sábado, 13 de outubro de 2012

UM BLUES PRA ROSI





Ela se mistura com vinho e então a vejo
na mancha da calça, no incêndio dos bares
na porção que sobrou do meu bom caráter
Então estanco nas ruas e não quero voltar pra casa
prefiro as luzes chuviscando neon
os olhos tristes de little baby
a marcha nupcial do meu delírio de cuba libre
Tantas horas no cinema
e ninguém pescando nada
nem as lágrimas no ventilador
a xerox do discurso boçal
“play it again, Sam”, só mais uma vez
já que a tarde é só isso
e por volta da meia-noite eu acabe voltando
pelo asfalto molhado
confabulando com Charles
latindo pros cães
xeretando meu inconsciente
num flash-back no banheiro
Ok
bem que ela tenta
mas eu sempre dificulto as coisas
mas também não dá pra pensar que é fácil
o que eu faço são letras de canções pra não serem ouvidas
são blues desesperados
pra se levar na noite
num pacote impermeável
debaixo do braço
solando na alma
pra dividir com a matilha
e ela fica por perto tentando entender
eu nem sei qual é, e também se soubesse seria pretensão
o que eu sei é que essa sensação de falta
esse vácuo na minha sombra
e essa pessoa estranha na cadeira do cinema
Pô, essas coisas me deixam indisfarçadamente triste.

(Mario Mário Bortolotto- escrito em 1986)

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