Acabei de ouvir uma frase no último capítulo do Desesperate
Housewives que dizia mais ou menos o seguinte: "Você sabe que está
envelhecendo quando suas lembranças são mais fortes do que seus sonhos."
Fiquei pensando nisso e me ocorreu que as pessoas que se mantêm mais ativas são
exatamente as que não deixam morrer os sonhos. Que se recusam a entrar em uma
zona de conforto quase sempre mortal. Eu, pessoalmente, nunca fui muito
sonhador, mas sempre me considerei inquieto. Um dia eu estava no auge na minha
profissão e determinei para mim mesmo que aquilo não era o máximo que eu podia
esperar de mim. Larguei os bons empregos e excelentes salários, mudei de cidade
e ainda estou procurando meu novo caminho. Claro que uso minha experiência
profissional para manter-me materialmente, mas não faço mais disso um fim.
Procuro escrever outras coisas, me envolver com outras atividades, que não são
remuneradas, mas que me deixam cada vez mais vivo. Não sinto falta das viagens
anuais para Paris e New York. Foram bacanas, mas apenas nas primeiras vezes,
depois ficou uma coisa meio morna. Não sinto falta de gastar uma grana em um
jantar cheio de rapapés com uma turba de garçons em volta de você cuidando de
cada centavo que você esta deixando ali. Não sinto falta de carro do ano, estou
bem feliz com o meu 94, que anda como os outros, mas não precisa de seguro e
nem de alarme e nem vai provocar o desejo de um bandido em botar uma arma na minha
cabeça como aconteceu em SP. Não sinto falta do apartamento com 4 salas em
HIgienópolis. Me cansava andar do meu quarto até a sala de estar e depois
caminhar um monte para pegar um café na cozinha. Sinto um pouco de falta do
clima bacana que rolava na propaganda nos anos 70 e 80. Era bem divertido
trabalhar nessa coisa naqueles tempos. Ganhava-se muito, trabalhava-se pouco e
se divertia um montão. Cada vez que um colega fazia uma trabalha bacana, todos
vibrávamos porque era fruto de nossa profissão e todos ganhavam com o
reconhecimento que aquele profissional recebia merecidamente. Comecei a pegar
bode da propaganda quando esse clima mudou radicalmente e virou uma competição
imbecil na qual o medíocre que dorme na agência tem tanto valor quanto um
criador excepcional. Se bem que não sei se ainda existe criadores excepcionais.
By the way, sai do negócio na hora certa e faço o que acho certo para a minha
vida. Talvez por isso aquela frase lá de cima não me deixou cabreiro, mas feliz
em saber que fiz as escolhas certas.
Wander Levy
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