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segunda-feira, 18 de maio de 2020



A luta se desenha quando apenas
Percebo o que tentara e não consigo
Apenas vislumbrando este perigo
Que tanto noutro engano me condenas,

E sei das noites claras e serenas
Buscando tão somente algum abrigo
E tanto que eu pudera e não prossigo
Cansado destas lutas rudes, plenas.

Meu mundo sem saber de outro horizonte
Ainda que decerto em paz desponte
A lua em claridade mais audaz,

Meu tempo se anuncia no vazio
E quando o próprio tempo eu desafio,
Percebo o quanto a sorte atroz me traz.

Marcos Loures 


A luta se desenha quando apenas
Percebo o que tentara e não consigo
Apenas vislumbrando este perigo
Que tanto noutro engano me condenas,

E sei das noites claras e serenas
Buscando tão somente algum abrigo
E tanto que eu pudera e não prossigo
Cansado destas lutas rudes, plenas.

Meu mundo sem saber de outro horizonte
Ainda que decerto em paz desponte
A lua em claridade mais audaz,

Meu tempo se anuncia no vazio
E quando o próprio tempo eu desafio,
Percebo o quanto a sorte atroz me traz.


Marcos Loures 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

À CAROLINA HOMENAGEANDO MACHADO DE ASSIS



A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis

1

“São pensamentos idos e vividos”
Que tanto traduzindo vida e morte,
Permitem cada alento que conforte,
Trazendo dias mortos e esquecidos.

Assiduamente sigo a cada dia
Imensos turbilhões, momentos vagos,
E neles percebendo calmos lagos
Ou forte e inquestionável ventania.

Porquanto nos ensina a vida assim,
Errando e consertando e novo engodo,
A chuva traz alento e trama o lodo,
Regando ou destruindo algum jardim.

Libertos caminheiros, prisioneiros,
Farsantes tanto quanto verdadeiros.

2

“Pensamentos de vida formulados,”
Gerando contra-sensos e verdades,
Por vezes sonegando realidades,
Momentos em tormentos disfarçados.

Alçamos nossos últimos segundos
Em luzes variáveis ou sombrias,
No todo que destróis ou que recrias
Se mostram universos, tantos mundos.

Cadenciando a vida passo a passo,
Moldando uma verdade questionável,
O solo muitas vezes mais arável,
Traduz este plantio que desfaço.

Somando os meus acertos, meus enganos,
Mudando a cada instante velhos planos.

3

“Que eu, se tenho nos olhos malferidos”
Ainda continue a caminhada
Sabendo quão diversa seja a estrada
E nela se percebem mil sentidos,

Partícipe da festa feita em vida,
Sonoras discrepâncias me permito,
E quando se percebe ser finito
O mundo preparando a despedida

Servindo como ponto início e fim,
O precipício aguarda este tropeço,
Quem dera se tivesse um recomeço,
Só sei que nada sei, nem de onde vim.

Aguarda-me o vazio? Eternidade?
A dúvida transcende à realidade.

4

“E ora mortos nos deixa e separados”
Os mais complexos passos rumo ao que?
No quanto tanto creio e o quanto vê
Medonhos os abismos já traçados.

A neve ultrapassando algum inverno,
Calor adentra insano o meu outono,
O rumo vez em quando eu abandono,
E quando veraneio, mais hiberno.

Estranhas decisões, errôneos traços,
Mergulhos em vazios, cataclismo,
Ainda sem destino teimo e cismo,
Por mais que os pensamentos morram lassos,

Ardentes ou tão gélidas montanhas,
Perfazem nesta vida, minhas sanhas...

5

“Da terra que nos viu passar unidos”
Sequer o pó carrego nos meus pés,
Aonde se previra outras galés,
Momentos mais felizes são urdidos.

Esqueço-me da dor quando me entranho
Nos antros mais vorazes do prazer,
Mas logo depois disso posso ver
O quanto se perdeu em pouco ganho.

Edênico ou hedônico, portanto,
Dicotomias traço em cada verso,
E sei que quanto mais em mim imerso,
Maior será decerto o desencanto.

Desertos que criei, árida imagem,
Oásis não passando de miragem?

6

“Trago-te flores, - restos arrancados”
Dos meus momentos vários de emoção,
E neles adivinho se verão
Meus olhos novamente meus enfados.

Acrescentando o nada ao nada ser,
Perpetuando em mim cada vazio,
E quando do passado me recrio,
Pereço um pouco mais, e posso crer

No quanto se faz frágil uma existência
Certezas que não tenho nem terei,
Talvez ainda creia numa lei
Aonde possa haver luz, penitência.

Assaz maravilhosa a vida passa,
Por mais que tênue seja, qual fumaça...

7

“E num recanto pôs um mundo inteiro”
Num átimo, um mergulho ou cordilheira,
Abismos que encontrei, quer ou não queira
Traduzem variedade do tinteiro.

E sinto ser audaz enquanto medro,
Nefastas as manhãs, claras as noites,
Carinhos se misturam com açoites,
Transporto uma nobreza feita em cedro.

E quando em disparada perco o rumo,
Mesquinho, muitas vezes, me abandono,
E tendo necessários paz e sono
Errôneo caminheiro; não assumo.

Perfaço com percalços, mas acerto,
Gerando dentro em mim, caos e deserto.

8

“Fez a nossa existência apetecida”
O sonhar fabuloso ou tanto inglório,
O quanto se fazendo em torpe empório
Aquilo que pensei moldasse a vida,

Esgotam-se os caminhos por si sós,
E vastas as planícies, charcos tantos,
Por vezes mais profusos desencantos,
E neles vejo insólitos tais nós.

Apedrejado ou mesmo apedrejando,
Seguindo num hermético vagar,
Bebendo cada raio do luar,
Volvendo ao meu início em contrabando.

Esparsos versos, veios tão diversos,
Dispersos os meus tantos universos...

9

“Que, a despeito de toda a humana lida,”
Jamais se poderia crer na sorte,
Que tanto amaldiçoe e nos conforte,
Porquanto em treva e luz se faz urdida.

Ascetas ou profanos navegantes,
Espúrias criaturas, sacrossantas,
Diversidades ditam cores tantas
E nelas as belezas deslumbrantes.

Fantasmas de nós mesmos recriamos,
E temos a certeza de um incerto
Caminho que nos leve longe ou perto,
Das imaginações, servos ou amos.

Temíveis feras; somos, ou pacíficos
Retratos distorcidos e magníficos...

10

“Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro”
Enquanto algum farsante sentimento
Trazendo tempestade ou mesmo alento,
Macabro por ser claro e corriqueiro.

Aspectos tão diversos deste prisma,
E nele incomparáveis maravilhas,
Porquanto se percebem armadilhas,
Uma alma sem destino ainda cisma.

E tento ver após o que não creio,
E creio no que tanto se sonega,
A vida sendo assim, imensa e cega,
Proclama a cada passo outro receio.

E vejo-me espelhando no vazio,
Que tanto quanto posso, desafio...

11

“Trazer-te o coração do companheiro”
Depois de navegar mares imensos,
Às vezes dias calmos, frios, tensos,
Entranham nos meus olhos, vou inteiro.

Acasos são comuns, mas a desdita
Percebe-se no quanto se reluta,
A vida não passando de uma luta,
Verdade não se cala, um dia grita.

Sufoca-me deveras a gravata,
Disfarço uma nudez em rico terno,
Preparo a cada passo um novo inferno
Sabendo quanto a sorte é tão ingrata.

A queda se anuncia e desta escada
Degrau após degrau desvendo o nada...

12

“Aqui venho e virei, pobre querida,”
Trazer qualquer alento, um lenitivo,
Das ânsias do viver eu sobrevivo,
Por mais que dolorida seja a vida.

E traço sobre traços mais distintos
Caminhos tão diversos, mesmo fim.
Por vezes um demônio ou querubim
Obedecendo à luz de meus instintos.

Adentrando os umbrais do que não vejo
Escrevo com penúria, dor e glória
Aos poucos o resumo de uma história
Marcada pelo anseio e por desejo.

Só sei que no final venço e vencido,
Somente dos meus pés, um ledo olvido.

13

“Em que descansas dessa longa vida”
Após as velhas curvas costumeiras,
As chuvas que tu bebes, derradeiras,
E nelas com certeza tudo acida.

O parto se refaz em nova esfera?
É tudo o que desejo, esteja certo,
Mas quando o meu caminho eu já deserto,
Aonde se escondeu a primavera?

Esgarçam-se momentos dia a dia,
E traço do vazio esta esperança
Na qual o amanhecer novo se lança,
E a morte eternamente já se adia.

Pudesse desvendar cada segredo,
Mas como, se deveras nunca cedo?

14

“Querida, ao pé do leito derradeiro”
Somando os meus enganos e tormentas,
Enquanto com palavras apascentas
Do fim ainda tento e não me esgueiro.

Escarpas que venci, quedas terríveis,
Imensos precipícios, cordilheiras,
Assim ao desfiar minhas bandeiras,
Os dias se mostrando em vários níveis.

O peso se alivia, mas quem dera
Se todo o caminhar se resumisse
No quanto a própria história já desdisse
Gerando a imensidão da amarga fera,

Aonde se funéreo fez caminho,
Eternizando ali, último ninho...



Marcos Loures 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

AMIZADE...




Amizade...
Quanto tempo...
Vida passa tão depressa
Que se a pressa fosse fera
Nada mais me restaria...
A não ser uma certeza
De ser menos
Que queria...

Fomos criados juntos,
Absurdamente, sem juízo.
Fruta, quintal, arame farpado.
Corte e cicatriz
Valiam a podre fruta
Que escorria pelos lábios...

Rio, corredeiras, lambaris, bagres, piaus
A vida se mostra um anzol.
O sol queimando lento,
Banho de cachoeira,
Xistose e lombriga.

Até icterícia, chá de picão, chá da saudade...

Primeiro amor,
Primeiro não,
Primeiro porre,
No corre corre,
Ressaca à vista.

Cidade grande,
Capital...
Estudos que me levaram
E deixaram-te por aqui.

Mãos calejadas, terra arada, suada e lagrimada,
As mãos lisas, sem calo, estudos... Logaritmos,
gráficos e função exponencial.

Pôneis, cavalos, rumos diversos...

Cachaça, aguardente, morena...
Sífilis e gonorréia...

A platéia se espanta
Na confusão do paletó largado no chão
Jogado no bar,
A roupa rasgada, cheiro de suor.
A sinuca, a vida é uma sinuca!
E de bico!
Cala o Bico Mariquinha que a saudade é toda
Minha e a vontade é de viver..

No mais eu só posso te agradecer, Muito obrigado e
um grande abraço, qualquer coisa pode contar comigo também.
Marcos Loures



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A MORTE DO POETA



A morte do poeta; o sonhador,
Em meio à dura e fria realidade,
Do etéreo, este banal navegador,
Que ao fim não deixará sequer saudade...

Cultiva no seu peito, o riso e a dor,
Buscando esta ilusão; eternidade.
“Poeta, com certeza um fingidor”
Transformando utopias em verdade.

Amante das espúrias ilusões,
Um vagabundo e tolo coração,
Um náufrago sedento de emoção,

Entregue muitas vezes aos leões,
Um cínico palhaço, um menestrel,
Que mesmo em pleno inferno encontra o Céu...

Marcos Loures 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

DA ZONA E DA RURAL



Lembrando-me do Prefeito Francisco, já citado aqui antes em dois episódios inesquecíveis, tenho mais uma “das suas” para contar.
Contam à boca pequena, quase que sussurrante que nosso querido prefeito, nos idos dos anos 70, filiado à Arena, Arena 1 para ser mais exato, herdeira da UDN mineira, tinha muitos contatos importantes lá pros lados de Muriaé.
Uma coisa que merece ser citada é que em Muriaé, cidade conservadora da Zona da Mata mineira, a UDN tinha o apelido de “Goteira” , ao contrário do PSD, famoso como “poaia”.
Poaia é uma planta que nasce em qualquer canto e é difícil de ser extinta; dando um caráter mais “popular” ao partido.
Francisco, como udenista que se prezasse, defendia a tradição, a família e a propriedade, ancestral político de um certo ex-Governador paulista, famoso por seus laços com a Opus Dei, aliás, aparentada com o Integralismo de Plínio Salgado ou, melhor ainda, com uns movimentos europeus, mas é bom ficar por aqui, senão de tanto divagar a história vai ser esquecida.
Voltemos a ela, pois.
Como já dito antes, Francisco, apesar de seus laços com a TFP, tinha uma paixão irresistível pelas meninas da dura vida fácil, principalmente as mais novinhas.
Haveria um encontro de personalidades ligadas à UDN mineira, em Juiz de Fora e nosso amigo foi chamado para representar sua cidade.
Esse encontro iria contar com a presença de, entre outros, Magalhães Pinto, ex-Governador e homem forte do Governo Mineiro.
Isso deixara Francisco muito orgulhoso e, todo pimpão e serelepe, preparou-se para a viagem.
O seu Opala Diplomata estava reluzindo, brilhando mesmo, ofuscando os outros automóveis da pacata cidade.
Ao chegar a Juiz de Fora, se hospedou num dos melhores hotéis da cidade, com toda pompa e circunstância.
Na primeira reunião, iriam tratar de financiamento para a compra de tratores para as Prefeituras, obviamente superfaturados, num prenúncio da “máfia das sanguessugas à moda setentista”.
Nesse encontro, os prefeitos iriam ter que dar uma idéia da “necessidade” das micro regiões para a transferência de tratores, respeitando a necessidade de cada um.
Haveria, portanto, uma distribuição de maquinário de acordo com as necessidades das zonas rurais de cada município.
Francisco, aéreo, sem prestar muita atenção ao que se discutia naquele momento, pensando nas delícias do almoço que adivinhava ser servido naquele hotel de grã fino, ao ser inquirido tomou um susto.
E um susto maior ainda causou ao seu interlocutor.
A pergunta, simples, foi a seguinte:
“-Francisco, como está a situação da zona na sua cidade?”
Ao que, sem titubear, respondeu:”.
“-Boa, tem uma moreninha linda, deliciosa que a Clarice trouxe lá do Rio que parece ser uma princesa!”
Ao que, o Secretário de Obras do Governo, assustado e tentando corrigir o ato falho, tenta esclarecer:
-Francisco, eu estou falando da Rural!
No que este responde, sem pestanejar:
- A Rural deixei no sítio, eu vim com o meu Opala, mas ela está com os pneus meio carecas, vou ter que procurar aqui em Juiz de Fora, por que na minha cidade não encontrei pneus bons para ela não.
ABAIXA O PANO DEPRESSA!

Marcos Loures

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

HOMENAGEM A ANTERO DE QUENTAL



Antero de Quental

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

1

“Na comunhão ideal do eterno Bem”
Sagrando o nosso amor a cada verso,
E ter em minhas mãos este Universo
Aonde o ser feliz deveras vem

E em todos os momentos diz de alguém,
No qual meu sentimento siga imerso
Por mais que o caminhar mostre diverso
O rumo onde se expressa o que contém.

Divina providência feita em luz
À qual um brilho raro me conduz
Levando a cada dia um infinito

E nele alçando além do simples gozo,
Um templo feito em glórias, fabuloso,
Tornado muito mais que um mero mito.

2

“Juntos no antigo amor, no amor sagrado,”
Seguimos rumo ao éter. Sou feliz
Em ter sob os meus olhos o que quis,
Vivendo muito além deste passado,

O dia sempre estando iluminado,
A sorte que desejo já bendiz
E o tempo sem remorso ou cicatriz
Transcorre num caminho ora traçado

Por mãos abençoadas, redentoras,
Aonde outrora em noites sofredoras
Ditara a solidão, venal e a atroz,

E quando me percebo junto a ti,
Renasço e recupero o que perdi,
Felicidade ouvindo a minha voz.

3

“Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,”
Encantos sem igual que me entorpecem,
E neles os desejos já se tecem
Traçando este futuro que ora vem

Dizendo do passado sem ninguém,
As dores que vivemos não se esquecem,
Mas quando em nossas vidas amanheces
O sol toda a beleza em si contém.

Não posso mais seguir sendo tristonho
E quando um novo tempo; assim componho
Trafego por estrelas, constelar.

E posso até dizer que sou feliz,
O amor que me invadindo tanto diz
Permite por espaços navegar...

4

“De novo, esses que amei vivem comigo,”
Os sonhos mais felizes que eu pudera
Traçando novamente a primavera
Trazendo ao trovador, encanto e abrigo.

Por vezes tão diverso do perigo
O mundo em luzes fartas se tempera,
Criando este palácio da tapera
Mostrando todo encanto que persigo.

Alcançarei além do simples fato
No qual com todo o brilho me retrato
Ungindo o meu caminho em paz imensa,

E tendo teu amor, enfrento as dores,
Seguindo meu amor, por onde fores,
Ao fim felicidade é recompensa...

5

“Fechar os olhos, sinto-os a meu lado”
E tento perceber a maravilha
Do sonho que deveras luzes trilha
Traçando um novo dia abençoado.

Há tanto um sofredor, desalentado
Não via estrela imensa que ora brilha,
A sorte se tornando uma armadilha,
O encanto em desencanto destroçado.

E quando eu percebi tua chegada
Imagem tão sublime e delicada
Fazendo do meu canto, uma alegria.

E agora que percebo quão feliz
O mundo aonde o sonho expus e quis
Tocado tão somente por magia...

6

“Mas se paro um momento, se consigo”
Vencer os dissabores mais constantes
Sabendo quão sobejos, delirantes
Os mundos que deveras eu persigo,

No encanto sem igual quero e prossigo
Vivendo sem temores, radiantes
Delírios entre cantos deslumbrantes
Jamais imaginando dor, castigo.

Querendo estar contigo o tempo inteiro,
O encanto se mostrando derradeiro,
Não mais comporta o medo e o sofrimento,

E tendo nos teus olhos os meus guias
As noites não serão atrozes, frias,
Tampouco sobre nós o imenso vento...

7

“E entre ela, aqui e ali, vultos submersos”
Assim a noite passa turbulenta,
E quando se pensara em quem me alenta
Ausente dos meus olhos claros versos,

Os dias entre dores vão imersos
Nem mesmo uma esperança me apascenta,
A sorte que deveras já se tenta
Perdida nos caminhos mais diversos.

Entranham-se terrores, mas persisto
E sei que na verdade se inda existo
Somente por tentar amar demais.

E não concebo enfim, outra saída,
Se perco pouco a pouco a minha vida,
Em ti encontro enfim, um tenro cais...

8

“Só vejo espuma lívida, em cachões,”
E neles turbulências ditam sortes,
Na ausência do que outrora foram nortes
O que fazer se perco as direções,

E quando a realidade tu me expões
Sem ter quem na verdade te confortes,
Olhando num espelho, vejo as mortes
E nelas talvez nossas salvações.

Esgoto as minhas últimas palavras
Tocando estas daninhas que ora lavras
Permitindo espinhoso este canteiro,

E o canto a quem me entrego em ladainha
Há tanto com certeza nos convinha,
Por ser esteja certa, o derradeiro...

9

“Na corrente e à mercê dos turbilhões,”
Já não consigo mais vencer quimeras
E sei que tanto queres quanto esperas
De todos os temores, soluções.

E quando se mostraram os verões
Aonde se pensara em primaveras,
Apenas os invernos, frias feras
Que agora sem temores recompões.

As cúpricas folhagens deste outono,
Do medo e do terror ora me adono
E adorno-me somente do granizo.

Esqueço que talvez houvesse um porto,
Já me percebo ausente e semimorto
Seguindo em passo trôpego e impreciso...

10

“E eu mesmo, com os pés também imersos”
No imenso lamaçal chamado vida,
Há tanto se perdendo distraída,
Deixando para trás meus tristes versos,

E quando em outros rumos vão dispersos
Caminhos onde outrora uma saída
Se via na verdade é vã, perdida,
E nela estão ausentes universos.

Descrevo com terror cada momento
Aonde se mostrasse em desalento
A fúria do vazio em que mergulho.

Aonde imaginara flórea senda
A vida não permite e já desvenda
Somente um espinheiro, um pedregulho...

11

“Na fuga, no ruir dos universos”
Já não conseguirei saber se outrora
O sol que se demonstra firme, agora
Trouxera raios frágeis e dispersos,

Aonde no passado em vão submersos
Desejos se perderam sem ter hora,
Porquanto noutro porto a paz se ancora,
Calando o que talvez pudesse em versos

Dizer com tal clareza sobre o amor,
Que tanto desejei e sem louvor
Expressa a derradeira luz, mas tento

Viver além do quanto poderia
Saber que mesmo sendo fantasia
Encontro no meu sonho algum alento...

12

“Levados, como em sonho, entre visões,”
Os dias onde outrora fui feliz,
Enquanto toda a sorte se desdiz,
As dores em terríveis borbotões,

Bebendo as minhas lágrimas expões
Toda a fragilidade e a cicatriz
Que habita dentro da alma, uma infeliz,
Esconde as mais diversas emoções.

Esgarçam-se os meus dias, vagamente,
A sorte sem alento também mente
E tudo não passado de uma farsa.

O quanto imaginara ter nas mãos,
Momentos que não fossem todos vãos,
Nem mesmo uma ilusão finge ou disfarça.

13

“arrastados no giro dos tufões,”
Os sonhos se perdendo em pesadelos,
Não pude e nem devia mais contê-los
Sabendo tão ausentes os verões.

E neles as tristezas e aversões
Envolvem minha vida em vãos novelos,
E quando se pudesse percebê-los
Ausentes dos meus olhos, tentações.

Escassas noites feitas em ternura,
E quando a sorte invade e me amargura
Não deixa sequer sombra do que outrora

Já fora uma alegria, agora morta,
Fechando eternamente a minha porta,
Somente a solidão, chega e devora...

14

“Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,”
Não pude nem sequer saber aonde
A sorte benfazeja ora se esconde,
Deixando assim calados os meus versos.

Pudesse ter nos olhos universos,
E o quadro mais feliz. Ninguém responde,
Calado, persistindo inda que eu sonde
Por mundos mais complexos e diversos.

Amores se perdendo em solidão,
Os dias novamente mostrarão
O quanto fora inútil caminhar.

Sozinho sem ter eira nem morada,
A noite que julgara enluarada,
Neblina sonegando este luar...

Marcos Loures

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

HOMENAGEM A MARCO AURÉLIO VIEIRA




E, das tuas montanhas, tu negas os seios
e essas águas tão puras que brotam nos veios...
Então, mato o meu puma e me faço um condor.

MARCO AURÉLIO VIEIRA

1

“Então, mato o meu puma e me faço um condor.”
Alçando muito além da imensa cordilheira,
Ousando acreditar no quanto mais se queira
Gerando esta esperança, um sol encantador.
O tempo tanto pode e traz frio e calor,
A sorte molda a rota expressa e derradeira,
E quem tem dentro da alma a força da bandeira
Extasiada mente entregue ao raro amor,
Ultrapassando o cimo invade este infinito,
E o verso como fosse a bússola que leva
Acima do que possa, a solidão e a treva.
Sem ter os pés no chão, esta amplidão eu fito,
E um Ícaro vagando em busca deste etéreo,
Encontro ao fim de tudo o frio e vão minério.

2

” e essas águas tão puras que brotam nos veios”
Gerando esta nascente aonde eu mergulhasse
Sem ter nada a temer, sequer algum impasse,
A vida se apresenta e deixa atrás rodeios,
Os dias são gentis? Apenas devaneios,
O quanto se quisera, o tempo não mostrasse,
A seca, o duro estio, o fim em desenlace,
Alimentando assim, os mais vários receios.
Pudera ter certeza e ver este regato
Bebendo o pleno mar, mas nada mais constato,
Senão a solidão de quem se perde aquém
Do todo que deseja e nada mais teria,
Somente a sensação espúria da agonia,
Buscando a fina areia e sei que nunca vem...

3

“E, das tuas montanhas, tu negas os seios”
Na gélida expressão do que deveras
Expresse a solidão das várias feras,
Deixando os versos vãos, aquém ou mesmo alheios.
Nas Minas do passado, agora nada resta,
Somente uma lembrança envolta em tanta bruma,
O olhar sem horizonte, ao nada se acostuma,
Mas busca a claridade, ao menos numa fresta.
E do Curral del Rei, a velha Mantiqueira,
Dos áureos tempos vem o vento me clamando,
E tento acreditar ainda em fogo brando,
Que a Terra que foi minha ainda um dia queira,
Sentir cada pegada em solo rico e grasso,
Nos sonhos procurando, apenas seu regaço...

Marcos Loures

Homenageando EDIR PINA DE BARROS



Hão de ficar no ar depois do meu adeus,
Libertos dessas mágoas, dessas mil penúrias,
Das dores que senti porque demais sonhei.

Edir Pina de Barros

1
“Das dores que senti porque demais sonhei,”
Jamais me esqueceria; imenso desafeto,
E quando em solidão, meu mundo vai repleto,
A vaga sensação domina inteira a grei,
O quanto poderia e ao fim nada terei,
Meu barco sem sentido, aborto dita o feto,
Do amor que tanto eu quis, apenas incompleto,
A sórdida expressão que em ti eu cultivei.
Meus sonhos, meu anseio, a vida sem sentido,
O tempo sem proveito, o encanto destruído,
A fúria do que invade e gera pesadelos.
Fazendo da esperança a farsa mais comum,
De tudo o quanto busco, agora sou nenhum.
E os sonhos? Na verdade. É melhor nunca tê-los...

2

“Libertos dessas mágoas, dessas mil penúrias,”
Quem sabe nalgum dia ainda seja crível
Os dias mais gentis, a vida noutro nível,
Vencendo simplesmente as tantas vãs incúrias.
Não adiantaria a fuga para Astúrias,
Tampouco o que trouxesse um solo mais plausível,
Amor nos dominando, um verso que impossível,
Traduz em tempestade as mais diversas fúrias.
Não quero e não pudera apresentar saída,
O jogo sobre a mesa, a rodada perdida,
E o vento desabando em rude vendaval.
Amar é crer no quanto a vida nos traria
Bem mais do que somente a frágil poesia
Buscando na esperança um tosco e tolo aval.

3

“Hão de ficar no ar depois do meu adeus,”
Os brilhos que sonhei da aurora que não veio,
Meu verso se perdendo em tolo devaneio,
Negando o quanto eu quis em sonhos tolos, meus...
A vida declinando após seus apogeus,
O mundo sem sentido e o tempo segue alheio,
Ao quanto desejara e sem sequer um meio,
Distante do horizonte, onde estará meu Deus?
Somente este vazio adentrando o meu peito,
O sonho que vivera agora, enfim desfeito,
O tempo se nublando, as nuvens... temporais...
Respostas que este vento expressa com firmeza,
O todo desejado, agora com certeza,
Responde simplesmente: “amigo; nunca mais!”

Marcos Loures  

- A VELHICE



Liberto o coração, seguindo à risca
As velhas prescrições que tu me deste,
A juventude passa; sendo arisca,
Hoje um colar de rugas me reveste.

Olhar aventureiro sequer pisca,
Morena sensual, o amor investe,
Depois vem a velhice; jogo bisca,
Confundo norte e sul, leste c’oeste.

Usando qual apoio uma bengala
Também como defesa. A bordoada
Deixando a bandida atordoada.

Enquanto que o Tibet minha alma escala,
Subir alguns degraus me sacrifica;
Verdade se bem dita, mortifica...

               
Marcos Loures 

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Cordel - A minha sina - capítulo 2 - Jacinta


Marcos Loures  


Marina, minha menina,
Safada como ela só;
Na minha vida deu nó.
Depois da mão assassina,
Continuei minha sina;
Em busca do meu caminho,
Mas dei tempo, fiz um ninho;
Com Marina fui morar,
Tanto prazer para dar,
Por que vou ficar sozinho?

O doutor nem me pagou,
Nem precisava pagar;
Marina foi no lugar,
Foi tudo que me restou;
E, de novo, aqui estou...
Na cama dessa pequena,
Que faz bico e que faz cena;
Pronta para me engrupir,
Bastava só me pedir,
Rezava até em novena...

Mas, num dia de tristeza,
Por causa de romaria,
Cismou de ir com Maria;
Filha da dona Tereza,
Que fez voto de pobreza;
Duma forma diferente,
Dando pra todo vivente,
O que Deus lhe deu com fé,
Ia a cavalo ,ia a pé;
Toda noite um diferente...

Juntando pólvora e fogo,
O troço todo fedeu;
Marina, então se esqueceu,
E mesmo com todo rogo,
Fugiu com um tal Diogo;
Sem deixar rastro e sinal,
Juntei então no bornal,
E pra outras cercanias,
Em busca das valentias,
Recomecei meu jornal...

Nessas estradas mineiras,
Sem ter medo mais nada;
Na serra ou noutra baixada,
Fiz das rimas verdadeiras,
As ramas foram esteiras,
Onde dormi sem ter medo.
Desse meu novo degredo,
Exilado sem ter casa,
Meu peito ardendo na brasa,
Na solidão, meu segredo...

No bornal levo cachaça,
Três pistolas carregadas,
Luares e madrugadas,
Que é coisa que dá mais graça,
Cigarro prá ter fumaça;
Um monte de valentia,
Um novo romper do dia,
Quatro mortes nas “costa”
Três foram de pau de bosta,
Que nem pra bosta servia...

Num canto desse cerrado,
Onde vi onça pintada,
Pelas ribeiras, jogada,
Tudo me foi preparado
Encoivarei um roçado,
Das coisas que sei plantar,
Quiseram me contratar,

Pra fazer mais três “defunto”,
Que, pra terra de pé junto,
Era fácil de levar...

O serviço foi moleza,
Eles morreram no susto,
Tavam atrás dum arbusto,
Se borraram na certeza,
Nem me causaram grandeza.
Servicinho mais vulgar,
Mas deu pra comemorar,
A filha dum tal meeiro,
Nunca vi, no mundo inteiro,
Uma beleza sem par...

Jacinta, a moça chamava,
Tinha um rosto mais perfeito,
Tudo que tinha direito,
A moça tinha e sobrava,
Mas eu nunca imaginava
O que tinha diferente,
Pois se toda aquela gente,
Ninguém me contava nada,
Por que estava, ali, jogada,
Uma moça, assim, ardente...

Sem querer saber por que,
Não me importava a peleja,
Pois quando um homem deseja,
Nada pode convencer,
Não há do que se temer,
Nem há o que perguntar,
É só correr e pegar,
Pois, na vida o que é do home,
Nenhum bicho vai e come,
Nem preciso comentar...

Pois bem, essa tal Jacinta,
Tinha a beleza da flor,
Nem conhecera o amor,
Não procurou fazer finta,
Fui pintando, tanta tinta,
Sem licença pra pedir,
Chegando, fui conferir,
A moça bem de pertinho,
No seu colo fiz um ninho,
O seu cheiro quis sentir...

A moça ficou só no beijo
Não aceitou meu carinho,
Que, mesmo indo de mansinho,
Acendendo seu desejo,
Me deixou só no cortejo,
Fechando as pernas pra mim,
Pensei logo ser assim,
O jeito dessa donzela,
Que depois, numa esparrela,
Ia tintim por tintim...

Depois de tanto alvoroço,
Sem dar ouvido a ninguém,
Que quando a gente quer bem,
Angu não tem nem caroço,
A gente mergulha no poço,
Sem saber profundidade,
Nem pergunta da maldade,
Nem quer saber de mais nada,
A moça, perna fechada,
Parecia santidade...

Mas, depois de três semanas,
De tanto rala e não abre,
Mostrei a ponta do sabre,
Os olhinhos mais sacanas,
Que engana mas não me enganas;
Jacinta não resistiu,
De beijos, então cobriu,
Fez que teve uma vertigem,
Surpresa: não era virgem,
Onde entra um entra mil...

Quis saber dessa safada,
Por que foi que me fechou
Porteira por onde entrou,
Um boi, talvez a boiada,
Ela então, desesperada,
Me disse bem deslambida,
Que nunca na sua vida,
Ela poderia ter,
Um outro amor pra viver,
Sua sorte era perdida...

Me contou: quando menina,
Com doze anos de fato,
Deitada nesse regato,
Que a lua mais ilumina,
Nessa água tão cristalina,
Foi, um dia, se banhar,
Mas não podia esperar,
Que toda nua, e bonita,
O coração que s’agita
Nunca iria imaginar...

Na margem daquele rio,
Um moço que lá chegava,
Belo cavalo montava,
Um príncipe em pleno cio,
Enchente em tempo de estio,
Não conseguiu resistir,
A boca então quis abrir,
Num solavanco com força
Ali, acabou-se a moça,
Se deixando possuir...

Acontece, não sabia,
Que esse príncipe fajuto,
Era o safado dum bruto,
Que não tinha serventia,
A não ser na sacristia,
Que tristeza dessa sina,
Quando tirou a batina,
O padre por pilantragem,
Fez tremenda sacanagem
Com essa pobre menina...

Saiu correndo depressa
Mal completou o contado;
Eu fiquei descompassado,
Com toda aquela conversa,
A quem quer que isso interessa,
Vou contar bem devagar,
Nessa noite de luar,
Vendo de novo essa cena,
Ouvi de longe a pequena,
Num lamento, relinchar!

Sai correndo ligeiro,
Deixei tudo de empreitada,
E, naquela madrugada,
Naquele triste janeiro,
Perto daquele ribeiro,
Antes que a terra me engula,
Só falar, coração pula,
Te juro e falo verdade,
É pura realidade:
Eu tinha comido a mula!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

AS MÃOS DO TEMPO



As mãos do tempo trazem afiadas
As mais diversas presas, duras garras
E quando no final; tento e desgarras
Dos sonhos mais atrozes sei que evadas.

Ainda que sonhasse em alvoradas
Tramando com firmeza vãs amarras
E sobre o meu cadáver tanto escarras
Nas ânsias entre sonhos desfiadas.

Amortalhada sorte sem saber
Do quanto poderia em ter prazer
Angustiadamente nada reste

Senão a mesma face, hipocrisia
E o tempo que deveras não viria
Senão marcando o tempo mais agreste.

Marcos Loures 

23 de julho de 2011

Gilberto e a viagem





Aquela noite seria fundamental para que pudesse resolver o velho dilema.
Iria ou não para Ibitirama?
Gilberto era assim mesmo, um camarada muito indeciso, medroso e mentiroso.
Não saberia dizer por que mas sempre tinha medo da noite, mesmo que a lua cheia clareasse todos os caminhos...
Aquela noite então era pior que as outras, o tempo nublado demonstrava que poderia encontrar alguns percalços no caminho e isso era assustador...
Dona Rita, como sempre preocupada, tentava demover a idéia fixa de João “Teimoso” Polino. Estava com pena do menino pois sabia que nada iria impedir o velho de executar o plano.
Levar Gilberto pela estrada era uma questão de honra, afinal o garoto já estava beirando os catorze anos e nunca tinha sequer saído dos arredores.
Depois de muita insistência, e de piores ameaças, Gilberto percebeu que não tinha outro jeito. O que não tem remédio, remediado está.
Dadinho, ria-se por dentro ao ver a aflição do irmão caçula.
Ritinha ajudando dona Rita nas preces e orações, estava preocupadíssima com o pobre garoto.
Pobre garoto em termos, pois o marmanjão com um metro e oitenta de medo e de mimo não parecia em nada com um garoto. Barba na cara e músculos expostos, medroso como ele só.
A noite estava fresca e tinha um vento que, ao invés de ajudar, servia para aumentar os temores do nosso herói.
Mas, o que fazer?
Embornal preparado, canivete para cortar o queijo e o pão que serviriam de alimento no idílio...
Tudo bem que eram somente nove quilômetros, mas pareceria uma eternidade...
Os barulhos e sustos noturnos são terríveis, uma simples coruja toma aspectos atemorizantes e Gilberto sabia disto...
Ao passar pela porteira que delimitava o pequeno sítio, fez o sinal da cruz e, cabeça escondida entre os ombros, partiu...
No primeiro barulho estranho, as calças pagaram o preço pela insegurança do rapaz.
Todo borrado, ficou numa situação difícil, tentando andar mas com o passar do tempo, o odor e a consistência do produto do medo foram ficando insuportáveis.
O medo libera toda adrenalina até que, de repente, Gilberto desmaiou.
Os raios do sol mal surgiam no horizonte quando, nosso amigo despertou do terrível pesadelo...
Como chegar em casa e dizer que não tinha conseguido ir a Ibitirama?
Mais que depressa, ardiloso como ele só, teve uma idéia.
Rasgou a blusa e o casaco com o canivete, riscando a pele até sangrar um pouco, não muito, mas o bastante...
Ao chegar em casa, dona Rita extremamente preocupada com o caçula, e ao ver o estado em que o pobre chegara não titubeou, veio correndo abraçar o menino...
Ao perguntar o que tinha acontecido, Gilberto pôs a imaginação para funcionar.
Uma onça, isso mesmo, uma onça havia chegado perto dele e preparava o ataque, os dentes e as garras à mostra, numa cena terrível e pavorosa...
Dadinho, macaco velho, ao sentir o cheiro que Gilberto emanava, começou a olhar meio desconfiado para o irmão, e sentindo que o mesmo estava mentindo, perguntou irônico:
- E aí o que você fez?
Gilberto, reparando que ia ser desmascarado, mais que depressa respondeu:
- Eu? Quer saber de verdade?
- Claro.
- EU ME BORREI TODO!!!!!


Marcos Loures 

 21 de julho de 2011 
               

terça-feira, 3 de setembro de 2019

ANGÚSTIA..



Sabendo que andei só na vasta estrada
Que leva ao pensamento uma alegria,
Tristeza vai chegando disfarçada
Irrompe furiosa em agonia,
Deixando não restar mais quase nada,
Tornando a minha vida bem mais fria.
Tristeza de saber que fui feliz
E agora vou vivendo por um triz.

Palavras que escutei de amor imenso,
Não foram, nem sequer realidade.
Meu dia se perdendo, frágil, tenso
Matando em nascedouro a liberdade.
O fogo da paixão, queimando intenso,
Morreu mal começou num fim de tarde.
Deixando duras sombras no caminho,
Agora vou medonho, estou sozinho.

Vieste e qual cometa já partiste,
Deixando um rastro feito em tanta dor.
Meu coração restando só e triste,
Não tendo mais um sonho a recompor,
Padece, mas teimoso inda persiste,
E tenta cultivar ainda a flor
De uma esperança tola e malfazeja,
E a lança da tristeza me dardeja.

Quem dera se eu tivesse algum motivo
Pra rir e prosseguir a caminhada,
Apenas, tão somente sobrevivo,
Seguindo sem destino a minha estrada
Quem teve no passado um dia altivo
Não sabe o que fazer se encontra o nada.
Tocado pelo vento da tristeza
A dor se alvoroçando põe a mesa.

Mortalha que me cobre, solidão,
Ferocidade plena em suas garras.
Rasgando sem piedade o coração,
Mantendo com firmeza tais agarras
Na crueldade encontra uma razão,
Para firmar com força estas amarras.
Deixando o gosto amargo do vazio,
Rondando com olhar sempre sombrio.

Talvez quem sabe; um dia eu poderei
Falar de uma esperança, quem me dera!
Agora que em seus braços me entreguei,
Não vejo mais as flores, primavera,
De tudo o que pensara, cobicei
Um dia mais feliz, mas esta fera
Felina em ironia não me deixa,
E sinto no meu rosto uma madeixa

De seus cabelos frios, braços fortes,
Carpindo com sorrisos, sem ter pena,
Mudando meu caminho, pr’outros nortes,
Gargalha enquanto louca já me acena,
Promete novamente fundos cortes,
E soberana invade cada cena,
Tristeza, companheira derradeira,
Com certeza, minha última parceira...

Marcos Loures 

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MEU FILHO




Vieste, em favor divino
Para um velho sonhador,
Que de novo, vai menino
Vivendo esse novo amor.
Traz esperança bendita
Nos teus olhos, nesse brilho,
Tua mãe, tão doce Rita,
Agradeço-te esse filho.
Minha vida, entardecer,
Já não cabia esse dia,
Em ti, de novo viver,
Ressurgir a fantasia.
No cansaço dessa lida,
Outros cantos conceber
Vai, esvaindo-se a vida,
Outra vida faz viver...
Amar-te é doce demais.
É poder recuperar
Tudo que fora capaz,
Um dia poder sonhar.
Menino, meu mimo e ninho.
Teu canto, meu passarinho,
A mais bela melodia,
Traduzindo em alegria,
Os meus olhos outonais
Minha vida já sem vida,
Meu mundo tão sem paz,
A juventude perdida,
Os tempos não voltam mais.
Me trazes nova esperança,
De me sentir tão capaz,
De lutar por ti, criança,
Nesse mundo tão cruel,
Se puder trazer a lua,
Iluminando teu céu,
Cravejando tua rua,
Por onde irás caminhar,
Com pedrinhas de brilhante
Só pro meu amor passar...
Meu menino, meu gigante...


Marcos Loures  6 de agosto de 2011

sábado, 29 de junho de 2019

Dora



Os dias são diversos e pudera
Vencer a dura angústia que me invade,
Na fúria sem igual na tempestade
Marcada nos anseios da quimera,

A luta se transforma noutra espera
E quanto mais o tempo me degrade,
Maior este temor e a falsidade,
Ao fim noutro cenário degenera,

O quanto da verdade se apresenta
No vórtice temível, na tormenta,
Que aos poucos nos tomando me apavora,

Porém num manso amor esta bonança
Que toca em plenitude enquanto avança
Trazendo nos meus braços, minha Dora...



Marcos Loures

Caixeiro Viajante



João Polino, quando rapaz, era um dos maiores conquistadores de Santa Martha, um verdadeiro cavalheiro, dono dos olhos mais azuis do Caparaó.
O seu atual cunhado, José Reis, irmão de sua amada Rita, tinha um armarinho de secos e molhados naquela terra adorada e fria.
João, dono dos seus dezessete anos, resolveu trabalhar com José, de olho na Rita, menina ainda, mas dona de uma mansidão e serenidade realmente cativantes.
Logo assim que começou a trabalhar, João recebeu um convite irrecusável; uma das maiores distribuidoras de alimentos da região, com sede em Cachoeiro de Itapemirim, resolveu chamá-lo para fazer um teste como caixeiro viajante.
João não pestanejou; a possibilidade de um ganho maior e uma vida de aventuras que se desenhava pela frente eram por demais tentadoras para o nosso herói.
O gostoso da profissão era isso mesmo, a variedade de lugares e de pessoas com que conviveria. Todas essas coisas cativaram João, que começou uma história de aventuras sem par...
Numa dessas viagens, João iria para Guaçui, o que não teria problemas já que a cidade tinha uma infra estrutura até que razoável.
O Hotel Real, no centro da cidade tinha vários leitos à disposição dos viajantes de sempre e dos turistas ocasionais.
Acontece que, por aqueles dias, haveria uma exposição de gado na cidade e o hotel estava totalmente completo.
Nada demais para João, acostumado às intempéries da estrada.
Acontece que, quando se preparava para ir para a estrada, viajando para São Tiago e dali para São Lourenço quando encontraria, facilmente carona ou condução para sua amada Santa Martha, a tempo de ver sua Rita, a chuva despencou.
Chuva não, minto; tempestade, e das brabas.
Chovia como dizem alguns , a cântaros, e até canivete começou a cair sobre as costas dos desavisados.
Procura daqui, procura dali, eis que surge a última esperança: uma pensão lá pros lados da Vila Alta, usada por casais em busca de um local sem testemunhas para a noite de amor que se aproximava.
Mesmo lá, não havia leitos. Mas, com pena de João Polino, Toniquinho, o gerente da pensão deu uma sugestão:
Havia um senhor de avançada idade que, sem parentes e sem amigos, morava na pensão, dono de um quarto vitalício, pago regiamente com seus proventos de ex-militar.
A noite avançava e a chuva nem sombra de amainar...
João aceitou o convite de dividir a cama com aquele senhor, inofensivo e asmático.
Noite alta, madrugada adentro, eis que, de repente, o senhor dá um grito e começa a pedir ajuda de João:
-Meu filho, me arranje uma mulher, pelo amor de Deus, te dou tudo o que tenho, mas me arranja uma mulher depressa...
Ao que João impiedoso, respondeu: -De forma alguma meu senhor, nem por todo dinheiro desse mundo!
-Por que, meu filho, me diga por quê?
-Em primeiro lugar, são duas horas da manhã e eu não vou sair de madrugada procurando mulher, tenha a santa paciência!
-Em segundo lugar, está chovendo muito e eu não trouxe nem guarda-chuvas e não quero ficar doente, muito menos pegar uma pneumonia e em terceiro lugar: meu senhor, o que o senhor está segurando não é o seu não, É O MEU!

Marcos Loures  

Não permita que eu seja amargo e triste



Não permita que eu seja amargo e triste
E trace a cada olhar o despreparo
Tornando este caminho bem mais claro
Na sólida expressão que em paz consiste,

O todo que deveras sei e existe.
No quanto tanto sonho ora declaro
Vivendo cada instante como um raro
Cenário que deveras já persiste.

Meu mundo se entorpece no teu mundo
E quando nos teus ermos me aprofundo
Nas furnas delicadas, a delícia,

A pele se arrepia e num instante
O tanto que se tente nos garante
O imenso turbilhão numa carícia...


Marcos Loures  19 de agosto de 2011 12:48
O mar lambe a areia
Que se entrega plenamente
Renova o verão...

 Marcos Loures 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

ROTINA COM ESTRAMBOTE




Descendo sobre a terra a lua traça
Detalhes desta noite amortalhada,
E quando desnudando esta calçada
Enquanto a podridão em vida passa,

Eu vejo a mesma cena, esta fumaça
Erguida dos cachimbos, nova fada
Gerando fantasias, molecada
Entregue aos mesmos vícios, mesma praça.

- Assim ao se sentir normalidade-

Na noite em lua cheia e treva farta
Um carro de polícia já se aparta
Reparta esta propina, volta e meia,

A morte não perdoa este cenário,
E o mundo neste podre itinerário,
Apenas esta pedra se incendeia...

Marcos Loures


quarta-feira, 29 de maio de 2019

A AMIZADE


Marcos Loures  


Cavalos,
Galopes
Chopes
Promessas
Bares
Luares
Cachaças
Falácias.
Galáxias
Distantes.
Planetas
E risos...
Amigo, a noite é plena
A lua acena
Promessas tantas,
Morenas, santas,
Putas, vadias,
Vazias noites
Açoites cortam.
Sonhos se abortam
Mas a amizade continua...