domingo, 4 de setembro de 2016

Milho de pipoca que n√£o passa pelo fogo continua a ser milho para sempre!

ūüć•Milho de pipoca que n√£o passa pelo fogo continua a ser milho para sempre!
(Rubem Alves)

Assim acontece com a gente.
As grandes transforma√ß√Ķes acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem n√£o passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
S√£o pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a m√£e, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: p√Ęnico, medo, ansiedade, depress√£o ou sofrimento, cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande
transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, l√° dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca
dura, fechada em si mesma, ela n√£o pode imaginar um destino diferente para si.
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece:
BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela
mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
S√£o como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.
Elas acham que n√£o pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
N√£o v√£o se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.

Extraído do livro "O amor que acende a lua" de Rubem Alves


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