sexta-feira, 31 de março de 2017

[Da Arte Inexorável de Ser Noves Fora Bem Ridículo]



A maior parte do tempo a maior parte de mim não tem a menor ideia do que está falando.
*
– Você é autodidata?
– Não, não, sou autoidiota mesmo.
*
Ridículo todo mundo é. Mas o ridículo que se assume ridículo, esse transcende.
*
O melhor antídoto contra o ódio é o ridículo. O ridículo de si, de cada um, de absolutamente todo mundo.
*
Quando o patético se assume, torna-se um lírico. Torna-se um Chaplin, um Buster Keaton, um Didi Mocó (Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo) de si mesmo.
*
O homem é o lobo do homem. Deus é o lobo de Deus. Mas eu sou a pulga de mim.
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Quem não ri de si mesmo ri de si pelas costas.
*
(das glórias póstumas)
Foi ridículo de ver: Júlio César, coitado, tentou atravessar o Aqueronte como se fosse o Rubicão.
*
(Deus, vestido de palhaço, diria mais ou menos assim...)
– Somente os que caírem no ridículo subirão aos céus... Rá, glu-glu, ié-ié, é mentira! Ninguém subirá aos céus!
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Em nome do Pai, do Filho e do Sílvio Santos, amém.
*

Escrevo de madrugada, quando ninguém está acordado. Sou lido de madrugada, quando todos estão dormindo.
*
Minha formação? Sou pós-doutorando em perplexidades. Serve?
*
Se um médico me desse três meses de vida, eu voltaria a fumar, eu voltaria a beber e iria à igreja todo santo dia.
*
Amarre os sapatos, afivele o sinto, ajeite o terno, a gravata, os punhos da camisa... Mas nunca esqueça este último detalhe: a alma sempre, sempre rasgada no fundilho.

Rodrigo Madeira
Os cães nos ensinam a amar. Mas a gente esquece, mas a gente nunca aprende.
*
À sombra de um único cão, pode dormir uma família inteira.
*
O homem é o melhor rei absolutista do cachorro.
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Os gatos é que adotaram um animal doméstico chamado homem.
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Gatos são espertíssimos. Gatos têm sete vidas e seis apólices de seguro.
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Um cão tem mais humanidade do que o homem. O homem, no entanto, é mais cachorro.

Rodrigo Madeira
Eis o maior desafio da atualidade: transformar o homo-shoppiens em homo-sapiens.
Rodrigo Madeira
Há perguntas que não querem calar. Outras, é claro, preferem não dar um só pio.
*
A inveja está pra admiração como Hyde para Jekyll. E – sejamos honestos – esses dois estão para nós como nós para todo mundo.
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O homem, este abismo sobre duas pernas, precisa cair em si o quanto antes.
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O homem é 10% conhecido, 40% reprimido, 50% ignorado.
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Se o homem foi feito a Sua imagem e semelhança, no fundo no fundo, Deus não tem certeza de nada.
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A maior parte do mundo a maior parte do tempo não têm a menor ideia do que está falando.
*
Tem gente que, mesmo só pensando, fala sempre sem pensar.

Rodrigo Madeira
Este é o maior desafio da atualidade: transformar o homo-shoppiens em homo-sapiens.
*
Um shopping é uma espécie de zoológico com uma única espécie de bicho.
*
Prum turista típico, cada país é uma megaloja de departamento. Uma loja, aliás, em que os atendentes – vejam só que absurdo! – não se dignam sequer a falar nossa língua.
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Quando meu sobrinho me pergunta: “Titio, que carrão é aquele?”, eu sempre respondo: “É um Jaguara. Todo carrão é um Jaguara”.
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Aposto sempre na Mega-Sena e só ganho na Mega-Sina acumulada.
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A melhor forma de perder tudo é ganhar na loteria.
*
Dinheiro também compra ingratidão.
*
Eis a grande tara do empresariado: passar na bunda do povo a mão invisível do mercado.

RM

Pólis-chinelo [I]


*
Desde que li Maquiavel, só acredito em príncipes desencantados.
*
Política me fascina. Políticos me enfastiam.
*
A política é a arte do possível a serviço do inaceitável.
*
Todo mundo, quer queira ou não queira, é político. E desde sempre. O choro de um recém-nascido na hora do parto já é um ato político. Ele só chora, é verdade, mas o choro equivale a um punho erguido.

RM

Pólis-chinelo [II]


*
Na política brasileira, não existem batedores do futuro; existem batedores de carteira do futuro.
*
Espírito republicano, no Brasil, é um desses fantasmas atormentados depois de uma morte violenta.
*
Discutir política no Brasil virou um bicho de sete cabeças. Sete cabeças inteiramente ocas.
*
Todo apolítico, politizando-se pela internet, é apocalíptico?
*
É politicamente correto estar politicamente enganado.
*
Antes só que mal politizado.

RM

Pólis-chinelo (III)


*
Politicamente falando, fico à esquerda da burrice e à direita da loucura. (Ou será o contrário?)
*
Pra esquerda delirante, quem conserva a lucidez é conservador. Pra direita alucinada, quem comunga de bom-senso é comunista.
*
A política tem que ser moderada. O que tem de ser radical, nazi-jacobinisticamente radical, é o humor.
*

Os maiores líderes políticos modernos foram os moderados, os radicais da conciliação, e não o contrário. Não foram Robespierre, Mussolini, Lênin ou Fidel. Foram Lincoln, Adenauer, Mandela ou Mário Soares... Mas, é claro, pro business das serigrafias, a imagem de Che vai ser sempre mais negócio.

RM

[faunos, centauros, silenos]



metade de mim
só diz a verdade:
quando quer mijar, mija
quando quer comer, come
quando quer amar, se
um corpo se abre diante,
ama.
a outra metade mente.
mente mente desbragadamente
e mentido se inventa:
quando quer mijar, discursa
quando quer comer, jejua
quando quer amar, se a folha
em branco se abre diante,
escreve um poema.

Rodrigo Madeira

ENCHENTE


a casa ilhada,
40’ de chuva
- outra vez
perdemos, maria.
mas não chore,
porque há olhos tão
secos que sequer
existem
- como os meus.
e há casas
tão desertas que sequer
podem morrer
como a nossa, maria.
vem. retira dos bolsos
essas pedras.

Dom Jorge

318.


Os loucos são minoria na maioria das pessoas. Mas estão sempre lá (aqui!) exaltando-se, falando sozinhos, descobrindo complôs, certificando-se de que todos, sim, todos só podem estar inapelavelmente malucos.

Rodrigo Madeira

319.


Todo homem é um hospício.
RM



Emilia Trico_____ Então toda mulher eh psicotrópico

320.


Todo homem é um hospício. A portas trancadas, é claro. Basta a chave certa no momento errado e... voilà!

Rodrigo Madeira

321.


O lugar mais perigoso do mundo não é Mossul nem Cabul. Não é Trípoli, Nairóbi, Sanaa, Aleppo. O lugar mais perigoso deste mundo é a nossa cabeça.

Rodrigo Madeira

322.


Cada um de nós tem, dentro de si, um Freud e um Schadenfreude. Aliás, ninguém me convence de que eles não são, desde sempre, a mesmíssima coisa.

Rodrigo Madeira
323.
Se um mês na solitária enlouquece o caboclo, o que a eternidade não já fez com Deus?

RM
18.
O homem é um animal delirante, o único animal que olha as estrelas e delira. O homem é, por assim dizer, o Napoleão de hospício do reino animal.

RM
Depois de cada carnaval, a gente veste a fantasia e sai no Bloco dos Normais.
*
A maior semelhança entre duas pessoas absolutamente normais é a loucura.
*
A normalidade é uma forma previdente de loucura. A normalidade é a loucura com agenda e guarda-chuva.
*
Normalidade é a loucura da maioria.
*
Os loucos são minoria na maioria das pessoas. Mas estão sempre lá (aqui!) exaltando-se, falando sozinhos, descobrindo complôs, certificando-se de que todos, sim, todos só podem estar inapelavelmente malucos.
*
Todo homem é um hospício.
*
Todo homem é um hospício. A portas trancadas, é claro. Basta a chave certa no momento errado e... voilà!
*
O lugar mais perigoso do mundo não é Mossul nem Cabul. Não é Trípoli, Nairóbi, Sanaa, Aleppo. O lugar mais perigoso deste mundo é a nossa cabeça.
*
Cada um de nós tem, dentro de si, um Freud e um Schadenfreude. Aliás, ninguém me convence de que eles não são, desde sempre, a mesmíssima coisa.
*
Se um mês na solitária enlouquece o caboclo, o que a eternidade não já fez com Deus?
*
O homem é um animal delirante, o único animal que olha as estrelas e delira. O homem é, por assim dizer, o Napoleão de hospício do reino animal.
RM


o homem está sempre por acima.
o homem está sempre acima.
acima. como um barquinho
ridículo que se equilibra
no mar infinito de uma mulher.

RM


CONFESSIONAL


Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...
GLAUCO MATTOSO

São Paulo (SP).

quinta-feira, 30 de março de 2017

O amor
Entram no quarto, a mulher à frente, ele já no papel escolhido, logo atras. Param um minuto para perceberem o ambiente, o quarto do motel parece uma nave espacial concebida em algum delirium tremens dos anos oitenta. O homem a toca no braço e indica a porta do banheiro semi aberta: mamãe... Olha-o irritada, participar dos folguedos dele, tudo bem, mas ser chamada de mamãe era intimidade demais. O homem conserta-se: mãe.
Ok, ok...
No banheiro leva um tempo para tirar o vestido justo azul escuro, a cintura marcada por um cinto de verniz vermelho, numa pegada bem anos cinquenta; valorizava seu excessos. Sabia que ele gostaria que se vestisse como tivesse acabado de chegar dos anos setenta. Naquela época só tinha magras de pernas longas e culotes e ela não tinha nada disso e se o homem a irritava um pouco, contraria-lo era sua forma de equilibrar os pratos.
Quase um prólogo, ajusta sem necessidade a a meia fina que dá um toque gostoso à pele e confere os sapatos de verniz vermelho da cor do cinto, da cor das unhas. O salto agulha é explícito, comprou de propósito, é bom que ele saiba: as coisa são o que são. Tira da bolsa uma camisola de um tecido gelado azul turquesa com rendas no decote, quase uma piscina individual. Põe, e conserva as meias e os sapatos; no terreiro do desejo a normalidade é o primeiro galo sacrificado. Sorri, olhando-se no fumê do box.
Abre a porta devagar mas não completamente, apenas desliza pela abertura, uma mrs Robinson latina.
O homem a esperava no mesmo lugar visivelmente excitado. Estranha o turquesa. Não tinha branca? Não, muito feias, a mulher corta, seca. Ele prefere não dizer nada, não vai perder o tesão por tão pouco. Começa a apagar as luzes, deixa um mínimo, quase nada, em minutos a vista se acostumará a obscuridade.
Mãe, senta aqui, a senhora está muito cansada... precisa descansar... e todo solicito indica a borda mais próxima da cama. A mulher obedece. Cada um atua em sua vibração, ela era só olhos. O homem se ajoelha em frente. É maduro demais para parecer um adolescente e breve será velho. Deixe eu tirar seus sapatos, sugere: é uma súplica e uma ordem. A mulher para reforçar a aquiescência inclina levemente o corpo para trás, levemente... não move os pés. Ele pega um pé e retira com destreza o sapato. Quantas vezes já fez isso? Em alguns detalhes ela se esmerou, mas fez só para si: a meia de confecção europeia, passadista, escondia as unhas numa biqueira mais encorpada que não se usa mais. Se ele gostava dessa brincadeira ela gostava de caprichar no figurino, e de assistir... endireita o corpo atenta à cena.
O homem ajoelhado senta-se sobre os calcanhares e começa a massagear o pé apoiando-o na coxa, uma coxa dura; enquanto um pé é massageado, o outro permanece calçado. A senhora sempre gostou, lembra? Lembra como eu fazia, a senhora deixava... gostava muito... a mulher maliciosamente participa, avança o pé, e o sexo duro oferece resistência debaixo da calça. Calça jeans, foi de propósito, ele não era indefeso, sabia também como aborrece-la. Ele continua a massagem inocente e ela a prospecção. Eu fazia massagem toda a tarde, ninguém fazia melhor, sempre me disse... ele está feliz.
Logo um pé só não é suficiente e a massagem parece um roçar convulsivo dos pés na calça jeans. Ela entra no perverso da coisa e diz melíflua, filhote, não quer tirar também os sapatos? Adora quebrar o previsto, sabe que a encenação precisa dela passiva ou inocente. O homem não discute, joga os mocassins num canto, rápido, para manter-se no clima. Ela continua fugindo do enredo... sua mãe está tão cansada, finge... e ele vai afundando um pouco mais na história: é o papai, ele não presta, ele não trata a senhora direito, mam... mãe. Não trata como eu trato, como deve ser tratada. Não tem o menor carinho... a senhora é muito boa. A mulher quase ri da ambiguidade da frase e prefere ficar calada, não quer interromper a cena. É um bêbado, papai é um bêbado, fica só se masturbando na sala... mostrando o pau, só para mostrar que o dele é grande. Com os pés a mulher sabe que aquela fruta não caiu longe da árvore, se algo fez diferença, ficou na adolescência. E para marcar a opinião não dita, explicita: aperta o pé com um pouco mais de força. Ele, que não gosta de nada evidente, retrai-se. Agora, excitada, ela parte para o ataque e se esforça para parecer maternal, o mais possível, inspira afetada e sugere o mais doce que consegue, querido... não quer fazer um favor para sua mãe? Tire minhas meias, querido, estou tão cansada... e baixa os olhos lânguida feito uma atriz. Ele, que até o momento não olhara para ela, acusa o golpe, uma olhadela rápida e uns segundos de indecisão, depois, as mãos acompanham a meia e o contorno das pernas, vindas dos tornozelos passam por trás dos joelhos até a lateral externa das coxas. Há uma pausa, ou ele esperava que as meias acabassem nas coxas ou decidia o que fazer: era uma meia calça. Ela apela com tudo, tira para a mamãe, tira... e ergue um pouco os quadris. Os dedos de um marmanjo de quase quarenta anos puxa a meia calça como fosse sua primeira vez. Ela lamentou sua fidelidade ao figurino, ter uma calcinha por baixo. Ele, para serenar, ou sei lá o que, volta à massagem, aos pés, as unhas vermelhas.Ela ergue o pé e cobre com ele o rosto do homem: barba e óculos, está como as vezes costuma ficar, numa zanga fria, distante. Sem fazer cálculo o homem beija o cavo do pé, a mulher ri, faz cócegas... beija então o esmalte das unhas. Ela força, empurra os dedos para dentro dos lábios. Não, isso excederia a devoção filial. Irritada ela apoia o calcanhar direito no ombro do homem ajoelhado, o derruba com um pequeno impulso, sabe como fazer. Olha, só, você também está cansado, ela surpreende-se com o próprio sorriso ... a maior desfaçatez. A senhora fez de propósito, maldade... queixa-se o homem de quatro. Fez. Ou não fez, estava apenas frustrada com o andar da carruagem, e completa, ríspida: sou sua mãe, cadê o respeito! O homem retorna aos calcanhares e não diz nada. Ela inclina-se para ele, segura-o pelos cabelos e enterra sua barba entre os seios, sua mãe te ama, filhote! Ainda bem que os óculos dele eram resistentes. Há uma débil resistência, mas ela o segura até que aceite essa simulação de colo materno e vencido, passe os braços pela cintura da mulher que o embala, e a excitação se confunde e se dissolve em algo perversamente maternal. Amava esse idiota, era idiota ao ponto de amar esse idiota, afinal, tortamente era a mãe dele. Ele quebra o silêncio com uma queixa infantil: não quero meus primos em casa... (??!!) ficam só olhando a senhora. Puta que pariu!! Tenta ser didática, você também não gosta? Ah, mas eu sou filho, não tem maldade... a mulher solta uma das mão que segura o homem e põe no seio por dentro da piscina/camisola azul/gelada. Olhe... é bonito... quem não gostaria de ver? E vai apalpando o próprio seio, a camisola quase toca a testa do homem que, se não quer olhar, percebe os movimentos. Ela pousa um tempo no real e diz, compungida e excitada: querido... tem que enfrentar isso... sabe disso, não sabe? Eu estou aqui, se quiser... tem que derrubar o muro ou aceitar ele na paisagem...
Ele levanta-se brusco e afasta-se... talvez nada venha a lhe dar mais prazer que o nunca realizado .... vai para o interruptor da última lâmpada do quarto e diz ainda de costas, mãe, não vamos conversar... estamos muito cansados, vamos tirar um cochilo, papai está dormindo no sofá e a senhora nunca gostou de dormir só... e desliga a luz.
A mulher deita-se no escuro total, o homem deita-se ao lado completamente vestido sem sapatos. Um movimento qualquer e percebe um cobertor cobrindo-a. Dá as costas, sabe o que virá depois, uma mão ténue e solícita, o indisfarçável barulho do zíper e o toque discreto de algo duro que não ultrapassará a camisola. Fecha os olhos, está excitada e frustrada.

Inês Monguillot

AMIGO EDU



Quase todas as noites, falava à esposa que ficaria até mais tarde no trabalho com o amigo Eduardo. A esposa por sua vez, quase todas as noites dizia ao marido que visitaria sua tia doente, mas ia à casa do amigo do marido, para ela Edu ou Dudu! JD

UNIVERSALIDADE DAS DORES HUMANAS!

Intuo, ao aperceber-me dentro do meu universo,
O quão difícil é, atuarmo-nos com empatia pura
Sobre a universalidade das dores Humanas!
Muito mais complicado, então, se torna
Apercebermo-nos das dores dos animais.
Embora tanto, nos afeiçoamos a eles!
Não sei concluir, ao certo, mas é possível
Que na Natureza, até as plantas diversas,
Possam possuir, em si, formas de dores!
Por que não?! Dizem que elas sentem,
E se sentem, também dentro dos processos
Cognitivos delas existem os sofrimentos
Intraduzíveis aos nossos. Nós e elas,
Assim como tudo o que há na Natureza,
Apenas nos olhamos e nos desconhecemos:
- As dores de cada um é a de cada um de nós!
Quanto a nós, nos emocionamos, sentimos,
Sofremos, por muitos inumeráveis motivos.
E cremos!... Podemos pedir a misericórdia
Pelos os nossos atos falhos ou pelos acertos.
Na espera, na esperança, na paciência, no amor
Duma paz interior, consciente de que uma, alguma,
Divinal clemência, nos conceda, intercedendo por nós
Ao Criador do Universo, ao Cristianismo, ao Judaísmo,
Ao Islamismo, ao Budismo, aos Deuses Olímpicos, Lakshini,
Ganesha, Divindades Celtas, Incas, Hindus, Vikings,
Aos Deuses e Deusas Gregos, Romanos, os Egípcios,
Aos dos Índios, dos Africanos, aos Líderes
Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Dalai Lama, Buda,
Fernando Pessoa, todos os Poetas, Odenir Ferro,
E toda a Humanidade dramatizando nossa História!
Todos nós, por nós, intercedendo, ao Criador do Universo

Enfim: - Para podermos viver as nossas vidas, em Paz!

Autor: Odenir Ferro

A Palavra


A palavra esculpida a barro de molde
Tremas alçam voos delinquentes
Abandona-se sotaques ao futuro
Perde-se status, um karaokê de fuzis
A palavra encantoada por todos eles iguais
A desdita sonora que reedita a falta
Da lágrima de um pobre ser um corpo dialético
E o riso do rico, a histeria do tédio
Do dizer sempre igual sem dizer, nunca, mais
Abismo de confabulações
No fundo, um verso, um tigre metálico, o neoidioma
Surge, assoberbado, elétrico, mordido, de sinais
*


 Ana Peluso

corpo/mar


para Juliana Inhasz

ela sempre me trouxe - algas -
e agora outras águas
que percebo em nossas bocas
nesta cidade de concreto
selvagem urbana
me transpira o corpo - ereto
e a pedra da transpiração viria
nem se fosse angelical e casta
e até morasse num deserto
será amor será paixão
por quê quando penso esta mulher
me dá um coice nos relâmpagos do coração?
será ela quem me dirá
ou algum deus em mim diria
pra mergulhar nestes teus poros
neste teu mar de calmaria
viver do amor a tempestade
pois sem paixão o que seria?
esse é o segredo
de todo mistério que o poema tem
no teu corpo/mar vou viajar em cios
e silêncios e desbravar selvas marinhas
onde a imaginação nos leva
em ondas e tocamos pernas coxas
línguas dedos os mistérios marítimos
se desvendam e no corpo/mar
não sobrará nenhum segredo

Artur Gomes

http://tvfulinaima.blogspot.com.br/2017/03/corpomar.html



amizade não era. não se pensa num amigo todos os dias. e ninguém tem medo de "perder um amigo" - é o único sentimento e o único vínculo sobre os quais temos certeza....
tinha então essas três pistas: pensava nela todos os dias, tinha medo de perdê-la e um vínculo, um sentir sobre os quais não tinha certeza alguma!
ah,,, o sorriso! não podia se esquecer do sorriso... para muitos uma bobagem, um sintoma jamais levado em consideração... para ele, vital. sempre que achava que estava amando ou prestes a amar, abria-se nele o sorriso mais límpido e cristalino, quando pensava ou estava com a criatura. o sorriso que estava em seu rosto, naquele instante exato!
ah... mas podia ser um misto de carências com admiração, o que exacerbado, confunde-se com amor.
e cada vez que o cérebro vinha com um "ah... podia ser isso, ou aquilo..." - o coração sorria calado, e parecia a ele um sorriso muito irônico.
desistiu de pensar... se não era amor, nunca esteve tão enganado na vida. se não era amor, nunca desejou tanto viver uma mentira, um autoengano. se não era amor, teria que inventar uma palavra nova para explicar a sensação de alegria serena, o aconchego que o acometiam quando ela estava próxima ou imaginava os dois juntos.
e sorriu, ele e o coração junto, quando pensou:
"se não é amor, é o "não-amor" com mais cheiro, gosto, jeito, cara de amor que já tive as sementes todas, todas,
plantadas
em mim..."
.

(eduardo ramos)

CARTA A UM AMIGO


"A globalização do medo é um fato inconteste. O mundo no qual crescemos não mais existe. Os valores com os quais modulamos nosso caráter passaram de moda. Os magérrimos mas efetivos bons exemplos sucumbiram sob o peso da mais obesa e obtusa arrogância. O mundo que sonhamos é hoje um terrível pesadelo".
Desde a minha última mensagem, meu amigo, são muitas as mudanças que ocorreram.
Sim, aqui...
...a liberdade pediu concordata, e a "democracia" fabricou uma falência fraudulenta;
a esperança fechou para balanço, enquanto a ignomínia é candidata ao Prêmio Nobel;
a vergonha fugiu da cara sem vergonha, e a globalização seqüestrou o livre arbitrio;
ao futuro agora só se entra com convite, enquanto os povos são punidos sem processo;
os princípios e valores estão amordaçados, e a desvergonha confiscou nossos direitos;
a mentira fantasiou-se de verdade, enquanto a Humanidade está pagando um alto preço;
as promessas morreram incumpridas, e as divergências murcharam por decreto;
a Cultura hoje é um quase-terrorismo, enquanto o cinza substitúi ao arco-íris;
a ordem dos fatores já altera o produto, e o medo triunfa em todos os comícios;
o grito rebelde é punido sem piedade, enquanto o discurso de joelhos é louvado e aplaudido.
Sim, a sociedade transformou-se num patético rebanho, e os seus líderes em pequenos ou enormes açougueiros, e as suas bombas resultaram demasiado inteligentes para aqueles que as usam ou as sofrem, e os mortos inocentes são os grandes perdedores da batalha mãe de todas as batalhas.
Bom, um pouco mais ou um pouco menos, isso é o que é. O que há. O que foi. Só não sei se é o que será.
Mas agora, antes de terminar esta missiva, peço-lhe encarecidamente que me diga se aí em Saturno onde mora continua tudo tão tranqüilo como antes, ou será que também?...
Um abraço interplanetário,

Bruno Kampel

EntreDentes 3


olhei a cara do tempo
ela estava fechada
não me dizia nada
pensei as sagaraNAgens
que o tempo fazia comigo
peguei do tempo o umbigo
cortei na ponta da faca
e a tua cara de vaca
sangrei sem nenhum remorso
porque isso o tempo não tem
agora o tempo sorri
me mostra os dentes da boca
e a tua cara de louca
é a minha cara também
arturgomes

www.goytacity.blogspot.com

PAROLE IN LIBERTÀ, OSTINATO RIGORE


Grande descoberta da linguística do século XX foi a da função poética da linguagem, por Roman Jakobson. Isto quer dizer que todo mundo que fala é poeta. A poesia é uma propriedade essencial da linguagem, não um arbítrio nem uma fantasia de poetas e literatos.
Todos os povos praticam a função poética. Todas as pessoas no seu dia a dia frequentemente utilizam a função poética. Essa função poética se manifesta quando a linguagem, em vez de se referir ao real, se volta sobre si mesma, como nos trocadilhos, nos jogos de palavra, no uso de rimas, enfim, em todos os momentos quando a linguagem se descola do princípio da realidade e passa a servir ao princípio do prazer.
Só por isso a poesia é a linguagem do desvio, da infração, do erro. Por isso, os poetas são loucos, eles produzem a loucura da linguagem. Por isso, poesia não é literatura, é música, é pintura, é desenho, é imagem, é orgasmo de linguagem.
Poesia é a liberdade da minha linguagem.
A máquina que em nós gera provérbios é a mesma que gera poemas.
Comer e coçar é só começar.
Quem cansa não me alcança.
Mateus, Mateus, primeiro os meus.
Quem vai embora não embolora.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Paulo Leminski.
Jornal Nicolau, n. 18, Curitiba, Secretaria de Estado da Cultura-PR, dez. 1988.

Acrósticos


Amigo

A migo nos preenche o coração em
M omentos que ele se sente só
I nfundindo alegria, esperança e com
G estos de carinho, levanta-nos dando seu
O mbro para repousar nosso cansaço.

Ataíde Lemos
meta metáfora no poema meta
como alcançá-la plena
no impulso onde universo pulsa
no poema onde estico plumo
onde o nervo da palavra cresce
onde a linha que separa a pele
é o tecido que o teu corpo veste
como alcançá-la pluma
nessa teia que aranha tece
entre um beijo outro no mamilo
onde aquilo que a pele em plumo
rompe a linha do sentido e cresce
onde o nervo da palavra sobe
o tecido do teu corpo desce
onde a teia que o alcançar descobre
no sentido que o poema é prece

artur gomes

no livro: SagaraNAgens Fulinaímicas

Curitiba Sutil


O negro armado de amor por sua cultura
Curitiba não está mais segura
Como isto pode acontecer?
Foi tudo planejado
Não tinha como dar errado
O negro tinha que embranquecer
Alisar seus cabelos
Esquecer da sua origem
Da sua etnia
Dos reis e das rainhas
Do candomblé, da capoeira
Do samba, do congado
Esquecer do seu legado
Não tinha como dar errado
O negro tinha que embranquecer...
Com a ciência de Angola
O jogo inverteu
O negro ta se encontrando
O branco empreteceu
Soltei um rabo de arraia
E o mandingueiro se encolheu
Na sombra do Iroko...
Um negro vestido de branco
Começou a ensinar
Era novembro, quase natal
No marco zero da nossa capital
No meio de um circulo ancestral
O povo cantava e louvava Tempo
Ojá pano braço, símbolo de pureza
Que simbolicamente vestíamos a gameleira
E o respeito pairou no ar
Zara Tempo!!! Era a ordem
E todos começaram a dançar de Exu a Obatalá
Com o próprio corpo a rezar
Sabedoria do povo Nagô/Bantu
Coisa humana ... de santo
Ligar o antigo com o novo
O sagrado emana do povo
Com palmas ,tambor e canto
Revelando ... conhecimento milenar
Não vamos nos calar
É chegado a hora de se respeitar
As múltiplas formas de cultuar
O sagrado sem sangrar...
Sem amputar, nossa cultura popular, nossa tradição
Nossa fé, ta no nosso sangue irmão
Nossa história no coração de Curitiba
Em silêncio... adormecida
O sutil racismo
Transbordando poesia


(Mel e Candiero, In. Afrocuritibanos: Crônicas, Manifestos e Pensamentos Azeviche. Curitiba, Editora Humaita, 2015.)

REFLEXÃO


quando morrer
não terei resenha
em jornal
quem sabe
uma citação de praxe
no diário oficial
e alguns votos
de condolência
nas redes sociais
não serei chamado
de célebre
nem de maldito
serei comum
e estará escrito
num epitáfio
aqui jaz um poeta
discreto
& de fino trato
morreu
por falta de lirismo
deixou obras incompletas
& dívidas a pagar
credores
tende piedade de mim.

Ricardo Mainieri


Do livro Afrocuritibanos: Crônicas, Manifestos e Pensamentos Azeviche.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Bandeira Hidrográfica




Sub conjugado
Sub expressado
Sub classes

Altaneira gente sente
Sempre selvagem
São
Intelectuais das capitanias
Morais

Sem parâmetros
Sem paradigmas
Sem telas
Sem-teto
Sem

Sou
Ode
Ventos
Estrangeiro
Intelectual brasileiro
Falando o idioma do meu
povo,
O português.

O exercício da crítica,
Libertando-nos
Escravizando-nos, valores
Tão...

Qual penhores dos senhores
Da palavra
Escrava
Quilombola
Do silêncio fractal.

Sim, intelectual
Global

Telas, representações
De si, que não são o si mesmo
De si, da coisa em si
Do ser em si
Ser.

Verta a lágrima na caixinha
Do dízimo.
Qual objeto

Deve-te opinião
Anderson Carlos Maciel


domingo, 26 de março de 2017

de quanto a alma
lhe escorre pelos olhos
em sal
de quanto o corpo
já não lhe comporta,
inquieto em sangue
e lembranças soltas
e esparramados
de quanto a pessoa
somente suspira, pesada…
e se depreende,se desprende,
somente em pedra
-
em pedra e sal

claudinei vieira
me causam pânico as sombras ao vento
as disformes as inexistências
as que simulam o abismo

Margarida Di
preciso de um silêncio
que me faça desistir do penhasco
que seja já gasto
mas ainda cheio de gozo
que me coma viva
que me atire ao rio
que me dê o desvario
de um pássaro no cume do céu.
que esprema dos meus ais
e dos meus risos
que me livre do fel
e me passe o anel, como nos dias
dos meus sete anos.
que seja capaz de alisar
meus visgos mundanos
que sorria do anjo
que ainda me mora
que corra, a quinhentas saudades por hora,
ao meu lado
preciso de um silêncio farto
que faça verter a glória da essência que fui
no agora eternamente que já não sou
no qual eu possa vibrar o risco
de tudo que me desamou
desde que eu não corra perigo
de corte na carne em flor.

Lázara Papandrea


Sou mesmo inolvidável, todo dia me surpreendo com o gosto da vida. Às vezes triste, em outras nem tanto, até virar do avesso e quase morrer de rir. Suspenso no infinito, valho o dobro e, todo emoção, aí é bonito. A manhã me tira da cama. O verso vem que é um tufo e nada mais peço. Cai tudo do céu e eu levanto em estado de graça. Leia no primeiro comentário e comece o dia de pé e cabeça erguida.

Antonio Thadeu Wojciechowski

Acordei com trovoadas na cabeça, águas do dilúvio e eu fora da Arca de Noé. Tomei café, com um pouco mais de açúcar do que o de costume e sentei-me ao computador para ler e-mails e dar uns pitacos em alguns poemas que os amigos enviam para eu dar uma olhada. E de repente me vi em um redemoinho de lembranças. Amigos que se foram, alegrias que deixaram de rir, tristezas que já não choram, belezas para as quais ficamos cegos, filhos que vão e são engolidos pelos afazeres e deveres de suas vidas. Daí olhei pra dentro de mim e escrevi um soneto, essa forma antiga/moderna e tão eterna de dizer as coisas que sentimos. Leia e olhe em volta, o que parece que não está mais com você pode, de repente, aparecer.


Antonio Thadeu Wojciechowski

a noite cai

a noite cai
entre na noite mais temida
que mede a humanidade a dedo
mergulhe na vastidão
da canção que ninguém ouve
não tema a vertigem do silêncio –
quando a língua cessa a luz fala
MK


AMOR PARA QUEM ME QUER BEM


quarta para cima ou para baixo
não sei rezar um terço
nem bem me acho
e parece que já me perco

um pouco mais de luz
e estava aceso
aquela esperança onde pus?
à ilusão estive preso?

não sou mais eu
sobras de mim são peso
cada detalhe seu
é um momento que revejo

mais um poema em vão
busca a delícia de um beijo
vai! sossega, coração!
não há mensagem no realejo

a música vale quanto toca:
sentimento, emoção e desejo
gosto, tato, cheiro, só o que foca
amor em tudo que ouço e vejo!


antonio thadeu wojciechowski

Pré-rafaelita, te procurei nos bosques


entre as ninfas,
antes que Apolo fizesse seus estragos
sobre o mundo.
A vida é uma floresta onde os ecos
dos encantamentos medievais
ressoam ainda entre os álamos.
Depois que constatei minha loucura,
recolhi-me à cabana abandonada,
aquela de pedras enegrecidas,
coberta de hera antiga,
no fundo do vale obscuro.
É aí, entre cartapácios de alquimia,
que busco a fórmula do verbo imorredouro.
Ontem, de manhã,
julguei que era tua voz que me acordava.
Engano meu: era só a cotovia.
Todavia, não existe solidão
para quem é irmão das ervas e dos seixos da colina.
Eu sou pobre,
tenho de meu só um manto roto e um cajado,
mas possuo todos os trajetos de meus passos
e os gestos possíveis de minhas mãos de dedos longos.
A lua é minha confidente
e o sol não cresta mais minha testa morena,
pois me tornei como um tronco de carvalho
ou uma rocha
na encosta da ribanceira.
Se alguém pensa que sou triste
é porque não conhece a verdadeira alegria.
Minhas pálpebras pesam
mas dentro em mim esplende
um carnaval sem máscaras e sem fim.
Otto Leopoldo Winck

não sei porque fecho
tantas portas
mas fico horas
fechando as portas
e os trincos
(josé leonilson)
vivo pelos olhos
de outros
espiando
por frestras
este mundo louco
ninguém vê
o coração apodrece
( só entendo
o caos )
que tal
abandonar
o tratamento ?
(viajar
é transpor
fronteiras,
não
espaciais:
abandonar-se
em temporais,
ficar num lugar
é viajar,
no escuro
mais escuro)
se você quer
curar
o incurável
procure
o doutor
para quem
as histórias
giram nas órbitas

sonho de artista

MK


MARILIAKUBOTA.WORDPRESS.COM

Flor da pele


enquanto as couraças
se distraem com as certezas
a pele se arrepia
com as dores dos ventos
na linguagem dos moinhos
subcutâneos
e o corpo se levanta
pela única certeza
de que ainda se espanta
com a tez das flores

Chris Herrmann
se a palavra não serve
melhor guardá-la.
se a poesia não ferve
melhor rompê-la."

RR
da janela
pode vir um grito
de saudação
ou socorro
erguendo o bom dia
como fosse novo

MK
aqui se cria
o acaso
enquanto o sucesso constrói
arranha-céus
destrói a vista
de quem recebe a visita
de mosquitos e lagartixas

MK

Incorporar a morte


é como integrar o lado de fora no dentro da gente
ou então assimilar o silêncio de Pascal
no burburinho de um supermercado.
Incorporar a morte é mastigar cacos do caos,
ferindo as gengivas de um rubro de vida vivida.
Incorporar a morte não é invocar ou evocar espíritos.
A morte não é espírito.
A morte é uma coisa grave e dura
como uma pedra na algibeira da consciência. A morte é incontornável:
árvore caída no meio da rua
depois de um temporal. Úlcera
que vai crescendo e devorando os livros da biblioteca.
Incorporar a morte
é teimar em viver, teimar em estar ainda aqui
depois que os convidados começaram a partir.
Beber um vermute
é incorporar a morte.
Pensar na cicatriz da coxa de Ulisses é incorporar a morte.
Rir, chorar, beber, defecar, lanhar a carne
nos exercícios diários da vida
é incorporar a morte.
Assim a morte vira corpo no corpo da gente.
E quando chegar a hora do parto,
quando chegar a hora de quebrar o último copo,
expelir a morte não será problema.
Será, isso sim, como tirar a poeira
do ser. Como abrir os olhos ainda uma vez
e ver que o mundo, apesar de tudo,
foi um cálido lugar.

Otto Leopoldo Winck
O poeta marginal é aquele que ainda hoje leva o seu livro com poesia para vender um a um a seus leitores no leilão do jardim de infância. Seu objetivo é a comunhão da palavra. O poeta liberal é aquele que leva o livro sem poesia para vender a alma ao mercado. Seu objetivo é preencher o vazio de sua ausência de conluio com a palavra.

MK

PASSADO A LIMPO


de mim, podem dizer o que eu não disse
pois jamais tive medo das palavras
o céu azul da pena das araras
brilha em meu estro e em telas de Matisse

um dia, escrever foi pura tolice
morríamos de rir eu e outros caras
o sol nascia, punha tudo às claras
e enterrávamos nossa pieguice

depois, perplexo, eu, com meus espantos,
recolhendo bitucas pelos cantos,
deixava tudo limpo e a sala um brinco

foi sempre assim, mas, só, nesse recinto
amanhecia em mim um não sei quê
era eu com vontade de te ver


antonio thadeu wojciechowski

Ler

ler
enquanto
a cidade segue
seu ritmo
sonhar
com a cultura milenar
do chuchu da serra
para melhor
saber o meu lugar

MK
Eu gosto da coisa real
centrada em si mesma
rica em efeito especial
lixa sob o fluir da lesma
uma puta poesia pura
água que pedra fura
alegria de mulher nua
lente no olho da rua
coisa de quem acha
e não de quem procura.
.

(Thadeu Wojciechowski)

Então eu disse: noite.

Então eu disse: noite.
E a lua luziu nas tuas pupilas.
Terra. E teus braços se confundiram com as árvores.
Como um aboio, me chegaram as lembranças remotas.
Eu tive ódio das coisas
porque elas passam. E pena dos pássaros
porque eles são breves.
Na verdade eu preservei,
num baú chamado saudade,
um rosário de contas da infância.
Toda vez que a vergonha me cora,
eu saco uma reza, um chaveiro, um relógio quebrado.
A memória é um país para onde voltamos
quando chove a cântaros. E o tempo é um espaço
onde é bom se perder.
Tenho dois medos na vida
(o medo é um canto):
não te identificar
quando voltares da rua na último tarde;
desconhecer-me quando fitar no espelho meu último olhar.
Então eu disse: noite,
terra estrangeira, suspiro de pomba, rastro de áspide.
E tudo se refez intacto. E no fundo da escuridão antediluviana
eu reconheci os meus olhos
nas tuas pupilas insones.

Otto Leopoldo Winck

ESTAÇÃO CURITIBA


árvores nuas
o outono começa
strip tease pelas ruas

antonio thadeu wojciechowski
aprendi com o pathos
e as patas
a ser psicopata
quando solto
meus bichos
eles vão matar
as saudades
da loucura de viajar
em todos os cantos
no mesmo lugar

MK

oh ilustre

                   oh ilustre
seja mais iluminado
que o lustre
que reluz pingentes
quando tua língua louvar
a obscuridade do passado

MK

EX-NADA



sou letrado no que não serve pra nada
pós-graduado em vírgulas impressionantes
mestre em anatomia de vogais, consoantes,
doutor dos bons em ritmo, som e batucada

com um marcapasso original no coração
estrebuchei de dor nas notas imaturas
mas, em vez de ir em frente, quebrando estruturas
me fiz PHD nas contas da oração

rezei por rima rara ao deus dos meus versinhos
e, quando dei por mim, mendigo do impossível,
caí de joelhos, e a humanidade, impassível,
querendo um outro céu, nem creu nos meus carinhos

brandindo ao léu as folhas mil de minha lavra,
como uma larva que se arrasta em podridão,
senti na alma a mais completa solidão
só então vi que era minha a última palavra

antonio thadeu wojciechowski


sexta-feira, 24 de março de 2017

Zumbidos zen-liberais



Às favas
Às lavas
Às salvas
São

Guarnições de versos
Inversos após
Os a sós
E nós
Aquém

Somos
Convergimos, cúmplices
Pelas pontas dos dedos
Retratos e nus velados

A moral, no jornal diário
Não nos contempla o padrão
Astral

Tuas críticas mais raquíticas
Não entabulam meu riso
Ao inverso da maré

Ao cimo cretino ateu
Eu rimo
Divino adeus plebeu

"Póstumo
Para esta geração"

Emerjo espessos universos
Reversos de si
Derramam-se, - ideias -
Tão

Em meu galardão constam
Luas, estrelas (do mar)
Ou não.

Frestas canhestras quais
Finais, teatro, falácia
Refrão.

Não me contemplam a arte
Em parte, destarte, conhecem-me
A mão.

Cuneiformes rascunhos de si
Quão!

Apimentam-se
Zumbideiros neoliberais

A cada passo dual
Das pernas sinestésicas
Metáforas cativas
Nos presídios dos sentidos
Proletários informais.

Evocam valores
Que minha pena, serena
Escrita helena revê
Cavalgar.

Nas matérias cósmicas
Milhões de intelectos-luz
Aquém de uma teoria
Do sentido estético
Reverberam nuances políticas
(recortes de real)

Dicionários e palavras voam
Selvagens por sobre as pradarias
Da técnica
E do amor

Que tornar-se-á clichê
Ao por-do-sol da aurora verde
Autônoma

Nos céus dos meus sábios pelos

Anderson Carlos Maciel 

domingo, 19 de março de 2017

DUAS ALMAS


Alma, que junto a minha caminhas
pelos espaços do céu.
Segredos entre nós, não há, nos entendemos
muito bem, pelo pó das estrelas vamos,
em qualquer espaço entre os astros descansamos.
Não diria sermos almas gêmeas, porém ,
existe entre nós um entendimento perfeito.
Penso eu, que o molde foi usado duas vezes,
porque por mais que se procure, não se encontra
um defeito.

Roldão Aires

POEMA PARA RECITAR NO ESCURO


A chuva caiu de uma maneira despropositada
toda a noite. Do alto do promontório eu vi o dia chegar
como um colapso. Ignoro
os caminhos da vida para além da floresta.
Ignoro as feições do meu rosto
quando choro ou quando rio
de desespero. Me disseram que o tempo é um rio.
Mas o tempo é um mar
onde todos vamos ao fim naufragar.
A chuva caiu de uma maneira despropositada
como um castigo. Ou bálsamo. De manhã andei doze léguas
sobre a campina alagada,
até me sentir extenuado.
Depois me sentei sobre um rochedo
e cantei todas a canções que eu sabia.
Existir é às vezes tão estúpido
como uma noite de tormenta.
Ou magnífico como o sol
a me crestar a fronte altiva.
Ao voltar, eram vermelhos o salgueiros
da beira da estrada.

Otto Leopoldo Winck
querias ser um ícaro
não passas de um ácaro
de ti não tenho pena
tenho asco

Otto Leopoldo Winck

OFERTA


Como a voz de muitas águas
você me acordou dentro da noite
e eu era como um velho navio naufragado.
O canto dos peregrinos
me chegava aos ouvidos
como uma recordação maldita.
E de repente eu desejei
que não houvesse sol – e nos tons sanguíneos
que antecedem o dia
tudo se revolvesse
e resolvesse.
(Tenho andado tanto
e cantado pouco – pensei.)
Por isso aqui estou
à tua porta
e trago como ex-voto
os veios que as bátegas da chuva
abriram no meu rosto
– e as minhas mãos cansadas
e vazias.

Otto Leopoldo Winck

NO BRASIL APRENDI A VOAR



Derretendo
Por dentro em sufoco
Num país inóspito aos filhos da própria terra
Talvez servidor do estrangeiro
Em Luanda me achei calado.

Num mundo apocalíptico
Onde o medo predomina por causa do opressor
Que à um cidadão pacato que reivindica
Bradando apenas por justiça,
A bala nele não se poupa
Assim somos obrigados a engolir sapos vivos!

Com medo do terror
A voz do poeta se emudece
O talento em sua alma se morre!

Na África, de onde eu vim... me achei calado no meu mundo vago,
Por medo, onde as feras despedaçam as aves indefesas,
Que não têm asas pra voar!

Mas...
Em Curitiba, Capital Paranaense
Entre os escritibas na rua
Em saraus poéticos e canções melódicas
ora em goles do guaraná e risadas eufóricas entre os amigos
No Brasil aprendi a voar!

Em Curitiba migrei
Navegando em suas marés serenas e apaziguantes
Nada igual às marés agitadas e turbulentas
De Luanda-Angola minha terra de onde eu vim!

Oh, Brasil
Migrei em ti em plenitude de corpo e alma
Qualquer dia
De ti só levarei lembranças boas
De sua gente amável e gentil
Pois, daqui, é onde ganhei as minhas asas
E aprendi a voar em liberdade!

Em Curitiba, Capital Paranaense,
Numa roda plenária entre os artistas
Em saraus poéticos de alegria folguedo
Aprendi a voar

Com os amigos
Conselhos e lições estratégicos de Olinto Simões eu bebi
Completando a minha total audácia
Para poder voar
Voar
Voar
Voar
Sim, Voar em Liberdade!

Qualquer dia, de ti Brasil, só lembranças boas comigo levarei!


Moisés António (Curitiba aos 19.03.2017)

Lamentações


Deus , por que me deste personalidade,
Se sabias que eu era mulher
E sofreria?
Deus, por que me deste necessidade
De versos e amores,
Se sabias que eu era mulher e não podia?
Deus, por que me deste
Independência material, espiritual e intelectual
Se me sabias fêmea?
Porque não um marido, três filhos
Uma casa com quintal e cão e
Um retrato pra pendurar na sala de jantar?


Luciana Cañete 

ESSA FOME QUE NÃO PASSA

alimento não sacia minha fome
o gado está para o pasto
o gado não está para o prato
quem mal come o que sacia é a alma
.
desculpas sinceras a quem não come
mas a cicatriz parte do peito
e do querer que a vida anda tendo
deste pouco que a gente anda sendo
.
a fome na índia, a fome na china
tudo que a esperança consome
a fome de pão, de vida, de vagina
.

Março- 2017- Evanilson S. de Almeida

Outono

Folha de plátano
baila ao sol
Acha crepitante
desaba no solo triste
Epitáfio da folha:
Não desapareço
feito espuma nas ondas
Regenero o solo
com ternura feroz
Para colorir azaleias
gardênias e girassóis

Bárbara Lia

Luciana Cañete

fonte : blogue da autora, poeta e escritora
http://www.deusdobrável.blogspot.com

All cansa


A moda de atropelar doença com antibiótico,
De sufocar angústia com shopping center,
De calar amor com caixa de chocolate comprada em segredo,
de esvaziar de sentido o nosso sexto,
de descontinuar o tempo na euforia do imediato,
de se desconhecer origem e fim de nós ou tudo:
cansa.
(Essa secular fadiga se instalou, e se faz esporadicamente sobre minha alma.)
Explicar que o que se descarta não desaparece na mão do ilusionista,
Que dentro e fora se refletem sem ser mesma coisa,
Que há códigos mas também cada experiência nos impele ao aprendizado de uma nova língua,
Que gente tem formas de abrir , fechar , funcionar e emperrar conforme palavras e tons e gestos de outros:
cansa.
Mas de tudo mais me cansa
o incansável querer

o que não se alcança.

Luciana Cañete
Fui povoando de sonhos uma casa. Cresceu mais que tudo o que houve na cidade. Pelas costas sempre outras coisas. Vamos cavalgar as flores de pétalas adjacentes e sumergir depois em pequenos vidros de geléia. Vamos cortar a grama do jardim que nunca tive e soltar os cães de minha infância. Há também uma visita a ser feita, pro labirinto de cerca-viva incendiado por delinquentes juvenis – talvez meus primos. Foi e não volta, sim? Não explicaremos nada. Não há tradução nem língua possível para essas dores e contrangimentos de abandono. Eu não te teria deixado e deixei. Eu teria suplicado a tua presença se tivesse 17 anos, mas estamos velhos para esse amor desesperado, ele soará tão falso quanto o adeus que não me quiseste dar. Vamos para serra, será? Vamos praquele lugar da ponte. Vamos construir uma ponte de nós? Tá, tá , tá. Eu aceito o fim de tudo, depois que vi quando tiraram a gaiola de tucanos do Passeio Público.
Mas no sonho, paralelo ao decorrer do fim, houve uma chuva incessante, houve um salto da janela e tua voz repetindo: - Eu preciso ir embora. E a melancolia, e uma porta que não quis se abrir, mas conseguiste a chave. As rosas sem gosto só provam que foram colhidas antes do tempo.

Quem cozinha ou planta aprende que também os sentimentos tem ciclos. E se regam e adubam para que não morram.


Saudamos a primavera e suas flores paralelas, até o encontro de nossas retas pela circunferência do vasto-pequeño mundo. Sul e norte são a mesma coisa numa superfície esférica. Serão opostos apenas para quem lê mapas, planos cartesianos, não para eu que crio estradas com o que sinto e sempre tenho como ponto de chegada o coração do coração das coisas.

Luciana Cañete

Ela sou eu mais adiante.

Ela sou eu mais adiante.
Eu sinto, eu sei, eu sonho.
Ela me vê em si já encoberta de novas coisas incompreensíveis pros meus pequenos olhos de esquimó.
Ela caiu de pára-quedas e não pude devolvê-la pro alto.
Ela aterrisou com sua bússola estragada e seus mapas de cabeça para baixo(que inexplicavelmente a levam exatamente aonde deveria chegar), seus vasos úmidos e dezenas de latas arcaicas e não pude evitar.
Às vezes ainda sinto um medo, um estranhamento que cada dia parece menor, mais longínquo.
Ela sabe esse labirinto vegetal no meio da cidadezinha, o que já é quase um código secreto.
Porque também eu me desacreditei, porque também eu me impedi.
Já é época de borboletas e mariposas sairem dos casulos e também nós, de nossos medos.
E também nós.

A primavera não perdoa o desdesabrochar, nos obrigará sempre a florir.

Luciana Cañete

Endomingável



por que no domingo a água
tem outra velocidade
e é feriado nacional
em nossas vísceras?
por que no domingo
o amor é mais lento, baldio,
vadiado
e os corpos pesam
10 gramas menos?

por que no domingo
há este insético zumbido
nas retinas?
por que este vazio grávido
de tudo – oco sem beira, espera
do quê, meu deus?

por que nossas mãos ficam
quase cristalinas?
por que a ordem natural pode ser
suspensa e de uma crisálida
irromper um pássaro?
por que as árvores cantam
um tom abaixo?
e os cães latem noutra língua?
e as crianças, cavalgando
desilusões de não ser ainda, calam
desentendimentos?
por que o amor, ósseo, dói como flor
nascendo
sobre o ombro esquerdo
e a vida respinga das páginas
que viramos quando lemos?

não há consolo necessário,
domingo não é preciso.

domingo não é um dia,
apenas mais um dia.

domingo é uma semana,
domingo é a vida inteira



lu cañete + rodrigo madeira
Noite morta natimorta:
que já aviso dera o sono de não vir.

Sonhos e pesadelos não serão, sussurou-se.
Não haverá o vôo entre pássaros azuis,
mulheres não mutilarão os dedos,
nem chuva incessante de coloridas contas
ou queda brusca em buraco,
roupa que encolhe
e atraso pra prova.

Será um dia escuro, a noite natimorta.
Será um dia enluarado,
com olhos estalados no teto do quarto,
depois no azulejo do banheiro e
ainda nadando na água do copo.

A noite morta ressuscita prenhe de um
orgasmo prestes a nascer na boca da namorada,
de um velho a dois minutos da morte,
de uma sirene que mergulha no breu
e de um cão que a pescará sempre.

Noite morta natimorta
meu insono te adivinha.


Luciana Cañete 
Um dia mergulharemos no mistério.
Dele sairemos tão encharcados de muito
quanto enxutos de palavras.
Voltaremos sagrados e silentes,
com olhos de paz eterna.

Se capazes de abismos,
se audazes a ponto de espelhos sem fundo,
de “bexigas sem pele”, “ocos sem beira”
não viveríamos esquecendo que um dia
estaremos diluídos no mistério,
que tudo
nos impele para ele.
Cada dia e todos, como oração inata,
nos preparam
para esse salto em
mais que profunda

água.

Luciana Cañete