO



Bárbara Lia

Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.

Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.

Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.

Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.

Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.

Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.

O eco da flauta aos puros adormece.

in O sorriso de Leonardo / 2004


DELÍRIOS DO VERBO ou Arapucas de pegar Manoel





ao poeta Manoel de Barros

1
As manhãs me imensam
como em Ungaretti;
arroios me gorjeiam de esplendor
lá, onde as árvores se garçam
e o sol brinca de arvorecer.

2
A palavra cansanção tem ardimentos
e o menino descalço nem aí
pois lhe escuda a voz dos passarinhos;
esse moleque arteiro estica o sol
carrega o cenho do peru no grito.

3
Bicho danado é maracujá:
engole a voz das ateiras;
as mangueiras roubam o sol do chão
e o pé de mastruz
enverdece os ossos da avó.

4
Mosca de manga
se agiganta no amarelo
como Van Gogh;
borboletas adoçam a aridez dos cactos
e o sanhaçu assusta os mamoeiros.

5
Nas mãos do mar
a linha do horizonte tem cerol
lá, a pipa do céu cai mais depressa
quando as margens da tarde me anoitecem.

               
Wender Montenegro 

Não desista nunca



Martha Medeiros

Se você não acreditar naquilo que você é capaz de fazer;
quem vai acreditar?
Dizer que existe uma idade certa,
tempo certo, local certo, não existe.
Somente quando você estiver convicto daquilo que deseja
e esta convicção fizer parte integrante do processo.
Mas quando ocorre este momento?
Imagine uma ponte sobre um rio.
Você está em uma margem e seu objetivo está na outra.
Você pensa, raciocina,
acredita que a sua realização está lá.
Você atravessa a ponte,
abraça o objetivo e não olha para traz.
Estoura a sua ponte.
Pode ser que tenha até dificuldades,
mas se você realmente acredita que pode realizá-lo,
não perca tempo: vá e faça.
Agora, se você simplesmente não quer ficar nesta margem
e não tem um objetivo definido, no momento do estouro,
você estará exatamente no meio da ponte.
Já viu alguém no meio de uma ponte na hora da explosão...
eu também não.

Realmente não é simples.
Quando você visualizar o seu objetivo
e criar a coragem suficiente em realizá-lo,
tenha em mente que para a sua concretização,
alguns detalhes deverão estar bem claros na cabeça ou seja,
facilidades e dificuldades aparecerão,
mas se realmente acredita que pode fazer,
os incômodos desaparecerão.
É só não se desesperar.
Seja no mínimo um pouco paciente.
Pois é, as diferenças básicas entre os três momentos são:

ESTOURAR A PONTE ANTES DE ATRAVESSÁ-LA

Você começou a sonhar... sonhar... sonhar!
De repente, sentiu-se estimulado
a querer ou gozar de algo melhor.
Entretanto, dentro de sua avaliação,
começa a perceber que fatores que fogem ao seu controle,
não permitem que suas habilidades e competências o realize.
Pergunto, vale a pena insistir?
Para ficar mais tangível, imaginemos que uma pessoa
sonhe viver ou visitar a lua, mas as perspectivas do agora
não o permitem, adianta ficar sonhando ou traçando este objetivo?
Para que você não fique no mundo da lua, meio maluquinho,
estoure a sua ponte antes de atravessá-la, rompa com este objetivo
e parta para outros sonhos!

ESTOURAR A PONTE NO MOMENTO DE ATRAVESSÁ-LA

Acredito que tenha ficado claro, mas cabe o reforço.
O fato de você desejar não ficar
numa situação desagradável é válido,
entretanto você não saber o que é mais agradável, já não o é!
Ou seja, a falta de perspectiva nem explorada em pensamento,
não leva a lugar algum.
Você tem a obrigação consciencional de criar alternativas melhores.
Nos dias de hoje, não podemos nos dar ao luxo de sair sem destino.
O nosso futuro não é responsabilidade de outrem,
nós é que construímos o nosso futuro.
Sem desculpas, pode começar...

ESTOURAR A PONTE DEPOIS DE ATRAVESSÁ-LA.

No início comentei sobre as pessoas que realizaram o sucesso
e outras que não tiveram a mesma sorte.
Em primeiro lugar, acredito que temos de definir o que é sucesso.
Sou pelas coisas simples,
sucesso é gostar do que faz e fazer o que gosta.
Tentamos nos moldar em uma cultura de determinados valores,
onde o sucesso é medido pela posse de coisas,
mas é muito mesquinho você ter e não desfrutar
daquilo que realmente deseja.
As pessoas que realizaram a oportunidade
de estourar as suas pontes de modo adequado e consistente,
não só imaginaram, atravessaram
e encontraram os objetivos do outro lado.
Os objetivos a serem perseguidos, foram construídos
dentro de uma visão clara do que se queria alcançar,
em tempo suficiente, de modo adequado,
através de fatores pessoais ou impessoais,
facilitadores ou não, enfim o grau de comprometimento
utilizado para a sua concretização.

A visão sem ação, não passa de um sonho.
A ação sem visão é só um passatempo.
A visão com ação pode mudar o mundo.


PENSAMENTO


Alvaro Posselt 

Meu pensamento
é como o voo dos pássaros
não deixa pegadas

Mas se por acaso
deixar uma trilha no caminho
é sinal que deixei de pensar

“OPERÁRIOS E CAMPONESES NÃO COMPREENDEM O QUE VOCÊ DIZ”




“Precisamos da arte para uns poucos e do livro para uns poucos? Sim ou não? Sim e não, ao mesmo tempo. Se um livro se destina a uns poucos e não tem outra função, ele é desnecessário. Mas se um livro é endereçado a uns poucos como a energia da central elétrica de Volkhovstroi se dirige a umas poucas estações transmissoras, para que essas subestações distribuam pelas lâmpadas elétricas a energia reelaborada, então sim, semelhante livro é necessário. Tais livros são endereçados a uns poucos mas não consumidores e sim produtores. São sementes e esqueletos da arte de massas”.
-Maiakóvsky-

"The Corporation"


Assisti,  a um documentário MUITO bacana, FASCINANTE: "The Corporation". Corte seco, lúcido, certeiro & embasado, sobre o direito, em lei, que as corporações capitalistas criaram de serem entendidas como "pessoas", pessoas "jurídicas", pessoas com direitos de "pessoa civil", mas tratamento DEVERAS diferenciado. O documentário mostra o modo de agir das corporações no convívio social, a maneira de atuar a fim de alcançar o seu objetivo (que nada mais é do que a obtenção de mais & mais lucro), já que as próprias empresas cavaram o poder de serem identificadas como "pessoas". E a conclusão --- a única possível --- é a de que as corporações agem como "sociopatas", visto o modo como operam as suas ações: irresponsavelmente, e diabolicamente (tentando a imagem de "bom moço"), cagando para tudo que não seja: dinheiro. BRILHANTE! Para quem ainda não viu, fica a SUPER dica!

Paulo Sabino

Repto poético




Subverto
roteiros
& paisagens decifradas.

Converto
a verve erudita
em versos acessíveis.

Persigo adeptos
aptos ou ineptos
mas de coração...

Ricardo Mainieri


 [Até as obras de arte que parecem ser meramente estéticas carregam consigo a potência política porque são expressões de um determinado tempo, de um determinado espaço, resultado de vivências específicas, mas principalmente porque suscitam nas pessoas observadoras o desejo de reflexão. Só de responder intimamente à pergunta “gosto ou não gosto?” é um exercício grandioso de pensamento, diante da sociedade domesticada em que estamos inseridos. Nesse aspecto, a arte se revela como necessidade social, é ofício. É tão necessário ter artista na sociedade, para estimular a reflexão geral, quanto é necessário ter gari nas ruas. Sem eles, as cidades são engolidas pelo lixo.]

*Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política. Doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.


SALMO



No cálice santo de minhas mãos em prece
eu elevaria a hóstia branca de teus seios,
como dois estandartes ao amor profano.
Poderia morrer trespassado em seguida
pois já teria provado das delícias do eleitos.
No ostensório de meus lábios contritos,
espremeria teus mamilos tenros
como num ato penitencial:
perdoai-me, ó profetas de Jerusalém,
mas como o Rei Davi, que foi o ungido do Senhor,
eu tenho um fraco pelos cântaros do sagrado,
ainda mais se estiverem repletos
de dor, delírio e beleza sufocada.

Otto Leopoldo Winck

MEMORABILIA



Olhar o rio e compreender que o tempo
é um rio que flui e não retorna, e, se retorna,
será, num tempo outro, um outro rio.
Olhar o rio e compreender também
que, se as suas águas as nossas mágoas
levam, é nesse rio, além da foz,
além do mar, além da noite extrema,
que as nossas lágrimas se transfiguram,
iluminadas não das mágoas mortas,
que destas já não há nenhum remédio,
mas daquelas que ainda surgirão,
pois se há fluir, se há correr, se há viver,
sempre haverá sofrer, e pena, e mágoa.

Olhar o rio e compreender que o tempo
é o rio sem fim em que nos batizamos,
irremediavelmente naufragados,
todo dia, toda hora, a todo instante.
Olhar o rio e aceitar que não podemos
nos agarrar aos ramos e às raízes
da encosta – e que os barrancos nem sequer
a fantasia da estabilidade
nos podem, despencando, transmitir.

Olhar o rio e compreender enfim
que, se a sina de todo rio é o mar,
o fim de toda gente é navegar,
ai, sem cartas, sem ferros, sem correntes,
em direção do insofismável mar,
na imensa noite que da noite outra
cai, silente, solene, generosa.

Olhar o rio e, mais que compreender,
reconhecer que o fim, no fim de tudo,
é se deixar levar por essas águas,
sem reservas, sem medos, sem paixões,
até que, num rio outro, além da noite última,
possamos vir à tona, como arcanjos,
nas águas límpidas do não-ser.

Otto Leopoldo Winck

DEMIURGO



Frágil artífice
que te fazes e refazes
na feitura de tua trama,
feiticeiro que esqueceu a fórmula,
saltimbanco abandonado pela trupe,
palhaço de quem ninguém mais ri:
onde estão as argolas, as imagens, os castelos
que, habilíssimo, suspendias no abismo
ante os nossos olhos pasmos
de criança?

Perderam o encanto.

Pobre artista,
se nem tudo o que reluz é ouro,
nem tudo o que se cria é vida.

Otto Leopoldo Winck

sábado, 25 de maio de 2019

NSTANTE




Somos seres de barro
e – inúteis e tristes – sorrimos à passagem do tempo.
Crianças que ainda ontem corriam
achando o mundo mais um brinquedo,
hoje vemos os dias correrem vazios
como um trem que perdemos...
Somos seres de barro e de vento
(quem amanhã lembrará de teus beijos?).
É é madrugada. E na estação deserta
um vento frio sussurra o silêncio...

Otto Leopoldo Winck

(De 'Flor de barro', meu primeiro livro.)


Chove. Chove sempre. Desde sempre choveu. E para sempre choverá. Não haverá um só dia sem chuva. É o que sinto quando, retido neste café, contemplo a chuva oblíqua atrás das vidraças embaçadas. Mas hoje não tem Fernando Pessoa. Hoje não tem mais nada. Só essa chuva que cai lá fora e repercute, monocórdia, aqui dentro. Chove. Chove. Chove. E para sempre choverá.

OLW

SALMO



No cálice santo de minhas mãos em prece
eu elevaria a hóstia branca de teus seios,
como dois estandartes ao amor profano.
Poderia morrer trespassado em seguida
pois já teria provado das delícias do eleitos.
No ostensório de meus lábios contritos,
espremeria teus mamilos tenros
como num ato penitencial:
perdoai-me, ó profetas de Jerusalém,
mas como o Rei Davi, que foi o ungido do Senhor,
eu tenho um fraco pelos cântaros do sagrado,
ainda mais se estiverem repletos
de dor, delírio e beleza sufocada.

Otto Leopoldo Winck

INSCRITURAS




Inscrevo estrelas
na córnea dos teus olhos
insones. Carruagens
de fogo nos desnudam.
A vida ora é azul
como brisa,
ora escura,
como blues.
Se corto meu pulso
o que escorre é a nostalgia
de uma era em que tudo era crível.
Todas as estradas do mundo
são insuficientes
para o anelo de meus pés descalços.
Acorda, olha lá fora:
é dia mas uma lua de sangue,
enorme,
derrama seu mênstruo
sobre a cidade.
Inscrevo cometas
na sola dos teus pés cansados.
Depois os apago
com o sal de minhas lágrimas.
A vida é qualquer coisa assim
entre um conto
e um assombro.

Otto Leopoldo Winck

MAIS UM BLUES



um blues na cabeça
um aperto no peito
um fogo na alma

este é meu destino
vagar pelas ruas
sem rumo
sem rima
sem metro

só pra ver se te vejo
num bar
num beco
ou na sombra
das cortinas
de tua janela

Otto Leopoldo Winck

SIMBOLISMO



Recolhi todas as estrelas
nas minhas mãos em concha
e aqui as deponho
como instrumentos
de iniciação.

Com elas desenho um outro céu
num novo firmamento
com duas luas, dezoito sóis
e o cometa dos seus olhos
encabulados.

Neste outro mundo
tudo se corresponde: o eco da sua voz
é o pássaro que me acordou
de madrugada. Suas mãos
no regato
é o tempo que me segreda
mistérios novos.

Recolhi todas as estrelas
e descobri que tudo é símbolo:
cada astro, cada planeta
é o signo de um antiquíssimo alfabeto
que só agora decorei.

Recolhi todas as estrelas
e elas palpitam como peixes vivos
nas minhas mãos
maravilhadas.
E descobri que ser poeta
é saber lê-las
para você.

Otto Leopoldo Winck

A TUA AUSÊNCIA




A tua ausência repleta o vazio.
Cachos de inocência,
seio, aroma, pétala
invisível. Teu jeito não se vê,
na sombra se pressente.
A tua ausência é uma adaga
ou uma adega
abandonada.
Há poeira. Há quietude. Há penumbra.
Há expectativa também: é madrugada.
A tua ausência reelabora
a imatéria da memória.
Como um filme eu revejo
a lua, a praia, a rocha da enseada
e teu corpo
arfante,
em silêncio,
a se me entreabrir na areia.

A tua ausência é uma anêmona do mar.

Otto Leopoldo Winck

Azul da cor do azul




Estrelato corrosivo em que forjamos
Nosso paroxismo
E vertendo o ego traumas abaixo
Esteve redivivo.

Era adolescente a ser compreendido,
Nas páginas da história da psicanálise

Hoje eventos cíclicos de política,
Economia escada acima a ser
Catapultada, atômica, indesejada.

Nos brindamos com efêmeros sóis
De olhares, quiçá.

As mesmas colunas sociais,
A quem dirigíamos a causa da nossa
Revolta sem causa.

Quem manteve a lógica,
Quem manteve a razão
Quem manteve sexo,
Quem manteve-se no bar.
Quem saiu da lama,
Quem acaba de entrar.

Um fio, e uma linearidade
De esperança estoura o açúcar

Da pós-modernidade que ninguém

Entendeu, e estivera a negar.

Anderson Carlos Maciel

Brumadinho




Vale de lágrimas.
Vale de corpos.
Vale de lama.

Quem tem as mãos limpas?
Quem lavou as mãos?
Quanto vale a vida?

De um vale de dor
surge solidariedade,
surge amor.

Mulheres e homens de profissão limpa
com alma desprendida de si
e olhos para outros.

Não se escondem sob roupas limpas
e desculpas remendadas.
Mergulham na dor.
Mergulham na lama
com força e suavidade,
com fome e delicadeza.
Trabalham demais.
Trabalham quietos.
Trabalham com louvor.
Heróis do dia a dia.
Heróis nos desastres,
anunciados ou não.
Bombeiros!
Um grande abraço!
Um obrigado
de todo um País
que os acompanhou
chorou e rezou!
Deise Perin

Depois disso



Amar o que nos ama
Amar o estranho a falta
Amar por amar basta
E sempre será sempre
Tudo ou nada
Comédia
Drama

Amar o que for preciso
Amar o íntimo no mínimo
Amar além do instinto
Feito tiro no escuro
Depois disso
Uns riscos
Tudo

Adriano Nunes


Não te engrandeças por tua sabedoria. Pelo que sabemos deste mundo, sabemos só entre nós

(Pedro Martinez de Torres)




letras submersas
oceano que fala
palavras do mar

(Cristina Desouza)

Cotidiano




Seria talvez a tarde morna
por sobre a pele quieta
ou simplesmente
uma suave vontade de carinho?
Seria essa distância indesejada
ou nada disso
– apenas a constância
a incessante, intensa
a persistente instância do desejo
que se disfarça oculta
fantasia
e todo dia
mutante
se anuncia
nessa lembrança viva de teu beijo?
Dade Amorim

entropia.




Adentrei na desordem
na lenta desintegração
dos sistemas.

Sejam humanos
ou estruturais.

A oxidação
a ferrugem
e o caos
nos persegue.

Poderemos detê-los?

Ricardo Mainieri


A ansiedade,
nos faz cegos.
A ansiedade,
faz-nos tropegos.
A ansiedade,
traz-nos a visagem
na forma, que ela deseja e quer,
nunca do jeito, que ela verdadeiramente é...

josemir(aolongo...)

ABSTRATO EM LUZ E MEDO


Wender Montenegro   


O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Aquarela sem cor




Verte o vácuo
Surge o amor

Sonha o sonho,
Somos flor.

Urge pétala, urge vela, urge
Urge intervenção poética,

Na cabeça do lenhador.

Nem demais, nem de humanos
Busque teu buquê

E biscoitos e suflê,

E tanta caloria, e tanta aporia,
E tantos comensais,
Se serve a solidão servida

E a expressão garrida navega
Critérios estéticos,

Pra não dizer inteligência,
Pra não dizer outra vez o clichê.

Voo com asas de pedra, eu
A corrigir o momento plebeu

E anotar o telefonema a cobrar
Que me fizeram lá do alto do nada.

Se os excomungo a descer,
Se os bombardeio com tinta,
Infinda,

Se elevo meu ser.

ACM

segunda-feira, 13 de maio de 2019

UM BOM POEMA




um bom poema
já nasce sonhando
se é simples ou complicado o tema
se vem não se sabe como ou quando

nada disso importa
sendo bom, vale por um tesouro
mas é sempre galinha morta
o seu valor em ouro

um bom poema
já nasce feito à perfeição
é coisa de cinema
na tela da imaginação

um bom poema
pega a gente de susto
na emoção extrema
de um símbolo augusto

um bom poema
cai de maduro
do egossistema
para algum lugar do futuro

um bom poema
não precisa de explicação
e como não tem problema
da cabeça faz o coração

um bom poema
brilha sol em todos nós
amarelo como uma gema
branco como a paz em nossa voz

antonio thadeu wojciechowski
...