domingo, 14 de outubro de 2012



Estamos na cama, os pais se casando no Clube Iguaçu, vespeiro de insetos sentimentais, o túmulo da família no cemitério Ossa arida audite verbum domini, os dedos dele nos lábios da minha mãe, ela estica o pescoço, as bocas se respiram, a mãe geme a cama em que possivelmente fui concebido, três alqueires de festa da uva, aquele foi um dia nublado, a vó já caducando, mãos enrugadas a fazer bolinhas com o miolo do pão e as bordas descascadas do bule de barro pintado com esmalte amarelo, a noite de nossa adolescência entra no quarto, olhos úmidos sob a luz do abajur, abro num leque as mãos, fruto grande e quente seu rosto, minha mão cenoura que pressiono contra a boca do cavalo e diminui de tamanho a cada mordida, passos no assoalho, ônibus aos solavancos, a mãe o camisolão até os calcanhares, corredor escuro, você se esconde atrás da musguenta poltrona, ela entra no quarto sem bater: o que está fazendo? Lendo, é tarde para leitores da sua idade, tenho 12 anos, não me retruque, só queria acabar o capítulo, já acabou? me viro na cama dando as costas para o lado de fora: boa noite, durma com os anjos, apago a luz do abajur, ela se vai e a música a engolir metade do meu cérebro: seção cívica, sete de setembro, as turmas a desfilar pela rua com o uniforme marrom do colégio, bandeirinhas de papel do país, o vô rapazote, a vó bem menina e os que sentam no fundo da sala, metidos, com suas camisetas pretas de bandas de rock e os cabelos compridos escondendo a vergonha do rosto tomado por espinhas, maconheirinhos arrogantes como seus ídolos de torcidas organizadas, o que fiz da minha vida? algumas pessoas nunca terminam de me destruir, a cabeça pensa, pendurada, os olhos a arder, reaprendo a caminhar pelas calçadas sem ser notado, o senhor sombra, aperto a descarga, um rugido no meio, visto a calça jeans, deixar de ter autocomiseração, ir me acostumando, nunca termino de me destruir, recomeço, mas foi um dia nublado, foi um dia nublado e o vô : não quero este fascista aqui, então ipês amarelos vencendo a geada, ossos secos ouvi a palavra do Senhor.


 Luiz Felipe Leprevost

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