domingo, 26 de outubro de 2014

Lenda da Mamãe Coruja


Reza a lenda que, na época da Roma antiga, havia um gavião muito rápido, porém pouco inteligente, que comia os filhotes de todas as aves. Por isto, ele procurou a coruja, que era o bicho mais sábio da floresta, para ensinar noções de Matemática.
No final de todas as lições, o Gavião perguntou:
- Coruja, como faço para pagar suas aulas?
A professora explicou:
- Como soube que você gosta de comer os filhotes das outras aves, somente peço-lhes para que não coma os meus.
O aluno falou:
- Os meus filhotes ficam no topo da montanha e são carecas.
- Mas, quais são as características dos seus filhotes, para que eu possa identificá-los?
A coruja respondeu:
- Eles são os mais bonitos da floresta.
O gavião concordou:
- Então, não irei comer os seus pequenos. Pois filhotes bonitos me dão indigestão.
Um certo dia, o gavião estava com fome e avistou uns filhotes horríveis. Assim, ele aproximou-se do ninho e tentou comê-los. De repente, a coruja chegou e disse:
- Gavião, você não tem palavra, pois está tentando comer a minha cria.
A ave de rapina explicou:
- Você disse que seus filhotes eram bonitos e estes são horríveis. Afinal, tem um com o bico torto e tem outro que é até caolho.
A coruja ao ouvir aquilo, agrediu tanto o gavião que ele ficou despenado e disse:
- A partir de hoje rogo uma praga contra a humanidade:
- Toda a mãe que achar que seu filho feio é bonito será chamada de mãe-coruja.

Luciana do Rocio Mallon

sexta-feira, 24 de outubro de 2014


PENSAMENTO MISERÁVEL (parte 3)

Ricardo Chacal


malditos os que apregoam
os que propagam, os que exercem
esse pensamento medo
esse pensamento midia
esse pensamento merda
.
não à estupidez do rebanho
ao aboio da informação manipulada
.
quem souber que exploda essa cabeça
e comece de uma vez a viver.


ônibus tiradentes - rio - 19/10/2014
Assis Giovane

(...)
Enquanto isso, a minha vida amanhece,
E eu não preciso ver de onde ela nasceu!
Se estou vivo - viva à tudo o que acontece;
Eu não me arrisco à perder o que não passou.
E mesmo que me cale em frente à este palco,
Eu paro e penso que me falte sempre um pouco mais para saber,
Que não sou fraco, mas também posso viver,
Pra depois ver aonde tudo vai parar.
É fato que tão pouco posso lhe mostrar,
Mas aqui dentro, busco algo bem maior...
É claro, que me encontro em outro lugar,
Onde não há espaço pra qualquer razão...
Se no meu coração ainda existe tanta dor,
E se o meu amor é chama dessa escuridão...
Eu fecho os olhos para me iluminar,
E me lembrar de tudo que ainda é bom.

(...)

Espero um sinal. Um mísero
sinal. De balsa, de lanterna, de farol.
A noite é linda
mas tão vazia. Não tem sentido
tanta estrela nem tanta concha
na praia infinda. O mar é cego
e caminhar sem rumo,
sem rima, sem sol
é minha sina. Um sinal.
Apenas um sinal. E tudo
que é noite
se ilumina.

Otto Leopoldo Winck




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

às seis mulatas de bruxelas
uma água mineral e dois copos
vamos hoje batucar
com seis mulatas de bruxelas
só precisamos descobrir
onde estão elas
pegar talheres e panelas
e o pandeiro de meia tigela
adelaide, leonor, judite
elza, das dores e edite
não pagamos couvert, acredite
cantamos e elas aceitaram o convite
e olha que no estabelecimento
só tinha nego da elite


(Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert)
curitiba é pó brilhantes
gatos pretos encosto

mulheres e costelas
com algo mais que olhos singelos

a noite é gelo sem lua

falcatrua meu segredo
lagartixas não temem

(mas eu temo)

porque perdi o medo
de fazer um verso de mim
ai como eu quis

nenem com a madrugada
(por força diria estrada)

mas no fim
prefiro eu mesmo
mais nada

william teca
meus solecismos cínicos
cismam sísmicos sobre
o abrigo do seu umbigo

hoje não quero briga
quero a sua estima

já me basta a estiva da vida
ser tão colorida quanto as tardes
civicamente cinzas de Curitiba


william teca
devoto-me lúbrico ao seu túmulo
sou sujo e tumultuo sua vida
menina liberta será a mulher
em meus tediosos dias em pé

no entanto vamos nessa
para o que der e vier

espero sob a ponte atrás
dos montes de tulipas líricas
lerei o epitáfio límbico
de todos os nossos sacrifícios

william teca
mescle lacan com conhaque dreher
ao som de howlin wolf
seja cdf não seja babaca
a parte boa de ter cabelos brancos
é evitar trocadilhos infames e dar tiros certos

esqueça as ninfetas
você será sempre charmoso
daqui pra frente e nada mais que isso
e mulheres só são mulheres depois dos trinta

(evite rimas ricas)

mas não precisa usar calças de tergal
mantenha o jeans e as camisetas de bandas desconhecidas

e se tudo o mais falhar
resta ainda uma saída
e se não restar descanse
não planeje um tiro no ouvido

sempre há a esperança
de sombra e água fresca

escute o que dizem
aqueles que partiram
daqui ninguém
absolutamente ninguém
sai vivo

willian teca
saudade
meu coração silente
um pedaço
um pé
outro pede
um dá
outro aço
ou traço
abraço
há-braçosobrar
estou indo
mas, às vezes, parece que é tão devagar


herman oliveira



domingo, 19 de outubro de 2014

Humanos


Avista-se um vão e entre vãos se avistam.
Espaços sobre espaços...
Ocupações humanas.
Olhares enclausurados,
Vozes miniaturizadas,
Mundos em conjunto
Mas não juntos.
Busca de espaço para o alto
Sem livrar-se do chão.
Liberdade acotovelada diariamente,
Ponto de encontro que desencontra.
Concentração de almas dispersas em si mesmas.
(Laudelina Narciso Lachi, 19/10/14).



É o relevo das luzes de uma torre
no dia seguinte
é o mendigo que, mão aberta, não pede esmola
é um MSF -menino sem futuro-
amarrado no obelisco
depois de roubar um mendigo
é um faquir com fobia de pregos
é a antena da mosca furando um pneu
de um Simca Chambord, vermelho,
num velho anúncio realista
é uma poltrona bubble chair sobre a faixa amarela
da estrada
é um cartaz vintage da atriz Hedy Lammarr em Êxtase
é um fantoche da Guerra Fria com um tumbleweed alojado na cabeça
é um soldado da ajuda humanitária
muçulmanas más sem nicabes
é um imigrante boliviano demolindo
a marretadas
as vigas de um edifício
é também um sociólogo de binóculo, num navio,
disfarçando a cegueira
é um relógio sobre uma lápide
um escravo
orelha roxa, passos lentos
foge da fazenda Bom Retiro
é o conflito econômico progressista
um foie gras de pato selvagem
é um colchão com lençol largado na calçada
é um menino negro que passa, apressado,
pela calçada da porta da igreja do Pari,
camiseta regata do Spurs,
de repente se lembra faz o sinal da cruz
é um enfestador fuzilado por um garoto
num ponto de ônibus à tarde
é um rolo de fio elétrico amarrado ao pé de um poste
um casal se pega, de dia, sob o luminoso Star India
desligado
é um camelo pronunciando palavras assassinas
é um cara algemado, disparando contra a própria cabeça
é um artista se entregando à polícia

Régis Bonvicino]




LITOGRAVURA


Chorei todas as estrelas do céu
sobre o teu corpo desnudo: a aurora e o poente
não eram mais que estados de alma e nossa angústia
uma dádiva divina. Depois sentamo-nos à beira rio
e contamos histórias tristes que nunca aconteceram
mas que eram mais reais que nossos braços se tocando
e nossos corpos se desejando. A noite caiu
como um manto espesso e nossos braços foram nosso único agasalho.
Desde então tenho perdido o senso e tropeçado nos caminhos mais límpidos.
E me pergunto, afinal: onde foi que esqueci os meus passos
e amaldiçoei minha sombra?
Olw




brasil campeão
ás vezes falha , mas a alegria vem
tudo é difícil
crime e corrupção
famílias em dificuldades
pessoas sofrendo
a política incomoda
mas vejamos o lado bom
de tudo o que foi mantido
o esporte,,,a arte,,, a cultura

tudo nos mantêm vivos

Sandro Rodrigues

ENCANTAMENTO

Canta
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)



Gilka Machado – 1938

BALANÇOS


I .
Após tantas lidas,
deslindes e vindas,
constatamos pasmos
que a procura em si
foi melhor que o encontro,
o convite, então,
superior à festa,
e o sonho maior
que a ansiada posse...
De todas as vidas
melhor foi aquela
que não se viveu,
e de todas as rotas,
aquela que a Rosa
dos Ventos jamais
conheceu. (A vida
é a carta esperada
que nunca chegou.)
II.
Por que perturbamos
o fluxo dos dias
com nossas retinas
cheias de cobiça?
Melhor descansar
e esperar que o outono
leve enfim as folhas
do verão fanado
e nos acostume
ao sono sem sonhos
que em breve seremos.
III.
Irmãos, malogramos.
Nem poderia ter
sido de outro modo:
na vida se joga
de antemão sabendo-se
que se vai perder.
Antes, nada fôssemos.
Ou, se o não-ser
nos fosse negado,
nada desejássemos,
nem ouro nem louros
(o cetro do eparca,
a lira do bardo,
o cajado do sábio),
que a luta é ingente
e o resultado parco,
o querer tão grande
para um galardão
afinal tão ínfimo
– e, não bastando isso,
são tantas perguntas,
tão poucas respostas...
Pois se nada fôramos,
nada saberíamos
das dores do mundo,
nada deveríamos
às coisas do mundo,
deste mundo que
(perdoem-me o óbvio)
passa e nada deixa,
nem mesmo uma sombra,
a sombra de uma sombra,
assim como o seixo
atirado ao lago,
depois dos concêntricos
círculos que abre,
não deixa vestígio,
saudade ou memória
nas plácidas águas...
Assim, nesta hora,
quando a noite cai
por sobre os salgueiros
(a noite que estende
seu manto funéreo
sobre reis e príncipes,
mendigos e párias),
não estaríamos,
com os olhos cheios
de vã nostalgia,
contemplando as flores
– pobres flores tóxicas! –
nascidas do estrume
em que resultou,
malograda, a vida.
Olw








fiz juras de amor ao papa francisco
pedi perdão dos pecados que eu não tive
decidi me estabelecer no cangaço
tentei falar com glauber, oscar, saldanha, scliar e vinicius
retomei a estrada de clarice
minhas contrições foram vazias.
sobrou drummond:
minas não há mais."
RR

MAREAR


Noite.
A lua vem brincar no céu
rodeada de estrelas:
ciranda e silêncio.
O mar vem... o mar vai... o mar volta...
murmurando sua
antiga cantilena - maré baixa
maré cheia -
cheia de encanto, lendas e sereias.
Sortilégio. Solidão.
Não
o mar não vem, o mar não vai, o mar não volta
o mar não sai
de mim...
- E eu não sou ninguém.
O mar revolta!
e revive... e revolve
velhos pesares
vendo a lua jogar em seu dorso arabescos de prata
monocordicamente.
Ondas no mar
estrelas no céu
e Deus
e eu - grão de areia - deitada na praia.
Só.
Porém
o mar que vem e que vai e que volta
(em mim e em volta)
volta-e-meia me traz ou me leva um segredo:
peixes... ou conchas... ou seixos...
ou um pedaço de lua
cheia!
- sutis segredos deste mar sem fim
deste mar de espadas soterradas
épico, heroico
que ruge no incógnito de mim
como um remorso...
Mas porém a lua é lirica
e vem cismar entristecida
sobre a solidão dos oceanos...
Satélite de 3.476 km de diâmetro e massa equivalente
à 0,0123 da massa terrestre.
Não importa!
Tenho frio e tenho sono.
E no ventre da noite sem leme
sou como um naufrágio.
O imenso mar me lamenta...
mas a lua perdoa
e as estrelas também.
Olho para cima:
ciranda e silêncio.
Olw

sábado, 18 de outubro de 2014

CORRE MAIS QUE UMA VELA...

de Emiliano Perneta 

Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.
Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...
É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas eu queria que corresse mais!

VARIAÇÕES


Que é a morte
senão o cume 
do gozo?
Que é o gozo
senão o introito
da morte?
Gozo e morte: verso e reverso de minha poesia
e do rosto encoberto de Deus.

olw

O MAPA


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...).
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

Mário Quintana



RANCOR


O coração engambela a gente.
Nos tira dos eixos.
Nos joga de cima do muro.
A gente planeja o percurso,
meticulosamente,
com etapas e alvos,
epílogos e proêmios
– e aí vem o desgraçado
tresmalhar nossos passos,
transtornar nosso tento.
(Órgão muscular oco dos vertebrados,
do tamanho de um punho fechado
e cheio de incongruências,
o coração é um engodo,
um óbice, um óbelo, um oroboro,
além de um estúpido conselheiro...)
Como botar a mão no arado
e seguir em frente
se a cada instante o louco
nos faz olhar para os lados?
O coração devia ser arrancado da cavidade torácica, 
queimado, reduzido a cinzas, espezinhado,
e no seu lugar instalado
uma clepsidra, um astrolábio, uma casamata...
Ou então 
uma bomba de hidrogênio
para acabar logo com tudo.

olw
Por que prantear as flores 
da fanada primavera
quando o verão que escalda
já amadurece os frutos 
que, não colhidos a tempo, 
apodrecerão em breve?

olw

PERJÚRIOS


Neste banquete onde a loucura é servida
como jogo de enigmas,
sentei a beleza no colo 
e a achei estúpida. No deserto, 
para onde fugi, sob um sol brilhante 
e mudo, inscrevi na lousa o meu destino
de ourives cego. Não há remédio
para quem nasceu inverossímil
e busca sobre a pele rota do tempo 
o mapa estapafúrdio das lisonjas.
Agora eu sei: o mundo inteiro se perdeu
quando os deuses se levantaram contra mim.

Olw

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

  
Unhas agarram minhas pálpebras
Da minha luta contra o dia
Só rugas riscam o canto
Do meu rosto.
Decidir quando dormir e
Dormir
Esse é o princípio da liberdade
O céu com seus incontáveis olhos

Abertos à noite.

Alexandre França

APRUMADO


Era vaidoso. Vestido de terno azul marinho, presente do filho, que nunca usara, esperava uma ocasião especial; sapatos engraxados pelo netinho, camisa engomada, mimo da esposa; cabelos penteados carinhosamente pelas mãos da filha. Era religioso! Estava aprumado para ir ao encontro de Deus
JDamasio
Trova de amor para um esquivo senhor
Nosso amor nunca foi à mandinga
É um rio seco que água irriga
Esperança e ar qual a cantiga
Que um cego canta na caatinga


Bárbara Lia

País

"…..Isso
que é tábua
de solidão
a que nos
agarramos
quando falta o
chão e,
………..náufragos,
sonhamos com terra
- isso é quase um país.
Mas esse país
não existe. Esse país
não presta."



Trecho de "País", do Eduardo Sterzi

FESTA DE ANIVERSÁRIO


Pelas frestas da janela seus olhos arregalados corriam pela rua para contar os poucos carros, três, estacionados para comemorar seu aniversário, noventa aninhos, e vê-la com dificuldade apagar as velinhas sobre o bolo. Meses depois, uma fila de carros dobrava a esquina. Olhos fechados. As duas velas acesas à cabeceira do caixão apagavam insistentemente, sopradas pelo vento.
JDamasio

quarta-feira, 8 de outubro de 2014



Disseca o poeta - e a poesia.
Arranca as vísceras
das palavras.
Debulha letras.
Depois as embalsama
como fez com o passarinho
na aula de ciências
num tempo já distante
e depois chorou.
Há coisas que definitivamente

preferia não ter aprendido.

Nydia Bonetti

Presa


fiquei presa
entre coração
e língua
entre garganta
e vogais
entre dentes
e saliva
entre bocas
ronronando
obscenas
consoantes
e a força
ineludível
deste meu
predador

baixo ventre

Lota Moncada

·
Amoras rubras pendem para o rio. Águas vermelhas.
Os lírios brancos imploram pelas águas.
Levam perfumes.
Os pés de paina floresceram de noite.
O rio nem sabe.
E nós crianças, pés pequenos nas águas que já passaram.
Também passaram nuvens, borboletas.
Tudo tão breve.
Passou o tempo de comer amoras
de colher os lírios.
Passou o tempo de soprar as painas,caçar borboletas.
Passou o tempo de olhar as nuvens,
de brincar nas águas.

Passou o tempo. E o rio nem sabe.

Nydia Bonetti

UM TANTO


Um dia a vida
me fez chorar tanto
que este choro
se transformou
em um encanto
pela própria vida
que me fez chorar.
Um dia a vida
me fez amar tanto
que este amor
se transformou
em desencanto
pela própria vida
que me fez amar.
Um dia a vida
me deu tanto
que este tanto
me fez perceber
o quanto
eu precisava de
tão pouco.
Um dia a vida
me tirou quase tudo
e deste pranto
sobrou tanto
que percebi o quanto
tudo isso era santo.


Poesia de Jacques Nery

INSANITATE



Dentro da noite insana
cubro de nuvens pesadas
o céu de sonhos estelares
e nas retinas encharcadas
de ausências milenares
pingo o silêncio dos cometas
que me ardem no peito e
me cortam em finas postas
mechas de luzes orvalhadas
em flores de pétalas inexatas
que se abrem sem jeito
à sombra das cores depostas.

Evandro Souza Gomes


061014

THEOPHORUS - I


Vivo
no limite
do abismo.
Não sei se pulo
ou rio
do risco.
Quem sabe eu chore
e implore
a deuses extintos
o impossível perdão.
Se eu carrego um deus dentro de mim
para que diabos
eu quero um templo?
Vivo
à beira
do precipício.
Se eu abro a porta
eu tenho o sol
e o infinito.
(A fé, amigo,
é irmã do desespero.)
Para quem tem um deus dentro de si,
o inferno é dos outros.

Olw

THEOPHORUS - II


Vivo
à beira
do abismo.
Para não correr mais perigo,
caí.
(Hoje sou todo lirismo...)
Para quem tem um deus dentro de si,
tudo é risco.

Olw
De Mara Paulina Arruda

Madame Hesmerinda estava sentada numa cadeira reclinável. Espichada ao sol com o braço esquerdo dobrado no alto da cabeça, a mão segurava um cigarro. Havia uma “carrada” de coisas para fazer mas via, naquele momento, o sol chegando nos brotos do pessegueiro. E, também as crianças passavam, numa algazarra sem tamanho, na rua.
Madame Hesmerinda foi chamada para assinar o recebimento de uma encomenda. Jogou o cigarro no chão, amassou-o com a ponta do sapato. Caminhou até o portão. O entregador de encomendas. Boa tarde. Boa tarde. (Voltou-se à memória de um dia em que recebeu um buquê de flores) Ouve a troca: a encomenda pela assinatura. A mão pesada, o nome sulcado nas tramas do papel. Até logo. Até logo.
Os pássaros planavam no céu azul.

Ela rasgou o pacote com certo cuidado, lembrando-se que havia avisado umas par de vez, não queria ver a despedida de ninguém.