quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

"Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze."

- Graciliano Ramos, em 'Memórias do Cárcere', 1953.

Miriam adelmann


“Todas as coisas que me rodeiam são raízes. A jabuticabeira que deve ter quase cem anos, a caramboleira, os baús, os móveis e todos os objetos antigos não são uma forma triste de memória mas uma afirmação de que, num crescimento espiritual, num crescimento humano não podemos jogar nada pela janela ou no lixo. Não podemos jogar fora as raízes - elas nos preservam e elas se preservam conosco, na memória ou dentro da terra, seja onde for, mas elas também nos projetam porque, à medida que elas se preservam na terra, elas crescem fazem a gente crescer, como uma árvore. O homem é uma árvore que abriga amores, lembranças, outros seres, uma árvore que dá sombra e luz, e é para isso que a gente nasceu, fundamentalmente. Isso eu aprendi, é claro convivendo com meus pais e também com os vizinhos, que tinham maneiras semelhantes de viver e conviver, maneiras simples mas definitivas.”

- Lindolf Bell, em “entrevista” à Fundação Catarinense de Cultura. Publicado: em “Lindolf Bell: estudo biobibliográfico: antologia”. (Escritores catarinenses - Série hoje nº 2). Florianópolis: FCC, 1990.

tenho febre
a febre não corrige meus pecados

me livrar da submissão

de chamar a febre de febre
podendo fazer dela um pacto

de amor e nervos


Roberta tostes Daniel 

pra ouvir a melhor canção do mundo
pra educar a sua gatinha
e criar um sistema filosófico
nem ninar o seu menino
ou enxugar poças de sangue

ela não vai a uma festinha

de carona com um carrinheiro
traduzir o velho Maikovski
tirar suco dos limões
ouvir conselhos do avô
pra uma transa lenta no bidê

ela não vai a uma festinha

discutir geologia
pegar um navio lá pro Caribe
arrancar os dente do siso
galopar sem ferradura
posar nua pra um pintor

ela não vai a uma festinha

pro exercício da piedade
engolir assuntos espinhosos
posar cool na biblioteca
morrer completamente
viver dentro de um soneto

ela não vai a uma festinha

defender-se num processo judicial
escalar cachoeira congelada
eleger seu candidato
mostrar que tem espírito
pra dormir num quarto rosa


ela não vai a uma festinha

Luiz Felipe Leprevost

Mãos

Ai...

Essas mãos que me perseguem
Deslizam feito fosse unguento
Empapuçando minha carne
Inebriando o pensamento
Adentram em todos os segredos
Sem dó, violam meus apelos
Até provar toda luxúria
Redescobrindo labirintos
Fazendo ir toda lamúria
Deixa dormir todo meu gozo
Exorbitando a textura
De um encontro caudaloso

Maria Regina Alves 

eu devo estar na Terra para cometer todos os erros possíveis

embora tenha mais de ano que não pratico meu cinismo
desde o dia em que a melhor atriz da nossa geração
me falou que nunca conseguia saber se eu estava sincero ou não
tem mais de ano que tento não ser ambíguo

sei que pago um preço por ao longo da vida
ter me interessado menos pela engenhosidade analítica que pel´A Razão Gulosa

sem a arte, que é para mim uma das facetas do amor, a vida seria intolerável
sem outras manifestações amorosas até que tenho me virado
mas sem o mínimo que encontro na arte, não
“a vida é um arquipélago de amor atormentado”, faz quase dois anos que
este verso de Blake me persegue diariamente

tinha vento na cidade
quando os rios iam
o verde abria o azul
quando as plantas faziam alimento e remédio
o dia era o dia e a noite era a noite pelo simples fato de que eu dormia e acordava
agora qualquer horário é nenhum
submersos ficam bem os peixes, nós não

meu corpo está ficando bárbaro novamente
a começar pelo ouvido que não sabe escutar
a começar pelas mãos que não sabem mais fazer carinho
a começar pelo cérebro que virou um pirão
“os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano” (Blake)

e vai que viver é uma eterna procura por diminuir nossa imensa solidão
por isso o amor é o amor

se eu pudesse afirmar que não trago a falta dentro da minha ansiedade
ou melhor, que dentro da falta não trago ansiedade
aí eu estaria novamente pronto para as festas de vocês
as seguidas e incansáveis pequenas festas dentro de uma guerra

escrevo como eu fosse um poeta marinheiro
ou nem sequer um poeta, só um marinheiro
o que vale é a doçura em mar salgado
extrair ternura do gestor cultural
extrair ternura do poder aquisitivo
extrair ternura fechando acordos societários
estatólatras pode que sejamos todos, até eu, que quero mais é que se foda

ah tá tudo bem, agora falem mais uma vez o quanto sou fofo
digam digam me digam o que eu sei
Luis Felipe Leprevost



passei anos não acreditando em nada
agora faz um tempinho decidi acreditar em tudo
o mais difícil é acreditar em mim mesmo
mas até isso entra no exercício diário de acreditar em tudo
acreditar em tudo
se você me diz “com treino o nosso espírito consegue sair do corpo enquanto a gente dorme”
beleza, vamos nessa
se alguém vem com “esse lugar tá tomado por exus e aquela gordona ali é o para-raio”, massa
ou se “ai, fiquei toda arrepiada, passou um anjo”
deve ter passado mesmo, por que não, ué?
ou se me chegam com ectoplasma, reencarnação
ou “pede com fé pra Deus que ele atende”
"tinha uma força, uma luz que vinha do papa toda vez que ele aparecia na televisão, eu podia sentir, você não?"
ou “leva o menino na Dona Maria que ela cura ele com um dois passes”
sim, em tudo, acreditar em absolutamente tudo
leituras de borras de café
leituras de mãos
leituras de olhos
clarividência
ocultismo
recodificação mental
agora boto fé no poder curativo do violão tocado pelo Murillo Da Rós
nas peças teatrais de Roberto Alvim manipulando energias misteriosas a ponto de levar algumas pessoas da plateia ao vômito
nos sonhos que B teve comigo com crianças mortas e proteção
na psicanálise
medicina milenar chinesa
na mediunidade
Oráculo de Delfos
psiquiatrização geral
no rapé abrindo as vias aéreas e naquela pajelança que a gente faz com maconha
o diabo no corpo
no descarrego com banho de arruda
nas entidades chupando chupeta no terreiro de umbanda
no poder transcendental do gozo a dois
passei anos não acreditando em nada
agora faz um tempinho
Luis Felipe Leprevost


Salvar os pássaros - Vamos falar sobre livros? #67

Billie - Teaser 1

TV éParaná - Gente.com - Gloria Kirinus

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ver



o movimento das coisas
em cifrada aparição -

o eterno quer
lançar seus olhos
aos meus.

Nunca – ter visto
e o mesmo
ver, ver,
retirar-se

para a borrasca.

Se fosse cega
a paisagem,
se fosse igual.

Eu, cega
soberania para imagens.

Seria:

para o (não) ver,
para o fugaz,
para sempre

primeira retina.


Roberta Tostes Daniel

Corpo


A vida é marca no corpo
Desenho de sonhos, luxúrias, presas
Memória futura e presente ido
Servidão, desencontros
Corpo é casa viva
Abriga... há briga
Talha histórias
Vinca perguntas - sem respostas
Dobra a soberba
Entorta a vaidade
Praça de denúncias e anúncios
Ausências e sobras
Esconderijo de dissabores e sabores
É nele, corpo, onde relato
Relo, velo e crio o mundo que me cria
Onde tudo é comigo e dele dentro
Delato, delito, dilato
Corpo subalterno do desconhecido
Movimento do tempo

 Maria Regina Alves


LIQUEFEZ-SE O PLUVICÍDIO



A chuva estava na chuva
encharcada,
sem camisa,
caída,
de olhos molhados...
- Chorava o seu suicídio!


Altair de Oliveira, In: “O Embebedário Diverso”.

Lenda da Maldição do Chinelo de Dedo em Curitiba



Reza a lenda que os curitibanos tradicionais têm preconceito contra pessoas que usam chinelo de dedo. Nunca levei em consideração este fato, pois vejo pessoas de todas as tribos e de classes sociais usando este tipo de calçado.
Porém, neste ano de 2014, num curso, uma professora fez o seguinte comentário:
- Curitibano tem preconceito contra quem usa chinelo de dedo. Pois, eu fui num shopping da capital paranaense com este tipo de calçado e o guarda não me parou de seguir.
Naquele instante um aluno fez o seguinte comentário:
- Eu queria entrar num barzinho do Largo da Ordem, mas o segurança não me deixou porque eu estava de Havaianas.
Ao escutar estes comentários, a minha mente foi parar no ano de 1979, quando eu tinha 5 anos de idade e escutei a seguinte queixa do meu tio:
- Poxa, eu fui ao banco e a operadora de caixa olhou para meu chinelo de dedo, fez cara feia e me atendeu muito mal.
Desta maneira, também, me recordei na época em que eu era vendedora de loja. Quando, de repente, entrou uma senhora bem vestida, mas com Havaianas. Então, uma balconista olhou para a outra e disse:
- Não atenderei esta freguesa porque ela está de chinelo de dedo.
Assim, eu afirmei:      
- Mas, eu vou atender!
Deste jeito, a referida senhora fez uma compra farta e quem lucrou com as comissões naquele dia fui eu.
Estes dias eu estava dentro do ônibus e ao ver várias pessoas com chinelo de dedo, comecei a refletir:
- Por que só aqui em Curitiba a maioria dos moradores tem preconceito contra quem usa chinelo de dedo?
- Afinal, morei em outras cidades e sei que situação não é assim.
De repente, uma idosa, calçando Havaianas, sentou-se ao meu lado e começamos a conversar. Ela disse que seu nome era Mikahila. Então, papo vai e conversa vem, chegamos até o assunto: preconceito que alguns curitibanos têm contra pessoas que vestem chinelos de dedo. Logo, dona Mikahila, me explicou:
- Este causo do preconceito contra quem usa chinelos de dedo começou na Idade Antiga, lá no Leste Europeu.
- Naquela região havia duas tribos distintas: numa as pessoas tinham os pés normais e podiam calçar de tudo. Já, a outra era composta por pessoas com os pés muito sensíveis, por isto o único calçado que elas podiam usar eram os chinelos de dedo feitos com couro e  madeira.
-Um certo dia, estas tribos brigaram e a aldeia das pessoas com chinelo de dedo saiu derrotada. A partir daquele dia, a clã fracassada passou a ser escrava da vencedora. Por isto, o chinelo de dedo passou a ser símbolo de pobreza e alvo de preconceito.
-O tempo passou, mas infelizmente este tipo de tradição permaneceu. Até que no século dezenove, alguns descendentes destas duas tribos distintas resolveram pegar o navio para trabalhar no Brasil. Por isto, na embarcação, umas pessoas vestiam calçados  fechados e outras chinelos de dedo. O problema foi que os indivíduos destas duas tribos escolheram a mesma cidade para viver: Curitiba. Por isto, o preconceito contra quem usa chinelo de dedo se espalhou entre os moradores de Curitiba, naquela época, e continua até os dias de hoje com os curitibanos mais tradicionais.
Após escutar esta história eu disse:
- Ainda bem que no final dos anos 50, inventaram os chinelos da marca Havaianas, que possuía o seguinte slogan: Sandálias Havaianas todo mundo usa.
- Meu sonho é que um dia esta frase seja praticada, na vida real, em Curitiba.
- Mesmo assim, eu acredito que até mesmo os curitibanos mais tradicionais usam chinelos de dedo, no calor, bem às escondidas, nos quintais de suas casas.

Luciana do Rocio Mallon

Um canto de oferenda ao meu chão



Bahia é mar, é sertão.
Raso, profundo, largo.
Prato que se respira.
Bahia é a entidade,
que paira sobre as águas, inunda.
Bahia é Lucas da Feira, escravo fugitivo,
mestre das emboscadas.
Bahia é canto de sereia em dia de mar.
Trovão que rebrilha na Serra de São de José,
no bode de Uauá.
Bahia é vaqueiro encourado, caatinga
do coração, chão e desterro.
Bahia é a ponte que cruza destinos,
entroncamento de todas emoções.
Bahia é festa e pranto,
Bahia é o manto tricolor, é o Flu de Feira,
o Touro do Sertão.
Bahia é o engasgo da língua, o encosta, o encosto.
O ralar das coxas quentes, a praça Castro Alves
que é o do povo, como o céu é a amplidão.
Bahia é axé, oxente, gente.
Bahia é o arco-íris de uma multidão.


assis Freitas

EU TE SEI



Ah! Meu amor, meu amor...
bem sei que prestas.
Pois sei que escavas em vida
espaço e pão.
Teu coração de albergue
escancarado
é sempre ponto de amparo,
ponte e chão.

Eu que bem sei das peias
que te esfolam.
E sei também das setas
que te espetam...
Sei que,
apesar dos pesares,
existe a fresta
e, além de tudo,
o motivo para a festa.”


Altair de Oliveira – In: “Curtaversagem ou Vice Verso.”

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014



– O Secreto Mundo das Palavras XLV


Poemar é
fazer pulsar
um papel em branco
umedecê-lo
adentrar mar
Do sereno
germinar estrelas e
preciosos aromas violeta
colher centelhas
Embebedecer de aurora
Desandar a precisão
da vida, do pose, da posse
acarinhar
No tear das letras
urdir miúdas loucuras
com linhas do tempo, do vento
do enamoramento
brotar
Significar delírios e sonhos
Dilatar horas, cair em risadaria
Cobrir de afetos
o emaranhado de linhas e
pequenos respiros que cobrem o corpo
Viver mundo dentro
Sair vida afora

Poemar é
a arte do desconhecimento
invadindo o que já se sabe
é aconchegar nossos velhos
em cama recém feita


mra

UM DIA



um dia vamos nos lembrar da violência,
das pichações roubando a beleza das ruas,
dessas crianças rotas vivendo as agruras
de um tempo vil, sem lei, sem ordem e inocência

um dia vamos dar de cara com o espelho
que irá esfregar em nossas fuças a frieza,
a indiferença criminosa à natureza,
às chacinas em série, às vidas no vermelho

um dia vamos ver que tudo é tão frágil,
tão efemeramente único, sem pompa,
e que nem toda a grana do universo compra
o que nos escapou entre os dedos, volátil

um dia vamos crer no deus de nossos dias
cuidando estar rezando em cada olhar, ação:
palavra ressignificando o coração,
devolvendo o sabor às velhas alegrias!

antonio thadeu wojciechowski


CRÔNICA RÁPIDA


Tudo ficou mais rápido, os meios de transportes, a engorda dos porcos e das galinhas, até a caminhada do velho, tudo ficou mais rápido.
Antigamente quando a má noticia de morte chegava, o defunto já estava enterrado, com sorte pegava a missa de sétimo, hoje antes mesmo do moribundo findar, já tem noticia de sua morte, e coroa chegando. Mundo esta mais rápido mesmo. Ninguém tem mais tempo para perder. Casamento, não se tinha pressa de separar, um esperava o outro morrer, agora, casou, se não chegar no orgasmo na lua de mel, separação. Falta preliminares para vida. Que rapidez é essa, onde vamos parar com tanta pressa.
Namoro era tudo no seu tempo, com jeitinho, meses depois a mão ia para a cintura, nunca abaixo e nem acima dela. Só depois de muito e muito... daí quem sabe... O mundo anda rápido, rápido demais. Amizade era cultivada com longos bate papos, cafés, passeios, almoços na casa do outro, hoje amizades fazemos a dedo, num instante, e a desfazemos também com o mesmo dedo, as vezes no mesmo instante. Poderia me alongar dando mais exemplos, mas como tudo é muito rápido vou parando por aqui. Não quero tomar muito tempo de vocês nessa leitura. Até porque, tenho que correr, tenho de fazer um lanche rápido, dar um pulo no banco para fazer um empréstimo no caixa rápido, vou comprar outro computador, esse esta aqui está lento e ultrapassado, é do ano passado, a tecnologia é muito rápida.



JDamasio


"Amestrar e dissuadir - essas as grandes tarefas sociais da educação.
E isso começa bem cedinho, meninas e meninos.
A primeira coisa a fazer é extirpar o destino e substituí-lo por uma carreira.
Trágico ou não, o destino é uma força cósmica, faz você colidir com os deuses.
A carreira é um destino amestrado, decaído, dissuadido, sem fervor.
O destino é rebelde, individual, coloca você frente a frente com seus limites e com a fúria sagrada, sádica, de ultrapassá-los.
A carreira é submissa, social, enfia você numa canaleta margeada por direitos e deveres e põe a ambição no lugar do desejo.
O destino é nocivo à tribo. A carreira é nociva a você.

Eu era um rapaz burrinho mas já intuía isso."

do Jamil Snege


 "Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo", livro de memórias do Jamil Snege

fonte : Marcelo Sandmann

Diálogos reais e inspiradores:



Eu: - Que horas abre a loja amanhã?
Moça: - Abre entre 8:30 e 9 horas, assim, mais ou menos nessa Faixa Etária!

Coisas assim, mudam o olhar... Nesse exato momento o dia tem 8 anos de horas, plena infância... Aproveitemos o dia, ora pois!


Nanci Kirinus

A desadolescência



Homens de minha geração, nascidos no início da década de 1960 e que estão na fronteira dos cinqüenta anos, um pouco para lá, um pouco para cá, vivem o que poderia ser chamado de desadolescência. Grosso modo, a adolescência é aquela fase em que nós temos que aprender a domar as rápidas mudanças operadas em nosso corpo. Descobrimos que não somos mais crianças e sabemos que não nos tornamos adultos. Na desadolescência, por razões inversas, somos novamente instados a aprender a conviver com as rápidas mudanças operadas em nosso corpo. Não somos mais jovens e ainda não nos tornamos velhos. Diferentemente do outro ciclo, as mudanças são operadas para pior, pelo menos no plano físico. Inevitavelmente, mais para uns, menos para outros, surgem limitações no consumo de alimentos, de bebidas e de atividades físicas. Nem falo da virilidade, pois esse é um problema que só atinge pessoas que não conhecemos. Dia desses, naquelas conversas descontraídas que sucedem o futebol de veteranos, um amigo pontificou: “Você sabe que a idade está chegando quando o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho”. Como ninguém ali vivia situações semelhantes, todos riram à farta. Se vivêssemos em outra época histórica, estaríamos próximos da velhice. Alguns dos livros clássicos de reflexão sobre a velhice foram escritos por homens que haviam acabado de ultrapassar os sessenta anos. Exemplo: Cícero escreveu “De senectute” aos 62 anos. Hoje, graças aos ganhos civilizatórios, a estimativa de vida se elevou e a velhice passou a ser sinônimo de idade mais avançada. O filósofo contemporâneo Norberto Bobbio escreveu o seu texto “De senectute”, veiculado pelo livro “O tempo da memória”, já octogenário. Qualquer que seja o parâmetro, são perturbadoras as linhas que Bobbio escreveu sobre o caminho sem volta: “A descida em direção a lugar nenhum é longa, mais longa do que eu imaginara, e lenta. A descida é contínua e, o que é pior, irreversível: você desce um pequeno degrau de cada vez, mas ao colocar o pé no degrau mais baixo sabe que nunca mais vai retornar ao degrau mais alto. Quantos ainda existem eu não sei. Mas de uma coisa não tenho dúvida: restam cada vez menos”. Quem já se convenceu de que é velho é motivado a desenvolver a proverbial sabedoria diante da inevitabilidade do passar do tempo. Situação mais complexa é vivida pelos que se encontram na desadolescência. Minha geração nasceu e cresceu na década de 1960, famosa pelo culto à juventude. Pode não ter entendido na época, mas ouviu Beatles, Rolling Stones e The Who. Naquele período repleto de maniqueísmos, eram divulgadas máximas como: “Não confie em ninguém com mais de 30”; “Melhor morrer do que ficar velho” etc. Mesmo a ingênua versão brasileira da beatlemania era chamada de “jovem guarda”, com acento no primeiro termo. Passado o choque da descoberta da desadolescência, a ultrapassagem do que se convencionou chamar de meia idade expõe, de um lado, que é um privilégio não ter ficado pelo caminho e, de outro, que a estrada segue muito além dos 64 anos cantados pelos Beatles no álbum “Sergeant Peppers”. Se, como diz Bobbio, só restam degraus para baixo, melhor que não sejam poucos e que saibamos ultrapassar cada um com resignação, dignidade e prazer, ainda que isso dê algum trabalho.


Reginaldo Benedito Dias

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.

Qual desmesura
da anfíbia superfície?

Que alfabeto de poros
nessa esfera cúbica?

Em que tempo essa imagem
tatuou-te de ocelos?

Quais fraturas,
Que nós de água desatados?

No inverno
branco e atonal,

calêndulas e nardos
inventam seu próprio
mapa-múndi.

(O Tao é similar a um quadrado infinito, sem ângulos; a uma esfera que contempla a si mesma; a um mágico diagrama no alaúde do músico cego.)
Claudio Daniel
Nervuras na folha, inscrições; imprecisas cifras
de nuvens,
étoiles, epitélios:
tudo é número.
(Sou o tempo, disse-me
com lábios
de sal, ao encantar-se
em labirinto.)

* * *

Rastro de noites que se fundem em palavras
como jogos marsupiais;
piscina selvagem onde recolho
os despojos de meu rosto.

* * *

Seria
o movimento
da memória
erigindo arquiteturas
de pele
em cada cena
vívida?

* * *

Tempo talvez
de reconfigurações?

* * *

Música, libações, dança, dança, dança.

(O esquecido de si vaga sem nome; é feliz como a tartaruga que mergulha a cauda na lama do rio, distante de aforismos e protocolos imperiais.)
Claudio Daniel

SERPENTINATA



I

Já que não desprezo nenhuma palavra,
encanta-me pergaminho
onde estranhos cães
da fala.

Nuvens de parietais
dizem a lavoura
obsessiva dos cutelos:

excessiva porque necessária,
investe mamífero mamífero
ante o lacerado pêlo púbico

— molusco esse desprezo
que se faz habitação.

A mobilidade das estruturas aquáticas
desorienta solidez de partículas,
(numeração da língua)
desentranhadas até o

ignorado.

Cresce nas axilas,
nos limbos, cremalherias,
nos estudos para voz:
é o seu inexorável destino.

Antiesquelética nebulosa
redefine o tempo e suas cavilações
no jogo permutatório
dos contrários.

(Estes são os meus instrumentos,
minhas paisagens estratégicas
para violar tuas orelhas,
tuas cavidades,

que se recusam à minuciosa
cabala de meu olhar.)

(Encanta-me tua letra, esqueleto de meu canto,
voz que acende estranhos cães.)

A revelação está na língua
que incita ao asbesto da orgia,
à mais temporária das peles,

quando vemos pégasos de outro sonho
e nossa incapacidade de laçá-los.


II
estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço

sem corrosão

relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais

só o alinhamento do corte:

o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória –

(nua entre fósforos acesos)

um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas

palavras entre tuas perplexas peles:

a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição
Claudio Daniel

PORQUE A HORA É VIOLENTA



Porque a hora é violenta e tudo esmaga, abrir cabeças
de serpente.
Há o verde sonoro
de metais;
há o roxo
da flor
cujo nome
ignoramos.
Dedos rugem
escura perplexidade;
arcos rebentam
bicos
de pássaro.
Sou anfíbio,
e calo
o que me apavora.
Onde viajar outros dias possíveis?
Como
extirpar
essa desolação?
Eis o inevitável
campo
de batalha;
eis a letra inverossímil, vermelho
decapita
amarelo.
Sinceramente,
confesso
meu pesar:
quando ponteiros corroem pulsos,
povoar
mandíbulas
para corvos.
A hora é violenta e o medo em escamas
arranha
a pele
da voz.
Explodir palavras-de-argila;
degolar
leões
de pedra
(ignotos);
mutilar
a escura epiderme,
em chuva
azul-
de-agonia.
Tudo
por um
nada
soando crânios e trompetes,
cortando (súbito)
o branco-
cinza
da manhã.
— Sri Baghavan uvaca:
Yam hi na
vyathayanty ete
purusam
purusarsabha
sama-duhkha-sukham dhiram
so ‘mrtavaya
kalpate.
Claudio Daniel

ANTIMÍDIA (I)





Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de lacraus
letras que são bichos no escuro letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome tateando
entre os húmus da usura tateando entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa viva –
dentes-de-leão ressonam numa tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.

Claudio Daniel


Quisera o vazio da caixa
o barulho da poça d'água sendo pisado
encarando o fim de tarde com a pá em mãos
cavaria meu túmulo
mas um filho de pássaro caído ao chão é a sátira do dia
cala a boca com o vidro
há o corte de dentro para fora
imagino os cabelos dela balançando freneticamente não mais sob mim
a pele enrugando-se e beleza indo pelo bueiro entupido do seu novo amado
engatilhei
e o disparo não tenho encontro comigo

Tarde de terca-feira
Redson Vitorino
cantiga nova
9 Esta terra magra está abrigada/ guardará o corpo
e sobre ela um sopro/ dirá uma flor a cada badalada
10 Esta terra farta está revirada/ guardará o amor
sentinela e morada/ dirá um dia o mosquito ao filho da
mulher amada
11 Esta terra muda está saciada/ guardará o sol no
ventre sete vezes sete palmos/ dirá o coração aos homens
do pasto/ pois o chão da terra é vasto
12 E as formigas desvairadas subirão a cruz/ numa fiada

js | o coro das ovelhas, 2011
*
enquanto sangro sancho nada se define
nem o corpo em chamas sabe porq se queima
então basta pisar mais e mais as pedras no sapato

é preciso q vc entenda sem fim essa minha fome
me coma sempre aos pedaços pedaço por pedaço
e não me deixe acordar não me deixe so no escasso

enquanto sangro sancho nada se define
nem mesmo meus olhos brilham no escuro
nem minha lingua de cobra continua afiada

ve esses raios roendo as vidraças e a madeira
a noite batendo como se fosse a tempestade
amigo sancho a tempestade não é treva

enquanto sangro sancho nada se define
por isso não adianta deixar de te esganar
não adianta soltar tua voz tua vida logo agora

sairemos daqui com os olhos bem fechados
mesmo q gritem em nossos ouvidos com o terror
mantem sancho esses olhos sempre bem fechados

enquanto sangro sancho nada se define
uma hora e veras o rancoroso silencio e o giro
dos pes perdidos na mais estranha e doente ordem

não trema nem se espante porq nada é misterio
nada se furta a carne aos olhos aos dentes
nem aos dedos esse esperma das messes maiores

*Alberto Lins Caldas
*
sancho amigo sendo pois assim como é
viver é esse gato q lambe atrevido a pele
da pele ate o osso do osso ate o tutano

continua lambendo ate o osso e do osso
pela carne ate a pele do braço e mais alem
aspera e sem fim essa lingua somos nos

sancho amigo sendo pois assim como é
é a força q escolhe o q tem de ser e da
a cada um aquilo q é so seu e não basta

isso de não querer sofrer e bem penar
querer cama banho almoço e bom jantar
é pensar a vida so e menos pela metade

sancho amigo sendo pois assim como é
é fechar os olhos onde nem a treva rude
so a grave imaginação e a coragem vai

é desejar chupar esse peito todo chupado
enrolar esse cordão de placenta no pau
é não beber o sangue e o suor das gentes

sancho amigo sendo pois assim como é
desato o sonho ao poder dos enxames
seja das abelhas das horas ou das estrelas

é incrivel viver sem vegetar e se entrevar
com o focinho assim entre raizes e lama
certo é seguir sempre no sol da insolencia

*
Alberto Lins Caldas

CABEÇAS



Contar cabeças como janelas
dispostas em diagonal;

uma coleção de lagartos;
palavras sumérias;

trevos de quatro folhas
impressos num álbum.

Cada cabeça tem um nome
que pode ser relógio,

intestino, alfinete, isopor.
Há uma infinita variedade

de nomes estranhos.

Cada cabeça tem um preço
gravado em código de barras.

Geladeiras são mais caras
que testículos; formigas,

mais baratas que saudades.

Cada nome é um preço
composto de letras

em número par ou ímpar;
cada letra tem linhas retas

ou curvas, como os mexilhões.
Isto é tudo o que há para dizer.

Vamos acabar de contar as cabeças.


Claudio Daniel
a paixão pisa na noite
da minha casa vazia
atormentada de avessos

vinicius, baden, scliar
clarice, o sangue da terra
da ilha dos meus tropeços."
RR


ANTICABEÇA (II)


Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.
Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.
Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.
Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.
Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).
Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.
Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.
Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.
Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.
(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)
Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.
Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.

Claudio Daniel