Quando ele falou em agradecimentos virei às costas. Tinha
desenhado, num guardanapo, era um croqui de uma futura pintura. Meu corpo.
Fixei meus olhos nele. Ele parou de desenhar e disse: meu eu e meu ser estão em
ti.
Sai a caminhar. Juntei grimpas e arrastei-as no asfalto. Era
madrugada. Tínhamos jantado num restaurante novo e nos sentíamos bem. Quer
dizer, mais ou menos bem. Eu preferi caminhar sozinha – disse: não me siga.- e
fui dentro de mim a analisar- não queria compreender- os segredos do coração.
No percurso parei para ver um pedaço quebrado de asfalto que
tendia para um craquelê imitando uma rosa. (Ah, essa mania de encontrar formas
na vida!) No contorno, podia ver o chão batido, a estrada atemporal, a terra, a
cor marrom que dá vontade de tocar. E os espinhos estavam em mim que sou parte
dos que quebram e que não tem dó deste globo chamado terra. Vi no canto de uma
construção a carcaça de uma geladeira, panos, restos e moscas. Um casal se
esfregando perto delas. As crianças por ali a roerem ossos perdidos.
Analogia, hipérboles, figura de linguagem para estancar a
dor. Discursos ambientalistas de quem não sabem o que fazer consigo e contigo.
Arrastei mais um pouco as grimpas na calçada quando ouvi passos e o avistei
fumando. Ele estava me seguido.
Mas o que é isso? Isto está se parecendo com um romance...
que pretendo terminar de escrever...
De Mara Paulina Arruda
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