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domingo, 6 de novembro de 2016

SEGUINDO UMA NUVEM

SEGUINDO UMA NUVEM com os olhos faiscantes, havia na bela mulher algo de esperançoso e também melancólico. Era uma mistura, uma indefinição conceitual sobre o seu olhar que tanto já havia presenciado. Agora, diante da Fortaleza dos Reis, lembrava-se de uma vida vivida há trinta anos, seus pais e único irmão caminhando sobre a areia fina, produzindo uma certa música que seguia o ritmo dos passos a deixarem pegadas fundas. Eram fundas também as memórias. Viver na Europa todo aquele tempo somente adiara a dor de ter perdido raízes e pessoas. O Atlântico perturbado pelos ventos fortes reforçava sua carência de nova travessia. O seu retorno ao exílio era agora a única esperança de recuperar alegrias e sentimentos perdidos.

Lívio Oliveira

sábado, 17 de setembro de 2016

SEIS DORES DE SOLIDÃO E O MAR


Por Lívio Oliveira

(I)
Rochedo e sono
Inaugurada a tarde interna – esforços bravos
firmam-se em mirar entre as palhas secas: vidas
lá longe o frio se arrasta leva a folha ao fundo
dos meus olhos que explodem ao meio-dia ainda
em cataclisma em catapulta aleatória.
Há os ventos que penteiam a duna inteira
e as faíscas que pulam das areias duras
se aliam ao mar que cabe dentro hostil
armando os templos imemoriais
enfrentam rochas: barco só e tosco.
(II)
Barulho e caverna
Ouve os sintomas das marés que avançam
molhando os corpos das razões e so(m)bras
os sais brilhosos das costas e testas
não refletiram o marco firme o umbigo
do oceano que adentrou o milênio.
Força agora um tempo estranho e roto
de multidões de caranguejos vagos
cascas que rolam soltas – superfície
prateada: a juba cheia atlântica
recuada ante os mais fortes ventos.
(III)
Despertar atônito
As tais surpresas transportaram em ondas
aterrissaram em margens assimétricas
foram tragadas do mar alto em torno
vieram brancas como voz em vibrato
as velas ornamentais dos inibidos passos.
Estar à margem não era então vergonha
havia um ponto em que engolia algas
alimentava a luz do sol tardia
a primitiva explosão em mar vulcânico
que se espalhava em sobejos ardidos.
(IV)
O delírio aceso
Custava tanto entronizar o santo
dos rudimentos que chegavam em barco
assoviava então canções de esperanças
mergulhos sonhos que escalavam locas
onde as cores afiavam os dentes.
Até a tona o ritual seguia
incandescente dentro dos pulmões
robustos peixes rotundas aves
chegavam remos aos portões da noite
salvando o dia ainda não guardado.
(V)
A voz devagar
Era no mar e não havia espasmos
que impedissem a correnteza bruta
escorregando em meio aos corpos nus
carnes abertas seios de sereias
bocas imensas de arrecifes negros.
Tudo era tragado e o urro lento e forte
ditava horas para os navegantes
de dentro a pedra e a canção de fé
de uma criança solitária e inerme
ousada em crença de retorno à terra.
(VI)
A dor ainda
A intensidade da dor lancinante
causava estrondos nas falésias – montes
de pés sobre o mar pisando a enseada
redesenhando as posições dos homens
que se jogavam em loucas aventuras.
Não eram incautos eram somente ilhéus
que se lançavam das graves alturas
buscando rotas que acalmassem prantos
feridas que se rasgariam ao vento
o sangue: mistura ao mar e ao sal.
(VII)
Derradeira ilha
Apascentada em luminosa estrela
virou o raio a direção eleita
até o ponto em que o brilho elevava
a nova fé que aproximava margens
demoliu dores resgatando o sonho.
Os continentes até então distantes
se religaram estreitos monumentos
vencidos demônios de escurecidas almas
o sol retorna à margem à praia ao dia
e o que era ilhado agora é continente.
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Poemas publicados na revista "Barbante".