No distrito de Goio-En, lá pelas voltas de 1950, Ervino de
Trofilli lidava com mais três ajudantes -grandes amigos, quase irmãos- na
amarração das toras: "Empurra! Puxa! Segura! Amarra firme!" O rio,
manhã de setembro, bravo. Mais barrento do que nunca corria feito louco,
armando ciladas. O tempo da entrega da madeira chegara ao fim. "Mádiosanto
quanta coisa ainda pra arrumá!" A ida para a Argentina teria que ser neste
dia ou no mais tardar, no fim de semana. Mas Ervino, ouvinte da natureza, temia
essa aventura. Os quatro seriam, por certo, judiados nesta viagem. Tirou o
chapéu da cabeça, andou pelas beiradas do rio, calculou a velocidade do vento,
conversou com os ribeirinhos, puxou as mangas da camisa até os cotovelos. A mulher
disse: "Vou sair para não vê-lo partir". Quando a jangada estava
pronta Ervino ajoelhou-se para pedir que Nossa Senhora o acompanhasse. Fez seus
pedidos. Nas suas intenções prometeu ser-lhe fiel; pediu que tudo corresse bem,
pediu que nas corredeiras ele soubesse se defender. Fez o sinal da cruz, chamou
os amigos e sendo um velho balseiro, dobrou as barras da calça. Lançou-se na
correnteza do rio Uruguai.
De Mara Paulina Arruda
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