(história de vida)
Num belo dia de verão de 2010, quando já terminara o
mestrado, mas ainda não tinha começado o doutoramento, eu estava participando
duma reunião de Nanotecnologia na Esmirna, aliás, bem perto de lá, em Çeşme. O
lugar, por ora é bem conhecido para quem está a par da história de guerras
russo-turcas, mas isto não será o assunto do presente conto.
Terminada a sessão da seção de química dos polímeros
condutores, eu resolvi ver o meu e-mail – não só para receber umas notícias que
viessem, mas também a fim de compartilhar as impressões de viagem (foi a minha
primeira visita a Çeşme) com a minha mamãe e através dela com o resto da
família que me esperava em casa.
A maioria dos e-mails que vieram naquele dia foram de
conteúdo à toa, como as notificações do facebook, fóruns musicais, dos quais eu
na altura participava, entre outros recados fúteis.
Porém, o e-mail que eu li em último deu-me muita alegria.
Foi de uma editora sino-americana, aliás da oficina sínica de uma editora
científica americana, situada em Hong Kong. Eles escreveram que o editor
principal da revista de ciência e tecnologia de materiais lera meu resumo,
publicado dois meses antes, e, ao tê-lo lido, propusera que eu submetesse um
trabalho inédito para ser publicado lá.
“Como eu não tenho publicações no estrangeiro”, - pensei eu
para comigo, - “ser-me-á muito útil entrar em contato com a revista deles e
ainda por cima tenho um artigo lá na Ucrânia para ser acabado”.
Depois de terminar a sessão daquele dia, resolvi comprar a
passagem até Esmirna para ir à igreja ortodoxa grega. Achava o convite vindo a
mim naquele dia a “mão de Deus” e resolvi agradecê-lo e fazer uma oração.
Em três ou quatro dias voltei para casa alegre e
impressionado. Ali eu falei com o meu orientador, compartilhando com ele a
alegria recebida naquela viagem. Depois, descrevendo tim-tim por tim-tim a
oferta dos chineses, perguntei se ele gostara da ideia. Ele disse sim e
mandou-me preparar o nosso artigo para ser publicado na China, traduzi-lo para
inglês e preparar-me para as provas de admissão ao doutoramento.
Mal o texto anglófono do artigo ficou pronto, encaminhei-o
por e-mail para a editora, esperando que os avaliadores dissessem “sim” à
publicação do artigo. Outro documento anexo àquele e-mail foi um documento
absurdo – confirmação de o nosso grupo dar os direitos autorais à diretoria da
revista.
O resultado da estimação do artigo foi comunicado três ou
quatro semanas depois, quando eu já de fato tinha entrado no doutorado.
O artigo foi considerado “pronto para publicação assim como
é”. Eles só pediram para enumerar as fórmulas matemáticas (trabalho na área de
química computacional) e revisar o inglês. Eu tentei fazer as recomendações
deles – enumerei as fórmulas e revisei o texto do artigo gramática e
estilisticamente de tal forma como então o meu conhecimento da gramática
inglesa mo deixava.
No dia que a nova versão do artigo foi enviada, eu recebi
uma boa notícia - fui aceito para estudar no doutorado em química. Passadas
duas semanas, os chineses responderam-me.
A carta deles tinha duas notícias, uma boa e, em
contrapartida, outra, pior. Descrever-lhas-ei conforme elas apareceram no
e-mail.
No primeiro parágrafo do texto eles agradeceram a nossa
contribuição à revista e a possível publicação do artigo. Deram-me os parabéns
por o artigo ter sido aceite.
Lido o primeiro parágrafo, alegrei-me. Estava nas sete ou
até quarenta e nove quintas.
Porém, aquele júbilo de saber que o nosso artigo foi aceito
para ser publicado durou apenas uns dez segundos. Logo no começo do segundo
parágrafo eu realizei que na hora da verdade caí na armadilha. Realizei-o tarde
demais.
Antes eu não sabia, aliás, nem pude imaginar que as revistas
científicas pudessem cobrar dos autores pela publicação. Pensava que a
publicação era paga apenas nas reuniões científicas ou em algo relacionado. E
se fosse paga, pagar-se-ia muito pouco, sustentável para um pesquisador pagar
de vez.
Dizia-se que a revista tinha custos de publicação, o nosso
artigo ia sair nas 6 páginas e que, para ele ser publicado, tinha que pagar
cinquenta dólares por cada página e também vinte dólares pelo envio do
exemplar. Na altura, a bolsa mínima de um doutorando na Ucrânia equivalia a 800
hryvnias (equivalente a cem dólares). Imaginem a revista a cobrar pela
publicação três bolsas do doutorando ordinário e um quinto dela por cima. E
imaginem a cara do calouro-doutorando que esperava que o artigo, aceito bem
rapidinho, fosse publicado dentro de um ou dois meses gratuitamente.
Depois, tendo ganho um bocado de experiência, observei que
havia revistas que anunciaram que a publicação era paga, comunicando aos
autores os custos de publicação. No caso delas, tudo era honesto. Mas neste
caso o preço de publicação só foi comunicado quando o artigo foi aceito para
sair. Foi o cinismo da parte dos sínicos, sem dúvida. Era então uma armadilha
que visava fazer da revista científica esse tal “negócio da China” (no sentido
direto e figural) que daria lucro aos donos.
E, ademais, vi também que estas revistas, embora dessem
acesso livre aos artigos publicados, na sua maioria não tinham valor científico
(e se tivessem, seria apenas um tostão). Só tinham preço. Lucri bonus est odor
ex re qualibet, porém os projetos assim visam apenas em trazer lucro aos
editores sem dar muita contribuição ao mundo científico.
Mas a experiência veio depois. Aquela história findou-se
assim – com a ajuda da minha família paguei pela publicação. O artigo saiu em
abril de 2011, 7 meses depois de a publicação ser paga. O porquê da demora
segundo eles comunicaram era a “fila” dos artigos aceitos, planejados para a
publicação. “Então, não sou único a cair na armadilha”, - pensei eu para
comigo.
O modelo matemático, descrito naquele artigo, por ora,
depois foi atualizado e melhorado. O novo modelo foi descrito noutra
publicação, gratuita, e ela é que será referenciada na minha tese.
Agora estou quase para terminar meu doutorado. O caso deles
ensinou-me uma boa lição. Quase diariamente recebo convites de várias reuniões
e editoras. Porém, antes de começar o processo editorial, sempre pergunto se eles
não querem dos autores vintém de mais.
Trem Azul
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