Passando pela Santos Andrade para ir ao Correio, percebi que
fecharam a Livrarias Curitiba da esquina – era das últimas livrarias de rua da
cidade. Na região, sobrou bravamente o Chain e, enquanto os livros se
entrincheiram nas grandes redes dos shoppings (entre elas a própria Curitiba),
restam apenas os sebos ao ar livre das ruas.
O que não é pouco: as lojas de livros usados vão acabar se
transformando no espaço mais sofisticado do livro de papel – um passeio por uma
boa estante de um sebo bem cuidado é sempre uma viagem literária. Melhor ainda:
como primos pobres da irmandade preciosa dos leitores, os sebos felizmente
permanecem a um passo da calçada, mantendo sua vocação popular à maneira
antiga.
O que dizer desta irreversível mudança de panorama do
comércio do livro? A reação emocional é apocalíptica, como se, à medida que o
tempo passa e, portanto, ficamos mais velhos, o mundo inteiro naturalmente
piorasse. Bem, eu sempre desconfio do saudosismo; acho que é preciso repensar
essa imagem romântica das livrarias.
No Brasil, salvo gloriosas e raras exceções, as livrarias
sempre foram pouquíssimas e ruins, somente disponíveis em centros maiores, num
país que considerava os seus poucos leitores também uma reserva de mercado.
Isto é, nunca houve uma “era de ouro” do livro no Brasil, um país
historicamente iletrado, e a atividade do escritor sempre considerou-se mais ou
menos ornamental.
O panorama começou a mudar pela confluência de dois fatores
poderosos – o primeiro foi a rápida urbanização brasileira das últimas décadas,
com a concomitante modernização de sua economia, a partir do Plano Real, que se
manteve no governo Lula, criando uma nova e consistente classe média, com o
aumento subsequente da base de leitores. Tudo muito precário, como sabemos –
urbanização selvagem, ensino ruim –, mas houve um salto de consumo que também
chegou aos livros. O segundo fator foi avassalador: a revolução tecnológica da
internet. Ela quebrou a lógica comercial de balcão de armazém do século 19, que
aqui continua viva no século 21, e provocou uma mudança radical no sistema do
livro. Não há de ter saudades de livrarias que cobravam caro (nas mãos de uma
distribuição sem concorrência), não tinham nada nas estantes e não davam a
mínima para a literatura. A internet se transformou no canal da mais
extraordinária livraria – e biblioteca – da história. E, à já fantástica
circulação do livro físico que a internet vem permitindo, acrescente-se o
advento da tabuleta digital – este retorno high-tech aos tijolinhos cuneiformes
dos antigos sumérios representa outro salto fantástico em defesa universal da
leitura.
É claro que o livro de papel não vai desaparecer – continua
sendo a mais perfeita invenção do mundo. Mas vociferar contra o livro digital é
não entender o potencial democrático de trânsito da informação escrita que ele
significa.
Cristovão Tezza .
Gazeta do Povo 081013
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