segunda-feira, 27 de abril de 2015

LEIS DE MERCADO


não foi de uma vez só
foi pouco a pouco

ela era tão viva
tão bonita
tão autêntica

espalhava por aí
abraços, carícias
sonhos, cores,
beijos, fantasias
e possibilidades

não suportavam
vê-la tão leve, tão solta
tão cheia de amor

no primeiro dia
cortaram-lhe as asas

no segundo
arrancaram-lhe as cordas vocais

no terceiro
quebraram seus braços e pernas

no quarto
perfuraram-lhe os tímpanos

no quinto
furaram-lhe os olhos

no sexto
invadiram seu território
mais íntimo e mais sagrado
:
o sexo

no sétimo descansaram

agora é tarde
a liberdade está morta

Poema de BIANCA VELOSO,

Poeta gaúcha, cresceu e vive em Florianópolis. Optometrista por profissão, mãe por opção, escritora por paixão. É também programadora da Rádio Comunitária Campeche. Apresenta o “Sábado Arrastão”, um programa de entrevistas com foco em música e poesia. BIANCA VELOSO está na 59ª postagem da série AS MULHERES POETAS...

Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=44306


FRONTEIRAS


Uma só boca
para falar pouco
Dois ouvidos para ouvir mais
Uma
só Alma
para viver
entre a paixão e o caixão


Poema de CLAUDIA ALENCAR ,

Poeta paulistana, atriz de teatro, cinema e tv. Já publicou dois livros de pesquisas teatrais e lecionou artes cênicas. Publicou 4 livros de poemas: Maga Neón (1988), Sutil Felicidade (2001), 50 Poemas escolhidos pelo autor (2004) e Refinamento e Loucura(2013) Foi militante da ALN e em 1972 foi presa e torturada. CLAUDIA ALENCAR está na 59ª postagem da série AS MULHERES POETAS...

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HUMANO


Tudo teima em se alterar
O de dentro quer sair
O de fora quer entrar
Mas se eu não me engano
Não seria isso
Ser humano ?



poema de NATÁLIA BARROS ,

Poeta  santista, cantora, atriz e jardineira. Foi contemplada pelo Proac 2011 de literatura. Fez parte do grupo Luni como cantora e integrou o XPTO como atriz. Já foi repórter da TV Cultura e publicou apenas um livro com seus poemas, mini contos e ilustrações: Caligrafias, em 2012. NATÁLIA BARROS está na 59ª postagem da série AS MULHERES POETAS...

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nasci agora e o meu amor nasceu
da tua pele feita madrugada.
quando eu escrevo é que a emoção morreu."
RR
“Vivo no mundo plantando
fruto bom de qualidade,
estudando a faculdade
de quem vive improvisando.
Fazendo plano e sonhando
depois que o dia adormece,
e quando a noite aparece
eu me torno mais profundo,
e faço versos pro mundo
pra ver se ele não me esquece.”


(João Paulo, mestre de maracatu em Pernambuco)

Carlos Sousa

lascas metálicas dum sol de lata
esparramadas pel'um céu que duvida ser azul
onde lagarta a tarde vai deixando o casulo dia
pelas aberturas dos horizontes como ventres cortados

a lâminas asas da noite que vem alada e suave.
-Pai, tenho dezenove anos, decidi que não vou morar mais com o senhor, vou me mudar para Florianópolis!
--Entendo, está na hora mesmo de ter suas responsabilidades, Florianópolis, belas praias: Jurerê, Canasvieiras, Lagoa da Conceição , gosto mesmo do Ribeirão da Ilha! Pode mudar , filha. Mas não alugue apartamento, arrume uma casinha que tenha jardim no sul da ilha, com dois quartos! Papai vai morar com você.

JD

DE OUVIDOS - MINICONTOS

domingo, 26 de abril de 2015

Ave Palavra


POESIA E PORRADA


para José De Paula Ramos Jr.

De tanto tomar porrada
pedrada cuspe tapão
engolir sapos
cobras e lagartos
mascar rancor
saco roto de pancadas
eu
insulto
calei.
E petrifiquei
recusa muda
feito coisa só res-
saca só sono só res-
sentimento.
Minha poesia nada rala
que de ira se irrigava
secou
esquecida e rara.
Só lia e nada
impactava.
Tédio recato tédio
nos versos alheios.
E eu repetia falas sagradas
estante estéril
mote metralha
no esforço
de relembrar
o inverso do bocejo:
“Estou farto do lirismo comedido”
“Fera para a beleza disso”
“Te escrevo fezes”
“Mas ainda não é poesia."
E agora que impera o chato
o gesto eco
o versinho pré-parnaso
o correto dito certo
pé no gesso
regrado
pé no saco
dispenso a pose polida
e disparo petardos
incertas pedras
chutes feridas
de pé descalço
arrisco sem meta
ou metro estimado.
Eu
insulto
revolto o gesto.
Solto minha rocha em versos
pedras-de-raio
estrelas cadentes
chuva de meteoros indigestos.
Porradas, vinde: voltei.

in Contracorrente (2000)


Frederico Barbosa 

ESCRITURAS


Com um canivete
escrevo teu nome
na minha epiderme.
E descubro, rubro:
meu Deus, como sangram
a escritura e o amor!

[olw]
Otto Leopoldo Winck


O escritor nunca escreve 'de si', ainda que o queira. Nem 'independente de si', pois atrás de sua pena há uma mão, e esta mão tem um corpo, e este corpo tem uma história. O escritor sempre escreve 'a partir de si', e este 'si' não é um 'eu', que é uma ilusão, mas um feixe de memórias, experiências e anseios cujas raízes mergulham no solo duro e obscuro da história social.

sábado, 25 de abril de 2015

Em uma Páscoa passada


Três caras pararam o automóvel ao meu lado e saíram gritando:
- Perdeu, playboy! Pode ir passando o dinheiro e o telefone!
Eu, num arroubo de coragem e tentativa de esquiva lírica respondi:
- Playboy nada, rapá! Sou poeta.
Então o porta voz da empreitada tranquilizou-se e disse:
- Ele é poeta, malandrage, então tá com sorte hoje, não vamos mais te roubar, vamo é te bater pra largar mão de ser besta. Onde já se viu poesia ser profissão agora... pra ter este telefoninho de merda...
Aí, possuído de uma dose extra do arroubo, respondi:
- Oras, se vocês são ladrões de profissão, por que não posso ser poeta? Além do mais os poetas também são ladrões, ladrões de fogo, nunca leram Rimbaud?
Respondeu ele:
- Ler não li, mas quando era piá vi todos os filmes dele... tá bom, então pela consideração à camaradage profissional não vamos mais te bater... passa o dinheiro e o telefone...


Ricardo Pozzo
Clandestino na cidade que cresci, por três dias andarilho a deriva, qual vagasse pelas areias das praias de Troia, com as tripas coladas às costas, tragando apenas do alumínio do amargor.
Quando já exausto, uns irmãos de sei lá qual igreja me oferecem a marmita do Jardim das Delícias.

Há tempos, eu e meus  desseseis  dentes, não éramos tão felizes.



Ricardo Pozzo

Exercício



O papel e o vício
Interstícios de teclas
Erras em frestas
Minha face emprestas
Ruas essas em festa
E nós em solidão

Não dançamos ciranda
Compomos rimas
Mais brandas

Contexto texto
Texto do contexto
O teu?

Tente
Soube, queira, crie
Amigo que vive, sobrevive, vegeta

Inércia não é inércia
É peripécia &
Cópia

Copiar & colar
Desagradar, provocar
Intervenção urbana, profana
Emergindo de mares de cópias
Estátua, tótem desprezado
Amá-lo & copiar

Amalgamar sentidos
Conferidos pruridos das luzes
Oráculos escondidos
No mesmo buraco-negro do ser

A luz no começo do túnel
Espera por você
Faça da cidade, trindade, cabeça, tronco
Membros retesados
Passados
Eternos
Inflados
Escondidos do teu ver
Os sonhos
Conquistamos espelhos de cristal
Que se quebram ao sol
De teu poder

Vôe livre teu surto psicótico
Loucura de amor
Sem sentar em frente à TV

Lágrimas secas jorrarão
O coração para o coração
Ventos hipnóticos parapsicológicos
Êxtase literário
Faço o mesmo salário
Conquistar meu bem-querer
Ciúme em te ver
Adoçar e querer

O café ao meu lado
Lado desprezado
Ataraxia do teu brado
Mestre consolado
Ignorando teu sofrer
Ele &
O outro
Espelhos de cristal
Sem mal, bem, abraços &
beijos - beijos! - beijos

Beija-flor lindo meu aparece
Sugando flor, sugando flor
Polinizando luzes iluministas
Epicuristas, feministas
Vaidade do ciúme
Doce ciúme - vitória?

Glória, revolução &
Oráculo desprezado
Pitonisa estribuchando de féu

Aedos, safos, Hesíodos, Homeros fraternos
Artemisas companheiras
Amazonas da esperança
Galhos & Galhos
Quebrados

Cuidem do beija-flor
Procurem o beija-flor no Google
Na floresta da informação
Amalgamadas paixões

Aedos Curitibanos
Elites não-profanas, puras fontes de água
Cristalina &
Para beber & copiar
Copiar &
Colar

Emergimos mocós garridos
Aedos sofridos
Eternos remidos

Cuidar & Sátiros.


Anderson Carlos Maciel
quando as águas me chegam e eu derramo
quando as velas se apagam e eu escureço
quando a vida se quebra e eu te chamo."

RR

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Se todos os amores voltassem como aves migrando de felicidade em felicidade alimentando-se do néctar não logrado, faríamos um trabalho monstro de projeção da consciência em planilhas sociológicas dos finais felizes


Anderson Carlos Maciel

Carta

Carta
Ritmo
Cadência
Forma 
Norma 
Torta 
Enlêvo
Translúcido do desejo 
Aqui, ali, lá, acolá 
Deixando entrever o caos 
Na lama aqui jaz todo o mal 
Cristo ressussitado nos queira bem 
Dinheiro a gente não tem 
Esperança ali é casamento arranjado 
Um amigo plantado 
Psicanálise do poder 
Solidão enfim. 
As letras sorriem para mim 
Os parágrafos se querem assim 
As frases e seu redundante fim 
Lêem-me 
Esperem, conduzam 
Mareiem
Dispam-se, prostituam-se a encontrar a luz 
A beleza burguesa da boa-família não nos interessa 
Nosso passado, nossa pressa 
Rezo a oração toda noite 
Do pai que não veio, do Cristo que se anuncia
Meus amigos bêbados, prostitutas, drogados 
Eu aqui deste Lado.

Anderson Carlos Maciel

você fabrica a noite mais sombria do ano
logo em seguida faz a coisa certa
você amontoa histórias
e acha que tem uma armadura
você espera que eu seja uma lareira
você ama
me tira de um lugar de gelo
sussurrando cantam as urticárias do corpo
me ensine de novo tente
dessa vez quero conseguir
volte pra cá
e essa noite branca vai embora de nós
não deixe a temperatura despencar
segure a minha mão
você ampara a frente fria
foi rápido e sem som
você comeu o violão
doeu
ou foi pior do que doeu?
não se sai do outro como se sai do banho


luiz Felipe leprevost

Cascata rubro-negra.


Você vem me buscar?
Se vir me buscar. 
Virá de preto, com aquela arma 
No peito Levar-me-á 
Lavar-me-á de lágrimas 
Sua mortalha de amor me envolve
E seu perfume de morte me anestesiou 
Acreditei no teu Criador
Teu silêncio é como o dele
Hoje virá
Mortalha de segredos de amor 
Cantando canções que não conheço 
Passearemos pelas escuras matas 
Uma Amazônia no meu peito 
Secando por falta de cuidados 
Nem sei respirar
Se tuas águas em mim não desaguar
Tua mortalha negra me cobrirá de afeto 
Teu nada é tudo, branco, surdo & mudo 
Copio-te, copio tudo 
Nessa terra nada se cria
Tudo se copia, e cola 
Se me espia a morte

Anderson Carlos Maciel

domingo, 12 de abril de 2015

Notas para viver no fim do mundo


contemplar está no templo
o ar no amargo
a ilha é o lugar
mais perto ?
a hora mais amarga
é a f lt ? de memóri ?
ou o que morre lentamente
lembrando o imenso
+++
o direito de sonhar
pós morte. a cabeça baixa
sobre os papéis.
+++
a sombra some aos pés
do grande homem.
a formiga corre.
+++
o caracol leva a casa
nas costas. na sua cabeça,
quantas ?

marilia kubota

sábado, 11 de abril de 2015

sinto falta
da falta
que eu sentia de você
e esta falta
da falta
que eu sentia de você
não é só falta (lacuna, vazio)
mas também falta:
falha, erro
– e este não tem mais concerto.

[olw]
Então,
de nossos
afetos, afagos e fatos,
não fica nada?
Nem um gesto,
um risco, um ricto, um rito
de luto,
um perfume que seja,
erradio,
na brisa de um novo mundo?

[olw]

BEAT


entre a santidade
e a insanidade
não há mais que um vão
pois é: passei o rubicão
sou agora
– totalmente perdido
e beatificado –
pura iluminação.

[olw]
Diga tudo logo agora.
Não engrole, não enrole,
não adie, não invente.
Meu coração não é de mola
mas segura esta encrenca.
Diga tudo logo agora,
na bucha, na cara dura.
Pegue então este poema
e saia por aquela porta.

[olw]

SACRILÉGIO


Me aproximo de ti
como quem se aproxima da polpa do silêncio:
com gestos pausados e passos medrosos.
O mundo lá fora é muito grande,
os caminhos tão numerosos e loucos
que será inevitável o adeus.
Quando chove, contemplo as vidraças
e vejo teu rosto: envelheceste – penso em dizer-te.
Mas as palavras frequentemente são duras
e resta sempre uma paisagem vazia
onde nossos sonhos deixaram sulcos.
Me aproximo de ti
como quem se aproxima do nome de Deus:
com gestos medidos e passos de dança.
Se eu gritasse, sei que ninguém me ouviria.
Se eu dançasse, o universo implodiria.
Estive dentro dos pesadelos dos homens
e descobri que tudo é sagrado.
Menos o medo que tenho de ti.

Otto Leopoldo Winck

OUTRO TIGRE



Tigre, diamante vertebrado,
nenhuma jaula poderá
reter, inflexível, a fria
fúria do teu olhar.
Nosso inútil terror de humanos
extrairá, do mundo em que vives,
a força líquida (flutíssona) de
músculos invisíveis.
Tigre, metáfora do tempo,
demônio cego da distância:
que ser, ferido de beleza,

te admira em segurança?



Eduardo Sterzi 

(Porto Alegre, 7 de junho de 1973) é um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro.Formou-se em Jornalismo pela UFRGS, tendo trabalhado no jornal Zero Hora. Mestre em Teoria da literatura (PUCRS) com dissertação sobre Murilo Mendes e doutorado em Teoria e História Literária na Unicamp, com tese sobre o livro Vita Nova, de Dante Alighieri. Atualmente reside em São Paulo, com a escritora e crítica de arte Veronica Stigger. Tem um bom conhecimento da língua Italiana. Esteve Roma durante o ano de 2009 para realizar estudos e pesquisas sobre critica literária.É um dos editores da revista de poesias Cacto e de K Jornal de Crítica. Entre suas publicações, os livros de poesia Prosa (2001) e O aleijão (2009) e os artigos Drummond e a poética da interrupção, no volume Drummond revisitado, organizado por Reynaldo Damazio (Universidade São Marcos), e O mito dissoluto, no número do 3 da Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani. Organizou o volume Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos.

OFERTA


Como a voz de muitas águas
você me acordou dentro da noite
e eu era como um velho navio naufragado.
O canto dos peregrinos
me chegava aos ouvidos
como uma recordação maldita.
E de repente eu desejei
que não houvesse sol – e nos tons sanguíneos
que antecedem o dia
tudo se revolvesse
e resolvesse.
(Tenho andado tanto
e cantado pouco – eu pensei.)
Por isso aqui estou
à tua porta
e trago como ex-voto
os veios que as bátegas da chuva
no meu rosto abriram
– e as minhas mãos cansadas
e vazias.

Otto Leopoldo Winck

OSA DE UM DOMINGO


A máquina do corpo, resumida nos sentidos,
dissolve a tempestade num cheiro de chuva:
recorda-me, qual súbita visagem
(sutilmente engastada
no tempo presente),
a dor de ser
sem ter
sido.
Nada
(nem cheiro
nem tempestade),
mesmo que reviva,
num segundo abençoado,
a sensação de uma outra vida (frágil
como a própria infância, dor secreta do poema),

pode, fugaz, dar-me a garantia de ter vivido.

Eduardo Sterzi
um dia o sol
vai parar de brilhar
mas teus olhos
dentro da minha escuridão
não

[olw]

DESAPARIÇÃO


Sereno, à flor do tempo,
recomponho o desejo
de estar vivo. Vejo
entrar pela janela
o mesmo sol de sempre;
finjo que não conheço
seu calor, sua máscara
amarela, hepática.
Sei mais da natureza
das nuvens, e do vácuo
entre as estrelas, negra
matéria; no entanto,
quando me entrego ao sol,
integro-me ao ser sol:
narciso mais que cego,

narciso cegaluz.

Eduardo Sterzi

PERMANÊNCIA


Entre o nada que se é
e o tudo que se quer,
quem sabe haja uma margem
onde eu possa inscrever meu nome
no branco de uma página
ou no mármore de uma lápide.
E entre um ponto e outro
deixar gravado -- por que não? --
minha marca
no coração que escondes
debaixo desses seios
que aos meus olhos são,
do espetáculo da vida,
a melhor tradução...

Otto Leopoldo Winck

O SENTIDO DA VIDA

Renato Vieira Ostrowski

A vida é feita de mão única
pra quem presta atenção
mas há quem goste
de andar na contramão
há os que adoram
ficar na sarjeta
implorando atenção
há os que param na calçada
só pra ver
a banda passar
tem até quem fura sinaleiro
e depois diz

que o mundo é que é encrenqueiro.
e entra a noite com sua música que
não faz rir e nem chorar
frutificando gomos em cascas
maduras e sem gosto
o movimento lento do movimento lento
entre a luz e a escuridão cansadas
de se cumprimentarem.
feliz por saber:
o que emociona é justamente esta
terra absoluta
sem braços para abraçar
ou pernas para fugir
de ninguém.


Alexandre França
Al Reiffer

I - otimista é aquele
que ao olhar para um céu ensolarado
enquanto cai um avião de passageiros
vê somente o sol
II – acreditar na humanidade
é desconhecer-se
III – pessimista é aquele
que ao olhar para o mar em tempestade
entende que o mar só é grandioso

porque nele há também Terror

mangas


1
no sempre eram so as mangas
todos com nacos de manga nos dentes
com suco de manga na carne
depois a plantação de tomates
o dia inteiro na plantação de tomates
sem vontade de comer tomates
apanhar tomates com dedos sujos
sem tocar nas folhas ao redor dos tomates
sem manchar o verde nem o vermelho
2
um arranca outro põe os tomates
como soldados dormindo na caixa
de plastico com raspas cruas de madeira
horas demais colhendo tomates
depois de engolir fatias de tomate
no meio e no fim pedaços de tomate
depois ha sempre as pulgas
as pragas o veneno borrifado assim
como quem lava a cara ou as feridas
3
coberto de terra os dedos racham
dos pes e das mãos e a virilha queima
mas ha sempre a doçura das mangas
roubadas assim no escuro
no centro infinito dos tomates
q se dividem como ratos e pulgas
todas essas caixas de tomate
não pagam as fatias de tomate
inda menos os nacos crus e cozidos
4
nem sei nem sabemos pra q tomates
esses oceanos de tomate essa agonia
de todos agarrados assim nos tomates
pois so se vive pra produzir tomates
pra colher pra fazer correr o negocio
essa coisa sem fim essa coisa doente
os senhores de tudo não fazem nada
mas tudo corre como uma roda de ratos
todos juntos pra chegar em nada
5
deve ser porisso q me desespero
vivo e gasto e perco a vida bem assim
so não sei porq nem pra q tudo isso
nem porq vivemos esperando
so esperando sem saber o q vira
talvez o fim da fome o fim do mundo
se não fossem essas mangas
tariamos todos feito essas pulgas
vivendo so so pra chupar nosso sangue

*
Alberto Lins Caldas

SONETO II


Mário Faustino (1930-1962)

Necessito de um ser, um ser humano
que me envolva de ser
contra o não-ser universal, arcano
impossível de ler
à luz da lua que ressarce o dano
cruel de adormecer
a sós, à noite, ao pé do desumano
desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
escuro e palpitante,
necessito de um ser dormente e lasso
contra meu ser arfante:
necessito de um ser sendo ao meu lado,
um ser profundo e aberto, um ser amado.


terça-feira, 7 de abril de 2015

A VIDA TEVE SUA CHANCE


Tanto sol ardendo em quem
procurava um bronzeado.
Tanta chuva, vento, e os
casulos: encasacados
buscando conforto, paz
entre paredes parentes.
O tempo faz sua parte.
As partes fazem do tempo
o que apetece, aparece
na avalanche, em andorinhas.
Êxtases ou acidentes
chamam a chama ardente
pronta sempre a aquecer,
também pronta a queimar
até o fogo perecer.
Quanta chance nas manhãs.
Carros, pessoas saindo.
Passeios, olhos, mãos,
corações em seu recreio
(sem esquecer o receio).
Entretanto há algo letal:
o tempo, que nada sabe
de sua capacidade
de envergar até o ferro.
Há o espaço também,
mas este viciou-se há muito.
Drogado, encolhe-se mais

e nos afasta uns dos outros.

Paulo Betancur

ACEITA


Aceita o não, a porta batendo,
o silêncio vindo no vento.
Aceita a dor sem heroísmo,
nenhuma trégua e a frustração.
Descansa da mágoa: não tiras pão.
Aceita, aceita, aceita morrer.
Morrer é difícil, é quase impossível.
Resistir é inútil ainda que
apaguem o sorriso, e o amor se afogue
no próprio suor de suas promessas.
Ausentes te mentem. Aceita perder


a ponde de onde cais na mais elementar
falta de recursos, aceita, minúsculo,
não te chamar Jó e topar o sacrifício
de perder (perdemos sempre)
a hora leve dos prazeres,
a impunidade das vantagens,
a sorte dos mais felizes.
Aceita, convém, aceita
na grandeza dos que morrem,
na gentileza dos que somem,
na compreensão dos que aceitam
o fim de seus dias doces,
o começo de tempos ásperos.
Aceita enterrar-te vivo
numa casa onde ao lado
explodem risos e brotam
fatos quase sempre belos.
Tu, feio, pobre, sujo,
se gritares impedirás
a passagem para o outro lado
que só te aceita em paz,
não admite resistência.
Aceita, sem aceitar,
te finge de morto e
desta forma surpreendente
– o derrotado que extrai
da derrota a sua seiva –
te ergues já morto e vais
para a frente sendo outro.
O que morreu é lembrança
só tua, que dele não lembram.
Eras a nulidade pro mundo.
Aceitaste o veredito,
cabeça pensa, olhos postos.
E esperaste o suspiro
que te depositou no olvido.
Morrendo, sim, desta forma
ninguém irá te enterrar.
E, só no próprio velório,
a luz modesta crescerá
e terás a vida toda
para então ressuscitar.
Ressurreição permanente
de quem construiu-se eterno
crescimento após o luto
de não lutar quanto tudo
o empurra para o solo.
Aceita, aceita, aceita
que te aceitará a vida,
essa orgulhosa. Essa víbora
de ti, de mim se alimenta.
E quando, saciada, ao sono
ela se entrega sem vigília,
tu que aceitaste o infortúnio
acordas enfim pra fortuna.


Paulo Bentancur

APNEIA

Paulo Bentancur

Ai daquele que não sente nada
diante da morte, flor bruta contra a indiferença.
Ai daquele que não sente nada
Diante da vida, pedra em floração.
Ai daquele que não sente nada,
nada, nada, nada, nada.
Assim se afoga em tanto
e sua cinza é sua brasa.





APONTAMENTOS DE PAISAGEM


Freme o tenso horizonte
Subjugado pelo peso de um céu
E tudo o que é meu cabe no bolso
Do casaco, sem contar
Esses óculos apontando para a frente.
O azul da abóbada, pleno,
Se esvai no leito indistinto
Da terra, ora verde, ora abóbora
E deste mirador, cimo da serra,
Cravo meus pés, fiando as horas.
O leito de terra se estende
Na distância, costurando a fusão
De ar, sua transparência lá no alto,
E as gretas, as rudes rochas dizimadas,
Feito água lá no longe deste chão.
É tudo o infinito sem alcance,
Mesmo este embaixo de meu corpo,
A sustentar peso e voo
Permitindo o alçar-se como um porto
Do qual parte o olhar – com ele roo
Toda a matéria que me separa.

Paulo Betancur




ARSENAL


Molho de chaves num bolso, no outro
Um pente Flamengo, a carteira,
A camisa escondida pelo casaco,
Lenço de papel pra rinite,
Que sempre se manifesta,
Faça frio ou calor.
E o Rivotril a acalmar
O ansioso expediente.
O fundamental é pouco
O arsenal dessas minúcias
Que levo no cotidiano,
Me equilibrando nas pernas.
Saio para o trabalho, as telas, as tintas,
Tomado desses objetos,
Minhas armas, meus remédios,
Como se eu fosse um armário,
Ser esgotado, abjeto –
Vir-se-á o tempo da leveza.
Fizeram disso o que foi
No passado um homem bom,
O suficiente, pacato. Com
Pouca coisa a levar.
A chave, a carteira, o revólver.

E bastava, e bastava.

Paulo Betancur

ARTE DE SANGRAR


Paulo Betancur

Torcido como corda sem a música,
o músculo retesa todo gesto,
força além do suportável.
Os poros expelem ouro, refletido,
liquefeito, suor que acaricia
a pele já cansada deste dia
recém chegado em seu meio.


ASCENSÃO E QUEDA DO DIÁLOGO

Paulo Bentancur

Um homem liga a tevê, o rádio, escuta o vozerio da rua.
Esse homem veste roupas que não combinam.
Aperta as mãos, sorri, goza o frio enervante da dúvida
em saber qualquer coisa que o conduza para algo
que se possa chamar de um lugar.
Nem precisa ser um destino.
Um homem que não conhecemos e que, cansado de si,
entende e aceita que não o verem não significa o fim
nem o começo de uma história, e portanto ele pode
continuar desse jeito, tevê, rádio e rua gritando
e ele nem aí, falando também, ao mesmo tempo,
sem que os outros escutem, imitando sua surdez.
Um homem que parece tudo, menos mudo – como tudo.
Que engole ávido a alheia mudez e a tomar conta do fluxo
de ruídos que explodem contra o silêncio faminto.


Vanessa Carvalho


mormaço
com o rosto queimado,
pés rachados
e bacia ainda pesada
na cabeça,
volta pra casa.
na ida
algum desconhecido disse
que pelo dia abafado
vinha chuva.
depois do dia abafado,
seus olhos são
sóis cansados

que deságuam.

PROCURA DA POESIA


Poeta que é poeta
não olha a lua
nunca viu a lua
nunca parou
para saber da presença
de um satélite
Poeta que é poeta
não abre gaiolas
para libertar passarinhos
Nem tem gaiolas
Nem olha o céu
Na terra reside o universo
Poeta que é poeta
mergulha no escuro
o sol é um fósforo queimando os dedos
ele observa, sem pressa,
o musgo crescendo em volta da pedra
Tempo e espaço não são metáforas
Poeta que é poeta
tem um jardim cercado
de arame farpado. Dentro,
as placas dos nomes dos mortos
para que floresçam
Nem flores, nem borboletas
nem voos que não sejam de aviões
Poeta que é poeta
habita a noite fechada do silêncio
agita sua cabeleira como se fosse uma tempestade
Poeta que é poeta
olha a bunda das mulheres
seus dissimulados olhares, os cílios:
uma cortina que nem abriu
e começou o espetáculo
O resto é mistificação.

Paulo Betancur



ALTAR

As portas defecam gente
Saem de todo lado
Prédios postados rente
Às apertadas ruas
Lua, sol ou céu nublado
Pássaros apodrecendo
Carros correm guinchando
Seja manhã ou tarde
À noite gritam as luzes
Num aceno extremado
Dentro das casas, mudos
Só os objetos são sagrados.

Paulo Betancur