Jaime tinha aquele jeito de quem descobriu o pequeno tesouro
de Deus. De certo modo, ele tinha mesmo. Ia sair pela primeira vez com Lilian.
Tinham marcado num restaurante perto do apartamento dela. Jaime prometeu pra si
mesmo que ia beber pouco. Queria causar boa impressão pra garota de olhos de
petróleo. Era assim que ele se acostumou a se referir a ela. Os amigos tinham
curiosidade de ver a garota que o deixava ausente na mesa do bar. Mas ele
apenas dizia a eles que ela tinha olhos de petróleo e depois voltava lá
praquele lugar que era só dele e que ele queria tanto dividir com ela. E com
mais ninguém. Os amigos evidentemente sentiam uma ponta de ciúme por estarem
perdendo a companhia do amigo pruma garota que eles sequer conheciam. E naquela
noite ele não ia voltar. Esperou Lilian na porta do restaurante sem disfarçar a
ansiedade. Chovia fino, mas ele não queria entrar. Preferia esperar por ela lá fora.
Começou a espirrar e a chuva foi ficando mais forte. O porteiro perguntou se
ele não queria entrar. Ele disse que não podia, que tava esperando alguém. Até
tentou explicar pra ele de quem se tratava. Ele precisava falar com alguém. Mas
a chuva aumentou. Foi ficando insuportável. Os carros passavam e espirravam
água nele. Seus olhos estavam embaçados pela chuva. Começou desesperadamente a
imaginar Leila tentando sair de casa e não conseguindo por causa da chuva que
ainda continuou por mais de uma hora. Quando finalmente a chuva deu uma trégua,
a noite encontrou um rapaz desolado parado no meio da rua, nocauteado e sem
nenhuma esperança, como a maioria costuma se sentir. Ele então enfiou as mãos
nos bolsos das calças e desceu a rua com a cabeça baixa. O porteiro meneou a
cabeça, conformado. Alguns minutos depois, uma garota saiu pela porta do
restaurante.“A comida tava boa?”Não sei. Não consegui comer. Fiquei esperando alguém que
não apareceu”.
O porteiro ainda tentou dizer alguma coisa, mas desistiu
quando olhou no fundo dos olhos dela. A garota à sua frente tinha olhos de
petróleo. Os olhos mais enigmáticos que ele já tinha visto. Quando quer, Deus
resolve beber só com o seus. E esquece que outros por aqui ainda estão vivos. E
que se sentem sozinhos e sem esperança nessas noites que ele resolve brincar de
todo poderoso
Mário Bortolotto
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