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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Meu coração é uma noite portátil


Meu coração é uma noite portátil.
O seu é o sol que abrasa
o lado de lá do mundo.
Dentro do meu coração
há festas e alegria,
mas também ambulâncias e socorristas
e a correria que sucede aos acidentes.
Dentro do seu só há fogo e luz,
cegueira e incêndio.

No meu, de vez em quando,
também há luzes e incêndios.
Estrelas. Faróis. Globo de espelhos. A lua.
Mas há bombeiros e água corrente,
banho e refrigério,
e mais uma vez a lua,
tatuada na pele do lago.

Seu coração dá vida e cor
a todas as coisas e criaturas
(e inclusive ao meu corpo),
e há mesmo quem dê voltas ao redor dele.
Mas lá dentro, estima-se, nada vive.

No oco do meu é o contrário:
vivem todos, e bem, e sem medo,
e até o que não quer mais viver,
até o que não dorme e não sonha
e aquele que não é humano.
O feio animal notívago,
o bom e o mau espírito,
a fera, o verme e a cobra,
a bruxa que um dia amei
e que ardeu pela minha vontade,
o vampiro mordendo o vampiro,
e os pés do dragão, decepados.

O monstro aqui tem seu lar
e o vilão disforme uma chance.

Meu coração é uma noite portátil.
Com direito a vagalumes.
Na verdade, você
é só mais um deles.

Luís Henrique Pellanda

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O anjo higienista


"Em Curitiba, no carnaval, sai às ruas um anjo higienista. Bem-sucedido, quase ninguém o vê. Sua função é manter a cidade semivazia, impoluível, imune aos ventos de mudança. Trata-se, é claro, de um anjo avarento: só ele quer desfilar pelas avenidas, só ele pode flutuar por aí, trazendo às mãos não a espada ou a trombeta, mas uma vassourinha de piaçava, com que abre alas a si próprio."
"O anjo higienista", minha crônica na Gazeta do Povo de hoje.



Luís Henrique Pellanda

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"É por esse nível de assepsia que o anjo se exalta, e percorre o ermo dessas valas, impondo aos foliões que encontra uma mesma máscara ancestral, étnica, de ascetismo e polidez. O silêncio é para todos, a democracia floresce no silêncio, e todos precisam se calar, sem exceção, do filho da escrava ao primogênito do faraó, dos guapecas nos terminais de ônibus aos cabritos cujo sangue tingirá a porta de nossos clubes e salões, e em ponto algum desta aldeia deverá se ouvir o ronco de uma cuíca, o gemido de um zumbi, o protesto de seus encarcerados. Se no Egito houve clamor, em Curitiba haverá, no máximo, borborigmos."

Trecho da minha crônica "O anjo higienista", que sai amanhã, na Gazeta do Povo.

Luís Henrique Pellanda

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Luís Henrique Pellanda

"As aves se serviam de um punhado de ratinhos brancos. Pinçavam os roedores pela barriga e os chacoalhavam com fúria, até que se rasgassem. Suas vísceras, então, floresciam, numa violenta explosão de tons vermelhos, suplicando por um leitor divinatório. Como pode haver, pensei, tanta cor dentro de um ratinho branco? Pois durante o banquete, não só as seriemas pareciam seres felizes: a própria moça que as admirava, pasma consigo mesma, sorria. Que futuro teria lido no sangue?"

Trecho da minha crônica "Pedaço de prisão", que sai amanhã, na Gazeta do Povo,

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Classificados


Estou procurando apartamento novo. A família cresceu, precisamos de mais um quarto, e os corretores me enviam listas e mais listas de imóveis vazios. Aliás, falei em apartamento novo, mas só me agradam os mais velhos, aqui mesmo, no Centro. São muitos, e tenho me lançado a uma rotina labiríntica de visitações, saindo de um imóvel para cair em outro, exatamente como naquele verso de Silvina Ocampo: “com a beleza e o horror como guias”.

Mas o que procurar num apartamento vazio? Luz, vista, horizonte. Primeiro olhamos pela janela da sala, avaliando a vizinhança. A proximidade das outras janelas, o destino dos terrenos ao redor. Ali, um casarão antigo. É ruim: logo seus habitantes estarão mortos, e tudo vai virar comida de escavadeira. Mais adiante, um estacionamento. É bom: talvez ele não se torne um prédio nos próximos dez anos, me roubando a vista da Serra do Mar.

Sim, somos proprietários das vistas. Donos do contorno azul da Mata Atlântica e de cada onça a se extinguir naquelas montanhas. Todos os dias nos furtam um trecho da paisagem, uma muda de manacá, um filhote de graxaim. Mas não, não há delegacia que registre queixas dessa natureza.
E o sol? Nunca pensamos tanto nele como quando estamos comprando um apartamento. Olhamos para o leste, feito astrônomos experientes, marujos de cinema, e vamos desenhando com o indicador, no céu, o arco a ser percorrido pelo astro-rei até sua tumba no oeste. Calculamos o quanto de sombra teremos na área de serviço, antevendo um futuro infeliz entre os fungos. Porque temos direito ao sol e à face norte. Em Curitiba, a face norte é um sonho. O sol é o ouro dos curitibanos. Se fôssemos místicos imaginativos, nosso paraíso seria um garimpo no firmamento, quente e dourado.

Depois checamos os cômodos, um a um, tentando priorizar questões práticas de engenharia, e não a qualidade das vidas que se levaram por lá, desde meados do século 20, ou o cadáver das dinastias que se formaram e perderam em cada cama. Mas nos desviamos. Alguém escolheu, para esta cozinha mofada, estes azulejos com frutas tropicais. E aquele papel de parede estampado de arabescos, alguém o achou bonito um dia, e quem sabe o tenha elogiado em voz alta. Pois é, estas paredes, que já tiveram ouvidos, hoje têm apenas memórias. Dormem, suam, e talvez sonhem.

Nos armários, encontramos coleções inteiras de objetos esquecidos. Sobreviveram a quem os comprou (quase tudo que compramos sobreviverá a nós). Um cinzeiro de vidro azul. Chaves cujas fechaduras deixaram de existir. Um skate no closet de uma senhora falecida. O adesivo de um finado candidato a vereador numa lasca de espelho. E os vinis de bolero de um homem que, agora, mora num caixão, assim como a música de seus mortos jaz num caixote.

Livros, no entanto, são difíceis de achar. No bidê desta suíte, o umbral das leituras, um volume de Chico Xavier vai amarelando. Detonado, ele espera por uma justa, mas improvável reencadernação.

Apartamento após apartamento, é a mesma sucessão de paredes nuas, sulcadas pelo delta de mil infiltrações. E às vezes, nesta quilométrica galeria de abandonos, nos surge um quadro renegado, uma empoeirada Santa Ceia. Você se aproxima dela e vê, pendurada no dedo de Tomé, dançando com a brisa, a pele vazia de uma aranha-marrom.


Num rodapé ali perto, você sabe, aquela aranha está viva, em obras, dormindo, talvez sonhando, ou sendo sonhada. E, por um segundo, estudando aquela casca oca, translúcida e quase imóvel, você fantasia ter finalmente descoberto o seu novo endereço, a beleza e o horror reformados. Um lugar perfeito onde estocar o veneno para os seus últimos dias.


LUIS HENRIQUE PELLANDA

lhpellanda@gmail.com

Gazeta do Povo. 28/07/2015  

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Frequentador de ilusões



A cada qual o seu paraíso. Eu tenho os meus, e é lá que me perco. Dia desses, por exemplo, numa rua sem nome e sem calçamento, no Capão Raso, fui tomado por uma tentação inédita, a milésima da minha vida. Inexplicavelmente, colhi dois galhos de um arbusto bonito, carregado de frutinhos amarelos, em cachos, e mais meia dúzia de longas plumas de um capim avermelhado, espigoso, que lembrava as penas de um faisão.

Sim, no Capão Raso, bairro da minha infância, ainda há desses becos secretos e floridos, onde os gatos domésticos, saudosos de uma selva em que jamais viveram, se iludem caçando saracuras entre as moitas de chuchu. Sou frequentador de uma dessas ilusões e se não dou a vocês a sua localização exata é porque sei que oásis não tem endereço.

Mas quero — ou preciso — contar das plantas que, impulsivo, colhi só por achá-las atraentes. Embalei-as em folhas de jornal e, com aquele arranjo delicado nos braços, preferi não encarar os 200 passageiros de um biarticulado. Peguei um táxi e para ir da periferia, onde me tornei adulto, ao Centro da cidade, onde envelheço, gastei R$ 30. É o tanto que me movi no mundo, em quatro décadas. Ao menos a carga chegou ilesa ao meu apartamento, na Ébano Pereira.

Em casa, larguei o buquê numa velha garrafa de azeite, vazia e sem rótulo, e o acomodei na mesa de jantar, vidro sobre vidro, em frente à sacada. Ali passamos 15 dias de tranquila convivência, as plantas e eu, até que, num domingo menos abafado, os frutinhos amarelos do arbusto amanheceram tenebrosamente murchos e escurecidos.

Os galhos estavam mortos, e o arranjo, embora ainda belo em seu exotismo, em sua rusticidade de terreno baldio, jazia desprovido de qualquer sentido. Me livrei dos cachos secos e carreguei para o terraço a garrafa com o capim remanescente. Lá fora, para minha surpresa, uma brisa morna começou a debulhá-lo sem encontrar resistência alguma, como se soprasse um dente-de-leão. E centenas de sementes voadoras se lançaram do meu prédio, feito paraquedistas sobre uma cidade em guerra.

Era muito cedo, não passava das oito, mas, lá embaixo, o sábado ainda não havia acabado para muita gente. Aos domingos pela manhã, o Centro de Curitiba visto de cima mais parece um fim de feira. Diante das boates da região da Cruz Machado, os últimos notívagos tomam sol como quem bebe fogo num drinque barato, uma saideira mágica, porém compulsória. Não se deixaram consumir pela voracidade de mais uma madrugada, e este é o único prêmio a que têm direito: um raio de luz atravessado na garganta.

Naquele domingo, como de costume, uns dormitavam nas calçadas, outros discutiam à porta das casas noturnas, cada um defendendo suas dores numa língua particular, perfeita em sua incomunicabilidade. E nenhum deles, mesmo o menos lúcido, seria capaz de adivinhar que, àquela hora amarga, uma esquadrilha de renovação já sobrevoava suas tragédias rasteiras, em busca de terras férteis, um solo bom de bombardear. Aquela gente e aquelas sementes perseguiam mais ou menos a mesma coisa e com as mesmas chances, baixas, de sucesso.


Mas e se alguém, ou alguma semente, num golpe de sorte, conseguisse driblar o asfalto, o concreto, a sarjeta, as pedras portuguesas, e pousasse num lote mínimo e acolhedor de vida? E se ele ou ela encontrasse condições de se agarrar a esse chão, e nele criasse raízes, e crescesse para curvar-se apenas ao vento, e nunca aos pés de ninguém? Já não seria uma vitória, apesar de temporária?

Luiz Henrique Pellanda
Gazeta do Povo. 02/02/2015

Suaves desistências

No calor, reduzo minhas caminhadas por Curitiba. Passo dias internado, só abrindo uma ou outra exceção para alguns passeios habituais que a maioria de nós julgaria extravagantes. Um deles me leva sempre a visitar certas árvores da cidade, espécimes que me cativam de um modo especial, por razões passionais e, portanto, insondáveis.


Gosto de árvores, ponto. Dia desses, li uma crônica em que Rubem Fonseca admitia ser um dendrólatra e, citando o poeta polonês Czeslaw Milosz, até dizia querer ser uma árvore, para crescer "sem ferir ninguém".
Bem, não creio na bondade arbórea, já vi árvores machucarem muita gente por aí (eu mesmo sou alérgico a aroeiras), e sei que as plantas também matam por espaço, água ou luz. Mas confesso me sentir bem próximo dessa tal dendrolatria, embora ainda esteja longe de ser um especialista. Por exemplo: só há pouco descobri que as palmeiras da Osório são jerivás, e não butiazeiros, conforme registrei, equivocadamente, em tantas crônicas. Paciência, sou um animal e cometo erros, coisa que os vegetais não fazem.

Mas quero falar das visitas. Semana passada, subi a Prudente de Morais só para checar a floração das quaresmeiras — ou seriam manacás? Carreguei comigo minha filha de cinco anos, e que, estando de férias, topa qualquer programa. Lá, avaliando aquela bela mistura de flores de coloração mutante, que varia entre o branco, o rosa e o roxo, a menina logo concluiu que algumas pétalas, caprichosamente, "desistiam" de uma cor em favor de outra.

Adoro esse uso suave do verbo desistir. Minha filha o inventou depois de examinar o rosto da irmã de um mês e meio e declarar que o bebê estaria "desistindo dos olhos azuis".

Perto dali, dois pés de hibisco já bem criados, os caules retorcidos, dividem a mesma copa. No início, ainda mudas, pareciam brigar, e algum morador da rua até os amarrou com um barbante, para que não fugissem um do outro. Hoje são duas serpentes de várias cabeças, presas no próprio abraço. E, na confusão de sua folhagem, as flores se embaralham incendiadas, umas vermelhas, outras amarelas, nos dando a impressão desatinada de que cada galho tem o condão de escolher a cor do fogo que penderá de sua ponta.

Também gosto muito de uma dupla de árvores, essa bem mais inusitada, que visito no Jardim Leonor Twardowski. Ao lado do Café do Estudante, grudados, crescem um mamoeirinho e uma jovem araucária, eternamente enfeitada com bolas e serpentinas de Natal. Um dia, a araucária será uma gigante indiferente, e os poucos que se derem ao trabalho de olhar para cima ao passarem por ali se perguntarão quem foi o doido que a escalou para decorá-la.

Ótima árvore, sei que iluminará nossas noites nubladas. É uma ilusão que o acaso germinou no deserto urbano, uma miragem desprezada, apesar do brilho de seus penduricalhos. Uma araucária — quem sabe um pinheiro australiano — que é também um monumento à nossa excentricidade.

Outra trilha que costumo percorrer margeia o Passeio Público. Foi nela que, certa vez, flagrei um bêbado dormindo na grama, à sombra dos jacarandás-mimosos. A dois passos dele, uma grande garça o observava. Perplexa, a ave curtia a chuva de pétalas que o soterrava devagar, fazendo-o sumir feito um montinho de pó que a natureza varresse para debaixo de um tapete violeta.

Aliás, esse homem evanescente me lembrou de um conto de Dalton Trevisan, tão recente quanto certeiro, dedicado aos ipês da Tiradentes. Nele, o narrador nos pergunta: "Quem aproveita, neste céu de cinza, os ipês floridos na praça?".

Bem, eu tento. E aproveito também para convidar a cidade, mesmo que amortecida, a desistir do cinza. Suavemente.

Sim, seria, até que o tempo viesse de novo lhe podar os galhos, as flores, as hastes e os frutos, para com eles enfeitar o vazio de uma garrafa.

Luiz Henrique Pellanda

Gazeta do Povo 26/01/2015

Livro do céu

Passei uma parte considerável da minha vida olhando ou ouvindo a chuva em Guaratuba. Até poucos anos atrás, sempre que ia à cidade, eu me instalava numa velha casa de veraneio, típica dos balneários paranaenses, metade em madeira, metade em alvenaria, erguida lá por 1950. Toda a minha memória da chuva foi construída naquele vago endereço, que o tempo e a especulação imobiliária já vão tornando espectral.


Ali, os dias chuvosos se atropelavam sem trégua, desalojando os gambás do forro da casa. Impossível dormir com o tropel dos bichos incomodados, ou esquecer as goteiras da madrugada, as corridas noturnas com baldes e rodos, o banheiro povoado de rãs e pererecas.

Esse litoral pantanoso exasperava o menino que fui. Mais crescido, aprendi a relevar as inundações, e até a apreciá-las por outros ângulos, menos rasos. Deixava morrer minhas tardes numa cadeira de praia, na varanda semialagada, fumando meus cigarrinhos de moço. Acho, inclusive, que aquelas chuvas guaratubanas, se não me ensinaram a pensar, me habituaram à contemplação forçada das coisas do mundo. Sou grato à nobreza dessas águas.

Aliás, sempre me fascinou um verso simples – e nem sei se conhecido — de Jorge Mautner, que dizia ser a chuva "uma princesa que cai do céu". Não me perguntem o que significa; o verso nunca me pareceu muito claro, mas é de uma beleza estranha e poderosa, que me obrigava a procurar na chuva alguma humanidade que nos irmanasse, ou uma realeza que jamais pude apreender direito.

Hoje, quando venho a Guaratuba, vejo a chuva do alto de um prédio, e tudo é novo. Percebo sua aproximação minutos antes de sua chegada, aquela cortina d'água esvoaçante que vem correndo, em bloco, do oceano à areia. Ela bate pesado, feito um chicote de brilhantes, nos morros e nos edifícios; castiga a cidade que infelizmente se verticaliza, sua autoridade calando tudo diante dela: o trânsito, os pássaros, os veranistas, os cães, saudosos do luar, e os carros de som, anunciando luaus e liquidações.

Passo horas na sacada, observando o voo baixo dos helicópteros sobre as ondas escuras, contemplando essa chuva antiga que insiste em amordaçar nossa alegria. Daqui ainda avisto, num pedaço mais distante do mar, a quilômetros da costa, grandes áreas ensolaradas, lotes luminosos de água e nada mais, talvez do tamanho de cidadezinhas.

Esta aí uma bela ironia meteorológica: naquelas regiões remotas é que o verão acontece. Lá no mar é que ele é pleno, intenso e lindo, mas só para os peixes, as aves e, quem sabe, os milhares de afogados que já nos deixaram, depois de tantas e tantas temporadas e tempestades.

Não, ainda não encontrei na chuva a princesa triste de Mautner, mas posso imaginá-la, e também ouvi-la cantar à noite, e garanto que sua voz de sereia está cada vez mais atraente e perigosa.

Semana passada, por exemplo, numa madrugada quase fria em Guaratuba, me deixei embalar pelo batuque hipnótico do temporal em minha janela. O som — que às vezes lembrava tiros, às vezes tambores, aplausos, ou a fala alienígena de muitas pessoas, umas risonhas, outras lamuriosas — foi me sugerindo novas ideias, histórias e devaneios, até, aos poucos, ir se misturando a um sonho.

Dormindo, senti que a chuva também poderia ser um livro que cai do céu, um texto que lava as ruas e os restos de nossa civilização, uma narrativa fluida, disforme e com vários sentidos a percorrer, embora destinada a sempre terminar numa boca de esgoto. Podemos lê-la, secos, do topo de nossas fortalezas, mas o ideal é que seus leitores se deixem levar por aí, náufragos encharcados, bravos navegadores de meio-fio, bueiro abaixo.

Luiz Henrique Pellanda
  lhpellanda@gmail.com

Gazeta do Povo .. 10 de fevereiro de 2015