domingo, 28 de fevereiro de 2016

Estopor


Rasca del limón del alma
Humo del escándalo
Soledad emparedada
Por los jinetes sin Dios
Intrusos en nuestra cena
“Grito” de Munch
Estopor
Humo del limón
Estilete en mi carne
Tu palabra
Tatuada:
NO!

Bárbara Lia

Poetas gozam cenas açucenas


Lençol de Kandinski que cobre
O sangue coagulado
Da humanidade ferida
A esconder a realidade que rasga
Suas almas de madressilvas
Bárbara Lia

NooN / 2010(21 gramas)

Modo velho de acordar


De repente
num modo velho de acordar
abro a úmida casca noturna.
Sou folha? Inseto? Passarinho ou gente?
Que dia é hoje? Que horas são?
Onde está o homem que dorme comigo?
No meio das suposições
minhas pálpebras amarfanhadas
são peso e desproporção,
minhas córneas não entendem.
Dói, na penumbra, o reajuste dos meus ossos.
Dói a bexiga que tem rígido horário.
Dói o cotidiano no meu caminho.

- Lucinda Persona, em "Ser cotidiano". Rio de Janeiro: 7Letras, 1998.


http://www.elfikurten.com.br/2016/01/lucinda-persona.html

sábado, 27 de fevereiro de 2016

veloz
minuto a minuto
dia após dia ano após ano
o tempo nos empurra e voamos
da infância à velhice
:
com uns tantos acidentes

de percurso

do blog "tanto mar", de líria porto
dor e amor
o rumo que a rima arruma
não é de remo ou de rama
o rumo que a rima arruma
é romântico
:
um arremedo de arrimo

um arremate de verso

do blog "tanto mar", de líria porto

popularidade


bacalhau salmão robalo
atum linguado surubi – mas não sei
vender meu peixe
fazem sucesso na praça

sardinhas e lambaris

do blog "tanto mar", de líria porto

SONETO DO POEMA COMO UM FACHO


Um rosto que desconhecesse rugas
ou quem sabe uma pedra: humilde e forte.
Mas não, que em vez disso enviesadas fugas
nos esvanecem sempre o impulso em morte.
Jamais teremos a alta placidez
das estátuas que observam o horizonte.
O fim está inscrito em minha tez
e em teu olhar há o vazar de uma fonte...
Recolhe então, com essas mãos, o vento,
a mágoa, e guarda-os numa concha. – O poema
não é mais que isto: um sacrário, uma estela,
pequeno relicário onde o alento
do tempo está mantido em luz e gema:
o poema é um facho – dentro de uma cela.

Otto Leopoldo Winck

ORA, ABÓBORAS!


(Lauro Volaco)

Estava me esquecendo de contar uma das minhas peripécias na qual passei um dos maiores medos de altura da minha vida. Ao mesmo tempo, lembro-me da fartura de abóboras existente em Piraí dos velhos tempos.
Espero que você goste de causos, pois este é um que quero contar com calma.
Certo dia meu pai convidou-nos, meu irmão e eu, para irmos para uma fazenda de um amigo dele, buscar abóboras. Achamos estranho, pois tínhamos também abóboras, morangas, mogangos, gila, e sei mais lá quantas espécies plantadas no quintal de nossa casa. Mas naquela época, filho não ficava perguntado para o pai sobre tudo o que acontecia. Além do mais, gostávamos de sair para outros lugares que não eram alcançados pelos olhos de lince da minha mãe, e sempre íamos pensando em alguma “arte nova”, pois gostávamos de aventuras perigosas. Fomos com a nossa caminhonete “de Soto” e meu pai levou também o tio Rubem e mais um empregado. Para que tanta gente, eu ainda não sabia, mas devia ser muito trabalhoso o que ele iria fazer.
Chegando à fazenda, fomos recebidos pelo capataz que tinha de cor todas as instruções recebidas do patrão, e foi conosco para uma plantação enorme (estou falando enorme mesmo) de abóboras. Descia e subia morros e não se conseguia avistara o fim daquela plantação. Falou que podíamos pegar quantas abóboras quiséssemos e foi junto nos ajudar.
Não precisa dizer que logo alegamos cansaço e fomos liberados para brincar. E aí foi que morava o perigo. No topo de um daqueles morros tinha uma árvore enorme e um cipó bem grosso que chegava quase ao solo. Testamos o cipó e percebemos que ele aguentava o nosso peso junto e de mais uns dois homens adultos, de tão forte que era. No começo, enquanto estávamos com a adrenalina baixa, nos balançamos paralelamente à crista do morro, onde nossos pés quase que roçavam no chão o tempo todo. De repente, pensamos: queremos um percurso grande e não esta “porcariazinha” de deslocamento. E queremos testar nossa coragem e o coração. Outra vez, balançando pouco, saíamos do topo do monte pendurado no cipó e ficávamos a uns dois metros do chão, em direção à sua base. Quem disse que ficou nisso? Aumentamos o trajeto, dando mais embalo. Aí a coisa foi ficando séria e o medo cada vez maior, pois se não tivéssemos força para ficar grudados no cipó, cairíamos bem alto em direção ao solo e ainda rolaríamos morro abaixo. Então tivemos a ideia de puxar o cipó o mais que pudéssemos para trás, e ainda ir empurrando com toda a força, para ele ficar o mais alto possível do chão. A sensação de altura, misturada com a força que ia minguando à medida que o tempo passava para fazer um ciclo completo, podendo ter a possibilidade de morrer se soltasse do cipó, fez com que a adrenalina chegasse ao ponto máximo. Imagino que a altura a que chegamos, era de uns quinze metros acima do nível da encosta do morro. Uma escapada e era menos um membro da família Volaco vivo. Felizmente, nosso santo era forte e sobrevivemos com as mãos cheias de vermelhão de bolhas que estavam querendo aparecer. Pura emoção! Só não enchi as calças por não ter outra para trocar e ser feio demonstrar que tinha me borrado de medo.
Mas eu estava contando das abóboras: enchemos a caminhonete até a borda da carroceria, com centenas de abóboras de todos os tamanhos e peso. Sabe para o que era este estoque tão grande? Para alimentar nossos porcos que moravam num mangueirão nos fundos da chácara, e assim baratear o custo e também para ficarem com a carne mais limpa para o final de ano que se aproximava. Seria um porco todo especial para servir nas nossas ceias e jantares na época.
Delícia combinar tantas emoções numa coisa que para muitos de vocês pode parecer sem graça, para alguns loucura ou desperdício, e outros talvez imaginassem uma aventura ou ainda exibicionismo puro de crianças muito loucas. Não importa, pois nós soubemos aproveitar aquela oportunidade para voar no espaço e no tempo, literalmente! Sem asa e sem motor, embalados somente pelo nosso destemor!


COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

aguaceiro


pedi tanto que chovesse
a seca foi tão severa
que mesmo quando exagera

espero que a nuvem pingue

do blog "tanto mar", de líria porto
Vai ter que ir ao médico!
-Não..
-Vai sim, está com febre. Tem que ver o que é isso, você já é grandinho pra ter medo de medico.
-Não vou e não vou.
- Que coisa feia, fazendo manha!
-E se tiver que tomar injeção.
-Se tiver que tomar, tem que tomar. Melhor uma agulhada do que ficar em casa. Depois é pior, vai ser internado no Hospital. Vamos !
-Não quero... Não quero...!
-Vai sim! Criança e idoso não tem que querer ir ao medico , vai e pronto, e chega de denga!!
--Tá bom, não fique bravo e nem brigue comigo, vamos filho!.

Jdamasio

LEMBRANÇAS DE UMA SERRARIA


(Lauro Volaco)

Sempre fui uma criança muito curiosa e tudo o que eu pudesse conhecer me interessava. E sempre que podia, fazia um montão de perguntas para quem estivesse por perto ou entendesse daquilo que eu estava conhecendo.
Um dia meu pai iria umas entregas na vila de uma serraria que pertencia à família Sguario, e como estava em férias, pude ir junto. A regra era a seguinte: cada dia revezava com meu irmão para acompanhar as entregas que ele fazia para seus clientes. Os dois juntos nem pensar, pois era certeza que o sossego acabaria para quem estivesse por perto.
Eu não imaginava como poderia ser uma serraria, mas tinha a impressão que seria muito chato. Mas, ao chegar lá, comecei a me impressionar com alguns operários movimentando toras enormes, com uma facilidade incrível, parecia até que não faziam estorço. Duas ferramentas em particular me impressionaram: uma era um grampo em formato de “U”, pontudos nas duas pontas, que eram cravados nas extremidades das toras. Com eles, puxavam enormes troncos para onde queriam. Mas a que eu mais gostei foi de um gancho articulado, com uma espécie de “anzol”, que servia para fisgar a tora, movimentar, levantar, nivelar e rolar as que iriam ser transportadas e cortadas. A tora obedecia ao operário muito rapidamente, pois parecia entender que se não obedecesse, levaria como castigo mais uma fisgada para fazer o que ele queria.
Mas ainda não tinha visto nada, pois quando me aproximei do local onde estavam as serras é que vi maravilhas em meio a um barulho ensurdecedor. Naquela época não existia protetor auricular e eu senti, no meio do meu cérebro, o gemido da serra abrindo a tora para produzir o que o mestre serrador tinha planejado. Perguntei como era chamado aquele trabalho e ele me falou: “desdobro”. Fiquei pensando: “como é burro! Esta palavra nem deve existir, ele deve ser um caipira analfabeto! Só depois de alguns anos, em outra serraria no Turvo, aprendi que aquilo era uma operação muito valorizada, pois o lucro ou não da serraria, dependia deste profissional. Graças a ele, era possível fazer um melhor aproveitamento da madeira e ainda retirar as peças que tinham o maior valor de mercado. Ele é que sabia como fazer o melhor corte para que mesmo os subprodutos inevitáveis, como as costaneiras, fossem aproveitados e comercializados. Tudo numa serraria era aproveitado, menos o ruído da serra.
A vontade que eu tinha era passar o dia inteiro ali, vendo todas as operações e aprendendo um pouco mais daquela atividade. Pensei em , quem sabe um dia, trabalhar numa serraria e ser o homem que decidia como processar o corte economicamente mais rentável. Foi como se eu tivesse acordado de um sonho quando fui chamado para irmos embora, pois o que tinha sido o motivo de nossa ida nesta serraria, já tinha sido realizado. Foi a primeira fábrica que conheci na minha vida e a impressão ficou indelével. Queria crescer logo para comandar homens e máquinas, transformando para melhor, tudo o que estivesse sob os meus domínios.


manequim


a garça
é uma graça
elegância
postura
e a calma
daquelas
que passam
a vida
de saltos
altos

nas passarelas

Líria Porto

ESTRANHO CAIS


Estranho cais,
volto a ti
sempre que o oceano
me cansa.
Tenho por ti
estranho apego,
apesar da paixão do horizonte,
da vertigem do azul.
Na noite do mundo
foste o meu porto.
Se volto hoje a ti,
depois da alvorada,
é que não compreendi
o meu caminho
e te pergunto pela rota, pelo norte, pela luta.
Estranho cais,
de tantos ais
e vozes tantas ancestrais,
sempre que o oceano
me cansa -- e como cansa! --
eu volto a ti,
ó meu começo.

Otto Leopoldo Winck

ÁRABES PIRAIENSES


Na minha infância e adolescência em Piraí do Sul conheci e convivi com vários membros de famílias árabes que lá residiam e/ou ainda residem. Eram elas: Abdala, Abdanur, Abrão, Ajuz, Avais, Chueiri, Constantino, Cury, El Achkar, Gataz, Jayme, Queiroz (originariamente Kiros) e talvez algumas outras famílias cujos nomes não me recordo agora.
O que me confundia era a denominação de povo árabe para os sírios e libaneses lá moradores, só mais tarde vim a entender a etnia e suas nacionalidades.
Lembro-me de que, quando eu era piá, tinha que ter cuidado de não chamar alguns de turcos, pois eles não gostavam sobremaneira.
O que marcou muito a minha memória gustativa foram os quibes que as mães de famílias árabes faziam, deliciosos.
O Ramis Cury foi meu companheiro de ginásio e sempre voltávamos juntos para casa, pois éramos vizinhos. Quando passávamos pela sua casa a sua mãe, dona Rosinha já tinha exposto à janela, para esfriar, uma bandeja de quibes, que nos oferecia. E nós, sem qualquer cerimônia aceitávamos na hora.
Convivi também com outros descendentes de árabes: um deles o Rodney Abrão Kalil Jayme, que trabalhou com meu pai, era um amigo excepcional, viajamos muitas vezes juntos. Ele era um grande vendedor e tinha total apoio do meu pai, tanto que com o passar do tempo abriu o seu próprio negócio e chegou a ser prefeito da cidade. Só agora é que me conscientizei de que ele também fazia parte da família árabe piraiense. Sempre o conheci como o Rodo e só fui atentar para o seu nome completo quando candidato. Outro era Nagib Daher, que se casou com a minha prima Santa. E também meu colega de ginásio Nagib, morador em Curiúva e que ajudou na compra do terreno da Igreja de São José.,o Jorge Constantino, a quem chamávamos carinhosamente de Ferreirinha, companheiro de futebol, o Jaudete Cury, que participava das nossas serenatas, e o Caco Queiroz, meu cunhado.

(Luiz Fanchin Jr)


 COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

caracoles


a lesma mora em si mesma
e só namora quem mora

em casa própria

do blog "tanto mar", de líria porto

O FORASTEIRO

- Oi amigo, não sou daqui e gostaria de saber mais sobre esta cidade.
- Pois não, responde o piraiense, vou fazer um resumo:
- Aqui a água é boa, tem rede de esgoto graças ao Moyses Lupion.
- Tem rios, tem cachoeiras; a temperatura é amena.
- Tem alcatra no espeto de madeira, tem povo hospitaleiro, tem história!
- Aqui a vida não passa, desliza lentamente! Tristeza não tem no nosso dicionário.
- O café é forte e cheiroso; tem pinheiros e tem bracatinga.
- O céu é azul, a madrugada serena. Tem serra, tem macadame.
- Tem festa boa lá no bosque..., e que bosque!
- Você chegou agora e já foi abençoado por Nossa Senhora das Brotas.
- Calma, amigo, onde está indo? Não terminei a informação!
- Meu irmão, agora já sou um cidadão, e se soubesse teria me mudado de antemão!

(João Luiz Goltz de Almeida)

COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"



engodo


o amor diz que vem
nunca vem
e quando vem não te liga
para em qualquer esquina
fica a falar com alguém
ou então fala outra língua
alguma que não entendas

que te faz morrer à míngua

líria porto

do blog "tanto mar", 

Ar Condicionado na Sala de Aula é Para os Fracos, Pois os Fortes Usam Leque


Hoje assisti, na mídia, grupos de estudantes protestando pelo direito de ter ar condicionado na sala de aula. Já estudei em lugares quentes e posso dizer que o motivo desta algazarra toda é fútil. Pois os alunos têm motivos mais nobres para reivindicar, exemplos: salários bons para os professores, reformas em salas de aulas que estão aos pedaços e contra o desvio do dinheiro da merenda escolar por corruptos.
Na minha época de estudante, quando fazia um calor infernal na classe, eu pegava uma folha de rascunho, confeccionava um leque e me abanava. Mas tinham meninas que traziam leques decorados, comprados em lojas de presentes. Sem falar que num lindo dia, a professora de Educação Artística ensinou como fazer leque com palito de sorvete.
Desta maneira, eu escrevia a lição com a mão direita e com a esquerda abanava o leque. Assim passava de ano sem problemas e até hoje não morri por causa do calor na classe. Porém confesso que sofri com salas sem estruturas físicas quando eu estudei em estabelecimentos públicos. Porém sempre tentava reivindicar os direitos dos alunos e dos professores. Mas nunca me passou pela cabeça brigar por ar condicionado dentro da sala de aula.  Por isto, me espanto com esta juventude cheia de frescuras que em vez de protestar por problemas sérios, exigem futilidades como ar condicionado.
O pior é que ano passado, dei uma palestra sobre lendas para adolescentes, e um destes causos chamava-se Lenda do Leque. Então, uma adolescente me perguntou:
- Professora, o que é leque?
Desta maneira mostrei o objeto e expliquei a sua origem. Também dei a dica que é possível comprar este instrumento em lojas populares.


Luciana do Rocio Mallon

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Amor bandido
é quando alguém que não te ama,
rouba teu coração
e não devolve.

sergio vaz
Minha garganta fechou quando minha glote começou a inchar por causa do perfume eu tomei uma cartela inteira de anti-histamínicos e nada de respirar pouco antes do desmaio o moço desceu na estação e eu fiquei. a boca espumando. Fui pra casa me arrastando até conseguir encher o pulmão outra vez. Era o mesmo perfume antigo do meu algoz quando eu vivia um cárcere privado. Deus me livre aquele cheiro outra vez. deus me livre dos monstros e seus perfumes.

Ana Farrah

Dia da Conquista do Voto Feminino: 24 de Fevereiro de 1932


Em 24 de fevereiro de 1932, após muita batalha
As mulheres puderam votar no Brasil
Porque a justiça nunca falha
Em que tem fé no céu anil!

A primeira mulher a conquistar
O primeiro direito a votar
Foi a professora Celina Viana
Que saiu da sua pequena cabana

Para abrir as portas pelo direito
Do voto feminino tão importante!
De um jeito justo, verdadeiro
E, ao mesmo tempo, brilhante!

Em 1928, Mietta Santiago, estudante de Direito
Conseguiu votar e ser votada
De um jeito sincero e perfeito
Abrindo as portas da alvorada

O voto feminino foi uma árdua conquista
Que até hoje ninguém pode perder de vista.
Luciana do Rocio Mallon


O “Poema Sujo” de Ferreira Gullar


O “Poema Sujo” de Ferreira Gullar tem a cara e a coragem tipificada de nosotros embru/tecidos nessa republiqueta Pindorama S/A, de tantos lusonautas (de afrobrasilis a tupidavídicos) como filhos mestiços – e amalgamados - de uma panamérica-latina em closes e fragmentos de matizes. O Poema Sujo tem um olhar entre o sub e o sobre, com consoantes oclusivas, meio mantra-blues, meio fadobanzo, colocando a alma dessa terra que a brisa beija e balança, para depois pescar tristices pegajentas, entre o oráculo do limão e a tez chão de brasilíndios, afrodescendentes e suas pensagens liricamente dolorosas. O Brasil dói. Drummond dizia “Como a vida é forte/Em suas algemas”. Ferreira Gullar pega a palavra turva pelo coice dela, crava a craca de um plangente tempo – a olho nu (ou ponto de fuga?) - que veio de históricas injustiças a privações desmemoriadas; de escravaturas a reféns dos morros, pondo a sua criação-macadame naquilo que faz ao botar a boca no mundo e gritar lamentos e moendas entre cisternas de uma bruteza que berra. A injustiça é um palavrão. Toda história é remorso, e todo poema é contação, prisma de um olhar. Não acredito em arte que não seja libertação (Bandeira), e Gullar é isso em timbres e tons e tais. Ferreira Gullar com o Poema Sujo põe a nu o pântano das aparências. Poema Sujo é o rosto da um povo, de um tempo, de um lugar. O hino nacional às avessas, dentro de si e acima de todas as coisas e causas. O Poema Sujo de Ferreira Gullar grita o martírio dos infelizes, dos oprimidos, a voz magma do povo, o talo pedrês, a gramática de arame, cacos de espelho e espinhos de cactos, feito um vinho-verbo de cálice transbordantemente tropical, entre as mazelas dos sub-cretinos e os podres poderes palaciais. O Poema Sujo é a dor letral, o horror letral ainda e precisamente nas suas intertextualidades. Rimbaud dizia O artista é antena de sua época. Leon Tolstoi dizia Canta a tua aldeia e serás eterno. Esse é Ferreira Gullar. Sua identidade-impressão (recolhes de sentidor) é o Poema Sujo. Navalha na acne, a poesia de Gullar tudo aproveita – e tudo em nele se trans/forma – o húmus, a violação da regra-norma; sujeiras e descontentezas, desvairados inutensílios filosofando reflexões em campos minados. O Poema Sujo de Ferreira Gullar é o ponteio poético com as rebarbas de odes xucras, incendiário, portanto, dizendo do mar de sargaços – pátria minha, língua mátria – por isso é um poema Peri/gozo. Ele é em si mesmo um trovador pós-moderno a poetar esse seu trabalho top de linha, um porta-lapsos de palavras, espectros entre escombros – desabandonos e picumãs – alma em transe, veias abertas possíveis. O Poema Sujo de Ferreira Gullar é capa e espada, crime e castigo, campo de lavanda de pesadelos, dedo em riste, consciêncial, barulhando delimites e cifrando horizontes pisados. O Poema Sujo é uma porção-crusoé, uma decantação, com ele macunaímico feito um lázaro entupido de angústia, cirurgicamente pinçando dezelos sociais, todos destramelados nas palavras. O Poema Sujo de Ferreira Gullar registrou seu tempo, pontuou suas dobradiças entre o sujo e o belo, o feio e as cantatas; nas erratas de uma historicidade que gerou desmandos e desmundos. Ferreira Gullar é o pai da palavra que em bateia de granizos cata o que resta da ceifa, como um recolhedor das lágrimas advindas depois da bala perdida, do medo-coragem, da solidão-palhaço; faz de seu versejar uma metralhadora cheia de lágrimas e atira a vida virulenta no ventilador das idéias, com as duras cetras de estrofes em lã de lodo. Ferreira Gullar peca, sabe o que é um pé no sacro, mas, figura o seu estado letral como se uma agonia; sobe e desce memórias revisitadas, destila os pedaços de frutas secas e põe vida e viço lírico na dor, na morte, na reconstrução das seqüelas, meio pan-neodadaísta (neoconcreto?). O Poema Sujo de Ferreira Gullar deveria ter uma tarja preta? Ou estar escrito por sobre, cuidado, é humano? Domenico Mais dizia que a criatividade é impertinente. Ferreira Gullar quando escreve faz uma confissão-endereço. Nietsche dizia que a arquitetura correspondente à natureza da alma humana, era um labirinto. Pois ele coloca os pingos nos jotas. O corpo-poema, Poema Sujo de Ferreira Gullar e sua capacidade de se expressar, é uma catedral-poema com todas as suas cruzes-lágrimas, dores coletivas, impunidades generalizadas. O Poema Sujo entre o muro e o turvo, a palo seco, era todo um universo mal cabido em si, mas afinado em si, tocado no ser de si, por isso poema longo, grosso como açúcar seco, entre onomatopéias e jogos de palavras, Palavras punhais. Sal grosso. Incêndios. Ferreira Gullar do Poema Sujo tirou sangue-e-vida-(e luz?) de trevas. Se o poeta é um mundo encerrado no homem (Victor Hugo), o Poema Sujo de Ferreira Gullar é um homem libertado no poema mais visceral e por isso mesmo contundente, verdadeiro, dolorosamente verdadeiro. Garimpeiro, ourives, esse é Ferreira Gullar. Idéias e palavras. Poema como um organismo vivo. O Poema Sujo de Ferreira Gullar é um dos melhores poemas escritos em “língua brasileira”.

-0-

Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br


o que queremos:
uma dose diária e permanente de auto-amor
quando queremos:
agora

Louise Ronconi de Nazareno

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Flagrante


O morto na avenida
está livre da sepultura.
Não sei se é desaforo
ficar assim estendido
no chão. Mas a morte
é a quebra de protocolo,
a entrega de uma carta
endereçada ao nada.

- Rubens Jardim, em "Fora da estante - Rubens Jardim". Coleção Poesia Viva. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2012.

POESIAR-TE


Poesiei-me
Vesti-me de rimas
Sobreparei-me
Ganhei alturas
Poesia-te
Enquanto é hora
Mostra-te
Põe a alma de fora
E se houver dores
No poesiar-te
Mais inspiração implores
Para consolar-te. . .

- por JL Semeador de Poesias, em 22/02/2016 –

PARA UMBERTO, UM ECO


eco
seguirá ecoando
além da idade mídia
dos muros
do cemitério de praga
além
de quem decifrou
o perfume e o nome da rosa
que ontem foi apocalíptico
hoje integrado
e finalmente
entregou os pontos.
Ricardo Mainieri


CARICATURAS DE MAMÃE

Acho que todos os que nasceram e cresceram na nossa Piraí do Sul, tiveram uma infância muito parecida: brincadeiras na rua, jogos de bola, bolinha de gude, cinco-marias, amarelinha, Etc.. Éramos crianças inocentes, alegres, felizes!
Mamãe era costureira e nós fomos acostumados com nossa casa sempre cheia de mulheres, seja auxiliando-a na confecção - lembro da Célia Sandrini Soares, Terezinha Sandrini Oliveira, Tereza Turra Dolato - ou as senhoras e moças com seus tecidos, folheando as revistas da moda na busca do melhor modelo de vestido ou tailleur.
Mamãe precisava de silêncio e concentração para realizar o corte nos tecidos e confecção dos trajes solicitados. Como toda criança, meus irmãos e eu éramos muito peraltas, muitas vezes levávamos uma "boa" palmada e/ou puxão de orelhas e/ou beliscão, isso quando não aparecia a vara de marmelo que descia valendo em nosso "popô". E após toda "tortura" ainda éramos contemplados com um castigo que consistia em nos colocar sob as mesas da sala de costura e só sairmos depois do corte do tecido.
Em 1968 nos mudamos para Ponta Grossa e qual não foi nossa surpresa ao virar as mesas da sala de costura, lá estavam as caricaturas de mamãe com proeminências diversas: seu rosto caricato com um enorme nariz, ou com grandes orelhas, grandes seios, grande barriga...enfim...

Cada pessoa tem um dom ou talento, algo em que ela é realmente muito boa. Meu irmão Luiz Otávio possuía talento e sempre teve facilidade em desenhar e quando éramos colocados de castigo sob a mesa, sua revolta e vingança se traduzia em caricaturar mamãe.
Enir Elaine Torres Nunes
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

domingo, 21 de fevereiro de 2016

janela poética
escravo
do que escrevo
não vivo:
vejo

Otto Leopoldo Winck

Lendas da Lanchonete Kharina de Curitiba


Kharina é uma lanchonete famosa em Curitiba que foi inaugurada em 1975.
Dizem que seu nome foi baseado numa lenda dos ciganos beduínos do deserto, que leremos abaixo:
Na Idade Antiga, no acampamento dos beduínos do deserto, nasceu uma menina chamada Kharina, nome que nas línguas tradicionais do extremo Oriente significa: amável, carinhosa e aquela que une casais.
A garota cresceu sempre interessada em culinária. Ainda criança, ela criou uma receita de carne moída junto com pão, que fazia sucesso em todos os lugares onde passava.
Um certo dia, sua caravana acampou em um oásis. Mas, de repente, estes beduínos foram surpreendidos por uma chuva de areia, com ventos de até duzentos quilômetros por hora, que fizeram com que Kharina desmaiasse. Quando a menina acordou, ela se encontrou sozinha no deserto e começou a chorar. De repente, surgiu a caravana do Rei do Oriente. Logo, as esposas dele saíram das tendas para socorrer a garota. Como agradecimento, a menina preparou a receita com carne moída no pão que agradou às pessoas. Assim ela foi contratada como cozinheira, quando todos chegaram ao palácio. Lá, além de cozinhar, Kharina unia casais apaixonados, como uma espécie de cupido e sempre dizia:
- Um dia existirá um restaurante com o meu nome, onde muitos casais se conhecerão.
Mil anos depois, foi inaugurada em Curitiba uma lanchonete chamada Kharina, onde muitos casais se conheceram quando foram lanchar neste local. Pois, dizem que lá existia um logotipo com o rosto da Kharina que observava e unia estas pessoas só com a magia do seu olhar.
Luciana do Rocio Mallon


Eu tenho uma oficina de silêncios.

Eu tenho uma oficina de silêncios.
Nela eu forjo as palavras com que te direi um dia
que todo ardor é vão. Se estendo a mão
para tocar o céu, o espetáculo a que assisto é de o uma sublime indiferença.
Os deuses sabem que o caos não se sustenta sem beleza
e que todo esforço de compreensão
resulta inútil. Sim, é magnífico o sol que doura as nuvens no horizonte,
porém meus olhos só foram feitos para buscar na noite
a referência amarga do teu corpo.
Na minha oficina de espantos eu trabalho numa súmula
que diga tudo: que a vida é boa, o inverno é lúgubre
e a saudade é uma forma de reconhecimento.
Para quê precisamos de palavras? Não sei.
Talvez para entender que certas coisas não são ditas.
Otto Leopoldo Winck


Desabafo do Golfinho Que Não Queria Fazer Selfie


Eu era um golfinho que nadava pelo mar
Mas, um dia eu encalhei na areia
Então passei a me desesperar
Porém logo chegou uma sereia
Que carregava um celular

Eu pensei que seria salvo
O problema é que fui alvo
Da sua egoísta fotografia
Então naquele mesmo dia

Outras pessoas ficaram ao meu redor
Fazendo “selfies” em minha companhia
Ninguém se importou com o meu suor
Repleto de tristeza e agonia!

Então, pouco a pouco eu parei de respirar
Eu nunca desejei navegar na Internet
Apenas quis nadar nas águas do mar
Porém, eu virei marionete
De quem só queria me fotografar!

Por isto, eu morri na praia
Olhando para o azul céu
Onde avistei uma arraia
Antes do meu último suspiro cruel.

Luciana do Rocio Mallon
escrevo
do lado do avesso
pra ver se assim
torto
enxergo direito

Otto Leopoldo Winck

ACORDEI!

Era inverno rigoroso!
Muitas cobertas, muita vontade de estudar!
Passei a mão no vidro embaçado,
uma fumaça uma neblina assim perdurava,
o cheiro do café forte exalava!
O Sol, astro-rei, sempre acima dos pinheiros das Brotas, despontava.
Amanhece meu Piraí, venha com força!
Somos seus filhos vamos à luta,
Somos fortes, não desistamos,
amparados por Nossa Senhora das Brotas,
que abençoa nossa labuta!
Aqui termina essa menção, assim em forma de oração.
Viva minha terra, viva nossa gente!
Somos piraienses de boa conduta!

(João Luiz Goltz de Almeida)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"


E agora que todos os caminhos chegaram tarde
e toda as notícias nos soam loucas
e todos os gestos parecem parvos,
o que farei dos frutos todos
que não colhi
e dos gritos todos que abafei na fronha?
A vida, vai ver, é uma forma de poema
que sempre falha e traz nos versos
a marca infame da noite de nosso total desconsolo.

Otto Leopoldo Winck

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Lenda da Mulher Que se Vestia de Coroa de Flores e Faixas de Cemitérios em Curitiba


Nos anos setenta, em Curitiba, existia uma menina chamada Clara Bela que sonhava em carregar uma faixa de miss. Um certo dia, esta garota foi brincar no cemitério junto com sua amiga, Ziza. Então, no meio do passeio, ela disse a sua colega:
- Tenho vontade de pegar estas faixas, que fazem homenagens aos falecidos, para confeccionar uma faixa de miss para mim.
De repente, surgiu uma mulher cheia de faixas roxas de velório e com a cabeça com uma coroa de flores arrancadas dos túmulos, que disse:
- Não toque nestas faixas. Pois elas pertencem a mim e à entidade chamada Maria Malumbo do Cemitério, que eu incorporo.
De repente, Ziza gritou:
- Vamos correr, Clara Bela!
- Pois esta é a Maria do Cemitério, que pega faixas e flores dos defuntos, e depois corre atrás das crianças!
Porém, a moça gritou:
- Parem com isto!
- Pois, esta história não é verdade!
- Não me chamo Maria do Cemitério. Pois meu nome é Ivone. Minha missão é ajudar a entidade conhecida como Maria Malumbo do Cemitério. Assim, como ela, eu preciso da energia das faixas e flores das pessoas falecidas porque nelas existe uma aura de amor familiar muito grande. Minha família nunca gostou de mim. Assim, como os parentes da Maria Malumbo do Cemitério nunca admiraram esta jovem também. Ambas fomos expulsas de casa, temos como missão limpar os campos-santos para purificarmos nossas almas e entrarmos no céu. Reza a lenda que a Maria Mulambo do Cemitério não era boa o suficiente para morar no Paraíso. Mas não era tão má para entrar no Inferno. Então seu destino era vestir-se das faixas e flores que as pessoas deixavam para seus entes falecidos no cemitério. Pois esta entidade, também, vive da energia das lembranças das pessoas que já se foram. Geralmente, ela incorpora em médiuns humildes, e neste caso, a médium sou eu. Por isto me visto com faixas e flores que as pessoas deixam para seus entes queridos que não estão mais na Terra. Apesar disto tudo, nunca machuquei crianças.

Depois desta explicação, Ivone evaporou-se e as meninas saíram correndo para suas casas.

Luciana do Rocio Mallon

QUARESMA


Cego de tua luz,
atravesso as areias ardentes
que me separam de ti.
Há dias não provo pão,
não bebo água,
não ouço voz humana.
Serpentes e harpias
me acompanham. Espíritos imundos
me alucinam. Sei que o trajeto
é longo e não há oásis
nem haverá maná no caminho.
Me cobri de cinzas para lembrar
que sou pó. Que tudo é pó.
Que não há nada mais que o pó.
No entanto, aqui dentro,
junto à sede, junto à fome
que me excruciam,
arde este sonho, este desejo
que não tem medidas nem horizontes como os desertos.
(E essa luz, fora e dentro de mim,
que me impulsiona
para o meu fim.)


Otto Leopoldo Winck

O Eco de Umberto Eco


O eco de Umberto Eco
É como uma peça de lego
Cada pedra tem um mistério
Num encaixe certo e sério

Este eco é uma canção medieval
Que passa pela gruta da verdade
Até hoje, num dia muito atual
Refletindo a assertividade

Eco descobriu o verdadeiro e real nome da rosa
Quando, no Cemitério de Praga, encontrou um cravo
Que revelou o segredo de uma forma perigosa
Pois soube, que da Internet, ninguém deve ser escravo

Eco escreveu sobre um pêndulo místico
E sobre a Ilha do Dia Anterior
Seu espírito era amplo e holístico
Como deve ser a alma de um escritor.

Luciana do Rocio Mallon

A Lua e Menstruação

O secreto útero da moça
É uma suave e leve Lua
Feita de uma mágica louça
Como o satélite que flutua!

Cada menstruação é uma fase
Dependendo do firmamento
Ela pode mudar de face
De acordo com o sentimento!

A menstruação é uma Lua de rubi
Perto da Lua negra ou branca
Que liberta todo o colibri
Que existe na dama franca!

Quando as regras vêm na Lua minguante
A alma da mulher vira um diamante
Pois ela baila na Lua clara
De uma maneira doce e rara!

Quando as regras vêm na Lua cheia
A mulher vibra na Lua de rubi
Como uma cantora sereia
Com perfume de patchuli !

A menstruação precisa voltar para a Terra
Para o Sol fazer o sangue se evaporar
Assim os óvulos viram pétalas na primavera
Que chamam uma suave garoa ao luar

A mulher que devolve o sangue para a terra
Recebe energia do mais dourado Sol
Virando a musa forte da nova era
 Transformando-se no seu próprio farol.

Luciana do Rocio Mallon

vias ínvias


SER PROFESSOR




(Jusley Sabino)

Sou de uma família em que a maioria nasceu com o doce dom de lecionar, neta, filha, sobrinha e irmã de professores. Amo minha profissão e não saberia fazer outra coisa que não fosse ensinar.
Sou de uma geração em que cantávamos os hinos na fila e quando entrava outro professor ou alguém na sala, ficávamos em pé.
Do tempo no qual ninguém se atrevia a responder de maneira mal educada ao professor, pois se o fizéssemos, levávamos “reguada”.
No Colégio Santa Marcelina levei muitas “grimpadas” da Ir. Úrsula e da Ir. Iria, e tinha um medo terrível da Ir. Aurélia, pois se errasse o ponto, era tapa na certa.
Como sempre amei cores fortes, ganhei uma fita roxa da mãe. Ela sempre fazia um rabo de cavalo em meu cabelo, que me deixava cara de japonesa, e naquele dia finalizou com a tal fita, feita um belo laço.
A Ir. Íria me bateu tanto, até cair o laço o cabelo, pois eu havia desobedecido. As cores das fitas só poderiam ser brancas ou marinhas, e os pais não ousavam questionar os procedimentos da escola.
Uma vez a mãe lavou meu casaco que era azul marinho e não secou, tive que ir com um branco. A Ir. Úrsula me deixou ficar, porém perdi o recreio e lógico que não se podia comer em sala de aula.
No colégio usávamos sapatilhas, par não riscar o chão e íamos rezar na capela, e eu amava o dia de ir.
Mas os tempos mudaram, agora a nós, professores, é proibido gritar, xingar, falar alto, pois se fizermos isso, somos processados. Os alunos só exigem, só têm direitos. Acabaram-se os deveres.
O bolsa família, obriga os alunos terem presença, então vão de má vontade. E devido a tudo isso eu já levei cuspida no rosto, já fui chamada de prostituta, um aluno torceu minha mão, tive que ir a Ponta Grossa em consulta com ortopedista. Quando o pai foi chamado, disse-me:
- Este é dos bons, puxou a mim. Me orgulho dele.
Como tenho parafusos na perna, a cicatriz é enorme. Um aluno me chutou bem no local e lógico que eu caí, e enquanto estava no chão, ele me chutou a coluna. Novamente fui ao ortopedista
Não há punição, mesmo abrindo processos, nada acontece.

Infelizmente os tempos mudaram e para pior.

COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

Morte do Gato Bóris


Neste dia 18 de fevereiro
Ocorreu algo traiçoeiro
O gato Bóris faleceu
E Curitiba ficou no breu

Ele morava numa suave livraria
Dormindo em discos de vinil
Sua vida era uma poesia
Escrita em tinta anil

Ele aproveitou suas sete vidas
De uma forma doce e corajosa
Curando as próprias feridas
Nos espinhos de uma rosa

Anos atrás, Bóris foi sequestrado
De uma forma cruel e traiçoeira
De um jeito muito descarado
Bem no meio da agitada feira

Mas, ele sobreviveu ao cativeiro
Do sequestrador travesso e sapeca
E com seu espírito brejeiro
Voltou a morar na biblioteca

Bóris já caiu tentando dançar balé
Numa linda e bela manhã
Ele quase torceu o pé
Na histórica Casa Hoffman

Mas, um dia, ele estava num estacionamento
Quando de repente, apareceu um pit bull
Que correu atrás de Bóris sem sentimento
Perseguindo o pobre de norte a sul!

O gato desmaiou todo machucado
Mas sua lembrança estará ao nosso lado
Gato Bóris sempre será uma lenda eterna
Passeando, pelo largo, numa rua fraterna.

Luciana do Rocio Mallon
O Gato Bóris chegou ao céu e encontrou os outros bichos-lendas de Curitiba: o Burro Brabo do Tarumã, o Pavão Prateado do Passeio Público, a Gata Nina do Salão de Beleza da Estação Guadalupe, o Papagaio Rezador da Igreja dos Passarinhos e a Gralha Azul do bairro Pinheirinho.

( Descobertas da Tia Lu )

Adeus, Bóris. Curitiba agradece e não esquece.

Bóris faleceu nesta quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016.

Embora sempre aparecesse nas fotos com pose blasé, consta que Bóris era uma figura bastante afetuosa.
Bóris era muito fotografado por turistas, muito reverenciado pelos clientes da loja de livros e discos antigos em que vivia e, de vez em quando, ganhava das crianças abraços apertados demais.
O gato era especialmente famoso na região do Largo da Ordem, onde viveu intensamente suas sete vidas.
Em 2011, Bóris conseguiu se livrar de sua coleira de identificação. Fugiu para longe dos cuidados atentos e dedicados dos seus donos e só voltou uns dez dias depois. Ninguém sabe que tipo de aventuras ele viveu naquela ocasião. Como era muito querido, Curitiba se mobilizou para encontrá-lo. Conseguiu.
Dessa vez, Bóris foi para as ruas viver nova aventura. Lamentavelmente, um cachorro o encontrou primeiro.
Bóris foi enterrado nos fundos da tradicional loja de discos em que morava, bem no lugarzinho em que costumava tomar sol.

Adeus, Bóris. Curitiba agradece e não esquece. 

ADEUS MEU QUERIDO AMIGO!

Faleceu ontem à noite a pessoa não-humana mais incrível que pude conhecer. Há mais de década, seja a passeio ou mesmo garimpando raridades no antigo sebo Trovatore, lá estava ele, soberano no Largo da Ordem. Sempre querido e companheiro, sentava em meu colo ronronando enquanto procurava discos, assim como sempre fez com milhares de pessoas que passaram por lá e que fazem parte da rotina do Largo, onde fazia questão de visitar diariamente todos seus lugares preferidos e seus amigos da vizinhança. Grata surpresa quando, anos mais tarde pude fazer parte de sua vida, dessa vez como membro da família, cuidando dele e de sua casa e criando uma das maiores amizades que já tive. Todos os dias era recebido ao abrir a loja com um bom dia e um abraço de gato, mas não qualquer gato. Quantas conversas e outras coisas não ditas que só o sr. Bóris era capaz de compreender… Hoje a Casa Hoffman, o Memorial de Curitiba, a Igreja da Ordem, o Bar do Alemão e todos os outros comércios e espaços que ele costumava frequentar estarão vazios, saudosos de sua presença insubstituível. Ontem em um de seus costumeiros passeios ele foi atacado por um cachorro de rua no estacionamento ao lado da Casa Hoffman e se escondeu em um quartinho onde acabou sucumbindo, provavelmente do coração pelo súbito do acontecido, já que não haviam grandes marcas. Depois de algumas horas buscando por ele recebemos uma ligação dos funcionários do estacionamento que o encontraram já sem vida e nos relataram parte da história. Boris foi enterrado nos fundos da loja, lugar onde ia todos os dias para tomar sol pela manhã e que será sua eterna casa onde viveu uma boa e intensa vida de gato. Hoje a loja estará fechada, possivelmente amanhã também. Ficamos com a tristeza imensa da perda e a alegria da memória de poder ter feito parte dessa história. 

ADEUS MEU QUERIDO AMIGO! 


Solaris discos, livros cultura
'Ainda vão me matar na rua
quando descobrirem principalmente,
que faço parte dessa gente
que pensa que a rua
é a parte principal da cidade'
pl
* Boris era um gato que tinha RG.
Morava no Largo da Ordem há anos e era tratado como pop star.
Uma vez sumiu. Ficou semanas desaparecido, fonte segura denunciou seu sesquestro por alguém, voltou Bóris todo estropiado à sua origem.
Jovem não era, pois essa história mesmo tem mais de cinco anos.
Mas duma elegância!
Lei do mais forte, um cão o atacou.
Passava parte do dia sereno, tipo 'gato de armazém', outra parte, sol posto,
nos becos e telhados em busca de aventuras.
Viveu muito intensamente o bichano considerado 'Gato Mauriçola' pelo Black, outro ser da rua que também já se foi,


Lina Faria
Faleceu o Gato Bóris, que vivia no Sebo Solaris no Largo da Ordem. Ele atuou em vários filmes, entre eles, Mistérios de Beto Carminatti e Pedro Merege. Era também frequentador assíduo da casa Hoffmann e parceiro da Milzi.

Marcos Cordiolli com Paula Cordiolli 

Lendas do Gato Bóris Depois da Sua Morte


O Gato Bóris é mais um causo urbano de Curitiba, pois se trata de um gato negro que morava dentro de um sebo, livraria de livros usados, e que passeava pelo Largo da Ordem. Reza a lenda que este bichano virava homem nas noites de Lua Cheia e passeava pelos bares ao redor.
Dia 17 de fevereiro de 2016, Bóris estava caminhando pelo seu bairro, quando, de repente foi atacado por um pit-bull e resolveu se esconder no estacionamento, ao lado do sebo, onde faleceu do coração por causa do susto. Então o bichano foi enterrado atrás da livraria.
Porém, o curioso, é que dias após o seu falecimento, outras lendas surgiram envolvendo o espírito do animal, que leremos abaixo:
Cris era uma menina carente que ajudava sua mãe a recolher papel, no seu carrinho de reciclagem, no Largo da Ordem. O sonho desta garota era ser miss e modelo. Além disto, ela gostava de entrar em bibliotecas e folhear livros. Cris vivia namorando exemplares da obra O Pequeno Príncipe porque sua avó falou que toda a miss, que se preze, tem que ler este livro. Toda a vez que esta menina ia até o sebo folhear O Pequeno Príncipe, Bóris ficava observando.
Assim, na noite do dia 18 de fevereiro, Cris resolveu dormir dentro do carrinho de papel, em frente ao sebo. Porém, no meio do sono, ela foi acordada por um gato preto, que carregava um exemplar do Pequeno Príncipe na boca, ao seu lado. O bicho deixou o livro no carrinho e evaporou-se na porta da livraria.
Logo surgiu o boato de que o fantasma de Bóris passou a doar livros, depois de seu falecimento, para as crianças carentes em noites de luar.

Luciana do Rocio Mallon         

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Atol


Não sou vogal indecifrada.
Nem consoante transeunte.
Atônita vida nauseada,
O que sou não se discute.
Não sou verbo, nem palavra,
Nem o ido ou chegado.
Luz de réstia exalada
O que sou não tem estado.

Julio Urrutiaga Almada

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

ANTOLOGIA


Se minha vida fosse um poema
começaria num imenso alexandrino
(com cesura e tudo)
e terminaria
num monossilábico
só.
Entre um e outro,
todos os versos seriam meus.

Otto Leopoldo Winck

EXISTENCIALISMO


Entre a náusea e o êxtase,
não me decido: não sei se leio Sartre
ou São João da Cruz. E por que não
Camus? Ou Rumi?
É sempre essa escolha,
essa encruzilhada: por que não um “e” no lugar do “ou”?
um “mais” no lugar do “menos”?
No entanto, ocidental demais,
vou riscando meu traçado:
quanto mais avanço, menos sou,
quanto mais me embrenho, mais me perco
e vou deixando para trás, irremediáveis,
os caminhos que neguei.
Não, não há saída:
o homem é uma paixão inútil
– bonito de escrever –
ou um salto no escuro
– duro de viver.

Otto Leopoldo Winck

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

HAJA TEMPO, HAJA VIDA!


O tempo é o que a vida acompanha
Para ser vida, para ser vivida
E o tempo se for tempo demais
Aproveite os bons tempos
Pois a vida segue
Deixando nosso tempo pra trás
Indo em buscas de novos tempos
Talvez neste novo tempo
O tempo seja mais generoso
Dando um refrigério pra alma
Pra ser vivida nesta vida que também passa
Que ao recordarmos dos tempos idos
Que descubramos que tudo valeu a pena
Através dos ensinamentos
Até a vida mal vivida
Quem sabe até da tristeza que o tempo não nos poupou
Mais se a vida ainda me for longa
Que me presenteie com tempos melhores
Pois quero que a vida seja esplendorosa
E que eu não perca meu tempo nas lamúrias
E que a vida seja vivida em toda sua plenitude
Se o tempo me ouvisse, ou até esperasse por mim
Eu lhe diria, obrigada tempo, obrigada vida
Que siga o tempo abrindo novos caminhos
E que tudo valha à pena
Até mesmo viver a vida que o tempo me presenteou.
Socorro Caldas
16/02/2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016


AQUELA CONVERSA NO ENCONTRO

Você por aqui?
não saio daqui.
Como vai?
Como me atrai.
Já sei, está bem.
Todos sabem.
Eu heim!!!
se abracem.
Nem me conte
digo para você
teve fuzuê
Fulana e fulano sumiram
assim que os vizinhos rugiram.
Não me fale, engordei,
Ué, nem comentei.
Não vamos discutir,
tenho que ir.
Me liga
Ta bom amiga.
Até mais ver,
Nos falamos ao anoitecer.

Ivanilton Fatumby Tristão

DOENÇA CONSUMISTA

Naqueles maravilhosos tempos antigos, a vida em família era muito curiosa. Nossa família pelo lado do meu pai Lauro Volaco era bem grande e quase todos moravam em Pirai. Então, tínhamos um bando de primos de todas as idades, o que permitia que sempre pudéssemos brincar com outros que pensassem como nós e suportassem as nossas brincadeiras. As primas eram mais delicadas e não entravam em qualquer uma delas, sendo muito seletivas. Nossos pais quase não deixavam que fôssemos para a casa dos primos e primas para brincar, pois sabiam que mesmo sob as vistas dos nossos tios, não era fácil conter os nossos arroubos de loucura. Além do mais, tínhamos um quintal enorme e ainda a chácara maior ainda no fundo do quintal. Mas, em ocasiões especiais e dependendo do bom comportamento e principalmente das boas notas no grupo escolar, podíamos brincar por tempos determinados e acordados previamente, na casa deles. Era uma delícia. E mais ainda, se tivéssemos sido espetaculares (o que era meio raro), podíamos passar alguns dias de férias nas duas casas de tios que já moravam em Castro: o tio Juca e a tia Ivone.
Aí, estávamos no paraíso, pois nossa liberdade era ampliada muitas vezes e eles nos deixavam brincar em territórios mais amplos que simplesmente os quintais das suas casas, que também eram enormes. Numa destas idas para Castro, meu primo Ivoniel e seu irmão Norton, nos levaram para um tanque em que umas mulheres lavavam roupa. Não demorou muito para estarmos nadando dentro do tanque. O interessante é que eles não entraram. Achei que era por medo e como o Tercis e eu desconhecíamos este componente, não esperamos duas vezes. Só que vimos haver alguma coisa errada, pois eles não eram mais santinhos que nós. Insistiram tanto, que saímos do tanque, com a roupa do corpo toda molhada, pois não tínhamos levado calção. Então veio a bomba de notícia: nos disseram que aquele tanque era frequentado por leprosas e que era uma doença que pegava por contato. Ficamos apavorados, pois o contato tinha sido completo com a água que elas usavam.
Chegando em casa da tia Ivone, além de uma bronca, ela reforçou a história das leprosas. Durante dias e noites, meses e acredito que até um ano, ficávamos vendo se não apareciam manchas que iriam corroer posteriormente o nosso corpo até que tivéssemos que ser isolados num leprosário, com partes deles sendo consumidas pela doença e depois caindo aos pedaços até desaparecermos em vida.


COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"
(Lauro Volaco)


Inscrevo estrelas

Inscrevo estrelas
nos teus olhos.
Carruagens de fogo nos desnudam.
A vida ora é azul
como brisa,
ora escura,
como blues.
Se corto meu pulso
o que escorre é a nostalgia
de uma era em que tudo era crível.
Todas as estradas do mundo
são insuficientes
para o desejo de meus pés descalços.
Sei que o quarto ficou prenhe
do cheiro de nosso amor
desatado. Acorda, amor, olha lá fora:
é dia mas uma lua de sangue
derrama seu mênstruo
sobre a cidade.
Inscrevo cometas
na sola dos teus pés cansados.
Depois os apago
com o sal de minhas lágrimas.
A vida é qualquer coisa
entre um conto
e um assombro.

Otto Leopoldo Winck
A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos.

— Carlos Drummond de Andrade

Pássaros cantam. Cachorros ladram. Ao longe, o ruído vago de alguns carros e caminhões. Acordei antes da hora. É sempre assim: a gente sempre acorda antes ou depois. A vida é como um encontro marcado em que a gente sempre chega antes ou depois da hora.
Otto Leopoldo Winck
Foi o sonho que burilou a pedra.
Foi a alento que trabalhou o gesto.
Foi o desejo que incentivou a gula
E o papel que cultivou a lenda.
Foi a ternura que se deu em pomo.
Foi a loucura transformada em fome
E foi o entrave que semeou o impulso
Com que te fiz amor e meu senhor.
Foi a escultura que inventou o escultor
Foi a cor viva nas mãos do pintor
E foi a lenda que vincou a dor
De amar – te assim explosão,
E depois torpor.
.

[margarida afonso henriques]

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA

Quando meus irmãos e eu éramos crianças, o meu vô Raul tinha uma bodega. Ali se vendia de tudo e ele, para dar a impressão de que seu estoque estava bem sortido, enchia as prateleiras com latas de óleo vazias. Certa vez um senhor, morador no sítio para fazer o seu fornecimento alimentício e pediu ao meu avô seis latas do produto, mas como todas estavam vazias, o seu Raul passou vergonha.
A vó Cacilda judiava dele, esperava que ele dormisse, pegava a chave do armazém e se divertia, pegava tudo o que queria. Como ele era muito seguro, sovina mesmo, não nos dava uma bala sequer, mas a vovó em suas idas sorrateiras pegava à vontade os cobiçados doces para nos dar. No dia seguinte, era uma guerra na casa deles, e isso era quase que diariamente.
Uma vez, o vô Raul enterrou dinheiro dentro de uma lata de “Neston”, embaixo da casa da tia Cleici, mas o Cliceu (Zico) viu e contou pra vó Cacilda. Ah! Não deu outra, à noite ela foi lá, catou o dinheiro e enterrou a lata vazia. Dias depois o vô foi pegar o dinheiro, e cadê? Gente! Eles quase se mataram. E a vó era cínica, ela negava e ainda saía de coitada.
O vô tinha vontade de chupar sorvete, mas ele era tão sovina, que chupava gelo com açúcar. Quando ele tinha vontade de comer frango assado, ele armava uma arapuca e comia passarinho, pombas... o que ele conseguisse caçar. Mas sempre foi muito honesto, nunca deveu um centavo pra ninguém.
Ele gostava de falar sozinho, e meu Deus! Tinha uma boca suja.
A vó era mão aberta. O que ela tinha não era somente dela, gastava antes de ganhar.
Sua casa era impecável: sempre arrumada com pratarias, porcelanas, bibelôs de cristais.
Colchas “chiquérrimas nas camas.
Eles eram o sol e a lua de tão diferentes. A vovó gostava de presentear, e vovô não.
E é disso que sinto falta: ele não nos dava um doce se fôssemos pedir, o jogava no meio da rua de bravo que ficava, mas nos dava colo, contava histórias por horas a fio, contava os causos de quando era criança, benzia as pessoas, curava de sapinho.
Eu sinto muita falta dele, pois para mim ele foi um herói, porque na sua simplicidade havia aconchego.
A vó Cacilda era de família rica, tocava piano, tinha etiqueta. O vô era de família de bugre: simples, coração grande.
De um lado era a “alemoa”, chique, grã-fina , inteligentíssima e do outro o bugre, cheio de conhecimentos da vida.
Mas ele foi sacana também, quando já estavam casados, morando em Jacarezinho, ele foi transferido para Piraí e veio antes dela. Quando ela chegou aqui, o malandro já estava noivo.

Adivinhem se não brigaram?

(Jusley Sabino)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

ACONTECEU SIM E FOI HÁ MUITOS ANOS...



Como quaisquer crianças do interior, eles brincavam no quintal da casa da vovó, na querida cidade de Pirai do Sul. Brincadeiras saudáveis! Muita gritaria, muita emoção e risadas invadiam a cozinha da casa. No quintal havia um pinheiro, macieiras, laranjeiras, pereiras, uma árvore de caqui, figueira e naturalmente muito espaço verde para se brincar. Sem contar a criação de galinha e os muitos ovos que se colhiam no dia a dia. Alguns gatinhos também faziam parte da família. O casarão era feito de madeira, tinha uma área de entrada toda trabalhada que dava vista ao quintal e existia o sótão onde as visitas ficavam para pernoitar. E embalados pelos aromas do doce de figo e o do café fresquinho, feito no fogão a lenha, as mulheres papeavam e os homens em suas pequenas lojas suavam suas vestimentas para o ganho de cada dia.
De repente não se via mais uma voz, o menino não atendia... e a menina corria de encontro à mamãe e à vovó para dar a noticia... O Toni cai no poço! O Toni caiu no poço! Desesperadamente todos corriam para a edícula onde havia um poço bem fechado, mas só que no momento estava com uma parte quebrada. E olhando lá no fundo mal se podia observar o menino. Os homens da família (pai, tios e primos) se mobilizaram para a tentativa de puxá-lo, e felizmente com algumas escoriações e nem um pouco assustado, lá estava o menino sendo assediado pelos familiares. Parecia um milagre, pois ao cair uma taboa presa apenas de um lado o sustentou. E a pergunta que não queria calar se fez alta a gritar: “Como se deu isto, meu Deus?”

E o menino, na sua inocência, falou que um senhor velho de barba branca segurou a taboa, sustentando seu peso enquanto esperava que o socorro viesse. A família muito religiosa, com a descrição do menino se viu diante de um dos Santos da Igreja Católica. Hoje o Toni, pai, marido, filho, irmão, sobrinho, primo e amigo muito amado, segue a labuta da vida, evoluindo em sua jornada rotineira.

(Elisabeth Curi)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

SOLA SCRIPTURA

Inscrevo
no teu corpo
as marcas da minha salvação.
De um lado,
uma cruz, um horto, um coração
vazado.
De outro,
uma terra que mana leite e mel.
Entre um ponto e outro,
soletro minha bíblia
e de joelhos confesso:
tu és a minha luz
e a minha danação.

Otto Leopoldo Winck

NO COMANDO

Quando contei a historinha do que fazíamos na fazenda do Dr. Miró, me veio uma lembrança muito gostosa de outra experiência infantil ocorrida lá. Eu tinha dez anos naquela época e já me achava um adulto para aprender a dirigir. O meu irmão e eu já tínhamos experimentado fazer várias coisas simples, como sentar no colo do pai e dirigir só tocando na direção, depois ele nos deixava trocar de marcha dizendo qual a hora certa, e com ele pisando na embreagem. Mais tarde, acelerávamos e dirigíamos sentados ao lado dele. Fomos amadurecendo nossas experiências para um dia, dirigirmos sozinhos. Quando? Não sabíamos, mas esperávamos que não demorasse muito. Numa das vezes que passamos o dia lá na fazenda, meu pai foi nos buscar para virmos dormir em nossa casa. Como o Francisquinho já dirigia carro e até trator, me senti em inferioridade, pois não queria admitir que ele era melhor que eu em alguma coisa. Resolvi então me encher de coragem e pedir ao meu pai que me deixasse dirigir, argumentei que já sabia tudo e que estava preparado para dirigir sozinho. Ele ficou só me olhando e não falou nada. Quase derreti, pois não sabia se a reação dele era de aprovação ou não. Então, ele me disse para que eu esperasse para ele terminar a conversa com o Dr.Miró e depois fomos até o carro. Estava esperando que ele sentasse ao meu lado, para ir me dando instruções enquanto eu dirigia, pois aquilo seria a coisa mais natural do mundo, mas não foi o que aconteceu. Eu não esperava que meu pai confiasse tanto em mim, pois ele me deu a chave e ficou fora do carro. Eu perguntei: “não vai junto”? E ele, com sua tranquilidade de sempre, falou: “você não disse que sabia dirigir? Vá em frente”.
Sabe quando você quer muito uma coisa que é considerada quase impossível e alguém diz para você: “pode, você consegue?” a perna amolece de tanta adrenalina. Neste momento o Francisquinho e o Tercis subiram no carro e eu dei partida, lembrando antes todos os passos para tal. Tenho que confessar, o carro saiu aos “soquinhos”, mas o carro não morreu e em seguida eu estava dirigindo sozinho. É uma sensação deliciosa o pai confiar em você, a ponto de largar seu carro para satisfazer o seu sonho, ainda mais com aquela idade! Meu coração parecia que ia saltar pela boca, o ritmo cardíaco, em total disparada e totalmente descontrolado e um pouco de suor vazando pelos poros, parece que querendo aliviar minha adrenalina.
A partir daquele dia, nunca mais fui o mesmo! Parecia que eu tinha aumentado mais uns três centímetros na minha altura, de tanto orgulho de poder dirigir e mais ainda, não ficar em posição de inferioridade em relação ao Francisquinho.

Lauro Volaco
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

ANTES


Antes que anoiteça
Antes que eu adormeça
Antes que enlouqueça
Antes que perca a cabeça
Antes que a vida atravesse a rua
Antes que nuvens escondam a lua
Antes que minha dor seja também sua
Antes de te ver nua
Antes de dizer te amo
Antes de dizer te amo
Antes de dizer te amo
Envolvo meu pescoço no cachecol de nuvens
E guardo em meu próprio corpo o punhal de espanto

João batista andrade, improviso 15Fev2016

LEMBRANDO JOSÉ WILKER


A morte (eita palavrinha que detesto!) de José Wilker, cearense como eu, aos 69 anos de infarto fulminante, me faz refletir o quanto cada dia é um dia roubado da morte. Um dia, e bum! Passamos para outro lugar, pelo menos o espírito, já que o corpo é sempre chão-chão. Morte (eita palavrinha!) repentina me espanta. Lembro uma entrevista de José Wilker dos anos 1990 onde ele falava de drogas, do consumo de droga, do chá que ele tomava de dormideira, que, segundo ele, dava barato. A dormideira é a plantinha que a gente toca na folhinha e ela se fecha, murcha como se dormisse. Ouvi o Wilker falando aquilo e saí pelas dunas de meu bairro tocando em tudo que era plantinha para fazer o tal chá! Durma em paz José Wilker!
2014

Cláudio Portella (Do livro de crônicas 'Picos Hotel', à venda em promoção com o autor)

BASQUETE, O NÚMERO OITO E O BOLO DE FUBÁ



Pelos idos de 1964 tínhamos um bom time de basquete composto por piraienses que estudavam no Colégio Agrícola de Ponta Grossa. Alguns faziam parte da equipe principal do colégio e outros batiam bola junto. A formação era eu, Roberto Fanchin, o Joélcio Rolim de Moura, o Sérgio Doff Sotta, o Lúcio Solak e o Edson Borba.
O time era bem treinado e tinha um bom conjunto. Eu, o Lúcio e o Edson segurávamos as pontas atrás, o Sérgio e o Joélcio corriam bem, lá na frente.
De quando em vez, e quando íamos passar o final de semana, éramos desafiados pelo time de Piraí, do Jorge Vargas, do Dalton Volaco, do Lúcio Xavier, e outros “craques”. Nós apanhávamos de todo jeito, tanto no placar como nas faltas. Tínhamos melhor técnica, porém eles tinham mais força física. Eram mais velhos e não se importavam muito em evitar o contato físico e nos bater.
Em certa ocasião, num sábado á tarde, o Colégio Santa Cruz de Castro, que na época ainda era internato, nos desafiou para um jogo amistoso. Fomos os cinco de ônibus. Junto, e como único torcedor foi um rapaz que não era nascido em Piraí, que apareceu por lá, e que o chamávamos de Boturi.
O jogo estava marcado para as quatro horas da tarde. Chegamos em cima do horário marcado e nos apressamos para não nos atrasar. Na descida do ônibus, o nosso pivô Lúcio, disse: “Vão indo que eu já alcanço vocês”. Chegamos ao Colégio Santa Cruz, e quando vimos a quadra, quase voltamos. O Sr. Bernardo (Diretor) tinha reunido todos os alunos em volta para nos esperar, e o time deles já estava aquecendo. Trocamos de roupa, iniciamos o nosso aquecimento e nada do Lúcio. A torcida deles berrando, urrando e nos intimidando, e nada do Lúcio. Enrolávamos, fazíamos de tudo para ganhar tempo e o Lúcio não chegava. O Sr. Bernardo já tava começando a ficar nervoso, quando eu olhei o nosso torcedor solitário, o Boturi, calçado com tênis Conga, e perguntei: “Você joga”? Ele prontamente: “Jogo”! Pronto fechou o time, estava ali a nossa salvação! Demos o uniforme a ele e achamos que tava tudo resolvido, quando o ouvimos perguntar ao Edson Borba, baixinho: “Aonde joga mais ou menos o número oito?” Pensei: “Meu Deus, estamos fritos!”.
Felizmente, um segundo antes do juiz apitar o início da refrega, aponta o Lúcio, vermelho, suado e esbaforido. Trocou rapidamente de roupa e aí o time ficou completo. Pudemos jogar.
No final do jogo, perguntamos: “O que houve Lúcio, que quase nos deixou não mão?” Ele respondeu: “Fui dar uma passadinha rápida na casa da minha tia e ela tinha feito um bolo de fubá, ”tava” quentinho, e não resisti. Tive que sentar e tomar um "cafézão”.

O resultado do jogo não importa e nem faço muita questão de lembrar.

(Roberto Fanchin)