terça-feira, 16 de outubro de 2012

ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS


EFEITO URTIGÃO

Dos meus textos de teatro, este é sem dúvida um de meus preferidos. Nunca foi de agradar muito. Não é um de meus textos mais comentados. Nunca teve muito público e nunca vi ele ser citado como um dos preferidos da rapaziada
que conhece o meu trabalho. Mas é um dos que eu mais gosto. De ter escrito e de interpretar de vez em quando. Pra quem não conhece, é a história de um jornalista que se exila em um sitiozinho longe da civilização e não gosta de receber a visita de ninguém. Mas aí aparece um antigo amigo também jornalista a fim de conseguir uma matéria com ele. Só escrevi este texto em 97, mas já vinha pensando nele há muito tempo. Em 91 escrevi um poema que é uma espécie de prólogo deste texto e que também poderia servir de epitáfio do personagem Marcos (o tal jornalista auto-exilado). É também um de meus poemas preferidos. Está publicado no livro "Para os Inocentes que ficaram em casa". Não é um de meus poemas mais comentados e nunca é citado como um dos preferidos da rapaziada que conhece o meu trabalho. Mas dos que escrevi, é um dos que eu mais gosto de ter escrito e de reler de vez em quando. Mas acho que é assim que acontece com todo mundo, né? Eu me refiro à todo mundo que se mete a escrever. É isso o que eu tô querendo dizer. Não me entendam mal. E também gostaria de dizer que este post não tem nada a ver com o meu estado de espírito atual. Só andei relendo algumas coisas minhas e pensando nelas. Acho que tem a ver com Hunter Thompson que sempre releio ou com uma entrevista do Frank da Guarda que saiu na Revista Trip há muito tempo e que é uma das melhores entrevistas da revista. Sei lá. Tem a ver com um monte de coisa.

ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS

Os fantasmas bebem comigo quando a lua vem

Eu abro a minha porta todas as noites

Eles aparecem e se apropriam das poltronas

coçam meus pés e bebem meu vinho

Não falam da vida os fantasmas

nem comentam as fotos que guardei

Eu me sinto bem com os fantasmas

Eles apenas gostam de ficar por ali

assoprando nas orelhas do cachorro

o cachorro se acostumou com os fantasmas

já não tira os chinelos das poltronas

percebeu o quanto os fantasmas são

importantes pra mim e o cachorro também

não quer me ver triste e eu sei que de

uns tempos pra cá o cachorro também ficou

dependente deles pois uiva de dia enquanto

eu leio Frost no telhado

o dia passou a ter 72 horas

o dia passou a ter grossos livros de poesia

o dia passou a ter Whitman, Thoreau e Bashô

o dia agora é um osso esquecido no assoalho

o dia agora é uma longa espera da noite

que é quando os fantasmas aparecem

Eu espero já sem muita paciência

não há nenhuma suavidade ou delicadeza em

meus gestos

Os fantasmas são a melhor companhia pra

quem descobriu que está realmente sozinho.

Mario bortolotto

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