terça-feira, 9 de outubro de 2012

CINISMO SÍNICO



(história de vida)

Num belo dia de verão de 2010, quando já terminara o mestrado, mas ainda não tinha começado o doutoramento, eu estava participando duma reunião de Nanotecnologia na Esmirna, aliás, bem perto de lá, em Çeşme. O lugar, por ora é bem conhecido para quem está a par da história de guerras russo-turcas, mas isto não será o assunto do presente conto.
Terminada a sessão da seção de química dos polímeros condutores, eu resolvi ver o meu e-mail – não só para receber umas notícias que viessem, mas também a fim de compartilhar as impressões de viagem (foi a minha primeira visita a Çeşme) com a minha mamãe e através dela com o resto da família que me esperava em casa.
A maioria dos e-mails que vieram naquele dia foram de conteúdo à toa, como as notificações do facebook, fóruns musicais, dos quais eu na altura participava, entre outros recados fúteis.
Porém, o e-mail que eu li em último deu-me muita alegria. Foi de uma editora sino-americana, aliás da oficina sínica de uma editora científica americana, situada em Hong Kong. Eles escreveram que o editor principal da revista de ciência e tecnologia de materiais lera meu resumo, publicado dois meses antes, e, ao tê-lo lido, propusera que eu submetesse um trabalho inédito para ser publicado lá.
“Como eu não tenho publicações no estrangeiro”, - pensei eu para comigo, - “ser-me-á muito útil entrar em contato com a revista deles e ainda por cima tenho um artigo lá na Ucrânia para ser acabado”.
Depois de terminar a sessão daquele dia, resolvi comprar a passagem até Esmirna para ir à igreja ortodoxa grega. Achava o convite vindo a mim naquele dia a “mão de Deus” e resolvi agradecê-lo e fazer uma oração.
Em três ou quatro dias voltei para casa alegre e impressionado. Ali eu falei com o meu orientador, compartilhando com ele a alegria recebida naquela viagem. Depois, descrevendo tim-tim por tim-tim a oferta dos chineses, perguntei se ele gostara da ideia. Ele disse sim e mandou-me preparar o nosso artigo para ser publicado na China, traduzi-lo para inglês e preparar-me para as provas de admissão ao doutoramento.
Mal o texto anglófono do artigo ficou pronto, encaminhei-o por e-mail para a editora, esperando que os avaliadores dissessem “sim” à publicação do artigo. Outro documento anexo àquele e-mail foi um documento absurdo – confirmação de o nosso grupo dar os direitos autorais à diretoria da revista.
O resultado da estimação do artigo foi comunicado três ou quatro semanas depois, quando eu já de fato tinha entrado no doutorado.
O artigo foi considerado “pronto para publicação assim como é”. Eles só pediram para enumerar as fórmulas matemáticas (trabalho na área de química computacional) e revisar o inglês. Eu tentei fazer as recomendações deles – enumerei as fórmulas e revisei o texto do artigo gramática e estilisticamente de tal forma como então o meu conhecimento da gramática inglesa mo deixava.
No dia que a nova versão do artigo foi enviada, eu recebi uma boa notícia - fui aceito para estudar no doutorado em química. Passadas duas semanas, os chineses responderam-me.
A carta deles tinha duas notícias, uma boa e, em contrapartida, outra, pior. Descrever-lhas-ei conforme elas apareceram no e-mail.
No primeiro parágrafo do texto eles agradeceram a nossa contribuição à revista e a possível publicação do artigo. Deram-me os parabéns por o artigo ter sido aceite.
Lido o primeiro parágrafo, alegrei-me. Estava nas sete ou até quarenta e nove quintas.
Porém, aquele júbilo de saber que o nosso artigo foi aceito para ser publicado durou apenas uns dez segundos. Logo no começo do segundo parágrafo eu realizei que na hora da verdade caí na armadilha. Realizei-o tarde demais.
Antes eu não sabia, aliás, nem pude imaginar que as revistas científicas pudessem cobrar dos autores pela publicação. Pensava que a publicação era paga apenas nas reuniões científicas ou em algo relacionado. E se fosse paga, pagar-se-ia muito pouco, sustentável para um pesquisador pagar de vez.
Dizia-se que a revista tinha custos de publicação, o nosso artigo ia sair nas 6 páginas e que, para ele ser publicado, tinha que pagar cinquenta dólares por cada página e também vinte dólares pelo envio do exemplar. Na altura, a bolsa mínima de um doutorando na Ucrânia equivalia a 800 hryvnias (equivalente a cem dólares). Imaginem a revista a cobrar pela publicação três bolsas do doutorando ordinário e um quinto dela por cima. E imaginem a cara do calouro-doutorando que esperava que o artigo, aceito bem rapidinho, fosse publicado dentro de um ou dois meses gratuitamente.
Depois, tendo ganho um bocado de experiência, observei que havia revistas que anunciaram que a publicação era paga, comunicando aos autores os custos de publicação. No caso delas, tudo era honesto. Mas neste caso o preço de publicação só foi comunicado quando o artigo foi aceito para sair. Foi o cinismo da parte dos sínicos, sem dúvida. Era então uma armadilha que visava fazer da revista científica esse tal “negócio da China” (no sentido direto e figural) que daria lucro aos donos.
E, ademais, vi também que estas revistas, embora dessem acesso livre aos artigos publicados, na sua maioria não tinham valor científico (e se tivessem, seria apenas um tostão). Só tinham preço. Lucri bonus est odor ex re qualibet, porém os projetos assim visam apenas em trazer lucro aos editores sem dar muita contribuição ao mundo científico.
Mas a experiência veio depois. Aquela história findou-se assim – com a ajuda da minha família paguei pela publicação. O artigo saiu em abril de 2011, 7 meses depois de a publicação ser paga. O porquê da demora segundo eles comunicaram era a “fila” dos artigos aceitos, planejados para a publicação. “Então, não sou único a cair na armadilha”, - pensei eu para comigo.
O modelo matemático, descrito naquele artigo, por ora, depois foi atualizado e melhorado. O novo modelo foi descrito noutra publicação, gratuita, e ela é que será referenciada na minha tese.
Agora estou quase para terminar meu doutorado. O caso deles ensinou-me uma boa lição. Quase diariamente recebo convites de várias reuniões e editoras. Porém, antes de começar o processo editorial, sempre pergunto se eles não querem dos autores vintém de mais.


Trem Azul

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