quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A minha eleita
Ó epifania
tão aspirada
Deixa-me só
lamber tua
constituição
eivada pelo
chorume da
alma sonsa,
imunda, de
trazer-te
a escumalha.
Tanto sentimento!
Oca litania
propalada
do cafundó
onde tensão
que nunca
debelo soa
brunidores
salmos na
esconsa
carne, tida
por cangalha.
Oca litania
até agora
a teus pés!
Na tua cara
cusparadas,
chistes vis
e a mão
armada da
tinta roxa
dos edemas
a te pungir.
Ó epifania
redentora
ao invés da
da escara e
deflagradas
odes hostis
trago o não,
a paliçada,
a coxa em
vias de agir
Ó eleita
desta feita
venho ardor
e música a
escorrer no
veio do sentir
sedimentado
em miríades
de atrocidades
deliciosas
mas vulgares
Desta feita,
minha eleita,
venho amor,
idílica, para
encanecer e
ungir. Calão
elevado às
efemérides
e solenidades,
e as glosas
mais lunares
… e libertárias.

Iriene Borges

CAPRICHO



É quase um capricho
estelar, este
rito de espanto
içado em mim; este
império de nuvens.

É quase um delírio:
com olhos de pântano
e línguas de cimitarra.

Ó vulcão de esplendores!

Não sei juntar
meus avessos;
não sei onde alugar
certezas.

Sei apenas que o amor
inventa oásis
para esconder incêndios.

SALGADO MARANHÂO

Um...
Embargo
Cumulus nimbus
Esparramado
Sobre o pulmão
Um, dois...
Ainda amargo
Ristreto espresso
Néctar maltratado
À degustação
Um,dois, três...
Maior encargo
A pena, o crucifixo
E o leite derramado
Em profusão
Um, dois, três, quatro...
Feroz envergo
Driblo em escorço
O olhar enviesado
Da solidão
Um,dois, três, quatro, cinco...
Postergo
Serve o embuço
E a musa vandalizada
Pela pichação
...Cinco, quatro, três, dois, um
Serve a pichação
Verve estilizada
Sobre inconcusso
Letargo
...quatro, três, dois, um
Na solidão
O campo sulcado
Nega o esforço
Do desembargo
...três, dois, um
Treda confusão
Verbo espumado
Querer prolixo
Irrefletido imago
...dois, um
Grão
Moído, escaldado
Coração, excesso
que esmago
...um
Paixão
Querer macerado
Espavento, ranço
pra engolir num só trago
E ...zero
Tudo.
Iriene Borges


Não sei juntar
Meus avessos;não sei
Onde alugar certezas

Salgado Maranhão

Mulher



Depilo tuas vestes íntimas
obcecado pelo mergulho
em teu luminoso abismo.

Há consenso e quietude em tudo. No
entanto há em mim
uma urgência atávica:

febril, como urgência da vida
feroz, como o decreto da morte.

E mergulho amparado
em minha certeza inútil; a mesma
do meu pai e de todos
os meus ancestres; a mesma
dos que morreram e morrerão em ti
-- alegremente! –
desde Adão



Salgado Maranhão

COLCHA DE LIMO


Olhos lacustres
Pedras no leito
Colcha de limo
Fluido letargo
Ruídos enrustes
Preventivo rejeito
Sonho docílimo
Palato amargo
Afetos palustres
Sonhos no lodo
Peneira de seixos
Coloidal barbotina
Olhos embustes
Espelho denodo
Indolente debuxo
Esteca ladina
Severo desbaste
Constrito talhe
Formas legítimas
Revés que perfila
Renitentes encrustes
Inadvertido detalhe
Teus olhos, gemas
escondidas na argila
E os meus,
Lacustres
Pedras no leito
Colcha de limo
Sonho desfeito
Iriene Borges


O assasinato é profundo


Uma criança desenha robôs. Robôs sabem o que é correto ? Pais robôs, não. O correto é reproduzir o que se ouve, sem pensar. Um pequeno lá fora grita, quero alcançar a voz, mas não chego. Virei o robô do caderno de desenhos. Ovos, galinhas, ovos. Admiro os que conseguem preservar a pequena voz que grita lá fora.

MK

UM BRASILEIRO


desarticulo sons na noite escura
pena que sinto de mim mesmo ou não
esse país é como uma escultura
tiro da pedra apenas coração
estou decepcionado, sem frescura,
eu posso até mudar de opinião
fazer do verso minha sepultura
sem a mínima lágrima ou emoção
mas carrego no peito uma cultura
ser feliz até a alma fazer pão
ou, com meus versos, mais uma brochura
em forma de lamento ou de oração!

antonio thadeu wojciechowski

Quatro quantias


Quaisquer medidas
Cabíveis na quarta
Dose de apatia
A diluir o gosto
Da invenção.
Quatro arredias
Estrofes subtraídas
Da boca farta
De mastigar o dia
E cuspir o mosto
Acre da paixão
Quatro agonias
Rateiam equilíbrio
E o rigor da carga
No trapézio
No rímel
Na cafeína
Quatro agonias
E o cinábrio
Em mim é carga
Inerte no topázio
Polido bisel
Da tua menina
Dos olhos
Iriene Borges


DOIS REINOS (continuação...)



Nunca esquecerei os caminhos
de fogo em tua carne: tuas hidras
solares.

Inventas a grife incendida
para nomear as cinzas. E esta
arte de vender relâmpagos.

Germinas em mim tua vegetação,
como se eu fosse o teu vale; a lareira
do teu riso.

Por vezes, me encerro
à sobra ancestral. Bêbado
de eterno, como o gemido
da terra.

Escrevo em tua rocha
para resgatar luz das águas.
Sou um selvagem que sangra
aquarelas.

Assim, recolho esta lírica-vinagre.
desde as conjurações das sombras;
desde o nocaute das horas.

Deve haver-me
um veneno abstrato, uma
flecha de átomos

Poesia é o que desnuda
a lavoura de signos.
E o desejo que virou pedra.

SALGADO MARANHÃO

(Do livro “A CASCA MÍTICA”)

quede a orelha de vincent?


a barba ruiva
os velhos sapatos
os campos de trigo os camponeses
os girassóis o céu as estrelas
mil sóis
barcos ao mar
o café o terraço o chapéu
o cachimbo os corvos os ciprestes
o quarto a janela a toalha a navalha
a loucura

) o estampido (


* líria porto

SEM SOMBRA DE DÚVIDA



você tentou arrepiar pra cima de mim, amor
você tentou me machucar pra valer
mas tudo que eu sinto é dor
então não vejo mais como sofrer
poetas como eu, querida,
dão a vida, materializam a alma,
explodem o coração, cutucam a ferida
e fazem tudo com muita calma

se em teus sonhos, o príncipe não veio,
não quebre a louça, não corte os pulsos
é você mesma a imagem no espelho
não pus nenhum freio em teus impulsos

a noite é minha amiga mais chegada
aprendi a mentir pra mim mesmo
mas eu posso ainda pegar a estrada
bêbado, mãos trêmulas, corpo enfermo

tanto faz cair morto triste aqui ou ali feliz
tenho certeza que nunca amei tanto
a poesia me fez ser o que bem quis
sem sombra de dúvida entre poeta ou santo!


antonio thadeu wojciechowski

Quinta da consolação


Tudo quinquilharia
esses discursos todos.
A quintessência dos
engodos a poluir
a minha e os galos
na espora do tempo
a cantar a rinha por
cacareco e ninharia.
Do verbo angular
desse ajuntamento
fere cada quina
e na vitrola o clube
da esquina punciona
os pentacarpos do
meu ideário, sem ver
estrela ou carambola
no escorrer dos sumos.
Chega de inventariar
os vocábulos do drama
crônico armado em
quintilha, enquanto os
sintagmas fantasiados
dançam quadrilha
sobre o patíbulo
de silêncios.
Iriene Borges


EFEITO BORBOLETA

Dizem os sábios que, quando uma borboleta bate asas no oriente, o ocidente é assolado por furacões. Quem sou eu para desdizer os sábios? Tem sabedoria pra todo mundo a qualquer hora e em qualquer lugar, é só deixar de ser burro. Os filósofos pré-socráticos sempre me avisam que não tem nada ruim que não possa ficar pior. Ainda bem, não tenho tempo pra perder tempo sonhando acordado. Jesus, muito sabiamente, deixou o lembrete: “quem entre vocês pensando acrescentaria um palmo à própria estatura?” Não dá, né? Só pensando nada muda. Então mãos à obra aqui e agora que a vida vai que é um upa. Leia no primeiro comentário e comemore, poderia ser pior.

EFEITO BORBOLETA

ando tão feliz
que até ando desconfiado
não sei se as coisas andam
como eu sempre quis
ou se o certo
era tudo dar errado


antonio thadeu wojciechowski

A ROSA PÚRPURA DO MEU BAIRRO


(ou O Espelho do Narciso Caôlho)
gostei muito de perceber
que você percebeu e leu
o manual do meu mapa sexual
num universo astrológico mágico
do mundo da lua
"virgem, infernizando aquário"
com sol em escorpião
(não precisa dar certo
não vai ter solução
tem aquário que é cego
e acha que virgem é leão
com lua nova em capricórnio
e tão inseguro quanto câncer
sendo visitado por plutão
para os que tem almas de gêmeos
vênus em sagitário é uma opção
(a via láctea é uma confusão)
esse zodíaco, em Lacan
percebe que alguém reconheceu
exatamente o que falta a alguém
espelhando seu desejo íntimo
no desejo de quem deseja
"a alma olhando o espírito"
- você inspira, deus entra
... faz a faxina, você expira
... e deus sai
a primavera virou outono
as rosas estão ficando grenás
você me traz de volta pra mim
um leva o que o outro traz
se você vai em frente
eu posso vir por atrás
um idealiza o outro
sem fazer ideia de que acende
uma luz para sua própria sombra
(um goza; o outro zomba
um dorme; o outro sonha
um travesseiro; o outro, fronha)
cada um projeta o que sente
num planeta que nem se vê no céu
confundindo com estrela
o que pode ser um sol incandescente
"estrela cadente não é cometa"
(desejo é o que a gente sente
vontade é o que a gente quer
com o que tem pra dar quando pode
e só quando consente)
atenção: vacilou, cachimbo cai
projetou o que imagina, vira cinema
com você de olho vivo, na poltrona
vendo-se, lá na tela, fazendo cena
"o galã de A Rosa Púrpura do Cairo
está para a plateia
assim como a estrela pornô
está para o palco."
(tem gente que está por dentro
de tudo que está por fora*
e acaba achando bonito por fora
o que por dentro é mais do que bonito)
* apud. Antonio Thadeu Wojciechowski
não gostou do que viu?
troca o ator que o filme muda da casa pra rua
não gostou porque não viu?
muda os figurinos que o filme muda
da água pra chuva
"a estrela de A Rosa Roxa do Bairro
está para Cristo
assim como Maria está para Madalena"
(tem dó, mas não tem pena)
não gosta desse tipo de filme?
muda de gênero e encerra o documentário
começa a rodar uma chanchada
ou um seriado policial americano
em que o bandido é um psicopata sanguinário
ou quem sabe um filme italiano
"A Rosa Lilás dos Templários"
(a garota em pole dance sob luz negra
com uma boa dose de gim num licor de cassis)
está difícil ver o filme?
faz um vídeo digital na web
um selfie pro Instagram
e guarda o segredo que todos sabem
num arquivo .mp4, no YouTube
cuidadosamente criptografado como
"A Louca Ruiva do Congo"
(pra ela, King-Kong é macaca)
e o filme não para...
é incrível como enxerguei em você
uma proteção que me atacava todo dia
uma proteção que me desprotegia de mim mesmo
me dando um escudo contra a mesquinharia
que me ocultava num deserto gelado
a peça do quebra cabeças narcísico
virou uma a mãe a quem posso dar a luz
me aproximo e minha sombra cresce
me afasto e a sombra diminui
acho que vou ver um filme estrelado
por você
"A Rosa Pura do meu Vaso"
(faz um carinho que eu caso)
vamos ao cinema?
você quer que eu entre na sua tela
ou prefere que eu te aguarde
até que você termine esse filme
e venha mudar a minha realidade
com os espinhos que te protegem
da mediocridade
...um dia, num filme,
além do perfume e das pétalas cor de violeta
sem querer, descobri que as rosas falam ...
e falam muito bem de você

Tavinho Paes

RECORDE/106

Yassu Noguchi


uma indústria
uma grana
uma pressão
um silo
toneladas, maior safra
uma pessoa
um grão
um pai
um filho
o vazio, mais nada





O cipreste torto


Cipreste é uma árvore que impressiona. Penso nos ciprestes das pinturas de Van Gogh. Ciprestes e velas. Os cabelos em fogo do pintor holandês. Girassois. Ciprestes plantados em cemitérios. Um atrás de outros, ciprestes surgem na larga avenida, quase humanos. Apenas uma das árvores foi entortada pelo vento. Vi e ouvi tanta coisa em uma semana e só olho o cipreste torto. Nesta vinda a São Paulo não fui nem uma vez a uma exposição de arte. Por acaso, fui à Avenida Paulista e fiquei feliz por estar zanzando na hora do rush. Estava indo para Belém do Pará e todos estavam voltando, como cantava um monstrinho da Vila Sésamo, quando eu era criança. Há uma multidão voltando pra casa depois de cumprir as obrigações sociais. Há outros que pararam em cafés ou em bares. Entrei na livraria para buscar um livro e me senti em ambiente familiar.
Em Vinhedo, olhando para o cipreste entortado pelo vento pensei em coisas difíceis. Soube que a cidade abriga condomínios de luxo. Vi que há um mosteiro beneditino, mas não tive tempo de visitar. Vim para um evento literário, conheci grandes escritores e o cipreste torto é o que mais me impressiona. Por causa do cipreste torto, percebi que não tenho vocação literária. Há tantas coisas que não sei fazer. Sou mais leitora que escritora. Há os que falam tão bem. Alguém fala comigo de vez em quando, perguntando sobre pessoas que conheceu de passagem. Não sinto desconforto em estar aqui, não quero voltar correndo pra casa. Penso que não consigo ter uma carreira de escritora porque fico a maior parte do tempo lendo, em vez de escrever. E quando estou num evento, em vez de conversar com outros escritores, trocar figurinhas, apresentar meus livros, fico calada ou me distraio com um cipreste torto e os rabiscos de uma criança. Vou embora levando um montão de livros - sempre juro que não vou levar nada, os meus não consegui vender - e uma ideia vaga de que a vida literária não combina comigo.

MK
o dia virou
e não sei
quanto de mim
está aqui
ou em ontem ficou
 Yassu Noguchii)

Sentença



faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.

José Salgado Maranhão

tirano


a esse dito tirano nenhum corvo foi igual
dessa maneira de todos era conhecido ele
bastava dizer la vem tirano pra todos sumirem
se espalhavam ligeiros no vento como abelhas
tirano apenas gargralhava logo enfurecido
roubando de nos tudo q podia e o q não devia
matava pombos patos passarinhos gaivotas
com as gaivotas tirano bem jovem
perdeu um olho e carregava vasta cicatriz
porisso olhava torto como se não olhasse
balançando tanto e mais a cabeça envenenada
gargralhando insano como se fosse desespero
assim era nosso tirano em todas as horas
faminto fulo de raiva ate com as sombras
todos sumiam quando tirano de repente surgia
mesmo sem ser visto so sentido todos berravam
la vem tirano arido gargralhando quase rindo
matando pombos gaivotas corvos passarinhos
comendo ovos destruindo ninhos e vidraças
se espalhando pelos desavisados e arvores
como se fosse uma noite encarniçada e nua
mundo de sangraporco e fodecorvo a dor a dor
gargralhava tirano picando o peito dum pombo
devorando ate os ossos mundo de fodecriança
lodo saindo pelo cu e o tirano sou eu so sou eu
mundodelamaemerda estraçalha tudo q vive
gargralhava tirano triste no telhado de pregos
o pus do olho brincando nas penas nas patas
sozinho tirano não voa mais mas é tirano
tirano agora espeta o resto de tempo furioso
fosse surgir e se veria a fera violenta e bebada
mas nisso agora de solidão tirano fica imovel
lagrimas pingam no chão e nelas ele se mira
rola e se agacha como uma galinha ele tirano
sabe q some desse mundodelamaemerda
merdademerdaemerda é urubu quem herda
tanto se faz e se desfaz tudo se perde e doi
o mundo se dissolve a cada instante e agora
pros q se deitam como galinha pondo ovos
tanto sentido nenhum sentido so a dor a dor
assim a lua vermelha corajosa diz se fudeu
porisso gargralho pra ela catarrovermelhoecu
da pena sumir sem matar mais meus ratinhos
arrancar os olhos de gatos destruir fazer medo
partir asas de corvos comer crias de gaivota
roubar tripas do porto ferir os q dormem e cães
acordar com trovões planar na chuva gelada
gargralhar a vida é grande a vida é minuscula
os q morrem jamais existiram e tudo segue
levanta e gargralha como se fosse morrer
ha mais intensidade e qualidade de vidalegria
o bruto viver na maior grandeza maior beleza
do q numa longa vida saciada pela covardia q ri
malicia e crueldade num mundo q se dissolve
vale mais q bondade cagando num velho ninho
falso mentiroso servo de nada pra nada e fim
se o mundo fosse bom se o mundo fosse
outro mas isso voa voa voa e some e sangra
se o mundo fosse bomdebom se fosse mundo
seria certo e imovel seria doente e não seria
gargralha tirano o mundo pede so o horror
sem mim isso seria vazio e so so no fim
com os iguais a mim ele ganha razão
com furiafuria gargralha pra porra nenhuma
agachado como galinha choca sobre mortos
a doença da cidade entre predios as dores a dor
no buraco podre do olho nas penas caindo
tirano se abre e gargralha eu sei sei demais
fiz tudo pra nada e q se foda o resto e eu junto
amanhã o sol surgira pra todos não pra mim

*ALC

Enquisto

Na frágua existe
íntima súmula
da índole poluta
Objeto de chiste
escusa e reparo
Oculta na nébula
Tácita bainha
acolhe jargão
embuça enfaro
E engole revide
Imputa a mácula
O polido quisto
Ofensa selada
em sólida concha
alveja o vergão
E o vedado cavaco
revisa a tábula
revoga o presto
enleio da brecha
no enredo tecido
escopo da veneta
de orador obtuso
e vomita a pérola
adorno na boceta
de Pandora

Iriene Borges


Apenas segue, incólume,
incendiando a tarde
sem propósito.

Uma ostra que olvida
a própria pérola.


SALGADO MARANHÃO
A literatura hoje não passa de um hobbie meio arcaico: inútil, irrelevante, inofensivo. Como aeromodelismo, filatelia, bonsai... O que buscamos queimando as pestanas em tantos e tantos livros? Uma epifania, o santo graal, o paraíso perdido? Não sei. Eu pensei que era tudo (a revelação da máquina do mundo), hoje desconfio que é nada. Mas é um nada com cara de tudo. Há na saudade dessa aura algo da aura perdida, um vislumbre dos reflexos da idade do ouro... Não importa se é ou não irrelevante. De repente a única coisa importante na vida é a irrelevância. Pronto, confesso: sou irrelevante. E me regozijo nisso.
Otto Leopoldo Winck

PÉROLA



Caminha indiferente
entre os chacais --,
carregando
a brisa sobre a pele
de ameixa.

Há em suas ancas
de onça negra
uma altivez atávica; uma

certeza que não vende
aos mercadores.

Apenas segue, incólume,
incendiando a tarde
sem propósito.

Uma ostra que olvida
a própria pérola.


SALGADO MARANHÃO

Domingo de sol e friozinho em Curitiba.

Domingo de sol e friozinho em Curitiba. Como fazemos há décadas fomos ao maior restaurante de massas, polenta e frango em Santa Felicidade.Trânsito engarrafado e logo na entrada dos restaurantes um grande comitê da Vic, deputada estadual, filha da governadora Cida e do ex-ministro da falta de saúde golpista, o deputado federal Ricardo Barros - dois anos de golpe e aumento da mortalidade infantil. Na entrada militantes de candidatos da extrema direita estatal, egressos da bancada da segurança, sempre falando mal do Estado quando tem uma vida inteira dentro do Estado e sem produzirem nada de relevante em termos de projetos, políticas públicas e cultura, só produzem discursos vazios, preconceituosos e depois de dois anos sabem que vão perder as eleições. Neste tipo de restaurante, com mesas próximas, acabamos tendo de escutar parte da conversa das pessoas do lado. Nesta conjuntura as famílias conversam sobre as eleições no almoço do domingo. Sempre impressiona a ignorância convicta e fascistóide de muitos discursos ao redor, vale como análise do discurso, ouvir os horrores e limitações mentais, políticas e ideológicas. Estão em pânico ao saberem que Lula está bem na frente da presidência e Requião na frente do senado. Sempre é um alívio quando os que falam mais alto terminam e saem ! No salão do café fomos todos interrompidos por um trabalhador humilde e suas crianças, falou que tinha vindo de São Paulo procurar parentes e não conseguiu nada, estava com fome, frio e precisava desesperadamente de ajuda. Demos um dinheiro e mais uma vez a grave crise social do golpe entra nas vidas da classe média e alta curitibana em seu café. A família pobre, depois andava no meio de carrões, era mais uma grave lembrança de como aumentou a pobreza, a desigualdade social e o fascismo com o golpe dos mais ricos em 2016 e as tendências antidemocráticas de uma gente profundamente ignara e inculta, com mais recursos econômicos, mas incapazes de viver em uma sociedade moderna e incapazes de almoçarem em paz.
RCO

CABEÇA FEITA




Distraído eu estava,
Quando num repente,
Comecei a ouvir vozes,
O que me preocupou,
Porque eu estava sozinho,
E isso não é coisa normal.

Procurei localizar, identificar,
De onde as vozes vinham,
Notei, como não era de esperar,
Que estavam na minha cabeça,
Entremeios as vozes, pensei:
- Estou enlouquecendo?

Concentrei-me naqueles sons,
Percebi que era uma conversa,
Dos meus hemisférios cerebrais,
Criando um fértil diálogo não senil,
Interlocutado simultaneamente,
Numa..., Perfeita Simbiose.

O direito:
- Conhecimento..., para o quê, serves?
O esquerdo:
- Sirvo, para te fazer diferente do ignórico!
O direito:
- É..., mas, com isso, o que mais sei,
é que Socratianamente..., nada sei.
O esquerdo:
- Então, passe para reações Aristotélicas,
porque menos sofrerás. Eureka!
O direito:
Não quero ser tão racional e dedutível,
O esquerdo:
Então aceite o sofrimento do apego.
O direito:
Renuncio ao sofrimento..., desapego.
O esquerdo;
Duvido que consiga, esse não é você.

Como plateia desse jogral,
Entremeios as vozes, pensei:
Não estou louco, ao contrário,
Minha lucidez é assustadora,
Consigo me perceber até...,
Inconscientemente reflexivo.

Nessa discussão do meu ego,
Questionado pelo meu superego,
Percebi-me como meu alter ego.

Éramos três num desdobramento,
Que em sentido da pluralidade,
Se fazia simplesmente, singular.

Para aumentar a confusão,
Eu me vi..., sim, eu me vi,
Eu estava fora..., eu..., alter ego,
E via juntos, embora separados,
O ego e o superego,
Isso era tramoia em festa, do Id.

Instinto da matéria instigando,
Razão e emoção se digladiando,
Espírito desgarrado do corpo, livre,
Mas, agarrado à Ariadne, fio a fio,
E eu alma verdade integrado ao todo,
Somos cinco onde apenas um existia.

E o surpreendente diálogo continuou,
Em meio a toda essa parafernália,
Quando um hemisfério ao outo falou:

O direito:
- Sim, esse sou eu porque me basto.
O esquerdo:
- Bastar-se-ia sem ação do sangue.
O direito:
Mas, o sangue correndo é vida.
O esquerdo:
Não. Vida é o que faz o sangue correr.
O direito:
Então a vida é o que sinto.
O esquerdo:
Não. A vida não pode ser sentida.

Entretido na audição da conversa,
Eu estava quando noutro de repente,
Nova voz ouvi:

Ei..., silenciem-se..., o corpo se mexe,
Disse o Id Instinto da matéria instigado,
Quando em movimentos espasmódicos,
Células vivas se contraíram profundamente,
Durante uma inspiração mais profunda,
E relaxaram quando houve a expiração.

A respiração sequencial foi percebida,
Entre um espreguiçar e outro renovar,
Despertou o olhar antes adormecido,
Foi quando entendi que havia dormido,
E o que em normal é chamado de sonho,
Eu vivi em inteiro, por ter..., a cabeça feita.

Olinto Simões – 26/06/2018 – às 3,40 h.


A moça lê "Noites Brancas", de Dostoiévski, no restaurante vegano. Coloco pimenta na comida, o garçom alerta que não é vinagrete. A moça se oferece para trocar. Depois, ouvindo-a conversar com outra moça, descubro que é baiana. Na mesa compartilhada, o sujeito elegante ao lado xaveca a moça emancipada que fala sobre o uso de diu. Comida vegana gurmê. Se havia sabor, sumiu no prato de metal.
Pensei em estoicismo, na uberização da economia, nos chineses. Está tudo errado, ninguém conserta nada.
No dia anterior, comi bife à milanesa em prato de louça. Meu interlocutor dizia qual era seu ambiente. Fiquei mais à vontade.
Pertencer à metrópole me constrange. Prefiro ficar perdida, viver em suas margens. Os melhores lugares são os refúgios.
MK


Admiro os homens práticos. Entram, desmontam um armário e o remontam num outro local. E ainda contam anedotas, divertindo-se enquanto isso. Eu, de minha parte, que fui exilado irremediavelmente do mundo prático, não deixo de observá-los com uma certa inveja. Cabe a mim, na falta de outro mister, reordenar palavras no branco do papel (neste caso, da tela), cônscio que qualquer escrivão de cartório ou polícia escreve coisas mais úteis que eu.
OLW

Inho, inha



O pequeno negócio não é eficiente. A dona saiu para almoçar e os fregueses esperam. É um armarinho de miudezas. Também vende canetas, lápis, caixas de papelão para encomendas, declarações para o correio. Espero uma hora até a dona voltar. Almoço num lugar perto, tomo café. Fico com raiva da proprietária que não conheço e do correio que exigiu a declaração de conteúdo da encomenda. Quando entro na lojinha aberta, ela está atendendo outras freguesas. Ali dentro tudo é confuso: botões, carreteis, sianinhas, bordados, material de papelaria. Ela atende duas senhoras que compram botões, Penso que nunca vai terminar. Me viu e falou, já te dou atenção. Quando peço o que quero ela é toda solicíta e minha impaciência vai embora. Dá toda a atenção para a compra de uma caixinha de papelão e um papel impresso fácil de conseguir pela internet. Na rua, penso que há uma diferença entre a gentileza compulsória que aprendemos para a convivência com o outro ficar melhor e a paciência. A paciência é a única forma de os ineficientes sobreviverem. É ter um negócio miudinho e ir tocando, enquanto o mundo gira em torno de grandes negócios. Saí do armarinho uns milímetros maior do que quando entrei.

MK


quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Panaceia da ilustração




Ela, sublimada,
Diz-me nada ou ser-me
Som e sol, lua, ar

Repleto de escolhas
Cabalares dos tons,
Sinfonia e bombons.
Luares ofegarão rumar
Rimar e encantar quem
Erra, martiriza e entedia
Meu estudo, canais
E pó.

Pois só e rol rezo
Reservo a cantiga menos
Amiga ao ser que sequer
Compete, se mete
Sem meter.

Suaves estrondos das
Manadas singularizaram cantos
E tantos quantos rimaram
Com prazer.

Hoje a cratera da coroa de
Era reverbera quimeras das
Ogivas do amanhecer.

Seria pão, seria ouro,
Seria pouco, pífio e por
Não perceber,
Transmutou minha mudez

Destarte lógica o ritmo
Cadencia a métrica e sofro
Nauseabundo plano tergiversa
Desrazão, desproporção ou
Mesmo, arrefecer.

Teus mil vales,
Tuas três raras secretas
Montanhas e teus,
Mares, lagos, ou represas
Não regem
Elevam

Ou

Causam paixões humanas
Nos deuses.

Permaneça, tentando

Não permanecer.

Anderson Carlos Maciel

terça-feira, 28 de agosto de 2018

as vezes a vida vale a pena




● vivo aqui ●
● nessa toca sob a ponte ●
● onde muitos moraram ●
● sozinhos como eu ●
● entre a biblioteca e o parque ●
● comigo so minha sombra ●
● q não me assombra mais ●

● pra não incomodar ●
● os passantes tão vermes ●
● eu não choro eu não rio ●
● mastigo meu pão bem duro ●
● meio mofado do dia anterior ●
● varro a toca arrumo as coisas ●
● tudo parece um lar um abraço ●

● a noite eu saio tão livre tão tão negro ●
● tão animal tão bicha tão rico ●
● tão mulher q eu mesmo sentiria ●
● orgulho dalguem assim ●
● porisso vou rindo quase correndo ●
● como se tivesse escrito ●
● a divina comedia ●

● enfrento a noite infinita ●
● tão negro tão bicha tão animal ●
● tão mulher qeu me sinto feliz ●
● tão feliz qeu danço na neve ●
● nos cabares toda nua e rindo ●
● tão negro tão bicha tão tão animal ●
● assim eu giro giro como um sol ●

● todo vivo molhado de suor de saliva ●
● de esperma de cerveja de canções ●
● sabendo o mundo por dentro brincando ●
● como um bailarino num salto de cisne ●
● um corvo gaivotas comendo pombos ●
● na margem do meu rio e compreendo ●
● porisso sei q a noite deve ta no fim ●

● não so a noite mas a vida a vida toda ●
● sei q é assim e danço enquanto é noite ●
● tão negro tão bicha tão animal tão mulher ●
● qeu me sinto feliz tudo parece um lar ●
● um abraço o tempo sem machucar ●
● so a rua o silencio da rua os gatos ●
● devo correr pra minha toca ●

● logo chega o fim da noite ●
● q foi infinita e eu volto pra toca ●
● junto ao rio sob a ponte degustando ●
● um charuto com o pão desse dia ●
● q ficara duro e sera meu almoço ●
● meu jantar ate a outra noite ●
● onde serei o q escolhi ser ●

● ser o rei ser o pobre o negro a bicha ●
● mulher tudo ao mesmo tempo porq escolhi ●
● nesse terror o terror nos mastigando ●
● nessa vida na toca com o pão duro ●
● junto ao rio ser somente eu tão animal ●
● sem ouvir ninguem sem imitar ●
● ser pobre negro bicha ser mulher ●

● ?por q eu vivo ?por q eu sofro ●
● ?quem sabe a morte não é mais bela ●
● q a vida não so esse horror eu sei eu sei ●
● doi demais quero morrer quero viver ●
● sem saber sem querer saber e doi ●
● uma rocha q o tempo dissolve ●
● sem ter q suportar esses meganhas ●

● sem viver com idiotas ●
● com servidores essa gente doente ●
● sem fazer parte da doença sem ser ●
● desse mundo e assim me divertir ●
● ate morrer esfaqueado e faminto ●
● ou me atire em vc q me seduz sim ●
● ouvindo basta desejar q te abraçarei ●

● com minhas ondas vou te revelar ●
● q a vida vale a pena porq vcs todos ●
● são pobres negros bichas são mulheres ●
● morrer quando quiser assim sorrindo ●
● porisso agora dorme sim vc sabe sim ●
● a noite foi longa e a vida doi demais ●
● mas as vezes a vida vale a pena ●

*ALC

tauromaquia




● a vida inteira ●
● do meu pai do meu avo e do resto ●
● aguardamos aqui depois da fazenda ●
● nesse caixão escuro q fede a esterco ●
● nas paredes a mijo de quem teve medo ●
● la fora urram esses covardes em festa ●
● cantam suas lamurias fracas e medrosas ●

● enfim abrem o portão ●
● vejo a luz do sol a multidão em volta ●
● cavalos vestidos de centauras ●
● essa fadinha no centro de roupa bem justa ●
● brandindo uma capa vermelha todo meucu ●
● sei num instante por um bailado da capa ●
● q ele deseja q seja ela qeu ataque ●

● sei q daqui não saio vivo ●
● como não voltaram nem meu pai nem o avo ●
● mesmo os mais fortes amigos e irmãos ●
● vivemos num campo de exterminio ●
● cada um preparado sem saber pra essa hora ●
● a capa é so um artificio eu quero o corpo ●
● arrastado parto morto mas ele morre antes ●

● porisso ando lento pra coisinha q se mija ●
● antes de girar sua capa meu chifre ●
● penetra pela coxa ate o saco adentro ●
● onanistas ao redor gemem porq não sabem ●
● q podemos sair do campo pensar e matar ●
● com esse gosto de arte e vitoria na boca ●

● senhores de fantasia teatros de sombra ●
● morrerei aqui sem poder dizer nada ●
● q cada um descubra q os senhores ●
● com nosso suor querem so a merda ●
● e o sangue de todos como punheta ●
● mas ele morre ali pra todos verem ●
● q de vez em quando um de nos ve ●

● enquanto isso vou matar bandarilheiros ●
● palhaços rabejadores pular nos babacas ●
● estraçalhar rabos q sempre aplaudem ●
● antes q reunam suas armas e me matem ●
● e aos q ouçam longe q a saida disso tudo ●
● é o pensamento a união e a violencia ●
● mesmo q a vida seja uma boa merda ●

*
ALC

POETA PÓS-BAUDELAIRIANO




Em alguma esquina
da vida
perdi minha aura.

Ando agora pelas ruas
– transeunte comum –
sem esperanças de que um verso
dê sentido
ao que não tem sentido nenhum.

Mas se ao menos eu te visse,
ainda que de relance,
a minha vida se encheria
de luz
– nem que fosse por um instante.

Otto Leopoldo Winck


Tempo,
dá um tempo.
Deixa colher
ao menos
o que restou
deste meu dia.

Otto Leopoldo Winck


Tudo tem um princípio
e tem um fim. Um começo, às vezes modesto,
e uma consumação, às vezes inglória.
Entre um ponto e outro, eu e minhas circunstâncias
escrevemos esta história.
Muitas vezes, é verdade, essas circunstâncias
estreitam minha margem de manobra.
Não sei se te dou um beijo na rosto
ou na boca. Não sei se te diu um tapa
ou te ofereço a outra face.
Não sei se vou ou fico. Só sei que passo.
O dia passa. O amor passa. A felicidade passa.
Mas a angústia também passa.
Um dia, somente os vermes
passearão nas minhas órbitas vazias.
Antes disso, porém, quero te olhar bem na cara e te dizer:
eu te amo, filha-da-puta.
Tudo tem um princípio e tem um fim.
Mas neste "meio"
eu quero ser inteiro.
(Beijos pra quem fica.)

Otto Leopoldo Winck


poesia
te queria calma
palavra impressa na alvura da página
oásis no Saara
portal do paraíso
no entanto és chaga
que me corrói a pele
e me inflama a noite
em espirais insones
poesia
te queria lírica, épica
até dramática
mas não
insana

Otto Leopoldo Winck

NO CAOS APARENTE DA VIDA




Otto Leopoldo Winck

Difícil, muito difícil acordar cedo. Especialmente segunda-feira. Sete bilhões de pessoas no planeta. Uma a mais, uma a menos, fará diferença? Viver é mesmo complicado. Morrer deve ser mais simples. Naquele dia – era segunda-feira – você fez o que sempre fazia quando disparava o despertador, um rádio-relógio, talvez o seu maior luxo: apertar o botão que postergava a música e/ou a voz adiposa do locutor – quem disse que era gostoso acordar com música? – para mais dez minutos. O seu braço, autômato, ainda repetia o gesto por mais duas ou três vezes. Assim você tentava prolongar esse momento em que o tempo ainda não parece inteiramente mensurável e se acredita possível adiar o estabelecimento definitivo da manhã. Naquele dia, no entanto, você reiterou esse procedimento quatro vezes. Foram quarenta minutos engalfinhando-se para reter a noite sob as pálpebras, enrodilhado nas cobertas qual uma criança assustada, dando as costas ao criado-mudo a cada vez que sobre ele você fazia calar o inconveniente despertador, na esperança quem sabe de que ele não mais o importunasse, ou então você de repente se lembrasse de que era sábado ou Sete de Setembro ou Sexta-Feira Santa ou Finados. Mas não. Era segunda-feira, dia preto na folhinha. Como você levantou tarde, o jeito era excluir o banho – ainda que o desodorante tenha acabado e perfume você não vê, ou melhor, você não cheira desde que secou aquele frasco que lhe foi enviado pela madrinha ano passado – ou terá sido retrasado? – no dia do seu aniversário. Ah, é bom lembrar que você mora numa pensão fuleira de oito diminutos cômodos num bairro de periferia. Afiançaram-lhe, quando você veio conhecê-la, que era familiar, embora já tenham passado por ela, apenas neste ano e meio em que você lá está, mulheres de vida duvidosa (inclusive uma que, a propósito de conversar, entrou no seu quarto e, sentada na cama, brincando com a correntinha do calcanhar, deixou entrever um par de rotundos seios), um viado e um noia que, numa crise de abstinência, quebrou o quarto inteiro. Nesse mesmo período, também, você presenciou dois inquilinos, desses mais semelhantes a você, serem despejados, não sem antes ter alguns de seus pertences confiscados pelo truculento proprietário. Todavia, se você estivesse com o pagamento em ordem e não arranjasse encrenca, ele até que era simpático, mas sobretudo a sua esposa, um mulherão enxuto nos seus quarenta e poucos anos, a respeito de quem corriam comentários não muito honrosos na pensão. E você, salvo exceções, sempre pagava em dia, além de nunca ter se metido em confusão. Apesar de o banheiro ser lá fora, estreito, escuro, sujo (viveiro de frieiras), e gelado no inverno, um único para todos os hóspedes, o que não raro ocasionava filas e eventuais entreveros; apesar do colchão ralo e de uma ripa faltando na cama, da janela que não fechava, dos percevejos, baratas, aranhas e esporádicos camundongos (você sempre foi pobre, e pobre se acostuma a tudo nesta vida e se queixa pouco; ademais, no sítio a coisa não era muito melhor); apesar dos gemidos e palavras obscenas do casal do quarto ao lado, que às vezes se estendiam até as quatro da manhã, os quais a princípio o divertiam (o sexo podia ainda ser mais sujo do que você pensava) mas que logo o exasperaram; apesar das putas não lhe oferecerem mais do que uma ligeira visão do busto e de que nenhuma moça que por lá passou tivesse se interessado por você; apesar de tudo isso e de outros detalhes que seria tedioso repisar aqui, a pensão não era de todo ruim. Na televisão da sala você podia ver, numa excelente imagem – vantagem de que você não usufruía na roça –, o jornal, a novela, o futebol, e, nas tardes modorrentas de domingo, os programas de auditório com uma generosa exibição de nádegas e coxas sacolejantes. Além do mais, você agora dispunha de uma privacidade que nunca conhecera, já que antes, na casa dos pais, você era obrigado a repartir um minúsculo dormitório com uma penca de irmãos. Por esse motivo, você até preferia se sacrificar um pouco e pagar mais por um quarto individual a dividir um beliche com alguém que ainda por cima podia ser bicha, viciado, roncar ou ter um chulé mais poderoso do que o seu. A média e o pão francês com margarina, de manhã, faziam parte do preço; agora, se você quisesse um lanche à noite, digamos um copo de leite ou um ovo no pão, você tinha que pagar à parte, e nesse caso saía mais barato comer na rua, como você fazia no almoço. Mas como você se levantou realmente tarde – que vacilo, você pensa agora –, o jeito era abrir mão do café que, não obstante, você teria mesmo que pagar junto com o mês dentro de cinco a sete dias. Na cozinha você disse hoje não, estou atrasado, agradecendo o convite gentil da senhoria, não sem antes reparar no botão fechado a menos de sua camisa arfante, que deixava à vista uma boa parte do volume do seio, com uma pele muito branca e muito macia como que a dizer me beija, me lambe, me leve daqui. O dia estava azul, de um azul cristalino, você constatou, percorrendo as quatro quadras que o separavam do ponto. Ao aproximar-se dele, você obteve a confirmação do quanto fora acertada a decisão de ficar sem banho e sem café porque eis que vinha o ônibus e você teve inclusive que correr para poder apanhá-lo. O próximo só daqui a meia hora – e aí seria inevitável a cara de zanga do patrão. O ônibus, como sempre, apinhado, duro até se deslocar dentro dele, tanta perna, tanta bunda, tanto braço, bafo, bolsa, dá licença, dá licença, por favor. Era ter paciência e aguentar o tranco por cerca de cinquenta minutos, trinta neste e vinte no outro – menos cheio, pelo menos – no qual você se baldearia no terminal. Se não houvesse nenhuma garota bonita, sobretudo aquela morena com que você já trocara alguns olhares significativos, ou uma bunda polpuda, na qual pudesse roçar como quem não quer nada, era mais difícil suportar. Mas consciente do cabelo oleoso, do sovaco sem desodorante e da barba de três dias, você hoje não fazia muita questão de cruzar com a morena. O jeito era postar-se atrás daquela mulher de calça de lycra – que atrás de homem você não fica não – e nas curvas esticar-se levemente para frente, recebendo no baixo ventre a pressão suave daqueles glúteos macios. Com efeito, para você havia uma distinção clara entre, por um lado, uma garota bonita, especialmente com um rostinho meigo, quem você podia idear como namorada, numa imaginação quase assexuada, só carinho, mão na mão, olhos cúmplices, cabeça no colo perfumado, e, por outro, uma bunda, de preferência muito bem cosida dentro de uma calça apertada, a marca da calcinha entrando no rabo, cuja proprietária não precisava ser necessariamente bonita – você se refere ao rosto, é claro – nem jovem, provavelmente casada e mal-comida, ou quem sabe até bem-comida e por isso mesmo desejosa de mais e por que não um cara como você, novinho, com esse ar de inexperiência? Pois na verdade, vamos ser sinceros, você é ainda meio virgem, tirando uma aventura desastrada com uma puta de estrada e sexo – esporádico – com vacas (vaca mesmo, a fêmea do boi) e cabritas (idem), experiências estas nas quais os animais pareciam haver se divertido bem mais do que você. Mas de repente – opa! – alguém lhe passou a mão, você percebeu. Porém, como era do seu feitio, você não gritou, você não xingou, apenas, amofinado, vergou-se o máximo que pôde, até que o sujeito, atrás, tivesse passado por completo. Todo cuidado é pouco com os boiolas. Aquele que fora seu vizinho – lembra? – vivia lhe jogando indiretas. Eita racinha! Pronto: terminal, pernas pra que te quero, encontrões, outro ônibus. De fato: menos apertado. Nova viagem, curvas bruscas, freadas, sacudidas, sono, cabeça pendida, devaneios. Ponto final: as portas do ônibus se abriram e, qual uma evacuação, você foi despejado para fora, com certa violência, dando numa grande praça no centro da cidade. O dia já estava menos azul, mas ainda era azul. Os transeuntes iam e vinham, apressados. Poucos conversavam, raros sorriam. Você estacou defronte a uma banca de revistas, os olhos distraídos nas manchetes. Bancos garantem crédito ao Brasil. Dólar recua. Émerson reina na meia-canha tricolor. Tomba no meio da praça com seis tiros. Mas as manchetes o entediavam. As duas primeiras pareciam de um país distante, inacessível. O que adiantava o Brasil ter crédito ou o dólar recuar se você não dispunha nem de um nem de outro? A terceira já era mais próxima: você costumava acompanhar o futebol, embora não fanaticamente. A última, esta sim, era algo que podia lhe acontecer, a você ou a qualquer um dos seus colegas da pensão: seis tiros. No peito. Pum, pum, pum, pum, pum, pum. Viver é complicado. Morrer deve ser mais simples, basta um balaço no peito ou então atravessar a rua sem perceber o ônibus. Sob a sensação de desalento que de repente se abateu sobre a sua alma diante desses pensamentos, você entrou na banca. Lá dentro, depois de circunvagar a vista ao acaso, acostumando-se à penumbra – num relance, atrizes, milionários, pagodeiros e o presidente da República passaram ante os seus olhos –, você se deteve diante das imagens de bundas e peitos que se ofereciam à lascívia de algum eventual leitor (leitor?). No seu quarto, no fundo da gaveta do desconjuntado guarda-roupa, você escondia duas ou três dessas revistas, velhas, amarrotadas, com manchas esbranquiçadas colando as páginas. Todavia, aquelas mulheres, muito bem aquinhoadas pela natureza, não eram de andar de ônibus, morar em pensão ou se interessar por rapazes pobres como você, office-boy de um pequeno escritório de contabilidade cujo dono vivia se queixando da falta de dinheiro – não obstante possuir carro, casa própria e filhos em escola particular. Todavia, o que você talvez não soubesse era que muitas daquelas mulheres, sobretudo as das revistas mais baratas, também eram pobres e andavam de ônibus e moravam em pensões não muito diferentes daquela onde você morava. E em todo caso o que apertava o seu coração era o fato de que talvez você morresse sem nunca passar a mão numa bunda lisinha daquelas. Mas até isso, pensando melhor, não seria uma grande tragédia. Muitas outras coisas na vida você também nunca faria – não é mesmo? –, como por exemplo comprar um carro, conhecer o Nordeste, assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Entretanto, você tinha consciência – afinal, você não é tão burro assim – que para almejar um pouco que seja essas mamatas, ou aquelas que vinham num estágio anterior, você primeiro precisava terminar o ensino médio, aprender informática, inglês, essas coisas, que lá no interior você parara na quinta série. E depois fazer uma faculdade, uma, qualquer uma. Mas isto – cursar uma faculdade, ainda que de contabilidade – já lhe parecia inatingível, como aquela bunda redonda, volumosa e lisinha, que, além disso, devia ser perfumada (a bunda daquela puta de estrada, além de magra, flácida e cheia de brotoejas, cheirava a merda). A você bastava passar a auxiliar de escritório e ter a carteira registrada – ou nem tanto, os encargos eram muito altos, dizia o patrão. Aí você poderia pagar a pensão com certa folga, adquirir outro par de tênis e – mês sim, mês não – uma revista de mulher pelada – pois você precisava variar, não é verdade? –, sem pesar a consciência. Bom, para subir na vida você contava com pelo menos algo a seu favor: não era pardo nem bugre como muitos dos seus colegas da pensão. Assim, quem sabe dentro de algum tempo, você poderia ter sua engenhoca digital, como o Joca lá do trabalho, que é auxiliar de escritório apesar do cabelo duro. Ainda eram quinze para as oito, você viu ao sair da banca no seu pulso – este não, não era presente da madrinha nem de ninguém, você mesmo comprou de um camelô. E se você já conseguiu comprar um relógio, ou melhor, dois, com o rádio-relógio, um dia você também conseguiria ir e voltar do trabalho ouvindo música. O segredo é pensar positivo, dizem. E ser honesto e trabalhador, assegurava o seu pai, que, no entanto, honesto e trabalhador, nunca chegou a ser nada. Com efeito, menos azul estava o dia. Da praça até o escritório, a passo ligeiro, eram dez minutos. Logo, ainda lhe restavam cinco. Cinco minutos de liberdade. Nada o impedia, portanto, de sentar-se num banco e, neste curto espaço de tempo, usufruir da manhã, ainda que ela tivesse perdido o seu tom mais vívido de azul. Deitado num banco em frente, um mendigo dormia, indiferente ao burburinho da praça e ainda não importunado pelos guardas. Mais adiante, dois meninos de rua, mal cobertos por uma surrada manta, se arrastavam, encolhidos. Camelôs montavam suas barracas. Homens de terno e valise, velhos de paletó, mulheres de calça jeans, garotas de saias curtas cruzavam-se, velozes, sem se entrechocarem uma única vez. Cada qual – parecia-lhe – funcionava segundo desígnios abscônditos, porém muito bem traçados por mão firme ainda que impalpável. O mendigo é mendigo, o homem de terno é homem de terno, a garota de coxa de fora é garota de coxa de fora. Um está aí para mostrar o que pode lhe acontecer se você não trabalhar; outra, que há bens – como as suas coxas – que você pode até desejar, mas que nunca serão seus; e o homem de terno e valise para sinalizar que existe, sim, uma ordem – embora oculta a seus olhos – no caos aparente da praça, e que essa ordem decide o fluxo dos ventos, a rota dos ônibus e a direção exata de cada transeunte, e que você, parado aí no banco feito um idiota, deve ir para o trabalho imediatamente se não quiser ficar como aquele piolhento do outro banco. Mas você não se levantou. O patrão não tinha hora para chegar. Não havia assim tanto problema em se atrasar um pouco, vai ver que ele nem viesse pela manhã, ele pode, ele fez faculdade. De repente, não se sabe se por força de um odor de pastel soprado pelo vento ou se pela visão do mendigo e das crianças, você se lembrou que estava sem café e então a fome assomou, imperiosa, ainda mais que ontem à noite você fora se deitar de barriga praticamente vazia. Pelos seus cálculos, você tinha dinheiro para almoçar – no restaurante popular, é claro – por mais dois ou três dias, sobrando-lhe troco para um lanche – um pão com queijo, senão seria menos – umas quatro ou cinco vezes. Como ainda levaria de cinco a sete dias para receber, é evidente que haveria dias em que você ficaria sem comer. Um paliativo era você retornar a pé para casa, revertendo o vale-transporte economizado em comida. Todavia, como em outras ocasiões você se servira desse expediente, você sabia que seria trocar seis por meia dúzia: você chegaria tão faminto em casa – eram cerca de duas horas de caminhada! – que o lanche equivalente seria insuficiente. Em todo caso você já estava acostumado a essa situação: geralmente o seu dinheiro acabava por completo e ainda lhe restava mês. Nesses dias você se deitava mais cedo para sossegar a fome e, no escritório, era cafezinho com bastante açúcar a cada meia hora. Quando tinha coragem, pedia cinco pratas emprestadas, mas isso também não era bom, pois quando recebesse já haveria débitos a quitar. O remédio mesmo era se levantar e, no trabalho, esperar o café ficar pronto. Por via das dúvidas, você resolveu conferir quanto dinheiro exatamente tinha e se, portanto, os seus cálculos estavam certos. Foi aí que veio o choque: a carteira não estava no bolso. Você se ergueu de um pulo e procurou no outro bolso. Por um momento você buscou se lembrar se, na correria ao se levantar hoje cedo, por acaso não esquecera de apanhá-la na gaveta do criado-mudo. Mas não: veio-lhe à mente a imagem da carteira aberta quando você passou pela roleta do ônibus. Onde você a teria perdido? Você olhou no canteiro atrás do banco, em volta, refez o caminho do ponto final do ônibus até aquele canto. Nada. Só então você teve que admitir que fora pungueado. Mas quando? Ah, só se foi quando lhe passaram a mão no ônibus. Filho da puta! Desacorçoado, você deixou-se cair novamente no banco, repassando na cabeça todos os palavrões dos quais se lembrava. Merda, bosta, caralho, porra, que pariu. Fazer o que agora? Bom, você tem que levantar, você tem que trabalhar, cumprir o desígnio traçado. Quem sabe o patrão, condoído com a história, não lhe concede um vale? E os documentos? Se não aparecerem, mais despesa ao mandar refazê-los. Merda, merda, merda. Mil vezes. Com inaudita determinação, você se levanta e parte em direção do prédio comercial onde se encontra o escritório de contabilidade em que você trabalha. O dia não é mais azul, e, ainda que fosse, você não perceberia. Homens de terno, mulheres de calça, mendigos, crianças – você não repara. E nem na moça de minissaia e barriguinha à mostra. Ainda que da capa de uma revista saísse uma modelo e com as mãos lhe ofertasse os seios nus, você não aceitaria. Você agora só tem um propósito: chegar ao escritório e tomar um café. Com bastante açúcar. Mas bastante mesmo. Pois talvez você fique uma semana sem almoçar e sem lanchar à noite. Único alimento: o pão francês com margarina e a média oferecidos pela senhoria, que tem pele macia, é perfumada e não deve ser feliz. Oh, por que você nunca entrou no meu quarto, já que eu nunca tranquei a porta, sempre te esperando para que nos amássemos loucamente até o amanhecer? Oh, por que você não veio me salvar desta vida, já que eu, com todo o prazer, não hesitaria em te salvar das garras de teu truculento marido? Pensando isso, ao atravessar a rua, você não percebeu o ônibus. Aí foi a freada, o choque, o baque do corpo no chão, a cabeça no cordão da calçada e o sangue de repente jorrando, jorrando, o olho ainda aberto olhando o vazio ou, quem sabe, contemplando um seio com uma pele muito branca, muito macia, gotejando leite, um leite morno, gostoso, com gosto de sítio, de manhã azul, com a mãe, o pai e os irmãos em torno da mesa de madeira rústica. Sem documentos, sem nenhum parente na cidade para dar por sua falta e identificar o seu corpo, na certa você vai ser enterrado como um indigente. Setes bilhões de pessoas no planeta. Uma a mais, uma a menos, não fará mesmo diferença. Com efeito, morrer é menos complicado. Não é verdade?

Este conto saiu no livro/projeto 'Translações' (http://literaturaemtransito.com/), coordenado pela saudosa Assionara Souza.