Otto Leopoldo Winck
Ah, este vício, o vício do verso, ainda vai acabar me
matando. Mais letal que a heroína, mais letal que a cachaça, mais letal que as
desgraças da vida, este maldito vício ainda vai me atirar num precipício, ainda
vai me trancar num hospício... É duro este ofício: alinhavar palavras no vazio
como uma ponte sobre o nada. Não, meu amigo, a vida não vale um verso. O
universo não vale um verso. Ai, meu mundo por um verso que explique tudo: a
noite, as estrelas, os teus olhos... Como é doce este vício, como é santo este
ofício! Mas mais letal que este vício só mesmo um outro, muito similar por
sinal: o vício de você. O vício de cheirar, tragar, sorver, injetar você... De
repente é este vício que alimenta o outro. Ou vice-versa.
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