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segunda-feira, 30 de março de 2015


Cidade dos sonhos
Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.
A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,
arqueiros posicionados
no alto das colinas,
a infantaria
dinamitando as pontes.
Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.
No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,
um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.
2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.
Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?
Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...
3
Saberei eu no sonho de quem?

Rafael Nolli


segunda-feira, 3 de março de 2014

The Poema

 L. Rafael Nolli

Era de cachos báquicos teus cabelos – entre cachos teus olhos: duas esféricas uvas em meio a tantas outras uvas: frágil película roxa, quase água – futuro vinho tinto.

Era de pétalas e caule teu tronco de petúnia e pitonisa – duas possíveis auroras rosa-pálidas brotando da profundeza de teu corpo de tempestade e nuvem e calma – feérica maçã dormindo no regato de tuas coxas.

Era de sonho e vigília tua presença – sonilóquio com os corvos de Odim, desfraldar das velas da consciência: viagem, vôo.

Era noturna tua voz, clara tuas palavras: diálogo travado entre abelhas – o mel compensando o ferrão.


*

sábado, 1 de agosto de 2009

Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.
...

Rafael Nolli
do blog Stalingrado III:
http://rafaelnolli.blogspot.com/

2- Fuga e Outros Movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)

Rafael Nolli
http://rafaelnolli.blogspot.com/

1- Top Secret

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias em piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.

Rafael Nolli
htt://www.rafaelnolli.blogspot.com