terça-feira, 15 de junho de 2010

Explica estrelas: sacia sedes: defende orvalhos: apascenta lobos: louva gostos: acaricia farpas: grita: geme: reflete: sangra: anuncia: bebe estrelas: sabe de saudades: verte cheiros doces: trança alvoradas e ocasos: grita o grito dos calados: engendra o erro dos sábios: afia o consolo dos caminhos: desenha o verbo das folhas do outono: invade a casa do impreciso: embebe de prazer o constante: inflama a flor dos campos: corrói a erva-daninha: raspa o segredo da lua: planta flores em seu corpo: diverte-se com o silêncio: fala a língua nascitura: bebe a ousadia das eras: desenha a flor da morte prenunciada: conversa primaveras, outonos, invernos, verões e verossimilhanças. Beija tempos e fatos inverossímeis: verbo, adjetivo e substantiva o desconhecido: ignora último e primeiro: legisla com a memória a dor de seu tempo: entende de titubeios e escândalos: queima desenganos: abre euforias: beija amanheceres. Delícia: corta o desvanecimento da virtude: aplaca o vício do vício: constrói o desprover, só de despedidas: extermina a solidão e a encurrala: descobre a casa das estrelas: ama o amor do tempo infinito: ensina a paixão dos redemoinhos: desaparece.



Julio Almada, Caderno de Ontem

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