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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

rebento






porque hoje é hoje
que seja pleno
se tardar_tanto faz
quero agarrar o poema
com as unhas do coração
e não negar
o que explode em mim

rasgar o peito
com um verso feito

- que seja bobo
ou que me questione
mas que me leve
e me aprisione

cláudia gonçalves

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

EU, UM VELHO. ELA, UM MENINO


Cláudia Gonçalves



Eu, um velho. Ela, um menino.
Ou o contrário disso, o mesmo:
a palavra me levasse.
Eu ser o cão da palavra.

Seria: não precisar estar assim, nu
(uniforme
de quando se é funcionário
da coisa nenhuma).

E: nunca mais apertar os olhos
em cadernetas de endereço,
de telefones,
cinema, sem,

ou raramente, encontrá-la
(a palavra). Não mais os mimos,
como se faz com gatos,
leite no prato, à espera.

Imagina: haver uma palavra
sempre a postos, apta
e doce como um dono, um capitão
— seu convés de frases e versos.

Palavra que ordenasse até:
— "nenhum poema"! Eu, cão fiel,
calava. Mas o ar jamais faltasse.
Ela surgiria

como nas noites marinhas
o farol: estrada certa,
luzidia, sem cessar.
Vai o cão.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Mãos de meninos



em esquinas e becos
tem mãos de meninos
que roubam
que matam
que morrem

na pele, no osso
o medo, o terror

e na noite vazia
tem nas mãos de meninos
pedra, punhal

ou serão
gotas de sonhos
que não germinaram

com os sentidos bloqueados
entre lama e fantasmas
o que tem no abandono
é o belo em carrancas

que traduz o escuro
o avesso da vida
corroendo a alma
com total dissabor

e nas mãos de meninos:
pedaços de nada
a bandeira da dor

Cláudia Gonçalves



segunda-feira, 10 de abril de 2017

pele de jornal


no silêncio
que guarda
no armário do nada
um gole de esperança
vestido de solidão
pinta-se de coragem
e com um amargo
sal nos olhos
mais um dia termina
com gosto de não vivi

cláudia Gonçalves

segunda-feira, 28 de março de 2016

das retinas
há uma flor de maio
de janeiro a dezembro
no outono daquele olhar
cláudia Gonçalves

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

nu

nu
na pele crua
a verdadeira face
face à carne
faz-se nua
farto
o homem
em descaminhos
revira o lixo da história
procura pétalas
__ asas escassas
na sorte da rua
colhendo migalhas
da própria amargura
sem lume
e nenhum perfume
volta ao beco
______ ainda oco
de tanto eco

cláudia gonçalves

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

sem reflexo



a ferro e fogo
marcados estão
com o prato vazio
__o sorriso tragado
por promessas em vão

medo até de dormir
pavor de acordar
são seres sem teto
com medo de amar


cláudia Gonçalves

terça-feira, 24 de setembro de 2013

das estranhezas



às vezes
estranhas tempestades
transbordam dias azuis

entre o audito e o antídoto
___ jaz o preterido

Cláudia Gonçalves 

domingo, 8 de setembro de 2013

paradoxo



cismam os poetas que flores têm sabor
que saudade tem cheiro
__que grita o silêncio

ah!
nada acompanha o pensar de um poeta
que beija a boca da noite
salta da fonte do sonho
e até ao relento com os sentidos atentos

rende-se à voz do coração
que galopa ao encontro do
verso


cláudia Gonçalves

sábado, 13 de julho de 2013

do descortinar




era doce a menina
__inundada de esperança

tinha a leveza das folhas
dançando ao vento
e uma certa malícia
de abelhas polinizando flores

sentada nos degraus do sonho
disstraía-se
e
anoitecia
como se lua fosse


cláudia Gonçalves

domingo, 30 de junho de 2013

vácuo



em pétalas
desfaço-me

__avesso
sentindo o beijo do vento
vanilla inunda
o papel em branco

com sabor
de mil folhas
o desejo vacila

quebrado o vazio
__marcha perdida

no sopro do tempo


cláudia Gonçalves

sábado, 15 de junho de 2013

antipoema



fosse tanto
e era
pouco

um quase fundo
espelho
sobre nada
_____tudo
todo mudo

o reflexo
sobre tudo
nada

cláudia Gonçalves




domingo, 9 de junho de 2013

pele de jornal



no silêncio
que guarda
no armário do nada

um gole de esperança
vestido de solidão
pinta-se de coragem

e com um amargo
sal nos olhos
mais um dia termina
com gosto de não vivi


cláudia Gonçalves

quarta-feira, 29 de maio de 2013

inébrio

inébrio

que perdure esta sede
que embriaga
os sentidos

que nos metros de saudade
minha ponte encontre
a sua

e no remanso da aurora
não me fuja a poesia

cláudia gonçalves

domingo, 19 de maio de 2013

nu




na pele crua
a verdadeira face
face à carne
faz-se nua

farto
o homem
em descaminhos

revira o lixo da história
procura pétalas
__asas escassas

na sorte da rua
colhendo migalhas
da própria amargura

sem lume
e nenhum perfume
volta ao beco
_______ainda oco
de tanto eco


cláudia Gonçalves

sábado, 18 de maio de 2013

diferir




há dia
que adia
na meia curva
__ silêncio inquieto
na concha do ouvido

cláudia gonçalves

segunda-feira, 25 de março de 2013

epitáfio





aqui não jaz__nada
em pó prefiro navegar
no abraço das ondas
o mistério do mar
despertando
a poesia
que ficou
no cais

cláudia Gonçalves

terça-feira, 19 de março de 2013

adversidade





teus vendavais
já não cabem
no abraço

tiram do prumo
o veludo
e o barco perde
_________a rota

Jorrando o sal
No
Carmim

cláudia Gonçalves


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

retrato urbano




em esquinas e becos
tem mãos de meninos
que roubam
que matam
que morrem

na pele, no osso
o medo, o terror

e na noite vazia
tem nas mãos de meninos
pedra, punhal

ou serão
gotas de sonhos
que não germinaram

com os sentidos bloqueados
entre lama e fantasmas
o que tem no abandono
é o belo em carrancas

que traduz o escuro
o avesso da vida
corroendo a alma
com total dissabor

e nas mãos de meninos:
pedaços de nada
a bandeira da dor

cláudia gonçalves
 
do livro em construção "Cem haikais e uma suíte para ouvir Leminski"