EFEITO
URTIGÃO
Dos meus textos de teatro, este é sem dúvida um de meus preferidos. Nunca foi de agradar muito. Não é um de meus textos mais comentados. Nunca teve muito público e nunca vi ele ser citado como um dos preferidos da rapaziada
Dos meus textos de teatro, este é sem dúvida um de meus preferidos. Nunca foi de agradar muito. Não é um de meus textos mais comentados. Nunca teve muito público e nunca vi ele ser citado como um dos preferidos da rapaziada
que
conhece o meu trabalho. Mas é um dos que eu mais gosto. De ter escrito e de
interpretar de vez em quando. Pra quem não conhece, é a história de um
jornalista que se exila em um sitiozinho longe da civilização e não gosta de
receber a visita de ninguém. Mas aí aparece um antigo amigo também jornalista a
fim de conseguir uma matéria com ele. Só escrevi este texto em 97, mas já vinha
pensando nele há muito tempo. Em 91 escrevi um poema que é uma espécie de
prólogo deste texto e que também poderia servir de epitáfio do personagem Marcos
(o tal jornalista auto-exilado). É também um de meus poemas preferidos. Está
publicado no livro "Para os Inocentes que ficaram em casa". Não é um
de meus poemas mais comentados e nunca é citado como um dos preferidos da
rapaziada que conhece o meu trabalho. Mas dos que escrevi, é um dos que eu mais
gosto de ter escrito e de reler de vez em quando. Mas acho que é assim que
acontece com todo mundo, né? Eu me refiro à todo mundo que se mete a escrever.
É isso o que eu tô querendo dizer. Não me entendam mal. E também gostaria de
dizer que este post não tem nada a ver com o meu estado de espírito atual. Só
andei relendo algumas coisas minhas e pensando nelas. Acho que tem a ver com
Hunter Thompson que sempre releio ou com uma entrevista do Frank da Guarda que
saiu na Revista Trip há muito tempo e que é uma das melhores entrevistas da
revista. Sei lá. Tem a ver com um monte de coisa.
ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS
Os fantasmas bebem comigo quando a lua vem
Eu abro a minha porta todas as noites
Eles aparecem e se apropriam das poltronas
coçam meus pés e bebem meu vinho
Não falam da vida os fantasmas
nem comentam as fotos que guardei
Eu me sinto bem com os fantasmas
Eles apenas gostam de ficar por ali
assoprando nas orelhas do cachorro
o cachorro se acostumou com os fantasmas
já não tira os chinelos das poltronas
percebeu o quanto os fantasmas são
importantes pra mim e o cachorro também
não quer me ver triste e eu sei que de
uns tempos pra cá o cachorro também ficou
dependente deles pois uiva de dia enquanto
eu leio Frost no telhado
o dia passou a ter 72 horas
o dia passou a ter grossos livros de poesia
o dia passou a ter Whitman, Thoreau e Bashô
o dia agora é um osso esquecido no assoalho
o dia agora é uma longa espera da noite
que é quando os fantasmas aparecem
Eu espero já sem muita paciência
não há nenhuma suavidade ou delicadeza em
meus gestos
Os fantasmas são a melhor companhia pra
quem descobriu que está realmente sozinho.
ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES, EU ESPERO OS FANTASMAS
Os fantasmas bebem comigo quando a lua vem
Eu abro a minha porta todas as noites
Eles aparecem e se apropriam das poltronas
coçam meus pés e bebem meu vinho
Não falam da vida os fantasmas
nem comentam as fotos que guardei
Eu me sinto bem com os fantasmas
Eles apenas gostam de ficar por ali
assoprando nas orelhas do cachorro
o cachorro se acostumou com os fantasmas
já não tira os chinelos das poltronas
percebeu o quanto os fantasmas são
importantes pra mim e o cachorro também
não quer me ver triste e eu sei que de
uns tempos pra cá o cachorro também ficou
dependente deles pois uiva de dia enquanto
eu leio Frost no telhado
o dia passou a ter 72 horas
o dia passou a ter grossos livros de poesia
o dia passou a ter Whitman, Thoreau e Bashô
o dia agora é um osso esquecido no assoalho
o dia agora é uma longa espera da noite
que é quando os fantasmas aparecem
Eu espero já sem muita paciência
não há nenhuma suavidade ou delicadeza em
meus gestos
Os fantasmas são a melhor companhia pra
quem descobriu que está realmente sozinho.
Mario bortolotto
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