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quinta-feira, 28 de abril de 2016

MEDO DE CEMITÉRIO


(Lauro Volaco)

Desde os velhos tempos de Pirai, lá já existia a “rádio peão”. Não sei se você está familiarizado com esta expressão, mas resumindo: é uma informação que se alastra com um pavio de pólvora, por todos os meios que você possa imaginar, vinda de fontes não oficiais. A transmissão é de boca a boca e em pouco tempo todo mundo sabe o que esta acontecendo. Nem sempre é 100% verdadeira, mas chega próximo do fato. Cada um que repassa a informação acrescenta ou retira alguma coisa, põe sua interpretação, dá uma pitada de sua emoção e enfim, a notícia chega aos seus ouvidos.
Vou falar especificamente das notícias sobre falecimento de pessoas conterrâneas e seu enterro, nos tempos em que eu era criança. Sempre, pelo menos na hora do enterro, sabíamos que alguém tinha morrido, pois a nossa Rua XV de Novembro era o caminho obrigatório para o único cemitério da cidade. Daí para saber quem fora o escolhido, ficava muito fácil: uma pergunta para quem passava e pronto. Se o “de cujus” era conhecido e amigo, do jeito que estávamos vestidos, podia vir o comando da mãe para irmos ao cemitério prestar-lhe as nossas últimas homenagens. Eu e meu irmão não gostávamos nada de ir a um enterro, pois uma vez aprendemos que se você sentisse um arrepio sem nenhuma razão aparente, era uma alma que tinha se aproximado de você. Como passávamos o dia brincando, estudando, comendo ou dormindo, quase não dava tempo para sentirmos arrepios. mas parece que quando entrávamos no portão do cemitério, um enxame de arrepios acontecia. Dava a impressão que as almas ficavam alvoroçadas com as crianças vivas e queriam convidar para morar com elas no campo santo. Aquilo me assustava muito. Outra coisa que me vinha à memória é que existiam casos de pessoas que eram enterradas vivas, pois passava o tempo regulamentar do velório, depois do laudo que tinha virado defunto e como não davam sinal de vida, eram levados para a cova. Contavam que só descobriam isto anos mais tarde, quando iam remover os ossos e viam marcas de arranhões na tampa do caixão. Eu ficava morrendo de medo de ao passar por um túmulo, alguém pedir ajuda para sair da cova. O que me amedrontava ainda mais era quando se realizava o enterro perto do anoitecer. Se tivesse que permanecer lá eu teria provavelmente um ataque de nervos. Felizmente os coveiros tinham em seus contratos de trabalho a hora do final do expediente: às 18h, e com isto estava garantido que não se precisaria enfrentar as trevas.

Muitos anos mais tarde é que fui aprender que ter medo de cemitérios chama-se “coimetrofobia”. Aprendi também que “tafofobia” é ter medo de ser enterrado vivo e “tanafobia” é ter medo de morrer. Até hoje, se posso, não vou a cemitérios, mas sim ao velório. de dia ou à noite, mas evito passar aquele portão das almas, pois fico com medo que os arrepios das almas penadas venham a me fazer companhia.

sábado, 23 de abril de 2016

AMOR PERFEITO

HISTÓRIAS DE UM PIRAIENSE:

(Lauro Volaco)

Esta pequena flor era muito admirada por mim quando pequeno. Já começava a minha admiração, pelo próprio nome, pois não entendia o seu real significado. Era perfeita para quem se amava? Perfeita por simbolizar uma coisa que todos desejam, mas é utópico na sua plenitude? Perfeito porque uma amava a outra que com ela convivia? Perfeita porque ia se aprimorando desde o nascimento, para que cada dia ficasse mais perfeito que no dia anterior? Enfim, eram questionamentos que duvido até hoje, por mais sábio que você seja, não saberá me responder o sentimento que ela me transmitia!
Quanto ao colorido, que é uma de suas marcas registradas da beleza, podemos encontrar as combinações de: branco, amarelo, vermelho, laranja, azul claro, azul escuro, roxo claro, roxo escuro e marrom. Pode ser que eu tenha esquecido alguma cor, mas convenhamos, é de uma enorme variedade.
Hoje eu sei que o significado mais difundido é que representa um amor muito romântico e duradouro. Mas tem outro significado que eu nunca havia aprendido: as três cores que normalmente a compõe, fazem com que ela seja conhecida por poucos, como a “erva da trindade”, referindo-se à Santíssima Trindade. Mas se formos saber mais um pouco sobre ela, vamos ficar surpresos: a) é o símbolo da glorificação do trabalho: b) para os gregos, representava a deusa da estratégia militar, da sabedoria e das artes; c) para os franceses representava o “pensamento” e os amantes presenteavam suas amadas com esta flor para garantir que quando iam para a guerra e lá permaneciam, ficando muito tempo fora de casa, voltariam para reencontrar sua bem amada; d) significa também o amor de mãe, que é absolutamente perfeito. Mas paro por aqui, pois considero que já fui longe demais, em meus devaneios amorosos.
O que eu quero reforçar de minhas memórias infantis mescladas com alguma forma de pensar hoje, é que aquele formato achatado, muito colorido e muito lindo, me mostrava que alguém, de muito poder e de extremo bom gosto, criou aquela criaturinha perfeita, para nos fazer ver a nossa insignificância, mesmo quando consideramos que fizemos algumas coisas notáveis. Por mais perfeito que o façamos, quando paramos para refletir, sempre poderíamos ter feito melhor. Considero que é um chamamento de nossa atenção, quando as vemos ou simplesmente lembramos, que façamos as coisas as mais perfeitas possíveis!
Existe um ditado que diz que: “o ótimo é inimigo do bom”!

Portanto, não poderemos paralisar nossas ações buscando o momento para que sejam perfeitas, pois isto pode nos imobilizar e nunca nos tornarmos realizados como pessoas ou profissionais. Mas que não paremos por aí. Depois de fazer o mais perfeito, tenho a convicção que encontraremos novas maneiras de repensar usando os nossos novos saberes, para nos aperfeiçoarmos durante toda a nossa existência, fazendo com que o amanhã possa ser sempre melhor que o hoje. Este é o gosto que queria deixar no pensamento e na filosofia de cada um que ler esta minha crônica de hoje!

DEVORAÇÃO” DE FRUTAS

HISTÓRIAS DE UM PIRAIENSE:



(Lauro Volaco)

Ao imaginar escrever este meu texto, pensei em várias cenas da minha infância, numa terra onde muitas coisas eram extremamente fartas, que até pareciam ilimitadas. Mas agora, quando de fato fui escrever, veio uma curiosidade que resolvi investigar, para ser mais autêntico o título que escolhi. Resolvi ver o que significa “devorar”: a) comer muito com avidez e rapidamente; b) consumir depressa; c) tragar, engolir, sumir dentro de si; d) destruir (não deixando restos); e) cobiçar; f) ralar; g) conquistar, absorver; h) afligir; i) percorrer rapidamente; j) ler avidamente; k) sofrer a custo. Pode parecer que sou metido à besta, pois de tantos significados para esta palavra, feita por pessoas brilhantes que conhecem nossa língua portuguesa, nenhuma traduzia o que eu queria lhe transmitir. Assim, sem querer dar uma de professor e para que ela transmita o que eu quero, vou traduzir como “dever de uma oração”. E com muita calma vou explicar por quê: quando era época de frutas em nossa casa e também na chácara, a quantidade era tanta, que o procedimento muitas vezes era de encher um saco e ir para baixo de um caquizeiro muito frondoso que havia no meio de nosso quinta. Lá era onde o tio Rubem montava sua rede de balanço. Então íamos descascando com muita calma cada uma daquelas frutas e as comendo ou chupando conforme o tipo, sem pressa e sem pensar em quantidade a ser consumida. Três coisas eram limitantes: uma era o tamanho do nosso estômago, outra era a preguiça de descascar depois de muitas delas terem sido consumidas, e a terceira era o horário que nosso tio tinha que parar de se embalar para ir trabalhar. As conversas eram intermináveis, onde cada um de nós podia livremente expor seus pensamentos, suas ideias, suas dificuldades, mas, principalmente, repartir nossas alegrias. Ali, meu tio tinha a mesma idade que nós, num processo de total empatia. Tinha momentos que ele percebia o nosso cansaço de descascar uma laranja, por exemplo, e ele fazia isto e nos oferecia, de forma incansável. Era admirável ver sua habilidade e capricho, pois nunca feria a laranja com um corte mais profundo e nunca deixava de tirar toda a casca em uma única peça. Se tivesse um paquímetro, podia medira a largura e espessura da casca retirada: eram idênticas. Nosso cardápio era variado naquelas reuniões familiares na sombra do caquizeiro. As mais consumidas eram a laranja, a mimosa, a tangerina, a mexerica (não tínhamos poncã). Mas também tinham a sua vez as peras e caquis, que eram colhidos e postos no saco; melancia era trazida gelada e cortada em fatias, para serem repartidas ilimitadamente; as frutas mais delicadas vinham em cacho, como as ameixas e nectarinas; outras vinhamem cestos menores, como os figos.
Mas o que eu quero transmitir com o meu próprio conceito de “devoração”, está relacionado com o prazer proporcionado pela fartura destes alimentos, o agradecimento aos céus por podermos conviver naquela harmonia familiar e num ambiente de extrema beleza, sentados no chão de terra. SEM PRESSA!



segunda-feira, 28 de março de 2016

LIDAS DIÁRIAS NA CHÁCARA

(Lauro Volaco)

Num momento em que grandes discussões são entabuladas sobre o que os pais modernos podem ou não solicitar aos seus filhos, sem querer realizar um julgamento, pois não é este meu papel, quero contar para vocês o que nós fazíamos de útil em nossa infância. Vale ressaltar que tínhamos um caseiro e que uma grande gama de serviços do dia a dia, era feita por ele, mas acredito que por medida didática, nosso pai instituiu várias atividades para que nós as realizássemos. Eram medidas que ele estudou a viabilidade técnica, econômica e educativa, estabelecendo as rotinas, sem querer saber se eram do nosso gosto ou não. O argumento que desconhecíamos, mas ele não, deveria ser o seguinte: vocês quiseram ter esta área, que era uma dádiva para nós e nossos amigos, agora repartam os cuidados para manutenção comigo. Mas isto que acabei de falar é uma inferência minha, pois nunca nos foi dita.
Uma atividade diária e que era repetida no período da manhã e no final da tarde era recolher todos os ovos dos cinco galinheiros. Isto deveria ser feito com uma série de cuidados, para evitar atropelos e muita agitação das muitas galinhas e dos poucos galos. A quantidade de ovos era enorme e, dentre aquelas aves, as que paravam de botar eram as primeiras a encontrar o caminho da panela, pois a questão era produtividade, sem protecionismo.
Outra atividade, mais divertimento que obrigação, era irmos todos os dias, no início da manhã, ver nosso pai a ordenhar a vaca e nos dar o leite para bebermos, ainda quente e tirado na hora. Enquanto aquilo acontecia, íamos buscar o milho com palha e sabugo, para alimentar a vaca. O bezerro tinha hora certa para mamar: antes da ordenha para soltar o leite, e depois de tirada a quantidade suficiente para o nosso uso, pois o restante pertencia a ele.
Colher frutas quando amadureciam, com todo o cuidado para não bater umas contra as outras e levar para casa para serem comidas ou transformadas em doces caseiros, os quais eram armazenados em caixetas de madeira ou vidros de compota. Todo o trabalho de descascar, com a vigilância muito próxima de nossa mãe, era feita por nó, e todos os restos, dados para os porcos, o que possibilitava a perda zero e eliminação de resíduos. Em algumas frutas, esse trabalho era muito penoso, como os figos verdes, que soltavam uma espécie de leite ácido, tinham que ser descascados com lâmina de barbear, bem fininha para não ferir a fruta, que iria se transformar em belíssimas e gostosas compotas. As nossas mãos ficavam ardendo e dava a impressão que havia sido queimadas com aquele líquido, agressivo à nossa pele. Os excessos das frutas produzidas abundantemente em nosso pomar, depois de termos usado tudo o que queríamos, eram doados para os alunos da Escola Rural, a todos os vizinhos, a quem as pedisse, e ainda sobravam muitas, com as quais alimentávamos os porcos criados no mangueirão e nos chiqueiros de engorda. Havia épocas que até os porcos recusavam comer, principalmente peras, pois a quantidade era tão grande, que até eles enjoavam.
Certo dia, eu, metido como era, resolvi realizar um trabalho que não estava no planejamento de meu PA para que o fizesse. Vocês conhecem um tipo de foice pequena e em arco, usada para cortar grama/capim para dar aos animais? Nela havia um serrilhado para ajudar na hora do corte, que ficava do meio para a ponta da ferramenta, com a qual. Armado, juntei um maço de capim e passei o instrumento, esquecendo-me que o meu dedo mínimo estava na linha de corte. O sulco foi tão profundo que deu para ver o osso na hora em que foi lavado o ferimento. Mas o difícil mesmo foi ter que procurar os pais para tratar daquele corte e ainda dizer que estava desobedecendo a uma ordem recebida. Daquela vez, acredito que por dó da dor que senti, não fui castigado nem levei uma surra. Mas até hoje tenho uma redução da flexibilidade e força no dedo ferido na ocasião Dura forma de aprendizado, mas muito eficaz, pois nunca mais fiz isso ate hoje.


HISTÓRIAS DE UM PIRAIENSE.

TANQUE DA CHÁCARA


( Lauro Volaco)

A água sempre exerceu uma forte atração em mim. Assim, rios, riachos, mar, lagoas, piscina e outras tantas formas que a contém me fascinam. Acordar e ver uma névoa fina sobre a água me transporta a situações de muita paz e harmonia. Mas o que eu gosto mesmo é do contato físico com ela, que me envolva, me embrulhe, me toque, me acaricie. Pescar bem cedinho, num dia mais frio e com a água bem quente fazendo o contraste e formando aquele vapor, faz com que a vontade de pescar vire secundária, para dar lugar ao prazer daquela imagem.
Mas vamos falar de um filete de água que corre nos fundos de nossa chácara, com água absolutamente pura que nasce bem próxima de onde foi construído o nosso tanque, menos de trezentos metros do “olho de água”. No início da minha infância, nem íamos muito até este filete de água, pois não tinha a menor graça, não nos proporcionava nenhum tipo de entretenimento. Por outro lado, tinha o tanque do Fanchin, que era um lugar onde nós éramos atraídos mais que um imã num pedaço de ferro. Meu pai e meu tio Rubem, percebendo que ali havia um potencial de aproveitamento e divertimento, resolveram construir um pequeno tanque. Melhor dizendo: um pequeníssimo tanque. Não seria tão bom quanto ter uma piscina, mas seria muito melhor que nada. Além do mais, nos manteria em nosso território. O lugar escolhido foi estratégico, pois precisou fazer pouca remoção de terra praticamente sem descaracterizar o terreno, todo cheio de árvores, samambaias e arbustos. Além do mais, quando uma construção como estas é feita com pá, enxada, carrinho de mão e baldes para transportar os materiais removidos, a canseira e o trabalho são enormes. Outro fator levado em consideração é que no local escolhido não havia rochas, o que seria um complicador para a construção. Uma coisa que foi muito sábia, foi termos participado de todo o trabalho, pois ele passou a ter um valor inestimável para nós. Ficamos sabendo muito bem o que é construir alguma coisa, mesmo que pequena. Depois, cuidávamos daquele tanque, com o carinho de um pai com seu filho. Foi projetado para que a água pudesse sempre estar limpa, mesmo durante o uso enquanto nadávamos. Para isto foi feito uma barragem de contenção, que tinha na parte bem inferior e no meio do tanque, um furo com um tampão de madeira, para que ele pudesse ser esgotado e feito uma limpeza fina de folhas, galhos e mesmo barro. Na parte superior desta pequena barragem, ficava o vertedouro, para que a água não transbordasse de forma desuniforme e provocasse erosão. O fundo foi revestido com lajotas de pedra e também uma das laterais do tanque. A outra parede foi mantida naturalmente de terra, pois ela era muito compacta e foi deixada sem revestir visando reduzir custos (“fazer mais com menos”. De tempos em tempos, drenávamos toda a água e fazíamos uma limpeza geral, deixando aquele nosso tanque limpíssimo, para receber o novo volume de água, que não tinha custo algum. O que tinha de ruim é que demorava vários dias até que enchesse novamente, pois o volume de água era muito pequeno. A água era muito gelada, pois entre a nascente e o tanque, não recebia calor do sol, de tanta vegetação que recobria todo este trecho do filete de água.
Aquele pequenino tanque era para nós, uma fonte inesgotável de prazer, pois podíamos reunir nossos amigos para grandes brincadeiras. Era tão pequeno, que para que pudéssemos saltar do barranco, precisava que ninguém estivesse na linha de salto, para evitar embutir um pescoço no ombro da vítima. Pequeno espaço, grandes divertimentos para uma criançada que podia brincar na água sabendo de sua qualidade e com mínimo risco.

Grandes e boas lembranças que meu pai e meu tio nos proporcionaram de forma tão simples.

segunda-feira, 14 de março de 2016

CONHECENDO MOYSÉS LUPION

Como já contei, em Piraí do Sul eu morava com os meus pais e irmãos na Rua XV de Novembro, sendo vizinho do Seu Alípio Domingues e do Vô Inácio, quando criança. Outra referência para facilitar sua visualização é que era perto da antiga Prefeitura Municipal.
A nossa rua era bem movimentada para os padrões da época, principalmente pelo tráfego de caminhões que transportavam carga para o Estado de São Paulo. Três dos meus tios transportavam porcos vivos em caminhões, o que exigia cuidados especiais e uma grande agilidade para que a carga pudesse chegar ao destino sem que os animais ficassem muito estressados ou até machucados. Mas o que eu quero contar não é sobre a movimentação de cargas, mas sim a respeito da concentração de gente em alguns eventos, como por exemplo: quando as famílias que moravam no interior de Pirai, vinham para a cidade para batizar seus filhos e aproveitavam também para fazer a Certidão de Nascimento. Isto acontecia sempre bem perto de casa e era muito interessante quando paravam várias carroças ainda enfeitadas, depois da missa de batizado, para cumprir seu dever cívico com o documento que tornava cada ser humano vivente em um cidadão real perante a lei e para efeitos estatísticos.
Certo dia,em que o movimento estava bem mais intenso,observei que muitos piraienses queriam se aproximar e tocar/conversar com uma pessoa, a qual eu não tinha a menor ideia quem era. E até meu pai, pessoa muito discreta e reservada, saiu da frente de nossa casa e foi cumprimentar aquele homem. Curioso como eu era, resolvi chegar mais perto para perguntar quem era aquele figurão, que parecia muito importante e que conhecia todo mundo. Era muito carismático, sorridente e paciencioso, pois cumprimentava e falava com todos os que dele se aproximavam. Fiquei pensando em várias possibilidades: seria um milagreiro, um ricaço, um grande fazendeiro, além de outras das quais não me lembro mais, pois era muito criança ainda. Mas cheguei bem perto dele, na hora que meu pai estava o cumprimentando. E meu pai me apresentou para ele: “Este é o Governador do Estado do Paraná, o homem mais importante que temos em todo o estado, o Senhor Moysés Lupion”. O que me surpreendeu mais ainda, além de estar diante de uma celebridade, foi que ele me estendeu a mão “disse o nome dele e perguntou qual era o meu”. Fiquei muito orgulhoso com seu interesse em me conhecer e falei. “Meu nome é Lauro Rubens Duarte Volaco”. Parecia que meu coração iria pular do meu peito, sair pela boca e cair naquela rua empoeirada. Aquilo me impressionou tanto, que eu contei esta história dezenas de vezes, algumas até repetindo para os mesmos amigos e fazendo inveja, perguntando se alguma vez eles estiveram pelo menos perto de um governador! Falava ainda que ele quis saber quem era eu. Parecia que se ele pudesse, também gostaria de saber quais eram os meus projetos de vida e me orientar para que eu pudesse ser um dia, tão importante quanto ele.

Dia histórico para um menino que ainda usava calça curta!

(Lauro Volaco)

COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

domingo, 6 de março de 2016

CARAMANCHÃO CELESTIAL!

Um dos lugares mais lindos do terreiro que minha avó tinha na casa onde morava, ficava logo após a entrada pelo portão da frente. A porta principal de acesso era na lateral, pois o desnível da casa para a calçada era enorme, e a parede rente à calçada não permitia ter-se uma escada de acesso pela frente. Tinha uma porta, que era mantida sempre trancada, pois se alguém resolvesse sair por ali, cairia de uma altura de uns dois metros. Ainda bem que não havia “torrado” algum que frequentava aquela casa.
Como já contei, meu avô era marceneiro e fez um caramanchão de imbuia, com vigas e vigotes muito reforçados e tratados contra todo o tipo de bichos, e também impermeabilizado contra o ataque das chuvas. Era bem largo e comprido: três metros de largura, oito metros de comprimento e três metros de altura. A escolha da trepadeira que ali seria plantada, bem como a quantidade, espaçamento, cor, umidade, adubos, poda e todos os demais detalhes passaram então, depois da entrega da obra, para os cuidados da minha avó Alzira.
Não sei como foi no início do plantio, pois ainda não era nem projeto de gente. Quando nasci, já existia a trepadeira cobrindo toda a extensão do caramanchão, fazendo com que o sol, por mais forte que fosse não acabasse com a sombra sob o caramanchão, que era total. A claridade entrava pelas laterais, que eram mais rarefeitas, causando uma sensação excelente de iluminação indireta. Nossos olhos eram poupados da incidência direta dos raios solares. Parecia que se ia entrar no “túnel do tempo”.
A flor que minha avó escolheu era a glicínia, mas isto eu só fui aprender muitos anos mais tarde, quando tinha bem mais idade. As glicínias eram azuis, em tonalidades que variavam entre claras, médias e escuras, as quais pareciam cachos de uva que se sobrepunham, formando um paredão de flores. Nem a pessoa de mais bom gosto e cuidado que existisse em todo o planeta, seria capaz de uma perfeição daquele empilhamento em que elas estavam dispostas. Ninguém ousava tocar naquelas flores, mas eu imagino que mesmo que você tirasse 50% delas, desde que bem distribuídos os cortes, ainda manteria a beleza e aquela sombra deliciosa.
A sensação que quem entrava nesta casa tinha, era que estava sendo saudado pela coisa mais preciosa que meus avós tinham. A delicadeza como os anfitriões recebiam os visitantes e familiares, criava um clima de harmonia e paz. Meu avô era muito cortês, mas muito quieto, ao contrário de minha avó que era muito falante.

Aquela era uma casa que parecia ter sido abençoada por um ser superior, que teve todo o cuidado para criar um “caramanchão celestial e dado de presente para todos aqueles que entravam e saiam daquele lar abençoado.

(Lauro Volaco)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

sábado, 27 de fevereiro de 2016

ORA, ABÓBORAS!


(Lauro Volaco)

Estava me esquecendo de contar uma das minhas peripécias na qual passei um dos maiores medos de altura da minha vida. Ao mesmo tempo, lembro-me da fartura de abóboras existente em Piraí dos velhos tempos.
Espero que você goste de causos, pois este é um que quero contar com calma.
Certo dia meu pai convidou-nos, meu irmão e eu, para irmos para uma fazenda de um amigo dele, buscar abóboras. Achamos estranho, pois tínhamos também abóboras, morangas, mogangos, gila, e sei mais lá quantas espécies plantadas no quintal de nossa casa. Mas naquela época, filho não ficava perguntado para o pai sobre tudo o que acontecia. Além do mais, gostávamos de sair para outros lugares que não eram alcançados pelos olhos de lince da minha mãe, e sempre íamos pensando em alguma “arte nova”, pois gostávamos de aventuras perigosas. Fomos com a nossa caminhonete “de Soto” e meu pai levou também o tio Rubem e mais um empregado. Para que tanta gente, eu ainda não sabia, mas devia ser muito trabalhoso o que ele iria fazer.
Chegando à fazenda, fomos recebidos pelo capataz que tinha de cor todas as instruções recebidas do patrão, e foi conosco para uma plantação enorme (estou falando enorme mesmo) de abóboras. Descia e subia morros e não se conseguia avistara o fim daquela plantação. Falou que podíamos pegar quantas abóboras quiséssemos e foi junto nos ajudar.
Não precisa dizer que logo alegamos cansaço e fomos liberados para brincar. E aí foi que morava o perigo. No topo de um daqueles morros tinha uma árvore enorme e um cipó bem grosso que chegava quase ao solo. Testamos o cipó e percebemos que ele aguentava o nosso peso junto e de mais uns dois homens adultos, de tão forte que era. No começo, enquanto estávamos com a adrenalina baixa, nos balançamos paralelamente à crista do morro, onde nossos pés quase que roçavam no chão o tempo todo. De repente, pensamos: queremos um percurso grande e não esta “porcariazinha” de deslocamento. E queremos testar nossa coragem e o coração. Outra vez, balançando pouco, saíamos do topo do monte pendurado no cipó e ficávamos a uns dois metros do chão, em direção à sua base. Quem disse que ficou nisso? Aumentamos o trajeto, dando mais embalo. Aí a coisa foi ficando séria e o medo cada vez maior, pois se não tivéssemos força para ficar grudados no cipó, cairíamos bem alto em direção ao solo e ainda rolaríamos morro abaixo. Então tivemos a ideia de puxar o cipó o mais que pudéssemos para trás, e ainda ir empurrando com toda a força, para ele ficar o mais alto possível do chão. A sensação de altura, misturada com a força que ia minguando à medida que o tempo passava para fazer um ciclo completo, podendo ter a possibilidade de morrer se soltasse do cipó, fez com que a adrenalina chegasse ao ponto máximo. Imagino que a altura a que chegamos, era de uns quinze metros acima do nível da encosta do morro. Uma escapada e era menos um membro da família Volaco vivo. Felizmente, nosso santo era forte e sobrevivemos com as mãos cheias de vermelhão de bolhas que estavam querendo aparecer. Pura emoção! Só não enchi as calças por não ter outra para trocar e ser feio demonstrar que tinha me borrado de medo.
Mas eu estava contando das abóboras: enchemos a caminhonete até a borda da carroceria, com centenas de abóboras de todos os tamanhos e peso. Sabe para o que era este estoque tão grande? Para alimentar nossos porcos que moravam num mangueirão nos fundos da chácara, e assim baratear o custo e também para ficarem com a carne mais limpa para o final de ano que se aproximava. Seria um porco todo especial para servir nas nossas ceias e jantares na época.
Delícia combinar tantas emoções numa coisa que para muitos de vocês pode parecer sem graça, para alguns loucura ou desperdício, e outros talvez imaginassem uma aventura ou ainda exibicionismo puro de crianças muito loucas. Não importa, pois nós soubemos aproveitar aquela oportunidade para voar no espaço e no tempo, literalmente! Sem asa e sem motor, embalados somente pelo nosso destemor!


COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

LEMBRANÇAS DE UMA SERRARIA


(Lauro Volaco)

Sempre fui uma criança muito curiosa e tudo o que eu pudesse conhecer me interessava. E sempre que podia, fazia um montão de perguntas para quem estivesse por perto ou entendesse daquilo que eu estava conhecendo.
Um dia meu pai iria umas entregas na vila de uma serraria que pertencia à família Sguario, e como estava em férias, pude ir junto. A regra era a seguinte: cada dia revezava com meu irmão para acompanhar as entregas que ele fazia para seus clientes. Os dois juntos nem pensar, pois era certeza que o sossego acabaria para quem estivesse por perto.
Eu não imaginava como poderia ser uma serraria, mas tinha a impressão que seria muito chato. Mas, ao chegar lá, comecei a me impressionar com alguns operários movimentando toras enormes, com uma facilidade incrível, parecia até que não faziam estorço. Duas ferramentas em particular me impressionaram: uma era um grampo em formato de “U”, pontudos nas duas pontas, que eram cravados nas extremidades das toras. Com eles, puxavam enormes troncos para onde queriam. Mas a que eu mais gostei foi de um gancho articulado, com uma espécie de “anzol”, que servia para fisgar a tora, movimentar, levantar, nivelar e rolar as que iriam ser transportadas e cortadas. A tora obedecia ao operário muito rapidamente, pois parecia entender que se não obedecesse, levaria como castigo mais uma fisgada para fazer o que ele queria.
Mas ainda não tinha visto nada, pois quando me aproximei do local onde estavam as serras é que vi maravilhas em meio a um barulho ensurdecedor. Naquela época não existia protetor auricular e eu senti, no meio do meu cérebro, o gemido da serra abrindo a tora para produzir o que o mestre serrador tinha planejado. Perguntei como era chamado aquele trabalho e ele me falou: “desdobro”. Fiquei pensando: “como é burro! Esta palavra nem deve existir, ele deve ser um caipira analfabeto! Só depois de alguns anos, em outra serraria no Turvo, aprendi que aquilo era uma operação muito valorizada, pois o lucro ou não da serraria, dependia deste profissional. Graças a ele, era possível fazer um melhor aproveitamento da madeira e ainda retirar as peças que tinham o maior valor de mercado. Ele é que sabia como fazer o melhor corte para que mesmo os subprodutos inevitáveis, como as costaneiras, fossem aproveitados e comercializados. Tudo numa serraria era aproveitado, menos o ruído da serra.
A vontade que eu tinha era passar o dia inteiro ali, vendo todas as operações e aprendendo um pouco mais daquela atividade. Pensei em , quem sabe um dia, trabalhar numa serraria e ser o homem que decidia como processar o corte economicamente mais rentável. Foi como se eu tivesse acordado de um sonho quando fui chamado para irmos embora, pois o que tinha sido o motivo de nossa ida nesta serraria, já tinha sido realizado. Foi a primeira fábrica que conheci na minha vida e a impressão ficou indelével. Queria crescer logo para comandar homens e máquinas, transformando para melhor, tudo o que estivesse sob os meus domínios.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

DOENÇA CONSUMISTA

Naqueles maravilhosos tempos antigos, a vida em família era muito curiosa. Nossa família pelo lado do meu pai Lauro Volaco era bem grande e quase todos moravam em Pirai. Então, tínhamos um bando de primos de todas as idades, o que permitia que sempre pudéssemos brincar com outros que pensassem como nós e suportassem as nossas brincadeiras. As primas eram mais delicadas e não entravam em qualquer uma delas, sendo muito seletivas. Nossos pais quase não deixavam que fôssemos para a casa dos primos e primas para brincar, pois sabiam que mesmo sob as vistas dos nossos tios, não era fácil conter os nossos arroubos de loucura. Além do mais, tínhamos um quintal enorme e ainda a chácara maior ainda no fundo do quintal. Mas, em ocasiões especiais e dependendo do bom comportamento e principalmente das boas notas no grupo escolar, podíamos brincar por tempos determinados e acordados previamente, na casa deles. Era uma delícia. E mais ainda, se tivéssemos sido espetaculares (o que era meio raro), podíamos passar alguns dias de férias nas duas casas de tios que já moravam em Castro: o tio Juca e a tia Ivone.
Aí, estávamos no paraíso, pois nossa liberdade era ampliada muitas vezes e eles nos deixavam brincar em territórios mais amplos que simplesmente os quintais das suas casas, que também eram enormes. Numa destas idas para Castro, meu primo Ivoniel e seu irmão Norton, nos levaram para um tanque em que umas mulheres lavavam roupa. Não demorou muito para estarmos nadando dentro do tanque. O interessante é que eles não entraram. Achei que era por medo e como o Tercis e eu desconhecíamos este componente, não esperamos duas vezes. Só que vimos haver alguma coisa errada, pois eles não eram mais santinhos que nós. Insistiram tanto, que saímos do tanque, com a roupa do corpo toda molhada, pois não tínhamos levado calção. Então veio a bomba de notícia: nos disseram que aquele tanque era frequentado por leprosas e que era uma doença que pegava por contato. Ficamos apavorados, pois o contato tinha sido completo com a água que elas usavam.
Chegando em casa da tia Ivone, além de uma bronca, ela reforçou a história das leprosas. Durante dias e noites, meses e acredito que até um ano, ficávamos vendo se não apareciam manchas que iriam corroer posteriormente o nosso corpo até que tivéssemos que ser isolados num leprosário, com partes deles sendo consumidas pela doença e depois caindo aos pedaços até desaparecermos em vida.


COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"
(Lauro Volaco)

NO COMANDO

Quando contei a historinha do que fazíamos na fazenda do Dr. Miró, me veio uma lembrança muito gostosa de outra experiência infantil ocorrida lá. Eu tinha dez anos naquela época e já me achava um adulto para aprender a dirigir. O meu irmão e eu já tínhamos experimentado fazer várias coisas simples, como sentar no colo do pai e dirigir só tocando na direção, depois ele nos deixava trocar de marcha dizendo qual a hora certa, e com ele pisando na embreagem. Mais tarde, acelerávamos e dirigíamos sentados ao lado dele. Fomos amadurecendo nossas experiências para um dia, dirigirmos sozinhos. Quando? Não sabíamos, mas esperávamos que não demorasse muito. Numa das vezes que passamos o dia lá na fazenda, meu pai foi nos buscar para virmos dormir em nossa casa. Como o Francisquinho já dirigia carro e até trator, me senti em inferioridade, pois não queria admitir que ele era melhor que eu em alguma coisa. Resolvi então me encher de coragem e pedir ao meu pai que me deixasse dirigir, argumentei que já sabia tudo e que estava preparado para dirigir sozinho. Ele ficou só me olhando e não falou nada. Quase derreti, pois não sabia se a reação dele era de aprovação ou não. Então, ele me disse para que eu esperasse para ele terminar a conversa com o Dr.Miró e depois fomos até o carro. Estava esperando que ele sentasse ao meu lado, para ir me dando instruções enquanto eu dirigia, pois aquilo seria a coisa mais natural do mundo, mas não foi o que aconteceu. Eu não esperava que meu pai confiasse tanto em mim, pois ele me deu a chave e ficou fora do carro. Eu perguntei: “não vai junto”? E ele, com sua tranquilidade de sempre, falou: “você não disse que sabia dirigir? Vá em frente”.
Sabe quando você quer muito uma coisa que é considerada quase impossível e alguém diz para você: “pode, você consegue?” a perna amolece de tanta adrenalina. Neste momento o Francisquinho e o Tercis subiram no carro e eu dei partida, lembrando antes todos os passos para tal. Tenho que confessar, o carro saiu aos “soquinhos”, mas o carro não morreu e em seguida eu estava dirigindo sozinho. É uma sensação deliciosa o pai confiar em você, a ponto de largar seu carro para satisfazer o seu sonho, ainda mais com aquela idade! Meu coração parecia que ia saltar pela boca, o ritmo cardíaco, em total disparada e totalmente descontrolado e um pouco de suor vazando pelos poros, parece que querendo aliviar minha adrenalina.
A partir daquele dia, nunca mais fui o mesmo! Parecia que eu tinha aumentado mais uns três centímetros na minha altura, de tanto orgulho de poder dirigir e mais ainda, não ficar em posição de inferioridade em relação ao Francisquinho.

Lauro Volaco
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

MINHA VACA MALHADA

Hoje pela manhã, troquei algumas mensagens com um amigo que mora um pouco na fazenda e outro na cidade. Tomando café, foi desenrolando a historinha que vou contar referente a uma parte muito gostosa de minha infância em Pirai do Sul. Alguns irão se arrepiar, irão ter nojo e querer internar-se para ver se não pegaram alguma infecção por bactérias ou vírus! Muitos não vão conseguir imaginar a cena! Outros, eu acredito que poucos, irão adorar! Como em tudo tem os a favor e os do contra, não importa! Conto para todos os que quiserem me ouvir.
Toda a manhã, meu pai ia até a chácara para tirar o leite que tanto para bebermos, como para a produção de manteiga, nata e queijos. E tudo isto, de verdade, natural, nenhum enlatado ou empacotado como os mais novos conhecem. Pasteurização? Nem sabíamos o que era.
E havia um ritual delicioso. Primeiro, curtíamos estar com meu pai que era nosso ídolo. Depois, estar na chácara que era nosso paraíso, onde tomávamos o leite quentinho ordenhado na hora e direto em nossas canecas, vinha espumando. Meu irmão e eu seguíamos meu pai com um caneco cada um, alguns dias com açúcar e chocolate e em outros com um pouquinho de conhaque. Sim conhaque! Estão estranhando? Não existia muita frescura em nossa educação.
A vaca era muito mansa e nem precisava amarrar, pois ficava quietinha, esperando que meu pai lavasse suas tetas com água morna. Pela cara dela, até parecia que ia ter um orgasmo. Já a bezerra, tinha que ser amarrada e só ficava solta antes da ordenha e depois dela, pois era uma esfomeada e queria nos lograr tomando toda a produção. Enquanto a bezerra estava presa, aproveitávamos para brincar com ela, fazer carinho e fingíamos ordenhar também! Era uma relação de amizade, de companheirismo, de paz, de felicidade, de liberdade e tantas outras coisas boas que acontecem quando estamos em sintonia com o universo.
As vacas eram trocadas quando nascia outro bezerro e a que estava conosco já tinha ganho sua vida com seu trabalho, e merecia dar todo o leite na hora que seu filhote quisesse, solta, bela e formosa no pasto. Parecia que tudo era muito organizado e planejado! Meu pai devia ser Mestre de Planejamento Estratégico.

Depois de tanta propaganda em televisão, notícias em jornais e revistas e todos os tipos de mídia, nem sei se teria mais coragem de tomar o leite do jeito que fazíamos. Mas que era muito bom era. E nunca, nunca e em nenhum momento, nos fez mal. Éramos uns touros de fortes, com os rostos corados e extremamente felizes! Pena que muitos de vocês nunca souberam e nem saberão o que era aquele sabor dos deuses

Lauro Volaco
COLETÂNEA DE CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

GAMELÃO

Praticamente no mundo todo, os campos de futebol variam de comprimento e largura, mas todos são planos. Isto é uma verdade, menos para o nosso campo do "Gamelão" em Pirai do Sul.
Não sei se vocês todos sabem, principalmente os mais jovens, o que é uma gamela, qual seu formato e para que serve (já vi cada uso, que é melhor não comentar!). Se não sabe, não nasceu em nossa terra e recomendo que não morra sem saber.
A grande vantagem era que quase não se cobrava lateral, pois seu formato em arco fazia com que a bola tivesse dificuldade para sair de campo. Era um jogo muito mais intenso do que os de hoje no campeonato europeu. Muitas vezes os passes já levavam em conta esta característica e grandes jogadas nasceram dos pés dos mais habilidosos.
Meu pai Lauro Volco, adorava futebol e queria que meu irmão Tercis e eu,
fôssemos ótimos jogadores. Era seu sonho. Tínhamos todos os acessórios: chuteira, calção, camiseta, joelheira, meia e o que era mais importante: a bola. Não era uma bola qualquer: era de capotão legítimo.
A bola era a nossa garantia para jogar, pois tirava par ou ímpar com meu
irmão e escolhíamos os melhores jogadores, pela ordem de suas habilidades futebolísticas e amizade, até completar os dois times. Quem ganhava, continuava e quem perdia, esperava a vez. Se não fosse assim, nunca jogaríamos, pois éramos péssimos jogadores, sem nenhuma habilidade nos pés e pernas. Só éramos selecionados quando não tinha mais crianças para escolher. Jogamos muitas partidas, mas nosso pai nunca teve o gostinho de ver seus filhos brilharem neste esporte.

Restaram as saudades do nosso campo do Gamelão, o único do mundo neste formato! Nosso orgulho!

(Lauro Volaco)

COLETÂNEA DE CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"