domingo, 30 de agosto de 2009

Num Velho Album

Sempre de novo retornas, melancolia,
Ó serenidade da alma solitária
No final brilha um dia dourado

Humilde inclina-se à dor o enfermo
Ressonante de harmonia e branda loucura.
Olha! já anoitece

De regresso a noite, o lamento de um mortal,
E com ele um outro se comisera.
Estremecendo sob estrelas outonais
Se debruça a cabeça cada ano mais funda.

George trakl
(tradução de Tullio Stefano )

postado originariamente no blog :
http://poeteias.blogspot.com

Água do Tempo

De repente, do bolso

De repente, do bolso,
caiu-me o poema.
Um poema não escrito.
Que me lembrava um pássaro em vôo
para o azul mais inocente.
Um poema simples.
O poema mais puro.
Penoso era vê-lo assim,
pássaro branco, e cego,
sequioso de azul.

Alphonsus de Guimarães Filho

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sombra

Divina ou profana
graças e rimas
estáticos desejos
esculpidos na carne
fatiando arestas
da existência...

Vida

Nas profundezas da minha alma

vejo meu corpo estraçalhado no chão

Na discórdia a confusão

Na superioridade o meu próximo eu


até a inferioridade da minha vida

tudo o que tinha foi perdido

aos escombros do castelo

na porta da minha carne

a porta de minha vida

o que me resta é esperar

Do acaso me proteger

Da razão a verdade.


Abner Paessens

A Chuva

Chuva

A porta da curiosidade é encontrada nas fechaduras do obscuro,no chuveiro pelado.

A gorducha vista como puta ,vista como prostituta é a vida tranquila atormentada

A curiosidade nada mais é que insegurança do ser, insegurança da alma.

A curiosidade pode ser pura como a dos que leem e dos que se conectam na mídia.

Tudo é visto como aventura , algo a mais, algo a menos a se humilhar .

Abner Paessens

Molestada

ME CUIDA ,ME AMA, ME ADORA ,ME COMA, ME PISE ,ME DESTRUA

Tenho um ursinho de pelúcia chamado fofinho

ele é carinhoso e fofo

ele me adora e me atormenta

as vezes quando estou sozinha no chuveiro ele me olha me pedindo abraço

molhado

quando durmo ele me abraça mais

quando como ele me cheira

quando vomito ele sai de perto

ele me adora

ele as vezes fica atrás de mim fazendo coisas estranhas

escuto gritos a noite …

meus pais sumiram

o que me resta é o meu ursinho

pena que ele seja meu único pai

porque a liberdade já não quero mais.


Abner Paessens

die Neue Wache

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A máscara mascara a realidade :
o que mata é a falta de vontade de viver !

Júlio Almada
Todo dia navego em mim,
depois apago a luz.

Andrea Motta

Dormiste en el Olvido del Recuerdo

¡Dormirse en el olvido del recuerdo,
en el recuerdo del olvido,
y que en el claustro maternal me pierdo
y que en él desnazco perdido!

¡Tú, mi bendito porvenir pasado,
mañana eterno en el ayer;
tú, todo lo que fue ya eternizado,
mi madre, mi hija, mi mujer!

Miguel de Unamuno

[Poemas del Alma]

Peru

Epitafio para un Poeta

Quiso cantar, cantar
para olvidar
su vida verdadera de mentiras
y recordar
su mentirosa vida de verdades.

Octavio Paz
[Poemas del Alma]

Como Tú

Yo, como tú,
amo el amor, la vida, el dulce encanto
de las cosas, el paisaje
celeste de los días de enero.

También mi sangre bulle
y río por los ojos
que han conocido el brote de las lágrimas.

Creo que el mundo es bello,
que la poesía es como el pan, de todos.

Y que mis venas no terminan en mí
sino en la sangre unánime
de los que luchan por la vida,
el amor,
las cosas,
el paisaje y el pan,
la poesía de todos.

Roque Dalton Garcia
[Poemas del Alma]

El Imán

[Cuento. Texto completo]

Oscar Wilde

Había una vez un imán y en el vecindario vivían unas limaduras de acero. Un día, a dos limaduras se les ocurrió bruscamente visitar al imán y empezaron a hablar de lo agradable que sería esta visita. Otras limaduras cercanas sorprendieron la conversación y las embargó el mismo deseo. Se agregaron otras y al fin todas las limaduras empezaron a discutir el asunto y gradualmente el vago deseo se transformó en impulso. ¿Por qué no ir hoy?, dijeron algunas, pero otras opinaron que sería mejor esperar hasta el día siguiente. Mientras tanto, sin advertirlo, habían ido acercándose al imán, que estaba muy tranquilo, como si no se diera cuenta de nada. Así prosiguieron discutiendo, siempre acercándose al imán, y cuanto más hablaban, más fuerte era el impulso, hasta que las más impacientes declararon que irían ese mismo día, hicieran lo que hicieran las otras. Se oyó decir a algunas que su deber era visitar al imán y que hacía ya tiempo que le debían esa visita. Mientras hablaban, seguían inconscientemente acercándose.
Al fin prevalecieron las impacientes, y en un impulso irresistible la comunidad entera gritó:
-Inútil esperar. Iremos hoy. Iremos ahora. Iremos en el acto.
La masa unánime se precipitó y quedó pegada al imán por todos lados. El imán sonrió, porque las limaduras de acero estaban convencidas de que su visita era voluntaria.

Humanidades

ESTEREO TIPOS

TOMOS LIBROS

TER DEMOLIDO


Passeando por essa estrada não encontrei canteiros,

seduzindo minha amada não paguei engenheiros.

Furtando a peça mortalis da indignação velada

não socorri as vítimas do holocausto

infausto no plastro.

Mastro da tua bandeira

levantada.

Arame farpado,

Cobra criada no degelo do polo norte tua sorte

é que eu tenho uma história tão inglória quanto a sua:

Vitimado pela lua, surrado pelo sol, enlanguecido

pela chuva [

Vitimizado pela teoria estética, cataléptica dos montes,

buscando as fontes do teu passado, amassado, na prisão

dos teus sentimentos]

Lá dentro eu sei que há uma sugestão:


TIS AGAPIS

TON MEGALON CRONON

APOLON HELAS EIMI HIPNWN


O preço da solidão de um dia é o “duplo sentido”,

sentido na partida para os dois mundos:

O do cais e o do porto?

O virtual e o simulacro:

Idiosincrasias das fantasias não vividas em acordo

às capacidades humanas donde emana toda LIRA:

_Do ponto da partida ao ponto da chegada

em direção ao nada! Diz a vâ filosofia.

As coisas ao contrário tem sabor de nihilismo angustiante,

pedante ao pé da letra como desfaçatez da psicologia

“orgia” de CADA UM.


LA VORRIAMO

TUTTA LA VITTA

IL PATER, LA MATER


Aqui dentro de nós criamos nada, elas sim é que criam.

Somamos as palavras para dizer que somos incapazes

de ajudar a humanidade às vezes.

Se ela não nos conta o que sente.

Assistimos a hecatombe inertes e sonhamos com a vingança

que não desejamos verdadeiramente como a criança no

[Rio de Janeiro] símile a nós {[...] = [?...]} um dia.

Que não é nada.

Nessa estrada vi de tudo, inclusive que sou único,

Tuas flores na minha cova seriam isso?

Ser chorado por quem não chora?

Festejado por quem não festeja ou dança a dança dos lobos,

bobos, fobos, logos lógico da condição humana trazida

dos outros que tiveram história, batalhas, fornalhas

abrazantes à própria alma forjando razão que chegou ao espaço... [...]!

Ainda imagino você dormindo, humanidade, perene dos teus valores

ascendentes, decadentes, ninada pela canção do tempo,

descobrindo no vento a tua identidade

com o ser do outro que “não te ama”,

e não chorará os teus restos

funéreos de batalhas etéreas, estratosféricas,

ideológicas ao teu corpo burro que perece

mercê da tua ignorância iletrada jactante pela estrada.


VORRIO LASCIARTE

NASCONDERME

E N LOS TUOS RAGGIONAMENTOS. [?=; Helan]


{E(porta)/ [TODA PTORTA] v [?; helan tomon]}

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


Vicksburg, Virginia. bairro de negros.1936
Sonhe com o que você quiser, vá para onde você queira ir, seja o que você quer ser. Você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz

- Clarice Lispector.

Espectadores para o linchamento de Jesse Washington


16 de Maio de 1916. Waco. Texas

http://www.withoutsanctuary.org

O Mundo Embruteceu

O mundo embruteceu

O mundo embruteceu, tudo virou negócio, tudo é dinheiro, tudo se remete ao poder, seja ele intelectual, físico, psíquico e/ou material. A culpa? Foi do próprio homem que configurou a sociedade desta forma. Mas e os que não se adaptam, como numa lei da evolução de Darwin da nossa floresta de concreto? Mas e os que não mentem, mas e os que são responsáveis, mas e os que são dignos, enfim, as pessoas do bem? Por que na busca do poder não há limite, não há coração que não seja passível de se enganar, sentidos a entorpecerem, olhos a ofuscarem. Neste mundo você tem três caminhos. Ou se corrompe e se transforma num filho da puta de um capitalista oportunista; ou se aliena; ou aguarda sua vez nos consultórios de psicólogos e psiquiatras, enriquecendo a indústria farmacêutica de psicotrópicos. E o ditado pichado no muro da padaria do Zé do Pão ainda diz: o herói é sempre o primeiro a morrer.

by: Mario Auvim

Meu blog:
marioauvim.blogspot.com

domingo, 16 de agosto de 2009

Intróito

Folhas para guardar outonos
e abafar o estrépito da secura

Mácula desliza na brancura inerte
A poeira vagueia na luz que ludibria
a cortina desabada.

Palha, oxidação, sépia

Fujo pelas veredas do papel
Acomodo-me na tinta
Há refrigério no sulco da impressão

Quando se é permeável
soçobra a palavra que perfura

Choro, reza, sangria

Folhas para guardar outonos


Iriene Borges
http://www.poeteias.blogspot.com

O que voce estava fazendo no dia 16 de Agosto de 1969 ?

Enviar para kolodycz@gmail.com que será postado nesse espaço.

Woodstock

sábado, 15 de agosto de 2009

Vestido Eterno

DigitAis

Esfrego em tua face
a brasa ardente de meus instintos
Tendo a certeza do teu segredo incólume
eternizo-me em centelhas derradeiras
Nas entrelinhas de teus traços sinuosos
dispo-me das dúvidas
Sorves o intumescido invólucro
enquanto quedas de joelhos
ante o altar semibárbaro de meus olhos
Tua geografia na memória
carta náutica tatuada em minhas digitais
Teu aroma-mar a entorpercer-me o juízo.

Beatrice Simon

São Francisco .Califórnia

Pyramide de Gizeh em 1854



http://www.expositions.bnf.fr

Não Sei

Não sei dizer as palavras de corda
aquelas que parecem cantar
mas destroem as cantigas

Não sei entender esses sons
que violentamente agridem
as pessoas diferentes

Não sei deixar de olhar-te
mesmo sem te ver aqui
tão longe e pertinho

Não sei porque esta cidade
esconde os diálogos e
abandona os que mais precisam
Pouco a pouco

Pouco a pouco me esqueço, e não sei nada.
Assim será a morte, e o que da morte
é sono e dor aguda que me crispa plácido
em sonhos dissolvidos sem anseio ou mágoa.

Este ficar de longe, num cansaço;
o ouvir das vozes como outrora infância;
o estar-se imóvel mais, e devagar
perder, um após outro, o gosto a um gesto

mesmo pensado nesta horizontal
que alastra entre o passado e coisa alguma
Este não ter senão a solidão
como silêncio e treva finalmene aceites.

A vida tão vivida e desejada
o ser como o fazer o sexo em tudo visto,
as coisas e as palavras possuidas,
tudo se não dissolve mas se afasta

alheio e sem saudade. Nem repouso
ou calmo abjurar da fúria amarga.
Apenas não sei nada, não recordo nada,
já nada quero, e aos outros deixo tudo.


Jorge de Sena
outubro 1971
Poema de Florbela Espanca

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois, se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

em " Charneca em Flor" 1930 em "Sonetos",
Pub. Europa-América, pp.112
Poema de Fernando Pessoa -Todas as Cartas de Amor são Ridículas


Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Nua

Minta,

Minta de novo!

Te escondas de mim

Tantas vezes quantas quiseres...

Fala que não me queres, mas,

Não me deixes encontrar-te

Assim, de surpresa, úmida de banho...



É que eu vejo

O teu desejo

Escrevendo em alto relevo

Toda a tua verdade

Bem perto do teu coração...


Chico Steffanello

Poesis

Poesis, termo grego do qual se derivou a palavra poesia cujo significado é: “ ação de fazer algo”.
Algo que no entender de alguns é reunir, juntar, e para Heidegger em particular, que considerava ser
possível construir um projeto pensante de vida através da poesia, este reunir não seria um reunir
palavras simplesmente, mas uma reunião relevante, reunir e relevar, produzindo um sentido superior.

Inicio então esta palestra dizendo que a poesia é um modo próprio de palavrear possibilidades e a
fala do poeta sempre alcança uma instância originária, já sentida por muitos talvez, mas ainda não
expressa completamente. Então, o poeta, de forma instantânea o faz, utilizando-se da linguagem.

Freud costumava dizer que era difícil alcançar espaços onde um poeta já não estivesse estado.
Poetas, portanto, realizam sua existência na linguagem e reabilitam falas perdidas ou decaídas de
seus significados.

Na verdade, a poesia assim como a arte, de um modo geral, é um outro estado ordenador. Possui outros
nexos. Ela é um leque de inúmeras possibilidades de existência fora do contexto do que é banal e
vazio de significados mais profundos.

Funciona quase como um processo de decifração de enigmas interiores, acessando tanto variáveis do
prazer quanto da dor, variáveis de vida quanto de morte. E vai traçando sua trajetória infinita
nestes círculos que nunca se completam permitindo que se vislumbre muitas vezes o pequeno milagre;
a iluminação, a revelação da partilha de um sentir único, porém comum, quando revelado.

Eu diria que hoje, vivemos um tempo bom para a poesia. Quando o século XX descobriu através da
física quântica que a exatidão e o absoluto foram retirados do homem, criou-se o espaço em branco, o
universo deslizante, muito próximo do mistério poético.

Esta última década principalmente, que tem como grande tônica a fragmentação do sentir, do ser, e
do estar, busca ardentemente por uma síntese que a poesia sempre representou, assim como outras
expressões artísticas, já que passam a registrar o instante, dando-lhe permanência mesmo sabendo-se
que nada é definitivo.

O que o artista busca? O que o artista sempre buscou: impregnar de permanência a fluida realidade.
O que o artista quer? O que sempre quis: capturar coisas que estão a fugir de nossas/suas mãos e de
nosso/seu entendimento. Desvendar a alma secreta das coisas para ouvir na concha o “ptyx”, estas
vozes secretas de nossos mares interiores.

Não sei se todos sabem, mas “Ptyx” é uma palavra criada por Mallarmé para o seu famoso poema em X.
Não tem tradução direta mas evoca um termo grego que significa dobra ou concha. Um objeto misterioso
criado por ele, que na verdade nunca existiu mas que possui uma ressonância individual.


O poeta vive o tempo todo em perene estado de diálogo com potências criadoras da linguagem. O
escritor, de um modo geral, mas principalmente o poeta, trabalha com a negação do tempo mortal. Não
o aceita e o devolve ao criador.

Tomando por base a poética de Mallarmé que influenciou todo o século XX, pode-se perceber que cada
imagem é rigorosamente sustentada por um sistema de pensamento e cada pensamento é rigorosamente
sustentado por um jogo de imagens. Mallarmé preconizava que a grande rima é a rima de idéias e
não de palavras. Vejam, portanto:

“ quand je dis “fleur”, quelque chose musicalmente se lève, l’idée même et suave absente de tout
bouquet” quer dizer, quando o poeta diz “flor”, algo se eleva musicalmente, a idéia, ela mesma, e
suave se ausenta do bouquet.

Para Mallarmé, portanto, o poema era como uma obra sinfônica. As frases e os versos eram criados
segundo um arranjo, uma harmonia interior, não somente sonora mas e principalmente, intelectual.

E tão interessante e peculiar é o estado poético que Raimundo de Carvalho afirmou ser a poesia um
discurso irredutível à prosa pois a poesia não se explica, é o que é. Assim, um poema diz
exatamente o que está dizendo, e a forma como diz é parte inalienável deste dizer. Este autor
considera a poesia tautológica, de forma que só outro poema pode ler com propriedade outro poema.

Assim, pode-se também afirmar que a poesia caracteriza- se não pelo significado de suas palavras ou
de suas imagens, mas pela relação do poeta com seu discurso. Pode-se observar esta relação nestes
versos de Vinícius de Moraes:
“ às cinco da manhã, a angústia se veste de branco”

Paul Valery chegou a dizer que na poesia, a paixão participa da festa do intelecto, e da festa do
corpo quando há erotismo. Em Idílio unilateral de Murilo Mendes, temos uma boa amostra desta afirmação:
“ Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres, pronto.
Estou aqui, nu, paralelo à tua vontade, sitiado pelas imagens exteriores. (...)
E para ilustrar Valery temos:

Vou e venho, deslizo, enfronho,
desapareço em peito puro!
Houve jamais seio tão duro
onde não possa entrar um sonho?

Baudelaire, que expressou muito bem amor, erotismo e morte sem ruptura de tom, usou e abusou de
imagens olfativas e visuais associando o erotismo à melancolia, à inquietação metafísica, à
obsessão do nada. Baudelaire falando poeticamente de seu abismo nos diz:

Pascal em si tinha um abismo se movendo.
- Ai, tudo é abismo! - sonho, ação, desejo intenso,
Palavra! E sobre mim, num calafrio, eu penso
Sentir do Medo o vento às vezes se estendendo.


Cecília Meireles refletindo sobre a poesia disse: “pergunto-me se não é de natureza sagrada essa
indefinível chama que a poesia dificilmente revela mas está destinada a conter. Esta não será na
verdade, o sentido de todas as artes? (...) Não seria um jogo de Deus esse renovar constante de
meios para cada um procurar o seu fim? Será que Orfeu não continua a comover os monstros com o seu
canto e a atravessar o inferno pelo poder da Poesia? (...)”

Assim, pode-se concluir que o discurso do poeta nunca é neutro. Sua forma de olhar é que determina
sua relação com os outros e com o mundo.

Termino então, com um poema meu, que trata deste estado de espírito que permite ao poeta expressar
a inquietude de seu olho:

Por que tudo é insuficiente
Invento-te.
-Serias Deus?
Este buraco profundo
Capaz de engolir o mundo
Sou eu?
Sou eu querendo entender
Meus abismos
Coisas complexas e coisas banais
O efêmero com roupas
Divinais
O divino com roupas
De peregrino
Sou vulnerável à morte
Tanto quanto
Sou vulnerável à vida
Para velar esperanças idas
Paro
Adormeço
Amorteço seus sentidos.
Para celebrar novos começos
Fecho a porta
Troco de roupa
Fantasio-me de poeta
[este ser tão vulnerável
e ao mesmo tempo
indestrutível] .


Maria Helena Sleutjes

Publicado no Recanto das Letras em 31/07/2009
Código do texto: T1730300

Maria Helena Sleutjes
http://veusdemaya. com

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Homem caminha próximo às chaminés da Fundição de aço de West Hartlepool

J P Sartre 1946

Simone de Beauvoir 1946

Chê Guevara 1963

Samuel Becket 1964

Edit Piáf 1946

Irlanda 1976

Ariano Suasuna

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Elegia Urbana

O olho do homem pousa sobre a cidade
perquirindo mortos.
E o mar de mortos arrasta pela geométrica floresta
as velas desossadas.

Já não reconhece o beco da infância
entre avenidas,
o jardim humilde nos estilhaços da luz
atropelada.

O olho homem pousa sobre a cidader,
prisioneiro do horizonte
edificado.

Solitário desliza pelas marquises
e ensaia uma antiga melodia entre ruídos.
Vai cantando sob a cúpula cinérea
o irretornável dia da infância consumida.

Palmilha as catacumbas
na exaustão vertical dos edifícios
e sobre os despojos do dia
recupera
a tímida e precária poesia.
Aidenor Aires

Sheetahs Cubs

Soneto de Mim

Quando a chuva cai na terra, sou eu
tudo o que flui:espada, chaga e escudo
tudo o que serei: mundo menos eu
olhos que não mais despertam no escuro

quando a chuva cai na terra, sou eu
tudo o que fui: canto, lâmina e azul
tudo o que serei: trans-lúcido orfeu
na árdua descida, solitário e nu

o sol sem pálpebras que burilei
encegueceu-me por rumos que eu quis
esses retalhos todos que enverguei

são versos que me luzem por um triz
e de repente, aturdido, sou quase
nitidez que se descobriu miragem.

Rodrigo Madeira
Sol sem Pálpebras

O Olho Eterno

Haicai

Deus semeou estrelas
no céu...E quem pôs a lua
no fundo das águas ?

Afonso estebanez Stael

Death

Em Tempo de Lótus,Lírios e Acácias...

Jamais perder o momento
de encontrar na boca
um sorriso...

Jamais perder a esperança
de encontrar na chuva
um caminho...

Jamais perder a certeza
de encontrar no muro
uma porta...

O lótus pode ser
o momento de gória
da lama...

O lírio pode ser
o encontro da paz
na esperança...

A acácia pode ser
a certeza da vida
na morte...

Afonso Estebanez Stael

Vanitas

Destino

Eu quero seguir
teus passos
palmilhados
entre espinhos
colhendo as rosas
que deixas
como pedras
em meus caminhos...
Afonso Estebanes Stael

Danaë

O Último Dia de Trabalho do Pôr-do-Sol no Mar

Havia o mar na sombra do horizonte
havia o pôr-do-sol na água sombria
havia o porto e a encosta do mirante
e os corpos dos amantes na mortalha
da água fria...

Havia as naus no dorso dos destinos
e a brisa que saudava a volta ao cais
com os corais dos cantos pelegrinos
das harpas e violinos dos noturnos
vendavais...

Havia como um repousar do mundo
nos profundos jardins das enseadas
havia vasta ausência no mais fundo
das almas insepultas que sonhavam
acordadas ...

Havia o céu de estrelas rutilantes
e havia o mar de ninfas reluzentes
e a corrente de espumas flutuantes
das errantes escunas entre luzes
fluorescentes...

Havia como um êxtase em preparo
talvez a luz em seu estado impuro:
mais parte escura do seu lado claro
do que mais parte clara do seu lado
escuro...

Agora onde era o mar há o oceano
o poente sem sonhos naufragados...
jaz agorano cais em ritmado sono
o pertencido amor dos navegantes
afogados...

Ainda há aves mortas no convés
e há naves ancoradas sem destino
o declínio de auroras dispersadas
pelas marés da saudade em pleno
desatino...

Ficou uma canção de marinheiro
e um canto rústico de pescadores
o pôr-do-sol no doloroso encanto
de renascer,sonhar,depois morrer
sem dores...

Afonso Estebanez Stael

domingo, 9 de agosto de 2009

noite visceral
o luar te embebeda
um manto de estrelas.

Jiddu Saldanha
Já fui animal carente
hoje sou meio sol meio gente
mistura de sapo e serpente.

Jiddu Saldanha

Intenção

Quero um poema da cor do sangue
Jorrando do meu corpo, quente e denso
Que se exalte, odeie, se zangue
E paire no ar, constrangedor e intenso

Eu o quero afiado e pontiagudo
Que assuste e sobretudo machuque
... incomum,seco, ríspido, sisudo
Para que incomode e arrogante fique

Nascido de extrema dor para que doa
Oposto ao conceito de justiça simplório
Que meu coração insistentemente entoa
De fato é preciso que seja contraditório

Para que essa fúria não mais enfureça
Não mais inspire , não mais arrebate
Não mais contamine, não mais aqueça
O sangue que clama o justo combate

Iriene Borges

Ordem

Cala-te fera de minhas entranhas
Que estas lamúrias sejam as últimas
Cansei-me de ouvir tais blasfêmias
Não serei veículo de tuas artimanhas

Não tome as rédeas do meu pensamento
Pois a conseqüente luta será árdua e feroz
Silencie definitivamente a tua voz
Pois ela evoca amargura e sofrimento

Minha alma é uma fronteira livre e aberta
E turvas a vista recém descoberta,
Embriagas o espírito e maltratas a carne

Exijo silencio e rendição, sem combate
O pensamento é livre para toda arte
Desde que da tua fúria eu me desarme

Iriene Borges

Rendição Temporária

Para o chão a cabeça pende
O pranto arde na pele frágil
Desliza atrás de um soluço ágil
Que desobediente se desprende
De vez em quando se exalta
Fugaz sentimento enfermo
Sem que lhe coloque termo
Minha triste alma incauta
Iriene borges

Diálogo

Teu olhar me fala na quietude
Das emoções que desejo viver
E eu , no ensejo de me defender
Grito que teu olhar me ilude

Teu olhar me cala no tumulto
Me enfrentando com ternura
E eu, recuso o toque de loucura
Assustada, afastando teu vulto

Teu olhar me guia na incerteza
Oferece-me a alegria de ter rumo
E eu, toda a tua dádiva consumo
Na chama fria da fraqueza

Iriene Borges

Lágrima

Há uma chuva de ilusões
Tempestade de lamentos
Céu nublado de paixões
Céu pintado de tormentos

Há uma lufada de sensações
Furacão de pensamentos
Naufrágio de emoções
Erosão de sentimentos

Há um mar de ansiedade
Rugindo sob a tempestade
Tentando se libertar

É um mar de cor intensa
De amargor e força imensa
Debatendo-se em meu olhar

Iriene Borges