Estamos na cama, os pais se casando no Clube Iguaçu,
vespeiro de insetos sentimentais, o túmulo da família no cemitério Ossa arida
audite verbum domini, os dedos dele nos lábios da minha mãe, ela estica o
pescoço, as bocas se respiram, a mãe geme a cama em que possivelmente fui
concebido, três alqueires de festa da uva, aquele foi um dia nublado, a vó já
caducando, mãos enrugadas a fazer bolinhas com o miolo do pão e as bordas
descascadas do bule de barro pintado com esmalte amarelo, a noite de nossa
adolescência entra no quarto, olhos úmidos sob a luz do abajur, abro num leque
as mãos, fruto grande e quente seu rosto, minha mão cenoura que pressiono
contra a boca do cavalo e diminui de tamanho a cada mordida, passos no
assoalho, ônibus aos solavancos, a mãe o camisolão até os calcanhares, corredor
escuro, você se esconde atrás da musguenta poltrona, ela entra no quarto sem
bater: o que está fazendo? Lendo, é tarde para leitores da sua idade, tenho 12
anos, não me retruque, só queria acabar o capítulo, já acabou? me viro na cama
dando as costas para o lado de fora: boa noite, durma com os anjos, apago a luz
do abajur, ela se vai e a música a engolir metade do meu cérebro: seção cívica,
sete de setembro, as turmas a desfilar pela rua com o uniforme marrom do
colégio, bandeirinhas de papel do país, o vô rapazote, a vó bem menina e os que
sentam no fundo da sala, metidos, com suas camisetas pretas de bandas de rock e
os cabelos compridos escondendo a vergonha do rosto tomado por espinhas,
maconheirinhos arrogantes como seus ídolos de torcidas organizadas, o que fiz
da minha vida? algumas pessoas nunca terminam de me destruir, a cabeça pensa,
pendurada, os olhos a arder, reaprendo a caminhar pelas calçadas sem ser
notado, o senhor sombra, aperto a descarga, um rugido no meio, visto a calça
jeans, deixar de ter autocomiseração, ir me acostumando, nunca termino de me
destruir, recomeço, mas foi um dia nublado, foi um dia nublado e o vô : não
quero este fascista aqui, então ipês amarelos vencendo a geada, ossos secos
ouvi a palavra do Senhor.
Luiz Felipe Leprevost
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