Eu, jogando às traças meus pensamentos alheios, enxergo por
entre a neblina densa que forma-se nos tensos cigarros que fumo. Nunca mais a
voz sinistra pousará como abutre em meus ouvidos espantando os pássaros do
equilíbrio. Integro imagens fúteis com idéias rebuscadas. Quebrado, quase
frágil, descubro por instinto as prováveis saídas desta cela cerebral.
Mensagens cifradas rasgam a pedra gelada e deformam paredes, tênue labirinto. Teias de
transmissão; sinais detectam ausência lógica do néctar corrosivo que dissolve
minha fuselagem. É o vento gélido que encobre meus passos entre as ruas
laceradas desta metrópole. Observo quieto
, os fantoches e bonecas de pano, zumbis feitos de susto e confusão, que
caminham trôpegos, que desfiam roucos, a cotidiana ladainha mecânica que gera
desperdício. Estátuas de zarcão trajam molambos, recobrem suas almas vazias.
Não sorriem nem sonham , conformados
pelo intenso espetáculo da frustração. Nesse novelo de circunstâncias
imponderáveis, é o maceramento obtido através dos olhares do exílio, que torna
intacta minha indignação.
É inevitável a escolta ao ultrapassar a região limítrofe
entre a insanidade e a lucidez.
Ricardo Pozzo
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