Confesso:
sou otário e fácil de iludir. Por acreditar nas pessoas, levo muito na cabeça.
Prometo que não derrapo mais em papos carecas, mas sempre escorrego,
reincidente de carteirinha. Adoro dois beijinhos, aperto de mão, calor.
Tumulto, não gosto. Gente burra também não gosto, mas tolero, porque de vez em
quando faço minhas burradas. E burradas homéricas! Se reflito sobre o que é a
mentira ou a verdade nesse mundo, tendo a extrapolar, a ver a mentira como uma
verdade que não aconteceu ainda. Por isso exagero em minhas fantasias e invento
histórias, mesmo que só pra fazer rir ou contar vantagem. Puxar saco, não puxo
não, mas fico sensibilizado com um elogio, sinto que não é de todo verdadeiro,
mas fico. Já ri de coisas sem graça nenhuma, já fiz amizades por conveniências,
atendo tudo que é telefonema, mesmo sem vontade de conversar. E quando ouço
estes profetas do apocalypse anunciarem o final dos tempos, reajo, nego,
esconjuro. Me defendo chutando a bola pra cima, pois enquanto a bola estiver lá
em cima, o time não leva gol. Sinto estes papos apocalípticos como a consciência
de nossa finitude como indivíduos, então criamos a idéia de que vai acabar
tudo, só de raiva pela brevidade de nossas vidas. Estamos num processo de
transformação e evolução ( ou involução) tão grande, que a diferença do homem
do futuro para o sapiens, é mais ou menos a mesma distancia do sapiens para o
macaco. Pode até ser que esteja tudo uma merda, mas estamos melhor que na idade
media, com suas guerras e suas pestes. Idade media não é só Jeronymus Bosch. Já
pensou ter dor de dente num mundo sem anestesia? Então, está mais pra evolução
que pra involução. Mas repito, confesso que sou otário, um sujeito meio pra
Anne Frank, ou seja, confinado num porão e acreditando apesar de tudo na
bondade humana. Na Biblioteca de Alexandria, encontrei a Pedra Filosofal, que
os alquimistas buscaram por séculos e nunca acharam. Com ela, desvendei o
segredo da vida eterna, a fonte da juventude e a árvore da sabedoria.
Testemunha viva da história da humanidade, vez em quando mudo de personagem.
Fui Marco Antonio, Shakespeare, Dante e Lima Barreto, por amar a literatura.
Quando me cansa a eternidade, me escondo e hiberno por séculos. Ou me
transformo em água e fico fluindo. Já fui o Rio Nilo e o Amazonas. Hoje brinco
de ser Mano Melo.
Poeta e ator, nasceu no Ceará e vive no Rio de Janeiro desde
os 16 anos. Se apresenta em performances poéticas no Rio, pelo Brasil e outros
países, em universidades, escolas, congressos, bienais, bares, teatros, TVs,
rádios, casas noturnas, até mesmo em praças públicas. Publicou um romance,
Viagens e Amores de Scaramouche Araújo, e onze livros de poesia, o mais recente
Poemas do Amor Eterno.
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