domingo, 20 de agosto de 2017

Um trecho do meu romance Febre de Enxofre:

Bruno Ribeiro


"(...) A única coisa que os fazem serem meus amigos de verdade é não serem ligados com literatura. Um é engenheiro, outro psicólogo, terceiro funcionário público. Amigos ideais. Um escritor não pode ser amigo de outro escritor, isso é o equivalente a criar uma víbora no pescoço."
Olho agora pela janela, vejo e escuto um dia de garoa e frio de Curitiba. A minha memória me leva às noites de travessia de oceano sem nenhuma visibilidade. Segue o navio a flutuar e a confiança minha está nos instrumentos de navegação, pois os olhos nada enxergam além de alguns metros adiante do olhar. Sei que a vida, a minha e a de todos os marinheiros, está se sustenta em alguma confiança no que já foi construído. Os olhos, vez ou outra, tentam saltar do corpo e em vão nada irão encontrar. Risca o mar o navio, segue a viagem em sonho certeiro do destino a alcançar. Repousa em outros sentidos mesmo em mar de balanços agitados. Olho a janela como se fosse a proa do navio. A visão dos silêncios do olhar. Os pés sobre o piso, a quietude e a confiança dos dias a navegar.

Tonio Luna

Cenas de Passadiço


Depois de muitas tentativas de tapar o ouvido das mais diversas maneiras -
com espuma protetora, abafador de obras
deixar ligado ventilador, ar condicionado
e o diabo a quatro -
(Nada disso adianta muito)
(sentimento profundo de frustração)
cheguei à conclusão de que a melhor coisa
para vencer a poluição sonora vinda
dos seres subhumanos hostis de fora -
é ouvir outra música no fone -
Escuto clássicos: Sibelius, Vaughan Williams, Debussy, Ravel
Escuto Brian Eno, Terry Riley, Tangerine Dream
Escuto progressivos italianos
Escuto jazz
Escuto
Escut
Escu
Esc
Es

E



Eduardo Guerreiro B. Losso
ainda pulsamos
do mesmo nó desatado
ainda estamos em posição de pecado
mesmo que não saibamos pulsar
ainda estamos pelados na vida
de cá
meninos que somos do mar
ainda arrastamos serpentes de lá
ainda giramos a flor no dedo anelar
meninos que somos de amar
nossos corpos de mar!

Lázara Papandrea                   
não fujo de uma rosa dolorida
nem quero a solidão tumultuada.
para morrer eu só carrego a vida."

RR

SOU FELIZ


Sou feliz;
escrevo do jeito
que quero
e penso
o que bem entender.
(Não penso
o que quero:
que o pensamento
nos leve
para o incerto;
do contrário,
não é livre,
não é pensamento.)
Sou feliz
porque sou livre;
sou feliz
porque escrevo
do jeito que quero,
do jeito
que bem entender.
Sou feliz
porque o que escrevo
serve
para as pessoas,
as pessoas,
a quem quero servir.
(Um serviço
que não dá dinheiro,
mas um serviço
que não dá trabalho.)
Sou feliz
porque sou livre
para escrever
o que bem entender;
sou feliz
porque escrevo
do jeito que quero
e o jeito que quero
é do jeito
que as pessoas
querem me ver
a escrever.

Paulo Vallim 17.08.2017

Carpa nós!

Carpa nós!
baiacú
não quer mais saber
do traíra nem pintado
de dourado
um diz que o outro
queria robalo!
essa história deu
o maior linguado
dizem que o traíra
mandou o baiacú
(vejam só) tomar
... no rabo!
o peixe fedeu
mas não se rendeu
à isca do outro
sacudiu o rabo
e lançou seu olhar
de peixe morto

Chris Herrmann

Que falta faz a chuva

Que falta faz a chuva
Lavando os seus olhos nos meus
Uma vez você me disse que Deus morava na chuva
E dançava nu nas gotas azuis
Nunca mais ela me pareceu a mesma
Ganhou corpo
Ganhou forma
Ganhou beleza
Ganhou luz
Ganhou nudez
Ganhou Deus!

Lázara Papandrea

OS DOIS TIPOS DE CU


Há dois tipos
de cu.
Os generalistas
expelem,
é verdade,
urina,
mas também
ovos.
(E não só:
além dos ovos
comuns,
úteis
para a alimentação
ou à reprodução,
expelem
esses cus
ovos de ouro,
e às vezes até
ovos
de colombo.)
Dos cus
especializados,
coisa diferente
não sai.

Paulo Vallim - 20.08.2017

“ela é o vento…”


.
ela é o vento que você nunca deixa para trás
gato negro que você matou num lote vazio, ela é
o cheiro das ervas de verão, aquela que espreita
pelos armários abertos da infância, ela tosse
na sala ao lado, pios, ninhos em seus cabelos
ela é íncubo
face na janela
ela é
harpia na sua saída de emergência, estatueta de mármore
talhada na lareira.
Ela é cornucópia
que lamenta na noite, abraço mortal
você não pode interromper, olhar negro cristalino
de garotas loucas entoando cânticos por trás da engrenagem, ela é
o silvo em suas despedidas.
Grão negro no verde jade, som
do silencioso koto¹, ela é
tapeçaria incinerada
em seu cérebro, o manto flamejante
de plumas te carrega
para montanhas
enquanto você corre em chamas
até
o mar negro
Diane di Prima (1934)

¹Koto é um instrumento oriental, semelhante à cítara
Tem muita coisa triste nesse mundo, mas nada me parece mais triste do que ameaçar crianças com o fogo do inferno apresentando a elas esse deus vingativo a quem se deve temer. Estava assistindo um documentário sobre o Jalapão, região linda, montanhas, cachoeiras, toda liberdade e uma destas igrejas lá instalada infernizando a vida das crianças. Uma demônia de uma pastora ameaçando com o fogo do inferno as pobrezinhas. Imagino-me criança, com toda a liberdade e contato com a natureza que tive, e dou graças ao Deus dos passarinhos não terem me colonizado em nome deste deus malvado, que lava as almas e as salga, para que nenhum pasto bom delas brote mais.

Lázara Papandrea

OS VERBOS IRREGULARES


Em qualquer língua, creio,
o uso intenso
e constante
fez com que os verbos
mais conjugados
se tornassem
irregulares,
como o verbo ser.
Os verbos
mais conjugados.
Talvez por essa razão
em qualquer língua, creio,
o verbo amar
permaneça regular.
Paulo Vallim - 20.08.2017


As não terráqueas:


Na mesa ao lado sete mulheres, todas louras, altas e magras, cada uma com uma tatuagem de um ET no meio do antebraço direito. Devoravam pratos gigantes: batata, arroz, batata, arroz, e nenhuma carne. Eu via e não acreditava. Pensei em fingir tirar uma selfie, mirando na verdade um dos braços tatuados, mas fiquei com medo, sei lá, no mesmo instante do pensado uma me olhou e riu riso estranho e profundo. Entretanto, o que mais me encabulou foi como é que conseguiam ser tão magras devorando aquela comida toda? Juiz de Fora tá um perigo à noite!

Lázara Papandrea

Quinto Ato


Lembras quando me vistes morrer?
Mão estendida, palma crua,
vida nua,
presa na janela
por um lençol
amarrado,
nó sobre nó.
Então trouxestes vinho
e manchastes o lençol,
como que para tirar
da morte o gosto seco,
o sangue morno
e ainda assim calar,
roubar daquilo que gemia
a voz torpe,
da autopiedade.
Morri torcida entre fibras
urdidas num dia sem sol.
Morri,
regada a vinho barato
rindo de ti que permanecias.
Pensavas que a morte era eterna,
que o fim sossega o pranto
naquele silêncio branco.
Aquele,
do doce de espuma,
da bruma na lua,
da cama
na primeira luz da manhã.
Morri no escuro,
no entanto vivo,
aqui, bem abaixo de ti.
Vejo teu rosto ao vento
cravado pelo tempo,
rasgado,
dilacerado.
Aqui te espero chegar,
mesa posta,
castiçais vermelhos,
taças de cristal.
Beberemos teu vinho,
sorrindo
das armadilhas
no imenso quintal.
Taniamares


UM HOMEM


nisto resulta - inflar as tripas com
tanto silêncio;
e ter o peito fechado
na redoma.
há tanto de ti morrendo lá fora
que chega ser impossível dormir
com um
cadáver desse.

Dom Jorge

Mamíferos indefesos in Blues


Amor de Abutre


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

se vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal ... e para ele faz frio nas campinas. e eu ouço quase... nada ! ?
Adriana ZApparoli

fotograma


o cais conta as gotas do oceano
e as impossibilita
som estéreo no fim do dia
o humor emancipou-se
na derrapagem da curva fria
a operação algébrica zerou
a quilometragem das ruas
feito gatos perambulando
onde a seda sabe mais
o antônimo de mãos dadas
não cabe numa foto
e transborda todo copo
Sergio Villa Matta




A maternidade entardeceu-me
O verão quente da juventude
Passou...
Chegou o outono
E seu fim de tarde
A barriga cresceu
Tornou lua cheia
Os seios grandes
Bicos abertos
Esguicham leite
O rosto redondo
Os lábios grandes
E a fúria da luta
A cria chegou
Com promessa de futuro
Com fome de presente
Estava tudo pronto
Meu colo e minhas noites
Nossas mãos e nossos olhos
Não havia o que temer
Depois de tudo, juntas
O mundo é pequeno
Imenso é o nosso amor
De carne, alma, e silêncio
Pequena é a vida
Imenso é o tempo
Sem fim.
(Mariana de Almeida)



Nadei...nadei...nadei e morri na praia por nada
pois vivo no país do esquema e
no conto da fada safada
virei um demente na utopia do sonho
saquearam minha mente no onírico poema
hoje me sinto cético e bisonho.

Gmcm

Ressaca


Depois do amor
inundar,
veio este
seco silêncio
onde fui encalhar.
Eu sequei,
de tanto escoar.
Seco o céu,
seca a cama,
seco o doar.
Convoco saliva,
parece que
não vai dar.
Como não sou
baleia,
nem o greenpeace
vai ajudar.
Ressecada
e sem som:
espero
a maré
mudar.
Ou será,
esta secura,
um recuo
de tsunami
que voltará
para nos
inundar?

Luciana Cañete
No caminho que a vida nos leva,
a gente sempre encontra pessoas
que nos acrescentam alguma coisa
e outras que tentam nos diminuir.
Todas essas pessoas tem
o seu direito de existir,
mas cabe sempre a cada um de nós
jamais esquecer nosso objetivo
de chegar onde a gente sempre desejou ir.

(Kadu R. Matos)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Colorido do azul neón

De fato, ilhado, ao sol
Noites iluminadas

Refestelam-se as notas
Na pauta,
Banquete de símbolos.

Busco uma verdade
Uma saudade, um ramo
Santo, ou não-pranto
A soçobrar o altar de mim
Aos pés do universo

Chovem sóis
Em meu mundo

Nenhum como olhos teus
Perene de lágrimas

Tão fortes e hirtos
Seguem declarando a guerra

Não sou,
Nego o meio, o refreio
O feio e o ardor

Suave como a clave
Sua suástica retida
Na alfândega do ego
Alimentado pela TV

Passam-se os dias
Em galope

Cantarei epopeias às
Searas de ideias
Que me sobrevém

Não conheço noites a
Não ser as de aquém

Suspiros devolutos em
Teus cálculos

Baco dança depois da aurora

Uma criatura de musgo róseo
Assombra em tentáculos
De convicção
Em espetáculos
A polinizar seres

Auto hospedeiros

E suas históricas proto
Poéticas

Muitas mãos
Curitibanas

Ao sol da televisão.
               
Anderson Carlos Maciel

sábado, 12 de agosto de 2017

Hoje eu senti vontade de escrever...
Não precisava ser um poema,
tão pouco algo que viesse a me enaltecer
bastava que fosse uma coisa bonita.
E depois de muito pensar,
cheguei à conclusão de que,
tudo o que hoje eu tenho a escrever
é um agradecimento a quem
acrescenta algo de bom à minha vida.
Sendo assim, mando aqui meu abraço
a cada um de vocês que tem a mim como amigo.
E peço a Deus não me permitir esquecer,

que no meu coração, todos vocês tem abrigo. 

(Kadu R. Matos)

Na noite passada, fui levado por uma entidade vestido de branco, não era por um túnel iluminado, mas um corredor de meia luz azulada.Parecia-me que estava dentro de uma grande casa de madeira, indagava esse ser, sobre, minha amada, ele não me respondia, o suspense deixava-me angustiado. De repente olhei para um aposento, e lá estava Julia com olhar pensativo e triste como que se convalescendo. Ao me ver, ficou emocionada, parecia não acreditar, seus olhos sorriam, eles verdadeiramente brilhavam como nunca antes havia visto, Foi um belo presente, uma grande surpresa preparada pelos mentores do mundo espiritual para nós dois! Acordei , voltei do mundo real feliz com a sensação do encontro.



 Julio Damasio

Inverso


O homem comum se sobressalta,
Com a dor e o sofrimento;
O poeta sobrevive e fantasia,
Amenizando assim o tormento.
O que para um é real,
E não admite ironia;
Para o outro é conseqüência,
De um viver cheio de magia.
Perdura a arrogância,
Daquele que não ama e não se deixa amar;
Enquanto, se entrega a emoção,
O sábio que se permite sonhar.
Sente-se a dor da amargura,
Dilacerando a realidade;
Porquanto, cultivando a ilusão,
Vai amenizando a verdade.
Se são dores sofríveis
Que fazem fenecer a primazia,
Eu, que sou feliz poeta,
Transformo tudo isto em poesia.


Joana Rodrigues

A VERDADE E O PÁSSARO




O pássaro na gaiola
É a melhor figuração da verdade
Que enquanto está voando,
Ainda não é a verdade
E quando está na jaula,
Já não é o pássaro.



Igor Buys

A FORÇA... AMOR E PAZ





A Paz é harmonia, serenidade e sabedoria.
O Amor é amar à Deus e a seu semelhante.
Trazemos conosco uma condição de harmonização, natural,
silenciosa e sábia; uma grande força.
Uma força tão poderosa que pode unir povos,
estabelecer formas de relacionamentos, aumentar a produtividade,
a criatividade de uma nação e equilibrar todo um planeta.
A paz não é uma simples palavra romântica, é uma ordem,
uma lei natural que rege o seu interior e a Universalidade.
O Amor também não é só gostar e fazer sexo com outra pessoa.
O Amor é tudo...
Quando se tem Amor, se tem Força e Paz!




DINO COSTA.

Modus Operandi



Se não és senhor de ti mesmo, ainda que sejas poderoso, dá-me pena e riso o teu poderio.
(Josemaría Escrivá)

Inventei outra dor. A de ontem era insuportável, estava aprisionada com seu destino de dias memoráveis, na cela pretensa da previsibilidade. Esperada. Morrerei de uma dor amorfa e estrangeira, distinta, incoerente. Uma dor homicida, que furará com olhar de desdém, as muitas que já senti.


Julio Urrutiaga Almada do Livro Caderno de Ontem
Baco fez seu império
libertando performances
Criadores
Poetas
homens comuns de lentas atitudes

Baco posta- se à mesa
Com os copos certos
Serve- se do poder
Da paixão
Liberta o que se faz escuso
Dá voz ao fraco
acende a tocha das verdades
Não tolera a rigidez formal
Enlouquece em ardor os homens
Faz gemer de cio as mulheres

E depois narcotiza em delírio a realidade
Oferece a dádiva do esquecimento

Todos os convivas conversavam em tom próximo do silêncio
Ao fim , falavam de si
, da vida e seus tormentos
Quedaram - se mudos
Sem culpa
Libertos da sofrível mentira do veneno do olhar alheio

Cristina Siqueira

Álbum Cristina Siqueira
Trancafiei minhas ideologias no fundo de minhas memórias, entregando-me ao fanatismo mundano e pagão. Ouvi os absurdos embutidos e inversos ao bem comum, onde, atrás dos bastidores de cortinas de sedas brilhantes, a força negativa imperava soberana. Falaram-me de demônios, controladores de almas não tementes, ensinaram-me... Induziram-me... E me obrigaram a seguir cegamente os passos indicados por pobres e horrendos pregadores, gananciando a herdança terrena. E todos à sua frente, inclusive eu, caímos por terra, de joelhos. Acreditamos ser real quando suas mãos estendidas nos guiavam pelo túnel, iluminado em seu final. Esbravejaram! De dedo erguido e em voz alta expulsaram todo o mal. Eu vi e ouvi, e acreditei. Deixei corroer minha alma, enferrujar meu sangue com palavras de falsos significados e apodrecer minha pele em chagas profundas, quase incuráveis. Porém o espelho da vida não tarda. Refletiu as costas dos abastardos oradores. Suas verdadeiras imagens ecoaram reluzentes sob o templo das perdições, nos porões imundos de tesouros profanos e cruéis... Um dia, toda a verdade virá à tona; basta a nós paciência e sapiência.

Albérico Agripa.


(11/02/2016)

Lenda da Casa dos 110 Caixões



Numa cidade do interior do Paraná, uma idosa resolveu alugar um depósito que ficava no terreno de sua residência. Então, ela colocou um anúncio no jornal. Logo, ela recebeu a visita de um representante de uma firma interessada. Este homem disse que usaria o depósito para guardar roupas chiques. Assim, ele assinou o contrato que garantia o uso do local por um ano e pagou só o primeiro mês de aluguel.

Vinte dias depois, a anciã teve uma surpresa: chegou um caminhão da firma com 150 caixões. Desta maneira, eles foram colocados no depósito.

Os vizinhos descobriram a estória e começaram a tratar a pobre da anciã com certo preconceito.
A empresa que contratou o galpão ficou, praticamente, um ano inadimplente, pois não pagou os outros onze meses do aluguel. Para compensar a dona do depósito, a empresa deu 110 caixões para ela. Assim família desta senhora tentou vender os caixões, mas ninguém quis comprar. Sem como manter estes objetos lá, a idosa transferiu os caixões para a casa da sua irmã. Porém, os vizinhos passaram a tratar esta outra mulher com preconceito por causa dos caixões, também. O problema é que uma vizinha inventou histórias fantasiosas sobre esta casa com 110 caixões. Uma vez, ela comentou ver vultos tentando entrar nos caixões de madrugada. Na outra vez, esta mulher confirmou que estava voltando de uma festa de noite, quando foi abordada por uma moça ensanguentada que disse:

- Sabe onde fica a casa dos 110 caixões?

- É que eu morri agora, fui jogada no mato, e queria ser enterrada num caixão bem bonito.
Segundo a mística e sensitiva Consuelo Hernandez é impossível um espírito que foi assassinado, ou, morreu num acidente procurar um caixão. Pois, conforme esta paranormal, as pessoas que falecem de um jeito brutal não tem a real consciência de que morreram de verdade. Portanto, a história de uma alma, que morreu brutalmente e procurou um caixão não tem fundamento dentro da corrente espiritualista.
Mesmo assim, vamos torcer para que a dona dos 110 caixões consiga vender estes objetos.

Luciana do Rocio Mallon


Mulher



Foi ontem. Formatura da FAP - Faculdades de Artes do Paraná. Foi ontem. Discursos emocionantes. Como a arte dever ser. Descobri! A MULHER é uma arte que nasce pronta. Dúvida? Educadamente. Solicite a uma que levante seu pé. Educadamente. Na sola. Estará lá. Assinatura do maior artista de todos. DEUS.
Já o homem. Pobre homem. Todo quadrado. Sem graciosidade. Sem molejo. Também, antes de uma grande obra, tem-se um rabisco.


Mario Auvim
Não podemos nos encontrar nos outros.
Não podemos viver para os outros.
Não podemos ser o que os outros querem que sejamos, porque o que
desejam não é o que somos.
Esta é uma verdade tão simples, no entanto, é talvez a maior causa do
sofrimento e luta psicológica humana.
Muitas vezes é mais simples para nós tornarmos-nos o que os outros
desejam,
mas, ao fazê-lo, renunciamos aos nossos sonhos, abandonamos nossas
esperanças,
passamos por cima de nossas necessidades.
Isto faz com que nos sintamos fracos, impotentes, sem um ego
verdadeiro.
Possuímos tudo que é necessário para nos tornarmos o que somos.
Inicialmente devemos, nos aceitar como somos com todo nosso potencial.
Devemos seguir nossos impulsos em direção à auto-realização de uma
forma pacífica, paciente e disciplinada.
Munidos da ousadia para voltarmos para dentro, e nos livrarmos da
tirania das vontades dos que nos cercam.
Devemos determinar nosso caminho.
O amor não pode ser justificativa para dominação.
Há uma expressão verdadeira que diz: "Use as coisas, ame as pessoas".
É assustador como muitas pessoas fazem justamente o contrário em nome
do amor:
Pais que usam os filhos, maridos que usam as esposas, educadores que
usam os alunos,
radicais que usam a sociedade, pessoas que nem ao menos se conhecem a
si mesma, usando, caluniando outras pessoas.
Usam as vidas dos outros para afirmar a própria natureza e valor.
A dominação em um relacionamento, não importa a que título, jamais
será amor.
"O maior bem que podemos fazer para a humanidade, e principalmente a
si próprio;
É nossa própria auto-realização a nossa autodeterminação".




DINO COSTA.

Pássaro Na Poça Da Água



Após a chuva de verão, veio o Sol...
Mais brilhante do que qualquer farol!
Ele ilumina a poça da água da praça...
Com a sua luz repleta de graça!

Um pássaro vê esta humilde poça...
E com o próprio bico se coça!
Assim ele entra dentro dela...
De uma forma doce e singela!

A poça, que antes da ave era barrenta,
Poluída, suja e muito nojenta...
Com a presença da ave se torna pura...
E toda a sua alma triste e escura...

Vira um espírito transparente...
Graças ao pássaro inocente,
Que lava suas penas com alegria...
Formando um arco-íris de harmonia.
Luciana do Rocio Mallon


MORTE, LUZ DA VIDA



De um modo geral, a ideia da morte nos leva aos sentimentos de perda e
nos faz acordar, provoca, tira o sono, nos excita e desperta o desejo
da dor.
Trata-se de uma espécie de dor psíquica, a qual muitas vezes acaba
também gerando dores físicas, ou criando uma dinâmica incompreensível
para quem a vida continua sorrindo.
De qualquer forma, pensa-se na morte e, como não poderia deixar de
ser, acompanha sentimentos dolorosos.
Tristeza, de finitude, de medo, de abandono, de fragilidade e
insegurança.
Durante a fase de enfrentamento da morte, o "ente-querido" é
estimulado a profundas reflexões sobre a própria vida; se lhe foi
satisfatória sua trajetória de vida, se houve algum desenvolvimento
emocional, se pode criar vínculos afetivos fortes e permanentes, se
ele pode auxiliar a outros seres humanos.
Cognitivamente poderá ser possível que, apesar de doloroso, esse
momento possa ter um importante e saudável balanço emocional.
Os cinco Estágios da Dor da Morte são: negação e isolamento, raiva,
barganha, depressão e aceitação.
Negação e isolamento: não persistem por muito tempo.
Raiva: Junto com a raiva, também surgem sentimentos de revolta, inveja
e ressentimento.
Barganha: A maioria das barganhas é feita com Deus e, normalmente,
mantidas em segredo. (não se pode barganhar com Deus).
Trata-se de uma atitude evolutiva; negar não adiantou, agredir e se
revoltar também não, fazer barganhas não resolveu.
Surge então um sentimento de grande perda.
Depressão: o sofrimento e a dor psíquica de quem percebe a realidade
"nua e crua", como ela é realmente, é a consciência plena de que
nascemos e morremos sozinhos.
A depressão assume um quadro mais típico e característico; desânimo,
desinteresse, apatia, tristeza e choro.
Aceitação: Esse é um momento de repouso e serenidade antes da longa
viagem.
Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós.
Agradecendo ao "saudoso" Steve Jobs, que disse :"Lembrar que estarei
morto em breve é a ferramenta mais importante que eu encontrei para me
ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – todas as
expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo de errar – cai
diante da face da morte".
A Morte é Vida, é Luz!
Só nos cabe entender e aceitar as verdades divinas como algo imutável
e necessário para o nosso crescimento.
Para alguns a Morte é o fim; mas para muitos... A Morte é o
Principio.
Que Deus esteja sempre em seu Coração!




DINO COSTA.

espírito santo mata mulher
espírito santo mata
gay criança e trans
espírito santo produz pó
espírito santo respira ferro
(e dor)
espírito santo tem pastor (no senado)
espírito santo tem horror
espírito santo tem vergonha (do sagrado)
enjaula preso
enjaula louco
espírito santo não é barroco (mas é colonial)
espírito santo tem porto
espírito santo teria pré-sal
tem água podre de ph ácido
tem malta de mauros e lobos
ladrões tem ferros, tem ferraços
a exaltar ferraduras e marcas na pele
espirito santo repele
a lei que proíbe atravessar
a pé a ponte, a ponte
aponte o culpado
espírito santo mata muita mulher
muito negro muito viado
espírito santo
gosta da lei de mercado
espirito santo nem é do diabo
é o que dizem.

Rogerio Leone




Ele, o pai


Fui ao seu enterro quando eu tinha dezenove anos. O mundo parecia ter desabado no meu peito. Me senti abandonada. Demorei a entender que ele tinha me deixado uma herança única, muito valiosa: nossa história vivida até então, com todas as alegrias e mágoas. É como um livro que cada vez que releio, aprendo a gostar mais e a entender melhor suas entrelinhas. É por onde ele me diz que não morreu. Não para mim.
Chris Herrmann

Tocaia


Ferida No Peito



Deixei uma ferida no seu peito,
No meio do seu sagrado leito,
Eu acendi um cigarro...
E num simples esbarro...

As cinzas caíram na sua pele morena...
Bem no palpitar do seu gelado peito,
De uma forma cruel e, ao mesmo tempo, serena...
Mas, quando notei, o mal já não tinha jeito!

Deixei uma marca eterna,
No seu peito puro e inocente,
De uma cinza fraterna...
Que caiu em brasa quente!

Não foi marca de bala perdida,
Nem da faca mais prateada,
Foi a marca de uma triste ferida...
Que deixou cicatriz no meio do nada!

Deixei uma marca no seu peito...
Com sabor de aventura,
No meio do seu leito...
Nas cinzas da loucura.

Luciana do Rocio Mallon

MULHER...PRIMEIRA MARAVILHA DO MUNDO!


Do Mundo Mulher...
Você é a Primeira Maravilha!
Da Estátua de Zeus Olímpico a Diana de Gales,
Do Templo de Diana a Evita Perón,
Do Colosso de Rodes a Cora Coralina
Do Mausoléu de Halicarnasso a Joana d'Arc,
Do Farol de Alexandria a Cleópatra,
Dos Jardins Suspensos da Babilônia a Marilyn Monroe,
Das Pirâmides do Egito a Grace Kelly,
Tudo me leva a Você!
Mulher, Amiga, Namorada, Amante, Esposa, Mãe, Heroína e Santa.
Preciso te Ver, Rir, Ouvir, Tocar, Provar, Sentir e Amar ...
Suas palavras acarinham,
Seus carinhos enfeitiçam,
Seu sorriso ilumina o dia escuro,
Seu amor é o sol que me aquece...
Seu colo é o sonho de um menino
que de proteção carece.



DINO COSTA.

quando o poeta não faz mais sentido



e quando a tua mão me derrotasse

e quando o teu amor me percorresse

e quando a tua carne me encontrasse

e quando a tua faca me rompesse.


se acaso a tua raiva me matasse

se acaso a tua dor em mim doesse

e eu, vão, na tua pele então ficasse

e um tiro de paixão me derretesse.

se acaso a tua boca me furasse

o grosso do meu olho e me esquecesse.



romério rômulo

fonte : jornal ggn

terça-feira, 8 de agosto de 2017



Conhece-te a ti mesmo
                 (Oráculo de Apolo)

Não pelo sentimento,
Vácuo, ou árduo - voga
Nem pelos medos
Ou
Piedades suscitadas

Não há rumo, não há cimo
Não há rima, não há colo
Ou solo rio acima, ainda
Finda
Ou não finda,
Se quer, se não quer, veja
Enseja o sol o teu caminho
Metabólico.

Não há, céus abaixo
Se acho, se não acho
Achismo, facho simétrico
Para o bolo indolor dos
Reinos das sombras
Impostos às nossas luzes
Pós-iluministas.

Outrem resguarda a farda
Em calda, cadáver e carta
Qual aquilo que não me falta
Qual semblante moral
Agoniza
Granizo e tez de féu granulado
Nas sopas de alguém.

Vomitam sóis
Devoram luas

Reagem ao inverso do verso
Por desconhecer o enigma de si
Tão certo

Quanto dois mais dois
São sós.

Não me conte, não me fale
Não me ensine
O sabor do beijo

Implorando piedade e
Ajuizando critérios do ser

Superior

Sou entremeios, meus colares
Falares
E refreios, inculcado nos veios
Do pretérito singular.

Nem tuas mil montanhas.
Nem teus quinhentos vales
E nem teu insosso mar.

Trariam os olhares paradisíacos
Para a eternidade

Serena


Do meu versejar.

Anderson Carlos Maciel


domingo, 6 de agosto de 2017

RISCOS


comecei
ao pé da folha
riz raiz relva flor
(mansa e bela!)

depois
 numa corola-amarela
pintei um beija-flor
rabisquei um sol ocre
quase clarinho
e fui atrás do azul
para realçar as nuvens
e preencher um canto
que padecia sozinho

e foi urgente
derramar um mar
e um barco à vela
escancaradamente
bela disposta em arcos

dali
em brumas
brancas e espumas
fiz um rapaz de cara sagaz
no canto esquerdo do
peito do papel

nele pus um chapéu
uma gravata laçada no
pescoço e um ar de bom
moço e recortei-lhe uma flauta
para solfejar as linhas e me fazer
uma canção naquela pauta

dó. mi. lá. ré. fá. sol.
si. si. si. si. si. e se?

arrisquei  um mi
e me tatuei lá bemol
em plena clave de sol
ao pé de ti.


lilly falcão, in 'clave.de.sol'

1.


Está doendo em meus ombros
uma cesta de impérios (dinastias
arrastadas em meus braços
sobre o penhasco dos séculos); está
doendo em meu sangue,
em minhas etnias.
(As casas velhas derramadas
sobre a memória; o abrigo
dos que morreram
sem o nome de um deus
nos lábios...)
Está doendo o que tosse
na noite fria; doendo
o que naufraga com os pés
no chão.
Siderado em meus rastros
carrego o troféu desse anônimo
cortejo; dessa lenda
misturada ao pó --
nos corredores de manhãs avulsas,
com seus barcos ancorados
nas pupilas.
Está doendo a sucursal de mim,
nas palavras a crédito.
Ante
os que matam por caridade,
e os que mentem
como se rezam;
ante
as tarifas do paraíso.
Desse havido às mutações
da usura, são
estas hélices de fogo.
E o poema falando com as pedras.

SALGADO MARANHÃO

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

POEMINHA DA MAIS PROFUNDA INDIGNAÇÃO


POEMINHA DA MAIS PROFUNDA INDIGNAÇÃO

meu mundo caiu
mas estou de pé
tenho muita fé
mas puta que pariu!

antonio thadeu wojciechowski

os cáctus infernais da poesia
só me pisam o corpo nos espinhos
ao me domar a vida em água fria.

vou me enterrar nas losnas e nos vinhos."


("fragmento", romério rômulo)

Diálogo com Paul Klee

Diálogo com Paul Klee - prosa poética no site mallarmargens
Bárbara Lia
escrevo um livro a dialogar com Paul Klee
como repercute a dor no artista
Klee morreu em 1940 vitima da esclerodermia
no site mallarmargens, minha mínima homenagem a Paul Klee



Pátria armada


Um arquipélago, uma alcateia
Uma platéia
Uma ideia

Longe se vão os olhos carniceiros
Dispamo-nos de nossas carnes

Flua o rio de sangue

Pétreo engenho ou
Empresa, nuance, radiação.

A racionalidade é uma surpresa
Que jaz no coração, dentre
Olhos, dias, dentes, armas
Rios poluídos
E cérebros evoluídos pela
Irreal perfeição.

Mudaremos o mundo
Onde pisamos, diariamente
Basta de florear as palavras
Basta de respirar o ar

As notícias cavalgam virtudes
Ao que se alude ou não se alude
Sói ser o exemplo tão raro.

Pois noites em claro
Pois sóis ao luar.

Náufragos do mar
De excremento moral
Da vida pública brasileira
Aquiescem o ser, filosofia

Em dia-a-dia, a vida vazia
Diz morte ao capital.

Sou o pároco iluminista
Da razão artista
Inserção e pão
Quando benquista se eleva
Por patamares de igualdade
Das páginas do livro
Que ninguém lê antes de opinar.

Reverbero fluídos
Horizontais, cardeais do nascer
Da consciência e forma

Nuances do belo estético
Lodaçal de ignorância

Pois uma criança
Olhos inconclusos

Escárnio proto-patriótico
Salutar.

Anderson Carlos Maciel

sábado, 29 de julho de 2017


Cigarras no apocalipse
São poetas em desalinho
Gestados no ventre escuro
Ninfas subterrâneas
Emergem em canto e vôo
Ao som da trombeta
De um anjo sem olhos.


Bárbara Lia _ fragmento da poesia _ Cigarras no apocalipse (21 gramas/2010)
“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos” _ Emily Dickinson _



Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas

Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway.

Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way


_ Bárbara Lia _ A flor dentro da árvore
solidão _ brisa de maçã
paraíso em câmera lenta
aprendi a caminhar no vácuo
_ oco sem fim _
das almas inóspitas

Bárbara Lia


Fique em silêncio
como um ramo seco
Vem aí
uma primavera
te florindo


Bárbara Lia

SOPRO DE DEUS



Sigo distraído e breve – piedade na alma,
opulência no calabouço.

Sigo sereno, neblina me abraça.
Meu corpo um jarro de esperanças.

O amor – única navalha que me corta.
Aprendi que somos sopros de Deus – instantes.

Bárbara Lia/


manhãzinha fria –
a chegada do verão
tá no calendário

José Marins

O VALE DO MEL

neste momento
nenhum ruído
arruina o belo
uma colméia
mais culta
que a humana
recende mel
oculta
e me faz a
indecorosa pergunta
se a vida de merda
que a gente vive
na selva
vale eternamente
o vale de mel
deste momento
exalado
perfeito

Adriano Do Carmo Lima


29 07 2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Passeante invisível

Nunca ninguém o viu. Nunca ninguém se deparou com ele ao dobrar uma esquina, fosse noite ou dia. Nunca ninguém duvidou que ele se passeava invisível por toda a cidade. Alguns afirmavam ter entrevisto sombras que eram indubitavelmente do passeante invisível. Alguns afirmavam ter ouvido sons abafados, momentâneos arrastamentos de pés, que comprovavam que ele se passeava por ali.
A cidade é feita de muitas estruturas artificiais. Os homens precisam de um lugar coletivo para viver. Estarem juntos dá conforto e segurança, mas demasiada proximidade torna-se inquietante. Estar a sós com outro homem numa rua deserta, noite alta, é tão ou mais assustador do que enfrentar os silêncios e os ruídos da noite na floresta, na serra, no campo. Os homens precisam de estruturas, muros que os separem dos outros homens. O passeante invisível construira a cidade, mantinha as estruturas fortes, escorraçava os inimigos, assegurava os fornecimentos. Ele é forte e destemido; passeia-se por toda a cidade, sobretudo no ermo da noite. Dizem. Porque veem sombras, ouvem certos sons reveladores, porque só pode andar por lá, invisível.
— Olhem, lá vai a sombra dele, por entre os pilares daquelas arcadas — diz um.
— Olhem, vi agora mesmo um reflexo dele no vidro daquela montra — assevera outro.
Ninguém punha em dúvida estes avistamentos fantasmáticos. Toda a gente sabia que o passeante invisível andava por lá. Nalgum sítio havia de estar: nas arcadas, nos vãos das portas, nas gares rodoviárias ou marítimas. Os seus sinais vislumbravam-se sempre a desaparecer por detrás de alguma estrutura da cidade. Ele andava lá, mas invisível.
Conta-se que, em tempos que ninguém já recorda, um jovem, irreverente como todos os jovens, ao ouvir alguém dizer, pela milésima vez, que acabara de avistar a silhueta do passeante invisível, não se conteve, como seria prudente:
— O passeante invisível não existe!
Um grande burburinho se gerou entre os que ouviram tal dislate. Quiseram bater-lhe, ou então que retirasse o que tinha dito, que pedisse desculpa.
— Quem é que achas que construiu a nossa cidade, mantém as estruturas fortes, afasta os nossos inimigos e assegura os fornecimentos de que a cidade precisa? — confrontaram-no.
O jovem ainda tentou persistir no erro, mas compreendeu que estava isolado e desacreditado. Pediu desculpa.
O alcaide, no entanto, não hesitou em tomar medidas que devolvessem à população toda a confiança eventualmente perdida e até a reforçassem. Emitiu um edital anunciando que, a partir de então, por especial mercê do passeante invisível, ele passaria a usar uma roupa que o tornasse visível e identificável. Além disso, quem quisesse ver a roupa por ele usada, bastaria dirigir-se à alcaidaria onde estaria exposta numa câmara junto à entrada.
Os muitos cidadãos que lá acorreram viram o que parecia andrajos de mendigo, dado o seu aspeto miserável, mas todos compreenderam que eram os mais adequados para alguém tão humilde que evitava mostrar-se. A confiança de todos fortaleceu-se. O passeante invisível continuava a proteger a cidade e agora podia ser visto. E mais frequentemente passaram a avistá-lo nas arcadas, nos vãos das portas, em outros abrigos precários. Se não era ele, parecia, pelos trajes.

Joaquim Bispo



* * *
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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Intempéries sobre a crosta do sal



A decair
Rir
E navegar.

São
Riachos ao
Mar

Sempre
Compreende
Quem quer

Ou

Enleia
A aldeia
E
Mareia
O luar

Livre, branco,
Santo, rito, norma,

Forma

Dorme, sem par

A peste merece
Apodrecer
Em flor

Adubar-se a si
E se adubar
Regar enfim

Para no fim

Alguém amar
Teu féu
Tão céu a ti

Estrelas penduradas
Aos cacos

Tua constelação
De faz-de-conta

Para navegar no barco
Do real

Solidão.

ACM

Incorpóreo corpo-neón



Novas linguagens
In-expressam
Se apressam em ser
O ser

O mote da ode
baila a música que quer

Quando dois ou mais
Símbolos
Arregimentam egos

Nós esfumaçamo-nos
Em pares
Quais ares matinais

O poema e não
Poesia
Mar e não marés

A ferida deste ou daquele
Adeus
Entre os meus pais
No mesmo coração
De esmeralda bruta

A chacota iletrada
Julga-se feliz
A descolorir-se em
Gargalhada

E corroborar o vácuo.

Ao fundo soa a trombeta
Em canção

O sofrimento apenas
Indicara o caminho

Hoje
Sempre
Nunca

Ao léu de si
Uma ponte para o nada

Cardumes de sonhos
Boiam
Jazidas tóxicas do futuro

Progresso, sim
O progresso

Nuances do amanhã
Sem cor.

ACM
então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia

TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo
2
a sensação de estar aí mesmo
harmonia não necessariamente cósmica
plenitude muito pouco mística
porém simples proximidade
da aberrante experiência de viver
algo como o calor
sentido ao lado de uma forja
(talvez devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
deixar-se conduzir consigo mesmo)
ao penetrar no opalino aquário
(isso tem a ver com estarmos juntos)
e sentir o mundo na temperatura do corpo
enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
então
o poema é despreocupação


com a cabeça pousada
nas pernas da avó
a saia de brocado
pinica a orelha
esquerda.
cantarola salmos e vai à caça
distraída.
o pente-fino é azul.
as varizes na panturrilha dela também.
os dias e a toalha de mesa.
o pente-fino
atravessa meus cabelos de diaba
as crianças dizem diaba
eu nunca digo.
um pouco amansados
(não o suficiente)
com álcool e cravos
nada
enquanto a avó ajeita os óculos,
procura bichos em mim.
a mesma que estoura as lêndeas
as unhas imensas.
como se vingasse
suspeito
o que não caberia na casa.


de NATASHA FELIX(1996) poeta santista, está vivendo em São Paulo e cursa letras na USP. Publicou o zine anemonímia (2016) e tem poemas por algumas revistas digitais e físicas. Os textos podem ser encontrados na Mallarmargens, Medium, Nó de 8, Garupa, Raimundo e soltos em sua página pessoal do Facebook. Natasha Felix está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...

Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=51457

Poemas de Sérgio Castro Pinto

RECADO A POUND
pound, eu não sou
nenhuma antena.
eu sou a pane
e a interferência
dos meus fantasmas
no tubo de imagens dos poemas.

EXÍLIO
desarvorada,
a madeira
do móvel
desata
os seus nós e estala
a árvore que foi (no exílio da sala).

LAPIDAR
em cada verso
que escrevo,
eu me parto.
a folha é lousa.
poemas, epitáfios.

DOMICILIARES
a) bêbado, cadarços são rédeas
que me põem os sapatos.
bêbado, não chego.
bêbado, os sapatos
me entregam em domicílio.

O LÁPIS
o lápis
é um caniço
pensante
na maré
vazante
da linguagem


Sergio de Castro Pinto

A SE DAR


o silêncio aberto e minhas mãos percorrem
a aparente distância que há nos lugares
a água nesses rios que sempre correm
é a mesma, é a chuva a se dar nos ares
no tempo tudo vai e vem a unir
aproximam-me terra e céu, noite e dia
os enredos lá se vão ao que há de vir
que a memória há de ver-se no que via
a aparência nas coisas não revela
o fulgor do instante que não se acaba
a luz de uma página que amarela
entre a flor e a raiz há um leve traço
de silêncio, na seiva que há tanto se dava
e de tanto se dar há de ser o espaço


de FERNANDA CRUZ FILHA (1967) poeta goiana, é psicóloga, mestranda em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiås. Publicou os livros de poesia: Regatos do Instante (2007 )e O ar mais próximo, (2012). Antes de enveredar pelos caminhos da poesia, atuou em artes cênicas e também como cantora de mpb e música erudita.Fernanda Cruz Filha está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...
Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=51457

MEIO DIA


a Terra respira
formigas transitam por suas nervuras
arabescos de pássaros
pontuam o pausado discurso das nuvens
só existe o espaço
a paisagem lacustre
que agora cobre uma cidade submersa
e sem saber por que vim parar aqui
o que me trouxe a essa fronteira de lugares e sensações
entro n'água
a claridade me leva à deriva
flutuo no amplo
embebido no dia mais que morno
sei-me hóspede de quem tenho sido
(a superfície do lago
se desmancha no movimento dos círculos concêntricos)

Claudio Willer
VOU TE DAR MEU ÚLTIMO VERÃO
vou te dar meu último verão
todo o outono amarelo
e quando me alcançar
vai ver que sou o mais puro inverno
não dos trópicos
mas dos lugares mais frios da terra
terras da sibéria
não adianta me dizer para abrir as janelas
o sol me é estrangeiro
tenho em mim geleiras ancestrais
meu coração não bate
vacila descompassado
selvas do universo me rondam
e mesmo assim você vai me recriar
e me amar com tudo que sou
porque você
precisa de uma criatura só sua
mesmo inventada
mesmo com essas sombras geladas

 ADRIANA GODOY, poeta mineira, é formada em letras pela UFMG e trabalha como professora e revisora. Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. Colabora com alguns blogs e revistas literárias e alguns de seus poemas foram publicados no livro ‘Maria Clara: universos femininos’. Em 2015 publicou o seu primeiro livro solo: Mil noites e um abismo. Adriana Godoy está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link